segunda-feira, 22 de julho de 2019

Mazzaropi: A Saudade de Um Povo, parte II



“Para entender um burro é preciso que seja burro também...”
MAZZAROPI- Trecho da música “Meu Burrinho” do filme, “O Corintiano” – 1966

Capítulo 4. “RANCHO ALEGRE” NA RÁDIO TUPI

Do teatro, MAZZAROPI estrelou no Rádio, em 1946, a convite de DEMERVAL COSTA LIMA, diretor da Rádio Tupi de São Paulo, onde ficou por 7 anos. Era levado ao ar, “Rancho Alegre”, um programa popular de grande audiência, realizado todos os domingos no auditório da Rádio, no Sumaré, produzido por CASSIANO GABUS MENDES.

Atuando pela primeira vez no Rádio, levou ao microfone sua experiência teatral e dos espetáculos do Pavilhão que encenou por mais de 15 anos, revelando aos ouvintes o seu humorismo sertanejo inconfundível. A convivência com os homens simples do campo, trouxe o sabor genuíno de sua graça, o linguajar puro, sem mescla, sem afetação que a simples pronúncia provocava riso espontâneo dos ouvintes e da plateia. Inicialmente, foi contratado por 3 meses e acabou ficando 7 anos devido ao sucesso alcançado.

No auge de sua carreira, a REVISTA ÊXITO, de SP, em 14/09/1946 estampou em sua capa uma foto de Mazzaropi e, na página 7, o colunista JEAN COCQUELIN que escrevia sobre teatro, escreveu que o cômico cem por cento engraçado, bastante jovem, sorridente e simpático, era bem diferente (na entrevista) daquele jeca perfeito, realíssimo e banguela no palco.

Venceu no interior com o seu Pavilhão, de cidade em cidade. E triunfou. Não era para se admirar. Mazzaropi agradou a classe popular. Conseguiu ser diferente, num tipo que era quase clássico no palco. Venceu no Teatro como venceu no Rádio.

E foi na Rádio Tupi que o humorista mais se identificou com maior público. Os anos se passaram e o sucesso foi aumentando. Para manter a audiência do “Bernard Shaw do Tucuruvi” como era conhecido Mazzaropi, na Tupi, a emissora promoveu um concurso: “Qual é o verdadeiro nome de Mazzaropi?”. Publicava esta pergunta, juntamente com cupons nos jornais de São Paulo para concorrer a prêmios. A apuração foi feita no Cine São Francisco no dia 12 de outubro de 1947.

Embora convidado para atuar em outras emissoras bandeirantes, Mazzaropi sempre preferiu a Rádio Tupi-Sp, e, quando entrevistado sobre sua opção pela Rádio referida, explicava com seu linguajar característico, após renovação de um contrato: “Ué, aqui é bom, eu fico...Aqui comecei e me fiz. E depois tem outra, do Sumaré tenho certeza de ser ouvido no Brasil inteirinho. Recebo cartas dos mais distantes pontos desta terra. E isso é uma grande coisa para o artista...A gente fica com prestígio, trabalhando numa grande potência radiofônica”.

Ainda no Rádio, Mazzaropi reunia sempre um elenco de humoristas e cantores populares que formavam uma caravana denominada “A BRIGADA DA ALEGRIA” que percorreu o Brasil em vários Shows e apresentações. De seu elenco, fizeram parte: Linda Batista, Henricão e Rosa Maria (o barão das cabrochas e cabrochinhas do samba), Michel Allard (a voz da boemia de Montematre), Hebe Camargo (a morena do Sumaré) que estreou na Rádio Tupi, considerada a estrelinha do samba, em 1947.

A estreia de Mazzaropi e Hebe Camargo nas Rádios Guarani e Mineira, em Belo Horizonte, foi uma festa de gala, com muita música e humorismo. Ambos constituíram o maior sucesso dessa festa radiofônica. A festa foi de grande brilhantismo pelo valor dos dois grandes astros da Tupi paulista, que souberam impor a simpatia e a admiração do povo das alterosas e tinham grande e invejável popularidade.

Hebe Camargo e Mazzaropi, além de serem colegas de trabalho, eram amigos. Sempre viajavam pelo País na “BRIGADA DA ALEGRIA” com Shows variados. Tinha ele uma grande admiração pela Hebe.

Ultimamente, Mazzaropi não gostava de falar à imprensa, dar entrevista, ou participar de programas de Televisão e Rádio. Um dos únicos programas que comparecia com muito prazer, como convidado era o Programa da Hebe Camargo, na Rede Bandeirantes: “porque ela é simples como eu. Tem um ótimo caráter, e é autêntica. Gosto da Hebe, porque é uma amiga que sempre me deu valor. Tenho poucos amigos e a Hebe é um deles”, dizia ele.

Dos Shows e viagens com Hebe, onde chegaram até fretar avião para atender os compromissos Brasil afora, o comediante lembrava com carinho: “Hebe sempre foi muito bonita. Viajava ao lado de sua mãe. Nas cidades onde chegávamos, era uma festa. Nos coquetéis de recepção e estreias, Hebe contava os lugares na mesa e dizia: Coloque mais uma cadeira para o Mazzaropi”.

MAZZAROPI lembrava com saudade os tempos que atuou no Rádio: “Um dia, o próprio Chico Alves foi até a Tupi só parta saber quem era aquele caipira engraçadíssimo que ele tinha ouvido no rádio do carro”.

“Sabe lá o que é isso?” foi um dos espetáculos de maior sucesso no Teatro de Revistas em que participou MAZZAROPI, juntamente com Dercy Gonçalves no Cine Teatro Odeon, na Consolação, em SP. Participaram também do elenco Spina e Rayto do Sol na Super-Revista Murad, Cunha e Paulo Orlando, na década de 50.

E nos jornais de todo País, apareciam as manchetes: MAZZAROPI: NOTÁVEL CÔMICO BRASILEIRO; MAZZAROPI UMA BOMBA ATÔMICA; OUTRA VEZ O INCRÍVEL MAZZAROPI; MAZZAROPI O MONSTRO DO HUMOR.

Em 18 de março de 1947, estreava em São Paulo, no Teatro Municipal, o rei da graça e notável cômico Mazzaropi, lotando a plateia.

A Revista Êxito, em SP, lançou em 1947 um Álbum de Figurinhas, reunindo atores e radialistas entre outros nomes nacionais de Rádio. Uma das figurinhas, estampada, de nº 242, era de Amácio Mazzaropi, a única autografada, por isso então, difícil de ser encontrada.

Em entrevista para a Revista “TELEVISÃO” de São Paulo, MAZZAROPI informou, como já se mencionou, que havia assinado um contrato com a Rádio Tupi por 3 meses e acabou ficando por muito tempo na emissora. No picadeiro, dizia ele, infelizmente não se podia fazer teatro. O ambiente era diferente. Iria ficar no Rádio enquanto não houvessem palcos. Embora sentindo falta do calor do público quer o recebia nos picadeiros, os ouvintes lhe enviavam cerca de 2.000 cartas semanais, embora não fosse a mesma coisa.

Com isso, Gentil Rodrigues Pereira, prestou seu depoimento sobre o famoso comediante: “Tive o prazer de conhecer Mazzaropi em 1951, na Rádio Tupi, quando do programa “RANCHO ALEGRE” eu era músico e o Mazzaropi gostava da forma com que eu tocava acordeão, e, em consequência disso, acabei fazendo parte de seu elenco artístico. Conheci Mazzaropi em todos os sentidos, porque foi uma amizade sincera e de muita lealdade e isto me dá a liberdade de falar sobre um dos maiores artistas brasileiros de todos os tempos, com o qual tive a honra de trabalhar por mais de trinta anos. Como homem, Mazzaropi sempre procurou o caminho do trabalho com muita honestidade; super organizado e muito ambicioso na escalada da arte. Como artista, muito versátil, excelente ator, dono de um talento indiscutível o que fazia a alegria de todo um país.

Como patrão, Mazzaropi sempre foi atento a tudo o que se passava dentro da PAM até o lançamento das fitas, sem contar o fantástico tino comercial que ele possuía. O resultado podemos constatar: ele venceu e ficou na história do nosso país. Tive a alegria e o prazer de ser seu amigo. Tratava todos aqui na PAM FILMES, de igual para igual, sempre brincando conosco, e, por muitas vezes, chegando a socorrer seus funcionários da maneira mais simpática e generosa. Mazzaropi foi de uma grandeza e de muita importância à cultura brasileira, pois foi o único a conseguir capitalizar milhões e milhões de espectadores, trazendo muitas divisas parta o cinema brasileiro, bem como representando um peso enorme em prol daquilo que ele tanto amava, o Cinema Nacional”. Gentil Rodrigues Pereira – Gerente da PAM Filmes- São Paulo, 10 de maio de 1986.


Eu era um autêntico caboclo, daqueles caipiras doidos por um bate-papo na venda de “Seu” Zé ou na botica da esquina” A.   De B.- SP
Capítulo 5. O NOTÁVEL CÔMICO NA TELEVISÃO

Na década de 50, foi a vez de estrear na Televisão, com o Show a que dera o mesmo nome da Rádio Tupi de São Paulo – “Rancho Alegre”, levando ao ar, ao vivo, a todas as quintas-feiras, ás 21:00 horas. MAZZAROPI estava em viagem pela Amazônia quando recebeu o convite para estrear na inauguração da emissora de Televisão – TV Tupi, como uma das mais avançadas formas de diversão.

O Jornal “RADAR”, de São Paulo, publicou sobre sua atuação inicial na Televisão, em edição de 29 de setembro a 5 de outubro de 1950, enaltecendo MAZZAROPI como o primeiro humorista televisionado da América do Sul.

Seu programa era anunciado com “Slogans” pomposos: O caipira filosófico, o monstro do humorismo, o diplomata do humor, o cômico número um da TV.

O sucesso na televisão, como já se esperava, foi marcante como no circo, teatro e no rádio, tanto que, logo após sua atuação em São Paulo, estreava o mesmo programa na TV Tupi, caçula do Rio de Janeiro. Na inauguração da emissora, com sua máscara movediça, sua mímica ágil e preparada anteriormente por sua longa experiência em palcos e em circos, conquistou os telespectadores e se tornou uma figura simpática no vídeo. A inauguração se deu no dia 20 de janeiro de 191, num sábado à noite. O “Radar” de 19 a 25/01/51, expôs: “Desse jeito, não se sabe onde poderá ir o cômico paulista, pois a televisão é o campo do futuro, e Mazzaropi já lavrou e semeou o seu torrão...”
No dia da inauguração dessa emissora, MAZZAROPI lembrou em 1976 – ao jornal Movimento de 05/04, que ficou muito chateado quando chegou no aeroporto do Rio de Janeiro onde quase ninguém o reconheceu. Teve até problemas com seu fígado. Chegou ao hotel muito nervoso, devido ao enorme compromisso. Afinal, era uma apresentação de gala. E dizia: “Não sei como, no palco eu me lembrei de todas as piadas decoradas, aquelas histórias que fazem o público rir nem que não queira. Tinha um cara na primeira fila que levantava os pés até em cima e batia no assoalho, dando gargalhadas. Para mim, foi felicidade, porque eu estava na pior. Em vinte e cinco minutos terminei o Show e saí rápido do palco. O teatro veio abaixo.

Caminhei ligeiro para me fazer de bobo. Comecei a tirar a roupa no camarim e ouvia o grito do pessoal pedindo para eu voltar”.

Ainda no camarim recebeu um telefonema da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, oferecendo um contrato. Era no tempo da Emilinha Borba, da Revista do Rádio.

Com sucessos simultâneos que o comediante obteve na Rádio Tupi-SP (com programas aos domingos e ás terças-feiras) e na TV Tupi do Rio de Janeiro (ás quartas-feiras), Mazzaropi foi certamente um dos artistas que recebeu o maior “cachê” do Rádio e da TV e posteriormente do cinema.


“Abandonado, sem nada, sem lar, sem roupa e sem pão, vocês acharam morada dentro do meu coração...” Mazzaropi
Capítulo 6. OS PRIMEIROS FILMES NA CIA. VERA CRUZ

Em janeiro de 1951, o teatrólogo ABÍLIO PEREIRA DE ALMEIDA, assistiu num bar ao lado do Teatro Brasileiro de Comédia o programa de Mazzaropi “Rancho Alegre” na TV Tupi-SP. Uma semana depois, juntamente com Tom Payne chamou-o para fazer teste para um filme na Companhia Cinematográfica Vera Cruz. Essa companhia era liderada por Franco Zampari, que pretendia montar uma réplica do cinema de Hollywood em seus estúdios em São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo.

Mazzaropi não fazia fé no convite, de que desse certo no cinema. Achava que ser ator de cinema era assunto de gente bonita, e ele, definitivamente não se achava fotogênico, faltava-lhe pinta de galã.

Aprovado nos testes, fez o papel principal do filme “SAI DA FRENTE”, dirigido por Abílio Pereira de Almeida, depois de assinar um contrato milionário de 15 contos mensais mais uma gratificação anual de 60 contos atuais. No filme, Mazzaropi era chofer de um caminhão de mudanças que ironizava a burocracia e os políticos corruptos. Ele arrumava fregueses para uma viagem de São Paulo a Santos e, na volta, deu carona a uma troupe de artistas ambulantes, entre os quais um cão pastor, Duque, com importante participação na trama. A fita foi rodada quase na totalidade com cenas externas. Foi um filme autenticamente brasileiro, e o que era mais raro, um filme paulista. Este filme foi para a Vera Cruz o maior sucesso de bilheteria em 1951. Com o Cine Marabá lotado, Mazzaropi levou ao cinema, todo o seu público de rádio, provocando filas nos cines de São Paulo.

Seguindo, apareceram outros sucessos: “NADANDO EM DINHEIRO” e “CANDINHO” em 1953; e “O GATO DE MADAME” em 1954,m onde os dois primeiros foram rodados pela Companhia Cinematográfica Vera Cruz, e o último produzido pela Brasil Filmes Ltda.

Em meados de 1954, a Companhia Cinematográfica Vera Cruz, passando por dificuldades financeiras, parou as filmagens e teve seu patrimônio penhorado e hipotecado judicialmente. Mas, para não perder, o artista (Mazzaropi), de maior sucesso no cinema nacional, renovou seu contrato por mais dois nãos, com o mesmo salário, sem que o mesmo estivesse trabalhando.

Na Companhia Fama Filmes, fez o filme “A CARROCINHA” em 1955, também de grande sucesso em bilheteria.

Em 1953, Mazzaropi deixou a Rádio Tupi de São Paulo, passando a alegrar o público da Rádio Nacional de São Paulo, a convite do diretor artístico COSTA LIMA. Lá permaneceu durante 2 anos.

O homem que viajou pelo interior do País e se apresentou em palcos improvisados, tablados rústicos de madeira, para as mais diversas plateias, vestiu um smoking para representar a indústria cinematográfica nacional no festival internacional de cinema do Brasil, em 1954.

No filme “O Candinho”, encontrou-se com o tipo que iria marcar definitivamente sua carreira, o caipira, ao fazer o papel principal.

Trabalharam com Mazzaropi neste filme, Benedito Corsi, Adoniran Barbosa, Ruth de Souza, entre outros. Amácio Mazzaropi dizia: “Aprendi tudo que sei de cinema, vendo o pessoal da Vera Cruz trabalhar. Quando fui fazer o papel de caipira com esse nome não ia dar certo. Tinha que ser Nhô Belarmino, Nhô Sebastião. Mazzaropi nunca. Mas eu era jovem e cheio de brio. Decidi: Vou ser palhaço mesmo, vou fazer o tipo caipira e vou manter meu nome. Este tipo me foi oferecido pela vida. Se você for a Santo Amaro, aqui na periferia de São Paulo, você vai encontra-lo. Nem precisa viajar para o interior. Os críticos dizem que meu caipira é estilizado, mas não é. Eles escrevem isso porque não conhecem a realidade brasileira. Eles leem Monteiro Lobato, mas nunca viram um caipira. Caipira estilizado é esse caipira de festa de São João. E os intelectuais pensam que esse é o autêntico caipira brasileiro”. Entrevista ao Diário Popular de São Paulo – arquivo – Reproduzido na edição de 21/06/81.


A dor da saudade que é que não tem. Olhando o passado, quem é que não sente saudades de alguém...”
MAZZAROPI- trecho da música “Dor da Saudade” em “Casinha Pequenina”- 1962
Capítulo 7. O ARTISTA COM MASSAINI

Osvaldo Massaini, da Cinedistri, em 1956, convidou Mazzaropi para fazer parte de seus filmes. A experiência deu certo. Logo, surgiram, outros três filmes, cartazes de sucesso em todo território nacional: “Fuzileiro do Amor”, em 1955, “O Noivo da Girafa”, em 1956 e “Chico Fumaça” em 1956, todos produzidos pela Cia. Cinedistri.

O cartaz chamava: “Ele se alistou na armada...Foi assim que começou a confusão”.

Era MAZZAROPI em “Fuzileiro do Amor”, juntamente com Terezinha Araújo, Roberto Duval, Gilberto Martinho, Pedro Dias e Wilson Grey, Francisco Dantas, Alberto Perez, Nick Nicola, Domingos Terra, Agildo Ribeiro, Moacir Deriquem, Narazeth Mendes, Ricardo Luna, Mário Campioli, Francisco Colonese e Pato Preto.

No filme, José Ambrósio (Mazzaropi), modesto Sapateiro, namorava Maria (Terezinha Araújo), filha de um Sargento reformado do corpo de Fuzileiros Navais. Para melhorar suas relações com o futuro sogro (Pedro Dias), resolveu tornar-se Fuzileiro Naval. Molenga como era, José Ambrósio não gostava da simpatia do sargento instrutor (Roberto Duval), e nas mãos desse sargento ele era duramente perseguido.

As mais engraçadas complicações surgiram quando apareceu em cena um irmão gêmeo de José Ambrósio (Mazzaropi), que por uma extraordinária coincidência também fazia parte do corpo de Fuzileiros Navais.

Durante um Show no quartel, o recruta José Ambrósio cantou juntamente com artistas do Rádio. Justamente nessa oportunidade é que as confusões atingiram o seu ponto máximo, pois o recruta José Ambrósio foi tomado pelo seu irmão, o sargento Ambrósio José, pressurosamente maluco, sendo conduzido ao hospital, onde finalmente ambos se encontraram, finalizando toda confusão. Foi um filme dos mais engraçados e que atraiu grande público e alto índice na crítica do cinema nacional.

Massaini, empolgado com o sucesso do filme anterior, usou e abusou da oportunidade de continuar na boa maré em que passava o cinema e principalmente Mazzaropi.

O cartaz informava: “...Você conhece o amigo da onça? O amigo urso? Mas vai rir pra valer com Mazzaropi”, que não precisava dizer nada. Só o jeitão molengão, puxando as calças, banguela e as olhadelas peculiares, fazia rir a plateia por algumas horas. Com ele, o elenco: Glauce Rocha, Manoel Vieira, Palmerim Silva, Carlos Duval, Celeneh Costa, Roberto Duval, Odete Lara e Lima Barreto em “O NOIVO DA GIRAFA”.

No folheto alusivo ao filme, estava estampado: “A exibição de um filme de Mazzaropi é sempre bilheteria certa. Programe-o para seu cinema”.

No filme, Aparício Boamorte (interpretado por Mazzaropi), era um modesto funcionário do Jardim Zoológico e levava a vida com sérias dificuldades. No trabalho, seus amigos lhe deixavam as tarefas mais difíceis. Na pensão onde morava, vivia sempre sendo chateado pelos pensionistas. Desde o português mercenário, dono da pensão, até o pianista do cabaré e também a bela filha do “Seu” Gonçalves, todos viviam incomodando Aparício, cujo único consolo era desabafar com a girafa no Zoológico.

Certa dia, a garota Aninha, depois de conversar com Aparício, ficou cheia de manchas. Acusaram o pobre guarda do Zoológico de ter tido contato com algum animal e o obrigaram a fazer um exame médico, que foi feito pelo veterinário do Zoo. O exame de sangue do Aparício foi trocado pelo de um orangotango, e, como resultado – Aparício teria apenas 15 dias de vida, sendo portador de uma doença incurável. Todos passaram a trata-lo de forma como nunca aconteceram antes, inclusive Clara de quem o rapaz gostava. Mostravam-se dóceis, atenciosos. Clara até aceitou o sacrifício de casar-se com Aparício para herdar a fortuna de um tio agonizante que ele tinha. Depois de divertidas peripécias, tudo ficou esclarecido e Aparício voltou à sua vida humilde e solitária, junto à girafa do Zoológico.

“Mazzaropi: o grande marco do Teatro e do cinema do Brasil”. Assim, Carlos Duval iniciou seu depoimento sobre o grande e conceituado humorista. E prosseguiu: “Eu o conheci apesar der não ter tido grande intimidade. Na década de 40, estando eu com a Cia. Procópio Ferreira no teatro Boa Vista em SP, fui levado num intervalo de trabalho do palco do Boa Vista pelo Diretor do teatro, que nos apresentou, Amácio Mazzaropi como um ator novo que estava fazendo grande sucesso nos teatros móveis de São Paulo, e que, possivelmente, iria ocupar o Teatro Boa Vista. Conversamos ligeiramente, achei-o, é claro, simpático e espirituoso, pois nos poucos momentos nos fez rir. Passado algum tempo soube do grande sucesso do Mazza como era chamado entre os íntimos, em toda São Paulo. Veio depois a fase Vera Cruz, em que Mazza com o seu talento, com aquela maneira espontânea e simpática, de fazer os seus caboclos, conquistou o Brasil. E eu que ao ser-lhe apresentado o achara simpático, passei a admirá-lo como grande ator que era. Trabalhei com ele uma única vez, no tempo em que ele ainda não era produtor. Fiz com ele um filme chamado “O Noivo da Girafa”, que eu não me lembro agora o nome do produtor, e isto serviu para eu apreciar, e admirar ainda mais o talento do grande ator que o querido Mazza era. Veio depois a sua fase de produtor, e eu cheguei a ser convidado para um de seus filmes, mas, infelizmente, não me foi possível aceitar. Portanto meu contrato com Mazza foi apenas o ligeiro encontro em São Paulo e os dias em que trabalhamos juntos no filme “O Noivo da Girafa”, mas acompanhei a sua carreira assistindo os seus filmes, e achando-o, com justiça, um dos maiores atores cômicos da minha época. Rio de Janeiro- 30 de novembro de 1985. Carlos Duval”.

“Chico Fumaça” foi o contraste da zona rural e da tecnologia. O público vibrou com as palhaçadas de Mazzaropi, e com suas tiradas engraçadas. Também fizeram rir: Celeneh Costa, Carlos Tovar, Nancy Montez, Roberto Duval e Wilson Grey. Na participação musical, estiveram: Cauby Peixoto, Zezé Gonzaga, Trio Nagô, Neuza Maria e Mara Abrantes. Mazzaropi fez questão, porém, de conservar sua imagem de autêntico caipira, não se incomodando nem com as plumas e lantejoulas das vedetes do filme.

Chico Fumaça (interpretado por Mazzaropi) era um pobre roceiro que vivia à beira da estrada de ferro. Não sabia para onde os trens iam, mas gostava de vê-los passar, soltando fumaça. Morria de amores pela professora (Celeneh Costa). Para ajuda-lo a instruir-se, admitiu-o na escolinha, juntamente com a criançada.

Numa noite, uma tempestade destruiu sua casinha, levando tudo água abaixo. Desorientado, foi andando pela linha do trem e viu que a chuva havia destruído boa parte dos trilhos. Quando Chico percebeu o barulho do trem aproximando-se começou a fazer sinais desesperadamente, para evitar um acidente.

Com isso, sua sorte mudou. Foi considerado herói, homenageado, recebeu vários prêmios, condecorações. As pessoas começaram a orgulhar-se dele, inclusive, a professorinha.

E, no folheto informativo de publicidade do filme, destacava-se que qualquer semelhança seria mera coincidência. Embora não se baseando em fatos reais, a história tinha muito sentido, pois todos conheciam um Chico Fumaça. É bem verdade que nem todos os Fumaças tinham uma professorinha como Celeneh Costa, para ensina-los a viver com honestidade.

Devido ao título “CHICO FUMAÇA”, surgiram alguns problemas. Provavelmente, por coincidência, Roberto Garbi, também comediante de picadeiros circenses, registrou em seu nome (apelido) o título do filme em 1961, em 24 de abril no DNPI (Departamento Nacional de Propriedade Industrial) sob o número 355.218.

Segundo Garbi, seu circo estava na cidade de Umuarama, Paraná, em 1956, quando ruiu a ponte da estrada de ferro próxima ao local onde estava. Um crioulinho magro (Lázaro Adorno), que presenciou o acidente correu quilômetros a pé para avisar o maquinista do trem que passaria pelo local, salvando centenas de vidas. Esta façanha fez de seu herói uma figura muito popular na cidade. E como a máquina era uma dessas velhas locomotivas à lenha, maria fumaça, deram-lhe o apelido de CHICO FUMAÇA. Garbi foi apresentado ao herói em Umuarama e desde o primeiro moimento achou o apelido simpático e comunicativo. Resolveu adota-lo. Não o registrou naquela época. Garbi, dizia que o registro tardio foi pura coincidência, quando, ao mesmo tempo, Mazzaropi aparecia em 1961 nos cinemas como Chico Fumaça também.

Coincidência ou não, Mazzaropi não gostou da atitude de Garbi. E, logo mais, em Bauru, no interior de São Paulo, quando Garbi fazia propaganda de seu Show pela cidade, foi interditado pela polícia, uma vez que o Departamento de Diversões Públicas expedira uma circular proibindo-o de se apresentar em público, sob a alegação de que ele usava indevidamente o prestígio de Mazzaropi. Depois de vários esclarecimentos, Mazzaropi permitiu que Roberto Garbi, continuasse seus Shows.

Lázaro Adorno (do incidente em Umuarama) sentindo-se ridicularizado com a fita, ingressou em juízo, pedindo uma indenização, nada conseguindo.

Seu estilo de trabalho e produção de seus filmes sempre foram voltados à realidade do dia-a-dia do interiorano brasileiro. Não era apelativo. Sobre o novo teatro, o palavrão e o nu no cinema, falou Mazzaropi: “Não tenho nada contra. Pelo contrário, até gosto de peças que têm nu, palavrão, mas quando eles vêm por necessidade, por decorrência da própria história. Não do palavrão, ou do nu forçados. De um punhado de gente pelada se esfregando maliciosamente pelas paredes do teatro; do sensacionalismo para ganhar público. No início, elas vão conseguir encher os teatros, mas e depois este público volta? Não, claro que não volta. Nem a minoria que via ao teatro consegue aguentar ficar vendo gente pelada e ouvindo palavrões o tempo inteiro.

Calculem a população de São Paulo e façam uma relação do número de teatros que nós temos e vejam quantos estão cheios. Vejam quantos lugares têm esses teatros – e verão que a frequência é mínima. O grande público fica em casa, aceita Chacrinha, Hebe Camargo, Sílvio Santos, vê televisão. Vai ao cinema ver os meus filmes e depois eu passeio pelas ruas e ouço um pai de família: Mazzaropi, seus filmes são ótimos. A gente pode levar a família para assistir-lhe. Já imaginaram se eu aparecesse pelado para esse público? Ele nunca mais iria me assistir no cinema”. E concluiu: “Um sujeito perguntou por que é que eu não ponho mulher pelada nas minhas fitas. Ora, se só mulher pelada desse bilheteria, como é que o Maracanã daria 300 milhões numa tarde, mostrando onze crioulos atrás de uma bola?”.

Hoje, Osvaldo Massaini, bem sucedido cineasta fala sobre Mazzaropi: “...foi um homem que conseguiu angariar a simpatia do homem brasileiro, porque ele encarnava a configuração do próprio povo brasileiro”. Finalizando disse que “Mazzaropi era sensacional, com muita consciência do seu trabalho, extremamente vaidoso, porém extremamente sincero”.

Muitos críticos afirmavam que Mazzaropi era uma mistura de Anselmo Duarte com Alvarenga e Ranchinho. Também havia quem o admirava e via nele uma espécie de Bernard Shaw caipira. Outros, o apontavam como um embuste, explorador da ingenuidade popular.

Com isto Mazzaropi achava que no fundo os críticos tinham razão, e esperava contenta-los um dia. Mas ficava muito feliz quando apanhava os críticos em erro. “Eles têm mania de me corrigir. Tudo que faço está errado. Até meu nome. Aí eles corrigem para Amâncio. Pois estão mais errados ainda. O certo seria Amázio, um nome italiano que meu pai queria. Depois, se meu nome é Amácio, o que eles tem com isso? Não posso me chamar de Amácio?”.

Na verdade, a crítica nunca influenciou no seu trabalho. Ele mesmo descobria se haviam falhas em suas fitas. Tinha o hábito de verificar pessoalmente a exibição de seus filmes no cinema e ver a reação do seu público.

O poeta J.G. de Araújo Jorge falou com muita propriedade para a Revista Manchete – julho de 70, enaltecendo que Mazzaropi “não era propriamente aquele Jeca lobatiano, resíduo de nossa miséria, mas o Jeca brasileiro, astuto, inteligente, misturando ignorância, era “uma mistura de três grandes cômicos Buster Keaton, Chaplin e Cantinflas, e isso não o impediu de criar um humorismo nosso, sertanejo, tragicômico, rico pelas situações e por sua imaginação”.

Prestou depoimento também, Cid Moreira:

“Conheci Mazzaropi no início de minha carreira na cidade de Taubaté. Nesta ocasião, ele levou um amigo para trabalhar na Rádio Tupi. Posteriormente, quando fui trabalhar na Rádio Bandeirantes, pude encontra-lo novamente.
Mazzaropi foi uma figura marcante no cinema nacional, pela característica toda própria por ele criada.
Acredito que com a perda deste comediante, ficou uma grande lacuna no Cinema Brasileiro. Cid Moreira – Apresentador de TV, Rio de Janeiro, 28 de Maio de 1986”.

Oliveira, Luiz Carlos Schroder. Mazzaropi: A Saudade de Um Povo. Londrina, CEDM Editora, 1986.

segunda-feira, 15 de julho de 2019

Mazzaropi: A Saudade de Um Povo, parte I



SUMÁRIO

Prefácio de Rolando Boldrin

Prefácio de Terezinha Niero

Prefácio de Marinósio Filho

Agradecimentos

I. QUEM FOI MAZZAROPI

II. O “PAVILHÃO E SUA TROUPE”

III. APARECEU O TEATRO

IV. “RANCHO ALEGRE” NA RÁDIO TUPI

V. O NOTÁVEL CÔMICO NA TELEVISÃO

VI. OS PRIMEIROS FILMES NA CIA. VERA CRUZ

VII. O ARTISTA COM MASSAINI

VII. A PAM FILMES E SUA TRAJETÓRIA

IX. ADEUS A MAZZAROPI


Prefácio de Rolando Boldrin

Um dia, o Mazzaropi chegou para mim e disse: -Oia Boldrin, eu ainda hei descer de um carro de luxo, cujo motorista será um japonesinho fardado de vermelho e este, abrirá a porta para o “caipira” (ele) sair garboso e aplaudido na frente de um cinema onde estará passando um filme meu, (dele). Este desejo, dito assim, parecia vir de um rico excêntrico, mas não. Vinha de um ator que queria mostrar aos brasileiros, que ele, já um sinônimo do “JECA TATU”, um dia daria muito sucesso com sua própria Empresa Cinematográfica, provando com isso, o valor de sua cabeça e sua arte de representar. E assim foi. O que ele pensou e quis, aconteceu. Tudo. Até mais do que ele talvez tivesse pensado. E para provar que não era excentricidade de sua parte, o tal japonesinho nunca existiu. Mas, ele desceu muitas e muitas vezes de um carro na frente do Cine Art-Palácio em São Paulo, para participar com convidados, da avant-premier de todas as suas produções de grande sucesso. Aquele tipo brasileiro criado por ele estava agora em quase todas as telas americanas de nossa terra, de norte a sul, leste-oeste. Filas e mais filas, sessões e mais sessões, com um público misturado como as mercadorias deste grande “EMPÓRIO” que é o Brasil. Somos, todos nós, um povo formado de “caipiras”, simples, humildes, acanhados (que é sinônimo) e além disso, no geral, sem muita saúde.

- A benção, Monteiro Lobato, que criou o “JECA TATU”, símbolo do abandono e da preguiça doentia. A benção, pintor Almeida Júnior que criou em telas, um outro “JECA”: o “CAIPIRA PICANDO FUMO”, o “VIOLEIRO” e tantos outros que já demonstravam por ele, um pouco mais de vitalidade e aí sim, “UM CANTADOR E PONTIADOR” de violas e modas puras. A benção, Cornélio Pires, meu professor, escritor, historiador, pesquisador e valorizador da linguagem de outro “JECA”: aquele sagaz, matreiro, astuto e mais vivo do que os homens letrados da cidade. A benção, Valdomiro Silveira, que escreveu contos, coisas e “causos” do homem mais simples e trabalhador do nosso interior. A benção, a todos aqueles que se preocuparam em divulgar o Brasil através de seus tipos humanos mais esquecidos e mais importantes para o progresso de nossa terra: social e culturalmente. A benção, aos não citados aqui, nominalmente. Aqui, neste despreparado prefácio. A benção, por fim, ao personagem principal desta história escrita. Onde o autor tenta resgatar seus valores mais puros, por tê-los vividos de perto...De muito perto.

A benção, Amácio Mazzaropi, que imortalizou um “JECA”, cujas características se fundem com a de todos outros “JECAS” citados e criados por valorosos artistas brasileiros. Eu, adepto do seu “caipira”, digo que sofri sua influência. Procuro cantar e contar isso sem o menor constrangimento, mas com grande orgulho. Por isso, mais uma vez: A benção, MAZZAROPI.

Queridos leitores: sigam com a história deste “HOMEM-JECA” incrível.

Parabéns CARLINHOS, pela coragem de escrevê-la.

Rolando Boldrin
Apresentador do Programa
“Empório Brasileiro”


Prefácio de Terezinha Niero

Luiz Carlos,

Quando visitei a exposição sobre Mazzaropi, promovida por você, em Londrina, avaliei a pequena mostra, simples e original, como um trabalho sincero, humano e cheio de amor.

Quis conhecer o promotor da singela homenagem, ao grande e inesquecível “Mazza”. E foi assim que nos conhecemos. Mas não podia absolutamente imaginar que eu seria presenteada com a leitura dos originais deste livro, que agora sai ao público.

Ninguém melhor que você, que por longos anos viveu ao lado “dele”, poderia escrever estas páginas emocionantes, revelando cenas e episódios da vida do nosso grande artista.

Sabe Luiz, deliciei-me em ler e reler, folhear cada página, com carinho, procurando reviver cada momento, por você registrado nesse relicário.

Embora agradecer-lhe seja pouco, assim mesmo quero dizer-lhe: “Muito, muito obrigado. Pela felicidade que você me proporcionou com sua narrativa, fazendo-me saborear ‘lembranças, no açúcar da saudade’, como diria Drummond.

Creio que todo brasileiro que tiver a sorte de pôr os olhos sobre este seu trabalho, sentirá o mesmo que senti. E em cada página lida, a emoção fará reviver os momentos guardados de um tempo não muito distante. Aí, então, a energia de cada lembrança fluída e provocada pela arte incontestável no nosso querido “Jeca”, unir-se-à a tantas outras que “ele” soube conquistar entre o povo brasileiro e serão muitas vidas a ligar-se a dele para torna-lo inesquecível.

Amigo Luiz Carlos, penso que sua fidelidade ao Mazzaropi, será motivo de alegria para ele, onde quer que ele esteja e será igualmente o elo entre você e o enorme público que ainda o admira.

Felicidades.

Terezinha Niero
Professora da Catedral Metropolitana de Londrina


Prefácio de Marinósio Filho

Estou diante de um trabalho de fôlego. Prefaciá-lo, não; antes, botar pra fora o que me transmitiu “MAZZAROPI: A SAUDADE DE UM POVO”, de Luiz Carlos Schroder de Oliveira.

Temos por fim um documento histórico da vida e obra de um pioneiro do cinema brasileiro. Homem que deu a vida para a arte.

Aprendi a aplaudi-lo, a rir, desbragadamente, da graça ingênua do artista “matuto”, convicto. Depois, o meu neto, Marinósio II aprendeu a ama-lo e até hoje conta estórias do notável Mazzaropi.

Uma página imorredoura do cinema nacional. Mazzaropi é revivido, em alta fidelidade, nas páginas de um livro despretensioso e com ausência de romanceações ilusórias.

Luiz Carlos é objetivo no texto. Rápido, agradável e descobridor de riquezas conhecidas, no profundo oceano da vida de Mazzaropi.

O livro transportou-me aos tempos que não volta mais.

Que beleza recordar.

Estou certo, meu caro escritor, com o seu pique e viço, próprios de uma mocidade que quer algo mais, naturalmente pretende prosseguir nas letras. Quantas obras poderão vir, só você sabe.

Não esqueça que os percalços são imensuráveis e os entulhos maiores. Encontrará muitas pedras, vidros e buracos enormes, tão perigosos que poderão sucumbir a mais viva das esperanças e o maior dos entusiasmos.

A coragem é uma arma poderosíssima dos moços. E você é moço. Energia capaz de destruir o “super-homem”, medalhões da nossa era que vivem de uma tradição literária discutida e sempre contestada.

As pedras virão à sua cabeça. Defenda-se. Eles ladrarão e você vai passando, cheio de esperanças, de fé e com muita coisa boa, nessa cabeça que se apresenta vigorosa, com novos rumos, novo estilo e muita perspectiva de vencer.

Abraços de Marinósio Filho.


Marinósio Filho da Academia de Letras de Londrina e da União Brasileira de Letras.


 Agradecimentos

Aos meus pais e irmãos que muito me incentivaram nesta pesquisa;

A Andressa com muita ternura;

A Maria de Fátima Ribeiro que carinhosamente mostrou a força do amor e do carinho para a realização deste trabalho, e que se fez parte integrante do mesmo;
Aos familiares de Mazzaropi pelo apoio;
Ao Mazzaropi (In Memorian) que espiritualmente me deu forças para o desenvolvimento deste trabalho;
 “A ribalta sempre foi meu lar. Esta é minha história”.

Mazzaropi


Capítulo 1. QUEM FOI MAZZAROPI


O circo chegava e um menino franzino ia atrás do palhaço. Não perdia um espetáculo. Cheio de sonhos, tinha uma certeza: trabalhar no circo e fazer sucesso.

Esse menino era AMÁCIO MAZZAROPI, nascido ao 9 de abril de 1912, na casa nº 5, da Rua Vitório Carmilo, em São Paulo e batizado na Igreja de Santa Cecília.

Era filho do italiano BERNARDO MAZZAROPI e de CLARA FERREIRA MAZZAROPI, filha de portugueses.

Ambos eram comerciantes bem sucedidos, da Barra Funda, tradicional gueto de italianos da capital paulista.

Do avô, AMÁCIO MAZZAROPI (imigrante italiano que foi trabalhar nas terras do Paraná) não herdou só o nome, mas o gosto pela vida do campo que o levou, um dia, a pesquisar no interior o personagem de calças curtas, canela aparecendo, botinas e fala arrastada.

O franzino garoto com caricatura própria e gestos engraçados, aguçava a curiosidade de todos com suas prosas.

Desde criança tinha mania de querer ser artista. Quando ia ao circo, invejava os artistas que andavam no arame. Queria fazer tudo o que eles faziam num espetáculo circense.

Um dos primeiros palcos alcançados pelo “JECA”, (personagem de “TRISTEZA DO JECA) um dos seus mais famosos filmes, foi no teatrinho do Grupo Escolar São José de Belém, onde concluiu o Curso Primário.

Lá, declamava poesias e fazia encenações humorísticas em pequenas peças infantis. Nem sequer imaginava o sucesso que já era prometido como um dos maiores humoristas do País.

Desinteressado nos estudos, MAZZAROPI vivia frequentemente em circos que se instalavam nas proximidades de sua casa, onde lá permanecia com pretexto de vender pirulitos.

Seu destino já estava traçado. O mundo maravilhoso do circo lhe atraía e o convidava para permanecer nele.

Mas, incompreendido pela família, foi conduzido para Curitiba, em companhia de seu tio DOMINGOS MAZZAROPI, com o objetivo de distanciá-lo do circo.

Na capital paranaense, o grande humorista viu-se novamente, atuando como caixeiro de uma loja de casimiras de seu tio, na Rua XV de Novembro. O comércio não lhe atraía, e, para passar o tempo, e dar maior prazer ao trabalho, fazia graças e caretas, brincando com os fregueses, fazendo tudo como se estivesse num palco. Media casimira, fazendo pose. Vendia, imaginando uma câmera na frente. Tinha isso no sangue.

Aos 14 anos, retornou para São Paulo, e continuou a tentativa de ingressar à vida circense.

Conheceu o famoso FERRY, faquir de um circo popular da redondeza. Nos intervalos das exibições do faquir, MAZZAROPI ganhava um mirrado salário para contar piadas. O rapaz magro, que havia estudado apenas até o ginásio e também tinha dotes de pintor e desenhista, pintando cenários, resolveu lançar-se na vida de ator popular.

FERRY conseguiu para ele um documento em que transformava seus 14 anos em 19, para que tivesse liberdade de falar as piadas picantes que o povo queria ouvir.

Mostrava ao público a espada do faquir, para que visse que ele cortava mesmo. E com o faquir deitando na espada, comendo vidros, foi viajando pelo caminho da Central do Brasil.

Abriu-se para MAZZAROPI uma trilha que marcou sua vida profissional e artística no circo. Abandonou o conforto de sua casa, classe média paulista e optou por um estilo e ritmo de vida que naturalmente se identificavam com ele. A paixão pelo circo fez com que viajasse pelo País por 6 anos com muito sucesso, com suas animações sob as lonas, ao lado de FERRY, de espetáculo em espetáculo.

Para Mazzaropi, no circo o mais importante foi a experiência de entender e ser entendido pelo público. Foi nessa convivência com gente humilde que adquiriu condições de entender o povo, graças ao que, pode projetar no personagem que o consagrou.

O rádio e a televisão sempre deram mais dinheiro, onde o artista se projetava mais que o circo. Mas, de dentro do picadeiro via o povo mais de perto. A serragem era menos sofisticada que as luzes dos refletores. O circo era para Mazzaropi o seu mundo-ternura de criança.



Capítulo 2. O “PAVILHÃO” E SUA TROUPE

Já conhecido no cenário nacional, com suas viagens de grande público, aos 20 anos, com ajuda dos seus pais, montou o “PAVILHÃO MAZZAROPI”, uma troupe de alto investimento, que fez com que deixassem o comércio para acompanhar de perto o filho – artista.

A troupe (teatro ambulante) era composta de Shows variados, com declamações, cantos sertanejos, anedotas e peças teatrais. Vivia viajando como cigano, levando cenários e todos equipamentos juntos, numa espécie de revistinha bem simples. Naquele tempo, várias companhias viajavam dessa forma, sempre se apresentando nos cinemas, após a exibição da fita em cartaz.

Apresentava peças de teatro, em quatro ou cinco atos e depois fazia o caipira. Quando chegava na cidade, o povo fazia festa e o prefeito, segundo MAZZAROPI, “jamais criava alguma dificuldade, como acontece hoje com os cirquinhos que levam diversão de cidade em cidade”. E lembrava o renomado comediante: “O teatro era facilmente desmontável, ficávamos uma média de oito dias em cada lugar e seguíamos em frente. Êta povinho que gostava de teatro e anedotas. Uma mulher com o vestido como esses de hoje fazia o maior sucesso naquele tempo, lotava de gente para ver, e hoje elas andam com tudo de fora e ninguém liga. Nosso pavilhão tinha 20 atores e o melhor deles era mamãe. E o povo ria e chorava como acontece hoje”. Entrevista a Caco Barcelos – Movimento em 05/04/76.

O pavilhão foi instalado inicialmente em Jundiaí-SP, seguindo, posteriormente, para diversas cidades do País. Havia um repertório fixo: DEUS LHE PAGUE e ANASTÁCIO, de Joracy Camargo; O CORAÇÃO NÃO ENVELHECE, de Paulo Magalhães; DIVINO PERFUME, de Renato Viana; ERA UMA VEZ UM VAGABUNDO, de José Wanderley, e várias pelas de Oduvaldo Viana, entre outros.

O “Pavilhão” era um barracão de madeira, com cobertura de lona. No dia de estreia do “PAVILHÃO MAZZAROPI”, uma tempestade muito forte não permitiu a apresentação do espetáculo. Caíram as paredes, quase demoliu seu sonho. A inauguração só foi possível 3 dias após o vendaval, com muito sucesso. “Seu” Bernardo, o pai, controlava o caixa, e a mãe subiu ao palco, participando das encenações.

Os jornais e emissoras de Rádio anunciavam os espetáculos, destacando-se MAZZAROPI, o mais perfeito no gênero caipira.

Juntamente com ele, subiram ao palco do PAVILHÃO: Argeu Ferrari, Júlio Ribeiro, Zilá Ribeiro, Maria Nogueira do Amaral (que mais tarde adotou o nome artístico de Olga Mazzaropi), Felicidade Ferreira, Clara Mazzaropi, Rubens Camossatto, Del Mar e Reis, entre outros que se tornariam sucesso no teatro e cinema nacional.

Com seu pavilhão, MAZZAROPI percorreu o País com grande sucesso. Para transportar seu espetáculo ambulante, valeu-se de dois grandes vagões da SOROCABANA, para o Estado de São Paulo, com um quadro artístico de primeira qualidade, conquistando a simpatia dos espectadores, com suas imitações de caipira.

Continuou suas apresentações pelo interior de vários Estados, cujas atuações mereceram elogios dos críticos e jornalistas que conferiram o sucesso por, aproximadamente, 15 anos.

Depois de intensas viagens pelo interior do País fazendo rir todos os espectadores que compareciam aos seus espetáculos, o comediante MAZZAROPI que, por vezes, fazia lembrar PROCÓPIO FERREIRA, como apresentava o colunista FRANCISCO SÁ, em São Paulo quando, por volta de 1935, foi ver seu espetáculo no alto da Lapa, e fez comentários em sua coluna: “O que vai pelos Teatros – Um artista que promete”.

Com seu curioso estilo crítico, sério, o petulante jornalista se posicionava também como conselheiro do humorista. Embora tendo assistido a um espetáculo de qualidade, como afirmou, sugeriu a substituição do nome do comediante, que era anti-teatral, embora Mazzaropi nunca se preocupara com isso.

Nas encenações, Mazzaropi fazia lembrar o saudoso comediante, SEBASTIÃO ARRUDA, e seu irmão, GENÉSIO ARRUDA, quando interpretava o caipira, personagem do JECA brasileiro. Quando caracterizado, era um caipira verdadeiro. Mole, desajeitado, desengonçado, sempre se coçando, cuspindo, parecia mais um caipira genuíno e não um mocinho caracterizado. Saiu pro interior um pouco SEBASTIÃO e voltou MAZZAROPI, das turnês em circos, teatros, recitando monólogos dramáticos, fazendo a plateia rir e chorar, sempre com a preocupação de conversar com o público como se fosse um deles.

De nada valeu a preocupação de seus pais, quando saiu de casa, que diziam: “quem faz teatro, morre de fome em cima do palco”. E MAZZAROPI não morreu, pelo contrário, sempre teve sorte, sempre ganhou dinheiro.

Nos primeiros anos da década de 40, recebeu um convite do empresário MIGUEL GIOSO, que, normalmente, contratava só companhias estrangeiras, para apresentações no TEATRO SANTANA, em São Paulo. Provido de finos e luxuosos camarotes aveludados, a plateia exibia joias, chefer e muita burguesia. Fazia parte do Show da Companhia de Gioso, uma orquestra refinada. Para reforçar a apresentação de Mazzaropi, o produtor continuou com a orquestra, mas não deu certo. O povo estava acostumado a vê-lo bem simples, acompanhado por uma banda de tambor, banjos e outros instrumentos populares e não aquele luxo extravagante com pianos e violinos.

Para divulgação eram utilizados panfletos chamativos como eficaz meio publicitário para a época.

Após 15 anos de sucedidos espetáculos, o cômico e humorista MAZZAROPI, quando se apresentava em Pindamonhangaba, cidade do interior paulista, em 1945, perdeu seu pai, seu braço direito nas caminhadas e montagens dos espetáculos. Tendo gasto muito dinheiro na enfermidade do pai, o Pavilhão ficou desmontado vários dias no Pátio da Estação Ferroviária de Pindamonhangaba, não tendo portanto, condições de continuar seus espetáculos.

O Dr. Estambulo, médico (que acompanhou o pai de Mazzaropi em sua enfermidade), juntamente, com sua esposa, Dona Dulce, ajudou financeiramente a transportar o Pavilhão para São Paulo, em 1945. Logo após a morte do pai, Mazzaropi foi ao Rio de Janeiro continuar a vida artística e parou no Teatro João Caetano onde atuavam os mais famosos artistas brasileiros, Beatriz Costa e Oscarito.

MAZZAROPI contou ao jornal “O Movimento” em 05/04/76, com muita emoção essa passagem pelo Rio de Janeiro, onde afirmou que jamais iria esquecê-la. Deu uma entrevista para um jornal, com grandes fotografias. Foi marcada a estreia para o dia seguinte no lugar de Oscarito que não queria renovar o contrato. Mas no dia seguinte, Oscarito acertou com a empresa isto magoou muito MAZZAROPI. O seu Show não foi realizado.

Deixando o Rio de Janeiro, continuariam os espetáculos com muito sucesso na capital paulista, quando os teatros estavam praticamente desativados pelo alto custo das apresentações e o agravamento de tributos sobre essa atividade.

Diante do interesse frequente do público dos bairros paulistas aos espetáculos de MAZZAROPI, o interventor Fernando Costa, para beneficiar os trabalhadores, isentou de impostos e taxas os teatros populares dos bairros.

Essa medida possibilitou ainda mais a frequência de assistentes, lotando as arquibancadas de madeira do barracão coberto com telhas de zinco que Mazzaropi carinhosamente montava de bairro em bairro. Nessa época, em 1945, onde São Paulo tinha aproximadamente 1 milhão e meio de habitantes, os teatros estavam em péssimas condições de propiciar espetáculos de entretenimento. O Teatro Municipal, já antiquado para altos gêneros. O Teatro Santana não oferecia condições, juntamente com o Boa Vista e o Cassino Antártica. Tornou-se então o “PAVILHÃO MAZZAROPI, ponta de maior concentração popular pelos preços acessíveis de bilheteria popular, quando a maioria dos paulistas não podia frequentar operetas e líricos reservados para uma pequena classe burguesa.

Foi de grande importância a reportagem publicada no Jornal “A NOITE” de São Paulo – edição 1.794 de 14/08/1945, quando explorou muito bem a chegada do TEATRO MAMBEMBE em São Paulo, e falou sobre o Pavilhão nos espetáculos do empoeirado bairro do ITAIM, quando MAZZAROPI apresentava cenas da “CHANCHADA” e “O MARIDO Nº 5”.

Um dos primeiros investimentos imobiliários de         MAZZAROPI foi a aquisição do terreno da Rua Paes de Araújo, 168, do Bairro Itaim Bibi, em SP, onde construiu sua primeira casa, e que serviu de residência até os últimos dias do comediante. A escolha pelo bairro foi devido o grande sucesso alcançado em seus espetáculos e o carinho que tinha pelo local onde estava anteriormente instalado seu pavilhão. Até a construção da casa, o humorista se instalou provisoriamente no Tucuruvi, outro bairro paulista da zona norte, onde, mais tarde, denominou seu espetáculo com o nome “Bernard Shaw do Tucuruvi” em homenagem ao cômico inglês com o mesmo nome, e ao bairro onde morou.

“Seu delegado é a favor do divórcio? Então prepara um cafezinho, que eu hoje vou lá na sua casa pedir sua mulher em casamento”.
(Mazzaropi – em “O Jeca contra o capeta – em 1975).

Capítulo 3. APARECEU O TEATRO

Em fins de 1945, foi convidado pelo ator NINO NELLO, proprietário de uma companhia de Teatro com o mesmo nome, para atuar no Teatro Colombo em São Paulo, permanecendo com ele um ano.

Nessa companhia, trabalhou no “ATO VARIADO”, onde cantava cançonetas napolitanas e não podia usar microfone. Quem usasse microfone, segundo MAZZAROPI, era vaiado. Tinha que ser na raça. Nada de auxílio da LIGHT.

Do Teatro Colombo, foi para o Teatro Oberdan, uma vez que o primeiro fora reservado para peças líricas e operetas. Foram apresentadas peças famosas, tais como: FILHO DE SAPATEIRO, SAPATEIRO DEVE SER, de João Pereira de Almeida; PEPINO O VERDUREIRO; PORQUE CHORAS PALHAÇO. Na estreia, no Teatro Oberdan, folhetos, distribuídos pela São Paulo, anunciavam a “Temporada de Gargalhada, com Nino Nello, o cômico paulista número 01 e sua companhia de espetáculos para rir, apresentando: MAZZAROPI o cômico cem por cento engraçado, que atuou como locutor da engraçada charge: “FILHO DE SAPATEIRO, SAPATEIRO DEVE SER”.

Reportando-se ao maior comediante brasileiro, Geny Prado (que trabalharam com ele em vários filmes) falou:

“Mazzaropi foi um grande mito do cinema nacional.
Não podemos esquecer também que ele foi muito importante para o cinema brasileiro. Ele criou um tipo próprio de jeca e sabia que aquele tipo iria agradar seu povo.
Mazzaropi era muito alegre e de grande valor. Saindo praticamente do nada, tornou-se grande parte da história do cinema indústria. Muitos tentam imitá-lo, mas nunca conseguirão. Mazzaropi nasceu com a arte e, nos trinta anos que trabalhamos juntos no programa “RANCHO ALEGRE” e, posteriormente, no cinema, nunca encontrei um artista com tanto talento.


Sem Mazzaropi, o cinema ficou um grande vazio. Não temos as filas quilométricas nas portas dos cinemas de todo o Brasil. Na época de lançamento de um filme de Mazzaropi, havia brigas entre os donos de cinemas porque sabiam que era bilheteria certa. Mazzaropi tinha um tino incrível e sabia exatamente o que agradava o seu povo. Muitas vezes, quando estávamos filmando, ele mudava o próprio texto da estória para que a cena ficasse melhor. Não acredito que apareça outro jeca com tanto talento e sabedoria como o meu querido Mazzaropi. Geny Prado – Atriz, São Paulo, 27 de maio de 1986”.

Publicado originalmente em OLIVEIRA, Luiz Carlos Schroder. Mazzaropi- A Saudade de Um Povo.  Londrina: CEDM Editora, 1986.