quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

José Mojica Marins (1936-2020)



Um vazio. O ruim de ter amigos mais velhos é este sentimento que se repete com assiduidade. Agora foi o ator e cineasta José Mojica Marins, o Zé do Caixão. Dos galinheiros da Vila Anastácio a estima dos críticos europeus. Do velho Cine Santo Estevão passando pela Boca até a consagração internacional. Mojica foi punk antes dos punks, um genuíno autodidata do cinema brasileiro. Da velha Galeria Boulevard na Dom José de Barros ficaram poucos. Morreu quase todo mundo. Ali foi minha escola de onde embalou diversos sonhos meus. Não realizei nem a metade. Mas os sonhos e as loucuras que nos movem. Mojica tem seu mérito: criou o personagem mais popular da história do cinema brasileiro. Não é pouco. Meus sinceros sentimentos a Liz, ao Crounel, a Nilsinha e todos os familiares. Mojica foi um gigante. Será lembrado sempre.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

Carlos Reichenbach escreve sobre O Bandido da Luz Vermelha


 MEMÓRIAS DO BANDIDO


A estreia de Rogério Sganzerla na direção de um longa numa crítica escrita há 28 anos

A primeira cópia de O Bandido da Luz Vermelha, recém-saída do laboratório, foi projetada numa sessão privada na cabine da empresa Sul Paulista. Estavam presentes, além do diretor e do produtor, a atriz Julie Dassin (filha do diretor Jules Dassin), o crítico e cineasta Maurício Rittner, e o trio da extinta Xanadú Produções Cinematográficas: Antônio Lima, João Callegaro e este aqui que escreve. Lembro que o impacto do filme foi tão grande que saímos da projeção completamente atordoados.

Rogério Sganzerla já havia realizado um curta-metragem em 16 milímetros, Documentário, onde dois caras perambulam pelo centro de São Paulo em busca de um bom filme para assistir. Um devaneio gordardiano que prenunciava um talento fulminante.

Passei o domingo escrevendo um longo texto sobre o Bandido, que n~]ao foi publicado no “Suplemento Literário” de O Estado de São Paulo na semana seguinte por problemas com o editor. Teria sido a primeira análise  mais profunda sobre o filme. Jairo Ferreira chegou a publicar parte do texto em Cinema de Invenção, anos depois. Revisei alguns trechos para reproduzi-los abaixo sem tentar minimizar o impacto que o originou.

“O Luz faz com que Rogério se aproxime de Glauber como nenhum outro cineasta ousou antes (um Glauber do asfalto?). Barroco, excessivo, delirante, o Luiz é um filme tão deflagrador quanto Deus e o Diabo na Terra do Sol. Há uma multiplicidade tão grande de elementos a ser decodificados em cada plano que nos obriga a assistir o filme várias vezes. Cada fotograma é tão rico quanto o próximo. O Luiz é um filme que deveria ser visto na íntegra de sua realização, com starts, claquetes, pontas brancas e pretas, mesmo que atingisse muitas horas de projeção. Sei de muita coisa quer ficou na sala de montagem e que seria precioso recuperar. Um plano-sequencia tomado ao acaso, por exemplo: o Luz assistindo Marrakesh, uma produção B vagabunda. Travelling sobre a plateia: um casal se beija de língua indiferentes ao filme; um mulato limpa o nariz; um rapaz paquera Paula Ramos (a estrela de Mojica Marins), ela se muda de lugar incomodada; o próprio diretor assiste ao filme, olhos presos ao écran, enquanto Reichenbach ronca ao seu lado; atrás, Antônio Lima leva uma cantada de Júlio Calasso Júnior.; á frente dos dois, Paulo Villaça, o Luz mastiga uma indigesta espiga de milho, cujas sobras cospe no banco da frente, enquanto assiste ao péssimo filme colonialista de binóculos. O cinema surge na trama como esconderijo ideal do perigoso bandido. Há uma estranha confraternização no reduto do sonho, onde cada ser solitário e desesperado tem coisas a esconder, e se escondem no espaço livre da sala escura e mágica. O cinema em O Bandido é o porto livre dos desajustados sociais. É na porta de um cinema que se inicia a derrocada do Luz. Como o galã do faroeste que está anunciando na frente do “poeira” cine Oásis, o Luz se descobre na foto de primeira página de um jornal sensacionalista exposta na banca de jornais da praça Júlio Mesquita. O Luz é um personagem trágico, assim como a Boca do Lixo e a organização criminosa Mão Negra. Eles se confundem e se alimentam uns dos outros. O Luz é introduzido na trama como num faroeste. Filho da favela, sobre o aprendizado imposto pelo meio social de berço. É a lei do cão, nascendo das páginas do Arqueiro Verde e das balas de uma 38 cano longo. O Luz jamais será um tímido Robin Hood dos pobres. Sua sina está prenunciada pela fumaça do disparo de uma arma nos quadrinhos de um exemplar do Cavaleiro Negro. Num dos mais belos planos, meninas de rua empunham armas de brinquedo e de verdade em meio ao Lixão da Vila Maria, enquanto devoram gibis violentos e um velho número do Eu Sei Tudo.

Luiz Linhares (o melhor ator do Brasil) é o delegado Cabeção, ocupado com a morte e sobrevivendo dela. Luz e Cabeção acabam morrendo juintos, um sobre outro, faces distintas da mesma moeda, figuras do baralho. Rogério não deixa por menos: presta-lhes uma homenagem à altura. Um coro fúnebre: samba e o sangue.

Pagano Sobrinho (soberbo) é J.B. da Silva, o político salafrário, corrupto e demagógico, imenso e magistral em sua opulenta carreira de representante popular. Considerado oficialmente o cabeça da organização Mão Negra, tudo faz para atender tão algo encargo. Roberto Luna é um Lucho Gatica, afilhado artístico de J.B., um misto de rufião elegante e puxa-saco descarado. No meio do filme é inserido um número musical, à moda das melhores chanchadas, com Lucho interpretando “Saber a Mi”, enquanto J.B. distribui “santinhos” e “cabrais” para a plateia ensandecida. Outra sequencia primorosa entre tantas de O Bandido. Há ainda a presença insinuante de Martin Bormann, o carrasco nazista refugiado na América Latina, evidenciando os verdadeiros anseios da Mão Negra. Finalmente, no universo masculino e sórdido do poder e do crime surge Helena Ignez, a Janet Jane, a amante e algoz do luz, que irá deixar o marginal a zero e denuncia-lo à polícia. Como nos filmes de Hawks, a mulheres surge no universo masculino para desestruturar o equilíbrio aparente da convivência social. Não é por menos que Documentário termina indicando Hatari! como um óasis do cinema.

O Luz é também um musical espetacularmente enrustido. Uma seleção bem ao gosto do Telefone Pedindo Bis (memorável programa de Moraes Sarmento na rádio Bandeirantes).

Toda a nossa tradição contida em uma mal comportada colagem de boleros, guarânias, xotes e sambas suburbanos. O tema central é o clássico “Vereda Tropical”, ornamentando a epopeia marginal narrada em galopante ritmo de seriado na voz rascante e populista de Hélio de Aguiar.

O Bandido da Luz Vermelha deveria ser exibido em sessões contínuas e ininterruptas no cine Arizona em São Paulo e do Cineac Trianon no Riuo de Janeiro. Num mesmo filme: um documentário, vários trailers, um seriado empolgante, um short institucional e dois filmes de ficção. Um sobre o nascimento, vida, paixão e morte de um bandido pé-de-chinelo (tem momentos do Bandido que lembra e muito o “clássico” Mártir do Calvário), e outro sobre a misteriosa organização Mão Negra às voltas com a marginalia e o poder mambembe de uma metrópole do terceiro mundo. Um filme extraordinário e à parte no cinema brasileiro e uma obra única na seara cinematográfica mundial. O cinema entendido não como literatura ou teatro filmados, mas como uma linguagem própria, nascida da paixão, compreensão e prospecção do meio de expressão em questão: o cinema.”

Publicado originalmente na revista “Cinema”, número zero, março/abril de 1996.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

Conheça a fantástica história de Anita Ramos, a primeira mulher crítica de cinema de São Paulo nos anos 1930

Anita Ramos, uma pioneira da crítica paulista


Por Maria do Carmo Fernandes

Na década de 30, quando o cinema sonoro ensaiava os seus primeiros passos e os primeiros cômicos do cinema mudo, á exceção de Charles Chaplin, começavam a entrar em decadência, a jovem Anita Ramos chegava em São Paulo, disposta a ser jornalista. Em uma época em que era raro uma mulher conseguir projetar-se na profissão, Anita foi além de sua meta inicial: tornou-se crítica de cinema. Por seu pioneirismo, a Associação Paulista de Críticos de Arte – APCA – decidiu homenageá-la, conferindo-lhe o grande prêmio da crítica. Anita Ramos recebeu com surpresa a notícia. Pensava que já havia sido esquecida. Há muito abandonou a carreira para se dedicar ao marido, o jornalista Oswaldo Moles, falecido em 1967. De lá para cá, nunca mais escreveu nem se preocupou em guardar seus trabalhos, dos quais só conserva uma vaga lembrança.



Quando Anita chegou em São Paulo, em 1935, surpreendeu-se com a efervescência da cidade. A cidade de Franca era pacata e até “monótona”, segundo ela, razão pela qual decidiu morar na Capital. Aqui existia a possibilidade de tornar-se jornalista e, aproveitando a mudança da irmã para cá, resolveu tentar a carreira. Enquanto sua irmã fazia o curso de educação, ela se aventurava pela redação dos jornais em busca de trabalho. Na época, o Correio Paulistano havia sido reaberto, depois dos acontecimentos de 1930, quando vários jornais da situação foram invadidos, depredados e incendiados. E para lá Anita foi, com uma condição: “A senhora fica em experiência por 20 dias, se servir, fica; se não, rua”, sentenciou o redator-chefe, Machado Florence. A incumbência que lhe deu foi de fazer a página feminina, que na época somente era publicada em O Jornal do Rio de Janeiro. “Era a primeira página de um jornal paulista dedicada à mulher e eu só tinha como referência O Jornal. Nova, sem experiência jornalística, fui fazendo por minha conta em risco”, conta Anita. Além da página, fazia o “espelho”, espaço pago pelos exibidores interessados em divulgar os filmes em cartaz nos cinemas. E ela lembra que percorria a rua Aurora e a rua do Triunfo, em busca de anúncios, sobre os quais tinha uma comissão. Daí para a crítica foi um passo. Muito observadora e com “uma memória excelente”, sempre dava destaque para o melhor trabalho, ressaltava detalhes importantes do filme, despercebidos pelo público, falava do enredo e comentava as melhores atuações. “Eu não tinha um método de análise, era muito intuitiva. Dificilmente errava quando dizia que um filme seria premiado”, relembra Anita.

Anita Ramos se considera tímida e frequentou pouco o ambiente artístico. Raros foram os contatos com os críticos e artistas: conheceu os exibidores. Apesar disso, acompanhou a ascensão do império hollywoodiano naquele tempo, os filmes de Joseph von Sternberg, as comédias refinadas de Ernest Lubitsch, os filmes da depressão norte-americana de Frank Capra eram projetados nas telas dos principais cinemas da cidade. Greta Garbo e Marlene Dietrich já eram estrelas famosas. Gary Cooper, Clark Gable, faziam o público delirar. No Brasil, o cinema ainda engatinhava e por isso Anita se concentrava mais em críticas de filmes estrangeiros. Humberto Mauro era o maior cineasta e a Cinédia, com suas comédias musicais e chanchadas, descobria Grande Othelo.

O compositor, escritor, jornalista, radialista e roteirista Oswaldo Moles (1913-1967), marido de Anita autografando seu livro em 1963. Foto retirada do blog Baú do Maga
Com a mudança da direção do Correio Paulistano, Anita foi despedida. A nova direção trouxe um novo quadro de redatores para o jornal. Ela não desanimou e, por intermédio de um amigo, foi para o Diário da Noite. Cansada da instabilidade, foi trabalhar no DIP – Departamento de Imprensa e Propaganda -, já na década de 40. “O DIP era visto com maus olhos pelos intelectuais, mas lá eu era funcionária do governo e tinha estabilidade. Além do mais, o ambiente era ótimo, haviam pessoas de alto gabarito, como o poeta Péricles Pimentel, o historiador Hernani Silva Bruno, dos quais eu fiquei muito amiga”. Já no final do Estado Novo, o DIP foi fechado. A gota d’água foi a entrevista do líder político José Américo de Almeida ao Correio Paulistano. Com o fechamento do órgão, Anita foi transferida para a Secretaria da Fazenda. Lá, recortava e selecionava artigos  de jornais, mas o serviço era “extremamente monótono”. Desiludida com a profissão, resolve se dedicar ao casamento e estimular a carreira do marido. Uma decisão que foi definitiva e encerrou por completo o sonho de ser jornalista.


Anita Ramos em sua juventude
Atualmente mora num sobrado no Alto de Pinheiros, rodeado de muitas plantas e flores, com suas duas irmãs, Ruth e Sara. Dos ídolos do passado, admira principalmente Clark Gable, James Stuart e Rita Hayworth. Os diretores que mais a marcaram foram Cecil B. de Mille, David Griffith e Billy Wilder. Dos diretores de hoje tem especial admiração por Cacá Diegues, Ruy Guerra e Bruno Barreto. Na literatura considera Monteiro Lobato como um dos melhores escritores brasileiros: “’Urupês’ é magnífico”. Ainda no DIP, ajudou-o a trazer o JB, jornal que pertencia a Lobato e circulava no interior. “Ele era um grande amigo, muito espirituoso e talentoso. Era também ótimo pintor”. Retém-se por momento para relembrar São Paulo do passado: “Eu morava em uma pensão na avenida São Luís e ia muito ao cinema, quase sempre sozinha. Voltava muitas vezes á meia-noite e nunca me passou pela cabeça ser assaltada. No máximo, o que acontecia era ouvir gracejos”. E concluí: “Naquele tempo, a vida da gente era mais despreocupada”. Apesar das mudanças ocorridas na cidade, não pretende sair de São Paulo: “Se eu voltasse, por exemplo, para a minha cidade, eu não teria a variedade de opções que encontro aqui”.

Anita Ramos nunca frequentou uma universidade. Autodidata, aprendeu com os livros que leu: “Sempre li muito”. Possui uma cultura geral, um vasto mosaico, pouco profundo. Suas observações são geralmente vagas e amenas, são se preocupando em precisar datas da época em que trabalhou. Não conta sua idade. “A idade não importa, só lhe dou uma pista: tenho entre 70 e 80 anos”. Hoje, vai pouco ao cinema e na televisão assiste a filmes raramente: “Não gosto de filme dublado. Assisto mais ás novelas e aos noticiários”. Suas maiores paixões são os livros e a música. Simples, confessa que gosta muito de rezar e cultivar flores.

Publicado originalmente no “O Estado de São Paulo” em 30 de janeiro de 1983.


Anita Ramos foi casada com o compositor, escritor, jornalista, radialista e roteirista Oswaldo Moles (1913-1967). Ele recebeu uma homenagem numa pequena rua no bairro da Vila Leopoldina, zona Oeste de São Paulo. Foto de Matheus Trunk

sábado, 25 de janeiro de 2020

Participação no programa "CBN Noite Total" da rádio CBN







Hoje eu e o amigo Virgílio Roveda, o Gaúcho participamos da gravação do programa CBN Noite Total da apresentadora TAnia Morales na rádio CBN falando do livro e do filme “O Coringa do Cinema”. Deve entrar no ar semana que vem. Foi uma hora falando de histórias de Boca, Mazzaropi, Mojica, Candeias, cinema brasileiro. Agradecimento especial a Tânia, ao Vinicius da produção e todo pessoal da CBN que foram atenciosos e educadíssimos conosco.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

Memórias de Setorista da Boca XV (e final): Cláudio Cunha





Rua das Palmeiras, bairro de Santa Cecília, centro de São Paulo. Toda vez que passo por lá eu lembro de um certo sujeito. Um camarada sorridente, alto e magricelo. Algumas vezes ele usava barba e as vezes não. Ele foi um dos sujeitos mais subestimados da história cinematográfica do Brasil. Estive no apartamento dele umas duas ou três vezes. O prédio continua lá: velho e caindo aos pedaços. O edifício é bem próximo ao antigo Lord Hotel e da Paróquia de Santa Cecília. É uma igreja bonita com quadros de Benedito Calixto e Oscar Pereira da Silva, dois nomes sagrados da pintura paulista do século XIX.



Mas esse amigo marcou época. Ele foi um diretor ambicioso, inventivo e talentosíssimo. Foi um dos nomes sagrados da Boca paulista. Tanto que se tornou produtor de renome na Triunfo e teve uma briga com os monstros sagrados da família real da Embrafilme. Por outro lado, esse realizador não soube acumular dinheiro por conta dos seus sucessos de bilheteria. Casou diversas vezes com algumas das mulheres mais desejadas do país. Talvez ele também não soube se colocar como figura séria. Eles levam mais a figura do personagem que ele interpretou no teatro durante décadas: o Analista de Bagé. Mas ele foi muito mais que isso.



Ele foi registrado como Cláudio Francisco Cunha. Isso porque a mãe dele era devota de São Francisco de Assis. Parece que a mãe do Cláudio saiu de uma igreja no mesmo momento conheceu o pai dele que se chamava Horácio. Cláudio morou na sua infância e durante seus primeiros anos no bairro da Vila Guilherme, zona norte de São Paulo. Ele me contou que seu avô tinha uma amante muito querida por ele. O Cláudio chamava a namorada do avô de avó. Parece coisa de filme.



Quando o avô dele ia ver a amante ou alguma garota Cláudio ficava no Cinespacial, uma sala de cinema que ficava na Praça da Sé. Foi lá que o então garotinho viu as chanchadas da Atlântida e os seriados norte-americanos. Cláudio Cunha tinha preferência por cômicos nacionais como Dercy Gonçalves, Zé Trindade e Oscarito. Entre os estrangeiros sua preferência era Mel Brooks. Ele também decorava as crônicas do “Febeapá”, um verdadeiro bestseller da época do imortal Stanislaw Ponte Preta. Ele contava as piadas e as peças do livro nas festinhas do seu bairro, a Vila Guilherme. Foi daí que começou a gostar de humorismo e depois começou a ser figurante na TV Excelsior. Sua sorte começou a mudar quando estrelou a novela “Meu Pedacinho de Chão”. Ali foi sua primeira grande tacada, um verdadeiro sucesso nacional. A atração era passada na TV Globo e depois começou a ser reprisada simultaneamente na TV Cultura de São Paulo. “Eles passavam a novela quatro vezes no mesmo dia. Dá pra acreditar?”, me contava o Cláudio. O seu personagem chama-se Isidoro e fazia dupla cômica com Canarinho que fazia o malandro Rodapé.



Cláudio sempre teve o mesmo tipo físico: branquelo, grandalhão, desajeito, magricela. O baixinho Canarinho foi o primeiro negro da TV brasileira e é mais lembrado por ser coadjuvante na “Praça É Nossa” do SBT. Os dois tornaram-se marcas registradas da atração. Cláudio era o grandalhão bobo feito de idiota pelo baixinho inteligente Canarinho. Os personagens dos dois acabou crescendo muito mais que o previsto. O autor Benedito Ruy Barbosa teve que desdobrar-se para aumentar a dupla cômica de “Meu Pedacinho de Chão”. Canarinho tornou-se uma espécie de amuleto de Cláudio Cunha. O baixinho esteve presente em todos os filmes dirigidos pelo realizador menos no último. “Meu Pedacinho de Chão” é um elemento fundamental da obra do diretor da Vila Guilherme. Isso porque foi ali que ele teve contato com pessoas que seriam fundamentais na sua carreira de cinema: Canarinho, Dionísio de Azevedo, Maurício do Valle e o próprio autor Benedito Ruy Barbosa. O autor mineiro fez o roteiro de três longas-metragens de Cunha: “O Dia Em que o Santo Pecou” (1975), “Amada Amante” (1978) e “Sábado Alucinante” (1979). Eles foram muito próximos mas depois se afastaram. Essa é uma história bem pessoal deles. Sei de algumas coisas que o Cláudio me contou. Tinha tanta coisa para falar desse cineasta dedicado e talentoso de tantos sucessos de bilheteria. Se fosse escrever os dez melhores diretores da Boca o nome do Cláudio estaria lá. Cláudio Cunha é muito mais que o cara engraçado que correu o Brasil com as peças do Analista de Bagé. Seu nome está perpetuado na galeria de ilustres subestimados da história do cinema, do humorismo e da TV brasileira. Grande cara.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

Memórias do setorista da Boca XIV: José Lopes, o Índio


Ele fumava um cachimbo doce. E gostava de máquinas de jogos de azar. Para jogar nessas maquininhas muitas vezes ele ia no fundo dos botecos escabrosos. A verdade é que José Lopes, o Índio, tinha verdadeira adoração por seu cabelo. “Era nele que as moças passavam as mãos”, dizia sorrindo. Sua carreira floresceu durante todo o período da Boca do cinema paulista: início, apogeu e decadência. Foi ator de centenas de produções Seu maior amigo dentro do campo cinematográfico parece mesmo ter sido o ator, cineasta e produtor Tony Vieira (1938-1990). Mineiro de nascimento, Tony trabalhou em circos e com luta livre antes de entrar na área cinematográfica. Mas chegou ao estrelado fazendo faroestes e policiais eróticos de baixo orçamento na rua do Triunfo. Índio esteve ao seu lado em todos os momentos desde o começo até o final. Foi uma amizade verdadeira e profunda. Era comovente ver o Índio lembrando-se das aventuras e desventuras que os dois fizeram juntos. “Fazia um sucesso danado. A verdade é que no Nordeste o Tony Vieira era o rei do cinema como o Roberto Carlos”.

Baiano de nascimento, Lopes trabalhou na TV Excelsior, fez diversos comerciais e chegou a trabalhar até em novelas da Globo. Sempre que precisavam de um apache, tupinambá, caingangue, guarani, xavante, todos os tipos de etnias chamavam ele. Esteve em diferentes películas como “O Bandido da Luz Vermelha” de Rogério Sganzerla, “Iracema- A Virgem dos Lábios de Mel” de Carlos Coimbra, “O Inseto do Amor” de Fauzi Mansur, “Pedro Bó, o Caçador de Cangaceiros” de Mozael Silveira, “A Opção: Rosas da Estrada” de Ozualdo Candeias, “Horas Fatais: Trocas de Cabeças” de Francisco Cavalcanti e Clery Cunha, “O Homem Sem Terra” do mesmo Francisco Cavalcanti, entre muitos outros. Em algumas produções o Índio também dirigiu efeitos especiais para explosões, lutas, coisas assim. Tudo de maneira apaixonada dentro daquele universo da Boca paulista. Após a chegada do sexo explícito, Índio prosseguiu trabalhando em cinema e fazendo seus comerciais. Ninguém vai conseguir ser como ele. Aliás, só José Lopes foi o verdadeiro Índio. Na acepção da palavra.

terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Memórias do setorista da Boca XIII: Luiz Gonzaga dos Santos




Ele parecia o Dom Quixote. Baixo, tagarela, cabelos brancos ao vento. Quando fazia frio colocava uma boina. Tinha o vocabulário enxuto e gostava de posar de intelectual. Sempre foi de esquerda e polêmico. Se o Gaúcho gostasse do amarelo ele gostava do vermelho. Mas sempre discutiam. Eram velhos amigos e tudo era muito engraçado. Quando ele aparecia no escritório do Montana era genial. Gonzaga dizia que Montana era “rústico”. Montana dizia que Gonzaga era “doido”. Luiz Gonzaga dos Santos era um daqueles intelectuais de periferia. Dizia que seu “bunker” era em Artur Alvim, zona leste de São Paulo. Quando conheci o Gonzaga foi uma espécie de amor a primeira vista. Ficamos muito próximos, nos adotamos. Ele foi meu avô e eu seu neto. Quando andávamos juntos, era muito engraçado: “Ele é seu avô?”. “Não”. “Ele é seu pai?”. “Não”. “Ele é o que seu?”. “Amigo”. Eu sempre ia na casa dele. Ou inventava alguma pauta ou assunto para ir. Todo mês dava uma passada. Gonzaga tinha um daqueles celulares vagabundos mas ele não chamava aquilo de celular. Ele chamava de “livre”. “Você ligou no meu livre e não atendi”. Ele me chamava de jovem Matheus, meu jovem.


Gonzaga dirigiu dois filmes. O primeiro era baseado num conto do Marcos Rey chamado “Mustang Cor de Sangue”. Os produtores preferiram outro título: “Patty, a Mulher Proibida”. Tudo para chamar público. Gonzaga odiava os produtores. Trinta anos depois Gonzaga continuava chamando o filme de “Mustang”. Já “Anúncio de Jornal” era um filme mais pessoal e produzido por ele mesmo. Mas foi um fracasso porque foi lançado na época do explícito. Gonzaga odiava o explícito, achava que isso não era cinema, que ofendia as crianças, umas coisas dele. Depois trabalhou com vendas de uns produtos estranhos ou sei lá o quê. Mas sempre tentando voltar ao cinema. Lógico que nunca conseguiu. Projetos não faltavam. Tinha vários e fazia uns discursos que nunca acabavam. Parecia o Fidel Castro discursando.


Gonzaga vinha tendo uns problemas de memória até ser internado num asilo de velhos. Estou tomando coragem para visita-lo ou nunca irei. Lembro que uma vez ele foi num supermercado fazer uma espécie de cartão fidelidade. Perguntaram a profissão. Ele disse: “Cineasta”. Deram risada da cara dele. Saudade Luiz.