quarta-feira, 20 de março de 2019

Amores de Noel: Lindaura


LINDAURA


Por Almirante

A 1º de dezembro de 1934, Lindaura contraia matrimônio com Noel, que a conhecera nas proximidades da rua Maxwell. Sua mãe, a sergipana Olindina Pereira da Mota, era operária da Fábrica Confiança Industrial.

Jovem demais, na sua inexperiência, não conseguiu dominar o volúvel coração do boêmio. Não possuindo meios suficientes para criar um lar, foi dona Marta quem os fez morar no acanhado chalé. A vida em comum não foi feliz e sim repleta de dificuldades.

No intuito de ajudar o sustento da família, Lindaura, um dia aventou a hipótese de obter um emprego qualquer. A reação de Noel refletiu-se, sem demora, nos versos do único samba ligado à história da esposa, “Você Vai Se Quiser”:

Você vai se quiser...
Você vai se quiser...
Pois a mulher
Não se deve obrigar
A trabalhar,
Mas não vá dizer depois
Que você não tem vestido
E o jantar não dá pra dois

Todo cargo masculino
Seja o grande ou pequenino
Hoje em dia é pra mulher...
E, por causa dos palhaços,
Ela esquece que tem braços:
Nem cozinhar ela quer

Os direitos são iguais...
Mas até nos tribunais
A mulher faz o que quer...
Cada qual que cave o seu
Pois o homem já nasceu
Dando a costela à mulher


Lindaura foi companheira dedicada até os derradeiros dias de Noel. Conhecia ou adivinhava as trapaças amorosas do irrequieto esposo. Recalcava os próprios ressentimentos, numa admirável compreensão, desculpando suas irredutíveis atrações à boêmia.

Relativamente aos namoros de Noel e Lindaura, em novembro de 1933, cronistas publicaram as mais imagináveis origens do debatido samba “Três Apitos”. Complementando vários detalhes sobre a falada música, coloquemos aqui todos os pontos nos ii: 1º) Lindaura jamais foi operária da Confiança; 2º) O contramestre da fábrica de botões, no Andaraí ficou registrado nos versos de Noel (vide cap. Fina e 3 apitos); 3º Tratava-se de simples coincidência de nomes de pessoas e de fábricas.

Publicado originalmente em ALMIRANTE. No tempo de Noel Rosa. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1963.

terça-feira, 19 de março de 2019

Entrevista com o jornalista Oliveira Bastos em 1993

RECUERDOS DE YPARACAI

O desbocado do Planalto


Por Carlos Roque

Nos bastidores de Brasília, o jornalista EVANDRO DE OLIVEIRA BASTOS já representou diversos papéis: ghost-writer de Roberto Campos, desafeto de Delfim Netto e conselheiro de José Sarney. Poucos tiveram fôlego para mergulhar tão fundo no Mar de Lama da Corte e voltar à superfície ainda dispostos a revelar as intimidades da Belacap. Sobre até para o empresário Paulo César Ferreira (remember processo contra Chico Buarque, que o chamou de dedo-duro).

Você assediou sexualmente a colunista social Consuelo Badra na época que editava o “Correio Braziliense”?

EVANDRO DE OLIVEIRA BASTOS: Existe um folclore enorme a meu respeito na cidade que a própria Consuelo ajudou a enriquecer. Ela foi demitida porque houve uma traição. Consuelo foi trazida por mim para trabalhar no “Correio”. Essa contratação desperto o interesse do “Jornal de Brasília”, que tinha nítidos interesses nela. Fui informado que o namoro entre eles já estava numa fase bastante adiantada. Foi por isso que a demiti com uma simples nota de uma linha publicada no próprio “Correio”. Essa nota provocou comentários de todas as ordens aqui em Brasília. Anos depois, numa entrevista concedida à revista “Playboy”, ela, além de me caracterizar como uma figura sinistra na imprensa de Brasília, atribuiu a demissão a um desejo sexual não resolvido de minha parte em relação a ela.

E havia questão sexual?

É claro que não! Mesmo porque, diante dos meus funcionários, sou uma pessoa absolutamente broxa. Questão de princípios.

Então, a afirmação de que as jornalistas de sua época do “Correio Braziliense” não podiam se relaciona sexualmente com ninguém da redação é mera especulação?

A versão que corria nas rodas políticas e sociais era essa. Jamais tive tendência para leão-de-chácara de meus funcionários ou de quem quer que seja. Para mim, a Consuelo podia transar com quem quisesse.

A quantas anda o projeto dos livros que você está escrevendo sobre suas experiências com o poder?

Quando o governo Sarney terminou, resolvi me aposentar do jornalismo e retomar a literatura. Formulei o projeto de dois livros: no primeiro, relato minhas memórias políticas, no segundo, pretendo fazer uma releitura de toda a literatura brasileira com o propósito de voltar à crítica literária da qual, soterrado pelo jornalismo, me afastei durante anos.

E as porradas que você levou em 69, no Le Bistrô, de um assessor do Delfim?

Já sararam. Fui o primeiro jornalista enquadrado na nova Lei de Segurança Nacional por causa desse episódio. Na noite que sofri a agressão, estava de viagem marcada para Belém. Naquela mesma noite, fui convidado para jantar no Le Bistrô com os Alencar: o Marcello (ex-prefeito do Rio) e seus dois irmãos, donos de uma empreiteira. Eles estavam comprando o “Correio da Manhã” e queriam que eu assumisse a direção do jornal. Aceitei o convite sob a condição de ficar no jantar somente até as 22 horas, porque precisava viajar na mesma noite a Belém. Durante o jantar, o Delfim entrou com um grupo de assessores. De repente, um deles, o Paulo César, começou a me agredir. Meus óculos quebraram. Foi um horror. Aproximei-me do Delfim e disse: “O senhor está solidário com seu assessor, mas isso não vai ficar assim”. Antes de ir para o aeroporto, passei na “Tribuna” e escrevi o artigo “O Forte de Delfim”, acompanhado de um bilhete dirigido ao Hélio Fernandes, explicando o que havia ocorrido. Já em Belém, soube do fechamento da “Tribuna”, do confinamento do Hélio em Corumbá, e que a polícia estava atrás de mim. Como não era e não sou leão, resolvi sumir do mapa. Fui enquadrado e perdi todos os meus empregos...

E depois?

Sumi por um ano. Tive que voltar porque, uma vez enquadrado na Lei de Segurança Nacional, na terceira auditoria do Exército, não se podia deixar o processo correr a revelia. Na época, minha mulher procurou inúmeros advogados e todos se recusaram a comprar a briga. Diziam que o Delfim vasculharia o imposto de renda deles e, certamente, acabaria prejudicando-os. O único que aceitou foi o Evaristo de Morais. Ele disse o seguinte: “Você foi agredido. O artigo que você publicou é fruto de uma revolta legítima. Eu preciso que os irmãos Alencar deponham e relatem o que houve no Le Bistrô”. Evidentemente, fui procura-los.

Eles concordaram?

Que nada! O triunvirato pediu que, pelo amor de Deus, eu não citasse os nomes deles! Ou seja: fui a julgamento sem defesa alguma!

Você foi acusado do quê?

Me acusavam de querer destruir a estrutura do poder, desmoralizando as  autoridades – no caso, o Delfim.

E você conseguiu?

Claro! Na ocasião, ele era a estrela do “milagre” brasileiro. O artigo foi publicado no início do mês de agosto. No final daquele mês houve uma reunião do FMI em que ele seria a vedete e relataria o malogrado milagre. Delfim cancelou sua ida nessa reunião porque meu artigo motivou o “Le Monde” a estampar na primeira página a seguinte manchete: “Ministro das Finanças do Brasil é acusado de homossexualismo”. Apesar de tudo fui absolvido.

Qual foi sua reação depois do veredicto?

Foi uma alegria sem precedente. Não esperávamos uma absolvição. Aliás, o Evaristo diz num dos livros dele que, se eu tivesse sido encaminhado para a Justiça comum, teria sido condenado. Fui absolvido porque os militares não gostavam do Delfim. Na saída do Tribunal fui cercado por jornalistas e disse uma frase que me prejudicou por anos...

Qual frase?

Que o julgamento havia provado que aquela bunda não era área de segurança (risadas). Foi aí que o Delfim realmente ficou puto comigo, e eu não arrumava mais emprego em lugar nenhum.

Quem te ajudava nessa época de vacas magras?

O Antônio Gallotti (ex-presidente do grupo canadense Brascam), que era meu admirador e foi muito meu amigo. Na época, o assessor dele era o Rubem Fonseca, outro amigo. Através dele, fui chamado para uma conversa informal com o Gallotti. O fruto dessa conversa foi uma pensão mensal. Com uma condição: eu não deviam dizer a ninguém, e jamais aparecer por lá. Quem recebia era o meu cunhado.

A pensão era boa?

Tão boa que vivi folgadamente durante três anos – de 70 a 73.

E seu agressor, Paulo César Ferreira? Que fim levou?

Ficou rico! Depois da agressão, ele passou a ser o protegido do Delfim e foi nomeado diretor da Globo/Nordeste. Comprou estações de rádio e o escambau. Faz jus ao velho jargão do toma-lá-dá-cá. Só que nesse caso específico ele deu em mim e tomou de lá (risos).

Sua intimidade com Sarney chegava ao nível de conselhos?

Claro! Sugeri que ele fixasse o mandato como presidente, em dois anos – tempo suficiente para que fossem convocadas eleição direta e Constituinte. Sabe o que ele me disse?

O quê?

“Você está certo, nego, mas se eu fizer isso o Leônidas me prende”. Na hora, achei um absurdo. Mas como a situação era delicada, imagine que ele pudesse estar preso a um esquema militar. Errei. Ele foi prisioneiro do PMDB. Por outro lado, Sarney administrou muito bem as relações do governo com as Forças Armadas. Ele pode ter todos os defeitos: é uma pessoa fraca, indecisa, ruminante etc., contudo, ele teve a grande função de tornar pacífica a transição política. Enfrentou um PMDB esfaimado pelo poder e uma Constituinte que fez tábua rasa de todos os noutros poderes. O que houve de provocação não foi brincadeira.

Se ele tivesse ficado dois anos no poder, o Brasil estaria melhor?

Teria sido um processo mais verdadeiro.

Deduz-se, então, que o poder é bom, não?

Quando alguém chega a ocupar o cargo mais importante de um país, não quer mais sair. Ele ficou prisioneiro naquilo que o poder tem de bom.

Numa gaiola dourada.

Numa gaiola dourada. Sabe lá o que é acordar todas as manhãs ouvindo os acordes de uma banda tocando o Hino Nacional, viajar num carro confortável com uma bandeira fazendo lapt, lapt, lapt? É uma coisa inebriante. Você sai do banheiro e tem um merda batendo continência. Quem não quer?

Que história foi aquela do Sarney ter pedido a você uma carta sobre o perigo dos genros?

Numa de nossas conversas, eu narrei a ele uma história que o Tancredo contou pra mim, que falava sobre o “perigo dos genros”. Quando terminou a guerra, o Churchill se retirou para terminar de escrever a história sobre a participação da Inglaterra. Naquela época, Churchill não recebia nenhum jornalista há mais de um ano, mas tinha um grande amigo cujo filho estava começando a carreira jornalística. Por carta, esse amigo pediu que Churchill ajudasse o filho na carreira profissional, concedendo-lhe uma entrevista exclusiva. Em consideração ao amigo, Churchill recebeu o rapaz. A certa altura o rapaz perguntou: “Qual o estadista mundial que o senhor mais admira” Churchill respondeu: “Mussolini”. Imperturbável, Churchill justificou, dizendo que Mussolini foi o único estadista que teve a coragem de mandar matar o próprio genro. O Tancredo me contou essa história porque também tinha problemas com genros...

A internação de Tancredo deixou o Brasil perplexo. O que houve realmente?

Até hoje se discute se houve erro médico ou não. Mas se ele não tive sido operado e tomado posse, morreria naquele mesmo dia. Foi uma coisa tão inesperadamente surpreendente que a própria família dele não estava preparada para a hipótese de internação. Como se sabe, Tancredo foi levado ao hospital pelo médico e pelo sobrinho, o Francisco Dornelles, e não pela mulher e as filhas. Sabe por quê?

Por quê?

Porque nenhuma delas tinha um vestido que fosse sequer adequado para que pudessem entrar num hospital! Elas só tinham longos! Foi o José Hugo Castelo Branco que pediu a sua mulher que arrumasse roupas comuns para que as três pudessem entrar no Hospital de Base. Aquilo levou mais de duas horas! É óbvio que influiu na decisão da operação...

Vamos falar um pouco sobre um assunto muito em moda: romances palacianos.

Isso é ótimo! Tem histórias incríveis. O Simonsen, por exemplo, teve uma paixão fulminante por uma moça que havia sido secretária do Reis Veloso. Belíssima! Aliás, Simonsen sempre foi um sujeito muito passional. Se encontravam no Leme, num apartamento de frente pro mar, e ele prometeu a ela que ia se separar da mulher. Na semana em que ele deveria fazer essa operação de transferência, ele enviou uma carta pra moça, dizendo que se tratava de um amor impossível. Pegou a mulher, os filhos, entrou num avião e foi para Paris. Um drama! A moça cortou os pulsos e acabou parando num pronto-socorro. Eu costumo dizer que o Simonsen é o único sujeito que eu conheço que fugiu com a própria mulher (gargalhadas).

Publicado originalmente na revista “Sexy” em novembro de 1993

quarta-feira, 13 de março de 2019

Amores de Noel: Ceci


CECI



Por Almirante

Em junho de 1934, o Cabaré Apolo, na Lapa, se engalanava para receber e homenagear Noel Rosa, devido aos marcantes sucessos de suas produções musicais. Era véspera de São João e a presença do compositor consistia uma das atrações que a casa prometia para aquela noite.

À sua chegada, Noel foi alvo de ruidosa manifestação. Sua atenção desviou-se, contudo, para certa figura “mignon”, cabelos castanhos, cujos modos recatados constratavam naquele ambiente festivo.

A jovem nascera em Campos, à 16 de maio de 1918 e chamava-se Juraci Correia de Morais, mas todos a conheciam simplesmente como Ceci.

Formosa e acessível, era uma das dançarinas mais requestadas do Apolo. Noel também se deixou impressionar, e dela não mais se afastou desde aquele instante. Acompanhou-a, à saída, e no carro de Papagaio conduziu-a à rua Barão de São Félix, para a casa em que residia com uma tia.

Como a apaixonada se conservasse em sua profissão, a fim de não sofrer as agonias de vê-la cumprir sua obrigação, abraçada a uns e outros, volteando a noite inteira, ouvindo galanteios e inconveniências, Noel se demorava pelos cafés, pelas esquinas da Lapa, até a hora em que o cabaré cerrava suas portas.

Não tardou, porém, que o ciúme lhe ferisse o coração, sempre incrédulo com as explicações de Ceci sobre suas naturais ausências. Daí nasceu o belo samba “Pra Que Mentir?”, de parceria com Vadico:

Pra que mentir?
Se tu ainda não tens esse dom
De saber iludir?
Pra que? Pra que mentir?
Se não há necessidade de me trair?
Pra que mentir?
Se tu ainda não tens
A malícia de toda mulher?
Pra que mentir?
Se eu sei que gostas de outro,
Que te quis
Que não te quer.

Pra que mentir tanto assim
Se tu sabes que eu já sei
Que tu não gostas de mim?
Tu sabes que eu te quero,
Apesar de ser traído
Pelo teu ódio sincero,
Ou por teu amor fungido?


Diariamente Noel discutia com sua amada, mas, por fim, as pazes voltavam. E seus debates resultaram numa nova produção, o samba “O Maior Castigo Que Eu Te Dou”:

O maior castigo que eu te dou
É não te bater
Pois sei que gostas de apanhar
Não há ninguém mais calmo do que eu sou
Nem há maior prazer
De que te ver me provocar

Não dar importância
Á sua implicância
Muito pouco me custou
Eu vou cantar em versos
Os teus instintos perversos
É esse mais um castigo que eu te dou

A porta sem tranca
Te dar carta branca
Para ir onde eu não vou
Eu juro que desejo
Fugir de teu falso beijo
É esse o maior castigo que eu te dou.

Naquele ano, Noel esforçou-se o máximo, com o objetivo de aumentar suas rendas, quer sobre direitos autorais, quer de espetáculos em cinemas ou circos, podendo, assim, manter as despesas normais no seu chalé. Entretanto, o pequeno colégio de dona Marta esfacelava-se aos poucos e seu pai, na iminência de ser recolhido a uma clínica. Para o cúmulo, o dr. Edgar Graça Melo, velho amigo da família, impôs que Noel mudasse de clima, pois seu pulmão poderia ser fulminado. (vide cap. Belo Horizonte).

Num certo dia de março de 1935, Ceci recebeu a triste notícia de que Noel estava às ultimas, à morte, em Minas. Desesperada, rumou para a rua Teodoro da Silva, à noite, sendo atendida pela dona Marta, que lhe deu consoladoras notícias:

- Graças a Deus, Noel está muito bem. Está gordo, rosado, e até sábado chegará ao Rio. Com certeza, vai voltar a cantar no Rádio, no domingo.

Realmente Noel regressou de Belo Horizonte, acompanhado de sua esposa. Dona Marta informou:

- Anteontem esteve aqui uma senhora que eu não conheço, procurando por você.

- Como era ela?- indagou Noel.

- Era bonita, bem vestida, elegante, de chapéu. Com certeza era uma sua fã. Mostrou-se muita satisfeita quando disse que você está completamente bom.

Noel percebeu tudo. Era Ceci. E sem demora escreveu alguns versos, orientando as regras da melodia, a fim de que no dia seguinte o pianista Vadico completasse suas frases. E no “Programa Suburbano”, da Rádio Guanabara, a certa altura, o locutor Allah Xavier de Souza anunciou, retumbante como sempre:

- Noel Rosa acaba de regressar de Belo Horizonte, e criou uma nova série de sambas, de abafar! Em primeiro lugar, apresentará um samba seu, fresquinho, tirado a poucas horas do forno. Chama-se “Ilustre Visita”, versos seus com melodia completada por Vadico.

Seu título definitivo foi mudado, posteriormente, para “Só Pode Ser Você”. Seus versos significativos são como que um relatório completo da presença de Ceci em visita ao seu chalé. É que a própria dona Marta, admirada da elegância de dama, trajada a cetim, de chapéu e com maneiras distintas, indicou-a como uma “ilustre visita”:

Compreendi seu gesto
Você entrou
Naquele meu chalé modesto
Porque pretendia
Somente saber
Qual era o dia
Em que eu deixaria de viver;
Mas eu estava fora,
Você mandou lembranças,
E foi logo embora
Sem dizer qual
O primeiro nome
De tal visita
Mais cruel,
Mais bonita
Que sincera.

E pelas informações que recebi
Já vi
Que essa ilustre visita era você
Não existe nesta vida
Pessoa mais fingida
Do que você


Meses depois, em maio, Noel sofreu enorme choque emocional com a morte de seu pai, em circunstâncias trágicas, razão porque jamais revelou esse fato a ninguém, nem mesmo a seus companheiros mais íntimos. Sua vida descontrolou-se totalmente, tendo somente como único consolo a bebida, e entregando-se por inteiro, de novo, a seu grande amor – Ceci.

Sua inspiração cessou, e durante algum tempo não mais criou quaisquer versos ou melodias. As rendas de seus programas radiofônicos e as minguadas vendas de seus discos tornaram-se ridículas, e em certo dia, Ceci pediu-lhe o necessário para a confecção de um vestido especial, “soirée” indispensável para seu trabalho nos cabarés. O “exagero” do pedido acordou suas sátiras humorísticas surgindo assim o samba “Cem Mil Réis” ou “Voê me Pediu”, de parceria com Vadico.

Nos inícios de 1936, convidado para produzir o filme “Cidade Mulher”, de Carmen Santos, Noel lançou ali seis músicas inéditas (vide cap. “Cinema”). Permanecia toda a noite nas filmagens realizadas no Cassino Beira-Mar. De madrugada, terminadas as funções nos cabarés, aguardava Ceci conduzindo-a para assistir às várias tomadas do filme.

Antigamente, nas aproximações do Carnaval, as cantigas eram lançadas com a maior antecedência. Canções gravadas e editadas já eram apresentadas em setembro, outubro, novembro, para que o público melhor fixasse suas melodias e seus versos para o ano seguinte. Assim, nos fins de outubro, o próprio Noel apresentava dois sambas referentes aos amores de Ceci; o primeiro, de parceria com Vadico: “Quantos Beijos”:

Quantos beijos...
Quando eu saia
Meu Deus, quanta hipocrisia
Meu amor fiel você traia
Só eu é que não sabia
Ai, ai, meu Deus, mas...

Não andava com dinheiro todo dia
Para sempre dar o que você queria
Mas quando eu satisfazia os meus desejos
Quantas juras...Quantos beijos.

Não esqueço aquelas frases sem sentido
Que você dizia sempre ao meu ouvido
Você porém mentia em todos os ensejos
Quantas juras...Quantos beijos


O segundo só Noel, com versos sarcásticos, tentando dar provas falsas e tolas de um amor esquecido ou abandonado: “Quem Ri Melhor...”:

Pobre de quem
Já sofreu neste mundo
A dor de um amor profundo...
Eu vivo bem sem amor à ninguém...
Ser infeliz é sofrer por alguém...
Zombo de quem sofre assim:
Quem me fez chorar, hoje chora por mim
Quem ri melhor é quem ri no fim

Felicidade...
É o vil metal quem dá...
Honestidade
Ninguém sabe onde está
Acaba mal quem é ruim...
Pois quem me fez chorar
Hoje chora por mim:
Quem ri melhor é quem ri no fim

Sabendo disso
Eu não quero rir primeiro
Pois o feitiço
Vira contra o feiticeiro...
Eu vivo bem pensando assim...
Pois quem me fez chorar, hoje
Chora por mim:
Quem ri melhor é quem ri no fim


A 11 de dezembro de 1936, aniversário de Noel, Ceci recebeu convite para uma ceia na Taberna da Glória, ela que então trabalhava na Caverna, dancing existente no sótão do Cassino Beira-Mar...E Noel completamente febril, tentava dizer ironias e contar piadas, tomando cervejas geladas...

Seu estado se agravava, mas aparentemente se demonstrava despreocupado com a própria vida. Seu riso, porém, era cada vez mais triste. Um abcesso, rasgado pelo dentista Bruno de Moraes, insistiu para que novamente mudasse de ares. Por fim, seguiu, em fevereiro pra Friburgo.

Regressando ao Rio, visitou Ceci e, tristemente, lhe deu os versos de um de seus recentes sambas, inteiramente dedicado a ela, chamado “Último Desejo”:

Nosso amor que eu não esqueço,
E que teve seu começo,
Numa festa de São João,
Morre hoje sem foguete
Sem retrato...Sem bilhete...
Sem luar...Sem violão...
Perto de você me calo
Tudo penso...Nada falo...
Tenho medo de chorar
Nunca mais quero o seu beijo
Mas meu último desejo
Você não pode negar.

Se alguma pessoa amiga
Pedir que você lhe diga
Se você me quer ou não,
Diga que você me adora...
Que você lamenta e chora
A nossa separação.
Ás pessoas que eu detesto
Diga sempre que eu não presto
Que o meu lar é um botequim...
Que eu atrasei sua vida,
Que eu não mereço a comida
Que você pagou pra mim.


Certa madrugada, Ceci encontrou-se com Hélio, irmão de Noel, em companhia de um seu primo-irmão, sendo convidada a ceiar. Palestrando a respeito da situação do doente, a certa altura, inopinadamente, o primo-irmão fez-lhe uma desfeita, atirando-lhe ao rosto um copo cheio de cerveja, taxando-a de culpada da moléstia do compositor. Dias depois Noel procurou-a, pedindo-lhe desculpas pelo ato impensado de seu primo. Foi a última vez que viu Noel Rosa.


Publicado originalmente em ALMIRANTE. No tempo de Noel Rosa. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1963.

quinta-feira, 7 de março de 2019

Entrevista de Alexandre Garcia em outubro de 1980

ALEXANDRE GARCIA


O Porta-Voz da Abertura



Por Marlene Anna Galeazzi

Fotos de Frederico Mendes





Comparado algumas vezes com o norte-americano Jody Powel – o porta-voz da Casa Branca -, Alexandre Garcia esquiva-se dizendo que de concreto ele também se formou em contabilidade. A verdade é que, sempre cm esse bom humor, Alexandre – desde quando nasceu em Cachoeira do Sul até chegar ao Palácio de Planalto, onde se tornou um dos homens do presidente – fez muitas coisas na vida, inclusive vender pastel na rua e ser sequestrado pelos Motoneros na Argentina.



O mundo desse gaúcho de 1,82 m e 75 quilos tem hoje dois hemisférios: o do Palácio e o deu sua casa – alugada de um amigo que está na Europa por Cr$ 16.400 -, à beira do lago, em Brasília, onde ele mora sozinho e recebeu a repórter Marlene Anna Galeazzi, de ELE ELA. Foi ali que Alexandre apresentou o mobiliário da casa como integrante e símbolo de seu universo: na parede, uma tapeçaria asteca; na biblioteca, livros e discos se misturando (algumas capas de discos autografados por artistas “suas amigas”), livros de estratégia assinados pelo General Golbery; na parede, uma espada “ganha num certo torneio em Toledo, Espanha, da mais bela morena da Ilha do Governador já produziu”; um pôster da Plaza de Toros de Madri, com o nome de Don Alejandro García ao lado de El Cordobés. O quarto é cheio de reproduções impressionistas, trazidas do Jeu de Paume; uma luminária (um lampião), um sininho japonês vindo de Quioto; no espelho do toucador, um letreiro: Sem Censura. O banheiro ao lado é coberto por um tapete vermelho e peludo; a imensa banheira de mármore foi feita para caber dois, certamente.



Muita coisa se pode dizer de Alexandre Garcia, inclusive que ele casou três vezes, tem uma linda filha de 17 anos, escreveu um livro, plantou várias árvores e criou a fama que hoje já se estende pelos quatro cantos do país: a de bom-de-cama, que ele, discreta ou modestamente, nega no que – segundo a repórter – é desmentida pelas evidências. Eis, portanto, o diálogo que se travou entre dois colegas de jornalismo.



EE- Como foi uma grande marcha de Cachoeira ao Planalto?



AG- Você quer desde o princípio? Vai ser uma chatice. Vou resumir com alguns retalhos de lembrança. Tudo começou às 11 horas da noite de 11 de novembro, 11 meses depois de meus pais terem casado. Mas, vamos lá: era o único a tomar mamadeira no jardim de infância. O resto das crianças já tomava leite em copinho, mas só eu sabia o que é bom. Meu pai tinha um restaurante, Ao Papito, mas faliu depois de dar comida, durante 30 dias, a bancários em greve. Foi pioneiro do rádio em Cachoeira, e depois instalou a Rádio Alto Taquari, em Estrela. Não foi muito fácil para um locutor faz-tudo sustentar a família. Eu ganhava Cr$ 3,50 todos os domingos – isso no fim da década de 40 -, para a matinê no Cine Guarani e o chiclete. Era muito gozado pelos amigos, porque minha mãe me botava a enxugar a louça e varrer a calçada.



Um dia, resolvi ganhar o meu dinheiro, e passei a vender pastéis e sonhos da Padaria Diel, sob comissão. Veja que bonito: vendedor de sonhos! As vizinhas cochichavam, escandalizadas, quando me viam na rua, chinelinho e o cesto de sonhos. Em 30 dias, consegui comprar os brinquedos que sonhava, e estavam tão distantes na vitrina do Bazar Preussler. Fiz ponta em novela da Rádio de Estrela, e trabalhei como locutor da Rádio Independente, em Lajeado, onde meu pai também trabalhou. Fui cabo no sétimo Regimento de Infantaria, em Santa Maria – primeiro lugar no curso, ué! Fiz o curso de contabilidade. Desculpe, primeiro lugar nos três anos do curso, com média 10 em Matemática e Português. Trabalhei como contador do Cine Coliseu, em Cachoeira, onde meu avô em encaminhou na sua profissão: fui escriturário do Banco da Província e depois entrei no Banco do Brasil – primeiro lugar no concurso, sorry! Fui para Porto Alegre, fazer faculdade à noite. Fui presidente da aula e, em 1969, do Centro Acadêmico.



E o que conseguiu fazer como líder estudantil?



Consegui reduzir as anuidades sem greve. Ora, se já estávamos pagando demais, ainda dar esta colher, e livrá-los de nos dar aula, por quê? Quanto à classificação do vestibular, desculpe de novo e, durante os quatro anos da faculdade, primeiro lugar. Eu estudava mesmo! Naquela época, trabalhava de manhã no Banco do Brasil, à tarde estagiava no Jornal do Brasil e, à noite, faculdade. Resultado acabei com tuberculose.



Posso escrever isso? Está gravando...



Por que não? Ou só stress curável na Suíça é chique publicar? Ou prefere o eufemismo idiota fraco dos pulmões? Há, há, há ! É preciso encarar as coisas como elas são. Imagine o desespero de você tentar se convencer de que não vai morrer em um dia. Põe aí: tuberculose, mesmo. E, hoje, vê se aguenta os meus pulmões, em 200 metros, nado livre! Pois bem, mas não parei. Uma injeção todos os dias, um ano de tratamento, e o mesmo ritmo de estudo e trabalho. Ferro e ferro! Este corpo estava precisando de um tempero, mesmo. No primeiro dia de JB, um depósito de explosivos foi aos ares, com umas 10 pessoas despedaçadas. Meu primeiro trabalho foi contar os pedaços de pés, fígados, miolos. Uma semana depois, fotografei a queda de um avião. Fui o primeiro a chegar ao local e assisti à morte chegado e levando o piloto. Depois, entrei na boleia de um carga-pesada, e acompanhei a soja gaúcha sendo escoada por 600 quilômetros de estradas, até o porto. Deu um prêmio de reportagem. Aí, como não havia ninguém por perto, o JB teve de me mandar a Montevidéu, em 17 de junho de 1973, quando Bordaberry mandou os tanques cercarem o Congresso. Eu mal tinha dois anos de jornal. E lá fui eu, sem um palmo de perspectiva diante do nariz. No dia seguinte consegui entrevistar o presidente – e foi exclusiva. Deu primeira página no JB de domingo, e garanti minha volta ao Prata.



Quando Perón morreu me mandaram ajudar o Jayme Dantas, veterano e mestre em jornalismo. Como todo grande homem, Jayme deu uma chance ao jovem que começava: inventou que tinha de fazer uma matéria sobre safras argentinas e me deixou a sós com o cadáver de Perón. E lá fui eu, contando para o Brasil que o General Anaya garantiria a posse de Isabelita, e que as ruas de Buenos Aires choravam a morte do caudilho. A partir de então, passei a ser enviado frequentemente à Argentina e ao Uruguai. No Uruguai havia um velho general que me passava as notícias das reuniões secretas, em coquetéis do Clube Militar. Falava muito rápido o espanhol, sua dicção era má e o barulho atrapalhava. Lembro-me de quantas vezes saía correndo do Clube Militar para o telex, com o cuidado de quem carrega um tesouro.



E nunca lhe aconteceu nada de grave?



Na Argentina, em 1975, um grupo Motonero me pegou por uma semana. Foi a primeira vez que fiz uma notícia no primeira pessoa. Não imagina o quanto é desconfortável sentir uma sola na nuca, com o nariz colado ao chão, sabendo que o sujeito está com uma metralhadora destravada. Um dia, contei que a polícia rodoviária vinha fazendo com turistas brasileiros, e fui brindado com a manchete do Última Hora: “Macaco Mentiroso”. Por causa disso, mais tarde, tive que sair do país. Um dia, o jornal me mandou entrevistar Isabelita. Ela descansava em Ascochinga, nas montanhas de Córdoba. Consegui chegar lá driblando as barreiras com um motorista que conhecia a região. Estranhei ao ser tão bem recebido pelo comandante da guarda: “Ah, usted es el novio”. “Novoio de quien?” – perguntei. “De la Señora” – esclareceu o oficial. Pensei, pesei os riscos, e resolvi deixar claro: “No, yo soy periodista, brasileño”. Ele levou um susto, ficou vermelho e tentou corrigir-me: “Há, es broma” – mas me fez sair imediatamente. Vi ataques maciços da guerrilha em Córdoba: a revolta das Forças Aérea em Buenos Aires; conversei com matadores de ambos os lados; estive nos esconderijos das extremas esquerda e direita, e sei bem o que é isso. Acho que Saigon era sopa.





Daria para ficar neurótico, pelo menos...



Por causa disso, quando vim para Brasília, derrubei uma mesa do Restaurante Tabu, no Hotel Nacional. Fui abordado por um jovem cabeludo, de tênis, calça Lee, e com uma sacola de lona. Isso, no Uruguai e Argentina, era uniforme de guerrilheiro. Quando ele enfiou a mão na sacola, saltei, virando a mesa. Queria me vender uma garrafa de mel. É que cansei de ver atentados a granadas em Buenos Aires. Como as pessoas ficam espedaçadas! Depois, o JB me trouxe a Brasília. Cobri a Presidência da República, viajando com Geisel para o Japão, México e Europa. Depois, passei a cobrir o candidato à presidência. Agora estou aqui, fazendo do que gosto e procurando aprender.



Seu livro João Presidente abriu-lhe as portas do Planalto?



Não tem nada a ver. Fui convidado porque o presidente conhecia meu trabalho, isento, de cobertura de sua campanha, para o JB. Além disso, ele só leu o livro há pouco tempo, quando voava do Rio para Brasília, depois de assistir a um congresso do Pen Club.



Bonita sua casa aqui na beira do lago. Muito verde, passara. Você não tem medo de morar sozinho, não tem medo da solidão?



Eu gosto de viver um pouco voltado para dentro de mim. Isso até ajuda a me dar bem com o medo. Medo de intrusos, não tenho. Conheço cada centímetro quadrado desta casa, deste terreno, e atiro muito bem. O intruso estaria em desvantagem gritante. Morar sozinho faz bem para quem passa o dia tratando com centenas de pessoas e igual número de assuntos que, muitas vezes, dizem respeito a 120 milhões de pessoas. Não há solidão. Vivem comigo – mas não me pertencem – uma coruja, um pica-pau, vários beija-flores, uma cobra verde, uma lebre, todos selvagens e no mais amistoso convívio. É o meu castelo inexpugnável dos fins de semana. Calção, pés descalços, cuido do jardim, cozinho, leio, corro com Sherlock (pastor alemão)...Epicuro era um cara legal.



E nesse epicurismo está incluído o sexo? Não adianta negar, você tem fama de conquistar as mais lindas mulheres.



É só fama, mesmo. Não é nada disso. Para mim, sexo é algo tão natural como comer ou dormir. Lógico que nem sempre foi assim. Aprendi alguma coisa nesses últimos 40 anos. Já vivo o sexo pecado, o sexo mistério, o sexo tabu. Finalmente, cheguei ao sexo natural. E eu nego essa história de ter mil mulheres. Não faço esse tipo de contabilidade.



Claro, ás vezes você prefere um Echart Privado, e não apenas um branco de San Juan; ou um Beaujolais Nouveau, em lugar de um Reno. Você notou como é útil a invenção da parábola?



E este seu quarto, janela para a piscina, muito Renoir na parede, som e tudo o mais. O que um homem e uma mulher podem fazer aqui, quando a porta se fecha?



Em primeiro lugar, não há necessidade de fechar a porta. É bom que fique aberta. Quem quiser sair, tem liberdade de fazê-lo. Essa liberdade é essencial. Quanto ao que se faz: faz-se jazz. Há um tema conhecido, e sobre ele se dançam variações. É preciso talento, criatividade, inspiração e, é claro, técnica, pois é preciso tocar o instrumento.



Estou entendendo e começando a justificar a fama. Agora pergunto: não é uma visão unilateral do sexo, um pouco de machismo que o Alexandre gaúcho traz no sangue?



Epa! Nada de machismo. Nossas jam-sessions são sempre duetos – harmônicos em todos os movimentos, do adágio ao prestíssimo. É o piano e o violino enlaçando sons e cordas até o gran finale. Quanto ao machismo...O Machista, coitado, é um profundo frustrado. Seu machismo restringe sua própria vida sexual, já que não deixa a mulher participar. Ela castra a criatividade – leia-se liberdade – da companheira. O machista é um tirano, e está perdendo muito. Faz melhor se masturbando e, provavelmente, é um ejaculador precoce. Só consegue um solo monotônico, não é, Verlaine? Há os que só querem fazer risquinhos na coronha do revólver, para contar aos amigos, como prova do feito.



Quer dizer que o machista não está com nada?



Machismo é atraso cultural, e não é exclusividade latino-americana. É um vício cultural ultrapassado, sem apoio sequer biológico. Vai desaparecer, sem dúvida, pois só o sustenta a tradição histórica. Mas não nos esqueçamos que o machismo não castra as mulheres apenas na cama, mas também nas folhas de pagamento.



Você é um homem sensível e de bom gosto. Nota-se isso pela decoração da casa. As coisas dizem algo. Mas os objetos também incluem as mulheres bonitas? Só elas podem dizer algo a você? E os troféus de Tóquio, Paris, Hollywood?


Vinícius que me perdoa, apenas, não é fundamental. Outro dia, conheci Sônia Braga, com quem falei rapidamente. Sabe o que mais me impressionou nela? A inteligência, a simpatia, a gente que está dentro dela. Beleza conta na primeira impressão, mas o que vem depois é o que sustenta a primeira impressão. A mulher bela tem, por isso, uma grande responsabilidade, porque se espera que a beleza física seja coerente com sua personalidade, sua classe. A feia pode surpreender e a bonita pode frustrar. Por isso, não confio nesse tipo de avaliação a priori. Quanto aos troféus do mundo, guardei as lembranças num cofre e perdi a chave.



Parece que existe um amor. Por que, então, viver sozinho?



Fui casado três vezes. O que atrapalha o relacionamento é o diabo do sentimento de posse que acaba surgindo entre as pessoas. Os que se amam podem viver separados, estando juntos quando quiserem. Não há intromissão na individualidade. Não há intromissão na individualidade. No mundo de hoje, individualidade é um bem precioso.



Depois do sexo, pode ficar a amizade?



Admiro Jeanne Moreau. É dela a frase “um ami, um amant”. O sexo talvez seja uma emoção avassaladora, mas sozinho não aguenta. Na realidade, o que une é a amizade. O sexo é a oportunidade de pessoas amigas se tornarem mais íntimas e, portanto, mais amigas.

            

Como aconteceu e quem foi a primeira mulher?


Essa eu conto. Mas só essa. Eu tinha 14 anos em foi em Estrela. Tuti era empregada de um professor do Colégio Evangélico. Bota austero professor – fica mais emocionante. Foi no quarto da Tuti, no porão, sob o dormitório do austero. Ela tinha 27 anos, loira, olhos azuis. Eram umas oito da noite e eu voltava do açougue do Anselmo Horn, como sempre, trazendo, um quilo de carne num prato metálico. Deixei a carne ainda morna – escreve aí – ao pé da cama da Tuti. O quilo da carne custava Cr$ 6 em 1955. Os 55 quilos da Tuti foram de graça. Sabe que levei um susto? Pensei que ela tivesse morrido.



Garoto precoce, quase matou a moça! E a carne foi de graça?



Pagar por carne que não seja a do açougue é o pior absurdo do mundo. É humilhante. Eu não compro bem vendo o que não é mercadoria.



Você acha que, num relacionamento sexual, imaginação e criatividade são importantes?



Meu Deus, claro que sim! Como você vai tocar jazz sem ter cabeça, sentimento, técnica, inspiração, maturidade? Há os bemóis e sustenidos; você precisa conhecer todas as notas e meios-tons. Reconheço que para os casados é mais difícil, pois só podem aprender entre si. Precisam ter mais imaginação e criatividade, para não caírem numa rotina tediosa. É evidente que a cada nova pessoa que você conhece, você vai aprendendo. Você vai adquirindo experiência. Infelizmente, para o mundo, há pessoas que morrem sem ter desbravado uma parte de sua natureza, que é o sexo. Vivem uma vida vegetal, investindo contra o mundo, sem saberem por quê. Falta uma compreensão racional e sadia sobre o sexo, um campo ainda cheio de tabus e preconceitos e, o que é pior explorado comercialmente, justo por causa disso. Veja essa coluna de vocês: Fórum. As pessoas ficam aí, exibindo suas experiências, realizando-se na imaginação fetichista. São pessoas insatisfeitas – porque todo exibicionista é um insatisfeito. A maioria só toca bem solo. “O homem que diz sou não, é porque quem é mesmo não diz” – canta a sabedoria de Vinícius.



Aqui de sua casa tem-se uma bela vista de Brasília e do lago. Todo mundo diz que você curte Brasília, e a considera uma das melhores cidades do mundo. É verdade?



Sei que vão rir os que não conhecem Brasília, mas, em termos de costumes, acho que ela se assemelha a Paris. A capital francesa formou sua personalidade com a soma de gentes de todo o mundo, que para lá foram buscar a vida. Brasília recebe brasileiros de toso os estados; é o cadinho de todas as culturas, todos os folclores, todos os sotaques do Brasil. As pessoas que se mudam para Brasília cortam os laços com seu passado, o que equivale a romper as tradições, os preconceitos. Liberta-se da proximidade física dos pais, das tias, das avós, os primos, dos irmãos; libertam-se dos cochichos da comadre da esquina, do presidente do clube, do síndico que tudo sabe. A pessoa chega aqui só com suas próprias experiências pessoais: só com sai vivência, já liberta do meio do que fora produto até então. Aí passa a viver Brasília, “Começar de Novo” -Gonzaguinha. Brasília é o renascimento cultural, existencial.



Apesar de você ter telefone, com extensão, em sua casa, estou vendo que o aparelho o irrita um bocado. É verdade?



O telefone é a única coisa que me deixa irritado, hoje. É uma invenção diabólica, em certas ocasiões. O telefone ideal deveria ser aquele em que a gente pudesse chamar, mas não pudesse atender. O telefone nos converte em seres passivos, pois provoca a compulsão de atender, fazer calar a campainha. Eu tinha um telefone eletrônico, pequeninho, com uma chamada suave. Logo a suavidade do zumbido passou a se confundir com o ruído da água saindo do chuveiro. Então acabou o relax do banheiro morno, sempre com a impressão de que o telefone estava chamando, como, aliás, costuma fazer quando estou no banho, depois de 12 horas de trabalho. Felizmente, ele estragou, e agora é mesmo o de campainha que me tira o banho. No Palácio, chama 200 vezes por dia. Em casa, é pior. Chego por volta de oito e meia da noite, e ás vezes só consigo entrar no chuveiro duas horas depois, e acabo jantando só ás 23 horas, por causa do maldito telefone. Ele só chama quando estou no banheiro ou preparando minha comida. Aí saio a pingar a casa, ou a sopa derrama e o ovo fica duro. Mas o pior mesmo é quando estou amando. É o fim. Dá vontade de esmigalha-lo a machadadas. Um dia, ele chamou e o tirei do gancho. Era um repórter da Folha de São Paulo. E continuamos o que começáramos. Ele ficou escutando tudo. Outro dia, era uma velha amiga, bêbada, ligando de Cabo Frio às cinco da manhã! No último domingo, almoçávamos – eu e Mlle C, como diria Apicius – uma carne de forno e arroz, ambos de minha lavra, com um Borgonha chileno, e o telefone insistiu tanto que acabei atendendo. Era uma amiga de Florianópolis. Expliquei á ela que me interrompera o almoço. Ela primeiro estranhou almoço às 16 horas; depois, perguntou com quem eu almoçava. Tive de desligar na cara dela. Vulgaridade é fogo!



Mas atendo, e fico até o fim dos tempos ao telefone, quando é um amigo ou uma amiga de São Paulo, do Rio, uma de Los Angeles – use uma narrower bed, my dear, para não ter saudades -, que estão precisando, em emergência, de uma voz amiga. Quantas vezes fui dormir feliz, de alma lavada e santificada, depois de fazer mil ligações, no DDD ou DDI, em plena madrugada, para deixar alguém tranquilo com o dia de amanhã.



Nesses dias não me importa com a altura de minha conta na Telebrasília. O que conta é a altura de amizade.



Vamos mudar de assunto. O que você pensa de Gabeira, também jornalista?



Gabeira é o mais brilhante texto do jornalismo brasileiro contemporâneo. Mas se ele tivesse um telefone em Ouro Preto, não terminaria o livro Entradas e Bandeiras. Ele tem razão quando diz que as mulheres sabem mais sobre sexo do que os homens.



E o trabalho?



Trabalho como um louco durante a semana. Entro às oito e sai lá pelas oito e meia da noite, pois almoço no Palácio mesmo. Se almoçasse fora, adeus tempo para ler os jornais. Percorro quilômetros de corredores no Palácio, gravata e sapatos apertados. E lá dentro é abafado. Através das vidraças, vejo, com inveja, a brisa lá fora, balançando a bandeira. O ar condicionado só faz gelar os pés. Não dá tempo nem para urinar. Cheguei a ficar com um traumatismo na bexiga, por isso. São 80 jornalistas para atender; todos os jornais para ler; as audiências do presidente para acompanhar; as conversas para se manter atualizado, ml coisas. Moleza era quando eu trabalhava no BB ou no JB, e achava que era duro. Mas gosto disso. Trabalharia de graça, se preciso. Como diz a canção, é “algo que o dinheiro não pode pagar”.



Você é candidato a deputado pelo Rio Grande?



Ainda não, prenda minha, mas talvez eu me decida.



Vamos falar um pouco de Figueiredo, o homem de quem você tem sido um eficiente porta-voz. Como é o homem Figueiredo e como é o presidente?



O Figueiredo-homem é um pouco de meu pai. Já me surpreendi muitas vezes com isso, mas o diabo é que ele é mesmo parecido com meu pai. Tanto no temperamento, como no rosto, nos gestos, na emoção, no coração, no sentimento, na bondade, no altruísmo. Figueiredo é uma pessoa profundamente humana, com um senso de percepção muito grande. Ele é capaz de saber perfeitamente quando uma pessoa pede uma audiência simplesmente para ser fotografado ao lado dele, ou quando a pediu para trabalhar. Testemunhei mil coisas que comprovam o humanitarismo dele. Já no primeiro dia de governo, quando saía do Congresso que lhe deu posse, um garoto correu em sua direção com um mastro sem bandeira na mão. A segurança do Congresso o interceptou, jogando-o ao solo. Figueiredo mandou parar o carro e observou a cena. O rapaz se levantou, furioso e, quando limpava a roupa, viu o presidente com o polegar levantado: “Tudo bem?”. O garoto, surpreso com a solidariedade do presidente, respondeu que sim, com um largo e recompensado sorriso. Quantas vezes, em viagens, ele dá todo o dinheiro do bolso a alguém que se queixa de dificuldades financeiras? E como se toca ao ver uma criança sorrindo, uma velhinha simpática ou um jovem entusiasmado! Não termina viagem sem antes agradecer a todos os que trabalharam para ele. Quando está alegre, está mesmo. Triste, deixa transparecer pelos poros. Quando jogaram a bomba na OAB, não dormiu não montou, e passou a manhã do dia seguinte na maior depressão. Desabafou em Uberlândia, pedindo que desviassem as bombas para ele, e não nos inocentes. Hipocrisia e falsidade ele detesta, mas democracia é com ele mesmo. Brincalhão, tem a naturalidade de deixar sair um palavrão naquele momento exato. Espontâneo, simples, tem horror à mentira e ao puxa-saquismo. Aliás, puxa-saco ele saca no primeiro empuxe. Amigo de todos os que trabalham a sua volta. Amigo de verdade. Está sempre batizando filhos de funcionários, indo a aniversários de empregados do Torto, mas não deixa de divulgar isso, com receio de que pensem ser demagogia. Mas ele sempre fez isso. Nos tempos de general, dava carona a soldados; como presidente, não perdeu esse hábito. É o tipo do homem que qualquer pessoa desejaria como amigo. E se quiser saber mais, leia João Presidente.



Publicado originalmente na revista “Ele Ela” em outubro de 1980