quinta-feira, 27 de agosto de 2020

Entrevista que fiz com José Lopes, o Índio, em 2009


Conheço José Lopes, o Índio, há algum tempo. Sempre o encontro na galeria Boulevard, na rua Dom José de Barros, no centro de São Paulo. Nesse local, vários veteranos da Boca se reúnem para bater papo e beber cerveja. Índio é um dos mais falantes, sempre contando grandes histórias sobre seus trabalhos no cinema. Creio que faltava na Zingu! um dossiê a altura deste importante personagem.

 

Aos 68 anos, ele é uma das pessoas mais queridas do cinema paulista. O ator participou de inúmeras produções cinematográficas, nas mais diversas funções. Além de atuar, foi assistente de direção, diretor de produção e até diretor de efeitos especiais. Segundo ele, os efeitos de O Beijo da Mulher Aranha são de sua autoria. “O Babenco é um cara muito legal. Só que ele creditou o Marquesino, que saiu no meio da produção”, rememora.

Índio é mais lembrado por sua presença nas películas do cineasta, ator e produtor Mauri Queiroz de Oliveira, o Tony Vieira (1938-1990). “Eu e o Tony não éramos amigos, éramos irmãos”, relembra Lopes. Nesta entrevista, o ator recorda sua infância na Bahia, a vinda para São Paulo e seu início de carreira na TV Excelsior. Índio também fala de seu envolvimento no movimento cinematográfico da Boca, seus trabalhos atuais e comenta a situação atual do cinema brasileiro.

Durante vários momentos da entrevista, Índio achou que eu queria colocá-lo na parede com algumas perguntas. “Você me perguntou isso porque você sabe o que eu vou responder”. Este depoimento me foi concedido numa tarde do segundo semestre de 2009 no hall do apartamento de Lopes, no bairro Bela Vista, na zona central de São Paulo. Dividido em cinco partes.

Parte 1: Infância, adolescência e a vinda para São Paulo

 

Como era sua infância na Bahia?

José Lopes – Nasci em 1941. Sou baiano da cidade de Senhor do Bonfim. Mas a minha cidade de coração é São Paulo. Eu amo essa terra. Vivi com a minha mãe até os 12 anos, numa cidade chamada Monte Santo. Monte Santo é um lugar maravilhoso, onde tem uma festa religiosa itinerante que passa por 28 igrejas. Nessa cidade foi rodado Deus e o Diabo na Terra do Sol, do Glauber Rocha. Você não viu aquelas igrejas no filme? É lá. Depois, eu fui morar em Alagoinhas, outra cidade que amo e fui trabalhar na Petrobras. Quando trabalhei lá, ainda era menor de idade. A vida da gente tem umas coisas curiosas. Sempre se vê, na televisão, pessoas sem família que vem pra São Paulo batalhar e dar certo na vida. O ‘certo’ que digo não é estar rico, milionário. O certo é você ter a oportunidade de fazer o que você gostaria de fazer e lutar pelo seu ideal. Na Bahia, meus pais eram separados. Depois, fui morar com a minha tia. São pessoas que amo até hoje. Infelizmente, são pessoas que não existem mais, já se foram. Em Alagoinhas, nos anos 50, trabalhei com solda na Petrobrás, aprendi a soldar e uma série de coisas.

O senhor estudou até que ano na escola?

JL – Fiz só o primário. Depois já fui trabalhar. Em Monte Santo, era muito difícil ter escola. Meu pai foi me buscar depois para eu estudar. Com ele, fui morar em Alagoinhas, que já era uma cidade bem maior, e lá pude estudar um pouco. Já tinha doze anos. Não deu muito certo. Depois nós mudamos de novo, porque meu pai tinha emprego federal. Meu pai era uma pessoa maravilhosa, mas, naquele tempo, a gente não se entendia muito. Inclusive, as minhas irmãs me perguntavam se eu tinha mágoa do meu pai. Mas não tenho e nunca tive mágoa dele. Pelo contrário, tenho orgulho dele porque ele me ensinou muitas coisas. O que sou hoje de personalidade foi muito do que eu aprendi com ele. Tive umas cinco mães.

Eram suas tias?

JL – Sim. Mas tem uma que não era parente minha: dona Guilhermina. Inclusive o filho dela hoje é médico. Eu o tenho como um irmão e ele me tem como irmão também.

Qual era o trabalho da sua mãe?

JL – A minha mãe vivia na roça e era parteira. Ela inclusive tinha feito o parto de quase todo pessoal daquela região. Por isso, ela tinha um monte de afilhados. Isso era um negócio que acontecia muito no Norte e no Nordeste, do nosso país de quarenta, cinqüenta anos atrás. Ela era tida pela população daquela região como uma médica. Mas ela era uma pessoa maravilhosa, respeitada e considerada por todo aquele pessoal da Bahia.

E qual era o trabalho do seu pai?

JL – Ele trabalhava na empresa ferroviária federal.

Naquele tempo, o transporte ferroviário era bastante importante.

JL – Era muito importante. Meu pai trabalhava em trens especiais de passageiros. Tinha um tal de Estrela do Norte. Inclusive, tive o prazer de andar naqueles trens antigos e isso me dá muito saudade. Aquele barulhinho do trem era muito gostoso. Quando trabalhei na Petrobras, tive um problema de saúde. A gente tinha ido pros lados de Sergipe trabalhar com solda e eu quase fiquei tuberculoso. Naquele tempo, se tinha poucos recursos pra fazer aquele trabalho de soldagem. Tinha umas máscaras, mas quase não funcionava. Fiquei doente e voltei para Alagoinhas e fiquei na casa de pessoas muito especiais, minhas queridas tias Bia e Duda, que eram irmãs de meu pai – inclusive, minha mulher tem uma foto da última vez em que estivemos com a tia Duda, que morreu com bastante idade. Acabei não indo pra casa do meu pai, que morava na mesma rua delas. Ele achou ruim, mas minhas tias mandavam, elas eram bem guerreiras.

Depois o senhor foi pra Salvador?

JL – Em um determinado dia, estava melhorando e acabei brigando com a mulher do meu pai (risos). E você já imaginou, brigar com a mulher do teu pai naquele tempo? Eu pensei: “Meu pai está viajando, quando ele chegar, o bicho pega” (rindo). Tive uma discussão e terminei indo pra Salvador. Estava com 18 anos. Com essa briga com o meu pai, cheguei na capital baiana e fiquei procurando emprego. Mas não achava nada. Um dia, estava desorientado na Cidade Baixa, e, de repente, vejo um caminhão com um bocado de cargas. Eu estava somente passando perto. Quando percebi, o dono do caminhão era um amigo meu, o Miguel. Ele tinha trabalhado comigo na Petrobras. Ele era motorista, mas tinha saído da empresa e comprado um caminhão. Era um Alfa-Romeu (rindo).

Esse caminhão não era conhecido como FNM?

JL – Sim! FNM, lá no Norte, a gente conhecia como fome, necessidade e miséria (risos). Então, quando encontrei esse cara na Cidade Baixa, apareceu Deus na minha frente. Conversamos e falei: “Miguel, briguei com a mulher do meu pai. Cara, quase dei uns tapas nela e se voltar pra casa, eu danço”. Falei pra ele que tinha procurado emprego em todos os lugares, mas não tinha achado. Ele me falou: “Estou indo pra Petrolina em Pernambuco. Mas depois vou pra São Paulo. Se você quiser ir embora pro Sul, nós vamos”. Respondi: “Só se for agora, cara”. Pegamos esse caminhão, carregamos de gesso em Petrolina e seguimos viagem. Hoje, de Salvador pra Petrolina, de ônibus, são umas seis horas, mas a gente levou bem mais tempo. Depois, fomos descendo pro Sul. Em Minas, pegamos uma chuva que acabou furando o pneu de dentro do caminhão. A gente usou um macaco grande, de manivela, para tentar trocar o pneu do veículo. O macaco enterrou no asfalto que estava muito molhado. Então, não saia nem o pneu, nem o macaco. Dormimos dentro do caminhão e no outro dia passou outro carro. O Miguel me falou: “Fica no caminhão que eu vou buscar ajuda”. Passaram-se dois dias.

Você ficou sozinho?

JL – Sozinho. Mas não tinha perigo, o caminhão estava carregado de gesso. Mas fiquei com fome. No veículo, só tinha umas bolachinhas e tal. Do outro lado da estrada, tinha um bananal com várias bananas verde. Eu comi algumas. No outro dia, o tempo estava terrível, um frio danado. Olhei e meio longe dava pra ver uma casinha saindo fumaça. Pensei: “vou lá”. Quando cheguei perto, vi a dona da casa. Expliquei para ela a situação. “Minha senhora, sou daquele caminhão lá que está quebrado. Só queria um cafezinho quente, pago pra senhora”. Ela tinha uma porção de criança, um monte, todos peladinhos. Devia ter umas cinco ou seis. Ela fez o cafezinho e eu pedi pra ela fazer uma comida, um frango que eu pagava pra ela. A mulher fez e depois começamos a conversar. Ela me falou: “Moro aqui nessa fazenda, o meu marido foi embora pra São Paulo e me deixou aqui com todos esses filhos e nunca mais apareceu”. Aquilo me cortou o coração. Você sabe que fui no caminhão e dei para as crianças todas as camisas que eu tinha, fiquei somente com duas e o resto eu dei pras crianças. Depois o Miguel voltou e prosseguimos a viagem.

 

Na viagem, o senhor estranhou o frio?

JL – Nossa, teve um pedaço que foi terrível. Eu nunca tinha sentido frio na minha vida. Quando chegou em Minas, tava um frio, meu irmão (risos), e eu só tinha trazido umas roupinhas da Bahia. Hoje, de Salvador pra Petrolina, nesses ônibus que andam bem, são umas seis, sete horas de viagem. Naquele caminhão, a gente deve ter ficado umas doze horas (risos). O Miguel já conhecia o caminho e me falou: “Tem muita gente que vai pedir carona pra gente. Então, você vai em cima do caminhão e quando você os vir, bate na cabine que eu paro. Eles entram aí atrás e acabam pagando uma graninha pra gente”. E deu certo, os caras subiam e davam um dinheiro pra gente.

Quanto tempo foi de viagem até vocês chegarem em São Paulo?

JL – Deve ter sido um mês e mais alguns dias. Os caminhões hoje são todos modernos, mas naquele tempo era bem diferente. A gente vinha carregando umas dezoito toneladas de gesso.

Como foi a chegada em São Paulo? Qual o primeiro lugar em que ficou?

JL – O primeiro lugar em que nós paramos em São Paulo foi na rua Vitor Hugo, no Pari, numa pensão só de caminhoneiros. Era uma pensão meio cara. O Miguel deixou quinze dias pagos de pensão pra mim. Ele chegou pra dona Sofia, a dona da pensão, e falou: “Olha, isso é se ele precisar de alguma coisa e não arrumar emprego”. Porque até então, não tinha profissão. Lá na Bahia, tinha sido soldador, tratorista, mas nem carteira eu tinha (risos).

Como conseguira aquele emprego na Petrobras?

JL – Isso foi quando eu tinha uns catorze pra quinze anos. O pessoal da Petrobras trabalhava três meses no mato e tirava folga na cidade mais próxima. Sempre fui meio boêmio, nasci boêmio (risos). E nessa folga dos caras, conheci um tal de mister George, um americano. Ele gostou de mim, fizemos amizade, ele tomava todas. Ele falou pra mim: “Vai lá na firma que arranjo um trabalho para você”. Expliquei pra ele que eu era menor, mas ele não entendia. Eu fiquei naquela. Deu uns três meses e ele voltou a aparecer na cidade: “Você não apareceu”, falou todo enrolado. Uns amigos meus chegaram para mim: “Tanta gente querendo trabalhar nessa companhia, esse cara é o chefe de campo, e ele que está correndo atrás de você”. Eu acabei indo, o cara ficou meu amigo. Quando terminou o contrato dele, ele foi pro Canadá. Ele queria me levar, mas eu ainda era menor e não quis ir. Trabalhei lá até os 18 anos; foram 4 no total.

 

Era lá em Alagoinhas?

JL – Era uma companhia de pesquisa itinerante. Companhia de pesquisa vai fazendo posições pra achar petróleo. Então, eu trabalhei em Alagoinhas, no Sergipe, Alagoas, em vários lugares.

Nessa primeira pensão em São Paulo, morou por quanto tempo?

JL – Fiquei quinze dias na pensão e pensei: “Poxa, o cara já fez tudo isso pra mim, me trouxe até aqui, deixou pensão paga”. Sempre tive vergonha disso, de depender dos outros. Nesse tempo, fiz amizade com o pessoal de uma transportadora que era perto da pensão. A dona era uma senhora, ela me falou: “Meu filho, aqui o único trabalho que tem é para carregar as coisas do caminhão”. Resolvi encarar e fui ser carregador. Eram três caras pra carregar; se tivesse dez geladeiras, eu e os outros tínhamos que colocar as dez geladeiras no caminhão. Encarei isso, mas, quando era de noite, o meu pescoço não virava. Mas eu encarei, encarei, mas vi que não dava certo e fui ser chapa. O cara chegou pra mim: “Poxa, pra esse trabalho aqui tem que ser forte. Por que você não aprende a levar os caras nas empresas e ganha uma grana?”. Esse era o serviço do chapa. Mas fiquei pouco tempo nisso também. Aprendi nas empresas, eles me pagavam uma grana, fiz amizade com essa senhora dona da pensão. Quando era sexta-feira, todo mundo ia embora da pensão e eu ficava numa boa; fiz grande amizade com dona Sofia. Depois, a dona da transportadora onde eu trabalhava, a dona Iolanda, me arrumou emprego numa metalúrgica. Eu também não sabia de nada desse serviço. O meu chefe lá explicou: “Você vai fazendo as coisas que os caras pedirem e vai fazendo”. Com três meses, eu aprendi a ser prensista. Nesse emprego, eu fiquei dois anos e pouco. Um dia, vi o cara perder a mão lá e me apavorei (risos).

O senhor já tinha vontade de trabalhar com arte?

JL – Sim, sim. Eu era apaixonado, gostava de música e tudo. Já fazia serenata com os meus amigos na Bahia. O meu pai corria atrás de mim e eu tomando umas e fazendo serenata (risos). Acontece que tinha um irmão de criação aqui em São Paulo e tinha o endereço dele. Esse cara trabalhava aqui na Air France. Era um bom emprego. Ele era bem mais velho que eu. Quando vim pra São Paulo, ele já estava trabalhando há mais de quinze anos na Air France. Tinha o endereço dele, mas falava comigo mesmo: “Não vou procurar porque depois ele vai falar com meu pai”. Meu pai que tinha criado ele. Ele era filho duma ex-esposa do meu pai. Depois que trabalhei nesse lugar, me arrumei e não precisava pedir nada, e falei: “Vou ver esse cara na Air France”. Fui na avenida São Luís, atrás da viação, e quando apareci, ele me falou: “Poxa, o pai tem escrito pra mim pra procurar você. Você não me procurou aqui”. Isso já fazia uns quatro anos que estava em São Paulo. Só fui procurá-lo quando estava com umas roupas bonitinhas, dinheiro no bolso (rindo). Ele me recebeu muito bem e acabou me arrumando um emprego na Air France. Fiquei uns dois anos e pouco lá. Lá, eu era tipo um contínuo. Ficava na sala do chefe, atendia as pessoas, tinha algum negócio na rua eu fazia.

O salário que o senhor teve na Air France era melhor que os anteriores?

JL – Sim. Era um emprego legal. A única coisa que não gostava era que tinha de andar de gravata. Trabalhei na Air France e o seu Nelson, diretor de propaganda da empresa, era muito amigo do diretor artístico da TV Excelsior. Eu vivia perturbando o seu Nelson: “Poxa, me apresenta lá e tal”. Já tinha andado nessas escolinhas de artistas, mas nunca tinha pagado nada. Ia só ver. Inclusive conheci o finado Enoque Batista num curso desses. Um belo dia, o seu Nelson estava falando no telefone com o amigo dele diretor da Excelsior: “Tem um funcionário nosso que quer ser artista”. Depois, ele me falou assim: “O meu amigo falou que pra artista lá não tem vaga. Mas ir lá pra fazer alguma pontinha e ajudar em produção tem”. Bem, não é que o maluco largou a Air France e foi? Sempre fui meio maluco mesmo. Fui pra lá e graças a Deus sempre fui uma pessoa que me dei bem, sempre respeitei as pessoas. Logo fiz amizade com o Valentino Guzzo, meu grande amigo, que depois foi fazer o personagem da Vovó Mafalda no SBT. Fui ser assistente de produção dele. Depois fiz um papel numa novela do Walter Avancini chamada Minas de Prata.

Parte 2: A TV Excelsior e o início da carreira no cinema

 

No Minas de Prata, o senhor fazia parte de um trio de índios?

José Lopes – Isso. Éramos em três índios: Ouvido, Faro e Visão. Eu era o Visão. Inclusive, essa novela tinha um grande elenco, que incluía o Stênio Garcia.

Chegou a fazer mais novelas na Excelsior?

JL – Depois participei do A Muralha, mas era um papel pequeno. Mas no Minas de Prata tinha um personagem bom. Ao mesmo tempo, era assistente de produção do Valentino Guzzo e trabalhava nos dois programas musicais do Chacrinha. Fazia A Hora da Buzina e A Discoteca do Chacrinha. O Valentino era produtor do Chacrinha e também fazia o Showriso do Paulo Celestino. Eu ficava na produção desse programa. Fazendo o Showriso, conheci Noira Melo, Rossana Ghessa, Célia Coutinho, Regina Célia, uma tropa de mulheres bonitas. E o Paulo Celestin,o uma pessoa maravilhosa e que está vivo graças a Deus. A Excelsior ficava na Nestor Pestana. Depois, deixaram de gravar na Vera Cruz e fizeram os estúdios na Vila Guilherme. As novelas eram quase todas filmadas nos estúdios da Vera Cruz.

Como era trabalhar com o Valentino Guzzo?

Valentino era uma figura maravilhosa, um baiano de Porto Seguro maravilhoso. Senti muito a morte dele. Depois, ele foi trabalhar com o Sílvio Santos na Globo e no SBT. Ficou acompanhando o Sílvio até morrer.

E com o Chacrinha?

JL – Trabalhei mais de três anos nos dois programas dele. Aquele velho era um maluco maravilhoso. Sempre foi uma pessoa humilde, mas briguenta. Terminava o programa e ele ficava querendo saber como tinha sido o resultado do programa, se tinha sido bom. Ele tinha um coração bom, humilde, mas era maluco.

Estar trabalhando próximo a muitos artistas consagrados mexia contigo?

JL – Não sei te responder isso. Só sei que já estava nessa escola maravilhosa que é São Paulo. Sempre converso com todo mundo. A única coisa que não nasceu dentro de mim é pedir. Não é questão de não ser humilde, sou humilde, só não gosto de pedir. A minha mulher chega a brigar comigo com isso. Então, as coisas que fiz foram porque me convidaram e acharam que eu tinha capacidade de fazer.

O senhor conheceu o Tony Vieira na TV Excelsior?

JL – Conheci na Excelsior. Ele ficou meu amigo nesse tempo.

Z – Ele já usava bigode?

JL – Usava. Tinha pinta e ainda pintava mais a pinta (risos). Me lembro como se fosse hoje, ele na frente da emissora com uma camiseta vermelha. Ele sempre gostou de cuidar do corpo dele, fazer ginástica. E todo dia ele engraxava a bota na frente na porta da emissora (risos). Ele falava: “Meu irmão, estou engraxando a bota e estou vendo quem vem e quem vai. Os diretores me vêem aqui e eu já bato um papo”. Mas o Tony fez boas coisas na Excelsior. Ele teve um bom papel em A Viagem, mas o melhor foi no A Pequena Órfã, que o Dionísio Azevedo dirigiu. O Tony fazia o papel de um corintiano entregador de pão (rindo) e perturbava todo mundo. Ele fez bastante coisas, depois até luta livre. Eu fiz luta livre também. No fim, o apresentador do telecatch saiu, quando a Excelsior já estava entrando em decadência. O Bolinha apresentou algumas vezes e depois indicaram o Tony Vieira para apresentar a luta-livre. Ele foi apresentar e já colocou o Iragildo Mariano na equipe. O Ira diz que era lutador, mas ele era limpador de lona (risos). O Tony que colocou ele lá. O Ira é meu amigo também. Depois, o Tony foi fazer um filme do Mazzaropi. Nesse meio tempo, eu estava no Rio fazendo Meu Nome É Lampião, dirigido pelo Mozael Silveira.

Como surgiu o convite do Mozael?

JL – Eu estava na frente da Excelsior, e chegaram o Mozael e o Vilmar. Eu não sabia quem eram eles. O Vilmar era tio do Roberto Farias e cuidava da parte de produção dos filmes dele. Eles estavam procurando o endereço do Milton Ribeiro. Chegaram em mim e perguntaram sobre o Milton. Depois, o Mozael me confessou que tinha percebido que eu tinha pinta de artista e que devia saber onde o Milton morava. E realmente sabia, ele morava na Vila Maria. Fiquei meio desconfiado de dar o endereço a pessoas que não conhecia. Mas o Mozael se apresentou como cineasta e isso chamou a minha atenção. Pegamos um taxi e fomos na casa do Milton. Eles acertaram tudo e os dois voltaram comigo, me deixaram de novo na Excelsior. Na volta, tomamos um café e o Mozael falou: “Vilmar, como está o roteiro?”. Ele passou uns detalhes e depois o Mozael respondeu: “Será que tem algum papel pro Índio?”, o Vilmar: “Vamos ver, vamos ver”. Eles pegaram o meu endereço e quando o filme estivesse pra começar, mandariam um telegrama pra ir ao Rio. Sabe como é esse negócio de cinema nacional? Passou um mês, dois meses e nem mais lembrava dessa história. Uns três meses depois me chega um telegrama: “Vem pro Rio de Janeiro”. Era para ir em um escritório de cinema. Quando cheguei lá, ele reuniu todo elenco e fomos filmar em Macaé, no estado do Rio. Pra mim, esse filme é o meu grande trabalho, e foi uma das coisas mais gostosas que passei na vida. Inclusive, o nosso irmão Cláudio Portioli era assistente de câmera. Algumas vezes o Claudião fazia câmera, mas o câmera mesmo era o José Medeiros, que era o diretor de fotografia do filme.

Esse foi o primeiro filme com mais destaque que fez?

JL – Para você ter uma idéia, contracenei com Milton Ribeiro, Milton Rodrigues, Rodolfo Arena, Zezé Macedo, Aurélio Tomasini. O Milton Rodrigues foi muito famoso na Globo, fez A Gata de Vison. Ele também chegou a contracenar com a Cláudia Cardinale. Inclusive o Milton Rodrigues demorou mais ou menos um mês pra fazer amizade comigo. Fiz amizade com um pessoal que cuidava dos cavalos e os moleques eram metidos a fazer esporte. Em dia de folga, a gente ficava na praia lutando. Nisso, o Milton Rodrigues ficava olhando de longe. Não sabia que ele era apaixonado por esporte. Um dia, ele se invocou e chegou na rodinha da gente: “Pô, vocês ficam aí e não me chamam”. A gente falou: “Pô, mas você é o galã da fita”. Ele respondeu: “Mas quero também jogar umas pernadas com vocês”. Depois disso, ficou meu amigo, de chegar em mim algumas vezes no hotel e falar: “Vamos jantar fora, vamos numa feijoada em tal lugar”. E tinha uma cena em que cuspia na cara dele. Era uma cena maravilhosa, que me deixou aéreo depois de terminar. No filme, o meu personagem estava na casa do coiteiro do Lampião, que era o Rodolfo Arena. Nisso, chega o Milton Rodrigues, que era da volante com a tropa dele. Nesse momento, o Rodolfo Arena me deixa escondido dentro de um baú. Aí o Milton entra com a tropa dele e vê um atabaque pendurado na parede e pergunta pro Rodolfo se ali passou alguém. Ele diz que não, mas o personagem do Milton continua desconfiado, sai e depois volta, conseguindo me pegar. Eles me levam para um tronco de árvore fora da casa, me amarram e me perguntam: “Pra onde foi Lampião?”. Eu não respondo. Eles perguntam de novo: “Pra onde foi Lampião?”. Daí, encho a boca e cuspo na cara do líder da volante, que era o Milton Rodrigues. Era pra cena ser feita com maquiagem, mas o Milton falou: “Índio, velho, pode cuspir direto. Faz a cena direto, pode cuspir na minha cara”. Até eu fiquei com nojo (rindo). Mas enchi a boca e fizemos. Depois, o Milton casou com uma moça e foi pro México. Há uns dez anos, estava andando na avenida Ipiranga e alguém me chamou: “Meu cangaceiro!”. Era ele.

Como era o Mozael no set?

JL – O Mozael é meu amigo, eu adoro ele. Depois fiz mais uns cinco, seis filmes com ele. No As Audaciosas, tenho um papel bom.

Meu Nome É Lampião era uma produção grande, do Roberto Farias.

JL – Esse Meu Nome É Lampião era do Roberto Farias. Nas outras produções do Mozael, quando não era totalmente do Roberto, ele ajudava de alguma maneira. A filha do Roberto é afilhada do Mozael Silveira. O Mozael era gerente de banco, não tinha nada a ver com cinema.

E como era o Milton Ribeiro?

JL – Olha, o Milton Ribeiro era outra figura maravilhosa. Todo mundo fala de alguns problemas com ele. Sei que era uma pessoa decente. Ele chegava para mim antes da filmagem: “Menino, vamos ensaiar porque quando chegar lá, eles podem errar, mas a gente não”. Era uma pessoa muito bacana. Deus que dê um bom lugar para ele.

Como foi teu relacionamento com a Zezé Macedo?

JL – Zezé Macedo, que se foi agora há pouco, era minha queridinha. Depois fiz outros filmes com ela, fizemos juntos Pedro Bó, o Caçador de Cangaceiros, também em Macaé. A Zezézinha chegava para mim: “Meu filho, vamos dar uma saidinha. Te espero lá embaixo”. A gente ia num botequinho de fim de linha para tomar uma cervejinha. Ela me falava: “Se a gente toma uma cerveja lá, todo mundo fica olhando”. Nossa, Deus que a tenha em bom lugar, uma pessoa maravilhosa e minha amiga.

Com tantos trabalhos, ela era uma pessoa bastante humilde.

JL – Humilde demais, uma pessoa doce. Fiquei muito triste e acho que até chorei quando a Zezézinha morreu. Minha amiga de tomar cervejinha. Nossa, que Deus a abençoe.

Por que você acha que pessoas como a Zezé Macedo não são tão lembradas? O país tem memória curta?

JL – Acho que o brasileiro é muito fraco de memória e também não dá valor. Hoje em dia, a mídia é para mulher de peito grande, bunda grande e estão todo dia na imprensa. E o valor? Não sei, todo mundo tem o seu valor, não quero criticar ninguém. Mas a mídia vai em cima dessas coisas. Hoje em dia, um cara participa de um programa de competições e diz depois que é celebridade. Sinceramente, nunca quero ser chamado de celebridade. Se um dia fizer um trabalho que dê uma repercussão mundial, me torno celebridade. Porque tem o cara conhecido, o cara famoso e celebridade é outra coisa. Celebridade viva nós temos o Pelé. Mortos temos Ayrton Senna; a Martha Rocha também é uma celebridade. Sempre quando se fala de moda ela é lembrada. Agora o cara aparece um dia num lugar e no outro já é considerado celebridade? Isso é errado.

Depois você foi fazer um filme com o Mazzaropi?

JL – Fui fazer um filme com ele. Quem escreveu o roteiro colocou um personagem índio na história. Isso foi em O Grande Xerife. Eles estavam precisando de um índio e o Mazza já me conhecia, mas não sabia onde estava. O meu amigo Pio Zamuner – por isso, dizem que tenho bronca do Pio – queria que outro índio, o Índio Paraguaio, ficasse com o papel. O Enoque Batista chegou no Mazza e disse: “O Índio está lá nas bocas de cinema todo dia”. O Mazzaropi pediu pra ir ao escritório dele. Fui e o Pio ficou meio assim, acho que não me queria no filme. Acertei com o Mazza, ele chorou pra acertar. Mas acertamos um cachê bom. Ele chorou, mas o que foi acertado me pagou. Mazzaropi era uma pessoa honesta e muito decente. Na produção, tive vários atritos, porque as pessoas ficaram com inveja porque estava ganhando muito bem. Telefonava para taxi ir me buscar na fazenda, me levar pra Taubaté tomar a minha cerveja e voltar. Terminei o filme, cortaram muita coisa, mas afinal foi um bom trabalho e o Mazzaropi era uma pessoa maravilhosa.

Ele era tranquilo no set?

JL- Muito, muito. Gente fina e muito honesto. Ele chorava pra acertar o cachê, mas depois que acertava com você, nem precisava assinar. No meu trabalho, gosto de respeitar os outros e de ser respeitado. Parte do elenco e do pessoal ficou um ciúmes de mim. Eles descobriram que eu estava ganhando mais que dona Wanda Marchetti, que era uma atriz bem conhecida. Quando descobriram isso, começaram algumas pirracinhas. Mas tirei de letra. Tinha dia que você ia deitar, chegava no colchão e voava água em cima de você. Uma vez, colocaram uma pedra debaixo da minha cama. Mas eram brincadeiras. Contracenei com o Mazzaropi, mas não sei quem acabou cortando várias cenas minhas. O meu papel era grande. Mas o importante é que sai de bem com todo mundo, recebi o meu e fiz amizades. Não tenho nada de mal pra falar do Mazzaropi, só coisa boa. Fiz muita amizade com a dona Clara, mãe dele – não foi pra puxar o saco não. Foi porque eu adoro crianças e pessoas de idade. Ela era uma pessoa maravilhosa, uma pessoa muito gente fina.

Como era o Pio (Zamuner) no set? Ele era muito mandão?

JL – Você está me provocando porque sabe que falo a verdade. O Pio era meu conhecido e de muito tempo pra cá ele é meu amigo. Não tenho mágoa de ninguém, mas ele era meio doido, me deu muita bronca sem necessidade. Depois, ele cortava o meu papel e dizia que era coisa do Mazzaropi. Chegamos a discutir algumas vezes, mas acho que não me prejudicou em nada. É essa coisa de cinema. Falo aqui o que já falei na cara dele: o Pio era meio nazista. Muito boca dura. Depois, nós fizemos mais filmes juntos e até hoje somos amigos. Agora se você me perguntar: ‘você gosta do Pio?’ Gosto. Só que lá ele era o rei, o dono da cocada branca. Teve um dia que ele mandou os caras me jogarem dentro da lagoa com roupa de cena e tudo. Isso só pra me sacanear. Não precisava. Mas deixa pra lá, ele é meu amigo e hoje estamos velhos. Velhos não, usados (risos) e gosto dele.

Quando o senhor passou a frequentar a Boca?

JL – Eu frequentava a Boca sem muita frequência (risos). Frequentava porque antes fiz Águias de Fogo, do Ary Fernandes. Mas, de 1971 até 1990, estava quase diariamente na Boca. Trabalho era na Boca, era tudo lá.

Águias de Fogo era com o Carlos Miranda também?

JL – Não. O Miranda só fez mesmo O Vigilante Rodoviário. O Carlinhos, que está vivo graças a Deus, é outro que, se entrar nesta revista, receba um beijão e um abraço do seu amigo Índio. Teve uma vez que estava fazendo produção de um filme do Chico Cavalcanti em Peruíbe (litoral sul de São Paulo), a gente ia e voltava para São Paulo quase todo dia. Eu estava dirigindo uma Kombi em Itanhaém, voltando de Peruíbe, à noite. Nessa hora, pensei: “Vou dormir dentro dessa perua, senão vou terminar batendo o veículo”. Parei a Kombi numa rua e peguei no sono. Lá pelas nove e meia do outro dia, vejo um cara batendo na perua. Eu acordei todo suado, com o sol me queimando. Por coincidência, tinha parado na porta da casa do Carlos Miranda. Aí ele me chamou. Águias de Fogo também era um seriado, mas com vários atores. O principal era o Roberto Bolant. A gente fazia o seriado, que era filmado em Cumbica, principalmente, com o pessoal da aeronáutica. – inclusive usando os aviões e helicópteros. Quando cheguei, o pessoal falou: “O Índio vai filmar”. Um tenente chegou em mim: “Índio, você quer dar uma volta de avião?”. Entrei num caça, os caras quase que me matam do coração (risos). Fizeram de sacanagem comigo, o avião decolou e começou a dar pirueta no ar, eu com aquele troço no ouvido (risos). Depois, desci com as pernas tremendo.

O Ary já tinha um certo nome na época?

JL – Já tinha sim. Ele tinha feito O Vigilante Rodoviário. Tomara que esteja com boa saúde. Eu adoro o Ary Fernandes até hoje.

Você também teve passagem pela Tupi?

JL – Tive. Lá, inclusive, tinha uma pessoa maravilhosa que está até hoje na televisão. Pros amigos, ela é Vivinha, para os outros, ela é Eva Wilma. Cheguei a participar de um programa que ela tinha na Tupi, que se chamava Penélope [na verdade, o programa se chamava As Confissões de Penélope]. Eu fazia algumas coisinhas nesse programa. Depois, o Zara foi fazer uma novela chamada Maria Nazaré, em que ela ia ser a atriz principal. Era uma novela de cangaço, montaram todos cenários, mas a Tupi já estava meio caída. Saí da Excelsior que acabou e depois fui pra Tupi que também fechou. Estávamos todos ensaiando a novela em Itu. Durante todo esse tempo, a Eva Vilma sempre foi uma pessoa maravilhosa. O Carlos Zara, que ia dirigir a novela, tinha aquele jeitão dele, mas era uma figura bacana. Não chegamos a fazer a novela. A Tupi acabou indo à falência e a novela não foi feita.

O senhor sabe porque a Excelsior fechou?

JL – Os velhos Simonsen morreram e os filhos ficaram. Parece que os filhos moravam nos Estados Unidos. Nessa época, o Edson Leite era o diretor responsável. Aí foi esse negócio de herança dizem que os filhos pegaram o dinheiro e gastaram. Não sei, não sei. Não estou afirmando nada. Sei que a televisão foi caindo, caindo, caindo e chegou à falência. Agora, como vai à falência uma televisão que tinha uma estrutura como a Excelsior não sei.

A Tupi também tinha uma estrutura muito grande.

JL – Exatamente. A Tupi foi fundada pelo Assis Chateaubriand, que conheci pessoalmente. Uma vez fizeram uma matéria comigo no Diário da Noite, do Diários Associados. Era uma página inteira comigo. O título da reportagem era: Um índio a caminho do sucesso. Foi um jornalista gaúcho que fez a matéria. Ele inclusive me levou pra ser jurado de um concurso de escultura na areia uma vez.

O senhor fez mais coisas em televisão?

JL – Olha, televisão nunca foi o meu forte. O meu negócio é cinema. Na verdade, não tenho nenhum tesão para televisão. Mas o cinema é a minha vida e a minha doença.

O senhor já via filmes lá na Bahia?

JL – Via. Lá em Alagoinhas, fiz amizade com um cidadão chamado RF Dias, que era locutor da rádio local. O patrão dele, o Zequinha, era político e dono da rádio e do cinema. Eu era muito amigo do RF Dias e ele conseguia que eu visse muitos filmes proibidos. Eu entrava pelo fundo do cinema. Em filme de índio então… Gostava muito de faroeste. Seriado também, tipo Zorro, coisas bem antigas mesmo.

Já queria ser ator de cinema nessa época?

JL – Só pensava a respeito. Mas nunca se sabe. De repente, você está dentro de algo que nunca imaginou. Acho que é o destino e você tem que correr atrás. Tudo que aconteceu na minha vida devo ao cinema. Sou uma pessoa muito feliz, não sou frustrado. Teve muitos trabalhos que fiz que não gostei, mas muitos gostei. Tenho um cachorro maravilhoso, uma sobrinha maravilhosa, uma periquita, minha mulher, meus amigos. Então, me sinto uma pessoa praticamente realizada. Porque totalmente acho que ninguém era.

Tinha algum ator que você gostava de ver?

JL – Gostava muito da Doris Day, Aldie Murphy. John Wayne, claro! Achava ele um puta ator. Gostava muito também daquele loirinho, que depois morreu, o James Dean.

Esses filmes você conseguia ver na Bahia?

JL – Conseguia. Dos atores brasileiros, tinham muitos que eu gostava. Tem um que está velho, uma figura maravilhosa. Deus que dê mais saúde para ele: Anselmo Duarte. [A entrevista foi realizada em setembro de 2009, Anselmo iria falecer em dezembro do mesmo ano; Anselmo é homenageado nessa edição também].

Via também as chanchadas da Atlântida?

JL – Via. Gosto muito do baiano Geraldo del Rey. No gênero de cangaço, não tem outro igual ao Milton Ribeiro. As chanchadas também tinham grandes atores: Zé Trindade, Oscarito, Ankito, Grande Othelo – que ator maravilhoso.

Quando você começou a se tornar ator somente de cinema?

JL – Isso foi em 71. Antes, tinha feito Meu Nome É Lampião. Nessa época, o Tony foi pro cinema. A gente já era amigo e ele acabou me levando. Fui assistente de câmera, sei acender um refletor. Adorava fazer efeitos especiais. Inclusive, fiz os efeitos do O Beijo da Mulher Aranha.

Sério?

JL – Sério. O Babenco é outra pessoa maravilhosa. Só que ele colocou o José Marquesim como diretor de efeitos especiais. O Marquesim começou a fita, mas quem terminou fui eu. O Babenco me botou como truca.

Parte 3: A parceria e os trabalhos com Tony Vieira

O Tony virou seu amigo na Excelsior?

JL – Sim. Éramos amigos, irmãos. O Tony Vieira não era meu amigo, era meu irmão. A gente era amigo de sair junto, de tomar umas junto.

O Heitor Gaiotti entrou na turma quando?

JL – O Gaiotti era da Excelsior também, era assistente direto do Baleroni. Inclusive, dona Laura Cardoso era mulher do Baleroni. Eles se conheceram na Excelsior. Depois, o Gaiotti veio fazer um filme com o Edward Freund e o Tony estava fazendo um filme com o Mazzaropi. Aí o Gaiotti falou pro Freund: “Vamos trazer o Tony para fazer o papel da galã”.

Como se formou a produtora MQ?

JL – O Tony terminou esse filme do Mazzaropi e foi fazer o filme do Freund, Um Pistoleiro Chamado Caviúna. Depois, fizeram Quatro Pistoleiros Em Fúria e Gringo.

Nessa época, o Comendador já produzia?

JL – Olha, não sei bem. Ele já estava no Quatro Pistoleiros Em Fúria. Entrou e já fazia alguma coisa. Depois, cuidava de coisas da produção, como fazenda, cavalo, comida. Num desses filmes, o Tony fez amizade com o Comendador. O Freund conheci muito bem. Era uma pessoa maravilhosa aquele polonês caladão, outra cultura. O Comendador era o dono da fazenda e acabou conhecendo o Tony. O Tony com aquele jeitão dele de mineiro – “Porra, meu compadre, meu irmão” – acabou ganhando o Comendador. Quando foi fazer Gringo, o Freund entrou somente de ator e o Tony dirigindo. Depois, o Freund foi para o lado dele e o Comendador adotou o Tony. Começaram a produzir juntos e surgiu a MQ. As pessoas acham que o Comendador só jogava dinheiro. Essa idéia é falsa. O Comendador jogava dinheiro e depois o Tony chegava nele e falava: “Esse filme deu tanto, Comendador”. O Tony prestava contas com o Comendador. Era algo honesto e eles fizeram muitas produções juntos.

Por ser produtor, o Comendador exigia um papel grande no filme?

JL – Não. O Tony que acabava colocando ele nos filmes porque era um tipo. O Comendador nunca foi ator. Mas gostava de cinema, de estar perto do pessoal, era namorador (risos). Outra figura maravilhosa, o Comendador, que Deus o tenha.

Nos filmes do Tony, o senhor não tinha grandes papéis.

JL – Não tinha. Mas nos filmes dele, eu fazia de tudo: produção, efeitos… Ele confiava em mim. A gente brigava pra caramba, mas brigava num dia e no outro estava tudo bem. O Tony ficava doente na casa dele e me ligava às três da manhã: “Meu irmão, eu estou mal, estou com dor de cabeça. Vai na farmácia comprar um remédio pra mim”. E eu ia. O Tony não era meu amigo, era meu irmão.

Não importava, para o senhor, o papel ser menor em algum filme?

JL – Não. Eu queria estar lá fazendo alguma coisa. E fazer efeitos especiais era uma coisa que me dava prazer. Hoje, não dá mais porque é tudo computadorizado. Mas fazer aquela coisa artesanal, preparar uma bomba, preparar um tiro, preparar um corte era muito legal. Isso me dava muito prazer e fazia com prazer, com carinho.

Você e o Tony viviam juntos?

JL – Sim. Éramos muito amigos e sempre andávamos juntos. Sei bastante da vida dele. Tanto que, quando comprei um carro, ele o dirigia mais do que eu. Uma vez, fomos fazer um show com o Canarinho no interior. Na cidade, depois da apresentação, tinha até um hotel para gente pernoitar. Mas o Canarinho falou: “Vamos embora pra São Paulo”. E o Tony foi dirigindo, ele adorava dirigir. Nós entramos numa cidadezinha de madrugada e o Tony errou o caminho. Ele veio num embalo e tinha um guarda noturno na rua. Ele brecou o carro para perguntar o caminho e o guarda saiu correndo. O Tony: “Pô, meu irmão, eu parei para perguntar o caminho para o cara e ele saiu correndo”. O Canarinho respondeu: “Você é um mineiro xarope. Você vem nessa velocidade de madrugada, para o carro, breca e ainda quer que ele dê a informação pra você?”. O Canarinho fez a maior gozação com o Tony.

O senhor trabalhou bastante com o Canarinho?

JL – Não muito. Mas viajei com ele. Uma vez nós fomos fazer um show em Aparecida. Esse Canarinho é um palhaço. O Canarinho só gosta de carrão. Pegamos a Dutra e ele me falou: “Cara, vem me contando umas piadas, senão pego no sono”. Ele ia dirigindo e eu contando piada pra ele. Chegou uma hora que não tinha mais piada e comecei a inventar. Mas ele quis me enganar. Ele parou o carro e me falou: “Deu um problema no automóvel”. Ele mandou eu descer para olhar o que tinha acontecido e ele ficou no carro. Quando eu desci, ele puxou o carro e me fez andar uns cinco quilômetros atrás dele (risos). O Canarinho me falou depois: “Isso é pra você não ficar mais contando piada infame” (risos).

É verdade que foi o Canarinho que trouxe o Tony de Minas?

JL – Tem esse papo. Algumas pessoas falam que o Tony veio com o Moacyr Franco, outras com o Canarinho. O Tony já trabalhava lá em Minas na TV Itacolomi. Eu acho que foi o Canarinho que trouxe o Tony.

Qual a importância de A Filha do Padre na filmografia do Tony?

JL – O nosso cinema estava numa evolução legal, crescendo bastante. A Filha do Padre teve uma importância pela ousadia de fazer um bangue-bangue real com cenário, montagem, aquela coisa toda. O Tony fez um cenário caprichado. Para fazer o cenário do filme, usamos não sei quantas carretas de madeira. Acho que o público brasileiro é bem chegado a bangue-bangue. A fita é bem feita, não chega a ser um espetáculo, mas é uma fita bem feita, bem fotografada, é uma história razoável. Uma fita típica do bangue-bangue nacional. É uma coisa diferente que surgiu no cinema brasileiro.

Quando começou o envolvimento do Tony com a Claudete Joubert?

JL – Eles começaram a namorar acho que no Gringo, o primeiro filme que fizeram juntos. A Claudete era meninona ainda, muito nova.

O Tony realmente não deixava–a participar de filmes de outros diretores?

JL – Acho que isso é conversa. O Tony fazia um filme, dois filmes por ano. Então, não tinha necessidade de ela trabalhar com outra pessoa. Acho que a mulher que ele mais amou na vida foi a Claudete. Foi a grande mulher da vida dele. Acho que ele tinha até ciúmes, mas não tinha isso de proibir ela de fazer outros trabalhos. Ela não tinha essa necessidade também de trabalhar toda hora, vivia com ele numa boa.

Qual a importância do Walter Wanny no cinema do Tony? Ele montou quase todos os filmes dele.

JL – O Waltinho andou fazendo alguns papéis também. Mas a importância dele era mais como montador. O Tony gostava muito dele como montador.

Do Jair Garcia Duarte também?

JL – Do Jair também. Mas o Waltinho e o Tony se entendiam muito bem. O Tony chegava nele: “Waltinho, eu quero assim” e deixava na mão dele. Além do Waltinho e do Jair, o Tony teve outro montador. Mas a maioria daqueles filmes tiveram montagem do Waltinho.

Com o Henrique Borges, ele teve uma verdadeira parceria?

JL – O Henrique atuou como câmera e depois como diretor de fotografia. Chegou uma hora, o Tony manjava quase tudo de cinema. O Tony mesmo adorava fazer câmera. Câmera na mão então, ele adorava. Mas sempre ligado com o Henrique, com o resto do pessoal da equipe técnica. O tempo foi andando e como o tempo não pode parar, se foi Tony Vieira ainda jovem. O Tony morreu acho que com 55 anos. Meu amigo se foi e agora estão abrindo um museu em Contagem com o nome dele. Quero deixar, inclusive, registrado os meus agradecimento a essas pessoas, ao Giba e os demais que estão lutando. Acho que o Tony é merecedor dessa homenagem. Isso é merecido. Tem coisas que falam de Tony que me aborrecem muito. Na época em que os filmes iam bem, via em várias manchetes de jornais de São Paulo: “Tony Vieira: o rei do bangue-bangue brasileiro”. Aí depois que o cara morre me aparece uma notinha pequenininha: “Morre diretor de sexo explícito”. Isso me deixou muito chateado, muito aborrecido. As pessoas não têm respeito. O Tony tem uns filmes que realmente não são bons, mas a maioria é. Ele acertou mais que errou. Pra mim, Pilantras da Noite é um puta de um filme. Assim como GringoA Filha do Padre

Em qual cinema ele lançava os filmes dele?

JL – A maioria foi no Marabá.

Como era um dia de estreia de um filme do Tony Vieira?

JL – Um dia de estreia era um dia de festa para os atores, técnicos, diretor. Não tinha coquetel, porque isso surgiu de um tempo pra cá. Mas se reuniam as pessoas, se assistia o filme, ia para um restaurante jantar, tomar uns negócios, discutir sobre o filme.

Como era a popularidade dele? Ele era muito reconhecido na rua?

JL – O Tony era. De 1973 até os anos 90, Tony Vieira era conhecido em São Paulo, no Sul. Mas no Norte e Nordeste ele era o Roberto Carlos do cinema. Todo filme de Tony Vieira naquela região dava dinheiro e as pessoas adoravam ele. Era um cara muito querido no Norte e Nordeste. Nós até chegamos a filmar, uma vez, em Recife. Até o Candeias foi, como diretor de fotografia.

O Tony dava muito autógrafo? Ele gostava do assédio dos fãs?

JL – O Tony era uma pessoa vaidosa. Gostava muito de cuidar do físico. Era muito namorador também (risos).

Gostava de andar com carrão, roupa legal?

JL – Sim. Sempre com umas roupas diferentes. De repente, me aparecia com uma calça toda vermelha, um casacão preto, ele gostava dessas coisas (risos). Carrão sempre. Durante uma época, teve um Landau. Quando o carro chegava na rua do Triunfo, pegava um espanador e ficava limpando o carro. Ele fazia isso principalmente de sexta-feira. Chegava pra mim e falava: “Hoje, nós vamos dar umas bandas por aí e estou deixando o automóvel bonito”. Ele adorava ficar limpando o veículo. Os caras faziam gozação com o Tony e ele respondia: “Estou dando um trato aqui”.

Como era a presença dele no bar Soberano?

JL – Todo mundo tinha um certo respeito por ele. Ele era muito querido do Serafim e de todos os donos. Era uma pessoa que se, no Soberano ou no bar do Ferreira, chegasse quatro, cinco pessoas e falassem “Eu vim almoçar. O Tony Vieira que me mandou”, eram servidas na hora, sem problema. Ele era bem considerado lá por todo pessoal.

O Gaiotti também ficou muito próximo a vocês?

JL – Sim. O Gaiotti já vinha da Excelsior. Ele é nosso irmão, nosso amigo. Só que o Gaiotti casou logo com uma menina inclusive que ele conheceu em A Filha do Padre. Ele tinha uma família grande aqui. Eu e o Tony Vieira não tínhamos família em São Paulo. Então, a gente era mais amigo por isso. Eu e o Tony estávamos sempre juntos. Muitas vezes, o Gaiotti ficava com a gente, mas depois ia pra casa dele.

Onde o Tony morava aqui em São Paulo?

JL – Na época da Excelsior, ele morava numa ruazinha perto da Praça 14 Bis. Perto da Vai-Vai. Depois quando ele saiu e fez a parceria com o Comendador, morou na rua Vitória, perto da São João. Morou na Rio Branco, também perto da São João. Esses dois locais eram apartamentos do Comendador.

Ele ficou abalado com a separação da Claudete?

JL – Ele era meio machista e dizia que não (risos). Mas abalou sim, dizia que não, mas a gente olhava na cara e percebia (risos). Ele não demonstrava, ficava naquela, brincava. Eu, como amigo, percebi que abalou sim. Depois, ele arrumou outra menina muito bacana, a Cleuza Ramos.

A que também era atriz?

JL- Isso. Mas acho que a Claudete ficou na lembrança dele até a morte. A Cleuza é uma pessoa maravilhosa. Especialmente, porque quando o Tony estava internado no Hospital Santa Isabel, pelo menos três vezes por semana ela ia lá e levava um frango com quiabo. Como bom mineiro, ele adorava esse prato (risos). Eles já estavam separados, mas mesmo assim a Cleuza levava. Quando faleceu, em Belo Horizonte, me ligaram umas três da manhã avisando que ele tinha morrido. Não teve condições de eu ir ao enterro, mas a Cleuza conseguiu numa correria uma passagem de avião e foi. Acho que ela foi a única pessoa de São Paulo a ir no enterro dele. Acho que o irmão do Tony, que era meu amigo, ficou até chateado comigo porque eu não ter ido. Me ligaram às três horas da manhã e ele ia ser enterrado quatro da tarde. Não deu, mas tudo bem. Importante é a lembrança que eu guardo dele, a amizade que nós tivemos. Isso é o mais importante.

Tem um filme que o Ronnie Cócegas faz o papel cômico no lugar do Gaiotti, As Amantes de um Canalha.

JL – Ah! O Ronnie Cócegas era meu amigo. Também morou no meu prédio. O Ronnie não está mais aqui pra falar a verdade, mas uma vez ele falou pra minha mulher e pros meus amigos que quem o trouxe para televisão fui eu. Quando eu o conheci, ele morava na Vila Ré. Um dia estava ele na porta do canal 9, com aquela cara: baixinho, feinho, narigudo e cheio de graça. O Ronnie que me desculpe, mas ele era muito feio (risos). Ele tinha chegado da Bahia, contando umas piadinhas. Eu já trabalhava no Show Riso do finado Valentino Guzzo. Eu o achei engraçado e cheguei pro Valentino Guzzo: “Tem um cara aí que não precisa nem falar, ele já é engraçado”. Quando terminou o programa, a gente saiu da Excelsior e o apresentei pro Ronnie. O Valentino também gostou dele. Depois, apresentaram o Ronnie para o Paulo Celestino e arrumaram um papelzinho no Show Riso para ele.

Vocês continuaram amigos?

JL – Sim. Inclusive, lembro que, na época, tinha um Gordini e fui buscar a mudança dele na Vila Ré e levei não sei pra onde (risos). Lembro da mulher dele, uma baiana, moreninha, bonitinha pra caramba. Separaram depois, mas ela era muito bonitinha, uma baixinha morena. Encontrei com Ronnie na São João, tomamos um negócio juntos, ficamos nos vendo e de repente ele morre. Fiquei triste na última vez que o vi. Ele já estava com a barriga grande, com tudo estourado. Uma pena.

Por quê, nesse filme, o Tony usa o Ronnie e não o Gaoitti?

JL – Eu não sei o que aconteceu. O Tony já conhecia o Ronnie Cócegas do canal 9, do Show Riso. Como outro amigo meu, o Tony Tornado, que fez o mesmo filme. O Tony Vieira gostava muito do Tony Tornado também. Não sei se foi briga com o Gaiotti ou se o Tony quis fazer uma experiência com o Ronnie Cócegas.

O Jofre Soares também era amigo de vocês?

JL – O velho Jofre já foi amizade da Boca. O Tony adorava ele. Outro que foi meu irmão, meu amigo. Deus que o tenha.

É verdade que o Jofre era meio chato pra tomar café?

JL – O Jofre era um velho gozador (risos). Ele tinha um apartamento no Rio, mas de vez em quando aparecia aqui. Quando o via na rua do Triunfo, ele começava a relinchar, a imitar um bode. Aí a gente saia da Boca pra ir comer buchada de bode com ele lá no Brás. Acho que o Jofre era da Marinha. Uma figura maravilhosa e bom ator também.

Trabalhar em um filme da Boca, pra ele, não era problema?

JL – Não. A gente chegava nele: “Jofre, tenho tanto pra pagar pra você”. Ele falava: “Ah, vamos fazer”. Ele fez também um filme do Wilson Rodrigues comigo. O Wilson é outro cara que sempre batalhou. Está até hoje na ativa. Foi ator, diretor, produtor. Teve muito bem de vida quando começou com distribuição de vídeo. Ele tomou um andar inteiro onde era o escritório do Mazzaropi. Depois, foi fazer O Gato de Botas, acho que gastou muito dinheiro, não deu muito certo. Mas está aí na batalha e vivo graças a Deus.

Desses trabalhos com o Tony, tem algum preferido?

JL – Gosto muito de Pilantras da Noite. Tem vários filmes que eu gosto, tem um bangue-bangue que foi feito em Minas que eu tenho um papel bom… Esse filme era do João Amorim, lá de Santa Catarina. Outra pessoa bacana. No Calibre 12, tenho um papel bacana também. Faço um cara maluco, um oficial doidão.

Como foi pro Tony fazer filmes de sexo explícito?

JL – Não foi o Tony, foi o momento. Não dava para fazer outro tipo de filme. O explícito veio caindo, arrebentando e se você fizesse outro gênero não acontecia. Então, mesmo não gostando, os diretores tiveram que adotar o explícito. O Tony, inclusive, não usava o nome dele.

Ele assinava como Maury Queiroz.

JL – Sim. Ele não gostava. Ele falava: “Meu irmão, faço porque é o jeito”. Aliás, acho que a maioria dos diretores da Boca não gostavam. Tinham uns que sim, mas a maioria não. O Tony, Ary, Fauzi Mansur, esse pessoal não. Muita gente fala que o que acabou com o cinema de São Paulo foi o explícito. Mas não foi o explícito. O que acabou com o cinema de São Paulo foi que, quando o explícito estava caindo, o pessoal não teve coragem de mudar para outro gênero. Então, não foi o explícito que derrubou. Aí alguns produtores que estavam com dinheiro no bolso foram embora com medo de perder. Outros se aventuraram e andaram perdendo. Eu acho que foi uma mudança do erótico, que não é explícito. Um filme erótico é outra coisa. Hoje, nas novelas, você vê o erotismo que falavam mal. Então, o erótico ficou um tempo segurando e veio o explícito. Mas quando o explícito começou a cair, não souberam fazer outro tipo de cinema.

Vocês achavam que aquele cinema ia voltar? Os eróticos.

JL – O cinema deveria ter melhorado, com uma produção melhor. Um cinema de elencos melhores. Tinha cara que fazia cinema na Boca porque tinha somente aquele cinema. Muitas vezes, podia ter capacidade pra fazer um cinema melhor, mas não tinha dinheiro. E tudo nessa vida é dinheiro. Digamos: equero filmar numa sala de um prédio e o dono não me deixa. Se tenho dinheiro, posso alugar essa sala ou então monto uma igual. Cinema depende de dinheiro. Acho que se o pessoal tivesse segurado, não tinha morrido.

O Tony, quando estava fazendo um filme explícito, falava: “Depois desse filme, com a grana que entrar, vou voltar a fazer um faroeste ou um policial”?

JL – Chegou a comentar isso. Quando ele ficou doente, o irmão dele o levou pra Belo Horizonte e ele teve uma recuperação legal. Só que eu já sabia que não adiantava. O médico tinha falado pra mim que ele estava impregnado com câncer. Ele voltou pra São Paulo quatro meses depois muito feliz. Estava forte, gordo. Só que aquela gordura que não era legal. Estava careca. A terapia deixa o cara assim. Na volta, quando ele me reencontrou, me abraçou e falou: “Compadre, vamos fazer um filme em Belo Horizonte que o Milton Cardoso vai financiar”. Ele estava todo feliz. Fomos jantar no restaurante Tabu, mas a comida não me desceu. O médico tinha me falado: “Índio, o seu amigo está impregnado de câncer. Ele tem câncer nos ossos. Se ele tiver uma melhora, essa melhora vai durar somente uns três meses, quando voltar pro hospital pode ser tarde”. Foi dito e feito. Passaram uns dois meses, numa madrugada, o filho dele me liga. Antes de ele falar, eu disse: “Já sei Toninho. O seu pai faleceu”. Para o caso dele, não tinha cura, infelizmente.

Na Boca, se espalha muito que ele morreu de AIDS.

JL – Sobre isso, já cansei e até briguei com alguns amigos meus. Você até tem o direito de me perguntar sobre isso. Agora, uns imbecis amigos meus e amigos dele sabem que o cara morreu de câncer. Já fiquei nervoso com isso. O cara morreu de câncer, eu sei. Eu ia no hospital com ele todo dia. Foi um professor de medicina, que era dono de um hospital no Pari, que fez o diagnóstico do Tony. Esse médico era parente do Farah Abdalla.

O Farah que era dono daquela distribuidora de revistas na Boca?

JL – Sim. Ele foi produtor de filme também, de O Rei da Boca, do Clery Cunha. Até esqueci de falar do meu amigo Farah. O Farah ligou pra esse primo dele que era professor de medicina e esse cidadão foi na Santa Casa, chamou o médico do Tony e falou: “Não tem jeito”. Quando dava as crises no Tony, eu estava no quarto com ele no hospital. Ele pegava o travesseiro e mordia de tirar o pedaço, dava aquelas crises de dez, quinze minutos. Então, não tem nada de AIDS.

O Tony era um cara muito invejado na Boca?

JL – Não. Ele era uma pessoa legal com todo mundo. Sempre foi um cara brincalhão. Acho que esse negócio de inveja é relativo. Ás vezes, alguém tem, mas isso passa despercebido. Mas não tinha inimigos, todos gostavam muito dele.

Os filmes dele iam muito bem de público. Mas a maioria das críticas dos jornais não era positiva. Ele se sentia incomodado com isso?

JL – Ele não ligava. Ele falava que crítico não levava dinheiro para o cinema (risos). Tanto é que num filme dele, ele levou o Zé Júlio Spiewak pra ser ator. Aí o Zé Júlio começou a errar lá e o Tony já começou a gritar. Ele falava: “Tá vendo, seu pedaço de arrombado, porque filme nacional não presta? Porque tem uma desgraça que nem você, você é ruim demais”. O Zé Júlio coitado, só faltou chorar (risos). O Tony era muito engraçado em campo de filmagem, dava uns estouros em certos momentos. Muitas vezes, brigava comigo sem eu saber. Ele ficava com raiva de algum ator e, ao invés de ir falar com o cara, vinha falar comigo. Depois, pedia desculpa. Ficava descontando em cima de mim.

O senhor acha que ele era melhor ator ou diretor?

JL – O Tony era bom ator. Para dirigir também, era um cara criativo e tinha boas ideias. Muitas vezes, a coisa não saia como ele queria.

Em muitos filmes, o Rajá Aragão e o Luiz Castellini faziam os roteiros. Ele seguia o roteiro? Chegava a dar o roteiro para vocês antes?

JL – Não me lembro. Mas ele gostava muito do Rajá, gostava do Castellini. Então, ele dava a ideia: “Olha, eu quero fazer um filme assim”. Eles faziam o roteiro e o Tony respeitava o que as pessoas escreviam. Ele podia mudar alguma coisinha, mas seguia a linha e respeitava.

Como surgiu a idéia de Último Cão de Guerra? Afinal, é um filme sobre nazismo.

JL – É uma coisa maluca. Acho que o Rajá que escreveu, mas sendo uma ideia do Tony. Eu participo também. O Tony era criativo, tinha boas ideias e tinha noção de roteiro também. Não fazia por fazer.

Tem outro filme que é sobre tráfico de escravas brancas.

JL – A mente dele já estava avançada nessas maluquices que tem hoje. Hoje, você vai ver um filme e tem muitas coisas assim. Ele já tinha essas ideias.

Essas ideias para os filmes vinham dele?

JL – Vinham. De vez em quando, ele inventava uma ideia maluca e repassava para os roteiristas. Eles escreviam o roteiro e o Tony respeitava.

Ele treinava a equipe e os atores antes da realização de um filme?

JL – Não. Eram filmes feitos em pouco tempo, então não tinha esse trabalho todo. Ele treinava o necessário. Estando bom, a gente filmava. Ele tinha paciência com o pessoal e tinha respeito pelos atores, equipe, todos. Mas se um cara precisava receber bronca, ele dava, explodia. Mas você não acreditava na explosão dele também (risos). Às vezes, quando ficava muito maluco, dava uns gritos comigo, com o Gaiotti. Mas ficava nisso mesmo.

O Alex Prado e o Francisco Cavalcanti faziam filme no mesmo estilo que o dele. O senhor acha que isso o incomodava? Existia uma rivalidade?

JL – Não. Ele nunca se incomodou com isso. Tony Vieira ficava feliz quando alguém fazia um filme e dava sucesso. Ele chegava e falava: “Tá vendo? Nosso cinema está ficando legal”. O negócio do Tony era ver o cinema nacional bonito, não importa quem fosse. Lógico, ele também não era santo. Às vezes, comentava alguma coisa. Mas meter pau não era do feitio dele.

E o time de futebol?

JL – Ele gostava de esporte. Então, criou e gastou muito dinheiro com esse time de futebol (rindo). Levava os caras pra jogar. Teve jogadores dele que foram até para o Palmeiras, um tal de Jorginho. Eles jogavam num campo perto da Portuguesa, o time dele tinha camisa, tudo (rindo).

O senhor chegou a jogar bola com ele?

JL – Ah, eu era meio prego. Eu jogava às vezes, mas era meio ruim no negócio.

Parte 4: A participação no cinema da Boca

 

Dos trabalhos da Boca, por quais outros você tem carinho? Você fez dois filmes com o Fauzi, O Guarani e O Inseto do Amor.

JL – Com o Fauzi, fiz mais coisas na área técnica. Fiz aquele com a Maria Isabel de Lisandro na técnica. Tenho esse papelzinho em O Guarani, mas a minha função era mais na parte técnica. O Inseto eu fiz, mas nem me lembro mais. Foi uma coisa rápida. O Fauzi é uma pessoa pela qual tenho grande respeito. Acho um bom diretor.

Ter papel pequeno em muitos filmes te incomodava?

 

Não. Trabalho é trabalho. Queria estar no meio, então não importava ser ator, fazer efeito especial ou colocar luz. Lógico, ser ator era o meu negócio, sou ator e não técnico. Isso me preenche mais. Mas me sentia bem num campo de filmagem. Ás vezes, fazia até o trabalho dos outros.

Você tem ideia de quantos filmes você fez?

 

JL – Tenho uma ideia, contando tudo, como ator e técnico, devo ter uns oitenta filmes. Há um tempo você me falou que fiz um trabalho com o Toninho Meliande. Eu nem me lembrava desse filme (rindo). Com o próprio Mário Vaz Filho fiz dois.

Isso já na fase do explícito?

 

JL – Sim. Estou no filme, mas não faço cena explícita.

Quando os filmes começaram a ir pra esse lado te incomodou?

 

JL – Me incomodou. Nunca gostei dessas coisas. Não quero ser interpretado como um cara puro, mas não me batia legal. Não é da minha área. Sexo é uma coisa e cinema é outra. Misturar os dois… Não condeno ninguém. Mas não me sentia bem.

Com o Francisco Cavalcanti, o senhor fez vários.

 

JL – Fiz. Mas muitos atrás das câmeras. Quando teve alguma coisa, era só no faz de conta, no simulado. Era o que tinha que fazer, porque era o que estava rolando, senão não trabalhava. Com o Chico, fui diretor de produção de uns quatro filmes. Outros como assistente. Fiz muito explícito, mas atrás das câmeras.

Com o Jean você chegou a trabalhar?

 

JL – Em um filme do Tony. Ele era meu amigo. Mas em filme dele, nunca trabalhei. Com o próprio Carlão Reichenbach não cheguei a trabalhar em fita dele, mas em filme do Tony. Mas o Carlão é outra pessoa maravilhosa, adoro ele. Trabalhamos juntos no Gringo. Também trabalhei com o Ody Fraga assim, em filme do Tony. Era um cara legal, tranquilo. Conversava com todo mundo.

Com o Candeias, você também fez várias coisas.

 

JL – Nossa, com o Candeias tenho uns quatro filmes. Meu amigo Candeias. O Candeias era um barato. Ele primeiro falava assim: “Tem um negócio pra você fazer, só que não tem dinheiro”. Depois, ele queria saber se você topava. Ele depois chegava: “Nós vamos rodar em tal lugar e talvez tenha um PF” (risos). Era tudo brincadeira, no fim tinha tudo. Depois você chegava, terminava uma cena e você perguntava: “Como está ?”. Ele falava: “Não tem como ficar melhor”. Era uma baita figura. Eu gostava muito do Candeias. Foi uma das pessoas que senti também quando faleceu. Eu participei acho que de A Opção: As Rosas da EstradaA Herança. Este foi um dos primeiros filmes que fiz com ele. Tinha no elenco também o Agnaldo Rayol, o David Cardoso.

Com o David, você trabalhou mais?

 

JL – Sim. Mas ele não estava produzindo. Fizemos juntos no filme do Freund, em que faço um índio, Trindad É Meu Nome. Fiz outras coisas com o David também. Ele é meu amigo, uma pessoa de que gosto muito.

Como você começou a fazer efeitos especiais?

 

JL – Comecei a ver as pessoas fazendo os efeitos e gostei disso. De repente, me chamavam pra destruir uma espoleta, essas coisas. Depois, e peguei gosto pela coisa e fiz vários trabalhos nessa função.

Além dos filmes com o Tony, você dirigiu efeitos num filme do Clery Cunha.

 

JL – Tem um do Clery que ele disse que era uma obra-prima. Tem uma cena em que acendi um cara. Teve outro do Wilson Rodrigues em que ele queria até dar uma cópia do filme pra uma moça da faculdade ver. Tem uma cena em que dou um tiro na testa, e que ele diz que ficou perfeito. Efeitos fiz pra muita gente, para o Galante também.

Como era trabalhar com o Galante?

 

JL – O Galante como produtor? Gosto do gordo também. Ele é meio danado pra acertar (risos), mas é gente fina.

Tinha muita divisão na Boca?

 

JL – Tinham grupos já acostumados. Você tinha um grupo de pessoas com quem você trabalhava sempre, então você ficava muito próximo a esse grupo. Não era uma divisão por quem era melhor ou pior. Tinha um pessoal de vanguarda que era outra turma. Dentro de uma elite, tinha esse grupo. O Jean ia filmar, ele já sabia quem era o diretor de fotografia, quem era o eletricista, o assistente. O Tony ia filmar e já sabia quem era a turma dele. Mas eu trabalhei com quase todos eles.

As ruas ficaram mais cheias no final dos anos 70 e início dos anos 80?

 

JL – Acho que de 1972 até 1980 e pouco foi a melhor fase. Nos anos 90, o negócio já estava meio ruim.

Você fez outro trabalho com o Freund chamado O Diário de Uma Prostituta, um filme com a Helena Ramos. Você se lembra disso?

 

JL – Fiz outro filme com o Freund que não me lembro o nome. Eu estava com uma roupa maluca. Gostava do Edward Freund, era uma pessoa muito amiga.

Tem um boato na Boca de que ele contava piadas ruins.

JL – Ah! Só ele dava risada. Ele contava umas piadas e só ele dava risada (risos). As piadas ele colocava no cinema e não dava certo. Imagine só ele fazendo Trindad É Meu Nome, que é uma sátira de uma sátira. Aí o David Cardoso era o Trindad e o Carlos Bucka era o Butt Spenser. O elenco era bom, tinha a minha amiga Marlene França, veio uma menina que o David trouxe que era miss Pernambuco. David sempre com as misses dele (risos).

Qual é o filme como ator que mais te marcou?

 

JL – Meu Nome É Lampião. Eu entro numas três sequências, mas pra mim é muito bacana, é o longa-metragem que mais marcou. Tem um que fiz no Paraguai que gostei bastante. Me fizeram ser um velho de oitenta anos, o maquiador era um argentino muito bom. Esse maquiador tinha trabalhado durante trinta anos nos Estados Unidos, tinha atuado na televisão. O cara me transformou, me deixou um velhinho. Eu fiz o pai da mocinha nesse trabalho. Fora do cinema, tem um bocado de coisas que fiz. Fiz um monte de comerciais bons.

Comerciais você já fazia na época da Boca ou foi depois?

 

JL – Já estou meio velho pra lembrar das coisas. Acho que fui o primeiro a fazer uma propaganda de caderneta de poupança. Foi o cadernetão feito pela Blinp ou pela Linxs Filmes. Isso foi feito há quarenta anos. Depois, fiz outras com o Blinp do Guga de Oliveira, com a Wilza Carla.

O Guga de Oliveira que foi diretor?

 

JL – Sim. O Guga, irmão do Boni. Fiz um filme dele também chamado Lista Negra Para Black Metal. Uma pessoa maravilhosa. Depois, ele estava fazendo uma novela, um pessoal me encontrou e acabei fazendo uma pontinha. A novela chamava Cortina de Vidro.

Na época da Boca, havia muito preconceito contra quem fazia esse tipo de cinema?

 

JL – Não. Pelo contrário, na nossa época, nós na Boca éramos como reis. Os outros é que eram os outros. Alguns não tinham escritório lá, mas faziam parte de lá. Nós éramos a maioria. Chegou um ano que a rua do Triunfo fez 109 filmes, por aí. Nós éramos as estrelas, quem estava fora é que tinha que se adaptar. O Khouri, por exemplo, fazia o filme dele e não tinha escritório na Boca. Mas a equipe e tudo dele era na Boca.

Como era a relação de vocês do cinema com a marginalidade da época?

 

JL – Tranquila, era como uma família. Cada um ficava na sua. Nunca tive atrito nenhum com bandido lá, nem ninguém. Muito pelo contrário, a gente batia papo com eles. Com quase todo mundo era assim. Ás vezes, alguma besteirinha de um cara que não era muito conhecido por lá. Eles respeitavam a gente, a gente respeitava eles e estava tudo certo.

Quem para o senhor está no primeiro time da Boca?

 

JL – Fauzi, Tony Vieira, David Cardoso, Khouri, Reichenbach, João Batista. Tem outros que vou esquecer e eles que me desculpem. Jean.

Ody?

 

JL- Ody mais ou menos. Era um cara intelectual pra escrever, mas pra dirigir me desculpe. Outro amigo nosso, o Carcaça, era razoável.

 

O Toninho mais como fotógrafo?

 

JL – O Toninho mais fotógrafo, mas também dirigiu algumas coisas. Portioli também.

O Pio?

 

JL – O Pio era um diretor de fotografia muito bom. Fez alguns filmes do Mazzaropi que acho razoável. Nada de espetacular, mas é um cara que conhece cinema. Conhecer cinema é uma coisa, colocar na tela é outra. Tinha outros ali, o próprio Chico Cavalcanti tem umas coisas razoáveis, mas tem umas coisinhas boas.

E o Mojica?

 

JL – Mojica! Ele é uma lenda nossa. Não se pode falar nem bem, nem mal. Ele é o Mojica.

E o filme dele que o senhor fez?

 

JL – (rindo) Finis Hominis, com a Terezinha Sodré. Fiquei um tempo de mal com o Mojica inclusive, mas gosto muito dele. O cara me colocou no cartaz do filme na porta do cinema e não colocou nem o meu nome no mesmo cartaz. Era uma foto linda, eu abraçado com a Terezinha. Mas são coisas que passam, ele é meu amigo. Só acho que ele podia mudar esse negócio de Zé do Caixão, isso já é passado. Fiquei chateado com esse filme dele não ter ido bem de bilheteria. Tadinho, ele merece, é um vencedor do cinema nacional.

Parte 5: Trabalhos atuais, o cinema brasileiro hoje e o futuro

 

Hoje, você trabalha com cineastas mais novos. Como é isso pra você?

JL– Para mim, não tem diferença. Esses jovens têm uma cabeça moderna, pra frente. São pessoas que estudaram. Infelizmente, da parte antiga de cinema, quase ninguém estudou. Mas não é só por isso que vamos dizer que sabem fazer cinema melhor que nós. Mas são pessoas que tem outra visão e outra filosofia do cinema. Eu me dou muito bem com eles, me respeitam bastante.

Como foi sua participação no curta Minami em Close-Up – A Boca em revista, do Thiago Mendonça?

JL– Foi um curta que inclusive foi premiado. O Thiago me tratou com respeito, tratei ele com respeito e não tivemos problemas. Sou um velho jovem (risos), me dou bem com todo mundo.

Como foi sua participação no Hans Staden?

JL – Foi um papel grande até. Mas acontece que eu acabei me aborrecendo com o pessoal da produção. Por isso, eles o acabaram encurtando. Era muita gente, polêmicas. Falei com o diretor que era o Luiz Alberto Pereira, o Gal, e saí. Ele é meu amigo até hoje, não prejudiquei o trabalho de ninguém.

O que você acha do cinema brasileiro hoje?

JL – Tem muita gente que não é de cinema e fala que o cinema nacional cresceu. Pra mim, não cresceu. Antes, você fazia um filme independente com pouco dinheiro e a maioria eram bons filmes. Hoje, o cara gastou oito milhões, você vai ver o trabalho e não corresponde ao valor que ele gastou. Outra coisa: é um negócio de monopólio. Você vê um filme só com um tipo determinado de gente e isso pra mim não é legal. Tem hoje muita gente fazendo filme que não é de cinema, é de televisão. Televisão é uma coisa e cinema é outra coisa.

 

É outra linguagem.

 

JL – Lógico que eles tem direito, todo mundo tem direito de trabalhar. Mas hoje está centrado somente nesse povo. Então, pra mim não houve melhora nenhuma. É aquele povo e acabou. Os outros não existem.

Tropa de Elite você chegou a ver?

JL – Vi. Até gosto.

Cidade de Deus, esses filmes?

JL – Vi alguns deles. Tem uns até mais ou menos, mas tem outros… Falo pela produção e o que o filme é. Você pode fazer um filme que não seja tão interessante, mais ou menos porque talvez você não teve certa produção pra fazer um trabalho. Mas fico louco quando os caras fazem um filme de seis milhões, não sei quantos milhões e você vai ver e não é nada disso. Você vai ver o filme e ele é ruim. Vi muitos filmes nacionais com dinheiro do governo e ruins. Não vou citar nomes, mas tem muita coisa ruim.

O que o senhor acha do financiamento estatal ao cinema?

JL – Não acho legal. O cinema tem que ser feito como indústria. Você coloca o seu dinheiro e aí você vai fazer o seu filme pra você defender o teu. Agora, quando você pega o dinheiro do governo, você está pouco se lixando se o filme deu ou não deu dinheiro. Ainda vai dizer que é filme pra concorrer para o Oscar. Ah, dá licença! Para com isso! Esse filme mesmo sobre o Zezé Di Camargo [Dois Filhos de Francisco]. Não é ruim, mas é um filme infantil, pra criança. Não é algo para mandar para o Oscar. Você mesmo sabe disso.

O Mojica ficou vinte anos sem conseguir fazer um longa-metragem. Você acredita isso é, em parte, algum preconceito contra o pessoal da Boca?

JL – Não chamaria de preconceito. A maioria do pessoal da Boca é meio acomodada. Você tem que correr atrás também. Você vê porque esse pessoal do Rio está sempre conseguindo? Eles correm atrás. Eles não ficam trancados em casa esperando o tempo passar. Acho que o pessoal de São Paulo é muito acomodado, fica muito parado. Acho uma injustiça não financiarem um filme para um Zé do Caixão ou para um Fauzi Mansur. O Fauzi fez grandes trabalhos também. Agora não sei se é preconceito ou as pessoas não correm atrás. Mas de certa forma, alguns tem certo preconceito. Mas isso é coisa de bobo. Boca é Boca, a Boca foi quem levantou o cinema nacional. Tanto a Boca nossa aqui, como a Boca do Rio, o Beco da Fome.

O senhor chegou a ir ao Beco da Fome nessa época?

JL – Sempre fui muito bem recebido no Rio. Nas vezes que fiz filmes lá, sempre passei pelo Beco da Fome. O pessoal tudo gente fina, não tinha divisões, nada. Carioca, lógico, eles correm atrás do deles primeiro. Farinha pouca, o meu pirão primeiro (risos). Mas eles estão certos. O que não entendo é darem dinheiro para empresas de comunicação que tem bastante dinheiro. Eles são os que mais pegam dinheiro do governo. Isso não dá pra entender. Não é que eles não tenham direito, mas os outros também têm. Ser exclusividade dessas pessoas é complicado.

Como surgiu essa oportunidade de participar de alguns filmes internacionais?

JL – Foi por intermédio da agência Princípio do Talento, onde estou cadastrado. Fiz primeiro aqui o Plastic City, que é uma co-produção chinesa, brasileira e japonesa. Tive um papel pequeno, mas legal. Contracenei com os atores principais, um chinês e um japonês cujos nomes não vou lembrar agora. Em 2008, fui pro Rio de Janeiro e fui escolhido para participar de um filme chamado Gringos no Rio [Rio Sex Comedy]. Sei que nesse filme estão o Bill Pullman e um grande elenco. Foi legal, maravilhoso e está pra sair. Gringos no Rio é uma comédia, um trabalho legal. Ainda não vi o resultado final.

Um trabalho internacional te motiva?

JL – Lógico, vou estar lá fora também mostrando o nosso Brasil. É maravilhoso. Pra fazer esse filme, tive que fazer algumas viagens de avião. Na última, eu fiquei com medo e acabei voltando de ônibus (risos). Mas o pessoal da produção era maravilhoso, bacana. Fiquei hospedado em Ipanema, tudo maravilhoso.

E se te chamarem pra novos trabalhos, você está aí?

JL – Sim, enquanto estiver vivo e a sombra estiver na parede, estamos aí.

Depois que o cinema deu uma brecada, você se dedicou mais aos comerciais?

JL – Isso. Depois da Boca, fiquei mais nos comerciais e graças a Deus fiquei nisso. Sou uma pessoa conhecida nos comerciais. Várias agências me conhecem há muito tempo. Sou conhecido no meio de propaganda porque fui o primeiro a fazer propaganda de caderneta de poupança. Então, quando precisam de um índio, estou aí. Fiz índio xaiene, pele vermelha, até navarro já fiz (risos). Fico feliz com isso. Não gosto de televisão, mas gosto de fazer comercial. É rápido e o pessoal é muito sério. Você recebe o que foi combinado de antemão e não tem dor de cabeça.

O que você acha que fica de você para posteridade?

JL – Eu sei lá. O meu filho, graças a Deus, não seguiu a minha profissão. Com a minha família, está tudo legal, ninguém seguiu a arte. Não sei se vou deixar lembranças, saudade, essas coisas. Acho que depois que vai, acaba não se deixando nada (rindo). Depois que foi, já era. O que gostaria de ver antes de ir é um país bonito, não essa miséria, essa fome, drogas, crianças na rua. Essa miséria é uma vergonha. Quando estou com alguns amigos, muitos reclamam que falo palavrão. Retruco: “Isso não é palavrão. Palavrão é você ver quarenta, cinquenta crianças cheirando cola na calçada e ninguém toma uma providência”. Isso pra mim é palavrão, é feio, é desgraça. Queria que nossos políticos tivessem um pouco de vergonha na cara. Eles deveriam pensar que ninguém leva nada pro céu. O homem leva aquilo que ele deixou de história. Se ele nada fez, ele não leva nada.