segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

A história do Jogral: capítulo cinco

Capítulo 5

“O JOGRAL” CONTINUA

Por Marcus Pereira


                     Luiz Carlos Paraná premiando Lupicínio Rodrigues no "Jogral"

O que aconteceu depois, se importa ou não importa, eu não quero lembrar. Carlos morreu no dia 3 de dezembro de 1970. Logo em seguida, retomei a gravação do seu disco e, para termina-lo, convidei dois cantores muito ligados ao Carlos e à sua obra: Adauto Santos e Emílio Escobar. Ouvi, no estúdio, com amplificadores de 200 watts e em grandes alto-falantes, as três faixas que Carlos houvera gravado e os play-backs. Foi a mais dura prova a que todos fomos submetidos. A todo momento, a gravação tinha que parar, porque alguém entre nós não tinha condições de prosseguir. E no dia 30 de dezembro de 1970 eu escrevi sua contracapa, que transcrevo a seguir:

“Carlos, meu velho,

Terminamos, afinal o seu disco. Desculpe retomar assim o nosso diálogo, mas, não fosse a sua teimosia, e este disco poderia ter sido feito antes. Mas você, com aquela história de deixa para lá, ao longo de todos estes anos, vai ouvi-lo não sei em que circunstâncias. A gravação foi trabalhosa, com repetições intermináveis para chegar àquilo que acreditamos ser o que você tinha pensado. Não foi fácil para o Adauto e o Emílio descerem até o seu tom, no qual foram gravados os playbacks. Mas o Válter, com aquele chicote de ternura nas mãos, nos fustigava a todos. Tereza acompanhou tudo também, atenta à divisão, à dicção. Todos nós ainda muito embriagados de tristeza, talvez um pouco sobressaltados ainda, aquela descrença burra iludindo a gente.
No mais, nem sei o que dizer. ‘O Jogral’, aquela enchente de sempre. Aluísio correu à noite outro dia, não tinha quase ninguém em lugar nenhum lugar. Mas lá, o empurra-empurra de sempre. O pessoal está dando tudo: o Trio, Mário, Geraldo, todo mundo. Eu pretendo voltar, não voltei ainda, tenho medo de esquecer. Mas o Válter, logo depois, esteve lá e me disse: Estava aquela paulera! Ah!, antes que eu me esqueça, obrigado pelo amigo que você nos deixou, o Fiore. Não preciso te dizer nada, apenas que estamos de olho, pra ele não cair em outra estafa. Outra coisa: Jorjão perdeu sua gargalhada, e ninguém sabe onde. Temos estado sempre com a Martinha, ela vai tocando, assumiu já o leme e estão firmes as suas pequenas mãos. A foto da capa foi ela quem fez. Reinaldo e Teresa chegaram um pouco atrasados – é o que eles pensam – mas você sabe que eles estão entre os que chegaram primeiro. Paulinho está pra chegar do Norte, acho que não sabe de nada, a gente precisa dar um jeito, mas não sabemos que jeito. Ilse, as meninas, estavam conosco. Maria Antônia também.
Todo dia volto para casa, pego meu uisquinho, ponho um disco na vitrola (a editora Abril reproduziu uma fotografia sua entregando a ‘Ordem Jogral’ pro Lupicínio, não sei se cheguei a te contar) e olho para o seu velho violão pendurado na parede. Parece que ele te faz as vezes e me diz “oba”!, como foi sempre. Agora eu paro, porque não há quem consiga escrever chorando.
Marcus”.
PS: Estivemos em sua casa naquele dia mesmo e, logo na entrada, Carolina viu a sua coleção que ela dirigiu. Ela ficou olhando longamente, mas não disse nada, nem eu perguntei”.

Quando Carlos Paraná morreu, “O Jogral” estava no auge. Durante sua doença e de Marta – que só se recuperou depois de sua morte, perdendo a criança que gerava – o Fiore assumiu a administração. O inventário foi longo e complicado porque o Carlos, que não teve filhos, tinha como herdeiros seus pais que deram procuração a dois filhos, irmãos de Carlos. Eu sabia que só Marta e Fiore tinham condições de prosseguir, já conhecia a garra e a seriedade deles. Mas o “Jogral” era aparentemente um negócio muito lucrativo e é muito difícil fazer uma partilha de bens quando entre eles figura um bem não convencional, de avaliação difícil, porque seu valor, na verdade, era determinado pelas condições das pessoas que sucedessem o Carlos na direção. Omito agora detalhes desnecessários para registrar que, afinal, depois de um ano de disputa, “O Jogral”, na partilha de bens realizada, ficou para Marta Paraná, que manteve Fiore como sócio, com vinte e cinco por cento do capital. Graças a essa raríssima mulher que, renunciando-se, porque não gostava da vida noturna assumiu a direção do “Jogral”, é que permanece vivo o que Válter Silva, na “Folha de São Paulo” de 14 de agosto de 1976 chamou de “minitemplo da cultura popular”.

Como fizera durante toda a doença de Carlos – quando toda a administração do “Jogral” ficou a seu cargo – o Fiore prosseguiu levando o barco pra frente depois que o Carlos morreu. A morte de Carlos Paraná traumatizou os setores pensantes e sensíveis da vida noturna. Reproduzo os títulos de algumas notícias que a imprensa de São Paulo publicou: “Jogral e boêmios de luto, por Paraná” (Jornal da Tarde de 4/12/1970). “Luís Carlos Paraná morre aos 37 anos em São Paulo quando fazia mais sucesso” (Jornal do Brasil, 4/12/1970).

Carlos morreu quando “O Jogral” estava no auge do sucesso e o caráter pessoal no relacionamento dos artistas e do Carlos com os frequentadores, no tempo da Galeria Metrópole, já tinha dado lugar a um relacionamento impessoal e “O Jogral” já tinha passado a ser atração turística e a ser incluído em roteiros, por limitados que fossem. Na verdade, “O Jogral” já tinha adquirido velocidade própria e foi isso, mais a dedicação e a seriedade do Fiore, primeiro e, depois, da Marta também, que permitiram que o barco suportasse a perda de seu capitão, que muitos consideravam insubstituível. Muitos artistas logo se afastaram, passaram a se apresentar em outras casas, outros fundaram sua própria casa. Mas o “Jogral” resistiu, inclusive resistiu àquilo que poderia ter sido a pá de cal, se estivesse realmente morto, e que foi uma página inteira publicada no Jornal da Tarde de 7 de outubro de 1971, o mais importante vespertino de São Paulo e orientador do seu grande mercado consumidor de entretenimento e cultura, sob o título “Vende-se uma grande saudade por 5 milhões de cruzeiros”. A seção “São Paulo Pergunta”, editada pelo jornal, publicou no dia 19/10/71, uma carta minha e outra de Marta Paraná, defendendo o que “O Jogral” representava, e representa. Transcrevo-as a seguir:

“Sr. Redator: Resolvi, hoje, á vista da matéria publicada pelo Jornal da Tarde com o título “Vende-se uma grande saudade por cinco milhões de cruzeiros” quebrar o segredo de uma quase confidência, - para ter autoridade de dizer o que se segue. A matéria a que me refiro pretende contar a história do “Jogral”, uma boate de música brasileira quase legendária neste nosso país de efemeridades. A confidência é a seguinte: certa vez Carlos Paraná – fundador e dirigente do “Jogral” até dezembro do ano passado, quando morreu, entregou-me um violão com sua capa de piano, dizendo: ‘Isto é pra você’ E eu retruquei: ‘Mas Carlos, eu já tenho violão’ – Então – ele esclareceu ‘Tem uma coisa dentro da barriga dele’. Não foi preciso fazer uma cesariana, porque a barriga dos violões já vem abertas para essas eventualidades. Lá dentro encontrei um bilhete: ‘Marcus – este meu companheiro de tantos anos, parceiro de minhas canções de amor até aqui, eu gostaria de oferece-lo a mulher amada. Mas ela passou e passará sempre. Fica então para você, porque os amigos passam menos e até há os que nunca passam’. Carlos Paraná até então (março de 1967) tinha carradas de razão para não crer nas mulheres. Mais tarde encontrou a mulher de sua vida que, com alguns amigos, vem mantendo acesa uma chama que o Carlos, um dia, acendeu e que, de repente, se espalhou por ai: a música popular brasileira.
Aquele bilhete – mais do que uma dedicatória – é um mandato. E é no exercício desse mandato que venho à presença de V. V. Ressalvadas inúmeras impropriedades, digamos, históricas, em relação ao “Jogral” (não ficava ao lado do Sand-chirra, apenas no mesmo pavimento, Caetano não era frequentador assíduo do "Jogral" e muito menos compôs qualquer música lá – e muitas outras), o que me parece grave – principalmente por se tratar do Jornal da Tarde que pertence ao mais idôneo grupo da imprensa brasileira – é que a matéria contém inverdades que podem trazer, agora e no futuro, graves prejuízos para o “Jogral”. Isto seria igualmente grave se referisse a qualquer empresa ou pessoa. Mas, em se tratando do “Jogral”, o fato acumula uma gigantesca injustiça com a obra de um artista extraordinário que foi Carlos Paraná. Eu o conheci como cantor diarista (ou noitista?) na boate ‘Open Door’, na Galeria Metrópole, em 1964. Surpreendeu-me ouvir, numa boate das chamadas facilidades, alguém cantar uma música de sua autoria com um verso como “bom seria se pelo amor/ nunca mais se colhesse a flor – pois que culpa uma rosa tem – se alguém gosta de alguém”.
Nossa amizade, que não passará nunca, apesar de imobilizada pelo acaso da morte, começou aí, exatamente nesse verso. Em 1965, Carlos Paraná decidiu abrir uma boate e como uma sociedade comercial precisa de sócios, convidou-me. Ele ficou com noventa e nove quotas e eu com uma. Pode parecer mau negócio, mas, confesso, foi o único bom negócio que fiz na minha vida. Com dividendos, e filhotes e reavaliações, eu tenho milhões de ações de saudade, nomitativas e intransferíveis. É importante, agora dizer uma coisa: quando Carlos Paraná fundou o “Jogral”, a música consumida na praça era o ‘iê-iê’, a macaquice nacional da ocasião. Era a música de todas as boates, música que predominava nas programações do rádio. Para ganhar dinheiro, o negócio era entrar na onda. Mas Carlos Paraná era desses homens que sabem colocar o dinheiro no lugar que ele merece. E o “Jogral” venceu. E cresceu. Com ele nasceram e cresceram muitas boates de música brasileira. É preciso dizer mais: quando Carlos fundou “O Jogral” muitos amigos excepcionais não tinham trabalho e amargavam a consciência trágica do talento útil para a arte, mas inútil para a vida. Graças ao Carlos, hoje dezenas, quem sabe centenas de artistas, recebem pela sua arte, pelo menos, a quantidade necessária de proteínas para mantê-la viva.
Por isso tudo, o “Jogral” que é onde repousa o espírito do Carlos, não merecia a reportagem do Jornal da Tarde. Mesmo que sua memória não merecesse o respeito que acho que merece – por tudo que ficou dito – merecia pelo menos a verdade elementar – direito que não precisa ser requerido. E não é verdade que ‘dentro do Jogral quase vazio, apenas a flauta cansada, os frevos de Hilton Acyolli’, porque “O Jogral” nunca está vazio, e disso há milhares de testemunhas. E a flauta do Mané – sobrinho de Pixinguinha – assoprando as coisas menos cansadas de nossa gente e de nossa música – é a melhor flauta popular do Brasil, segundo Baden. Diz ainda o precipitado repórter que o “Jogral” está no fim. Isso diz-se, sim. Mas diz-se nas pequenas patotas de outras boates, concorrentes do “Jogral” e que vivem do pão que Carlos fez com a farinha da sua fé e o fermente do seu trabalho. O movimento do “Jogral” caiu um pouco, isto é verdade. Primeiro porque a casa sofreu a inevitável consequência da mudança de direção e, em segundo lugar, porque muitas boates, mais de dez, disputam com o “Jogral” o mercado que ele criou. Isto pode ser provado pelo exame de seus livros desde agora abertos para o exame do repórter.
Antes de terminar, gostaria de prestar um serviço ao repórter que, referindo-se a Paulo Vanzolini como um dos mais assíduos frequentadores do antigo “Jogral”, diz o seguinte: “O mais conhecido, Paulo Vanzolini, sambista de Volta por Cima e dono de um grande repertório de desafios e repentes”. Lamento Carlos não estar entre nós, porque ele tinha um grande senso de humor. E não é preciso razão maior para um sorriso, daqueles que a gente mastiga de tão gostoso, quando alguém, principalmente um jornalista, fala em repertório referindo-se a gêneros de improvisação?
Para terminar esta carta cuja publicação solicito, quero que o Jornal da Tarde ponha à venda minha saudade, a dos amigos, a de Marta. E que a anuncie nos seus ‘Classificados’ em ‘Negócios e Oportunidades’. Mas nós queremos nosso pagamento em moeda incomum, a saldo de dúvidas. É a moeda da lealdade, do respeito ás coisas que estão a salvo da ferrugem da maledicência, da intriga e dos pequenos ressentimentos. Essa moeda ninguém tem no bolso, mas alguns têm no coração.
Marcus Pereira, Capital”.


                                           Luiz Carlos Paraná  abraçando Ismael Silva


Reproduzo, a seguir, a carta enviada por Marta Paraná:

“Sr. Redator: Com relação à reportagem publicada neste jornal, no dia 7 de outubro, sob o título ‘Vende-se uma grande saudade por cinco milhões de cruzeiros’, venho expor os seguintes fatos e solicitar seja a minha carta publicada na íntegra.
No dia 6 de outubro fui procurada por um repórter desse jornal. Como qualquer um faria, foi recebido sem maiores preocupações, já que vinha em nome de um jornal sério e conceituado como esse. O rapaz, a quem eu nunca tinha visto na vida, nem no “Jogral” pediu-me informações sobre uma possível venda do “Jogral”. Ante minha negativa, disse que sairia um pequeno desmentido no dia seguinte, “uma pequena nota”.
Na noite seguinte deparo, surpresa, com o tamanho e as inverdades da reportagem.
Pretendeu o repórter fazer uma melancólica reportagem sobre o “Jogral” que nunca tinha tido antes a honra de aparecer em uma página inteira do Jornal da Tarde, nem nos tempos de Luís Carlos Paraná. Mas muito mais melancólico ficou apresentar dessa maneira um lugar, que muito mais que uma boate é uma casa de cultura através da Música Popular Brasileira. Uma casa que revolucionou a nossa noite, numa época em que imperava as discothèques e a música estrangeira.
Se aparecer um jornal que pretenda ser igual ao Jornal da Tarde, que revolucionou o jornalismo brasileiro, não vai passar de uma imitação. E o mesmo se dá com o “Jogral”. Todas as outras casas de samba citadas pelo repórter não passam de crias do “Jogral”. Não pode haver ‘substituto para o velho bar’ e nem “O Jogral” começa a se mudar para outra boate.
O repórter fala em triste tom saudosista. Mas quem pode ter mais saudade do que eu dos tempos do “O Jogral” de Luís Paraná, meu marido. Tenho saudades também dos nossos bons músicos que se passam para umas casas e abrem outras. Mas o “Jogral” fica sempre feliz quando um músico ou cantor que depois disso procura seus próprios caminhos, deixando vago um lugar para novos valores.
Comercialmente falando, como pode um “Jogral” tão ‘triste e vazio’ obter rendimentos para pagar tantos cachês diários e mais os seus correspondentes em férias e décimo-terceiro salários e todos os diretos exigidos pela lei?
Todas as casas de samba correm atrás do nosso pessoal. Gente do “Jogral” tem futuro garantido.
Quantas e quantas vezes Paraná já me contava, nos tempos de namoro, dos apertos que passou sem ter um lugar onde cantar, sem contar com um cachê. Também por isso ele criou o “Jogral”: um lugar de trabalho para músicos. E que ampliou ainda mais o mercado profissional.
O que o rapaz colocou mal jornalisticamente, é a nossa maior glória – renovar.
“Comenta-se que o Jogral está no fim”. Quem comenta? Ele?
Que tristeza, que melancolia dá na gente quando vê que existe alguém sem conhecimentos suficientes que diga que está cansada a flauta do Mané, o melhor músico brasileiro no gênero, e que Paulo Vanzolini é “dono de um grande repertório de desafios e repentes” (sic).
Fala o referido repórter de ex-frequentadores famosos: Caetano – quando começou. Chico Buarque – quando começou. Mas ele, o repórter, nem se detém com gente que está no “Jogral” agora, nas mesas e que daqui a quatro ou cinco anos também não estará mais aqui. Estará famosa e longe.
Também não era preciso matar o meu marido antes do tempo. Ele morreu em 3 de dezembro e não em novembro. Também não tinha o direito de desapontar os leitores do Jornal da Tarde e o público do “Jogral”, porque na noite em que saiu a reportagem, várias pessoas apareceram e telefonaram perguntando: “Oba quer dizer que agora eu vou poder entrar no ‘Jogral’ na sexta ou no sábado?
Espero ter deixado bem claro o respeito que tenho pelo Jornal da Tarde, que sempre viu no “Jogral” o que ele realmente é: mais que uma boate, é uma casa de cultura através da Música Popular Brasileira.
Como já disse anteriormente, neguei ao repórter a possibilidade de vender “O Jogral”. Mas, pensando nos leitores inteligentes do Minduim e do Zé do Boné, respondi em brincadeira non sense, dizendo que só venderia por cinco milhões (cinco bilhões velhos, minha gente). Infelizmente o repórter, que não assina a matéria, não estava à altura dos leitores do Jornal do Tarde, e nem da minha brincadeira. Ele levou a sério, e ainda deu manchete, como se o preço da venda do “Jogral” incluísse o passe do Pelé...
Marta Greiss Paraná, Capital”.

Marta Paraná não entregou os pontos, ao contrário. Como ficou dito antes, Carlos já cogitava mudar “O Jogral” para um lugar ainda maior, onde pudesse montar um estúdio de gravação pois qualquer que fosse o espaço físico de sua trincheira cultural, muito maior era o espaço espiritual que a sua proposta musical tinha aberto. Para preenche-lo, só o disco. Carlos chegou a alugar um imóvel, à Rua Maceió, 66, começou a reforma, mas não pôde prossegui-la, porque não pôde prosseguir. Depois que Marta recuperou-se, retomou a caminhada. Carlos morreu em dezembro de 1970. Dois anos depois, em dezembro de 1972, “O Jogral”, graças ao empenho quase heroico de Marta Paraná e de Fiore, foi transferido para a Rua Maceió. No começo desta fase, eu ia pouco ao “Jogral”, mas me lembro do Regional do Evandro, do Hilton Accyoli, do Zé Neto. Lembro-me de Betina, que agradava mais do que chupeta em berçário, como dizia o velho Stanislaw Ponte Preta. Lembro-me também de um quase menino que tocava surdo, o Papete. Hoje, 1976 é um dos principais artistas do “Jogral” e do Brasil, porque alguns dos maiores artistas do Brasil estão no “Jogral”, como Evandro e Manezinho da Flauta. Em 1975, Papete gravou um disco para “Discos Marcus Pereira”, “Papete, Berimbau e Percussão”. J. Ramos Tinhorão prometeu-lhe uma página inteira no Jornal do Brasil quando ele gravar o segundo, tal o apreço que tem pela arte inacreditável do Papete. Hermeto também foi contratado do “Jogral” na fase em que Marta e Fiore comandaram o barco.

As minhas relações com Marta Paraná, depois que Carlos morreu, estreitaram-se em decorrência da participação que tive nos entendimentos entre os herdeiros e também porque Marta tinha assumido, junto com o Fiore, a direção do “Jogral” e eu, com a ausência de Carlos, era fundador remanescente. Eu visitava-a com frequência, recordávamos as nossas relações com Carlos, Marta me deu acesso a seu arquivo e muitas vezes eu ficava longamente examinando os documentos que ele continha e que contavam a história da grandeza de Carlos Paraná: cartas de amigos, letras de músicas, ideias de promoções e para repertório, livros, coleções de fascículos, de revistas. Carlos era autodidata e seu esforço e seu talento compensaram a escola que a vida lhe negou. Certa vez, Marta pediu-me licença, interrompeu nossa conversa e dirigiu-se a um quarto de seu apartamento, que Carlos usava como escritório. Quando voltou trazia na mão um pequeno embrulho, que me entregou. Abri-o e, perplexo, vi um relógio de ouro, valiosíssimo, a primeira coisa que Carlos comprara logo que sua vida melhorou. O valor daquele relógio foi uma compensação que Carlos se deu por tantos anos de privações e sofrimentos. E ela disse: - “É pra você”. E eu respondi que não podia, de jeito nenhum, aceitar aquele presente de tanto valor material e afetivo. Mas ela insistiu -: “Você é a única pessoa que merece esse relógio, por favor não me prive desta alegria”. Eu senti que não cabia insistir em recusa-lo. Desde então trago no meu pulso a lembrança do meu grande amigo, que marcou suas horas e cumpriu por tanto tempo sua tarefa muda de cortar o tempo nos pedaços em que precisamos dele, e no caso do Carlos, cortando essas fatias de tempo com precisão e sabedoria porque Carlos sabia que o que lhe restava de vida não era suficiente para a dimensão dos seus sonhos. Esse relógio cumpre comigo, hoje essa tarefa. Pelo que tenho lido e ouvido em relação ao trabalho que represento, tem sido exímio o trabalho deste colaborador precioso. Seu valor material – muito grande – é infinitamente menor que seu valor espiritual. Cada segundo que fabrica tem uma origem a tem um destino, porque um dia eu combinei com o seu proprietário original o que fazer com o tempo.
Em decorrência de viagens, acúmulo de trabalho, eu passava, às vezes, algum tempo sem ir ao “Jogral”. Certo dia, em 1973, passei pelo “Jogral” e encontrei o Fiore preocupado porque Marta estava ameaçada do esgotamento nervoso. Procurei-a então e me inteirei do estado de desgaste físico e psicológico a que Marta tinha chegado naqueles anos todos. Ele me transmitiu a sua decisão – ou a sua necessidade – de deixar “O Jogral”.

Nessa ocasião eu estava com problemas financeiros e empresariais seríssimos, tinha decidido fechar a agência de propaganda que dirigia há quinze anos, “Marcus Pereira Publicidade”, e abrir nova empresa “Discos Marcos Pereira”. Eu tinha que dar atenção, então, a um recém-nascido e um agonizante. E assumi um enfermo, “O Jogral”, para que ele não fechasse. Quando eu disse à Marta que, para não fechar, eu compraria “O Jogral”, ela me respondeu com a generosidade que eu já conhecia, mas que ainda me surpreende: “Mas não tem sentido nenhum você comprar o que é seu!” Fi-la ver, então, que se, espiritualmente, eu concordava com ela, materialmente foi um dos poucos bens que lhe tocou como herança do seu marido e que eu não admitiria de forma nenhuma vir a ser acusado de estar me aproveitando da relação que tínhamos, desdobramento de minhas relações com o Carlos. Insisti que me desse um preço e ela deu-me um preço insignificante, era como me dar de presente. À vista disso, procurei o Fiori, que tinha 25% na sociedade e que se dispunha também a vende-los, e pedi que me desse seu preço. Sua avaliação, como vendedor, seria para mim insuspeita. Ele avaliou em Cr$ 300.000,00 e “Discos Marcus Pereira” comprou, por esse preço, 75% das quotas. Os restantes 25% Martinho da Vila comprou, convidado por mim. Nós assumimos a direção do “Jogral” no início de 1974.

É preciso esclarecer que, a partir da morte do Carlos, “O Jogral” começou a cair. Em primeiro lugar porque, ainda que ele tenha se afastado como artista, sua presença era fundamental para manutenção do barco no rumo certo, muitos frequentadores tinham ligações estreitas com ele, seu conhecimento do meio musical e artístico era fundamental para manter o repertório da casa a um só tempo tradicional e atualizado. Ele mesmo houvera previsto que o sucesso do “Jogral” criaria seguidores, como criou, muitos saídos do próprio “Jogral” depois da sua morte. Certa vez, quando proliferaram as casas de boliche, levando todos à falência, ele previu que com as “casas de samba”, como passaram a ser chamadas as casas inspiradas no “Jogral”, iria contecer a mesma coisa. Na verdade, logo se contavam ás dezenas as “casas de samba” da cidade, muitas apresentando muito mais barulho do que samba. Isto se refletiu imediatamente no movimento do “Jogral”. Por outro lado, fiéis ao espírito que Carlos deu à casa, seus sucessores – Marta, eu e o Costa, agora – nos recusamos a resolver os problemas do “Jogral” com a dispensa dos músicos. Primeiro, para não atingir a qualidade musical, depois porque sabemos que é muito difícil para o músico arranjar trabalho. As dispensas que foram feitas, nas fases posteriores a do Carlos, ou foram por razões disciplinares ou artísticas ou quando fomos obrigados a sacrificar um ou dois para salvar os demais.

O fato é que, com a morte do Carlos, “O Jogral” deixou de ser um bom negócio e depois passou a ser um mau negócio. Mas eu me recusava a fechá-lo, seu valor afetivo e espiritual para mim era muitas vezes maior do que qualquer prejuízo material que ele pudesse dar. Depois, a luta que vim a enfrentar para levar adiante o projeto de “Discos Marcus Pereira” – na verdade o projeto meu e do Carlos, como ficou documentado no que eu já disse – era de tal porte, as dívidas que fui obrigado a contrair eram de tal monta, que os movimentos que fiz para compra-lo mais os prejuízos que veio a dar depois não chegavam a agravar de forma expressiva esse quadro. Muitas vezes, confesso, o peso de tudo era excessivo – e eu vacilava, pensava em vender, admitia até fechar. Porque “O Jogral” era também uma fábrica de problemas: artísticos, humanos, financeiros, comerciais, legais e fiscais.

Na fase em que “Discos Marcus Pereira” assumiu o controle da sociedade proprietária do “Jogral” foram fundamentais a colaboração do meu ex-sócio Aluísio Falcão – que assumiu a direção artística – e de Martinho da Vila, que contribuiu com precisas sugestões na área artística. Apresentamos, então uma longa temporada com Carmen Costa. Sob nossa direção, o “Jogral” foi inaugurado com uma temporada de Heloísa Buarque de Holanda, que eu conheci em 1959, cantando para seus amigos na “Cantina do Marinheiro”, no Brás. Depois, ela casou-se com João Gilberto, morou nos EUA muitos anos e, voltando, escolheu “O Jogral” para reiniciar sua carreira. Nessa fase apresentou-se também, numa temporada, Manuel da Conceição, o famoso violonista “Mão de Vaca”.

Mas os problemas de “Discos Marcus Pereira” se agravaram, meus dois ex-sócios se afastaram e eu fiquei sozinho. Em maio de 1975, uma complicação renal me levou a uma operação, fui obrigado a extrair um rim, o pós-operatório complicou-se e eu acabei ficando dois meses de cama. Nessa ocasião estava na gerência do “Jogral” José Eduardo Costa, que eu conhecera anos antes, através de minha ex-sócia. Com alguma experiência em administração de casas noturnas, Costa interessou-se pela função com o objetivo de conhecer mais a fundo o funcionamento e os problemas do “Jogral” para eventualmente compra-lo e dar, assim, aproveitamento à energia da sua juventude de cinquenta e oito anos e à sua vontade teimosa de fazer coisas. Nesta altura, um grave acidente cardíaco afasto-o, mas Deus e o Dr. Sílvio o recolocaram no seu posto. Ele está lá, agora. Eu, como sempre quis, tinha a propriedade espiritual, 10% do material, e tenho uma segunda casa sem pagar aluguel. Eu e os meus amigos, que o Costa considera também seus.

Mas o que é mais surpreendente é que Costa, sem maior familiaridade anterior com cultura popular, absorveu de tal forma o espírito do “Jogral”, que hoje é mais ortodoxo do que eu. Talvez seja mais ortodoxo do que seria o próprio Carlos, no sentido do respeito à linha musical da casa, do respeito e do carinho pelo artista, da responsabilidade, que assumiu com relação ao papel pioneiro e de abrigo ao talento de artistas muitas vezes esquecidos ou injustiçados do nosso mundo artístico. Nada poderia expressar mais essa atitude do que a longa temporada que a excelente Marília Medalha fez no “Jogral” e que a recolocou na cena musical. E Zé Keti, e Os Três Morais, e Inezita Barroso, que considera o último show de sua temporada em junho de 75 o ponto mais alto de sua longa e importante carreira artística. Estão lá – e faz sete anos – Evandro e seu regional com Zequinha (pandeiro), Pinheiro (violão), Lúcio (cavaquinho) e Artur (flauta). Está lá Ana Maria Brandão, que já soma cinco anos de trabalho no “Jogral”, e que eu e muitos observadores consideramos uma das maiores cantoras do Brasil. Vou gravar brevemente um disco com ela e não tenho dúvida quanto ao seu sucesso. Quem viver, verá. Está lá Papete, há seis anos, sem um dia de interrupção. Está lá, de novo, Manezinho da flauta que, como os mágicos, esconde pássaros nos lábios. Está lá, sobretudo, o espírito de Carlos Paraná.

“O Jogral” mantêm-se, num país de efemeridades, há onze anos. Nesses anos todos, muito mais tirou do que deu aqueles que estiveram ou estão em seu comando, no sentido material da expressão. Á exceção de três anos, de 67 a 70, os demais foram de plantio só. Em favor da cultura brasileira, do músico, do compositor. E isso que sua existência proporcionou remunera largamente todos os esforços. Quem passa algumas horas no “Jogral” e assiste à apresentação de artistas excepcionais, numa sucessão que parece não acabar mais, não pode fazer ideia do esforço que há por trás. Grandes artistas e músicos que o visitaram não esconderam seu espanto diante de interpretações magistrais. Recentemente, um musicólogo brasileiro que passara seis anos nos Estados Unidos, comentou com entusiasmo uma das apresentações do Evandro e seu bandolim que, tocando um instrumento com braço muito estreito, não “sujou” uma nota sequer durante uma hora de apresentação. E chamou nossa atenção para o fato de que Evandro não fica nada a dever aos grandes instrumentistas de corda do mundo. Depois, extasiou-se com a flauta do Manezinho e com a espontaneidade de seus improvisos. É verdade, nós temos no Brasil músicos que podem empolgar as mais exigentes plateias do mundo, como Valdir Azevedo, Abel Ferreira, Raul de Barros, Carlos Poyares, Papete, Pernambuco do pandeiro – e esta relação é apenas exemplificada. Tenho levado ao “Jogral”, depois de encerradas as sessões de gravações, os artistas contratados de “Discos Marcus Pereira”. Recentemente, Antônio José Madureira, que lidera o Quinteto Armorial, disse-me que o “Jogral” era muito mais um teatro musical do que uma boate e que nunca imaginara que tantos músicos e artistas de qualidade pudessem se reunir num só lugar.

O trabalho que iniciei com Carlos Paraná, que prossegui com Aluísio Falcão e que hoje divido com minha mulher Carolina Andrade, teve sua origem no “Jogral”. Ele terá a partir do momento em que esse trabalho se fortalecer e se desenvolver – no Brasil e no Exterior – através de minha associação com a “Copacabana” – no “Jogral” a sua tribuna, a sua face viva. Os artistas de “Discos Marcus Pereira”, muitos já artistas do “Jogral”, farão dele a sua casa, como é, há muito, a minha casa. E de seu palco e de seu público, o seu palco e o seu público, como antes fizeram Martinho da Vila, Jorge Ben, Gil. E isto será possível porque houve, primeiro, o Carlos. Depois, Marta e Fiore. E, omitindo o meu nome, agora há José Eduardo Costa. O “Jogral” viverá, junto com a cultura do povo do Brasil, grandes momentos que se eternizarão quando essa cultura se eternizar, como muitos preveem. E para viver conosco esses momentos, eu convido Você. O Costa está no “Jogral” a partir das nove da noite todos os dias e ele representa tudo o que o “Jogral” representa e que, creio, ficou documentado no relato que encerro.

Para terminar, transcrevo o que escreveu na Folha de São Paulo de 14 de agosto de 1976 o conhecido crítico e descobridor de astros e estrelas Válter Silva: “Luís Carlos Paraná que, juntamente com Marcus, fundou esse minitemplo da nossa cultura popular, lá em cima deve estar tirando um repente de contentamento por saber que seus sonhos são a realidade de hoje”.


E, por esta via, quero responder às últimas palavras que nos disse Carlos Paraná, na hora de morrer, lamentando deixar tantas coisas por fazer: nós estamos fazendo.

domingo, 8 de janeiro de 2017

A história do Jogral: capítulo quatro



Capítulo 4



CARLOS PARANÁ MORRE MAS SUAS IDEIAS SOBREVIVEM



Por Marcus Pereira


                           Disco de Luiz Carlos Paraná que foi lançado após sua morte


Mas Carlos Paraná era incansável. O sucesso do “Jogral” já era pouco para ele. E agora, talvez, eu possa entender a sua auto-exclusão do cast do “Jogral”. Os chilenos têm uma expressão para identificar as pessoas subaproveitadas, que é: “Fulano calça maior”. Na verdade, Carlos Paraná calçava maior do que o limitado das apresentações, noite após noite, no palco de uma boate, ainda que essa boate fosse o “Jogral”. Ocorre-me uma antologia com Tempos Modernos, onde o gênio de Chaplin registrou o drama do homem-máquina. Repetindo a frase chilena, o Homem calça muito maior! A transformação do homem numa mera máquina de apertar parafusos é um drama supremo – e a história do Homem é a repetição diária, eterna e inexorável desse rama que é automatização da mais complexa e perfeita criação da natureza capaz de compor sinfonias, escrever poemas comoventes, criar teorias esclarecedoras de mistérios milenares mas que, quase na sua totalidade, não faz senão apertar parafusos, ganhando para comer e, como num inconsciente masoquismo, manter viva a consciência de seu drama sem dimensão. Se isto é um drama fantástico, repito, também é um drama fantástico precisa simular a emoção do intérprete diante da obra interpretada. Quantos artistas são obrigados a essa violação permanente? Todos os artistas que, como os operários apertadores de parafusos, simulam frequentemente a emoção que muitas vezes não sentem, porque a clientela é exigente e, como se sabe, o cliente sempre tem razão. Há uma frase muito antiga que diz: “afinal, eu paguei”. E o artista volta pra casa muitas vezes bêbado, frequentemente um pouquinho menor, porque o sofrimento se alimenta das pessoas e as consomem. E volta depois de ter dado festa a quem comprou festa, mas uma festa inventada. Que a consciência deste drama aprimore, em cada um de nós – na forma que cada um de nós – na forma de cada um – pode dar ao artista.



A consciência cultural de Carlos Paraná e as responsabilidades de liderança que assumiu em “O Jogral” tem um significado de particular importância. Com a mudança e com o crescimento decorrente das condições comerciais de sua casa, Carlos impôs-se obrigações que dão bem a medida de sua grandeza e de sua visão artística e social. Para “O Jogral” seria mais conveniente não ter um elenco fixo mas, dentro do seu campo musical, apresentar artistas e conjuntos frequentemente renovados, variando sua oferta musical. Mas Carlos Paraná preocupava-se com a profissionalização do músico e achava que ele tinha tanto direito à estabilidade quanto os profissionais de outras áreas, o que é absolutamente indiscutível, mas que está longe de ser realidade. No “Jogral”, entretanto, o músico tinha tanto trabalho seguro, permanente e bem pago. Todos que, depois da morte de Carlos, assumiram o leme do barco – Marta Paraná, sua viúva, depois eu, agora o José Eduardo Costa – mantemos as mesma condições de trabalho para o músico que atua no “Jogral”.



Outra iniciativa sua documenta seu apreço, seu respeito e seu carinho pelo artista e pelo músico. Em 1968 ele criou uma condecoração a que deu o nome de “Ordem do Jogral”. Era uma medalha, de concepção muito própria e execução perfeita, em cujo reverso ele gravava o nome do homenageado e a categoria na qual era condecorado. As categorias eram: “Grande compositor”, “Grande intérprete”, “Velho companheiro”, “Amigão”. Carlos Paraná justificou da seguinte forma a sua ideia de criar a “Ordem do Jogral”: “A medalha da ‘Ordem do Jogral’ foi criada em retribuição à amizade de muitos ‘cobras’ da nossa música pelo ‘Jogral’, onde aparece e se apresentam. Mas a medalha também será conferida a pessoas que, não sendo artistas, também prestigiam o “Jogral”, e a receberão também todos que prestaram relevantes serviços ao samba. A ‘Ordem do Jogral’ não foi criada para conquistar amigos e artistas para ‘O Jogral’. Nós é que nos sentimos conquistados por esses artistas que, desinteressadamente, se fizeram amigos do ‘Jogral’. A medalha da ‘Ordem do Jogral’ é apenas uma retribuição”.



Quando o homenageado era artista, recebia sua medalha e se apresentava num show. Receberam a “Ordem do Jogral”, entre outros: Jorge Ben, Paulinho da Viola, Clementina de Jesus, Zé Kéti, Toquinho, Paulo Vanzolini, Araci de Almeida, Euríclides Formiga, Alaíde Costa, Claudete Soares, Martinho da Vila, Jair Rodrigues, Agostinho dos Santos, Moreira da Silva, Inezita Barroso, Ismael Silva, Adoniran Barbosa, Luiz Gonzaga, João Pacífico, Lupicínio Rodrigues.



A “Ordem do Jogral” era sempre entregue com alguma solenidade. Carlos Paraná convidava pessoas representativas para prestigiarem o condecorado. Ele dizia sempre alguma coisa sobre a expressão e a carreira do homenageado e, em seguida, fixava na sua lapela o crachá que chegou a ser cobiçado por todos os artistas. Mas a “Ordem do Jogral” servia tanto para homenagear como para discriminar. E, ao contrário das comendas do Vaticano, a “Ordem do Jogral” não se podia comprar. Costa e eu pretendemos, agora, revivê-la e homenagear todos os grandes artistas populares do Brasil.



Carlos Paraná, com as condições que “O Jogral” passou a dar, dispensou-me do trabalho artístico convencional, para compensar os muitos anos em que puiu smokings sem conta cantando para comer, como desabafou um dia. E começou a planejar coisas maiores. Seu plano, em resumo, era mudar “O Jogral” para um local mais amplo que possibilitasse a montagem de um estúdio e de um palco maior.



Em 1968, me casei com Carolina Andrade, que é hoje também minha sócia, diretora artística de “Discos Marcus Pereira” e minha principal colaboradora. Uma semana depois, Carlos Paraná casou-se com Marta Greiss, eu e Carolina fomos seus padrinhos. O casamento constou apenas do ato civil, no cartório da Rua Maceió e de um almoço no Restaurante “Pilão”, no Embu. Participaram dele Carlos, Marta, Carolina e eu, Álvaro Moya e Anita e mais uma irmã de Marta, Luísa. O casamento disciplinou a vida de Carlos que passou a tomar as providências decorrentes de seus novos planos com mais consequência. Propus, inicialmente, transferir “O Jogral” para o “Hotel Vila Rica” que estava sendo instalado à Rua Vieira de Carvalho, a partir da adaptação de um prédio de apartamentos, e do qual eu era acionista. Mas o lugar não era ideal, nem como localização, nem como espaço e Carlos desistiu da ideia. Propus em seguida uma loja de fundo num prédio recém-construído à Rua Haddock Lobo, quase esquina da Avenida Paulista e do qual meus pais e eu tínhamos sido os incorporadores. A loja era de bom tamanho, bem localizada, mas não se adaptava aos planos de Carlos.



Ele alugou, finalmente, um imóvel à Rua Maceió, 66 e começou a reforma em 1970. Prevendo que o caminho que abriu seria explorado, no mau sentido da palavra, por muitos imitadores, o que seria esgotado, prejudicando todos, como aconteceu depois, Carlos pretendia apresentar música latino-americana no novo local da Rua Maceió. Chegamos a discutir isso e a nossa ideia era começar por dedicar segunda-feira a esse projeto, ampliando depois que a coisa pegasse. Cheguei a propor-lhe contato com as embaixadas dos países latino-americanos que poderiam ter interesse em ajudar, promovendo a vinda de conjuntos regionais. Até hoje, seis anos depois de sua morte, o filão continua virgem, explorado, superficial e episodicamente, como no show “Falso Brilhante”, de Elis. Mas será o projeto que “Discus Marcus Pereira” começará a executar, depois de terminado, com a coleção “Música Popular do Nordeste”, o Mapa Musical do Brasil. Iniciaremos, então, o Mapa Musical da América Latina, que abrangerá do México à Patagônia.



Em 1969, eu fui pouco ao “Jogral”. Minha mulher tinha um expediente pesado de trabalho na Abril Cultural, na qual era um dos vices-diretores. Nos fins de semana eu a acompanhava em seu trabalho de administração de uma pequena fazenda de cana, em Araras. Meus contatos com Carlos eram regulares, mas espaçados, jantávamos juntos ás vezes, quando Carlos me inteirava do andamento do seu projeto.


                            Capa do livro publicado por Marcus Pereira em 1976


Falava-me, muito, nessa época de um novo amigo e companheiro de trabalho, o Fiore – Fioravanti Andreacchi – que teve uma importância muito grande nesta fase final da sua vida, pois era muito dinâmico e responsável, a ponto de ter sido uma estafa por excesso de trabalho, dividindo com Carlos a administração do “Jogral” da Rua Avanhandava e do novo local que estava sendo reformado. Carlos Paraná, nessa ocasião, tinha já formado um pequeno patrimônio e seus planos artísticos e comerciais eram muito ambiciosos. Desde 1967, não compunha nada, seu tempo e seus esforços eram todos dirigidos para a concretização de seus planos. Quando conheci Carolina, recém-saída da tragédia que se abateu sobre ela e sua família – que foi a morte acidental de seu pai – e depois de convence-la a deixar uma atividade que não reconhecia nem precisava de sua raríssima capacidade e talento, organizamos juntos um curso de introdução à Arte Moderna, pois ela tinha grande familiaridade com o assunto, tendo sido a melhor professora de uma famosa escola de nível médio de São Paulo, do gênero grã-fina espera-marido. Fizemos cartazes, divulgamos, matricularam-se cerca de trinta alunos. O único que não perdeu uma aula sequer foi Carlos Paraná, que também colecionou mais tarde a obsessão que criança tem com álbum de figurinhas, os fascículos que Carolina dirigiu em seguida, Arte nos Séculos, editado pela Abril Cultural. Esses dois fatos dão bem a medida do interesse do Carlos em aprimorar-se culturalmente, em repor o tempo que a pobreza lhe havia roubado.



Há um fato, ocorrido em 1967, que é mais um documento da importância do “Jogral” na valorização de nossa música e no apoio que passou a dar a artistas de talento, ajudando-os nas suas carreiras. Por ocasião do Festival de 67, certa tarde, passou pela minha casa o Renato Teixeira e me disse que tinha conhecido, nos bastidores do Festival, um artista, que ele classificou de primitivo, incrível, e que tinha tomado a liberdade de dar o meu endereço para ele. Eu tinha, nessa ocasião, uma espécie de casa aberta onde se reuniam compositores, cantores, artistas populares, amigos e, principalmente, amigas, pois objetivo principal dessas reuniões, segundo combinação com o Carlos Paraná, era conspirar o afeto feminino em nosso favor. Renato Teixeira iria viajar naquela noite para Taubaté e o artista “primitivo” a que se referiu apareceu mais tarde, meio sem-jeito, rondando pelas beiradas. Eu deixei-o logo à vontade, pedi que me mostrasse suas músicas, ele disse que sua voz não era boa, que tinha até constrangimento em cantar. Insisti e, na primeira música, Casa de Bamba, vi logo que se tratava de um compositor de grande talento e que o timbre e sua forma de cantar, muito particulares, valorizavam e personalizavam esse talento. Esse artista era Martinho da Vila. Levei-o ao “Jogral”, Carlos Paraná entusiasmou-se e ele passou a apresentar-se no “Jogral” com regularidade. Seu público de qualidade foi a primeira confirmação das possibilidades que Martinho da Vila tinha, o que sua carreira confirmou.



Posteriormente, tive a oportunidade de estimula-lo a deixar seu ganha-pão. Martinho era sargento datilógrafo – o que o impedia de tentar, de uma forma consequente, a carreira. Propus-lhe assegurar o dinheiro equivalente ao seu soldo, até que ele tivesse condições de viver de sua música. Na verdade, não cheguei a fazer nenhum adiantamento, ele é que me fez o primeiro, para crédito em sua conta-corrente como combináramos. Dois anos depois, devolvi-lhe esse dinheiro, do qual houvera esquecido, com juros e correção monetária.



Em 1969, Carlos decidiu levar para um teatro os artistas do “Jogral”, um espetáculo que criou. As músicas eram dele mesmo e mais de Oscar Castro Neves, Dorival Caymmi, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Pixinguinha, Paulo Vanzolini, Heitor Villa-Lobos e outros. Os poemas e textos também dele mesmo e mais de Jorge Amado, Fernando Pessoa, Carlos Drummond de Andrade, Paulo Vanzolini, Raul Solnado. Os músicos: Mário Edson (que Carlos descobriu para a música, Mário era professor) no piano; Adauto Santos (violão, viola, banjo e tamborim); Manoel Gomes (flauta); Benedito Costa (cavaquinho); Fritz (cuíca, pandeiro e tamborim); Nereu Gargalo (pandeiro); Joãozinho Paraíba (atabaque). Os cantores: Adauto Santos, Leo Karan, Ana Maria Brandão, Vera Regina Coutinho.



Carlos Paraná deu ao espetáculo o nome de “Jogral 69” ou os “Homens Verdes da Noite”. A ideia era atrair para os espetáculos pessoas interessadas em música brasileira e cultura, mas resistentes ou com preconceitos com relação á vida noturna convencional, á penumbra, à fumaça e ao uísque. Pretendia levar para o palco, e para os assépticos, o clima descontraído e boêmio do “Jogral”. Mas não deu certo, porque essa transferência é impossível. Marta Paraná me ajudou a lembrar pequenos trechos do texto: “Nosso pequeno mundo é o ‘Jogral’. Aqui ninguém é de direita ou de esquerda, todo mundo é medíocre”. E mais: “Tens alguma dor? – Se a tenho, não sinto”. E, com sotaque lusitano: “Sei que pareço uma besta / Mas há gente que conheço / Que não parecendo o que sou / São aquilo que pareço”.



Desde o primeiro disco que houvéramos gravado juntos, eu insistia com o Carlos para gravarmos um disco com as suas músicas e com a sua interpretação. Ele não quis fazer antes, até que em 1970, consegui convence-lo. Recordando, havíamos gravado, em 1967, o disco do Paulo Vanzolini “Onze Sambas e Uma Capoeira”. Em 1968, “Brasil, Flauta, Cavaquinho e Violão”. Em 1969, as coisas não iam bem comigo, financeiramente, e gravei na minha casa num AKAI-M-7, semiprofissional, um disco com músicas de Renato Teixeira e Maranhão. Foi um disco amador, com objetivo de ampliar um pouco nossa roda de amigos, cantores, compositores e apreciadores. Finalmente, em meados de 1970, Carlos concordou em gravar. Selecionou seu repertório, escolheu os maestros para os arranjos e começamos a produzir o disco. Quando os arranjos ficaram prontos, gravamos os play-backs e marcamos a primeira sessão de gravação, para Carlos Paraná cantar. Nessa primeira – e última – sessão, Carlos colocou sua voz em três faixas: Resignação, Cafezal em Flor e Vou Morrer de Amor.



No dia 22 de outubro de 1970, teve uma grande hemorragia, perdendo uma quantidade enorme de sangue pela boca. Eu só soube um dia depois, corri ao Hospital, e encontrei o Carlos sentado na beirada da cama. Acabava de ter tido outra enorme hemorragia, o quarto estava inundado de sangue e ele, como que brincando com sua própria tragédia, comentou comigo: “Parece uma elefanta menstruada”. Eu passei esta noite com o Carlos, sentado numa cadeira no Hospital vigiando seu sono, acompanhando-o ao banheiro, depois evitando que ele se levantasse, atendendo-o. Lembro-me que, madrugada alta, ele sentou vontade de urinar, mas não conseguia. Pediu-me então que abrisse um pouco a torneira do banheiro e deixasse a água escorrer naquele ponto em que ela escorre e faz um ruído característico, que é quando as gotas se dão as mãos e fazem um fio que se desfaz ao contato com o ralo da pia. Comentou comigo, então, que quando criança, era o recuso que usava para urinar, já que em todas as casas e em todos os tempos foi uma tarefa das crianças, ordenada pela expressão “xixi-cama”. O médico que o atendeu, Dr. Silva Teles, recomendou com ênfase que Carlos fosse operado apesar da recomendação em contrário de seu médico, indicado por Paulo Vanzolini e que tinha assumido uma cátedra na Faculdade de Medicina em Botucatu. Poucos dias depois, seu estado agravou-se, o cirurgião recomendou uma segunda operação, Carlos estava absolutamente debilitado, a ponta de não poder levantar-se, foi colocada uma tábua sob seu corpo e ele assim foi passado para uma cadeira de rodas, literalmente, foi escorregado para a cadeira de rodas. Eu estava ajudando os enfermeiros e nesse momento ele me disse: “Não deixe que judiem de mim”.



É uma grande tristeza que carrego comigo a de, iludido pela sedução da esperança, ter permitido aquela segunda operação inútil, como tinha sido inútil a primeira. E ele absolutamente indefeso, sem forças até para falar, implorou a minha proteção e eu não dei. Desde seu internamento, com Marta também doente, os seus parentes ausentes no início e depois incapazes de tomar decisões, por inexperiência e perplexidade, os parentes de Marta cuidando dela, eu fui obrigado a tomar, junto com o Fiore, as decisões relativas à primeira e à segunda operação. A meu favor, tinha a esperança que foi dada por médicos notórios e experientes de que havia alguma possibilidade de salvar o Carlos. Mas, na verdade, ainda que com razões, eu falhei na última solidariedade que o meu grande amigo me pediu.



Marta Paraná adoeceu junto com Carlos. Ela estava grávida de quatro meses e nós a internamos na “Pro-Mater”. Ela perdeu o filho que esperava. Carolina a atendia, eu ao Carlos, até que a convencemos de internar-se também no Hospital Osvaldo Cruz, onde Carlos estava. Numa das poucas vezes que tivemos esperança, logo depois da segunda operação, na fase pré-agônica, cheguei ao hospital e Carlos me disse que estava na batalha da sopa, quando tentava engolir o fundo de uma colher de sopa. Na véspera, havia sido a batalha da água, quando ele conseguiu beber um bocadinho de água. Mas ele foi vencido na batalha da sopa, porque suas vísceras estavam como se tivesse havido um grande bombardeio dentro dele. Nesta noite, ele pediu ao Fiore que fosse comprar “toddy” de coco, e lembrou-se, até que havia um supermercado de plantão na Avenida Brigadeiro Luiz Antônio, ali perto. Isso me espantou, porque ele passara quase sem consciência todos os dias anteriores. Havia expressa proibição médica, mas eu omiti isso do Fiore e botei pra correr o enfermeiro que queria impedir. O Fiore foi comprar, mas o “toddy “de coco ficou intacto, Carlos logo entrou em agonia. Antes – e isto ocorre com frequência, diz-se que é a visita da Saúde – tivera vontade de provar o seu leite com coco, e o leite tinha sido a bebida de toda a sua vida de boêmio e artista.



Carlos falava-me muito da sua vida no interior, lá nos sertões de Ribeirão Claro, no norte do Paraná, quase fronteira de São Paulo, perto de Ourinhos. Ele foi lavrador até os vinte anos, ajudava o pai numa pequena lavoura de café. O trabalho árduo de sol a sol não diminuiu, antes aumentou, o imenso amor que ele tinha pela natureza. E disso eu, expectador atônito da sua partida, me lembrei muito nas longas vigílias da sua agonia, onde só o seu ressonar, primeiro e depois a agitação de seus pesadelos reais quando via, certamente, a grande foice levantar-se, só isso riscava levemente a trilha por onde caminhavam os grandes pés de feltro do enorme silêncio do seu quarto de agonizante.



Lembrei-me de quando, na Semana-Santa de 1967, fomos para Ribeirão Claro, o que havíamos combinado fazer desde que nos conhecemos. Viajamos de automóvel e Luciana, minha filha, foi conosco. Os pais de Carlos moravam numa pequena chácara dentro da cidade numa casa que tinha, em hospitalidade e asseio, o que tinha em simplicidade. Era de telhado baixo, telha vã e a gente dormia quase em promiscuidade com aquele telhado carinhoso que, se nos separava das estrelas, nos entregava os ruídos que, com a sua luz, os grilos fabricam, na sua tarefa de dublar estelas, como diz um verso raro de Renato Teixeira. No sábado de Aleluia fomos a um baile em Jacarezinho, onde Carlos iria receber uma homenagem por Maria, Carnaval e Cinzas. Devidamente homenageados, voltamos de madrugada para Ribeirão Claro e um pneu do meu carro furou no caminho. Descemos para trocá-lo e a frescura da madrugada e o céu estrelado, numa noite de raro talento, nos fizeram sentar no chão e nos fizeram plateia de incansáveis “bis”. Conversamos muito, construímos mais uma dependência ao nosso castelo de sonhos, e, de repente, vimos que uma vaca espionava, sem nenhuma cerimônia, a nossa conversa.



Outra vez, fizemos uma viagem ao Litoral Norte. Fazia muito tempo Carlos tinha vontade de conhecer a região, mas “O Jogral” usava todo o seu tempo. Fomos num domingo bem cedo, dia em que o “O Jogral” não abria, como até hoje. Saímos noite ainda, logo depois de o Carlos fazer o caixa. Logo no começo da Via Anchieta, havia sido colocada numa proteção contra o ofuscamento dos faróis dos carros da pista contrária. Mas a alegria durou pouco, como Carlos comentou comigo, acrescentando: “Sabe porque botaram só um pedaço pequeno? Pra gente ver que é ótimo e depois ficar chateado porque acabou”. Rimos e eu comentei que os sádicos procuram as mais estranhas funções para divertir-se com o sofrimento alheio. Tomamos a estrada Guarujá-Bertioga, atravessamos o canal da balsa e, pela estrada que começa na Bertioga, fomos até São Sebastião. Íamos parando, eu aproveitei a viagem para ver se conseguia um lugar para passar o Carnaval com minha irmã Marilu e meu cunhado Maurício – raridade humana que um acidente cardíaco levou em 72 – Carolina e minha filha Luciana. Nosso primeiro filho já estava encomendado, mas ainda não tinha sido entregue. Numa praia de pescadores, vinte e sete quilômetros antes de São Sebastião, consegui alugar uma casa onde todos passamos o Carnaval, depois. E então comprei uma casa muito simples nessa praia que se chama Maresias, que depois melhorei e é hoje a nossa casa de descanso. Seu conforto maior é seu terraço estar a um palmo e meio da areia da praia. Na volta dessa viagem que fiz com Carlos, descobri mais um aspecto de seu amor pela natureza, que eu desconhecia. Num longo trecho, em que se usa a praia como estrada, o mar estava, logo à esquerda, nos tentando seduzir com o seu marulho. Carlos, repentinamente, não se conteve. Parou o carro e correu para o mar, nem me avisou. Eu fiquei no carro e assisti ao seu encontro com o mar e me comoveu sua euforia, como a de uma criança liberada para todos os seus ímpetos e desejos. Retomamos a viagem e, duas vezes ainda, Carlos não resistiu às chamadas do mar.



Numa das primeiras noites que passei com ele no Hospital, antes de ser operado, contou-me, certa madrugada, que tivera um sonho que o impressionara. Sonhou que estava andando por uma pequena estrada pela qual, durante muitos anos, ia para a roça. Nessa estrada havia um sítio, à direita, com o qual o Carlos manteve um namoro longo. Seu sonho era poder, um dia, compra-lo. Uma pequena estrada dava acesso à casa simples que lhe servia de sede e era sombreada por uma touceira comprida de bambus altos. Carlos havia sonhado, e, na regressão do sonho, era menino ainda e seu pai comprara o pequeno sítio. Acordou e me contou logo o que sonhara. Durou ainda algum tempo o encantamento daquela ilusão boa, e foi a última vez que a alegria entrou nele. Depois, saiu e não voltou mais.



Eu não estava mais suportando ver o meu amigo ir embora, amigo de tanta alegria, muito mais do que irmão – porque irmãos a gente não escolhe – amigo e tantos planos e de tantos feitos, de tantos sonhos, amigo de tanta gente, o melhor amigo que todos já tivemos, porque ele lutou por todos nós, porque lutou pela nossa cultura. Quando eu já não aguentava mais e quando senti que o meu pranto iminente seria o aviso final para o Carlos, pedi a Carolina – esta brava companheira que já se habituara a chorar lá dentro dela – que se despedisse do Carlos em meu nome. E Carolina, com brandura e fibra, ouviu o Carlos dizer que sabia que ia morrer. Ela retrucou que não, que o momento era duro, mas que ele iria vencê-lo. E Carlos disse as últimas palavras da sua vida: “Não é verdade, eu sei que vou morrer. E é uma pena, eu tinha tanta coisa pra fazer!”. Nesse momento, Fiore chegou, Carolina deixou-o com o Carlos agonizante, saiu rapidamente do quarto e eu, então, assisti ao pranto mais tocante que vi em toda a minha vida, nós dois chorávamos, no maior e no mais inútil desespero da nossa vida comum. Algum tempo depois, Carlos morreu, eu fiquei no velório por uns resíduos de convenção que ainda existem em mim, porque fazer companhia a um defunto é o mesmo que fazer companhia a uma pedra, as pedras na verdade têm mais vida.