sábado, 28 de novembro de 2020

VSP nas Eleições 2020: VSP virou a tabela: entrevista com Vera Lúcia, candidata a prefeita de São Paulo pelo PSTU

A professora Vera Lúcia Salgado, 53 anos, foi candidata do PSTU (Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado) a prefeitura de São Paulo em 2020. Ela recebeu 3.052 votos e ficou na décima segunda posição entre os concorrentes. Bastante solícita, a professora respondeu ao VSP por email.



VSP- Como surgiu a candidatura da senhora pelo PSTU?

Vera Lúcia- O PSTU me indicou junto com o professor Lucas e uma equipe de candidatos a vereador e vereadoras para apresentar um programa de emergência para combater a pandemia, o desemprego e outros males que afetam a população trabalhadora como genocídio da juventude negra.

 

VSP- Quais foram as maiores dificuldades da sua candidatura?

VL- As maiores dificuldades foram as regras eleitorais antidemocráticas, o poder econômico e a pandemia. Os grandes partidos votaram regras antidemocráticas para impedir a renovação e a mudança. Desta forma, o PSTU não tinha sequer um segundo na propaganda eleitoral gratuita para apresentar suas propostas para os trabalhadores e trabalhadoras. Além disso, as campanhas dos principais partidos são milionárias, basta ver a prestação de contas de cada candidato para constatar a desigualdade. Por fim, a pandemia dificultou muito a campanha presencial nas portas das fábricas e na periferia.

 

VSP- Quais continuam sendo os principais projetos do PSTU para a cidade de São Paulo?

VL- Os conselhos populares, sem dúvida. O PSTU aposta na auto-organização da classe trabalhadora e do povo pobre, sejam em comissões de fábrica, sindicatos, movimentos por moradia, comitês de autodefesa contra o genocídio da juventude negra, grupos de trabalhadoras pelos direitos das mulheres, associações de imigrantes, movimentos LGBTQI+, enfim, todas as formas de auto-organização independente da burguesia para lutar pelas reivindicações operárias e populares de emprego, salário, renda, moradia, saneamento básico, educação e saúde pública de qualidade, contra a opressão racista, machista, LGBTfóbica e xenófoba. A exploração e a opressão têm origem no capitalismo. Por isso, defendemos unir todos esses movimentos em conselhos populares para lutar para que os trabalhadores e trabalhadoras assumam o poder e possamos caminhar rumo ao socialismo.

 

VSP- Por que o PSTU não foi chamado a nenhum debate televisivo?

VL- A legislação eleitoral faculta às emissoras de TV o convite aos candidatos cujos partidos não têm representação no congresso nacional. Ou seja, as emissoras de TV podem convidar se quiserem. No entanto nossas propostas colidem com os interesses dos grandes patrocinadores, que são todos grandes empresas capitalistas, que não têm o interesse que as ideias da igualdade social e do socialismo cheguem até a classe trabalhadora. Por isso, as emissoras de TV não convidam.

 

VSP- Qual é a sua avaliação da candidatura do Guilherme Boulos? O PSTU deve dar apoio a ele no segundo turno?

VL-Infelizmente, o Boulos segue os mesmos caminhos de Lula rumo a um governo de conciliação de classes, um governo junto com os empresários. Por isso não defende a estatização do transporte coletivo de ônibus, única forma de pôr fim à máfia dos transportes. Por isso recua de propostas como o aumento do IPTU para os milionários; como a ampliação da rede de creches diretas para pôr fim à política de creches conveniadas, a começar por assumir imediatamente todas as creches municipais que estão sob administração privada (denominadas de CEIs indiretas); recua até mesmo da solidariedade ao povo palestino através das propostas da companha de Boicote, Desinvestimento e Sanções, o BDS.

O PSTU não concorda com o projeto político, com o programa ou a estratégia de Boulos. Mas vamos votar criticamente em Boulos, junto com a maioria da juventude e setores importantes da classe trabalhadora que veem em Boulos a possibilidade de derrotar o PSDB de Covas e Doria em São Paulo. Apesar de chamar o voto crítico em Boulos, não apoiaremos sua administração em caso de vitória.

 

VSP- Como a senhora avalia as medidas dos governos federal e estadual para o combate ao Coronavírus?

VL- Um desastre! Bolsonaro minimizou a pandemia e sabotou todas as medidas para contê-la. Já Doria e Covas fizeram uma quarentena meia boca baseada no fechamento do comércio e das escolas, na qual 70% da economia permaneceu em funcionamento. Além disso, não fizeram testagem em massa para definir as políticas mais adequadas de enfrentamento à pandemia. Por isso, a cidade de São Paulo está em terceiro no ranking mundial de mortes por coronavírus, atrás de Nova York e Cidade do México.

 

VSP- O PSTU é um partido ligado à luta dos professores. Qual a avaliação que a senhora faz da maneira que o PSDB conduz a educação do estado de São Paulo?

VL- Nota zero para o PSDB. Há anos que o PSDB trabalha para desmontar a educação pública do estado, com salas de aulas superlotadas, salários baixos que obrigam professores e professoras a buscarem outras formas de renda, e projetos pedagógicos orientados ao mercado e à produtividade capitalista que são a negação da educação pública.

 

VSP- Qual é a avaliação da senhora e do PSTU tiveram das eleições 2020?

VL- O Bolsonarismo e sua defesa da tortura, volta da Ditadura Militar, terraplanista, de negar a ciência, de sabotar o combate à pandemia e as campanhas de vacinação, além de racista, machista, lgbtfóbico, xenófobo, foi derrotado. No entanto, todos os que foram eleitos conspiram para jogar o peso da recessão econômica sobre as costas da classe trabalhadora e do povo pobre. A inflação, o desemprego em massa, programas de renda mínima insuficientes, o corte de gastos públicos na educação, na saúde, na moradia e a reforma fiscal são políticas para salvar o capitalismo e os capitalistas, mas que vão colocar a maioria da classe trabalhadora em situação de penúria. Por isso  nosso chamado à classe trabalhadora para se auto-organizar e lutas pelas reivindicações operárias e populares.

 

VSP- O que representa o segundo turno entre Guilherme Boulos e Bruno Covas?

VL- O Covas é o candidato do grande capital que está por trás de todas as políticas contra a classe trabalhadora e o povo pobre. Políticas como teto de gastos, as reformas trabalhista e da previdência, entre outras. Além disso, seu partido e seu vice estão envolvidos em vários casos de corrupção. Infelizmente, Boulos se propõe apenas a ser um gestor melhor que Covas sem qualquer aumento de impostos para os ricos, sem mexer na máfia dos transportes, do lixo ou na política de creches conveniadas. Temos que dizer a verdade. Sem tirar dinheiro dos ricos, não será possível atender às reivindicações operárias e populares de emprego, renda, moradia, saúde, educação e o fim do genocídio da juventude negra. Apesar disso, votaremos em Boulos junto com a juventude, setores da classe trabalhadora e movimentos populares que enxergam em Boulos a possibilidade de pôr fim à gestão desastrosa do PSDB.

 

VSP- Quais são os planos futuros da senhora e do PSTU?

VL- Temos pela frente uma grande crise econômica e social. Todos os governos vão trabalhar para defender as grandes empresas e o sistema capitalista internacional. Apostamos na auto-organização da classe trabalhadora e do povo pobre das cidades, no Brasil e no mundo. O PSTU vai investir nesse auto-organização operária e popular para defender os diretos dos trabalhadores e trabalhadoras para coloca-los no poder. Nosso modelo de socialismo não tem nada a ver com Venezuela, China ou Coréia do Norte que são ditaduras capitalistas. Defendemos o socialismo com base na democracia operária, com amplas liberdades democráticas para a classe trabalhadora discutir e decidir os destinos do país e do mundo. Eu continuarei vivendo em São Paulo e estarei integrada a este projeto de construção de uma alternativa revolucionária e socialista.

sexta-feira, 27 de novembro de 2020

VSP nas eleições 2020: VSP virou a tabela: entrevista com Antônio Carlos, candidato a prefeito de São Paulo pelo PCO

 

O professor de matemática Antônio Carlos Silva, 57 anos, foi candidato do PCO (Partido da Causa Operária) a prefeitura da cidade de São Paulo em 2020. Ele recebeu 630 votos e ficou na décima terceira posição entre os concorrentes. Extremamente gentil, Antônio Carlos conversou por telefone com o VSP na semana passada.

 

VSP- Como surgiu a candidatura do senhor pelo PCO?

Antônio Carlos- O PCO ao contrário da maioria dos outros partidos não é um partido de candidato. As pessoas filiadas pertencem a uma espécie de cooperativa. Nós somos um partido ao invés de candidatos do partido, temos candidatos militantes. Sou dirigente há vários anos e a candidatura é uma missão e defender suas ideias nas eleições. Não é uma postulação mas no trabalho que fazemos levando nossos valores e tributos. Não é um partido eleitoral, somos um partido revolucionário que nos reunimos muito além das eleições. Então, eu fui incumbido dessa missão de ser candidato e fui.

 

VSP- Quais foram as maiores dificuldades da sua candidatura?

AC- Olha, pra te ser sincero: essas eleições nós caracterizamos como as mais antidemocráticas das últimas décadas. Com base da reforma eleitoral de 2017, cerca de 1/3 dos partidos não tiveram propaganda ou qualquer espaço na rádio e na TV. Foi uma campanha completamente desleal porque foi muito curta 45 dias sem horário de televisão era mais ou menos impossível chegar numa parcela do eleitorado. Nesse sentido é uma ditadura. Essas eleições foram armadas para garantir a força das grandes marcas políticas.

 

VSP- Quais continuam sendo os principais projetos do PCO para a cidade de São Paulo?

AC- O PCO entrou na eleição pra denunciar a fraude das eleições que nenhum problema seria resolvido. Isso tem ver com a Pandemia, o desemprego, todos os problemas dos trabalhadores e dos mais humildes não iria ser nunca resolvido pelo voto. Mas o partido prossegue fazendo organização e mobilizando os eleitores. O resultado não muda nada. Não altera. Bem como reforça essa organização autônoma independente. O resultado dessa eleição foi uma vitória significativa da direita.

 

VSP- Mas dizem que os bolsonaristas foram os que mais perderam espaço nessas eleições. O senhor acredita que mesmo assim foi uma vitória da extrema direita?

AC- Não. Se a gente disser que o DEM...Os partidos que mais cresceram ao contrário do que a imprensa golpista fala foram o PSD, PP e DEM. São todos partidos herdeiros da Arena. Agora, se pro padrão deles a Arena é progressista...Falaram que os bolsonaristas tinham sido derrotados. Eu realmente não entendo dessa maneira. Mas se você for pensar essas legendas tinham 100 municípios e agora tem 400. Então, nossa avaliação é que esse balanço é completamente fantasioso. Até dentro da própria direita, os setores de centro-direita foram os que mais diminuíram: PSDB e MDB. Só quem cresceu efetivamente foi a direita. E também cresceu o setor da esquerda que a direita estabelecida não vê como perigo. Isso está impulsionando para ofuscar os setores verdadeiramente revolucionários. Dessa maneira, eles ofuscam partidos como o PCO e o próprio PT.

 

VSP- O senhor está falando que a candidatura do PSOL está sendo impulsionado pela direita?

AC- Sim. Isso é muito visível. O PSOL só ganhou quatro prefeituras e parece que eles são o maior partido do mundo, um fenômeno político. O Boulos foi levado nessa onda. Tenho mais de 40 anos de política garoto. Já vi muita eleição fraudulenta mas essa ganhou de todas. O fato do candidato do PT (Jilmar Tatto) ter nove por cento no resultado final e a melhor que a pesquisa dava eram seis por cento. Todo mundo sabe que na última hora da campanha que a maioria do eleitorado decide seu voto. Ele perdeu na reta final até com a declaração do Lula já ter falado que era considerável o apoio ao Boulos. Existiu uma manipulação para favorecer o Boulos. A quem interessa isso? O mesmo fenômeno foi feito no Rio de Janeiro. Onde fizeram que tinha que apoiar a Martha Rocha, ex-chefe de polícia como se ela tivesse alguma chance de chegar ao Segundo Turno. Mesmo assim, ela terminou empatada com a Benedita. Se desde o começo tivesse tido o mesmo apoio a Benedita poderia ter tido um resultado melhor.

 

VSP- E a Benedita tinha um forte apelo com o eleitorado evangélico?

AC- Exatamente. Ela era melhor eleitoralmente, muito mais perigosa para ir no segundo turno contra o (Eduardo) Paes. O PSOL retirou seu principal candidato que era o Freixo para apoiar o Paes. Isso já demonstra que o conluio era anterior. Como a gente sabe em política as coisas nunca acontecem por acaso. O PSOL está apoiando o DEM. E em política nada é por acaso.

 

VSP- Por quê o PCO não foi para nenhum debate televisivo?

AC- Vários motivos. A legislação punia os partidos sem nível de representação parlamentar. Nem mesmo nos debates que foram organizados de partidos sem representação popular o PCO sequer foi chamado. O PCO é um partido fora do regime político. Não fomos pra eleição para dizer que éramos ou seríamos eleitos. Nada disso. A eleição estava armada desde o começo.

 

VSP- Qual é a sua avaliação da candidatura do Guilherme Boulos? O PCO vai dar apoio a ele no segundo turno?

AC- Bom...Nós vamos fazer uma conferência nesse final de semana no sábado e domingo (da semana passada). Vamos fazer um balanço e decidir como será o segundo turno com os delegados de todo país. Mas nesse encontro a minha posição e a maioria do partido é não apoiar eles.

 

VSP- Por quê?

AC- O Guilherme Boulos é um elemento comprometido com uma espécie de frente ampla. A direita tem um plano Joe Biden pro Brasil que seja um candidato direitista para substituir o Bolsonaro. Ou senão fica o Bolsonaro mesmo. É o caso do Joe Biden que é responsável pelo golpe de Estado do Brasil e em outros países da América Latina como avanço. O Trump nunca invadiu nenhum país. O Biden comandou o avanço e o massacre dos povos do Iraque, Venezuela e Cuba. No entanto, ele é apresentado pela mídia e setores como de esquerda. Isso é uma piada. Agora querem pegar o Doria, o Luciano Hulk, o Sérgio Moro e colocar como alternativa democrática ao espantalho, ao fanfarrão do Bolsonaro. Mas que não consegue levar ao povo. Tudo que conseguiu fazer até agora foi uma Reforma da Previdência. A reforma do Temer quem aprovou foi o DEM, PSDB, MDB. Todos partidos que são tidos como partidos de centro.

 

VSP- Como o senhor avalia as medidas dos governos estaduais e federais para o Coronavírus?

AC- Um grande acordo para não fazer nada. O Bolsonaro diz que não vai fazer nada, mas não fazem nada. O estado de São Paulo fosse um país estaria entre os dez que mais morreram. O Bruno Covas é mostrado como uma pessoa comprometida, efetiva. São Paulo nem para testar. Mas temos exemplos de outros países que tiveram medidas efetivas como a Eslováquia, a China mesmo em um final de semana fez testes em quatro milhões de pessoas. Em São Paulo não aconteceu nada disso.

Os governos Covas e Doria contrataram menos trabalhadores da saúde dos que foram afastados por conta da saúde. Como eles não fazem como o Bolsonaro...Não falam besteira, a mídia não fica em cima. Mas eles são cínicos, ruins ou até mesmo piores que o próprio Bolsonaro. Porque o Bolsonaro levanta a repulsa. Mas o Covas se você pegar ele tem o recorde da abertura de covas mas ninguém discute isso. É uma situação totalmente absurda justamente na cidade mais rica do país. Até fecharem os hospitais de campanha para não atender a população. Tudo lamentável.

 

VSP- Pararam de divulgar os dados logo na semana do primeiro turno.

AC- Coincidência, né? Na semana anterior da eleição, o estado de São Paulo estava tendo problema de transmissão de dados e por coincidência o final de semana que sempre foi costumeira. Mas mesmo no domingo da eleição tivemos só 915 ou 921 motos mostrando inclusive que tudo é pura falsificação. Nós estamos vendo uma nova onda que já era realidade e os órgãos de imprensa estavam escondendo.

 

VSP- O PCO é ligado as lutas dos professores. Qual avaliação o senhor faz da maneira que o PSDB conduz a educação no Estado de São Paulo?

AC- Nós estamos num processo de retrocesso. A situação da Pandemia agravou com a paralisação política é completamente criminosa. Uma pressão pra discutir a volta das aulas e não tem nem que discutir isso. A própria prefeitura fez exames em 70% dos jovens sendo que nessa faixa etária eles podem transmitir mesmo não tendo sintomas. Um dos maiores problemas é a superlotação das salas de aula. Quantas salas de aula o governo construiu pro combate? Nenhuma. Outro problema é que boa parte dos alunos não tem acesso à Internet. São governos de mentira e fraude.

 

VSP- Qual avaliação o senhor e do PCO das eleições 2020?

AC- Resumindo: uma vitória da direita. E também da fraude e da manipulação. A direita conseguiu impor depois de cinco eleições nacionais quatro de direita e na última uma pra extrema direita. Mas nessas de 2020, setores da Arena e do MDB conseguiram se sair vitoriosos de um conjunto de manipulações e fraudes.

 

VSP- O que representa o segundo turno ser entre Guilherme Boulos e Bruno Covas?

AC- Um pouco mais do mesmo. Estão representados dois candidatos da frente ampla. O Covas do PSDB e o Boulos que esteve no início do ano com articulações com o PSDB, a Globo, Kassab, Moro. Eles querem construir um bloco de centro para quebrar a manipulação da direita e da esquerda. De certa maneira, a eleição de São Paulo contribuí do ponto de vista que eles conseguem mas a realidade é bem maior. Infelizmente, eles não vão conseguir deter a polarização real. Mas no terreno conseguiram segurar a barra. É tudo conversa pra boi dormir.

 

VSP- Quais são os planos futuros do senhor e do PCO?

AC- O partido cresceu e se fortaleceu nas eleições. Não do ponto de vista de votos porque não tínhamos nenhuma ilusão. Pra você ver como essas eleições são uma fraude: temos menos votos que filiados ao partido. Isso não nos abala e nós vamos fazer uma conferência dando prosseguimento ao partido que tem um jornal diário na Internet e um jornal impresso. Vamos continuar mobilizando os setores da esquerda combativa, todos os setores pressionando o fora Bolsonaro, todos golpistas e defendendo uma saída alternativa de esquerda. A única seria a candidatura do ex-presidente Lula, expressão de luta real porque é uma figura que canaliza essa tendência de lutar contra o aumento da fome e do desemprego para os trabalhadores. A eleição é bonita pra fingir que vai mudar alguma coisa. Mas a realidade é completamente diferente.

quinta-feira, 26 de novembro de 2020

VSP nas eleições 2020: VSP Virou a Tabela: abertura

 

"Vocação de São Mateus" de Caravaggio 1600

Faltam poucos dias para o Segundo Turno de São Paulo. Visando tentar dar continuidade a essa cobertura alternativa das eleições 2020, o VSP virou a tabela. Mateus escreveu seu Evangelho especialmente para os judeus, tendo inúmeras citações ao Antigo Testamento. Em determinada passagem, ele anota: “Portanto, os últimos serão primeiros, e os primeiros serão últimos. Pois muitos serão chamados, mas poucos escolhidos” (Mateus 20;16). Procurando entender os bastidores e questões por trás da campanha, o VSP mandou dez questões para as assessorias dos quatro últimos colocados das eleições para a prefeitura de São Paulo. Somente dois responderam. Nos próximos dois dias vocês conhecerão as respostas deles.

quarta-feira, 25 de novembro de 2020

VSP nas eleições 2020: entrevista exclusiva com Aldo Fornazieri: “Embora Covas tenha uma vantagem, a eleição será decidida na véspera”


O cientista político, escritor e professor Aldo Fornazieri é uma das maiores referências nas Ciências Sociais do Brasil. Professor das disciplinas de Política e pós-graduação da Fundação Escola de Sociologia e Política da São Paulo (FESPSP), Fornazieri possui larga experiência no meio, sendo um dos maiores estudiosos brasileiros da obra do filósofo florentino Nicolau Maquiavel (1469-1527). Seu doutorado inclusive foi sobre este pensador: “Maquiavel e o bom governo”, defendida na USP (Universidade de São Paulo) em 2007. Nesta breve entrevista, o professor fala sobre o segundo turno entre Bruno Covas e Guilherme Boulos destacando o bom nível dos dois candidatos. “Comparando com a disputa de 2018 ou com o que está ocorrendo no Rio de Janeiro, penso que é possível dizer que a disputa em São Paulo segue padrões civilizados e democráticos”, destaca Fornazieri. Veja a entrevista exclusiva dele ao VSP.

 

VSP- Professor, o senhor sempre fala em conjuntura. A conjuntura da eleição para o Executivo de São Paulo é de continuidade ou de mudança?

Aldo Fornazieri- Na verdade, no início da campanha, se configurava uma conjuntura ambígua, que não era nem de conservação e nem de mudança. Isto porque a avaliação positiva e negativa da gestão Covas se equivaliam. Com isso, era previsível que ele iria para o segundo turno. Mas durante a campanha ele conseguiu melhorar a avaliação da sua gestão, favorecendo sua reeleição.

 

VSP- Na sua opinião, quais são os fatores que mais colaboraram para o candidato Guilherme Boulos ter ido para o segundo turno?

AF- Penso que a singularidade da chapa, combinando juventude do Boulos, com a experiência da Erundina e também por serem duas pessoas que se caracterizam pela virtude da coragem. Além disso, Boulos encarnou, melhor do que qualquer outro candidato, a ideia da mudança. A defesa de valores foi importante, junto com propostas que mostram mais sensibilidade social.

 

VSP- Quais serão as maiores dificuldades para ele no segundo turno contra o Bruno Covas?

AF- Penso que deveria ter um programa mais transformador para a Saúde e, no primeiro turno, ele deveria ter centrado mais as críticas na gestão Covas.

 

VSP- O fato do PT ter insistido na candidatura do ex-secretário Jilmar Tatto e o PCdoB com o ex-ministro Orlando Silva auxiliou ou prejudicou Boulos?

AF- Penso que ajudou, pois desconcentrou os votos e favoreceu o Boulos. As candidaturas não eram concorrentes, mas complementares. O Tatto não tirou votos do Boulos, mas capturou votos que não iriam para a chapa do PSOL.

 

VSP- O Bruno Covas apresentou uma candidatura ligada a assuntos da cidade e evitou assuntos polêmicos ou ataques pessoais. O senhor acha que isso colaborou para ele chegar ao segundo turno como o mais votado? 

AF- Sim, a eleição é municipal e os eleitores querem soluções para os problemas da cidade. Penso que a nacionalização das campanhas não ajudam os candidatos. Comparando com a disputa de 2018 ou com o que está ocorrendo no Rio de Janeiro, penso que é possível dizer que a disputa em São Paulo segue padrões civilizados e democráticos.

 

VSP- O deputado federal Celso Russomanno fracassou em mais uma candidatura ao Executivo paulistano. Na opinião do senhor, qual será o futuro político dele?

AF- Ele tem futuro político como deputado. Ele não tem nem consistência política e nem base social para ser prefeito.

 

VSP- Entre os candidatos menores, o deputado estadual Arthur do Val, o Mamãe Falei, do Patriota quase se igualou ao Russomanno em votos. Qual é a sua visão sobre o futuro político dele?

AF- É um candidato de extrema-direita que capturou o voto bolosnotista extremado. Existe cerca de 10% do eleitorado que é de extrema-direita.

 

VSP- Essa eleição de 2020 apresentou algo inédito até hoje que é a pandemia do Coronavírus. O que esse fato representou nessa luta eleitoral?

AF- Penso que a pandemia reduziu o peso da campanha de rua, de mobilização, de atos de campanha. Mas não dá para dizer que ela elevou a importância da campanha da TV. Fosse isso, o Boulos não teria ido para o segundo turno.

 

VSP- Quais fatos mais chamaram a atenção do senhor na eleição da Câmara de Vereadores de São Paulo? O senhor acredita que houve renovação no Palácio Anchieta?

AF- Penso que ficou uma Câmara mais diversificada, mais pluralista. As candidaturas de mulheres e negros avançaram, mas ainda longe do ideal para a representação desses setores. É preciso avançar mais, inclusive com um maior número de eleitos que representem as periferias.

 

VSP- Qual é a expectativa do senhor para o segundo turno das eleições paulistanas de 2020? 

AF- Como a gente está vendo, é uma eleição disputada. O Covas enfatizando mais as questões administrativas e o Boulos apontando mais para a mudança e para valores sociais e humanísticos. Embora Covas tenha uma vantagem, a eleição será decidida na véspera.

terça-feira, 24 de novembro de 2020

VSP nas Eleições 2020: análise e reflexões dos resultados do Primeiro Turno para a cidade de São Paulo

 

"Conversão de São Paulo" de Caravaggio 1600/1601

Ele foi o bandeirante do Novo Testamento. É o autor de treze dos 27 livros do Novo Testamento. Ficou famoso por suas viagens e inúmeras aventuras. Trata-se do apóstolo Paulo. Ele nos alertou sobre a necessidade de não desprezar a juventude: Ninguém despreze a tua mocidade; pelo contrário, torna-se padrão dos fiéis, na palavra, no procedimento, no amor, na fé, na pureza” (1 Tm 4:12). Paulo não sabia. Mas o segundo turno para a prefeitura da cidade de São Paulo reúne o embate de dois jovens candidatos. Mas de formações, espectros e perfis completamente diferentes.

De um lado, um concorrente com certa experiência no Legislativo e Executivo: Bruno Covas do PSDB (Partido da Social Democracia Brasileira). Candidato de centro ou centro-direita, ele reúne um sobrenome conhecido do eleitorado e uma ampla coligação que reúne onze partidos políticos (PSDB-MDB-DEM-PODE-PP-PSC-PL-Cidadania-PTC-PV-PROS). Covas é formado em direito pela USP (Universidade de São Paulo) e economia pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo). É filiado ao seu partido desde o berço sendo neto do ex-governador Mário Covas (1930-2001). Bruno iniciou sua vida pública como deputado estadual. Foi líder do governo Geraldo Alckmin na Assembleia Legislativa e depois Secretário Estadual do Meio-Ambiente. Teve uma rápida passagem por Brasília como deputado federal e herdou a prefeitura de Doria que foi para o governo do estado. Aos 40 anos, Bruno Covas teve uma votação expressiva, sendo o mais votado em todas as regiões da cidade: da periferia aos bairros nobres. Teve uma doença seríssima da qual parece ter se recuperado. Nos debates e entrevistas demonstrou-se recatado, evitando ataques pessoais aos adversários e focado nas questões da cidade. Suas propagandas foram levadas com o lema “Força, Foco e Fé”.

A vaga de vice de Covas desde o primeiro momento esteve destinada ao MDB (Movimento Democrático Brasileiro). É a primeira vez que PSDB e MDB se aliam desde a fundação da primeira legenda em 1988. Até porque o PMDB antes era controlado no estado pelo ex-governador Orestes Quércia (1938-2010), que sempre teve rusgas com os tucanos. Mas a ideia original da vaga de vice de Covas era para o apresentador José Luiz Datena da TV Bandeirantes. Conhecidíssimo, ele tem um inegável apelo com as classes mais baixas. Essa era a chapa dos sonhos do PSDB e do próprio Baleia Rossi, presidente nacional do MDB. Mas na última hora o controverso comunicador preferiu ficar na televisão. Parece que foi o próprio Bruno Covas quem escolheu o vereador Ricardo Nunes. Este mantém um amplo eleitorado na Capela do Socorro e Grajaú, bairros da zona sul da Capital. Eleito vereador pela primeira vez em 2012 com 30.747 votos, Ricardo Nunes ampliou seus votos na eleição seguinte: 54.692. Foi o mais votado do seu partido na Câmara Municipal nas duas ocasiões. Aos 53 anos, o empresário e candidato a vice de Covas é bastante religioso e mantém um relacionamento próximo com a Igreja Católica, principalmente com bispos e padres da Diocese de Santo Amaro, zona sul da cidade. É um empresário com sucesso no empreendedorismo e tido como conservador. Surgiram certos devaneios sobre seu nome mas nada que tenha impactado a candidatura de Covas (pelo menos até agora).

O prefeito evitou proximidade com o governador Doria e também com tucanos históricos como Aécio Neves, Geraldo Alckmin e José Serra. Mas Covas ressaltou o apoio da ex-prefeita Marta Suplicy, histórico nome do PT e atualmente sem partido. O prefeito sempre posicionou sua contrariedade ao presidente Jair Messias Bolsonaro. Diferentemente de Doria, Covas manteve-se longe do segundo turno presidencial de 2018. Tem outro estilo político. Covas é mais contido, longe dos arroubos do governador paulista. Nisso parece um tanto o também tucano Geraldo Alckmin que sempre foi um governante fleumático. Covas fez acenos expressivos para a centro-esquerda. A secretaria de cultura do tucano ficou com o agitador cultural Ale Youssef, nome notoriamente ligado aos Acadêmicos da Baixo Augusta e a esquerda. Youssef é apoiador do prefeito de primeira hora.

De qualquer maneira, sua coligação conseguiu 23 cadeiras na Câmara de Vereadores. Trata-se de um número bastante expressivo. O PSDB (Partido da Social Democracia Brasileira) conseguiu oito vagas. A psicóloga Rute Costa (41.546 votos) foi a mais votada conseguindo a reeleição. Bastante ligado a Covas, o advogado Eduardo Tuma (40.270 votos) possui amplo eleitorado no meio evangélico sendo membro da igreja Bola de Neve e sobrinho neto do ex-senador Romeu Tuma (1931-2010). O experiente vereador João Jorge (34.323 votos) foi outro reeleito. O médico e pastor Carlos Bezerra Júnior (34.144 votos) substitui a esposa Patrícia Bezerra que foi para a Assembleia Legislativa. Ligado a causa animal, o empresário Tripoli (30.495 votos) conseguiu uma cadeira. Já o advogado Aurélio Nomura (25.316 votos), nome reconhecido na comunidade japonesa teve mais uma reeleição. Conhecido na região de Pirituba, Jaraguá, e Taipas, o advogado Fábio Riva (24.739 votos) conseguiu mais um mandato. A mobilizadora social Sandra Santana (19.591 votos) é uma novidade do PSDB, conseguindo sua primeira eleição.

Os tucanos ampliaram o número de prefeituras no estado de São Paulo. No Primeiro Turno, o PSDB elegeu 176 prefeitos, um número bastante expressivo. O partido se elegeu em importantes colégios eleitorais do estado como Barueri (com o advogado Rubens Furlan), Jundiaí (com o advogado Luiz Fernando Machado), Santos (com Rogério Santos), São Bernardo do Campo (reeleição de Orlando Morando) e São José dos Campos (com a reeleição do administrador Felício Ramuth). Além da Capital, o partido irá disputar o segundo turno em Piracicaba, Ribeirão Preto e São Vicente. Este último numa surpreendente eleição da jornalista Solange Freitas venceu o primeiro turno com 41,47%. Conhecida por ser repórter da TV Tribuna, Freitas concorreu pela primeira vez a um cargo público e chegou a sofrer um atentado. Ela irá disputar o Segundo Turno contra Kayo Caiado do Podemos. Já o candidato apoiado por Márcio França, o atual mandatário, Pedro Gouvêa do MDB, ficou numa amarga terceira colocação. Gouvêa é cunhado de Márcio França.

Já o Democratas saiu das eleições com seis vereadores. O mais votado merece um parágrafo a parte. Sempre com votação expressiva, o veterano Milton Leite (132.716 votos) conseguiu seu sétimo mandato. Teve até avião para fazer suas propagandas e inúmeros colaboradores carregando bandeiras e santinhos por toda cidade. Presidente municipal da legenda, sua área de atuação é no extremo sul da cidade de São Paulo em bairros como Grajaú, Jardim Ângela, M´Boi Mirim, Parelheiros e Pedreira. Existem áreas da metrópole em que Leite é mais famoso que o próprio prefeito. O atuante parlamentar foi presidente da Câmara Municipal e um dos mais expressivos líderes da gestão Doria e Covas. Mas não achem que ele não têm tráfego com a esquerda. Muito pelo contrário. Milton Leite que possibilitou a nomeação da avenida Luiz Gushiken, em homenagem ao ex-deputado petista que morreu em 2013. Trabalhou nos bastidores pela indicação de Ricardo Nunes para vice. Trata-se um político à moda antiga e muito conhecido dos paulistanos. Um dos seus filhos é deputado estadual (Milton Leite Filho) e outro deputado federal (Alexandre Leite), todos pelo Democratas.

Conhecido pelo público popular, o radialista Eli Corrêa (32.482 votos) ganha seu primeiro mandato, sendo o segundo mais votado do DEM. Aos 68 anos, Corrêa inicia a vida pública mas seu filho (Eli Corrêa Filho) já é deputado estadual com vários mandatos e sua nora concorreu a prefeitura de Guarulhos (Fran Corrêa pelo PSDB). Eli Corrêa ficou conhecido pelo seu bordão "Oi, gente!". O "homem sorriso do rádio" é um verdadeiro fenômeno de comunicação com as classes mais baixas, tendo passado por inúmeras emissoras do rádio AM como América, Capital, Globo, entre outras.

Conhecido pela defesa dos taxistas, Adilson Amadeu (30.549 votos) ganha nova chance no Palácio Anchieta. Ele ficou conhecido por conta de suas polêmicas pela legislação do Uber. Outros parlamentares reeleitos pelo DEM foram a médica Sandra Tadeu (28.464 votos), o engenheiro de trânsito Ricardo Teixeira (23.280 votos) e o missionário José Olímpio (17.098 votos). Este último é ligado a Igreja Mundial do Poder de Deus pertencente ao pastor Valdemiro Santiago. O DEM foi a segunda legenda que mais elegeu prefeitos no estado no Primeiro Turno. Foram 70 prefeituras.

Partido do vice de Covas, o MDB (Movimento Democrático Brasileiro) conseguiu três cadeiras. Conhecido pelos programas de televisão, o Delegado Palumbo (118.395 votos) conseguiu ser o terceiro parlamentar mais votado para a legislatura que começa em 2021. O militar recebeu a ideia de se candidatar pelo apresentador José Luiz Datena, seu amigo pessoal. Delegado de comando do Garra (Grupo Armado de Repressão a Roubos e Assaltos), Palumbo tem notoriedade nas redes sociais. Só no Instagram tem 478 mil seguidores.

Conhecido no meio nikkey, George Hato (25.599 votos) ganha seu segundo mandato como vereador, novamente no MDB. Ele é filho do ex-deputado estadual e vereador Jooji Hato (1948-2019), político conhecido que celebrizou-se pela “Lei do Psiu”. O Hato pai foi muito próximo ao ex-governador Orestes Quércia. Já o jovem dentista Marcelo Messias (23.006 votos) complementa a chapa emedebista na Câmara Municipal. Messias é apadrinhado político de Ricardo Nunes e recebeu a maioria dos seus votos nas regiões de atuação do seu mentor: a zona sul de São Paulo. 

O Podemos é um dos partidos que mais vem crescendo nos últimos anos. Na região metropolitana, a legenda conseguiu prefeituras de cidades como Itapevi (vitória de Igor Soares com 98% dos votos), Osasco (reeleição em primeiro turno de Rogério Lins) e Rio Grande da Serra (com o curioso candidato Claudinho da Geladeira). Na Capital, o Podemos conseguiu três vereadores. Esposa do radialista Fábio Teruel, Ely Teruel (23.084 votos) foi a mais votada da legenda na Capital. O médico Milton Ferreira (20.126 votos) conseguiu a reeleição e Danilo do Posto de Saúde (19.024 votos) recebeu seu primeiro mandato. Um grande derrotado é o tio do prefeito Bruno Covas. Mário Covas, o Zuza, teve pouco mais de dez mil votos e ficou de fora do Palácio Anchieta pela primeira vez após dois mandatos. Ele tinha sido candidato ao Senado em 2018.

Já o PL (Partido Liberal) encolheu sua presença na Câmara Municipal de São Paulo. Diferentemente da Capital, os liberais aumentaram sua presença na região metropolitana. O PL elegeu oito prefeituras na Grande São Paulo: Biritiba Mirim, Guararema, Itapecerica da Serra, Juquitiba, Ribeirão Pires, Salesópolis, Suzano e Vargem Grande Paulista. Já no Palácio Anchieta a legenda acabou não tendo um desempenho eficiente. Na Câmara paulistana, o PL caiu de quatro passou para dois representantes. Filho da cantora Gretchen, o ativista e ator Thammy Miranda (43.321) ganha sua primeira chance na Câmara de Vereadores. Trata-se de uma votação expressiva para um novato que é uma das maiores novidades para o Parlamento deste ano. Já o pastor Isac Félix (23.929 votos) ganhou novo mandato. Veteranos do PL como Noemi Nonato e Toninho Paiva perderam suas cadeiras. Ficaram com a suplência.

Conhecido por ser o partido do líder Paulo Maluf, o PP (Partido Progressista) conseguiu apenas uma vaga: trata-se do longevo Arnaldo Faria de Sá (34.213 votos). Faria de Sá foi deputado federal por inúmeras legislativas e foi ligado ao ex-prefeito Celso Pitta. O veterano político também foi presidente da Portuguesa de Desportos nos anos 1990, quando o clube do Canindé venceu a Copa São Paulo de Futebol Júnior e revelou o atacante Dener (1971-1994), morto precocemente. 

Já o PV (Partido Verde) também conseguiu um representante: Roberto Tripoli (46.219 votos). Apesar de expressiva votação, a jornalista e ativista da bicicleta Renata Falzoni, a Bike Repórter (26.078 votos) não conseguiu eleger-se pelo PV, ficando numa suplência. Entre as outras legendas que apoiaram Covas, o Cidadania foi um dos maiores perdedores de 2020. A sigla tinha dois representantes na Câmara: a apresentadora Soninha Francine e o professor Cláudio Fonseca. Ambos não conseguiram a reeleição e o Cidadania terminou sem nenhuma cadeira no parlamento paulistano. A legenda tinha nomes de renovação em seus quadros como Malu Molina (apoiada pela deputada federal Tábata Amaral do PDT) e o ativista LGBT Pedro Melo. Mas o Cidadania não elegeu nenhum vereador em 2020.

O PROS (Partido Republicano de Ordem Social) e o PTC (Partido Trabalhista Cristão) também estão na coligação tucana mas não conseguiram nenhuma cadeira. Foram dois partidos com votações miúdas para o legislativo.  No Segundo Turno, Covas já recebeu apoios contraditórios de Andrea Matarazzo do PSD (Partido Social Democrático), Joice Hasselman do PSL (Partido Social Liberal), PTB (Partido Trabalhista Brasileiro) do deputado estadual Campos Machado e de Celso Russomanno do Republicanos. Diversos quadros do NOVO também disseram que no Segundo Turno irão votar em Covas.

O oponente de jovem tucano no segundo turno será o ativista social, escritor e professor Guilherme Boulos do PSOL (Partido Socialismo e Liberdade) que está numa coligação de três legendas de esquerda (PSOL-PCB-UP). Apesar do PSOL que vem crescendo, as outras duas são bem pequenas. O título da aliança é “Pra Virar o Jogo”. Não é à toa. Com o uso maciço das redes sociais e mídia alternativa, o título da legenda tomou conta de expressivas faixas etárias da sociedade. É interessante notar que as maiores votações em bairros nobres como Bela Vista, Perdizes e Pinheiros. Filho de um casal de médicos renomados, Guilherme Boulos tem 38 anos. É formado em filosofia pela USP (Universidade de São Paulo) com mestrado em psiquiatria pela mesma instituição. Sua dissertação foi defendida em 2017: “Estudo sobre a variação de sintomas depressivos relacionada à participação coletiva das ocupações de sem-teto em São Paulo”. Tornou-se nacionalmente conhecido pela sua militância no MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto) e candidatou-se a Presidência da República em 2018. Formou com a ativista indígena Sônia Guajajara a chapa “Frente de Esquerda Socialista” (PSOL-PCB). Entre os treze candidatos, Boulos ficou na décima colocação com 617.122 votos (0,58%), ficando somente à frente de Vera Lúcia (PSTU), José Maria Eymael (DC) e João Goulart Filho (PPL).

Mesmo assim, Boulos firmou-se como novo nome da “nova esquerda”. Sua proximidade com o ex-presidente Lula chamou atenção. Lançou-se como candidato à prefeitura do PSOL tendo como trunfo a vice: a ex-prefeita Luiza Erundina, de 85 anos. Destacada pelas lutas sociais, a veterana deputada federal transformou-se uma espécie de abalizador da chapa liderada pelo jovem candidato.

Nas prévias do PSOL, Boulos venceu a deputada federal Sâmia Bomfim. Apesar de não ter experiência em cargos públicos, o jovem membro do PSOL destacou-se nos debates e no final da campanha nas trocas de farpas com Celso Russomanno e Márcio França. Sua votação foi bastante expressiva com mais de um milhão de votos em todas as regiões da Capital. Ele encontrou apoio no início do segundo turno de diversos partidos de centro ou centro-esquerda como PT (Partido dos Trabalhadores), PCdoB (Partido Comunista do Brasil), Rede Sustentabilidade e PDT (Partido Democrático Trabalhista). Boulos vive citando a eleição e a prefeitura de Luiza Erundina como referência. Mas são cenários diferentes. As eleições de 1988 eram em um turno único. Mas Boulos surpreendeu e bateu com facilidade seus dois principais oponentes. O PSOL também ampliou sua presença na Câmara de Vereadores. De dois em 2016 a legenda pulou de dois para oito representantes no Palácio Anchieta. São eles: Érika Hilton (50.508 votos, votação bastante expressiva), Sílvia da Bancada Feminista (46.267 votos), Luana Alves (37.550 votos), Celso Giannazi (28.535 votos), Toninho Vespoli (26.748 votos) e Elaine do Quilombo Periférico (22.742 votos). O professor de matemática Toninho Vespoli é uma espécie de veterano do PSOL. Ele foi o primeiro vereador da legenda e ganha seu terceiro mandato. Já Giannazi ganha mais um mandato abalizado por ser irmão do combativo deputado estadual Carlos Giannazi do mesmo partido. As outras duas legendas da coligação de Boulos, o PCB (Partido Comunista Brasileiro) e a UP (União Popular) não conseguiram nenhuma cadeira no Palácio Anchieta.

Com forte presença no litoral sul de São Paulo, o advogado Márcio França do PSB (Partido Socialista Brasileiro) é um político calejado e ficou num honroso terceiro lugar. Apesar de ter formado uma legenda com alguns partidos, ele acabou ficando no Primeiro Turno. Seu maior momento político foi quando assumiu o Governo de São Paulo e conseguiu liderar a greve de caminhoneiros em 2018. Tem tráfego com a direita e esquerda sendo um político anfíbio (termo do amigo Bernardo Schmidt). A chapa “Aqui Tem Palavra” contou com cinco partidos (PSB-PDT-PMN-Avante-Solidariedade). Mas a coligação elegeu apenas dois vereadores, ambos do PSB e veteranos que ganham mais uma reeleição: Camilo Cristofaro (23.431 votos) e Eliseu Gabriel (21.122 votos). Na legenda anterior eram três vagas. França é um político experimentado e deve tentar outros voos num futuro próximo. Preferiu não apoiar ninguém no Segundo Turno. Deve estar em alguma candidatura em 2022. 

Já Celso Russomanno (Republicanos) precisa se conformar em ser deputado federal. Ou mudar radicalmente seu discurso. Afinal, já é a terceira eleição para a prefeitura que ele inicia liderando mas não saí do primeiro turno. Sua luta pelas direitos do consumidor são louváveis e antigas. Mas o apoio do presidente Jair Messias Bolsonaro acabou não ajudando sua candidatura. Mesmo assim, o Republicanos elegeu uma bancada significativa na Câmara com quatro nomes: André Santos (41.584 votos), Sansão Pereira (39.709 votos), Atílio Francisco (35.345 votos) e Sonaira Fernandes (17.881 votos). Não é mistério para ninguém que o Republicanos é o partido ligado a uma importante denominação religiosa evangélica de terceira onda: a Igreja Universal do Reino de Deus. Em 2016, a legenda tinha treze prefeituras no estado. Agora já são 21 e disputa o Segundo Turno em Sorocaba com Rodrigo Manga e em Campinas com o médico e ex-vereador Dário Saadi. Já o PTB (Partido Trabalhista Brasileiro) que compunha chapa com o Republicanos elegeu apenas um nome para o Câmara paulistana: o experiente médico Paulo Frange (17.796 votos), conhecido por sua atuação no bairro da Freguesia do Ó. 

Entre os outros candidatos a prefeito, destaca-se a figura de Arthur do Val, o Mamãe Falei, do Patriota. Com um discurso pregando o empreendedorismo e a livre iniciativa, o deputado estadual ligado ao movimento MBL recebeu quase a mesma quantidade de votos de Russomanno. Sua legenda, o Patriota conseguiu chegar em três vereadores para a Câmara Municipal. O polêmico Fernando Holiday (67.715 votos) foi o quinto mais votado da cidade conseguindo seu segundo mandato. O Patriota também elegeu Rubinho Nunes (33.038 votos) e Marlon do Uber (25.643 votos). Arthur do Val tem apenas 34 anos e ainda disputará novas eleições. Seu desempenho no debate da TV Cultura chamou atenção.

O ex-secretário Jilmar Tatto foi correto e cresceu nas pesquisas das últimas semanas demonstrando a força do PT (Partido dos Trabalhadores) da extrema zona sul onde foi segundo colocado em distritos como Grajaú e Parelheiros. As obras sociais dos governos passados da legenda ainda têm um amplo reconhecimento pelo eleitorado dessa região. O PT conseguiu uma bancada expressiva na Câmara de Vereadores com oito nomes: o campeão de votos e ex-senador Eduardo Suplicy (167.552 votos), Donato (31.920 votos), Alessandro Guedes (31.124 votos), Jair Tatto (29.918 votos), Juliana Cardoso (28.402 votos), Senival Moura (25.311 votos), Alfredinho (25.159 votos) e Arselino Tatto (25.021 votos). Dois irmãos do candidato Jilmar Tatto. É de se lamentar que candidaturas  renovadoras do Partido dos Trabalhadores não tenham ganhado vez na Câmara Municipal. Candidaturas como da cientista política Luna, da advogada Vivi Mendes, o pastor Messias Pereira, a socióloga Pagu Rodrigues e do professor Nabil Bonduki não conseguiram se eleger. Uma pena.  

No Primeiro Turno, o Partido dos Trabalhadores elegeu apenas dois prefeitos em todo estado de São Paulo: o sociólogo e ex-prefeito Edinho Silva em Araraquara e Adauto Scardoelli em Matão. A legenda também irá disputar o Segundo Turno em três municípios da região metropolitana: Diadema, Guarulhos e Mauá. As maiores chances estão em Diadema com o engenheiro José de Filippi Júnior que já foi prefeito do município três vezes. Nos outros dois municípios os cenários são bastante desfavoráveis aos petistas. Em Guarulhos, o jovem Guti do PSD lidera e em Mauá o líder nas pesquisas é Átila do PSB, ligado ao ex-governador Márcio França.

Já o ex-ministro Andrea Matarazzo do PSD (Partido Social Democrático) fez uma campanha séria destacando suas realizações quando secretário de Gilberto Kassab da mesma legenda. Tinha um plano de governo expressivo, mas que acabou não indo para um segundo turno. Talvez falte mais carisma para Matarazzo. Ele acaba sendo um homem mais de gabinete, secretariado, mas sem vibração de um líder do Executivo. Mesmo assim, os sociais democráticos de Kassab conseguiram três cadeiras na Câmara de Vereadores. A principal novidade é o policial militar e defensor da causa animal Felipe Becari (98.717 votos), uma votação bastante expressiva. Outros eleitos pelo PSD foram Rodrigo Goulart (31.472 votos) e a veterana Edir Sales (23.106 votos), ligada ao meio evangélico. O PSD elegeu prefeitos na região metropolitana em municípios como Cajamar e Cotia. A legenda também disputa o segundo turno em Guarulhos com Guti, esse buscando um segundo mandato.

A deputada estadual Marina Helou (Rede Sustentabilidade) tinha um interessante programa de governo focado na valorização de grupos específicos da sociedade como os LGBTI+, mulheres e negros. Mesmo assim, seu partido não conseguiu uma única cadeira no Palácio Anchieta. O Rede tinha diversos candidatos interessantes e com propostas inovadoras para a vereança mas não conseguiram se eleger. Mas Helou é jovem e deve ter mais chances no futuro. É uma parlamentar atuante e com um discurso mais moderado que seu colega de Assembleia, Arthur do Val, o Mamãe Falei. Nos debates a jovem evitou polêmicas pessoais com os demais candidatos e defendeu seu plano de governo. O Rede Sustentabilidade não conseguiu nenhuma prefeitura no estado de São Paulo.

O ex-ministro e deputado federal Orlando Silva contou com presença no horário eleitoral mas não conseguiu estar entre os mais votados. Homem de articulação da sua legenda, tem forte presença em Brasília, mas não conseguiu repetir esse desempenho na sua candidatura ao Executivo. Seu partido, o PCdoB (Partido Comunista do Brasil) não conseguiu nenhuma vaga para a vereança. No entanto, o PCdoB conta com dois líderes nacionais expressivos: o governador Flávio Dino do Maranhão e a ex-deputada Manuela D'ávila que concorre ao segundo turno em Porto Alegre. O NOVO parecia prometer algo com a candidatura do ex-secretário Filipe Sabará. No entanto ele acabou se desentendendo com as lideranças nacionais da legenda. Mesmo assim, o NOVO elegeu dois nomes femininos para a Câmara de Vereadores de São Paulo: a reeleita Janaína Lima (30.931 votos) e Cris Monteiro (18.085 votos). O partido laranja tinha outros candidatos jovens com propostas liberais bastante interessantes como Matheus Hector, Rafael Romero, Rodrigo Lopes e Wafá Kadri, mas nenhum conseguiu eleger-se para o Palácio Anchieta. São todos jovens. Quem sabe numa próxima oportunidade. 

Já Joice Hasselmann e o PSL (Partido Social Liberal) parecem estar um tanto confusos desde que perderam sua estrela nacional. Ela tinha projetos controversos ou exóticos em seu plano de governo como extinguir a SP Trans e transformar a Cracolândia numa Cristolândia (!). Parecem propostas muito ingênuas para problemas realmente sérios da cidade. Os membros da legenda “direita raiz” conseguiram uma cadeira no Palácio Anchieta. Trata-se da reeleição do pastor Rinaldo Digilio (13.673 votos), ligado à Igreja do Evangelho Quadrangular. O PSL elegeu dez prefeitos no estado de São Paulo e está no Segundo Turno em dois (Praia Grande e Sorocaba). Veremos o que irá acontecer no segundo turno. 


Seguem os resultados de votos do primeiro turno a prefeitura de São Paulo:


Para Prefeito:

 

1º Bruno Covas                  PSDB                              1.752.949 votos (32,85%)

 

2º Guilherme Boulos          PSOL                              1.079.924 votos (20,24%)

 

3º Márcio França                PSB                                 727.960 votos (13,64%)

 

4º Celso Russomanno         Republicanos                  560.239 votos (10,5%)

 

5º Arthur do Val                 Patriota                            521.871 votos (9,78%)

 

6º Jilmar Tatto                     PT                                   461.218 votos (8,65%)

 

7º Joice Hasselmann            PSL                                 98.239 votos (1,84%)

 

8º Andrea Matarazzo           PSD                                82.701 votos (1,55%)

 

9º Marina Helou                  Rede Sustentabilidade     22.063 votos (0,41%)

 

10º Orlando Silva                PCdoB                            12.241 votos (0,23%)

 

11º Levy Fidelix                  PRTB                              11.952 votos (0,22%)

 

12º Vera                               PSTU                              3.051 votos (0,06%)

 

13º Antônio Carlos              PCO                                630 votos (0,01%)

 

Os 55 vereadores eleitos na cidade de São Paulo:


Eduardo Suplicy                             PT                         167.552 votos


2º Milton Leite                                    DEM                     132.167 votos


Delegado Palumbo                         MDB                     118.395 votos


Felipe Becari                                   PSD                      98.717 votos


Fernando Holiday                           Patriota                  67.7715 votos


Érika Hilton                                    PSOL                    50.508 votos


Sílvia da Bancada Feminina            PSOL                    46.267 votos


Roberto Tripoli                               PV                         46.219 votos


Thammy Miranda                           PL                         43.321 votos


10º André Santos                                Republicanos         41.584 votos


11º Rute Costa                                    PSDB                    41.546 votos


12º Eduardo Tuma                            PSDB                    40.270 votos


13º Sansão Pereira                              Republicanos         39.709 votos


14º Luana Alves                                 PSOL                    37.550 votos


15º Atílio Francisco                            Republicanos         35.345 votos


16º João Jorge                                    PSDB                    34.323 votos


17º Faria de Sá                                    PP                         34.213 votos


18º Carlos Bezerra Júnior                   PSDB                    34.144 votos


19º Rubinho Nunes                            Patriota                  33.038 votos


20º Eli Corrêa                                     DEM                     32.482 votos


21º Donato                                         PT                         31.920 votos


22º Rodrigo Goulart                           PSD                      31.472 votos


23º Alessandro Guedes                       PT                         31.124 votos


24º Janaína Lima                                NOVO                  30.930 votos


25º Adilson Amadeu                          DEM                     30.549 votos


26º Tripoli                                          PSDB                    30.495 votos


27º Jair Tatto                                      PT                         29.918 votos


28º Celso Giannazi                             PSOL                    28.535 votos


29º Dra. Sandra Tadeu                        DEM                     28.464 votos


30º Juliana Cardoso                            PT                         28.402 votos


31º Toninho Vespoli                           PSOL                    26.748 votos


32º Marlon do Uber                            Patriota                  25.643 votos


33º George Hato                                 MDB                     25.599 votos


34º Aurélio Nomura                           PSDB                    25.316 votos


35º Senival Moura                              PT                         25.313 votos


36º Alfredinho                                    PT                         25.159 votos


37º Arselino Tatto                               PT                         25.019 votos


38º Fábio Riva                                    PSDB                    24.719 votos


39º Isac Félix                                      PL                         23.929 votos


40º Camilo Cristofaro                         PSB                       23.431 votos


41º Ricardo Teixeira                           DEM                     23.280 votos


42º Edir Sales                                     PSD                      23.106 votos


43º Ely Teruel                                     Podemos               23.084 votos


44º Marcelo Messias                           MDB                     23.006 votos


45º Elaine do Quilombo Periférico     PSOL                    22.742 votos


46º Gilberto Nascimento Júnior          PSC                       22.649 votos


47º Eliseu Gabriel                                   PSB                       21.122 votos


48º Dr. Milton Ferreira                           Podemos               20.126 votos


49º Sandra Santana                                 PSDB                    19.591 votos


50º Danilo do Posto de Saúde                Podemos               19.024 votos


51º Cris Monteiro                                   NOVO                  18.085 votos


52º Sonaira Fernandes                        Republicanos         17.881 votos


53º Paulo Frange                                    PTB                       17.796 votos


54º Missionário José Olímpio             DEM                     17.098 votos


55º Rinaldo Digilio                                 PSL                       13.673 votos