sexta-feira, 24 de setembro de 2021

Grandes matérias esportivas do Jornal da República: “Eis o nome de um gênio do futebol: Edu” (8/10/1979)

SÃO PAULO 2, PALMEIRAS 0

Eis o nome de um gênio do futebol: Edu

Como de hábito, xingaram muito o ponta Edu, ontem à tarde, no Morumbi. Desta vez foram os adversários


FRANCISCO MALFITANI


Estádio Morumbi, 16h45 de ontem, final do primeiro tempo de um jogo que já mereceu, certa vez o título de “Choque Rei”: desolados torcedores são-paulinos, que não chegaram a ocupar quatro lances das arquibancadas, abandonava suas bandeiras enroladas no chão e correm para os bares em busca de uma cerveja, desabafando: “O time está uma droga, mas não faz mal, este jogo não vale nada mesmo. Este campeonato só presta mesmo é no 3º turno. Só espero que, quando chegar lá, o Edu esteja bem longe do time do São Paulo”. Do outro lado do estádio, os eufóricos palmeirenses aplaudiram a saída de seus ídolos, agitavam freneticamente as bandeirantes e gritavam “Verdão, Verdão”. Márcio Guaranta Filho, chefe da torcida Império Verde, desprezava a choradeira dos inimigos: “Eles estão dizendo que não vale nada, só porque o time deles está jogando pedrinhas”. Aliás, este negócio de ficar espalhando que este campeonato é uma porcaria serve apenas como desculpa para a péssima campanha dos outros filmes. Como é que o Verdão está enxuto, líder do campeonato e invicto nos clássicos?”.

De fato, o Palmeiras, no primeiro tempo justificava a euforia dos seus torcedores. Mas a sua invencibilidade nos clássicos terminava aí. Bafejando talvez pelas sessões de exorcismo do Monsenhor Bastos, conselheiro espiritual do São Paulo, o imprevisível Edu, aquele mesmo que o torcedor são paulino, no final do primeiro tempo, queria ver longe do Morumbi, voltou para o jogo com uma disposição incrível. E surpreendendo a todos os 22.889 heroicos torcedores presentes, logo aos 3 minutos do 2º tempo, driblou quase que toda a defesa do Palmeiras e deu um passe genial para Serginho, que colaborou apenas empurrando a bola para dentro do gol do elegante goleiro Gilmar.

O pó-de-arroz, ou melhor, o talco de segunda mesmo, encheu o ar do Morumbi e os pulmões dos são paulinos, que vibravam com o gol. Enquanto isto, os “Periquitos do Verdão” permaneciam estáticos na arquibancada. Este lance pouco habitual de Edu parece ter deixado perplexa e extasiada a defesa palmeirense, que 8 minutos depois abandonou o centroavante do São Paulo outra vez na frente do gol de Gilmar. E o irrequieto Serginho novamente fez o desespero dos palmeirenses.

Neste momento, Hélio Silva, presidente da torcida uniformizada do São Paulo, até esqueceu as violentas críticas que tinha feito, antes do jogo começar, a incrível fórmula deste campeonato paulista: “É um campeonato ridículo. O pior que vi nos 40 anos de minha vida. Estes cartolas pensam que o torcedor é palhaço. Mas não é não. Veja aí o estádio vazio”. Hélio Silva vibrou como nunca.

A partir daí, os torcedores palmeirenses, que já não sonhavam com uma reação do seu time, se preocuparam em desafiar os seus rivais para uma briga, junta à providencial corda que separa as torcidas adversárias nas arquibancadas, devidamente policiadas por enérgicos PMs. E bastou um deles levantar o cassetete e ameaçar ir de encontro aos palmeirenses, para estes se porem em desesperada fuga. E a torcida tricolor vibrou mais uma vez. Nem parecia verdade. “É muita alegria num dia só. Ganhamos de 2X0 e ainda a polícia bota pra correr os porcos”, dizia um entusiasmado são-paulino.

Havia motivo para tamanho euforia? O São Paulo, no primeiro tempo, foi dominado totalmente pelo Palmeiras. A melhor jogada dos tricolores, naquela etapa do jogo, tinha sido um violento chute desferido da ponta-esquerda, pretensamente em direção ao gol, pelo bigodudo Chicão – bola que foi parar na cabeça de Edu, no outro extremo do campo. E Edu completou a “jogada ensaiada” cabeceando para trás.

Ou seja, para a lateral do campo. O ataque do São Paulo só molestou o gandula que estava atrás do gol de Gilmar. Por diversas vezes, ele teve que buscar a bola no fundo do fosso do estádio. E, para não perder o hábito, Serginho já no primeiro tempo recebeu um cartão amarelo, depois de tentar, sem sucesso, chutar a canela de Beto Fuscão. Ainda no final do primeiro tempo, Chicão dava um portentoso pontapé em Jorge Mendonça, recebendo, em solidariedade a Serginho, outro cartão amarelo. Só se salvava mesmo Valdir Perez, a quem os são-paulinos já se habituaram a chamar de “Santo Milagreiro”. Mas quem ia contar com a incrível atuação de Edu, no segundo tempo? Mais uma vez ele saiu xingado, só que desta vez, é claro, pelos palmeirenses.

 

O JOGO FOI ASSIM

PALMEIRAS 0, SÃO PAULO 2

Palmeiras: Gilmar, Rosemiro, Silva, Beto Fuscão e Sóter; Pires, Zé Mário e Jorge Mendonça; Jorginho, César (Carlos Alberto) e Baroninho (Nei).

São Paulo: Valdir Perez, Getúlio, Estevam, Bezerra e Chico Fraga; Chicão, Wilson Tadei (Mug) e Dario Pereira (Teodoro); Edu, Serginho e Jaiminho.

Juiz- Márcio Campos Salles

Renda- Cr$ 1.252.360,00

Público pagante: 22.889 pessoas

Gols- Serginho aos 3 e aos 11 do segundo tempo.

Cartões amarelos: Serginho e Chicão

 

Publicado originalmente no Jornal da República em 8 de outubro de 1979, edição 37

quarta-feira, 22 de setembro de 2021

Grandes matérias esportivas do Jornal da República: “Sai Ademir, fica em campo a mediocridade” (3/10/1979)

Sai Ademir, fica em campo a mediocridade


 

Ele se deu prazo até dezembro, para voltar. Terá 38 anos, o que complica. O consolo pode ser uma despedida em janeiro, com Clodoaldo jogando seu adeus pelo Santos. Sem o “Divino”, o futebol fica mais pobre

                                                                   

TONICO DUARTE

 

Ademir impõe com

seu jogo o ritmo do

chumbo (e o peso),

da lesma,

da câmara lenta,

do homem

dentro do pesadelo.”

Ademir da Guia de João Cabral de Melo Neto

 

Perdão, velho Domingos: não cheguei a vê-lo jogar, mas garanto que seu filho foi melhor. Mil desculpas aos puristas, idiotas da objetividade: farei aqui uma declaração de amor ao gênio de um diamante verdadeiro. Chama-lo de “Divino”, simplesmente de “Divino”, é criar limites maniqueístas para o seu talento infernal. Também é pouco defini-lo como “nome, sobrenome e futebol de craque”, como fez Armando Nogueira. O seu brilho extrapolou e/ou sublimou todos os rótulos.

Se tivesse nascido músico seria Stravinsky; se tivesse nascido pintor, seria Picasso. Nasceu jogador de bola – Ademir da Guia.

Quem viu, viu; quem não viu, não verá de novo. Com a mesma sutil descrição com que assombrou todo mundo nestes últimos vinte anos, Ademir está deixando o futebol. E deixa mais pobre um esporte que não terá Ademir da Guia. Depois de dois anos parado, ele deu um prazo até dezembro. Até lá, já com 38 anos de idade, tentará voltar. Mas já considera esta hipótese como improvável.

Fica faltando apenas o mea máxima culpa daqueles medíocres (bom dia, Zagalo), que passaram anos a taxá-lo de “jogador lento”. Mas que esses brilharecos saibam que, do alto da sua genialidade, o grande Ademir da Guia não os tem em mau conceito. Ainda que haja uma unanimidade nacional em torno das injustiças por ele sofridas, Ademir trata do assunto com a sua conhecida humildade olímpica: “Eu não reclamaria por um lugar nem no time do Palmeiras”.

E não me arrependo de não ter reclamado, pois é o meu jeito de ser. Além do mais, havia Gérson, Dirceu Lopes, Rivellino para a minha posição. Talvez eles fossem mesmo melhores que eu”.

Quem ficava louco com isso era o pai, o igualmente legendário Domingos da Guia. Brigava com o filho, dizia que ele tinha de exigir os seus direitos, dava murros de ódio na mesa. Um dia, foi até o vestiário do Botafogo para tomar satisfações com Zagalo. E Ademir, nada. Limitava-se a flutuar a sua talentosa dignidade por gramados paulistas, sem se importas com os esquecimentos. Era o somatório do prazer plástico e estético num festival de belo absoluto. Hoje, olhando para trás, ele sabe que escreveu uma das mais maravilhosas páginas do futebol brasileiro. Mas sua modéstia é maior do que tudo: “Acho que eu fui um bom jogador, mas sempre procurei manter a tranquilidade. No futebol, um dia a gente é ídolo, noutro, cai em desgraça. Por isso mesmo tem que ser humilde".

Esta humildade, não raro, chega ao paroxismo. Ainda hoje, Ademir fica ruborizado, se desconcerta todo, ao ouvir um rasgado elogio. Marcamos a entrevista e nos desencontramos. Pois não é que ele ficou esperando no carro, com ilimitada paciência. Ao me ver, no estacionamento do Parque Antártica, tocou a buzina e lascou de lá, como um iniciante cabeça-de-bagre que estivesse precisando de promoção: “Pois é, rapaz, estava te esperando. Pensei que você não vinha mais. As opiniões sobre o papel que Ademir da Guia representou no futebol brasileiro são convergentes. Ao escutar seu nome, o folclórico Filpo Nuñez levanta-se, coloca a mão sobre o peito, num respeito sincero. Os olhos de Oswaldo Brandão brilham, como quem mal pudesse controlar as emoções. Para Sócrates, ele foi “um gênio injustiçado”. O velho Oscar Paulilo, funcionário do Palmeiras há mais de cinquenta anos, é capaz de desviar um rosário de histórias, desde o dia 23 de agosto de 61, quando Ademir cruzou os portões do Parque Antártica pela primeira vez.

Ritmo líquido se infiltrando no adversário, grosso, de dentro, impondo-lhe o que ele deseja, mandando nele, apodrecendo-o”.

Ele é surpreendente. Certa vez, em Guadalajara, descansava à beira da piscina do hotel quando os companheiros resolveram jogá-lo dentro d´água. Ademir caiu, foi e voltou submerso, com uma elegância de fazer inveja a Jesse Vassalo. Só então, os pasmados jogadores do Palmeiras ficaram sabendo que, antes do futebol, ele havia sido campeão juvenil de natação pelo Bangu.

Outro episódio serve bem para mostrar a personalidade desse olimpiano. Em 65, numa de suas raras convocações para a Seleção, Ademir chegou à União Soviética. No hotel, conheceu um admirador nativo com quem passava horas e horas conversando. Até aí tudo bem, só que Ademir não sabia falar “olá” em russo, nem o russinho sabia pronunciar uma vírgula de português.

Por seu passe, o Palmeiras pagou quatro cruzeiros. Ele ainda era juvenil, e quem o trouxe foi o boss do Palmeiras, Delphino Facchina. Na época, o cartola encontrou-se no aeroporto com el brujo Fleitas Solich, que treinava o Flamengo. Ao saber da irrisória quantia, Solich não se conteve: “Vocês não pagaram nem uma perna dele”.

Quase vinte anos depois, Ademir está triste. É a mágoa de ter de abandonar o futebol como se nada tivesse acontecido. Gostaria de uma festa, não por vaidade, mas para guardar o bom momento na lembrança. Os dois últimos anos foram de angústia, primeiro pela contusão na planta do pé, depois pelo problema de sinusite e carne esponjosa no nariz: “Na minha idade, a recuperação é mais difícil. Eu lamento esse final de carreira, mas parece que vão fazer uma festa. Será no início do ano, num jogo entre Santos e Palmeiras, quando eu e o Clodoaldo nos despedirmos dos nossos dois clubes”.

É bem verdade que a despedida não trará problemas financeiros para Ademir. Sua situação econômica é tão sólida quanto a vida familiar (esposa, a chilena Ximena e um casal de filhos). Seguiu o conselho do pai, aplicou todo o dinheiro ganho. Mora numa mansão no estilo normando nos altos do Pacaembu, muito perto de um dos seus sacrários. É o morador mais famoso da rua: dá bom-dia ao padeiro, assina autógrafos na camisa do rapaz da Light, conversa pacientemente com os vizinhos. O reduto é de são-paulinos, ‘mas todos acabaram torcedores daquele mulato sarará, olhos de um azul muito claro, fino, solícito, - o propósito do bom vizinho.

Ademir não é de falar muito. Aqueles que o conhecem ficaram surpresos com a sua performance num dos últimos Fantástico. Ele fez algumas embaixadas, riu, contou casos da maneira mais descontraída possível. Foi o milagre. Nele, a bola era uma extensão do corpo. Mandava no objeto esférico como se houvesse algo de feitiço, numa relação mágica entre o animado e o inanimado. E podia guardar todo silêncio que quisesse: brilho, talento, genialidade, são também uma forma de linguagem.

Ritmo morno, de andar na areia, de água doente de alagados, entorpecendo e então atando o mais irrequieto adversário”.

 

Publicado originalmente no Jornal da República de 3 de outubro de 1979, edição 33

 

sexta-feira, 17 de setembro de 2021

Grandes matérias esportivas do Jornal da República: “O futebol em cor e ao vivo” (16/10/1979), Jornal da República

SHOW DE RÁDIO

O futebol em cor e ao vivo


Tem torcedor que está até dormindo durante os jogos do campeonato paulista mas pede para acordar quando começa o “Show de Rádio” que a Jovem Pan criou a nove anos para alegrar o futebol

TONICO DUARTE

Ritmo frenético, rugas de preocupação na testa. Quem o vê na máquina de escrever vai logo imaginando uma imensa tragédia: terremoto no Rio de Janeiro, sequestro da rainha da Inglaterra, indicação do coronel Erasmo para o Ministério da Justiça. Mas não é nada disso. Estevam Bourrol Sangirardi leva muito a sério a produção de uma das coisas mais engraçadas do rádio brasileiro. É de sua cabeça que brota o Show de Rádio, com que a Jovem Pan consegue alegrar o mais decepcionado dos torcedores.

A cabeça de Sangirardi é um eclético condomínio. Lá coabitam personagens da mais variada procedência: Didu Morumbi, o bandido Zé Trombada, o macumbeiro Joca, o bêbado Lança-chamas, entre outros. E apesar de tanta seriedade (Sangirardi veste-se com apuro, tem maneiras refinadas), basta que ele abra a boca para que todos em volta morram de rir. É capaz de tiradas como essa: “...aí o Charles Miller virou-se para o Mário Vianna e disse – Marinho este jogo ainda vai pegar...”.

Ele é o primeiro da equipe de oito pessoas a chegar. No topo de um edifício da avenida Paulista, a Pan parece uma aeronave intergaláctica: tubulações de alumínio aparecendo, parafernália sonora, um mundo de potenciômetros e medidores de frequência. Logo em seguida, chegam Alaor Coutinho e Sérgio Leite, que fazem aquelas deliciosas paródias sobre os times de futebol. Pergunto ao Sanja há quanto tempo ele trabalha em rádio, mas quem responde é o Sérgio: “Você já ouviu falar em Guiulhermo Marconi? Pois é, ele e o Sanja começaram juntos...”.

Na verdade, Sanja não é tão velho assim – deve ter uns 50 anos – e o Show de Rádio existe há 9 anos. Ele surgiu na Copa de 70, pela necessidade de se fazer algo diferente, que desse brilho à monotonia daquele conhecido círculo vicioso transmissão-comentário-reportagem. Os personagens surgiram nessa época. Didu Morumbi foi inspirado em Didu da Silva Campos, a parte 10 do “casal 20” de Ibrahim Sued (Thereza são outros 10); Beicinho e Zé Trombada nasceram a partir de dois tipos que Sangirardi observou num botequim perto do Parque São Jorge; o comendador Fumagalli é um daqueles comendadores que pululam o Parque Antártica, com título adquirido na feira; Joca é o típico macumbeiro corintiano. E assim por diante.

A rádio Camanducaia, no entanto, surgiu por acidente. Certo dia, gravando de brincadeira, Odair Batista empostou a voz e lascou de lá: “Rádio Camanducaia, falando para o Brasil e sussurrando para o mundo”. Pegou. Depois surgiu a Rede Ponta de TV – “a única transmissora de tevê em áudio. Nós fornecemos o som e a imagem fica por conta da sua imaginação inteligente e fertilizante” – numa evidente gozação com a Globo.

“Mas nós somos imparciais. Gozamos até a nossa emissora. Veja, por exemplo, a Rádio Jovem Jegue”.

A Rádio Jovem Jegue – “um coice no éter, um zurro no comunicamento”- é uma gozação com a própria Pan. Ela possui “um quilowatt de potência” e tem personagens como Tarciso Varize, o homem do templo e o locutor Zé Mistério, a versão nordestina de José Silvério, chefe de esportes da equipe da Pan. Sanja, entretanto, ainda não está satisfeito. Sonha em partir para um programa igual, só que de política: “Mas isso só depois de configurada a abertura. Eu não vou fazer um troço que nem o Planeta dos Homens, que acaba enaltecendo os políticos. O negócio vai ser gozado, mas de porrada”.

Ainda falta uma hora para o programa começar, e protegidos por um biombo, Alaor Coutinho e Sérgio Leite vão fazendo paródias. A do Corinthians tem por base o partido-alto “Perdoa” de Paulinho da Viola, a quem Sérgio imita com perfeição. Certa vez, Sérgio imitou Chico Buarque, numa paródia sobre a Seleção, e alguns jornais chegaram a publicar que o compositor era o mais novo contratado do Show de Rádio. Alaor se queixa:

“Tou frio hoje bicho”.

Ao lado, Sangirardi tem um ataque de riso. Acabou de bolar um novo quadro: toca o telefone e uma voz de mulher (Alaor) igualzinho aquela do CVV atende: “CBD, boa noite”. Do outro lado da linha: “Preciso de ajuda. Sou jogador de futebol e estou desesperado. Jogo terça, quarta, quinta, sexta, sábado, domingo. Não, segunda não!!”. Na sequência, um locutor anuncia que Nabi Abi Chedid está pleiteando a inclusão de mais um dia da semana.

Dentro do estúdio, técnico e locutores morrem de rir, quase como amadores. Sanja, Alaor, Sérgio, Escova e Odair acotovelam-se. Agora o imitado é Walter Abrahão, que vai para o ar com o nome de Walter Cobrão – “tá gordo; beservem, senhores”. E anuncia os novos e inéditos filmes da TV Jupi: “Bonanza, Nacional Kid, aquele que avôa, Minha amiga Flika...”.

O relógio eletrônico está marcando 20 horas em ponto, e da equipe só sobrou Sangirardi. Ele faz um sinal com o polegar para o técnico, código que significa que vai terminar o Show de Rádio. Deixa o estúdio e, com a fisionomia séria, grita:

“Arquibaaaald, Arquibaaaald...”.

Não era mais o Sanja. Era o Didu Morumbi.

 

A turma que vive na cuca do Sanja

 

Lança-chamas e o amor pela Vila

Lança-chamas ainda vive em 1963. Até hoje ele comemora (com quatro garrafas de cachaça por dia) a conquista do bicampeonato mundial pelo Santos. Para aguentar este homérico porre, só mesmo o seu fiel amigo Zé das Docas, que, com a musculatura possante de estivador, costuma servir de bengala ao Lança. De madrugada, ambos podem ser vistos caminhando trôpegos pela bacia do Mercado – Zé levando o companheiro para ao albergue noturno. Quando Pelé deixou o Santos, em 74, Zé foi um dos guarda-costas do Rei. Naquele dia, ele arrumou uma camisa 10 para o Lança, que curtia a dor-de-cotovelo de despedida em mais uma bebedeira. Olhando de perto, a gente percebe que a camisa já foi branca.

 

Morumbi em petit comitê

Didu Morumbi acordou com o tilintar do telefone lilás. Do outro lado da linha, seu amigo Giscard (d´Estaing) convidavao-o para um petit comitê no Eliseu. Oh, dúvida cruel: no mesmo horário, ele teria um jantar de negócios com Henry (Ford III), em Nova Iorque. Era um problema sério. Colocou o robe de seda chinesa e perambulou pelo tríplex de cobertura. Na biblioteca cinza-ratinho, o mordomo Archibald já havia arrumado o braeakfast – salmão e suco de cenoura. Dois eram os motivos para dor de cabeça: o pilequinho dc “Veuve Clicquot” da noite anterior (acompanhado de Zózimo, Maitê d´Orey e seu xará Souza Campos), e mais uma derrota do São Paulo. Disgusting.

 

Joca nos marafos da vida

Joca deu um pontapé no despacho, fazendo voar marafo, velas, charutos e desmanchando o ponto riscado no chão com a pemba. Estava furioso: o Curingão empatara com o São Bento. Nesse instante, uma voz retumbou dentro do barraca: “que qui é isso, tá me estranhando?” Era Jojó (São Jorge), prevenindo que não atuaria outro desrespeito. Coitado do Joca, este equilibrista da vida. Sofre com o Curingão, aguenta, o bode Balthazar que vive dizendo “mééé, assim não da pééé” e mora com a Nega que, por sinal, é muda. Mas teve um dia em que a Nega falou. Foi quando o Corinthians conquistou o título paulista, há dois anos. Naquele dia, São Jorge apeou do cavalo e operou-se o milagre.

 

Fumagalli e o Palestra

O comendador Fumagalli alisou a pança. Havia acabado de devorar um pratarrão de fettuccine ai pesto, preparado e servido por um velho amigo. Acariciou a cabeça de Waldemar Fiúme, o cachorro que fala, e liquidou o resto de chianti. A noninha surgiu com uma garrafa de anisete, tudo para comemorar a liderança isolada do Palestra. “Ah, o Palestra” – pensou o comendador – “só da satisfaçon pra gente”. Do armário, a noninha trouxe o velho bandolim, uma herança da família Fumagalli, onde começou a dedilhar uma cançoneta napolitana. A sala se encheu com a voz possante do comendador, que aproveitou a ocasião para conclamar os presentes a outro brinde. Ao Palestra, naturalmente.

 

Publicado originalmente no Jornal da República em 16 de outubro de 1979, edição 44

quarta-feira, 15 de setembro de 2021

Grandes matérias esportivas do Jornal da República: "A vida torta de Mané Garrincha" (27/08/1979), Ricardo Kotscho, Jornal da República

PIRAPOZINHO, 26 - URGENTE- Apareceu aqui hoje, nas barrancas do Paranapanema, um cidadão de nome Manuel Francisco dos Santos, dizendo-se Mané Garrincha. A notícia da sua presença colocou em polvorosa esta pequena cidade de 30 mil habitantes. “Mas ele não está doente no Rio?”. Hospedou-se na pensão do Morais, junto com a equipe do Milionários F.C. Ganhou buquê de flores, placa de prata e beijos de moças bonitas, no Estádio Municipal. O juiz apita, Garrincha com a bola. O lateral-esquerdo, Antônio Carlos, 25 anos, o Bunda Baixa, vai em cima dele, Garrincha faz que vai, mas não vai, a torcida dá risada. Viajou 1.100 quilômetros, oito horas e meia de ônibus, para jogar 45 minutos e ganhar seis mil cruzeiros de cachê. Saiu de campo suado, sujo e feliz.

 

A vida torta de Mané Garrincha

 




Da alegria do povo à obscuridade de um treinador de meninos

 

RICARDO KOTSCHO

 

Dias atrás na televisão, a voz cavernosa de Sargentelli fazia um apelo dramático ao presidente da República para ajudar o Mané, dar pelo menos uma casa para ele morar. Enquanto as imagens mostravam seus dribles e gols fantásticos, ficava a impressão de que do velho ídolo só restara um indigente sem teto. Um dos seus poucos amigos de depois da queda, porém, me garantiu que Garrincha tem várias propriedades em Pau Grande, apartamento alugado no Rio, casa com piscina em Bangu, dinheiro emprestado (10 mil cruzeiros por mês em promissórias), e um salário de 23 mil cruzeiros como técnico da futebol da Legião Brasileira de Assistência.

Manoel Francisco dos Santos, o Garrincha famoso, agora apenas um Mané, havia voltado às manchetes no começo de agosto. Internado às pressas num hospital carioca, falavam que ele estava muito mal, na maior miséria, maluco, à beira da morte, mas ninguém explicava direito o que aconteceu. E  depois não se falou mais nele. Sempre foi assim na vida desse menino de uns 45 anos (nem sobre a sua idade entra-se em um acordo), com nome de passarinho vira-lata (Garrincha, ele mesmo explica, é passarinho vadio até para cantar) e um montão de filhos (contando nos dedos e puxando pela memória, lembra de pelo menos doze). As fotografias publicadas pelos jornais quando ele foi internado eram assustadoras, o rosto inchado, disforme, coisa daqueles retratos de Greta Garbo depois de velha. Foi só uma disfunção intestinal, diziam umas notícias, outras falavam em alcoolismo crônico e havia mesmo quem jurasse que a grave doença de Garrincha era a saudade.

Saudade do quê, de quem? Saudade dele mesmo, do Garrincha que brincava com a bola como Chaplin com o cinema e por onde passava com suas pernas tortas se divertia, divertindo os outros. “Seu problema é imaturidade emocional” – diagnosticou o médico Carlo Henrique Melo, que cuidou do nosso Carlitos no quarto 209 da Casa da Saúde Ênio Serra. “Enquanto jogava, mostrava no desempenho da profissão um raciocínio rápido. Quando parou, entrou numa fase de depressão e regrediu emocionalmente”. Garrincha estava com hipertensão arterial, encefalopatia hipertensiva e perda de consciência quando foi levado ao hospital por sua atual companheira, Vanderléia (viúva do ponta-direita Jorginho Carvoeiro, que morreu de leucemia), numa noite de sábado. Ela o encontrara num bar em Bangu, onde mora hoje com os pais de Vanderléia, com um jeito muito esquisito, calado e arredio, justo ele que não trocava nada por uma boa brincadeira. Ainda no hospital, ainda drogado, ele só chamava por Nílton Santos, seu maior amigo, compadre e confidente. Mas não o reconheceu quando Nílton foi visita-lo.

Foi sem muitas esperanças de falar com ele – “O Mané não está dizendo coisa com coisa”, me desanimaram no Rio – que fui encontra-lo há dez dias na velha colônia de férias do Ministério da Fazenda em Paulo de Frontin, pequena cidade da região serrana, a 80 quilômetros do Rio. Além do mais, dizia-se, haviam montado um verdadeiro cordão sanitário em torno de Garrincha com psiquiatras, neurologistas, assistentes sociais, psicólogos e o diabo para apressar a sua recuperação.

O velho casarão no topo da serra parecia abandonado e foi com muito custo que encontrei alguém para perguntar pelo hóspede ilustre – e único, naquela quarta-feira fria e chuvosa de inverno. Eram quatro horas da tarde e Garrincha estava no quarto assistindo a desenhos animados na televisão com sua filha Márcia (19 anos, a única das suas filhas que mora com ele; nascida da união dele com dona Iraci, colega de fábrica em Pau Grande, para a casa de quem sempre voltou quando brigava com seus amores no Rio).

De calção, camiseta e chinelos, andando lentamente e com o corpo mais curvado que de costume, fios brancos invadindo o cabelo e a barba, tinha tudo de um Garrincha aposentado, mas não de um Garrincha doente à beira da morte. Cumprimentou-me com a alegria de um velho amigo – e eu que nunca o havia visto na vida – e foi logo falando do passarinho que pegou, um tranca-ferro bonito. O passarinho, ficaria sabendo depois, não foi ele quem pegou, pertence a um empregado da colônia. Mas Garrincha tinha razão, ou alguém duvida que ele iria ficar com o passarinho? No seu mundo, não há, nunca houve, uma separação nítida entre realidade e fantasia.

Antes que lhe fizesse qualquer pergunta, a caminho do imenso salão de refeições da colônia, onde passamos sentados o resto da tarde recolhendo fragmentos de sua vida, Garrincha foi logo dizendo: “Agora, não tenho mais nada, gente boa. Mas passei um susto danado...Foi aquela maldita pimenta...Eu estava pensando que era herói, comendo uma danada de uma pimenta...Não sou herói mais não...”.

Faz uns quatro meses que as coisas começaram a piorar para o seu lado, desde que Elza Soares, de quem se separou há uns dois anos, não o deixou mais ver o seu filho Manoel Garrincha dos Santos, de três (o primeiro filho homem, depois de tanta mulher, que ele ficou nascer) e pela primeira vez na vida Mané virou “João” e entrou em desespero, passou a beber conhaque de manhã, o dia todo, a qualquer hora. Bem, Elza alega nas conversas com amigos que se separou de Garrincha porque ele já estava bebendo demais “e eu não quero ver o Mané morto na minha cama”. Segundo o Garrincha, Elza o traiu. Seja como for, o homem lembrado como tudo começou não tem mais nada de “Garrincha, a alegria do povo”. É um homem triste, mas que não deixa de rir da própria desgraça. Só fica feliz mesmo quando lembra do passado.

Dá uma longa espiada em volta, acende um cigarro. “Sabe, se eu tivesse que ficar um ano todo aqui não teria problema. Eu vivo bem em qualquer lugar. Jogador de futebol não tem pátria, um dia está aqui, outro dia na Arábia Saudita, na Arábia maldita, qualquer lugar...” E dá risada. Só que agora ele não é mais jogador de futebol, o riso fica parado no meio do caminho, mas ele não desiste. Lembra logo o convite que recebeu do governo de Honduras para passar 15 dias lá “treinando meninos”.

“Não fui porque me ofereceram muito pouco, 2.500 dólares. Ainda se fosse uns cinco mil dólares, já daria uns 20 mil cruzeiros, né? Aí eu iria. Nunca fui doido por dinheiro, mas agora já ligo um pouquinho”. Se não for para ganhar muito dinheiro diz que prefere treinar os meninos da LBA. “Levo esse trabalho muito a sério. Treinar criança de família pobre é bom, porque não é para ganhar jogo, só para tirar as crianças dos vícios das ruas”. Ao lado de outros ex-jogadores, como Vavá, Jair da Rosa Pinto, Índio, Garrincha é um professor ambulante que vai treinar meninos em Caxias, Nilópolis, São João do Meriti, Piabetá.

“Oito desses meninos hoje são profissionais. Está frio, né? Espera um pouco que vou tirar meu passarinho lá de fora”.

Mais um café, outro cigarro, as lembranças de Garrincha agora param no “jogo da gratidão”, em 73. “Até o Pelé jogou, o Maracanã estava cheio. Mas teve muito roubo. Só me deram um milhão e trezentos, já viu uma coisa dessas? O Maracanã cheio...Aí a Elza cismou de comprar uma churrascaria, aquela lá perto do campo do América, o Bigode do Meu Tio. Mas se eu não entendo nada de churrascaria, nem ela, roubaram a gente, né? Em três meses, deu 300 mil de prejuízo. Mulher quando cisma com uma coisa, sai de perto...Vem com uma conversa mansa, uma conversa boa...” Garrincha não conta, mas com o dinheiro do jogo cismou de comprar também uma Mercedes e uma casa na Barra da Tijuca. Exatamente dez anos ante desse jogo beneficente, ele estava no auge da carreira. Voltara do Chile como o grande herói do bicampeonato mundial. Chovia convites e o Botafogo jogava quase todo dia, batendo em todo mundo. Tinha acabado de dar 3 a 0 no Fluminense, três gols de Garrincha, quando num amistoso na Bahia, um certo lateral esquerdo de nome Pesão caiu em cima da sua perna direita, afetando o joelho. Levado por um amigo para o Hospital dos Acidentados, no Rio, foi-lhe recomendado pelo médico Mário Jorge Carvalho um tratamento sério, três meses de absoluto repouso. Mas o Botafogo tinha uma excursão marcada para a Itália e se Garrincha não fosse sua cota seria cortada pela metade. E lá foi Garrincha com o joelho inchado – “tiravam o derrame com uma injeção e depois faziam uma infiltração, eu sei que fiz seis jogos”. O suficiente para o Juventus comprar seu passe por 700 mil dólares. “Cheguei a posar com a camisa do Juventus e tudo, ia ganhar uma nota, mas aí o presidente do Botafogo, o Paulo Azeredo, pediu um milhão de dólares e não deu certo o negócio”.

Garrincha renderia um bom dinheiro para o Botafogo, que o vendeu já arrebentado para o Corinthians em 1966. Depois da Copa da Inglaterra, foi contratado pelo Flamengo. O técnico Tim garantia que ainda recuperaria Garrincha, até que encontraram uma garrafa de pinga debaixo da sua cama na concentração. Acabou indo para a Itália. Ainda esperava fazer um bom contrato. Mas o único que conseguiu foi o de relações públicas do Instituto Brasileiro de Café. “Até que eu não me queixava. Mas a Elza cismou de vir embora para o Brasil e começou a desgraçar. Entrou um tal de Camilo no IBC e me mandaram embora de lá. Disseram que não queriam nada de futebol no IBC, mas eu não estava lá como jogador...Era relações públicas...Eu gostava lá da Itália. Quer dizer, tinha o inverno, mas você precisava ver que roupas bonitas eu usava lá no inverno. Brasileiro era o que não faltava lá em casa. E todo mundo levava uma cachacinha...Mas eu gostava mais de conhaque, por causa do frio. Eu gostava porque na rua os caras não entendiam nada do que eu falava. Entrava num bar e falava pro cara: o arrombado, me dá uma caninha aí. E o cara lá, naquela: Que parla?, que parla? Aí eu falava: Que parla nada, dá uma coca-cola mesmo...

Na volta ao Brasil, Garrincha ainda jogaria no Olaria, na Portuguesa carioca, andou por vários cantos, mas não tinha mais jeito e ele não se conformava, de ter deixar o futebol. Por isso, desde aquele seu jogo de despedida em 73, voltou mais ao Maracanã. “O futebol hoje está muito diferente. Muito toque de bola, demora para chegar no gol. Nosso negócio sempre foi contra-ataque, jogadas rápidas, os gringos ficavam loucos com isso. Parece que escreveram para eles: você pega a bola, faz assim, faz assado e se não dá certo eles ficam perdidos. Desse pessoal que está aí só gosto do Júlio César, do Flamengo, que vai lá na linha de fundo que nem eu”.

Além das lembranças, ele não cuidou nada nesses tempos em que ia à linha de fundo e centrava, meio gol feito. Sua espingarda ele deu de presente a um amigo quando saiu de Pau Grande e foi morar no Rio, em 63. (“Quando a gente vai para a cidade desacostuma tudo, não gosto mais de matar, não, não tenho coragem, só pego passarinho no alçapão”). E o roupão da Copa de 62 foi-se embora. Estava fazendo frio em Pau Grande, Garrincha estava com o roupão, veio um amigo reclamar que nunca ganhava nada dele. E Garrincha ficou só de sunga. “Só tenho uns troféus, mas também estou dando. As pessoas guardam para mim, mostram para as visitas e assim todo mundo lembra do Garrincha. Que adianta ficar nos caixotes lá em casa, não tenho onde por?...”.

De tantas vezes que mudou de casa nos últimos tempos ele nem tem ânimo de tirar os troféus das caixas. “Olha, se eu não mudei de casa umas 17 vezes com a Elza, foi pouco. A mulher parecia cigana. Ás vezes eu até saia para a rua, só pegava o endereço novo e falava: de noite apareço lá”. Sua última parada é a casa dos pais de Vanderléia, no Rio da Prata, em Bangu, onde mora há quase dois anos. “Mas o velho está querendo a casa de volta, porque quando chove molha dentro...”. Ao se referir às suas famílias, ele fala “o pessoal de Bangu, o pessoal de Pau Grande, o pessoal do Rio”. No dia dos pais foi pessoal de todo lado visita-lo na colônia de férias, tanta gente que Garrincha teve de almoçar duas vezes. Só faltava encontrar o compadre Nílton Santos. “O cumpadre dizia sempre que a maior felicidade dele foi jogar sempre no meu time, se não ele tava liquidado...”.

Vieram avisar que estava na hora de jantar. Fazia frio em Paulo de Frontin e nada de se conseguir localizar algum médico que desse alta para Garrincha. “Eu quero ir embora daqui, já estou bom. Me telefonaram hoje de São Paulo convidando para ser técnico do Milionários. Mas logo eu? Tem tanta gente, o Dudu, o Djalma Santos, o Bellini, eu vou falar o quê para eles, como eles devem jogar? Eu mesmo falar comigo mesmo como devo jogar, já viu uma coisa dessas? Eu quero é jogar. Semana que vem a gente se vê em São Paulo. Toma cuidado aí com a estradinha, de noite é muito perigoso”. De noite contei essas histórias para o psiquiatra Eros Sucena Martins Teixeira, um dos fundadores do “Grupo de Psico-Síntese”. Que sintetizou: “Garrincha é um anjo”.

 

Publicado originalmente no Jornal da República em 27 de agosto de 1979, edição 1

segunda-feira, 30 de agosto de 2021

A trajetória de Orlando Drummond (1919-2021) no cinema: 101 anos em três comédias populares

 

Foram mais de 100 anos de vida. O ator, comediante e dublador carioca Orlando Drummond (1919-2021) nunca foi um ator dedicado a sétima arte. Ele ficou conhecido nacionalmente pelo personagem Seu Peru na Escolinha do Professor Raimundo da TV Globo. Natural de Vila Isabel e torcedor do Fluminense, Drummond construiu uma longa carreira na dublagem. Neste ramo tornou-se um dos mais ativos e requisitados profissionais brasileiros sendo responsável pela dublagem de personagens como Scooby Doo, Leão da Montanha, Popeye, Gargamel dos Smurfs, Bibo Pai, Hong Kong Fu e o extraterreste Alf, o teimoso. O jornalista Victor Gagliardo é autor da biografia do ator e dublador: Orlando Drummond, Versão Brasileira publicada pela editora Gryphus em 2019. Gagliardo afirma que o ator teve pequenas participações em cinema porque se dedicava mais ao rádio e a dublagem. Quando os principais artistas migraram do rádio para TV, ele até fez esse caminho mas não abandonou o rádio que era uma grande paixão em sua vida. Somando a dublagem, ele não teve tanto tempo para se dedicar à TV e ao cinema, ressalta o escritor.

Orlando Drummond fez sete longas-metragens como ator. De fato foram participações pequenas, reconhece Gagliardo. Mas isso nunca o incomodou. Ele sempre fez questão de fazer o seu trabalho da melhor forma – independente do papel. A dublagem permitiu ele criar muitos personagens que ficaram eternizados na história. Mesmo assim, separei três papéis de diferentes momentos do ator e dublador em comédias populares brasileiras.


O Rei do Movimento” (Brasil, 1954)

Direção: Victor Lima

Companhia produtora: Cinedistri Produção e Distribuição Audiovisual Ltda.

Companhia co-produtora: Cinelândia Filmes

Produção: Eurides Ramos

Produtor associado: Osvaldo Massaini

Argumento e roteiro: Alípio Ramos e Victor Lima

Direção de fotografia: Hélio Barrozo Netto

Montagem: Hélio Barrozo Netto

Elenco: Ankito, Carlos Tovar, Gilberto Martinho, Wilson Grey, Janete Jane, Margot Morel, Suzy Kirbi, Costinha, Carlos Duval, Paulete Silva, Billy Davis, João Celestino, América Cabral, Almeidoca, Grijó Sobrinho, Jesus Ruas, Wilson Viana, Orlando Drummond e Amadeu Celestino.

Crítica:

Cotação: ***


Letreiros iniciais de "O Rei do Movimento" de Victor Lima

Chanchada bem produzida dentro dos padrões do gênero e funciona como um veículo para o comediante Ankito (1924-2009). Co-produção da produtora carioca Cinelândia Filmes e da empresa paulista Cinedistri mas toda filmada no Rio de Janeiro. Desta vez, Ankito interpreta o atrapalhado carteiro Clementino que anda sempre atrasado e não é feliz na sua vida profissional. Sou sonho é ingressar na vida artística mas continua trabalhando nos Correios. O protagonista sempre chega atrasado no seu lugar de trabalho e mantém um relacionamento amoroso com Carolina, filha da dona da pensão onde mora. Clementino acaba envolvendo-se em diversas situações cômicas quando vai entregar suas correspondências. Ele escolhe um bairro grã-fino para realizar seu trabalho mas mesmo assim se mete em várias confusões.

Uma das situações mais engraçadas é quando um maluco (Costinha) o persegue com uma espingarda. Uma cena digna do melhor do cinema mudo de humor. O filme trabalha muito com o humor mudo, não existem muitas falas para Ankito. Ele consegue fazer graça durante muitos episódios. Tudo vai bem para Clementino até quando o temível Bandido Mascarado começa a fazer uma série de crimes na cidade. O recordista Wilson Grey faz uma pequena ponta como um dos colaboradores do bandido principal.

As atrações musicais de "O Rei do Movimento"

Ao mesmo tempo, Carolina consegue que Clementino faça uma participação no show do conhecido mágico Martino (Carlos Tovar) para um show de hipnotismo. Um dos melhores trabalhos de Ankito destacando-se como cômico e levando o filme no peito. As situações cômicas são somadas a bons números musicais com nomes de destaque da época como a cantora Ângela Maria (bastante nova), o sambista Blecaute, a Emilinha Borba (cantando em homenagem a Marinha) e até o bossa-novista Lúcio Alves cantando Valsa de Uma Cidade do compositor e radialista Antônio Maria. O Rei do Movimento estreou no Brasil no mesmo momento que filmes clássicos norte-americanos como Sete Noivas Para Sete Irmãos de Stanley Donen e Janela Indiscreta de Alfred Hitchcock estrearam. Os críticos da época comparavam Ankito com Oscarito. Acredito que seja uma tremenda injustiça. São dois atores cômicos de formações diferentes. Ankito vinha do circo e de família circense. Já Oscarito era um ator formado no teatro de revista. Ambos dois excelentes cômicos com público cativo. Foram duas estrelas da época. A chanchada tinha espaço para ambos.

Uma pena que o Canal Brasil, a TV Cultura e outros canais terem tirado seus espaços dedicados exclusivamente para as chanchadas. A TV Brasil da EBC é uma honrosa exceção. As comédias musicais da década de 1950 eram a cara do Brasil, faziam um sucesso com um público cativo. “O aspecto cultural mais marcante dessas comédias foi a divulgação daquilo que os críticos elitistas da época chamavam de “filosofia barata”. E bem poderia ser diferente, pois muitos espectadores eram ainda analfabetos e preferiam o cinema nacional porque não podiam entender as legendas das fitas importadas” (PIPER, 1977, p. 30).


Comentário sobre a participação de Orlando Drummond:


O nome de Orlando Drummond nos créditos de "O Rei do Movimento"

Este é o primeiro longa-metragem de Orlando Drummond como ator. Ele aparece durante exatos 34 segundos. Ele interpreta Natanael, o dono de uma joalheria roubada pelo perigoso bandido Mascarado.  Na realidade, esse nome consta em todos os dicionários e referências. Mas no filme mesmo o personagem não tem nome sendo o gerente da joalheria. É um papel bem pequeno e rápido. Talvez numa maior produção com mais recursos seu papel poderia ter sido mais bem explorado. Como não tive acesso a cópia de Angu de Caroço, longa-metragem feito no ano seguinte por Ankito e Orlando não dá para saber se ele recebeu um papel maior. Mas seu nome aparece nos fins dos créditos.


Repositório (críticas e matérias sobre o filme em seu lançamento e algo em livros):

 

"O Rei do Movimento" foi uma co-produção Cinelândia Filmes e Cinedistri

MUITO REAL- Contam na madrugada que o artista Wilson Grey, durante as filmagens de “Rei do Movimento” e quando contracenava com Ankito, este atleta que é, atirou-lhe uma barrica com tal veemência que o pobre Grey, com aquele corpinho que a natureza lhe deu, foi parar no Pronto Socorro, tendo que fazer “pontajour” no lábio superior. A revelação de “Matar ou Correr” estava mesmo sem sorte. Voltando ao “set”, foi atacado por dois cães policiais, também personagens do filme, que o deixaram em frangalhos por dentro e por fora...Até o momento, o Grey não voltou a circulação e está recolhido em sua residência. Deitado e de bruços.

Publicado originalmente no Diário da Noite em 15 de fevereiro de 1955


Circuito paulistano de "O Rei do Movimento": muitas salas com o filme em seu lançamento

O REI DO MOVIMENTO” EM BENEFÍCIO DA CASA DO ATOR

A Cinedistri vai apresentar, dia 30 próximo, ás 22 horas, no cine Paramount, o filme “O Rei do Movimento” em sessão cuja renda reverterá em benefício da Casa do Ator. Trata-se de uma comédia protagonizada por Ankito, Janete Jane, Carlos Tovar e outros com a participação de Angela Maria, Lúcio Alves, Emilinha Borba, Blecaute e outros. Comparecerão à sessão da Paramount os astros do filme e os cantores afim de emprestar maior brilho ao espetáculo”.

Publicado originalmente no Correio Paulistano em 12 de maio de 1955


 

“O REI DO MOVIMENTO”

Circuito comercial de "O Rei do Movimento" no Rio de Janeiro

Tive uma boa surpresa com esta comédia “O Rei do Movimento” que a Cinedistri apresenta no Art e Broadway, além de outros vinte cinemas, estrelada por Ankito, que se revela o maior concorrente de Oscarito na preferência do nosso público pelas comédias musicais típicas do cinema brasileiro. Trata-se de um espetáculo muito bem realizado, tanto sob o ponto de vista da história, da cenarização, do som e da fotografia, como da atuação dos principais intérpretes, conscientes do papel que apresentavam e imprimindo a maior dose de veracidade a todos os seus gestos e atitudes.

Defeitos há, mas são tão insignificantes, que, diante do conjunto harmonioso de fatores de criação do filme, que nem sequer contam no balanço geral. Hélio Barrozo Neto responsável por três setores importantes: fotografia, corte e som, realiza um admirável trabalho, dando a esses elementos uma perfeição realmente elogiável. A direção de Victor Lima, por sua vez, soube conduzir a ação num ritmo vivo e interessante, movimentando os intérpretes com perfeito domínio de cena, fazendo Ankito viver sua parte e não apenas representa-la, o que produziu os melhores resultados.

A história e a atuação de Ankito, porém, é que se impõe, principalmente, perante o espectador, proporcionando-lhe divertidos momentos sobre as aventuras de um carteiro. Depois das cenas iniciais, que não prenunciavam nada de bom com o Carlos Duval falando na cumbuca, é que a fita realmente começa a ficar boa. Toda a sucessão de cenas das entregas de correspondência no bairro grã-fino e suas respectivas ilustrações cômicas, como a avantajado bebê, do maluco caçador de borboletas, a fuga e o banho inesperado, - é da melhor qualidade como comédia. Mas, o que vem depois também não lhe fica atrás, com ligeira exceção para a cena da televisão na pensão, logo superada com as trapalhadas no teatro e a divertida fuga, até o final, sempre provocando gostosas gargalhadas na plateia.

Ankito, dono de um estilo pessoal de comediante, socorre-se de suas habilidades de antigo ginasta (da dupla Anky e Mori) para melhorar ainda mais as suas cenas cômicas. Tudo quanto faz é bem feito, natural e convincente. É o grande fator de êxito de “O Rei do Movimento”, um espetáculo divertido, que satisfaz plenamente.

WALTER ROCHA”.

Publicado originalmente no Correio Paulistano em 9 de junho de 1955

 

"O Rei do Movimento" teve lançamento em todo Brasil 

FILMES DA SEMANA

(...)                            

Definitivamente insignificante, entre tudo isso, é o cinema brasileiro num dos seus piores vícios: a chanchada. Em “O Rei do Movimento”, onde aparece Ankito comandando todas as escolas de samba da Cidade...

Publicado originalmente no Jornal do Brasil em 3 de julho de 1955

 

“CINEMA: O REI DO MOVIMENTO

Mais uma vez um filme nacional de Alípio Ramos, desta vez sem formar dupla com o mano Eurides, por isto que foi escrita em parceria com Victor Lima e dirigida pelo último. Não sabemos se a pressa com que são feitos os filmes da Cinelândia ou que motivos outros impelem os seus produtores para as mesmas falhas. O certo é que “O Rei do Movimento” continua sendo fiel ao padrão, com as mesmas bobagens, idênticos erros e péssima realização. Não é possível compreender como Alípio Ramos que teve um começo acertado em “Querida Suzana”, desandou a realizar fitinhas que fazem nosso cinema retroceder, sem nada que mereça a pena ser levado em conta. “O Rei do Movimento” em que se pese a entrada de Victor Lima, foi finalizado com recursos de puro pastelão, autênticos do tempo em que tivemos aquelas fitas cômicas que fizeram rir nossos avós. Mesmo assim, a sua realização é mal-feita, sem espontaneidade e com as situações das mais forçadas, dando motivo ainda para encaixar números do rádio e pastorinhas mas tudo na maior pobreza e de indumentária. Uma palhaçada que entristece, em vez de agradar. E maior pena dá ainda ver artistas como Carlos Tovar, se prestar a papéis como que apresenta nesta fita. O próprio Ankito, palhaço que disputa a Oscarito as honras das chanchadas, poderia ser melhor aproveitado, ao menos pelos seus recursos de acrobata. Mas o filme desfila ainda vários nomes como Margot Morel, Jeanette Jane e outras e outros, mas tudo tão mal posto, que não se sabe a que fim aparecem. E como não poderia faltar nesses filmes de baixa categoria, lá estão os números de rádio, com Emilinha Borba, e desta vez, Angela Maria, ridícula, provando que deveriam continuar exclusivamente ausentes das telas, sejam de cinema ou de televisão. Que juízo farão aqueles que assistirem aos nomes do nosso rádio em situações tão esdrúxulas? É verdade que ainda aparece Black-Out, outro que não se atura nem de costas e com algodão nos ouvidos, além de Lúcio Alves e companhias...E como se não bastasse, no filme ainda se ouve a voz de Francisco Alves. Vamos deixar de profanar os mortos...A fotografia e o som de Hélio Barroso Neto não está má! “O Rei do Movimento”, não é fita, é atoleiro, onde se afunda cada vez mais o cinema nacional...

PEDRO LIMA”.

Publicado originalmente no “O Jornal” em 8 de julho de 1955


Ankito (ao centro) é o personagem central de "O Rei do Movimento" 

 

0

O REI DO MOVIMENTO

Nova produção dos irmãos Ramos invariavelmente péssima. Estes produtores, com a prática adquirida com uma série de filmes, já estariam obrigados a nos oferecer trabalhos mais dignos ou pelo menos de nível técnico mais consolador. Nada acontece e O Rei do Movimento é uma prova irrefutável da capacidade de ambos, como diretores e produtores. O filme é mal feito, a história não se considera, os atores péssimos (incluindo Ankito), os números musicais calamitosos, sobretudo o de Emilinha Borba.

Publicado originalmente em “Diário de Pernambuco” em 31 de julho de 1955



Propaganda de "O Rei do Movimento" em seu lançamento comercial

O Rei do Movimento tem no elenco Costinha, Heloísa Helena, Billy Davis, Margot Morell e Carlos Tovar, que se tornaria, depois deste filme, um grande amigo de Ankito. Angela Maria lançou, nesse filme, a música Escuta de Ivon Cury. O ator passa por coisas inesquecíveis, como quando Ankito se esconde embaixo de uma mesa, onde algumas pessoas estão sentadas. Um homem de pernas cruzadas, sacode o pé, quando Ankito se aproxima, sente um chulé, que entranhou em suas narinas e fez com que ele fizesse o gesto instintivo de torcer o nariz e passar o dedo. Esta cena está registrada no filme e o chulé na memória !”. Retirado de Ankito: Minha Vida...Meus Humores de Denise Casais Lima Pinto.

 

 Bonga, o Vagabundo” (Brasil, 1971)


Direção: Victor Lima

Companhia produtora: Produções Cinematográficas Herbert Richers S.A.

Produção: Herbert Richers

Argumento: Victor Lima e Renato Aragão

Roteiro: Victor Lima

Direção de fotografia: Antônio Gonçalves

Montagem: Victor Lima

Elenco: Renato Aragão, Maria Cláudia, Neila Tavares, Jorge Doria, Ronaldo Canto e Mello, Angelo Antonio, Leda Vale, Lúcia Palermo, Amandio, Orlando Drummond, Nilton Braga e Monica Dias.

Crítica:

Cotação: **


Letreiro de "Bonga, o Vagabundo" de Victor Lima

O ator Renato Aragão sempre teve uma admiração confessa por dois grandes cômicos: o brasileiro Oscarito e o inglês Charles Chaplin. Este último em especial é a principal referência quando o ator cearense faz seu personagem Bonga. Este é o quinto longa-metragem da carreira de Aragão que tinha 36 anos quando essa produção foi lançada. O argumento é dele próprio sobre Bonga, um vagabundo que mora perto do Rio de Janeiro. O rapaz vive de pequenos golpes para conseguir comer e um dia acaba conhecendo Ricardo (Ronaldo Canto e Mello), jovem rico na entrada de uma boate. Mas o rapaz grã-fino acaba gostando da humildade e do jeito de Bonga. Os dois criam uma amizade. Logo nesse primeiro encontro na boate acontece um conflito entre eles e um grupo de rock comandado por um personagem vivido por Angelo Antonio. É também ali que conhecemos a personagem Maria Clara (Neila Tavares), uma moça apaixonada por Ricardo mas desprezada pelo próprio.

Tempos depois, Bonga acaba conhecendo a jovem Sônia (Maria Cláudia) que segundo a própria está “curtindo uma fossa”. Os dois passam a aplicar pequenos golpes e colecionar aventuras. O caldo começa a engrossar quando o pai de Ricardo vivido por Jorge Doria começa a cobrar que o filho comece a trabalhar e consiga uma noiva. Ricardo irá iludir a jovem Maria Clara para isso. Mas ela irá tomar um porre homérico sendo substituída por acaso por Sônia que começa a gostar do grã-fino.


Renato Aragão em "Bonga"

O humor de Bonga, o Vagabundo é bastante pueril e mesmo infantil. Victor Lima é um diretor especializado no cinema artesanal. O filme começa muito bem e com poucas falas parecendo mesmo comédias antigas de Charles Chaplin como Carlitos. Mas a coisa só vai bem até o meio. Depois parece que perde o tempo e vira uma comédia romântica meio perdida. Mas tem seus momentos. Parece que Renato Aragão sempre conseguia render melhor quando estava com seus colegas de Trapalhões (Dedé Santana, Mussum e Zacarias). Aragão voltaria a fazer o personagem Bonga em Os Vagabundos Trapalhões (1982) de J.B. Tanko. Mas aí já estaria ao lado dos seus companheiros habituais de trapalhadas e o resultado final seria bem melhor.

 

Comentário sobre a participação de Orlando Drummond:

Orlando Drummond entre os últimos nomes dos letreiros de "Bonga, o Vagabundo"

O ator e dublador Orlando Drummond faz uma pequena participação como um garçom da falsa festa de casamento entre Ricardo (Ronaldo Canto e Mello) e Maria Clara (Neila Tavares). Ele aparece em duas cenas. Juntando tudo dá em torno de dois minutos e o personagem não tem nenhuma fala. Drummond aparece vestido de garçom meio embriagado tentando comer uns salgadinhos escondido. Mas Bonga (Renato Aragão) e Sônia (Maria Cláudia) acabam roubando quase todos os salgadinhos que Orlando Drummond ia comer.

Orlando Drummond em cena de "Bonga, o Vagabundo"

O escritor e jornalista Vitor Gagliardo escreveu a biografia de Orlando Drummond. Ele detalha a relação entre o ator e Renato Aragão. Eles tinham uma relação de respeito profissional. Bonga, talvez, seja o filme mais conceitual do Renato Aragão. Tem uma cena icônica do Drummond com o eterno Didi nos Trapalhões. Orlando foi convidado para fazer uma participação como o Popeye. Didi era o esperto interessado na Olivia. O mais interessante foi analisar a forma como Drummond dublava o marinheiro. Por causa do cachimbo, a sua boca está quase sempre fechada. Foi muito legal, pois a dublagem em si não tinha tanto espaço nos programas de televisão e não tinha redes sociais.

  

Repositório (críticas e matérias sobre o filme em seu lançamento e algo em livros):

 

BONGA, O VAGABUNDO”

Produção brasileira em cores. Direção de Vitor Lima com Renato Aragão, Maria Cláudia. Argumento de Renato Aragão; roteiro de Vitor Lima. No Palácio, São Luís, Miramar, América e outros cinemas.

Mais um filme de Renato Aragão, comediante que tem sua base na televisão. Vitor Lima é um diretor experimentadíssimo no gênero.

Publicado originalmente no Jornal do Brasil em 21 de março de 1971


OS PRÓXIMOS FILMES

O sucesso de bilheteria da semana na certa deve ser As Escandalosas, o filme que Miguel Borges fêz e depois renegou, para depois voltar atrás e dizer que, afinal, o filho não é tão feio assim....

Para quem gosta de bangue-bangue a pedida será Por Um Dólar Machado de Sangue, garantido pela presença de Broderick Crawford, excelente ator.

Mas, afinal, qual o melhor filme da semana, de acordo com as exigências da crítica? Não deve ser, naturalmente, A Luta Pela Terra, de Nathan Juran, diretor que já fez de tudo e até agora não fez nada que prestasse. Tampouco Bonga, o Vagabundo, chanchada do velho amigo Vitor Lima, com aqueles velhos ingredientes do gênero, inclusive o comediante Renato Aragão. O jeito, mesmo arriscando, é ficar com Valérie, realização francesa de Denis Héroux narrando uma história de sexo e erotismo, o que, aliás, as nossas Escandalosas tem para dar e vender.

Aí está tudo, em resumo. Escolham seu programa e divirtam-se.

Publicado originalmente na Luta Democrática em 21 de março de 1971


BONGA, O VAGABUNDO’

(Nacional)

Bonga é um vagabundo autêntico, de alma boa, honesto que resolveu seguir a vida que leva por um desgosto amoroso. Sua casa, se é que podemos chamar aquele brigo feito por dois ou três pedaços de bambu e sapé, fica num lugar aprazível, à beira de uma linda cachoeira. Um dia ele encontra a jovem Sônia – que também está numa fossa daquelas. Leva-a para casa, procura tornar-lhe a vida mais alegre, e aos poucos, se vai enamorando dela, embora Sônia nada saiba. E assim, a vida continua para Bonga – que vive de filosofia ou boêmia, até o dia em que Sônia encontra o seu grande amor, Ricardo. Daí em diante, a tristeza foi sua grande companhia. Produção da Cinematográfica Hérbert Richers S.A. com Renato Aragão no papel de ‘Bonga’, e Maria Cláudia como ‘Sônia’, dirigidos por Victor Lima. O galã Antonio Cristiano é o diretor de produção. O filme ‘Bonga, o Vagabundo’, considerado de ‘Bilheteria-Certa’, está programado, amanhã, nos cinemas Palácio, São Luís, Miramar, América Central e Petrópolis.

Publicado originalmente em O Jornal em 21 de março de 1971

 

BONGA, O VAGABUNDO – As peripécias do divertido vagabundo “Bonga”, uma figura sobejamente conhecida na Guanabara. Com Renato Aragão (“O Carlitos carioca”), Maria Cláudia, Ronaldo Canto e Mello, Neila Tavares, Jorge Doria, Leda Vale e Angelo Antonio (da turma da pesada). Direção de Vitor Lima, em cores. Hoje, no Art Palácio (sala São Paulo), Scala e circuito.

Publicado originalmente no Diário da Noite em 7 de junho de 1971

 

BONGA, O VAGABUNDO – Nacional – (Rio de Janeiro, GB), 22 de março de 1971, 105 minutos. Produção, distribuição: Herbert Richers. Direção, roteiro, montagem: Victor Lima. Argumento: Renato Aragão. Fotografia: Antonio Gonçalves. A cores. Elenco: Renato Aragão, Maria Cláudia, Ronaldo Canto e Mello, Neila Tavares, Jorge Doria, Angelo Antonio, Leda Vale. Desde ontem, nos cines Art Palácio (Sala São Paulo) Scala e circuito.

Comédia (sentimental?) produzida por Richers e adaptada, e dirigida por Victor Lima segundo uma história (chapliniana?) que o próprio (e será que não horrível?) Renato Aragão imaginou para veicular seu próprio “estrelismo”. Aqui ele é uma alma boa que, por um desgosto qualquer, tornou-se um vagabundo e que mesmo assim e – platonicamente – ainda encontra jeito de abrigar em seu casebre à beira de uma linda cachoeira, uma linda moça que “está numa fossa daquelas”. Aragão também é amigo de um “playboy” e, ao procurar salvar o estroina de uma enrascada, acaba perdendo a moça, que já amava, para o rico e bem apessoado rapaz. No elenco secundário, dois bons atores como Angelo Antonio e Jorge Doria. RUBEM BIÁFORA

Publicado originalmente no O Estado de S. Paulo em 8 de junho de 1971



Circuito comercial de "Bonga, o Vagabundo" no Rio de Janeiro

Tonga? Conga? Não, Bonga

Rubens Ewald Filho

É a primeira exceção à nossa regra de não criticar filmes nacionais sem importância. Mas se “Bonga, o Vagabundo” (no Iporanga) não é muito diferente dos outros filmes de Vitor Lima (chanchadas de Zé Trindade, Ankito, Grande Othelo) tem uma grande qualidade: a falta de pretensões.

É apenas uma comédia infantil repetindo esquemas emprestados de Chaplin. Seu maior erro é usar um ator duro, pobre de recursos, como Renato Aragão. Apesar de sua boa vontade, ele simplesmente não é engraçado. E perde muito quando os anúncios o chamam de “Chaplin brasileiro”. (E eu falando em falta de pretensões!).

O título é muito infeliz. Bonga parece nome de bichinho-desenho de Walt Disney ou dança latino-americana ou palavra nagô. Não de um vagabundo feliz que um dia encontra uma moça misteriosa (Maria Cláudia), apaixonando-se por ela e perdendo-a para seu amigo rico.

Se a história é previsível, o filme pelo menos é limpo, sem escorregões, sem apelos óbvios. É realmente um filme para crianças, que deveria ser lançado em tempo de férias. A mocinha Maria Cláudia, que veio da TV não deixa qualquer impressão especial. Fotografa mal em “close”, mas o papel tampouco lhe dá maiores chances.

Como “vilã” aparece Neila Tavares, que está também em “Um Uísque Antes, Um Cigarro Depois”. Seu papel poderia ser bom, uma alcoólatra que gosta do herói do filme. Mas sua cena-chave, isto é, ela bebendo, nunca chega a aparecer. Prejudicada pelo penteado mal escolhido, Neila pelo menos demonstra sua versatilidade. Seu melhor momento: a briga na buate. Para bom entendedor sua basta: a confiança no seu talento foi a única razão que nos fez ver o filme.

E se “Bonga” é um tipo de cinema de vinte anos atrás, é também razoavelmente bem-feito, fácil de ver. De quantos filmes recentes pode-se falar o mesmo?

Publicado originalmente na “Tribuna” de Santos em 24 de junho de 1971



O Doce Esporte do Sexo” (Brasil, 1972)


Direção: Zelito Viana

Companhia produtora: Produções Cinematográficas Mapa Ltda.

Produção: Chico Anysio e Zelito Viana

Roteiro: Armando Costa, Arnaud Rodrigues, Oduvaldo Vianna Filho e Zelito Viana

Direção de fotografia: Antonio Ventura

Montagem: Eduardo Escorel

Elenco: Chico Anísio, Irene Stefânia, Wilson Grey, Olívia Pineschi, Rodolfo Arena, Orlando Drummond, Ana Maria Magalhães, Rafael de Carvalho, Mário Shigueo, Jorge Doria, Manfredo Colasanti, Isabel Ribeiro e Carlos Imperial

 

Crítica:

Cotação: **

Parece que a ideia original do diretor Zelito Viana era armar um filme popular para ter grande bilheteria. Para isso, chamou seu irmão mais velho: Chico Anysio, o comediante mais bem sucedido do Brasil naquele início da década de 1970. Comédia de cinco episódios, O Doce Esporte do Sexo já demonstrava temas que seriam trabalhados na chamada pornochanchada embora o filme seja bastante leve e até mesmo ingênuo. Talvez essa divisão em episódios venha do cinema italiano cujas comédias faziam grande sucesso aqui nesse período. Todos os segmentos de O Doce Esporte do Sexo são protagonizados por diferentes personagens feitos por Chico Anysio.


Circuito de "O Doce Esporte do Sexo" no Rio de Janeiro

O primeiro episódio, O Apartamento trata de um casal: Virgílio (Chico Anysio) e Irene (Irene Stefânia) que quer consumar seu fato mas nunca consegue. Um porteiro impertinente (o recordista Wilson Grey) acaba os incomodando. O resultado final é um tanto tacanho.

O segundo (Boca) conta sobre Tuneca (Chico Anysio), um empregado de uma fábrica de tecelagem apaixonado por prostitutas da Praça Mauá. Sua paixão no momento é a “irresistível” Vanda (Olívia Pineschi, atriz que foi casada com o diretor Élio Vieira de Araújo). Tipo meio palerma, Tuneca vive tomando Dreher nos botequins da Lapa, ouvindo canções de Nelson Gonçalves e faltando no emprego para viver sua paixão por Vanda. Mesmo aconselhado por um amigo (Rodolfo Arena numa participação especial) para esquecer a vedete. Talvez o lado bom de Tuneca seja que ele é o personagem mais bem trabalhado por Chico Anysio neste longa-metragem. Mas não que isso represente algo de notável.

Chico Anysio em cena de "O Doce Esporte do Sexo"

Já em O Filminho um alto-executivo organiza uma festinha em que irá passar uma produção estrangeira de sexo para amigos. Vale pela presença de atores como Jorge Doria e do também cantor Ângelo Antônio, que chegou a gravar dois LPs no período. A desaparecida musa Meiry Vieira aparece meio perdida também rapidamente.

O Torneio parece uma daquelas piadas antigas do Costinha. Esse episódio tem um ar diferente dos anteriores um episódio de temática rural. As cidades vizinhas de Banabuiú e Pindaré Mirim disputam todo ano um torneio de virilidade que foi sete vezes vencido por Lourenção (Chico Anysio). Tem até um juiz neutro (Nelson Dantas) para apitar a peleja. Mas dessa vez ele será desafiado por um japonês (Mário Shigueo) que parece ser profissional. Otávio Augusto faz o técnico de Lourenção que tem como namorada a bela Ana Maria Magalhães que fez muitos filmes dos diretores do Cinema Novo. A veteraníssima Estelita Bell faz a primeira dama de Pindaré Mirim.

O Doce Esporte do Sexo se fecha com o episódio A Suspeita. O coronel Manuel Moreira (mais uma vez Chico Anysio) é um homem bastante conservador e reacionário. Mas sua esposa dona Sinhá (Isabel Ribeiro) acaba suspeitando que ele possui uma amante. Ela se surpreenderá quando achar a verdadeira face do marido. Pode-se ver as boas intenções do diretor, do elenco estrelar e do excelente mestre do humor que é Chico Anysio. Mas ele merecia um filme melhor. Sem grandes recursos, O Doce Esporte do Sexo é um filme razoável e de entretenimento dispensável. Mas é interessante por ser talvez o único longa-metragem em que Chico Anysio protagonizou diversos personagens. Ele fez muito pouco cinema durante toda sua longa carreira.

 

Comentário sobre a participação de Orlando Drummond:

Orlando Drummond nos letreiros do episódio "Boca" de "O Doce Esporte do Sexo"

Esse talvez seja o maior papel de Orlando Drummond no cinema. Ele faz o português dono de um bar que serve e contracena com o personagem Tuneca (Chico Anysio) no segundo episódio de O Doce Esporte do Sexo chamado Boca. É uma cena até que divertida apesar de bastante rápida durando um minuto e trinta segundos. Mais uma vez o papel de Drummond poderia ser aumentado. Ele mesmo deve ter se dublado nessa produção.  

O jornalista e escritor Vitor Gagliardo detalha a relação entre esses dois ícones do humorismo brasileiro. Ele afirma que Orlando Drummond e Chico Anysio se conheceram nos anos 1940 quando o primeiro atuava na rádio Tupi e o segundo na Mayrink Veiga duas emissoras concorrentes. Embora de emissoras adversárias, eles se encontravam nos bares da vida. Nos anos 50, Drummond se tornou diretor artístico e foi chefe do Chico Anysio. Mas a amizade entre eles só cresceu. Já nos anos 80, Chico abriu a portas da Globo para Orlando. Sem dúvida, uma amizade sincera. Provavelmente a participação no filme tenha sido um convite do Chico.

 

Repositório (críticas e matérias sobre o filme em seu lançamento e algo em livros):

 

CHICO ANÍSIO NO CINEMA- Chico Anísio vive cinco personagens diferentes, sempre envolvidos por cinco lindas mulheres em O Doce Esporte do Sexo, produzido e dirigido por Zelito Viana. Este é o primeiro filme de Chico Anísio. É uma comédia, com uma pinta de erotismo a exemplo das italianas. Em cores, O Doce Esporte do Sexo tem também no elenco Irene Stefânia, Ana Maria Magalhães, Isabel Ribeiro, Mary Vieira e Olívia Pineschi.

Publicado originalmente no “O Jornal do Brasil” em 28 de dezembro de 1971

 

Zelito Viana

Um dos nomes mais importantes na indústria cinematográfica no Brasil – produziu os principais filmes de Glauber Rocha – está lançando agora o seu filme O Doce Esporte do Sexo, que marca a estreia de Chico Anísio, seu irmão, como ator de cinema.

-  Doce Esporte do Sexo foi construído em torno da figura do Chico. Ele cria cinco novos e engraçadíssimos personagens, em cinco situações amorosas e maliciosas: Virgílio, um amante desgraçado; Tuneca, um boêmio emocionalmente fixado em mulheres da Praça Mauá; Dr. Fausto Fiúza, um capitão de indústria aficionado em porn-film; Lourenção, um campeão de um torneio de virilidade e o latifundiário Coronel Moreira, a maior surpresa do filme.

Óculos claros quadrados, cabelos pretos, Zelito explica que o filme se destina ao público adulto, oferecendo “algo novo a esse milhão de pessoas que aplaudiram Chico nos seus espetáculos do Rio e São Paulo”. No elenco, ainda estão Irene Stefânia, Isabel Ribeiro, Ana Maria Magalhães e Olívia Pineschi.

Publicado originalmente no “Jornal do Brasil” em 28 de janeiro de 1972

 

Chamada do episódio "A Boca" do filme "O Doce Esporte do Sexo"

Plá 71 do Imperial acontecerá hoje

(...)

Sábado próximo, dia 5, no cine Bruni-70, será feito o lançamento oficial do filme O Doce Esporte do Sexo, que traz o genial humorista Chico Anísio no papel principal contracenando com um time de mulheres que não é brincadeira: Irene Stefânia, Isabel Ribeiro, Ana Maria Magalhães e outras. Antes, ele faz as duas sessões normais do Teatro da Lagoa, onde vem estourando as bilheteria com Uma Noite com Chico Anísio.

(...)

Publicado originalmente no “Correio da Manhã” em 1 de fevereiro de 1972

 

Chico vai filmar as proezas de Linguinha

Chico Anísio está tão confiante na estreia de O Doce Esporte do Sexo, sua estreia no cinema, que estará em cartaz a partir de sábado no Super-Bruni 70, que decidiu realizar outro filme ainda este ano. Está pensando em levar para o cinema as aventuras de Linguinha, seu atual sucesso na televisão, destinado ao público infantil.

COMICIDADE MOCIOSA

Para filmar as aventuras de Linguinha, Chico Anísio já está em entendimentos com Zelito Viana, produtor e diretor de O Doce Esporte do Sexo e também um dos argumentistas do filme, que teve seus cinco episódios escritos por uma equipe integrada por Zelito e Chico Anísio além de Armando Costa, Oduvaldo Vianna Filho, Joaquim Assis e Arnaud Rodrigues.

O Doce Esporte do Sexo foi elaborado em torno da figura de Chico, que vive 5 episódios de malícia e de amor interpretando cinco diferentes e novos personagens. Do filme, participam as atrizes Irene Stefânia, Isabel Ribeiro, Ana Maria Magalhães e Olívia Pineschi.

Segundo Chico Anísio, as histórias dos cinco episódios foram submetidas a um rigoroso e trabalhoso processo de filtragem, para se obter o melhor rendimento cinematográfico de sua comicidade. A equipe de argumentistas escreveu vinte argumentos, dos quais foram selecionados dez para o primeiro tratamento de roteiro. Do roteiro de produção, constavam sete dos quais foram filmados.

Publicado originalmente no Correio da Manhã em 3 de fevereiro de 1972

 

Cinema neste fim de semana

O DOCE ESPORTE DE CHICO ANÍSIO

O Doce Esporte do Sexo, Zelito Viana, amanhã, no Super-Bruni 70

Apesar de ter um irmão muito ligado ao cinema, Chico Anísio não tinha até agora protagonizado filme algum, limitando suas atividades cinematográficas a breves aparições como ator e eventuais colaborações como escritor.

Reunindo-se finalmente a seu irmão, Zelito Viana, ele acaba de aderir ao cinema, justamente quando maior é seu empenho na televisão e no teatro. Zelito que, como sócio da produtora Mapa, já havia colaborado no roteiro de O Homem Que Comprou o Mundo, de Eduardo Coutinho, passando à direção (dividida com Armando Costa) em Minha Namorada, há muito desejava trabalhar com Chico.

O resultado é O Doce Esporte do Sexo, com cinco histórias e cinco personagens para Chico Anísio.

A grande filmagem

Afirma Zelito Viana que não quis fazer um filme inteiramente dependente de Chico Anísio: - Perguntei-me sempre se eu filmaria qualquer uma das cinco histórias sem a presença dele.

A equipe de argumentistas de O Doce Esporte do Sexo chegou a escrever 20 histórias, das quais foram selecionadas 10 para o roteiro; destas, sete foram filmadas e apenas cinco montadas na versão final.

- Essa grande filtragem me permitiu depurar a obra no estilo que escolhi desde o início – explica o diretor. – Tomei como ponto de partida o lastro de expressividade e leveza da melhor comédia urbana, com abertura para o erotismo. No Brasil, já se fez muita coisa nesse gênero, e o cinema italiano oferece excelentes exemplos desse modelo cinematográfico.

Ao lado dos irmãos, trabalharam nas histórias alguns profissionais de prestígio em cinema, teatro e televisão: Joaquim Assis, Armando Costa, Arnaud Rodrigues e Oduvaldo Viana Filho. A fotografia em cores é de José Antônio Ventura. A montagem, de Eduardo Escorel.

Nos cinco episódios, Chico Anísio contracena com Irene Stefânia, Wilson Grey (O Apartamento), Olívia Pineschi, Rodolfo Arena (A Boca), Ana Maria Magalhães, Nildo Parente, Rafael de Carvalho, Nelson Dantas (O Torneio), Jorge Doria, Manfredo Colassanti (O Filminho), Isabel Ribeiro, Renato Coutinho e Carlos Imperial (A Suspeita).

O máximo de rendimento

- É uma comédia para o público adulto, as centenas de milhares de pessoas que tem ido aos meus shows nos teatros do Rio e São Paulo, aceitando minha comicidade maliciosa sem que vissem nela qualquer coisa de obsceno ou chocante – diz o comediante.

Chico Anísio está certo de que o público receberá muito bem, no cinema, a visualização da comicidade picante que, no palco, tem feito com o auxílio de narração e descrição: - De acordo com Zelito, adotei uma tática em minhas relações com o cinema. Não me preocupei demais com as diferenças entre a técnica cinematográfica e a do teatro ou a da televisão. Eu e Zelito fizemos aquilo que nos parecia melhor em cada caso, sem teorização ou normas fixas. O mais importante é conservar a naturalidade e a espontaneidade, e por isso mesmo acho que a primeira tomada de cada cena é sempre a melhor.

FILMOGRAFIA DE CHICO

Ao contrário do que muita gente pensa – e do que a própria publicidade de O Doce Esporte do Sexo está apregoando – Chico Anísio não está fazendo agora a sua estreia cinematográfica.

É verdade que, pela primeira vez, ele é protagonista de filme, mas apareceu como ator em várias chanchadas: O Palhaço, o Que É? (1959), Cacareco Vem Aí (1960), Entrei de Gaiato (1960), Pequeno por Fora (1961) e Eu Sou o Tal (1961).

Além disso, colaborou como argumentista e/ou roteirista, colaborou em Baronesa Transviada (1957), Hoje o Galo Sou Eu (1958), Alegria de Viver (1958), O Camelô da Rua Larga (1958), Minha Sogra É da Polícia (1958), Pé na Tábua (1959), Garota Enxuta (1959), Mulheres á Vista (1959), Cacareco Vem Aí (1960), Entrei de Gaiato (1960), Pequeno por Fora (1960), Só Naquela Base (1960).

Publicado originalmente no “Jornal do Brasil” em 4 de fevereiro de 1972

 

Cinema

O DOCE ESPORTE DO SEXO

Ely Azeredo

Teoriza Chico Anísio: “Com o banheiro perto, de chinelos, cigarrinho acesso e outras comodidades, o público de televisão está preparado para pedir muito menos. Para tirá-lo desse conforto e leva-lo ao teatro ou ao cinema, é preciso dar-lhe a certeza de que vai encontrar alguma coisa que ele não tem a menor esperança de ver na televisão. O fenômeno é o mesmo em todo o mundo. E foi pensando nele que fizemos O Doce Esporte do Sexo”. Realmente, ninguém espera encontrar na TV a história de um torneio de resistência sexual ou a um sex-party programado com um filmezinho pornográfico. Mas uma ideia na cabeça e uma cama à mão não bastam para fazer cinema. A diferença entre Chico Anísio em vídeo-tape e este em película cinematográfica se limita ao assunto que permanece tabu na TV. O Doce Esporte se serve do (e desserve o) comediante, vinculando-o a uma grossura cuja ausência era, até então, uma das características de sua imagem espetacular.

Como era fácil prever, o ator-co-autor passa por cinco metamorfoses nos cinco episódios do Esporte. Além do coronelão interiorano (que não é novidade em sua carreira), ele se apresenta como amante tímido e sujeito a crises de impotência; grande capitalista apreciador de fitinhas pornográficas; campeão de torneios sexuais; operário vidrado numa prostituta e empenhado em regenera-la. Se o coronel e o capitalista são vinhetas de fácil desempenho, porque o essencial dos episódios que protagonizam está na invenção de enredo, os outros três personagens exigem esforço especial de composição. O produtor-diretor Zelito Viana recebeu esse esforço sem proporcionar ao intérprete o apoio cinematográfico que permitisse o pleno desenvolvimento dos personagens – ainda que dentro das naturais limitações do filme de episódios. O único episódio bem sucedido é o primeiro, que se apoia na sintonia das qualidades de Chico e Irene Stefânia. Mesmo aí, onde a importância da interferência diretorial é mínima, o controle do tempo do diretor está longe de favorecer o dueto C.A.& I.S.

A fotografia (em cores) é muito deficiente. A música é improvisada; de discoteca.

O APARTAMENTO- Depois de burlar a vigilância (imaginária) do porteiro (Wilson Grey), o inseguro Virgílio (Chico) enfrenta uma crise de impotência na intimidade da afoita Irene (Estefânia). Até atingir a meta do encontro, Virgílio provoca uma inundação, um princípio de incêndio, a quase total destruição da garçonière. A desenvoltura bem humorada de Irene Estefânia contribuí muito para o que o episódio tem de espontaneidade. E há uma boa contribuição de Wilson Grey.

A BÔCA- Tuneca (C.A.), empregado numa fábrica de roupas, tem fixação pelas mulheres que fazem a vida na Praça Mauá. Persegue Vanda (Olívia Pineschi) com a obsessão de vê-la, algum dia, suando numa máquina de costura. Entre as frustrações salvacionistas de Tuneca e sua vocação para metragem maior, o episódio se perde, insatisfatório, como que inconcluso.

O FILMINHO- O doutor Fausto (C.A.), respeitável capitalista, organiza uma sex-party e, para a ocasião, compra uma fitinha pornográfica made in Italy. O fornecedor (Manfredo Colassanti) entrega-lhe, por engano, um filmezinho amador sobre as férias de uma família. Enquanto esta, igualmente vítima da confusão, toma um choque com o espetáculo, os convidados do Dr. Fausto encontram as intenções mais extravagantes em imagens de brincadeiras domésticas. Apenas uma anedota e, como tal, poderia ser mais sucinta e consequente.

O TORNEIO- Uma ideia que poderia ter sido desenvolvida com menos grossura: depois de sete anos de vitórias, o campeão de virilidade de uma cidadezinha do interior, Lourenção (C.A.), luta para vencer pela oitava vez o torneio a fim de que a taça fique em definitivo com seus contemporâneos, mas a cidade rival o desafia com um japonês que pratica ioga e conhece todos os segredos do vigor físico. Uma ideia extravagante – e um pouco mais.

A SUSPEITA- Ligeiríssimo sketch que não faria falta ao conjunto de Esporte. Protagonistas: um coronel supermachão (C.A.) tirânico e aparentemente perfeito pai de família e a esposa superdoméstica (Isabel Ribeiro), que, a essa altura, se julga traída. A vida secreta do coronel é mais surpreendente do que se espera, mas a surpresa não chega a justificar o episódio.

CINEMAS: Super-Bruni-70 e Roma-Bruni. Horário: 14h, 16h, 18h, 20h, 22h. Censura: 18 anos.

Publicado originalmente no “Jornal do Brasil” em 8 de fevereiro de 1972

 

O DOCE ESPORTE DO SEXO – Nacional – (Rio de Janeiro, GB), 5 de fevereiro de 1972. Produção: Mapa. Distribuição: Lívio Bruni. Produtor, diretor: Zelito Viana. Fotografia: José Antonio Ventura. Cenografia: Zelito Viana, Joaquim Assis. Montagem: Eduardo Escorel. Em Eastmancolor. O Apartamento- Entrecho: Zelito Viana, Armando Costa. Elenco: Chico Anísio, Irene Stefânia, Wilson Grey, Antonio Carlos Mello. A Boca- Entrecho: Arnaud Rodrigues, Chico Anísio. Elenco: Chico Anísio, Olívia Pisnechi, Rodolfo Arena, João Elias, Aida Santos, Ivan de Souza, Orlando Drummond, Arnaud Rodrigues, Wandik Vandré, Maximiliano Chaves, Sérgio Vapor, Sergi Amorim, Aloisio Taylor, Linda Brahim, Chiquinho. O Torneio- Entrecho: Oduvaldo Viana Filho. Elenco: Chico Anísio, Ana Maria Magalhães, Nildo Parente, Estelita Bell, Rafael de Carvalho, Otávio Augusto, Nelson Dantas, Ely, Afonso, Mário Shiquo, Pedro, Raul. O Filminho- Entrecho: Zelito Viana. Elenco: Chico Anísio, Jorge Doria, Manfredo Colassanti, Meiry Vieira, Angelo Antonio, Leni Garcia, Edna, Olinda, Eliana Abranches, Vilma Pinto, Black Power, Sérgio Cabral, Leila Ferreida. A Suspeita- Entrecho: Chico Anísio, Zelito Viana. Elenco: Chico Anísio, Isabel Ribeiro, Laura Cherques, Renato Coutinho, Carlos Imperial, Luís Guilherme, Ingrid. Desde segunda-feira última, nos Cines Coral, Bruni, Pigalle, Rio e circuito.

Fita em episódios produzida e dirigida por Zelito Viana a fim de aproveitar a popularidade (em TV, teatros e “shows”) de seu irmão Chico Anísio. Sete histórias filmadas. Montagem e decisões finais eliminaram duas. Assim, pela ordem, temos o caso do casalzinho que não consegue “local” para seu encontro; do empregado de uma fábrica de roupas com mania de recuperar as mulheres das “bocas” da cidade; o machão oficial de uma cidade do interior que se vê compelido a um torneio de virilidade com o pequeno e incrível japonês; o filminho pornográfico destinado a um capitão de indústria que é trocado no laboratório por outro encomendado por uma família  que havia fixado as suas inocentes férias, bem como o último, o da zelosa senhora que ao mandar seguir o marido, temendo uma rival, descobre que o viril coronel tem encontros com nada menos que...Carlos Imperial. Aliás, Imperial bem como Irene Stefânia, Isabel Ribeiro, Jorge Doria, Manfredo Colassanti, Angelo Antonio e Renato Coutinho deverão ser as figuras essencialmente cinemáticas do elenco. RUBEM BIÁFORA.

Publicado originalmente no O Estado de S. Paulo em 21 de maio de 1972.

 

CHICO EM FOTOGRAMAS

Rubens Ewald Filho

Depois de muitas ameaças, Chico Anísio chega finalmente ao cinema. Ele já tinha feito várias pontas (e participado de vários roteiros) na época da chanchada, antes de virar famoso na tevê. Mas, como astro, seu nome foi indicado várias vezes. Ia ser “O Alienista”, ia fazer “O Homem Que Comprou o Mundo”, mas acabou estrelando mesmo “O Doce Esporte do Sexo” (no Indaiá).

Sua relação com o cinema é também familiar. Chico é irmão de Zelito Viana, produtor de “Terra em Transe” e outros filmes da Mapa e que, em 1970, estreou na direção com “Minha Namorada” (ainda inédito em Santos). Por fim, seu irmão acabou convencendo-o a fazer esta comédia em cinco episódios.

Todos eles têm uma coisa em comum. São boas histórias estreladas por um bom humorista (Chico Anísio fazendo tipos diferentes). E sempre em todas, alguma coisa não funciona. É difícil entender o quê, mas o palpite mais provável é mesmo o da direção. A culpa provavelmente é de Zelito, que não soube dar ritmo interno às filmagens, conservando momentos mortos (suportáveis na tevê mas não no cinema) e deixando ficar piadas fracas.

A primeira história – “O Torneio” – é uma bem bolada sátira. Numa cidadezinha há, pela oitava vez consecutiva, uma peleja para ver quem é o homem mais viril da região. Chico já venceu sete vezes, mas antes de ganhar o título definitivo encontra o obstáculo intransponível de um japonês. O engraçado é que tudo repete o clima de um jogo de futebol: a torcida, o juiz, os palavrões, as caravanas, o massagista.

Em “A Boca”, Chico é um pobre infeliz apaixonado por uma prostituta (Olívia Pineschi). O episódio tem muito dos filmes de Alberto Sordi e funcionaria muito se não fosse tão longo e repetitivo.

“O Filminho” e “A Suspeita” são pouco mais do que anedotas muito rápidas e razoavelmente engraçadas. O nível melhora com “O Apartamento”, as dificuldades para Chico ter um encontro com Irene Stefânia. Talvez o episódio mais comunicativo.

Em tudo uma saudável liberdade de linguagem, todo mundo falando palavrões à vontade. E no filme só há uma verdadeira piada visual, a gozação com o filme “Um Homem, Uma Mulher”, o melhor momento de todos.

Se não realiza tudo aquilo que prometia, a comédia, no entanto, é bem razoável. Nesta safra de agosto é das melhorzinhas.

Mas o “mais ou menos” já não satisfaz tanto, ao se ver muita gente boa envolvida com o roteiro (além de Chico e Zelito, Oduvaldo Vianna Filho, Armando Costa e Arnaud Rodrigues) e se saber que na verdade foram rodadas sete histórias, das quais só foram aprovadas cinco.

Mas muito mais rigoroso do que eu é o próprio Chico, que em entrevista à “Tribuna” classificou sua experiência no cinema como “lamentável, porque foi a única atividade em que não me dirigi. Tudo que faço sozinho, faço bem. Mas, no cinema, dependia de um diretor e apenas cumpria ordens. Para mim, “O Doce Esporte do Sexo” só teve uma parte boa, a do sexo”.

Publicado originalmente na “A Tribuna” de Santos em 10 de agosto de 1972

 

O ano era 1972 e dentro da proposta de fazer filmes para o mercado, decidi que era hora de ficar rico. Para isso, nada melhor que fazer um filme com Chico Anysio. E aproveitando a versatilidade dele, decidimos fazer um filme em episódios.

Era meu primeiro filme sozinho. Sofri o pão que o diabo amassou. A partir deste filme aprendi que cinema, apesar de fruto de uma viagem muito pessoal do diretor, é uma arte coletiva e a equipe tem participação decisiva no resultado do produto.

A outra constatação óbvia, mas ao mesmo tempo fundamental, é que o filme é o resultado de sutis momentos obtidos durante a filmagem. A soma desses momentos pode gerar uma obra-prima para alguns e ao mesmo tempo um abacaxi para outros.

O Doce Esporte do Sexo tem uma história engraçada. Como nós tínhamos dinheiro, filmamos usando negativo colorido e fizemos copião em preto. Então, nós montamos o filme inteiro e só descobrimos na pré-estreia que a Irene Stefânia começa a cena com uma calcinha preta e depois está com uma vermelha. Ela trocou de calcinha na cena e não notamos na moviola.

Lembro que na filmagem, em algum momento, ela me perguntou se a calcinha dela iria aparecer, eu disse que sim.

- Então eu vou comprar uma calcinha que essa não é boa de aparecer.

E ela foi comprar uma calcinha por conta própria. Eu não prestei muita atenção e o resultado é que a cena começa com a Irene de calcinha preta e corta para ela com a calcinha vermelha. No preto e branco, preto e vermelho são iguais.

Nós montamos o filme durante meses e nunca vimos nada de errado, só fomos ver na pré-estreia no cinema. Aliás, essa foi uma das maiores gargalhadas do filme. O público se divertiu com a pobreza do copião.

O Doce Esporte do Sexo foi outro filme que fez sucesso. Ele faturou três vezes o seu próprio custo, mas nós esperávamos muito mais. Dessa vez a gente achava que iria ficar milionário pro resto da vida. Fazer comédia é muito difícil, me desinteressei completamente pelo gênero”. Retirado de Zelito Viana: histórias e causos do cinema brasileiro de Betse de Paula

 

Filmografia completa de Orlando Drummond:

1954- “O Rei do Movimento” de Victor Lima

1955- “Angu de Caroço” de Eurides Ramos

1968- “Bonga, o Vagabundo” de Victor Lima

1971- “O Doce Esporte do Sexo” de Zelito Viana

2005- “O Sarcófago Macabro” de Ivan Cardoso

2005- “Um Lobisomem na Amazônia” de Ivan Cardoso

2020- “De Perto Ela Não é Normal” de Cininha de Paula

Victor Gagliardo relembra como se deu a participação de Orlando Drummond em De Perto Ela Não é Normal de Cininha de Paula. Eu liguei para a diretora Cininha de Paula para agendar uma entrevista para o livro. Eu queria entrevista-la sobre a Escolinha do Professor Raimundo e, claro, saber mais sobre o Seu Peru. Fizemos a entrevista e antes de desligar ela me disse que estava gravando o filme De perto ela não é normal e perguntou se o Drummond não topava participar. Ela gostaria de fazer uma homenagem. Falei com a família e eles toparam. Era uma participação pequena, uma homenagem mesmo. A ideia não era cansa-lo. Mas ele ficou tão à vontade que começou a improvisar texto. Foi uma grande homenagem e um dia feliz para o Drummond.

 

Bibliografia

 

Livros:


AUGUSTO, Sérgio. Este mundo é um pandeiro: a chanchada de Getúlio a JK. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.


CATANI, Afrânio Mendes; SOUZA, José Inácio Melo. A chanchada no cinema brasileiro. São Paulo: Brasiliense, 1983.


GAGLIARDO, Vitor. Orlando Drummond: versão brasileira. Rio de Janeiro: Gryphus, 2019.

 

PAULA, Betse. Zelito Viana: histórias e causos do cinema brasileiro. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2010.

 

PINTO, Denise Casais Lima. Ankito: Minha vida...Meus humores. Rio de Janeiro: Funarte, 2008.

 

PIPER, Rudolf. Filmusical brasileiro e chanchada. São Paulo: Loren, 1977.


Sites:

Cinemateca Brasileira (www.cinemateca.gov.br)

IMDB (www.imdb.com)

Memorial Chico Anysio (www.memorial-chico-anysio.com.br)

Trapalhões Nostalgia (www.trapalhoesenostalgia.com)


Agradecimentos:

Victor Gagliardo (pela intensa colaboração)