segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Um caipira no cinema

Você acha que só os mocinhos de Hollywood levam multidões ao cinema? Enganou-se. Aqui no Brasil, durante as décadas de 50, 60 e 70, as pessoas entravam na fila para ver um caipira em cena. Isso mesmo, um caipira! Daquele que fala cantado, nunca calçou um sapato na vida e anda sempre com um matinho na boca.



Se você duvida que alguém pagaria ingresso pra ver um cara desses é porque nunca assistiu a um filme do Mazzaropi. Fique sabendo que ele quase matou muita gente de rir com suas 32 comédias, sempre fazendo um caipira simplório e preguiçoso, que era inspirado no personagem Jeca Tatu, criado pelo escritor Monteiro Lobato.



Quer saber o que ele tinha de engraçado? Tudo. O jeito desengonçado de andar, de falar e de se vestir. Ás vezes, Mazzaropi nem precisava abrir a boca para fazer rir. Era só aparecer na tela que começavam às gargalhadas.



Não era à toa que as roletas dos cinemas brasileiros giravam feito loucas quando um de seus filmes entrava em cartaz. Muitas vezes, fazendo mais sucesso do que as superproduções de Hollywood.



Publicado originalmente em Sousa, Maurício. Manual de roça do Chico Bento. São Paulo: Globo, 2001.

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

O JECA TORNOU NOSSO MAZZAROPI IMORTAL (revista Som do Sertão, 1981)



Circo, rádio, televisão e cinema: tudo isso ele fez com brilho e mereceu os elogios da crítica. De norte a sul, o Brasil inteiro vibrou com o seu Jeca.

O JECA TORNOU NOSSO MAZZAROPI IMORTAL



Quem o conheceu não vai esquece-lo jamais: era a imagem viva do nosso caipira. Mas mesmo as novas gerações aprenderão a amá-lo vendo os filmes que deixou.

Reportagem de Ézio Ribeiro

O segundo domingo do mês de junho, deste ano, dia 14, foi uma data triste para o Brasil inteiro: o corpo do comediante Amácio Mazzaropi estava sendo velado no Hospital Albert Einstein, em SP. Mazzaropi, como todos o conheciam, faleceu vítima de câncer na medula, aos 69 anos de idade.

Mas, como havia feito durante toda a sua vida, até a morte do comediante trouxe em seu bojo alegria misturada à tristeza: seus fãs, emocionados, puderam ver que só morreu a criatura e não o criador. Sua criação, a figura do Jeca, mais que nunca se tornou viva e, ele, imortal.

Como e quando o Jeca nasceu

Nascido em São Paulo, em 1912, Mazzaropi cresceu sem problemas. Estudou um pouco, mas a preguiça o impediu que terminasse o ginásio. E aos 15 anos, de tanto assistir peças caipiras no teatro – ele tinha fascínio pela dupla de atores Genésio e Sebastião de Arruda -, acabou indo parar nos bastidores. Então, sem que ele mesmo tenha sabido explicar o como e o porquê, acabou trabalhando no teatro, como pintor de cenários.

Isso foi só o comecinho: logo logo Mazzaropi trocava o pincel por roupas à moda caipira e ia para o interior, onde representava monólogos cômico-dramáticos. O sucesso foi imediato: ele fazia o público rir na mesma medida em que o fazia chorar. Mas o que ganhava – 25 mil réis por apresentação – mal dava para pagar as despesas de comida e estadia...

Mas a sorte estava do seu lado. Tão logo formou sua companhia, começou a ficar conhecido e a ganhar mais: não havia circo que não quisesse ter um show com Mazzaropi. E, daí para o rádio (a Tupi, SP, em 1946) e para a TV (o canal 6, no Rio, em 1950) foi um pulo.

O cinema veio em seguida, em 1952, como conclusão lógica do seu excelente trabalho. Abílio Pereira de Almeida, autor de peças para o Teatro Brasileiro de Comédia, ficou deslumbrado quando o viu num programa de televisão. Chamou-o para um teste e uma semana depois dirigia Mazzaropi em “Sai da Frente”, seu filme de estreia.

Foi com este filme que o Jeca nasceu: ele criou um tipo caipira, caboclão de roupas sujas e curtas, fala mansa e andar desajeitado, que passou a ser sua marca registrada pela vida afora.


O Carlitos brasileiro

Em 18 de carreira Mazzaropi fez 31 filmes e chegou a uma situação privilegiada dentro do cinema brasileiro.

Os cinemas, principalmente no interior, lotaram sempre que seu nome era anunciado.

O público sabia que, além do Jeca, ele era capaz de interpretar com perfeição tipos humanos com os quais a gente convive todos os dias: são magistrais suas interpretações de um patrão, de um motorista ou até mesmo de um milionário.

Querido pelo povo, a frase de um espectador ouvida quando da pré-estreia de “Uma Pistola Para Djeca” (este filme é de 1970 e marcou o Jubileu de Prata – 25 anos – de Mazzaropi como ator) dá bem a ideia de seu talento “-Ele é o Carlitos brasileiro!”. Talento que jamais será esquecido por quem o viu nos cinemas. E que continuará a ser prestigiado sempre que seus filmes voltarem às salas de exibição.



COMO FICA O CINEMA DE MAZZAROPI

Os fãs de Mazzaropi sabem que, já doente, ele escreveu outro roteiro e chegou a mandar construir os cenários de Maria Tomba Homem, o filme que tencionava fazer. A partir de sua perda, todos perguntam: qual o destino de sua obra? Com quem ficou a PAM Filmes, a empresa com a qual o comediante se tornou independente?

SERTÃO tem boas notícias sobre o assunto: a PAM hoje pertence a Péricles Moreira e a João Batista de Souza, filhos adotivos do comediante. E Péricles já decidiu continuar o trabalho do pai: “Nós vamos filmar. Para viver o personagem estamos buscando uma dupla caipira. Porque não queremos substituir Mazzaropi: ele foi e será único! Mas vamos dar continuidade ao que ele começou: temos uma produtora nas mãos, com tudo funcionando perfeitamente: estúdios, máquinas, filmes virgens e um legado de 24 produções de Mazzaropi que rendem o suficiente para mantermos tudo aberto, funcionando normalmente. A PAM não vai deixar de existir: ela tem que preservar a história e tudo que ele conseguiu conquistar em 34 anos que dedicou ao cinema”.

Além dos filhos adotivos, os antigos funcionários de Mazzaropi também tem uma pequena parcela na produtora e distribuidora: ele deixou em testamento para eles. O restante de sua fortuna – ele morreu rico – ficou para sua mãe, D. Clara Ferreira Mazzaropi, hoje com 90 anos de idade. Numa coisa todos concordam: “Mazzaropi se foi e deixou uma grande herança, que são seus filmes. Nós vamos procurar manter sua imagem viva enquanto for possível”.

Publicado originalmente na revista “Som do Sertão”, edição especial de Contigo, número 348-A, editora Abril.

domingo, 1 de setembro de 2019

Livro conta trajetória de Zilda Mayo



A Rachel Welsh de Araraquara também ganhou sua biografia. Zilda Mayo Para Os Íntimos escrita pelo jornalista Luís Zakaib foi publicada pela editora Laços. Foram feitos lançamentos em São Paulo e em Araraquara, interior de São Paulo e terra natal da atriz. A obra investiga a trajetória pessoal e profissional de uma das mais celebradas musas do cinema paulistano. Repleto de fotos, o livro ganhou uma edição bastante completa e interessante. Ainda não li inteiro, mas quando fizer colocarei minhas impressões aqui. Os interessados podem comprar o livro pelo site oficial da Editora Laços: www.editoralacos.com.br

sexta-feira, 30 de agosto de 2019

Claretiana FM - Entrevista sobre o Filme "O CORINGA DO CINEMA"

A obra versa sobre o cineasta Virgílio Roveda, diretor de fotografia que começou sua carreira pelos idos dos anos 60, com José Mojica Marins, com quem manteve – e mantém até hoje – estreita relação profissional e de amizade. Também Roveda, conhecido nos meios cinematográficos como “Gaúcho”, fez quase 10 filmes com Mazzaropi, ou como assistente ou como operador de câmara, entre outros feitos profissionais. A produção do longa é da Mamute Filmes, para direção de Sérgio Kieling e fotografia de Humberto Bassanelli. “O Coringa do Cinema”, o filme, teve sua exibição no dia 29/08 no Cine Batatais.

terça-feira, 27 de agosto de 2019

"O CORINGA DO CINEMA" EM BATATAIS (SP)

Tem exibição de "O Coringa do Cinema" em Batatais!


Quinta, 29 de agosto, às 19h30
(exibição do filme, seguido de bate-papo com o diretor Sérgio Kieling e o próprio Virgílio Roveda)
Feira do Livro de Batatais
Local: Cine Batatais (Praça Cônego Joaquim Alves, 167 - Centro)
Ingressos gratuitos

segunda-feira, 12 de agosto de 2019

Grandes entrevistas de PBY: Jece Valadão em 2007


Playboy entrevista Jece Valadão

                  
Uma conversa franca com aquele que foi o ator mais cafajeste do Brasil sobre aventuras com mulheres casadas, surubas com o presidente João Figueiredo e como ele broxou com Norma Bengell

Jece Valadão estava animado. Em casa, um apartamento simples no centro de São Paulo, vestia camisa e calças sociais, tinha os cabelos penteados para trás e escondia os pés descalços na mesa da sala. Era o dia de sua primeira bateria de entrevistas para PLAYBOY e ele se sentia prestigiado. Nos últimos dez anos, Valadão, dono de um currículo em que constam 107 filmes, estrela do Cinema Novo e da Chanchada, andava um tanto esquecido. Só recentemente voltara a ocupar páginas de jornais e revistas graças ao papel principal no seriado Filhos do Carnaval, da HBO (série indicada ao Emmy Internacional), e às filmagens do longa Encarnação do Demônio, de José Mojica Marins, o Zé do Caixão. Também procurava patrocínio para o filme O Dia do Juízo Final – a história do apóstolo Paulo de Tarso – e esperava a estreia no cinema de Cinco Frações de Uma Quase História, em que interpretou um juiz corrupto. Mas o que mexia com a vaidade de Jece Valadão era uma homenagem que acabara de receber do Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio de Janeiro, com a exibição de alguns dos principais filmes de sua carreira.

Jece estava sumido desde que se convertera à religião evangélica e aposentara o papel que o consagrou: do cafajeste. Passou a última década dando seu depoimento evangélico em templos Brasil afora, contando sobre a visão de Deus que o fez largar vícios e dedicar-se à pregação de palavra. Foram dez anos afastados dos holofotes – segundo ele, tempo necessário que se tornasse um evangélico convicto e não caísse nas inúmeras tentações do meio artístico. Pai de nove filhos – cinco dos quais reconhecidos -, casou-se pela sexta vez com uma amiga de culto, Vera Valadão, de 45 anos. No dia e que recebeu PLAYBOY pela primeira vez, Jece falou sobre suas dificuldades. Contou que, certa vez, teve de pedir 20 reais emprestados a um amigo. Explicou que, nesse período, sua fonte de renda foi a venda de CDs e DVDs com seus “testemunhos de fé”. Mas estava confiante de que o tempo das vacas magras havia passado. “Assinei um contrato com a Rede Record de três anos. Você sabe o que é isso para um homem de 76 anos?” Jece Valadão estava certo de que viveria muito mais do que o suficiente para honrar seu contrato com a emissora. E gabava-se de sua saúde de ferro. “Eu não tenho nada no pulmão, nem problemas respiratórios. Só tenho uma diabete controlada. Passei 65 anos comendo errado, fazia tudo que desse na telha”.

Filho de pais camponeses, Jece descobriu o talento para a sétima arte ainda criança, em Cachoeiro do Itapemirim, no Espírito Santo. Ganhava pedaços de rolos de filmes de um amigo que trabalhava no cinema da cidade, colava-os e, com a ajuda de uma caixa e uma lâmpada, fazia projeções para os meninos da vizinhança. Começou sua vida profissional como locutor de rádio, mas sabia que o seu futuro estava na telona. Mudou-se para o Rio de Janeiro e, na primeira vez em que pediu emprego na Atlântida, ouviu de um de seus mais importantes diretores, Watson Macedo, que não era bonito o suficiente para o ofício de ator. “Aquilo acabou comigo”, contou. Mas conseguiria um papel de figurante no filme Também Somos Irmãos e, por uma artimanha do destino, despertou profunda atração física no diretor José Carlos Burle. Deveria apenas entregar um chope ao personagem vivido por Jorge Dória, mas terminou contracenando com Grande Otelo.

Jece Valadão adorou aquele ambiente – “via aquelas luzes e sentia-me em Hollywood” – e passou a frequentar congressos e seminários de cinema do Rio de Janeiro. Num deles, conheceu o diretor Nelson Pereira dos Santos e com ele filmou Rio 40 Graus, Os Cafajestes (1962), de Ruy Guerra. Contou que bateu em mulher, desvirginou púberes, andou com revólver sem porte de arma, virou incontornáveis garrafas de whisky, foi amigo do peito de um membro do Esquadrão da Morte, cheirou cocaína. Naquela ocasião, folheou, com assumida curiosidade as edições de PLAYBOY de Mariana Felício, Flávia Alessandra e dos Aviões da Varig, que recebeu de presente da repórter Adriana Negreiros. Sugeriu à esposa, evangélica, que escolhesse um lugar no guia de motéis encartado na edição de julho de PLAYBOY, para que os dois passassem uma noite. Riu, com jeito de criança levada, quando ela lhe passou um pito pela proposta indecorosa.

Nada sugeria que o vivaz Jece Valadão estaria morto poucos dias depois dali. Quando ele foi internado com insuficiência respiratória, no dia 20 de novembro último, a edição de dezembro de PLAYBOY já estava na gráfica. As sete horas de conversa com o ator, previstas para serem publicadas nesta edição, já haviam sido transcritas e editadas. Poucos dias antes de ir para o hospital, ele havia pedido à repórter que o sabatinou que enviasse para sua casa a edição de outubro, com a entrevista do ator Daniel Filho, seu colega em Os Cafajestes. Confessou que estava curioso para ler o que sairia publicado a seu respeito. “Por favor, seja boazinha comigo”, pediu. Jece Valadão morreu às 17h20 do dia 27 de novembro de 2006. Esta foi sua última entrevista.

PLAYBOY- Você havia dito que não faria o novo filme do Zé do Caixão, Encarnação do Demônio, porque batia de frente com o que você pensava. Mas resolveu aceitar o papel. O que mudou?

JECE- Eu mudei algumas coisas no diálogo que vão justificar a minha participação. O meu personagem é um coronel da polícia que persegue o Zé do Caixão. Não é bem um vilão. Eu represento a Justiça. Eu acrescentei um diálogo em que meu personagem fala: “Sou católico apostólico romano e meus santos me salvam”. A sala dele é lotada de santos. No final do filme ele morre e diz: “Meus santinhos não resolveram meu problema”. Ou seja, ele mostra que a idolatria não leva a nada.

PLAYBOY- O título do filme com referência ao demônio não te incomodou?

JECE- Eu tenho acesso direto ao Espírito Santo e ele me disse: “Meu filho, seja qual for a tua decisão, o filme será feito. Então, melhor que seja feito com a sua voz destoante”. Também consultei meu pastor. Além do mais, estão me pagando muito bem.

PLAYBOY- Do que você é proibido?

JECE- Não sou proibido de fumar nem de beber. Se eu quiser beber um whisky agora, eu bebo e nenhum produtor me proíbe. Mas não faço porque tenho consciência de que faz mal para o meu corpo. Não bebo, não fumo e não cheiro pó, por convicção.

PLAYBOY- Mas houve um tempo em que você fazia isso tudo.

JECE- Eu bebia uma garrafa de whisky numa sentada. Só com gelo. Whisky bom, escocês. E não ficava de porre. Fumava quatro maços de cigarro por dia. A única coisa que não pratiquei foi o consumo de drogas.

PLAYBOY- Nem por curiosidade?

JECE- Só uma vez, no Rio de Janeiro, na casa de uma milionária. Toda semana ela dava festa. Ela tinha uma mesma de mármore preta no meio da sala e preparava as carreiras de cocaína para os convidados. Eles pegavam notas de dólar e cheiravam aquele negócio. O único que não cheirava era eu. E ela não aceitava. Mas ela encheu tanto o meu saco que eu falei: “Vou lá”. Cheguei, cheirei aquele negócio de uma vez. Sabe o que aconteceu? Sentei no sofá e dormi a festa inteira. Eu preferia o whisky.

PLAYBOY- Muita gente que vira evangélica renega o que fez. Você não se furta a falar sobre suas aventuras do passado. Por quê?

JECE- Meu passado é um livro aberto, como é que eu vou negar?

PLAYBOY- Então vamos falar dele. Você já se envolveu em muitas brigas?

JECE- Várias vezes. Eu vivi muito perigosamente. Eu arriscava a vida praticamente toda noite. Eu e um amigo saíamos para as boates, no Rio, e nosso prazer era tomar a mulher dos gringos. Sentávamos numa mesa, pedíamos whisky, começávamos a beber e ver quem era bonita. Não importava quem estivesse ao lado da mulher, a gente começava uma paquera. Mandava o maître falar com ela, levava recadinho. E na maioria das vezes tomava a mulher do cara. Isso é arriscar a vida. Se você pega um cara invocado, ele puxa o revólver.

PLAYBOY- Já aconteceu?

JECE- Uma vez, numa boate, a mulher de um cara começou a dar bola pra mim. Começou a dançar na minha frente, fazendo charme. E o sujeito se invocou. Esse era brasileiro. Estava no meio de pileque e veio falar comigo. Eu falei: “Não me enche o saco”.  E dei um empurrão, ele caiu sentado. Na hora de ir embora, o cara veio me provocar. Eu já estava com alguns whiskies na cuca. Ele disse: “Você não foi homem comigo e eu quero desfazer esse negócio aqui agora”. Falei: “Não vou fazer nada com você. Vou mijar no teu pé”. E mijei. Molhei a calça, o sapato. Mas o negócio foi tão agressivo que o cara ficou parado, virou estátua. Meu amigo já estava com o carro ligado, saímos morrendo de rir.

PLAYBOY- E a agressão ficou por isso mesmo?

JECE- Que nada. O cara me conhecia. Passaram-se uns três dias e toda noite passávamos na Fiorentina, que era um restaurante do Leme (bairro da zona sul do Rio de Janeiro) que ficava aberto a noite inteira e era frequentado por artistas. Um dia eu vou chegando e o maître corre. “Seu Jece, tem um cara aí com um revólver desse tamanho querendo te matar”. Olhei o cara e reconheci. Ele estava sozinho numa mesa. Fui lá, sentei de frente pra ele e disse: “Você veio me matar? Então que mate logo, ou eu te dou umas bolachas e te faço engolir o revólver. Agora, se veio conversar, estou disposto a pedir desculpas pelo que fiz. Eu sei que errei, mas você folgou demais”. Aí o cara começou a chorar, coitado. Eu tripudiava com as pessoas, tinha uma falha de caráter muito grande. Andava armado com uma pistola de 13 tiros, engatilhada, sempre.

PLAYBOY- Você tinha porte de arma?

JECE- Nada. Dirigi a vida inteira sem carteira. Tirei quando vim morar em São Paulo, em 85. Eu tinha motorista, mas quando ele faltava eu dirigia e fui pego várias vezes. O guarda reconhecia e me liberava.

PLAYBOY- Chegou a usar a arma?

JECE- Nunca dei um tiro. Mas tinha uma arma sempre dentro do carro. Vim para São Paulo com essa pistola 765. Eu estava casado e a mulher enchia meu saco para eu vender. Vendi e uma semana depois saí do escritório e parei num sinal. Aí vem um cara com um revólver 22. Eu tinha um Rolex Presidente. Tirei o relógio e dei na mão daquele débil mental. Saiu andando para vender por 50 reais. Se eu tivesse com a arma ali, não tenha dúvidas de que eu o matava, pelas costas. O ódio era grande.

PLAYBOY- Na série Os Filhos do Carnaval, você interpreta um bicheiro. Qual era a sua relação com Castor de Andrade, o bicheiro mais famoso do Brasil?

JECE- Eu era muito amigo dele. Ele era duas pessoas distintas. Uma era o bicheiro de Bangu, dono da escola de samba. E era outro em Copacabana. Eu era amigo do Castor de Copacabana. Ele foi meu sócio no filme Os Cafajestes. Teve um filme que eu fiz em que precisava de armas. Era uma época difícil de conseguir armamento, por causa da Ditadura. Não consegui no Exército, fui no Castor e ele me abriu o arsenal dele. Me emprestou todas as armas e eu fiz o filme.

PLAYBOY- Que tipo de arma?

JECE- Fuzil, metralhadora, revólver 38 e mais alguns de 13 tiros. O Castor de Andrade tinha um arsenal. Mas ele era uma pessoa dócil. Uma dama.

PLAYBOY- Vocês chegaram a aprontar muito juntos?

JECE- Não. Eu aprontei muito com o Mariel Mariscot (policial membro do Esquadrão da Morte). Fiz um filme com ele, Eu Matei Lúcio Flávio (1979). Ele estava na prisão, eu ia lá, ele me contava a história dele e eu anotava. Depois fiz o argumento do filme.

PLAYBOY- O que vocês fizeram?

JECE- Teve uma vez em que eu estava fazendo o filme, e o Mariel falou: “Ô Jece! Qualquer dia desses eu vou te levar para um extermínio. Aí você vai ver como é, para fazer direito no cinema. Porque um extermínio de verdade, não tem nada a ver com o que você faz no cinema não, viu?”. Eu querendo bancar o machão, disse: “Tá bom, na hora que você me chamar, eu estou lá”. Três ou quatro dias depois ele me telefona: “Hoje vai ter execução lá no aterro do Flamengo. Vamos marcar em tal lugar na Cinelândia 9 horas da noite”. Eu falei: “Tá bom”.

PLAYBOY- E foi?

JECE- Eu desliguei o telefone e falei: “O quê? Assistir a uma morte? Mas não há condições de eu ir”. E obviamente não fui. No dia seguinte li no jornal: pegaram um cara, levaram para o aterro do Flamengo, amordaçaram, degolaram com o cordão, atiraram na cabeça. Era um bandido. A imprensa descobriu que ele estava hospedado num hotel no centro da cidade e foi lá. E o porteiro do hotel disse: “Ontem vieram aqui três caras e saíram com ele”. Agora imagina se eu tivesse ido? O porteiro ia dizer: “O Jeca Valadão esteve aqui”. E no dia seguinte o Mariel me liga: “Pô, rapaz, você não foi”. Eu inventei que o meu filho ficou doente. Ele disse: “Então na próxima eu te chamo, hein?”. Eu falei para a secretária: “Se o Mariel ligar, eu não estou”. Porque o Mariel era apaixonado por mim. Sabe paixão?

PLAYBOY- Paixão?

JECE- É, paixão no bom sentido. Se você olhasse atravessado pra mim, ele provocava você para brigar. Então eu tinha que ter um cuidado tremendo com ele. Atrito normal do dia-a-dia, ele já queria matar. Porque ele matou mais de 80. Ele contou. Depois que mata o primeiro vai embora, né?

PLAYBOY- O Mariel chegou a te meter em alguma confusão?

JECE- Quase. Um dia ele fugiu da penitenciária e de repente eu estou em casa – a polícia inteira procurando por ele – e recebo um cartão. Abro o envelope, é um cartão de Brasília, com um anjo em cima de uma catedral, no ar, e ele escreveu: “Amigo Jece, foi assim que eu fugi daquela m(*)”. E mandou para o meu endereço. Quando ele telefonou para mim, eu falei: “Mariel, pelo amor de Deus, não manda nada pra o meu endereço. Você está sendo procurado pela polícia do Brasil inteiro”. Pegar uma cana porque o Mariel mandou um cartão pra mim? Porque ele casou com a atriz Darlene Glória, tem um filho com ela e fui em quem apresentei os dois. Eu sabia que o caminho dele não tinha volta. Mas era uma dama. Era delicado. Se o cara o conhecesse direito, achava até que ele era veado. Era de uma gentileza, aquelas pessoas boas, sabe? Mas um matador. Impressionante.

PLAYBOY- Comenta-se que você deu o golpe do baú ao se casar com a Dulce Rodrigues (irmã do dramaturgo Nelson Rodrigues). Casou-se por interesse?

JECE- Eu me casei com a Dulce Rodrigues porque fui conhecer o apartamento em que ela morava e fiquei entusiasmado. Aquilo não era uma apartamento, era um palácio. Para você ter uma ideia, o imóvel foi comprado da Embaixada da Itália. Eu tentei dar o golpe do baú, mas o baú estava furado. Comecei a trabalhar feito um louco. A Dulce era uma mulher maravilhosa, apaixonada por mim. Depois que eu a deixei e casei com a Vera Gimenez, ela ia receber pensão e gastava tudo em maquiagem e roupas para me ver. Eu nem aparecia, mandava a secretária pegar. Maldade mesmo.

PLAYBOY- Sua relação com a Vera Gimenez foi tumultuada e depois da separação ela te acusou de não pagar a pensão do filho. Você não pagava?

JECE- Vera Gimenez foi minha quarta mulher e nós temos um filho, o ator Marco Antônio, que está virando celebridade como o Urubu, de Malhação. Foi um casamento muito atritado, neurótico, as duas personalidades se batiam. Foram 13 anos de guerra. E não entrava na minha cabeça que eu tivesse que pagar pensão alimentícia para o Marco Antonio porque ela estava casada com outro. Mas todo mês ela me ligava, cobrando, e eu pagava. Eu tinha horror a São Paulo e vim morar aqui para me ver livre dela. Eu não suportaria cruzar com ela.

PLAYBOY- Ela costuma dizer que você só é evangélico para os outros.

JECE- Ela disse isso várias vezes. Mas não tem a menor importância. Logo que eu me converti, eu senti vontade de pregar a palavra para a Vera. Um dia ela falou: “Eu não admito um Deus que manda Abraão matar seu filho”. Todo mundo pensa que ela é evangélica, mas ela é umbandista. Tenho pena, porque ela precisa da palavra. Já teve câncer no seio. Deus já deu vários avisos. O marido dela, com quem ela se casou depois de mim, morreu de Aids. A Vera fica preocupada, na expectativa de ter o vírus incubado. Agora teve câncer nos ossos.

PLAYBOY- Umbanda é coisa do diabo?

JECE- Não tenho a menor dúvida. Quando eu era ateu, tive oportunidade de frequentar um centro espírita de umbanda. E como eu era Jece Valadão, a mãe-de-santo me ungiu como Exu Rei. Aí eu fingia que recebia o Exu para comer a auxiliar de mãe-de-santo que era muito bonita.

PLAYBOY- E comeu?

JECE- Comi. O terreiro parava porque eu ia receber o Exu Rei. Vê se pode um negócio desses. Eu sou ator e dizia um monte de coisas desconexas. O que eu falava era lei para eles. Com isso, eu me credenciei tanto diante dessa mãe-de-santo auxiliar que ela acabou se entregando para mim.

PLAYBOY- É de supor que sua fama de cafajeste também exercesse fascínio sobre os homossexuais.

JECE- Demais. Quando eu me casei com a Dulce, recebi um abaixo-assinado com mais de 200 assinaturas de bichas do Rio. De protesto. Porque casando ficava mais difícil conseguir ter um caso comigo. O sonho das bichas era me levar para a cama. Mas tenho orgulho de dizer que nunca tive uma relação homossexual. 

PLAYBOY- Os gays te agarravam?

JECE- Agarravam, mas eu impunha respeito. Várias vezes eu tive que dar uns tabefes em uns. Uma vez eu estava no Canecão, fui ao banheiro e entraram três bichas. Queriam me agarrar à força. Eu suei, saí de lá todo amassado, distribuindo bolachas nos caras. Ainda bem que chegaram dois amigos e botamos as bichas para correr. Quase saíram de lá nus.

PLAYBOY- Existe uma história de que o ator Burt Lancaster (astro do filme A Um Passo da Eternidade) deu em cima de você. É verdade?

JECE- Depois de Os Cafajestes, eu fui pra Itália, e a Norma Bengell estava lá, filmando na Sicília. Me encontrei com ela num hotel onde estava também, o elenco de O Leopardo com Alain Delon e do Burt Lancaster. E o Burt começou a dar em cima da Norma, saía muito com ela. A Norma resolveu me apresentar pra ele. Fomos jantar juntos, os três. Começamos a tomar vinho, eu não falava uma palavra de inglês e a Norma fazia a tradução. E eu ali cabreiro. De repente, ele botou a mão na minha perna., Eu pensei que fosse uma coisa natural, mas ele começou a apertar e subir a mão. Aí eu olhei para a Norma e disse para ela traduzir a seguinte frase: “Ou tira a mão do meu pau ou eu vou estourar esta garrafa na sua cabeça”. A mão do cara era enorme. Cobria a minha perna inteira. A Norma ficou apavorada e falou com ele. E ele: “Ok, I´m sorry”. Não sei se ele era bicha ou não, mas teve uma recaída. E não estava querendo me comer, não! Queria dar para mim.

PLAYBOY- Você participou de todas as modalidades sexuais?

JECE- Menos homossexualismo. O resto tudo eu topei. Não é que não gostava, eu ia no embalo. Participei de várias surubas, inclusive com o Daniel Filho, o Herval Rossano (diretor de TV), todo mundo junto. Bacanal mesmo.

PLAYBOY- Qual foi o máximo de pessoas que vocês colocaram numa suruba?

JECE- Teve uma vez, na casa do Daniel Filho – os pais dele foram para a Argentina e ele ficou morando sozinho num apartamento grande, no Leblon, em que tinham uns quatro homens e umas oito mulheres.

PLAYBOY- Como foi sua primeira vez?

JECE- Foi uma experiência ótima, com uma prima mais velha. Eu tinha 13 anos. Gostei, mas não quis mais e eu fiquei na pior. Com 14 anos, eu não aguentei, fui na zona e conheci a Amelinha. Tinha idade para ser minha avó. Eu entrava por trás da casa, pulava a cerca e entrava pela janela do quarto. E foi ela que me formou sexualmente.

PLAYBOY- Você foi amante de mulheres casadas?

JECE- Várias vezes.

PLAYBOY- Houve uma que quis transar com você vestido de bicheiro, não?

JECE- Eu estava fazendo o Boca de Ouro (1963) no cinema, filmando com dentadura, prótese de outo, aquela roupa branca, sapato bicolor. Um dia eu estou no estúdio, chega uma grã-fina com uma Mercedes do ano, me chama e fala: “Entra aí”.

PLAYBOY- Era bonita?

JECE- Linda. Ela falou: “Vai lá dentro e volta com toda indumentária do Boca de Ouro”. Ela tinha visto uma reportagem numa revista sobre o filme com uma foto minha caracterizado como Boca de Ouro. Botei a prótese, peguei a roupa, gravata, entrei no carro e fomos embora. Subimos a mata da Tijuca e lá em cima tinha um banco de cimento armado. Ela possuiu o Boca de Ouro. Ela mesma tirou a minha calça e me botou deitado no banco de cimento, uma escuridão tremenda. Daqui a pouco comecei a me coçar, estava cheio de formigas. Eu não senti na hora, naquele entusiasmo. Eu batia assim no peito e saíam cachos de formigas. Eu saí todo empolado. Foi a relação sexual mais difícil que eu tive em minha vida.

PLAYBOY- Quando surgiu a Aids, você teve medo de estar contaminado?

JECE- Ela surgiu mais tarde. Nunca transei com camisinha. Quando eu casava, sempre tinha a casa de uma amante teuda e manteuda e uma garçonnierè para as terceiras, um pequeno apartamento alugado em Copacabana para atender às demandas. Porque naquela época não tinha motel. Mas eram sempre mulheres conhecidas e eu não tinha preocupação. Mas quando surgiu a Aids eu estava mais seletivo. Mas tive sorte. Nunca peguei doença venérea.

PLAYBOY- Você já disse que as mulheres dão com uma facilidade impressionante para cafajestes. Com quantas mulheres você já transou?

JECE- Não tenho ideia, é muita mulher. Eu passei dois anos solteiro e era questão de honra: uma mulher por dia. Era aluguel de apartamento em Ipanema, todo transado. Transado para transar (risos). A mulher entrava lá e tinha que dar. Não tinha jeito. Eu transava e dava o dinheiro do táxi para ela ir embora. E era sempre mulher boa. Porque eu frequentava os lugares e estava com tudo – dinheiro, fama, sucesso. Mulher está sempre sobrando em determinadas circunstâncias.

PLAYBOY- Antes do filme Os Cafajestes havia um grupo chamado “Clube dos Cafajestes”, do qual você fazia parte, além de Carlos Niemeyer (cineasta), Baby Pignatary (playboy) Carlos Imperial (produtor musical). O que vocês faziam?

JECE- Era uma reunião para conversar, contar vantagem, dizer quem comeu quem. Uma vez fomos convidados para participar do Baile do Galo, em Recife. O governador era o Miguel Arraes. Fomos eu, Carlos Niemeyer e Mariozinho de Oliveira, que era outro playboy. E mais um cara casado com a miss Bangu, muito bonita, que viria a ser a mãe do ator Felipe Camargo. Cada um foi com uma mulher bonita.         Éramos oito convidados do governo. Quando chegamos lá, os playboys de Recife ficaram a fim de mulher as mulheres da gente. E elas sabiam que se dessem para eles iam ficar porrada até dizer chega. Mas os caras darem em cima a gente não podia proibir. Enquanto os caras cantavam as nossas mulheres, a gente comia as mulheres deles.

PLAYBOY- Você já transou com alguma feminista?

JECE- Não, elas eram muito feias. Eu dizia: “Vocês são feministas porque têm bigode, usam essas roupas”. Elas babavam de ódio. Eu dizia que mulher comigo tinha direito a três frases: “Pra dentro, criança”, “Sim senhor, meu marido” e “Xô, galinha”. Elas me chamavam de ignorante.

PLAYBOY- Durante o regime militar, você teve uma rápida incursão no comunismo. Por que caiu fora?

JECE- Eu sempre fui capitalista. Mas o Nelson Pereira dos Santos me encheu tanto o saco que eu fui fazer o curso Stálin. Marcaram o dia. Nove horas da noite, no centro do Rio, lugar escuro. Comunismo era proibido. Nove horas eu estou lá com a minha malinha. Aí para o carro e me empurram para dentro. Quando sentei no banco de trás, me vendaram os olhos. O carro começou a rodar. Disseram: “Aqui você não se chama Jece Valadão, aqui você se chama Rogério. Teu nome de guerra”. Rodou. Abriram a porta, me botaram dentro de casa e tiraram a venda. Eu não sabia onde estava. Janelas vendadas. Ficamos 15 dias ali, uma cozinhava, outro lavava. Vinham três professores por dia dar aulas, aquela lavagem cerebral.

PLAYBOY- Qual foi o resultado disso?

JECE- Saí de lá querendo metralhar tudo quanto era capitalista. A primeira coisa que fiz foi ir para a Câmara de Vereadores distribuir prospectos. Fui preso na hora. Fiquei comunista meia hora. Me levaram para a delegacia. Não apareceu um p (*) dum comunista lá para me salvar. O delegado viu que era um inocente útil e nem me fichou. Fiquei preso umas três horas. Tomei ódio por comunista.

PLAYBOY- Você foi acusado pelos comunistas de ser de direita?

JECE- Não, apesar de ser amigo do João Figueiredo (presidente do Brasil de 1979 a 1985). Ele era meu amigo antes da Revolução de 64. Fomos colegas de academia do Gracie, de jiu-jitsu. O Figueiredo era chefe do SNI (Serviço Nacional de Informação), e como eu tinha problemas de censura com meus filmes, ia muito a Brasília. Um dia, eu salto no aeroporto de Brasília e quando estou pegando minha bagagem entra um oficial do Exército e diz: “Você é o Jece? Pois está preso”. Me botaram dentro dum carro, me levaram para o Palácio do Planalto e me jogaram dentro do gabinete do Figueiredo. Ele vem lá de dentro e diz: “Você não vem aqui, então eu mando te prender”. Na ante-sala estavam ministros, deputados, todos esperando para falar com ele. E passamos três horas contando piada.

PLAYBOY- Figueiredo era cafajeste?

JECE- Era sim. Ele participou de várias surubas comigo.

PLAYBOY- Você participou de várias surubas com o presidente Figueiredo?

JECE- Sim. O grau de intimidade entre homens é medido nessa hora, entende? É quando participa de várias coisas junto. Mas foi antes de ele virar presidente da República. Quando ele virou presidente, pensei: estou feito. Mas quem disse que eu conseguia falar com ele? Não deixavam, com ciúmes. Na época do SNI, a censura pensava três vezes antes de cortar um filme meu porque eu era amigo do chefe. Usei muito isso.

PLAYBOY- É verdade que você broxou com a atriz Norma Bengell, uma das mulheres mais desejadas da época?

JECE- Quando eu fui produzir Os Cafajestes, chamei o Ruy Guerra e o Miguel Torres para escrever o filme. E falei: “Quero a Norma Bengell”. O Ruy Guerra não queria, porque ela era uma vedete. Eu disse que preferia tirar o diretor a ficar sem a Norma e ele teve que aceitar.

PLAYBOY- Você queria a atriz Norma Bengell no filme...

JECE- Para comê-la. Mas quebrei a cara. Ela dava para o mundo inteiro, menos para mim. O Ruy Guerra se apaixonou por ela e quebrou a cara também. A Norma tinha horror ao Ruy. Depois de passar o dia filmando naquelas dunas escaldantes, ele chegava ao hotel e não tomava banho, deitava na cama com areia e tudo. Até que um dia eu e a Norma estávamos hospedados numa casa em Jacarepaguá, para fazer outro filme, quando ela me agarrou por trás e disse: “Hoje eu vou dar para você”. O impacto foi tão grande que meu pau encolheu. Quanto mais esforço eu fazia, pior as coisas ficavam. Fiquei desesperado, queria me matar.

PLAYBOY- Ela espalhou a história?

JECE- Espalhou e eu também. O que eu posso fazer? Não consegui. Norma Bengell foi uma das poucas mulheres que trabalharam comigo e com quem não tive um caso.

PLAYBOY- O filme Rio 40 Graus, do qual você participou, enfrentou problemas com a censura. Como vocês resolveram isso?

JECE- Fizemos acordo com o Juscelino Kubitscheck, que estava em campanha presidencial. A gente fazia a campanha e, se ele fosse eleito, liberaria o filme. Meu papel era pegar um bonde e percorrer um trecho de 500 metros, fazendo discurso. Eu dizia que o JK era a solução, que ele tinha maioria no Congresso. Ele foi eleito e cumpriu a promessa. E o JK também era um cafajeste. Sentava, tirava o sapato, coçava o pé. Era um mulherengo.

PLAYBOY- Para fazer Rio 40 Graus, você e o resto da equipe hospedaram-se num apartamento no Rio. Viveram muitas aventuras nessa época?

JECE- Éramos seis pessoas nesse apartamento. A produção tinha uma Kombi velha caindo aos pedaços, uma máquina do cinema mudo, uns refletores velhos. A gente cozinhava e limpava. Fazia uma espécie de rodízio. E eu era assistente de direção, o ator principal da fita e encarregado de sair à noite para arranjar namorada. Ela ia na nossa casa, ficava com pena da gente e fazia macarrão. Porque quem cozinhava era o Nelson, quando não tinha mulher, ou o Hélio Silva, diretor de fotografia, mas os dois cozinhavam muito mal.

PLAYBOY- Com que frequência ia à rua?

JECE- Quando a coisa apertava eu tinha que sair. Tinha uma mulher no apartamento de frente, totalmente louca, e ficava me namorando pela janela. Descobrimos com o porteiro que ele era amante de um dono de supermercado. Ela tinha uma bebê de uns seis meses, filha do dono do armazém. Aí comecei a dar mais bola. Fui lá. A mulher era uma ninfomaníaca. Ela me arranhava. Eu saía de lá e parecia que vinha da guerra. Era sadomasoquista. Eu tinha que bater nela, aquelas loucuras. No dia seguinte, mandava uma cesta básica para a gente, com biscoito, doce, uma maravilha. A equipe não queria outra vida (risos).

PLAYBOY- E quando acabava a ceia?

JECE- Eu tinha que para o sacrifício outra vez. E a mulher se apaixonou de tal maneira que começou a ficar violenta demais. A vizinhança toda sabia do caso, era uma verdadeira tragédia. Eu me escondia de todas as maneiras possíveis. Teve uma vez que eu não queria ir de jeito nenhum e ela pegou a filhinha pela perna, pendurou na janela e disse: “Jece! Se você não vier agora, eu jogo a minha filha lá embaixo”. Estávamos no sétimo andar. Olha a situação. Para salvar a criança eu fui lá. Mas exigi três cestas. Aí o filme ficou pronto e vem a censura e proíbe (risos).

PLAYBOY- Como você, que lidou com tamanha falta de infra-estrutura para fazer cinema, se sentiu na primeira vez que foi ao Projac, o centro de produções da Globo?

JECE- Levei um susto. Você entra na ante-sala e tem uma mesa enorme com todas as bebidas, doces, salgados. E aí entra no estúdio e é aquele negócio maravilhoso, mulheres lindas, de biquíni. É o poder, a bonança. Se você não estiver muito preparado, leva um baque tremendo. Por isso, durante nove anos e meio, Deus não permitiu que eu colocasse o pé no meio artístico. Toda vez que eu marcava para conhecer o Projac, acontecia alguma coisa e eu não podia ir.

PLAYBOY- Por quê?

JECE- Ele estava me preparando, porque se eu conhecesse o Projac e continuasse no meio artístico com o pouco conhecimento da palavra que tinha, eu teria voltado para o mundo. A tentação é muito grande. Até que nove anos e meio depois eu estava orando aqui nessa sala, Deus chegou para mim e falou: “Agora você já pode voltar ao seu meio”. Eu estava sólido na rocha. No dia seguinte a produção de um programa da Globo me telefona para fazer um personagem em Você Decide.

PLAYBOY- Nesses dez anos, qual foi a sua fonte de renda?

JECE- A oferta que o pastor me dava quando eu ia à igreja e o material que eu vendia – CDs e DVDs com o meu testemunho. Era o dinheiro certinho. Uma vez um pastor deixou comigo um cheque pré-datado de 500 reais, para um evento. Quando cheguei lá, encontrei uma igreja paupérrima, na periferia de São Paulo, com pessoas pobres. Pensei: “Puxa, ainda bem que esse pastor me deu o cheque”. Aí o Espírito disse: “Devolve, Jece, porque ele precisa mais do que você”. Devolvi. E já tinha gasto esse dinheiro, para mim era dinheiro que não se acabava mais. Eu estava no osso. Três dias depois veio outra igreja que me deu 3 mil reais. Compensou tudo. Mas era tudo ali, justinho. Um dia eu tive que pedir 20 reais emprestados a um amigo.

PLAYBOY- Você ganhou muito dinheiro na sua carreira?

JECE- Muito. Houve uma época no Rio em que eu tinha uma produtora de cinema e outra de comerciais. Eu fazia todos os comerciais da Caixa Econômica Federal. Ganhei muito dinheiro com cinema. Construí um estúdio que ficou alugado para a Globo durante quatro anos. Mas da mesma maneira que eu ganhava eu gastava. Eu tinha casa em Cabo Frio, casa em Búzios, apartamento no Leblon, em Ipanema, no Quitandinha...Nunca me preocupei com dinheiro, ganhava e gastava.

PLAYBOY- O que aconteceu com todo esse patrimônio?

JECE- Fui separando e dando para a mulher. Foram cinco separações. Quando me separei da Vera Gimenez, era a época do Rock in Rio e não tinha quarto vago em hotel algum da cidade. Saí de casa só com uma mala e o meu carro. Tive que entrar numa boate, Hippopotamus, tirei uma senhora de uns 60 anos para dançar e levei para o motel, só para ter onde dormir. Tomei uns whiskies e tive que comparecer. Era o sonho dela.

PLAYBOY- Fora o dinheiro que você gastava na vida noturna...

JECE- Ás vezes eu estava invocado, chegava a uma boate do Rio de Janeiro e dizia: “Fecha a porta, agora não entra mais ninguém e não sai mais ninguém. É tudo por minha conta”. Aí fazia o que eu queria. Eu nunca liguei para dinheiro.

PLAYBOY- Hoje, qual é a sua situação financeira?

JECE- Eu não tenho situação financeira, não estou rico. Tenho carro, esse apartamento que comprei porque a dona me deu até 2008 para pagar. Pago às prestações dos carros do meu filho e da minha enteada. Eu tenho uma despesa mensal de 10 mil reais – mulher jovem, filhos na faculdade. Tivemos várias dificuldades financeiras. Mas nunca faltou comida na nossa mesa. Nunca faltou o que vestir. Logo que eu me converti, paguei uma viagem para Grécia, Israel e Egito para um grupo de umas 20 pessoas. Gastei tudo que me restava.

PLAYBOY- Antes de se converter, qual sua opinião sobre evangélicos?

JECE- Tinha horror. Crente para mim era aquele que morava longe, se vestia mal, ganhava pouco e era feio. Isso até eu romper com o mundo. Fui corajoso. Rompi com a televisão e o teatro. O cara que tinha uma vida como a minha não larga por qualquer coisa.

PLAYBOY- Você acha que foi perdoado pelo seu passado?

JECE- A partir do momento em que você abre seu coração, tudo o que fez no passado é jogado no lixo. Eu fui preparado para pregar a palavra de Deus no meio artístico. Aí você me pergunta: por que não convenceu o Tarcísio Meira a se converter? O Tony Ramos? Eu falei para eles o que aconteceu comigo. Agora, quem vai convence-los não sou eu. Eu sou apenas um instrumento de Deus.

PLAYBOY- Qual é seu sentimento em relação a tudo que aprontou na vida?

JECE- Não tinha constrangimento, porque vivi intensamente. Eu repudio o que fiz, mas não adianta apagar. Não me arrependo, fiz tudo. Mas não faria novamente.

Publicado originalmente na revista Playboy em janeiro de 2007