Da mesma forma, no inverno de 1973, uma história sem nenhuma confirmação era publicada pelo Notícias Populares e levantava reações inesperadas do público. O caso nasceu em 13 de junho, com a manchete VAMPIRO DE OSASCO MATA E BEBE SANGUE DE ONZE CACHORROS. De acordo com o jornal, um operário havia alertado a polícia sobre a morte de seu cão, encontrado sem uma gota de sangue. Outros moradores da região metropolitana teriam dito o mesmo. Depois de três dias, o bicho voltaria a atacar, matando mais quatro cachorros. Pronto: as crianças não brincavam mais na rua, os operários voltavam para casa mais cedo, ninguém andava sozinho à noite. Com a população acreditando na história, a lenda do Vampiro de Osasco seria explorada por pelo menos mais meia dúzia de edições. O NP publicava os relatos assustados dos moradores e especulava sobre a aparência do monstro. Ele não assumia a forma de um Conde Drácula moderno, mas sim um animal peludo, com caninos afiados e orelhas grandes – uma espécie de avô do chupacabras.
Se criar o bicho foi fácil, matá-lo foi uma tarefa complicadíssima. Os moradores do Jardim Helena Maria, bairro humilde onde teriam ocorrido os ataques, confiavam cegamente na história publicada pelo jornal. Quem não acreditava tentava esconder o receio de sair à noite pelas ruas frias e vazias de Osasco. A primeira tentativa de dizimar o bicho foi planejada em 20 de junho de 1973, uma semana depois da primeira aparição do vampiro. Um delegado da cidade convenceu o diretor do Zoológico de São Paulo a emprestar à polícia a única jaguatirica existente no parque, que foi colocada em um camburão. De sirenes ligadas, a viatura percorreu as principais ruas de Osasco, com o delegado anunciando que o tal vampiro era, na verdade, uma jaguatirica solta pela cidade. Em seguida, veio uma armação: um filme que mostrava o felino ser retirado do veículo e morto pelos tiros dos policiais em praça pública. A cena foi exibida em cinemas, clubes e escolas. Para desespero da polícia, ninguém acreditou. O tumulto na cidade persistia – e aumentou depois de uma tentativa de estupro creditada – sim – ao Vampiro de Osasco.
A solução foi recorrer a outro personagem do além, igualmente famoso entre a população humilde. Zé do Caixão, célebre criação do cineasta José Mojica Marins, aparecia com certa freqüência nas páginas do Notícias Populares. Mojica acreditava que o NP era o melhor veículo para promover suas nada convencionais empreitadas cinematográficas. Procurado pelo repórter Nelson Delbino, topou o desafio de “acabar” com o Vampiro de Osasco e conter o pânico que se espalhava pela cidade. Zé do Caixão tinha experiência em casos como esse: anos antes, nas próprias páginas do Notícias Populares, já conseguiria acalmar os ânimos dos moradores de Amparo, interior de São Paulo, aterrorizados com a existência de uma casa supostamente mal-assombrada.
Oficialmente incumbidos da missão pelo jornal, Mojica e seu grupo seguiram rumo a Osasco em 22 de junho de 1973. Invadiram o cemitério e fizeram dezenas de fotos para serem usadas na “investigação”. Dois dias depois, a manchete do NP era ZÉ DO CAIXÃO DESAFIA VAMPIRO DE OSASCO. Uma procissão liderada pelo personagem de Mojica teria expulsado o vampiro da cidade. “O Vampiro de Osasco não existe! O único Drácula brasileiro sou eu, e eu não sou doido de beber sangue; bebo vinho, e do bom!”, dizia Zé do Caixão. A conclusão do sobrenatural detetive, revelada em reportagem do dia seguinte, era a de que engraçadinhos estavam usando dentaduras de vampiro – daquelas vistas em matinês carnavalescas – para apavorar a cidade. Mojica jura ter localizado o autor da primeira brincadeira, e, dedo em riste, ameaçado rogar uma de suas famosas pragas caso as gracinhas continuassem.
Verdade ou não, o fato é que, com o método improvisado, a história acabou mesmo morrendo. Ficou apenas a prova da enorme influência do Notícias Populares entre o público de São Paulo – além, claro, de mais um sinal de confiança do leitor no jornal. A redação, porém, não tirou grandes lições do episódio. Foi então que, em 1975, aconteceu o parto mais famoso do jornalismo brasileiro.
Trecho retirado do livro “Nada Mais Que a Verdade- A Extraordinária História do Jornal Notícias Populares” de autoria de Celso Campos Júnior, Denis Moreira, Giancarlo Leopiani e Maik Rene Lima, Carrenho Editorial, publicado originalmente em 2002.

finalmente estou comentando no seu blog!
ResponderExcluirri muito lendo esse caso bizarrrrrro! é a sua cara ..... nao que vc seja bizarrrrro mas ... ah vc entendeu neh ! bjos da ana
14 anos depois eu : kkkjjj
ExcluirO fato da Casa Assombrada não é em Amparo e sim em Osasco...ele passou a noite na Casa e depois filmaram nela. só nao lembro o nome do filme.talves seja algum de Alem, muito alem do alem, ou O Estranho mundo do Zé do caixao ou algum outro programa.Adoraria saber se existe ainda esse documentario pois gostaria de ver.
ResponderExcluirGostei do Vampiro de Osasco, é coisa de outro mundo...do estranho mundo do Zé do Caixão!!!!Muito bom mesmo!
ResponderExcluirAlguem sabe me informar se ainda existe os programas cidade contra cidade que Zé do caixão participou?
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