segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Musa da Boca Débora Munhyz lança biografia



Por Matheus Trunk

São mais de 20 longas-metragens no currículo. A pernambucana Débora Munhyz tornou-se nome conhecido no cinema nos anos 1980 quando participou de diversões produções da Boca paulistana. Seu início foi com o diretor e produtor José Mojica Marins, o Zé do Caixão e prosseguiu depois trabalhando com diversos profissionais do quadrilátero. “A Boca foi a minha segunda casa. Eu escolhi viver e usufruir do lado positivo da grande indústria cinematográfica: o castelo de sonhos que virava realidade”, relembra ela com nostalgia.

A vida profissional da musa está no livro Débora Munhyz: do terror ao amor publicado pela editora Laços com organização do radialista e produtor cultural Rafael Spaca. A obra não teve lançamento oficial mas pode ser adquirida diretamente com a editora pelo email editoralacos2016@gmail.com. Débora conversou com o VSP sobre o livro e sua trajetória na sétima arte.

Como surgiu a ideia desse livro?

Débora Munhyz: A ideia do livro surgiu mais ou menos em 1999. No final da década de 1980, eu parei com tudo: cinema, teatro, atuação. Fui pro Japão trabalhar com danças e eventos e voltei pro Brasil somente em 1999. Nessa época, um jornalista chamado André Lourenço se interessou e teve a ideia de fazer um livro sobre isso. Na época, eu achava uma loucura, dizia: “Não estou preparara para isso. De jeito nenhum”. Mas ele insistiu tanto e começou a fazer pesquisas, levantou um material grande. Mas no decorrer disso tudo aconteceu uma coisa horrível que foi a morte do André. Foi um acidente e eu nem gosto de falar sobre isso. Aí deixou de existir o projeto do livro.
Muitos anos depois eu conheci o Rafael (Spaca, editor) que estava fazendo uma matéria sobre outra atriz da Boca. Ficamos conversando e ele ficou insistindo na história de fazer um livro. Aí novamente veio toda aquela história, mexeu com a minha cabeça. Mas a insistência do Rafael durou dois anos e eu comecei a pensar no pedido do André.  Então, eu resolvi aceitar o convite em homenagem a esse amigo querido. Isso foi rolando por alguns anos e agora finalmente está saindo.

Como você descobriu que queria ser atriz?
Eu descobri que queria ser atriz quando nem sabia o significado disso. Eu cresci no interior do Paraná numa fazenda e depois mudamos para a cidade chamada Itapejara do Oeste. Botaram uma televisão na praça central e foi ali que tive o primeiro contato com a atuação. É incrível que até hoje eu tenho a imagem da primeira cena que assisti: um pai pegando no braço de uma menininha atravessando a rua. Na mesma hora, eu peguei na mão do meu pai e falei: “Vou fazer aquilo”. Nem sabia do que se tratava, do que era.
Passou o tempo e vim para São Paulo quando eu tinha dez anos. Foi quando comecei a me inteirar e assistir televisão na casa de uma tia. A vontade foi aumentando a vontade de participar daquilo. Tive o acesso num primeiro anúncio do jornal que falavam das escolinhas de cinema. Nisso, eu acabei caindo na escolinha da Planeta Filmes do (cineasta) Wilson Rodrigues. Fiquei ali uns dois meses mais ou menos. De lá, o (assistente de câmera) Geraldo Damasceno me levou para a escola de atores do José Mojica Marins que na época ficava ali na (rua) Barão de Jaguara, na Mooca (zona leste de São Paulo). Aí começou toda história e me tornei aluna do Zé do Caixão.


Como foi esse começo com o José Mojica Marins? Que importância ele teve na sua carreira?
Naquela época, os cursos de interpretação eram ministrados pelos alunos mais experientes. O senhor Mojica passava somente as provas pra gente. Dividiram a gente em três grupos. Montava-se um grupo que concorria com o outro. O meu grupo acabou vencendo e foi maravilhoso. Era muito bom porque você aprendia a fazer de tudo: montagem, continuidade e sempre acabava fazendo uma pontinha em alguma produção. Mas o aprendizado com o seu Mojica não foi como atriz somente, mas principalmente como pessoa. Ele tinha um círculo de amizades muito bom e para mim era maravilhoso já que eu era adolescente ainda. Então, eu tinha muita curiosidade de aprender e ficava num cantinho ouvindo pessoas conversando como o (físico) Mário Schenberg, o (ator) Jofre Soares ou o (produtor) Wilson Garcia. O Mojica foi muito importante como uma grande universidade e a minha família mesmo não aceitava aquilo. Na época que eu entrei fiz amizades muito fortes com outras pessoas que estavam começando como o Satã ou com a Fátima Sena Porto. Então, o Mojica foi uma espécie de pai que eu respeito muito. Dele guardo muito carinho e consideração.

Como você começou a trabalhar com outros diretores de São Paulo?
O Mojica abriu um escritório no edifício Soberano na rua do Triunfo. Esse espaço funcionava para recrutar alunos para fazer a escola dele. Eu era secretária desse escritório, resolvendo de tudo um pouco. Recebíamos as pessoas de fora que procuravam a escola, fazíamos o cadastro dos futuros alunos e foi assim que conheci diversas pessoas da antiga Boca do Cinema. Foi lá que conheci o Ary Fernandes, o Elias Khouri. Resolvíamos os problemas dos filmes, o lado burocrático das viagens do Mojica. Ali começou o meu convívio diário na rua do Triunfo trabalhando no escritório e tendo contato com as pessoas que circulavam por ali.
Eu só tinha feito um filme nessa época que era A Mulher Que Põe a Pomba no Ar da Rosângela Maldonado. Nessa produção, a minha personagem chamava-se Débora. O meu nome verdadeiro é Maria das Neves. Mas diziam: “Você é a Débora do filme da Rosângela?”. E acabou ficando Débora. Esse virou meu nome artístico.

Já que você citou o Ary Fernandes, fala um pouco do convívio com ele. O que você aprendeu com ele?
O Ary foi uma das primeiras pessoas que eu conheci na Boca. Ele foi um dos primeiros amigos e protetores que eu tive na minha história ali. O primeiro filme que eu fiz com ele foi Essas Deliciosas Mulheres que foi filmado em Poços de Caldas (interior de Minas Gerais). Cheguei a fazer quatro filmes com ele como A Fábrica de Camisinhas, Taras Eróticas. Tudo participação pequena, mas era o meu começo. O Ary me ensinou como era a política do meio cinematográfico da época, como eu devia me portar com as pessoas da rua do Triunfo. Então, ele me ensinou muito da postura que eu tinha que ter como profissional.

E com o Tony Vieira? Você fez um filme com ele, certo?
O Tony Vieira foi um grande amigo. Aprendi com ele muito da vida, a ser humano e enfrentar as dificuldades. Fiz um único trabalho com ele que foi um marco na minha vida: O Último Cão de Guerra. Era uma época em que estava terminando a Ditadura e o Tony foi muito corajoso em fazer um filme com aquele tema. Era um tema sério, polêmico e filmado dentro da Base Aérea de Cumbica. Nós filmamos acho que vinte dias lá. Foi muito enriquecedor já que tivemos acesso a muitas coisas que aconteciam ali dentro. Eu costumo dizer que tanto o Tony como o Mojica foram pessoas muito interessantes e com as quais eu aprendi muito. O Mojica mais como um pai e o Tony mais como aquele amigo que me ensinou que não existe limites quando você quer algo, quando você busca algo de verdade na sua vida. Eu defino o Tony como um operário do cinema da Boca. Foi um grande amigo e me ensinou a encarar a vida sem medo de lutar em busca do que quero.

Como era pra uma mulher frequentar um ambiente como a Boca? Era muito machista?
É incrível que praticamente eu não percebi esse lado machista da Boca. Eu tinha amigos muito queridos que me protegeram lá dentro. Claro que o meio artístico da época era muito machista. O cinema sempre foi muito machista e quem trazia o grande público para as produções eram as meninas. Mas eu passei a minha adolescência na Boca. Tinha um círculo de amizades com pessoas que tinham outra cabeça, uma cabeça mais familiar. Então, eu chamo de minha família da Boca. Essas pessoas me viam primeiro como ser humano, como uma adolescente querendo aprender. Agradeço muito a Deus por ter conhecido pessoas como Ary Fernandes, Augusto de Cervantes, Jean Garrett, Satã, Mojica, Tony Vieira, Chico Cavalcanti. Esses sempre me protegeram. Então, eu tive pessoas queridas foram me cuidaram de verdade e acho que pela orientação deles eu não vi tantas pessoas que viam a mulher como objeto. Eles criaram uma redoma em volta de mim deixando muita gente sem acesso.
Quando vinham algumas cantadas eu sempre bancava a bobinha que não estava entendendo tudo. Então, enquanto me viam como boba eu trabalhava. A Boca naquele momento era a minha segunda casa. Claro que existiram muitos problemas, fofocas como todo lugar, mas nunca dei importância. Nunca alimentei o lado negativo. Eu escolhi viver e usufruir do lado positivo da história da Boca que foi a grande indústria cinematográfica: o castelo de sonhos onde podia virar realidade. Onde eu podia ir para a frente da tela fazer os meus filmes, as minhas amizades. Então, o lado ruim eu nunca levei em conta. Nunca alimentei essa coisa toda.

Você trabalhou na fase explícita. Como foi isso? Como você avalia essa parte da sua carreira?
Quando chegou filmes como Coisas Eróticas e O Império dos Sentidos ficou difícil. A Boca começou a produzir somente longas-metragens com sexo explícito. Fiquei muito tempo sem aceitar fazer. Só que o tempo foi passando e comecei a me questionar. O Ary Fernandes era um que falava muito comigo: “Vamos conversar sério. Você vai parar ou continuar? Que rumo você via dar?”. Foi quando eu recebi um convite da (produtora) Haway através do (produtor) Fernando (Gregório) pra fazer A B... Profunda. Eu fiquei seis meses pensando desde que veio a primeira proposta. Depois, acabei indo numa reunião na Haway onde inclusive conheci o (diretor ) Álvaro de Moya. Então, aí começou o questionamento interior: “O que fazer?”. Aí não era mais a questão de aceitar fazer o explícito ou não. Era a questão aceitar continuar fazendo cinema ou não e no começo foi muito difícil, a opção, aceitar fazer foi muito complicado. Mas eu pensava  muito no que o Ary Fernandes tinha me falado: “Débora se você não fizer o cinema parou”.  Foi quando eu optei em fazer. Ou seja: no momento não foi em fazer sexo explícito eu optei em continuar fazendo cinema.
O Moya sabia das dificuldades. Tanto que no primeiro dia de filmagens tive uma rejeição interna enorme. Mas eu avisei o Moya: “Se cortar eu não repito a cena. Então, fica de primeira não dá pra cortar, pra repetir não”. Ele levou isso muito a sério, colocou duas câmeras e foi. Minha cabeça entrou num turbilhão. Fiz a cena inteira e quando ele disse: “Corta”, eu desmaiei. Foi um dos momentos mais difíceis da minha vida no meio artístico. Depois veio inclusive um médico me visitar. Foi um dia muito difícil nas filmagens. Mas voltou ao normal e comecei a pensar na Débora que veio para vencer, que sabia o que queria da vida e cinema era a minha vida. Eu me propus a fazer cinema que era o que eu queria e se naquele momento a única forma de fazer cinema era aceitar esse tipo de segmento tudo bem. Já tinha feito o primeiro.
Naquele período eu só fazia cena explícita com um ator. Normalmente, eu fazia uma cena por filme com exceção do Gozo Alucinante do Jean Garrett com produção do Augusto de Cervantes. Essa foi uma das maiores produções de sexo explícito que teve na rua do Triunfo. Então, a partir daquele momento que aceitei, eu levantei a cabeça e falei: “Vou fazer o melhor que eu puder, mas com a responsabilidade de fazer cinema”. Depois, a maioria dos diretores passaram a se preocupar somente com as cenas de sexo explícito até que virou somente sexo explícito. Então, eu acho que na verdade o cinema da Boca foi prostituído.

Como você se adaptou ao final da Boca para ser ativa no teatro e em outros lugares?
Depois de um tempo acabei desistindo daquele cinema. Parei com tudo e fui embora pro Japão viver de dança, eventos e shows. Quando voltei de lá, encontrei com amigos queridos que estavam indo pro teatro como o diretor Roberto Rocco. Meu primeiro espetáculo nessa volta foi o Tropicanalha do Aziz Bajur. Naquele momento eu queria fazer teatro, queria fazer cinema, mas com muito cuidado e foi o que aconteceu. Fiquei muito tempo sem fazer cinema porque as coisas que vinham não me interessavam. Então, esperei vir algo que eu acabei me interessando.

Que importância teve pra você participar do curta-metragem Amor Só de Mãe do Dennison Ramalho? O que mudou na sua vida depois disso?
Eu fui conhecer o Dennison quando ele me mandou esse roteiro. Acredito que conhecer ele abriu um novo horizonte pra mim. Desde o primeiro momento vi que ele era um jovem sincero, batalhador e que buscava um cinema sério. Acho que foi a coisa mais certa que eu fiz na minha vida. Me senti respeitada como pessoa, profissional e como mulher. Então, Amor Só de Mãe foi um marco na minha vida, foi o meu retorno de forma digna porque fazia muito tempo que eu não fazia cinema. Espero muito que eu encontre outro filme, outro personagem que me dê tantas possibilidades. Um personagem como Formosa que eu fazia no Amor Só de Mãe. Pra mim, foi o melhor personagem que já fiz em cinema.

O que você espera com o livro?
Espero contar parte da minha história. Mas principalmente falar de pessoas queridas da Boca. Dessa parte da rua do Triunfo com a minha visão, da forma que eu vivi, da forma que eu convivi com pessoas que respiravam cinema e se alimentavam de cinema. A minha prioridade é lembrar dessas pessoas, muitas delas nem são lembradas hoje. Vamos dizer que seja uma homenagem a amigos queridos, essa família linda que eu tive o prazer de conviver e que pra mim é um grande orgulho. Foi um presente de Deus ter podido estar presente na história do cinema nacional na metade da década de 70 e 80. Não tenho pretensões em fazer um livro acadêmico de mostrar uma história luxuosa, não nada disso. A Boca não era nada disso: a Boca era simples, a Boca era humilde. E assim é o meu livro. 

terça-feira, 5 de setembro de 2017

PASTORES DA NOITE: Araken Peixoto





Por Alessandro Porro

Diz: “Eu olho e não olho, eu escuto e não escuto. Mas como é bonito ver o pessoal namorando, quando a gente está tocando”. Diz: “É como se você ajudasse. Não é para pensar mal: mas é como se você estivesse participando”. Diz: “Meu Deus, quantos beijos eu vi trocar numa noite só, beijos de amor improviso, de paixão instantânea: e eu tocando, e prevendo a chegada da madrugada, e do resto”.

Quem diz é Araken Peixoto, o da noite, o do pistom, o da cara de gitano sem malandrice, o poeta. Araken é também e especialmente um dos últimos artistas boêmios desta São Paulo que vive de antigas surpresas. E de sons macios que me lembraram antigos pastores da noite: o piano de Dick Farney, a voz de Maysa, o baixo sem sobressaltos de Azeitona – um pulsar de coração no limiar do amanhecer. E agora Araken, que insiste e resiste, à vontade em seu smoking preto, como se tivesse nascido nele, e você nem percebe que ele está vestindo a rigor. Diz: “A noite e coisa boa, é coisa séria, e deve ser respeitada”. Com sua música, Araken cria atmosferas irrepetíveis, sem data ou hora marcada. Ele chega e toca, nunca subindo no degrau das celebridades, mas entre as mesinhas de bar, ou apoiado ao balcão- olhando, sob os reflexos reluzentes de seu instrumento, o copo que o espera para depois do primeiro número. Outra noite, no Trianon do Hotel Maksoud, Araken tocava As Times Goes By, e de repente houve dezenas de casais que se acharam Humprey Bogart e Ingrid Bergman, os de Casablanca. Mais tarde, no One More Time, Araken inventou entrar na sala não pela porta, as descendo pela escada, já tocando as primeiras notas de Meditation: o pessoal não aguentou de prazer, e aplaudiu de pé este herdeiro de arte de Harry James nascido em Niterói há 55 anos.

Filho do compositor Elesiário, sobrinho de Nonô – o pianista de Pixinguinha -, Araken é o irmão de Cauby Peixoto, 52 anos, o inesquecível intérprete de Conceição; é o irmão de Moacyr Peixoto, 65, um dos melhores pianistas da noite brasileira; é o irmão da cantora Andyara Peixoto, 57, que já abandonou o microfone pelo conforto do lar. E é primo de Ciro Monteiro, o glorioso sambista que criava harmonias inesquecíveis (Se Acasso Você Chegasse, de Lupicínio Rodrigues), batucando numa caixa de fósforos.

Com uma família assim – alguém poderia desconfiar -, quem não estaria em condições de vestir o smoking e assoprar um pistom? Araken já ouviu mil vezes coisas assim, e sempre reagiu – com o sorriso sorneiro, matreiro, de quem não quer briga – contando o começo da história.

VIVA O SARGENTO!

Foi em Niterói, no quartel do Exército, onde começara, aos 20 anos, o serviço militar. O irmão Moacyr lhe havia dado de presente um trompete de pistons, do qual Araken conseguia tirar três ou quatro sons, sem muito entusiasmo. Mas foi o que bastou para que o comandante do quartel nomeasse o recruta Araken Peixoto trompete do regimento. “Mas não devo a este coronel o sucesso de minha carreira. Devo agradecer é a um sargento malandro e boa praça, que permitia que eu saísse do quartel quase todas as noites, para integrar pequenas bandas que tocavam nas festas, nos bailes do interior, e nos inferninhos mais escondidos da Baixada Fluminense: foi ali que comecei a tocar realmente, e saboreando pela primeira vez o prazer do som”. Quando o soldado raso Araken Peixoto deixou o quartel, já sabia o que fazer na vida. Não se pode dizer que começou nas “casas noturnas mais elegantes do Brasil” – como diz hoje a publicidade que acompanha seu último LP, Um Pistom dentro da Noite (Selo Eldorado). “Comecei na barra pesada, onde se fazia som de verdade, sem compromisso, e as meninas desmaiavam de gosto escutando minhas músicas”, conta Araken, lembrando duas entre as casas mais endiabradas dos primeiros anos da década de 1960: o Recanto Nostálgico, na Rua Amaral Gurgel, e a Old Friends, da Avenida 9 de Julho.

Araken é um artista de muitos amigos e admiradores. Poderia ter viajado para o Exterior, e ganhar o que, ele garante, teria sido “uma grana preta”, não fosse o maldito medo de avião. Também pudera: “Nas únicas duas vezes que tentei vencer o susto, me dei mal: uma vez voei para Belém do Pará, e o avião perdeu o trem da aterrissagem. Outra vez, voltando da Bahia, os motores pararam, e eu acabei quebrando o pistom de tanto apertar: era a única coisa que eu tinha para me segurar na queda que eu previa iminente, e que não houve por mero milagre”. Assim na base dessas experiências, Araken foi obrigado a renunciar a um convite daqueles irrecusáveis, feito por Armando Manzanero, que queria organizar com ele uma volta aos bares de todo o mundo, de Nova York a Tóquio, de Paris a Roma, de Londres a Berlim. “Teria sido a glória, mas aqui também fui dando certo”, admite Araken, que no eixo Rio-São Paulo fez sua carreira e seu sucesso. E não somente nos inferninhos. Casas como o Studio do Hotel Jaraguá, o Sacha´s, o Bom Gourmet – que fizeram a lenda da noite brasileira – brigaram por meu passe. “Mas eu sempre fui muito livre: não posso deixar de tocar onde sei que há amigos me esperando”. E assim você pode escutar numa mesma noite Araken no Trianon, um dos mais requintados bares de São Paulo, no Hotel Maksoud (Al. Campinas, 150); no One More Time, novo templo noturno dos Jardins; no efervescente La Bohème, da Rua Álvaro de Carvalho, e – alta madrugada – em casa de amigos para tomar com eles o último uísque e o café da manhã; e tocar.

No Rio de Janeiro, Jorginho Guinle quis que Araken corresse para seu apartamento no Flamengo, quando namorava Kim Novak: e garante que se a coisa deu certo foi porque Araken tocou como um “grande”, comovendo a bela intérprete de Piquenique. Uma senhora carioca (Araken é um gentleman: sabe quando não deve citar nomes) queria a qualquer custo conquistar o pintor Salvador Dali, que estava visitando o Brasil. Também neste caso, Araken apareceu com seu pistom para criar a atmosfera única de que ele é capaz. A história não diz se, afinal, a madame conseguiu o que queria. O que se sabe, por certo, é que hoje uma tela do pintor espanhol ocupa uma das paredes da casa da colecionadora carioca, e que Araken recebe de todos os anos um recadinho da mesma, com uma frase simples: “Obrigada, meu amigo”.

A MÚSICA EM DISCO

O último LP de Araken Peixoto, Um Pistom dentro da Noite (o primeiro de sua carreira produzido comercialmente, pelo Estúdio Eldorado de São Paulo, mas existem outros dois realizados no Rio para venda nas casas noturnas onde Araken se apresentava), contém o melhor do repertório do pistonista mais boêmio do Brasil, uma verdadeira antologia de clássicos americanos, com apenas uma faixa brasileira (Bonita, de Tom Jobim) e outra italiana (Estate, de Bruno Martino). Com o acompanhamento de alguns dos músicos mais festejados da noite (inclusive o irmão Moacyr Peixoto, que embeleza com seu piano algumas faixas mais significativas do disco), o LP é para ser ouvido em casa, de preferência a dois, durante um papo gostoso, diante de uma boa garrafa de uísque. O som de Araken faz o resto, sem nunca ser indiscreto, sem nunca querer intervir: é a grande sacada do artista, que consegue criar um clima propício até no apartamento de amigos desconhecidos. Mas, amigos. O disco é dedicado a José Bonifácio Sobrinho, o todo-poderoso Boni da TV Globo. O motivo é comovedor, e demonstra – não bastassem outros exemplos – como o pistonista preza a amizade e sabe agradecer Araken – que é casado com Fátima há 26 anos (“Minha única mulher: uma santa acredite”) e tem três filhos – não soube e não quis transformar o sucesso em riqueza: no Trianon ganha 7 mil cruzados por mês, e o resto vem da generosidade dos amigos da noite. Nestas condições, como comprar um pistom novo, decente, que vale pelo menos 2 mil dólares? Boni, alguns meses atrás, olhou para o pistom velho de Araken e não disse nada. Mas, quando voltou de uma viagem aos Estados Unidos, trouxe para o amigo artista o melhor pistom que existe, um Vicent Bach que parece de ouro. Então, Araken tocou a música preferida de Boni, Someone to Watch Over Me, de George Gershwin, e mandou gravar no instrumento algumas palavras singelas, como ele sabe dizer: “Boni, o som agradece”. E com este pistom gravou seu LP.

Publicado originalmente na “Playboy” de agosto de 1986

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Gaúcho 72: Renato Grecchi

Educado, fino e muito simpático. Quem conheceu aquele magricelo de óculos fundo de garrafa não se esquece dele. Renato Grecchi, o Renatinho, fez fama na Boca paulistana. Diretor de produção, o afável rapaz era responsável por chefiar produções de diversos longas-metragens. Recrutava a maioria dos técnicos prometendo muitas coisas. Nem sempre suas promessas viravam realidade. Mesmo assim, é difícil achar alguém que não tenha admiração por sua figura doce e malandra. “A melhor forma de defini-lo é dizendo que o Renatinho era um diplomata. Um verdadeiro diplomata”, recorda Gaúcho rindo. Quando a Boca terminou seu ciclo como ponto de movimentação do meio cinematográfico, Grecchi passou a administrar uma sala de cinema pornô no centro da cidade. O diretor de produção faleceu pouco tempo depois. 

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Gaúcho 72: trombadinhas e trombadões

A área central de São Paulo, na região da Boca do Lixo foi o campo de trabalho de Roveda entre o final da década de 1960 até 2002, quando ele fechou o escritório no quadrilátero. Durante todo período, Gaúcho conheceu diversas personalidades da marginalidade paulistana que frequentavam o local. Existia uma espécie de pacto entre o pessoal do cinema e a malandragem do ambiente. O técnico relembra quando um ladrão roubou a carteira de um exibidor. Quando o ladrãozinho levou o roubo para seus superiores, tomou uma tremenda bronca. E ainda teve de devolver a carteira do exibidor. “Eles não mexiam com o pessoal do cinema. Eu nunca tive problema lá durante todos os anos que fiquei ali”.  

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Gaúcho 72: Paschoalim

Armando Paschoalim foi um ator de destaque no cinema paulistano entre as décadas de 1960 e 1970.  Com barbas brancas e ar de perdido, o veterano sempre era convidado para papéis secundários. Quando jovem, o grande sonho de Paschoalim era ser galã do cinema americano. Mandou inúmeras cartas para produtoras como a Fox, Paramount, Warner e Columbia. Nunca foi chamado. Virou ator somente aos 62 anos e trabalhou com Gaúcho em inúmeros longas-metragens. “Ele foi um grande companheiro. Trabalhamos juntos várias vezes. Mas guardo muitas lembranças do Paschoalim no filme O Menino da Porteira em que ele foi meu assistente de produção. Ele ficava encarregado de levar o café e o suco de laranja pra todos na filmagem”. 

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Gaúcho 72: Helena Ramos

Gaúcho trabalhou como assistente de direção em As Cangaceiras Eróticas (1974) de Roberto Mauro. Foi um dos filmes com com a produção mais conturbada em que Roveda atuou. O elenco feminino muitas vezes causava situações complicadas para o pessoal da produção. O técnico nascido em Vacaria foi uma pessoa empenhada para que o trabalho saísse da melhor maneira possível. Daquelas sete cangaceiras poucas conseguiram destaque depois desse trabalho. “Tinha uma atriz que era muito calada e ficava na dela. Por isso, muitos acharam que ela só iria fazer aquele filme. Sabe quem era? A Helena Ramos que logo depois se tornaria uma das grandes musas da Boca do Lixo”. Famosa pela dedicação a carreira, Helena se tornaria um dos maiores símbolos do cinema da rua do Triunfo.  

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Gaúcho 72 no VSP

São mais de cinco décadas dedicadas ao cinema brasileiro. O diretor de fotografia Virgílio Roveda, o Gaúcho (Vacaria, RS, 02/08/1945-) trabalhou na realização de mais de 60 longas-metragens nacionais. São muitas as histórias e episódios que o técnico sulista colecionou em sua trajetória. Em agosto de 2017, Gaúcho completa 72 anos e lembra com exclusividade alguns fatos para o VSP. Toda segunda-feira uma história sobre o cinema paulistano dos bons tempos.