sábado, 31 de janeiro de 2026

Boleiros II: Playboy entrevista Roberto Carlos (março de 2010)

 Playboy entrevista Roberto Carlos (março de 2010)

 


Uma conversa franca com o ex-lateral esquerdo da seleção e atual craque do Corinthians sobre sua vontade de disputar o Mundial na África, o trauma do meião, desavenças com Galvão Bueno, relógio de 100 000 reais, noitadas em tempos de Copa e festas de arromba ao lado de Beckham e Ronaldo em Madri

 

Raros são os jogadores de futebol que podem ostentar currículo tão vitorioso quando o de Roberto Carlos da Silva. Nascido em Garça, a 415 quilômetros da capital paulista, o lateral-esquerdo tem em sua galeria de troféus dois campeonatos brasileiros (pelo Palmeiras), quatro campeonatos espanhóis, três Champions League e dois Mundiais de Clubes (pelo Real Madrid), além de uma Copa do Mundo. Isso para falar nos mais importantes dos 23 títulos conquistados em 22 anos de carreira. Pela seleção brasileira, disputou três Mundiais e tornou-se o segundo jogador que mais vezes vestiu a camisa amarela, com 132 partidas, apenas seis a menos que Cafu. Com o uniforme do Real Madrid, superou o lendário argentino Alfredo di Stéfano no rol dos estrangeiros que mais vezes defenderam o clube merengue. Em 14 anos e meio na Europa, jogou na Inter de Milão (1995/1996), no Real Madrid (1996 a 2007) e no Fenerbahçe (2007 a 2009).

 

A ideia de se aposentar na Europa foi abandonada depois da enxurrada de críticas que ele enfrentou após a eliminação da seleção brasileira na Copa de 2006, na Alemanha. O jogador foi considerado culpado por não marcar o atacante Thierry Henry no lance que resultou no gol da vitória francesa por 1 a 0 – a famosa “ajeitada de meia”. Determinado a voltar ao Brasil e incentivado pelo amigo Ronaldo, em janeiro deste ano juntou-se ao “bando de loucos” que quer dar ao Corinthians, no ano de seu centenário, o tão sonhado título da Taça Libertadores – o único que falta tanto na galeria do clube quanto no currículo do jogador.

 

Roberto Carlos recebeu o repórter Carlos Eduardo Freitas por duas vezes no Parque São Jorge, na zona leste de São Paulo, antes e depois da vitória por 2 a 1 sobre o Racing, do Uruguai, na estreia do time na competição sul-americana. Na segunda sessão, um curativo no dedão da mão-direita mostrava as marcas do jogo da noite anterior. No intervalo entre as duas conversas, lançou sua grife de roupas, a RC3, e viveu a expectativa do nascimento do oitavo filho, Manuela, a primeira com a fisioterapeuta Mariana Luccon, sua segunda mulher. Com sinceridade que muitas vezes é confundida com arrogância, não reclamou ou fugiu de nenhuma pergunta. Nem mesmo quando o assunto caiu nas festanças feitas por ele e Ronaldo em Madri em seus tempos de solteiro. Determinado a voltar a vestir a camisa da seleção brasileira na Copa da África do Sul, evitou apenas falar sobre o desentendimento com o jornalista Renato Maurício Prado, um de seus desafetos. Já com Galvão Bueno, que o criticou de forma dura depois da eliminação da Copa de 2006, diz ter se entendido.

 

Em 2007, você disse que tinha se despedido da seleção, mas anda dizendo por aí que quer ir à Copa da África. O que mudou?

O Dunga está buscando um lateral-esquerdo desde que eu saí e tem feito muitas experiências. Se eu jogar bem, claro que a imprensa vai falar, a torcida vai pedir. Pus na cabeça também que tenho um passado tão bonito na seleção que não é por causa de um comentário malfeito de pessoas da imprensa que vou me preocupar.

 

No caso, a história da ajeitada de meião contra a França citada pelo Galvão Bueno e um outro problema com o comentarista Renato Maurício Prado, não?

Sobre o problema cm o Renato, prefiro não falar. Não vou criar polêmica. Se fosse sobre futebol, tudo bem, mas sobre vida pessoal não é o caso. Com relação ao Galvão, sempre me dei muito bem com ele. Só acho que ele começou com essa história e todo mundo foi atrás. Faltou respeito, e virei motivo de piada. Já falei tudo que tinha para falar sobre o Galvão, soltei minha mágoa. Mas conversei com ele, voltamos a ter um contato normal.

 

Como você ficou sabendo dessa história?

Na mesma noite, pela minha família. Não tinha de estar ali, não era obrigação minha marcar o Thierry Henry ou nenhum outro dentro da área. Não tenho nem ideia de quem deveria estar lá.

 

Você chegou a ter receio da reação da torcida com relação a esse episódio?

Fiquei meio preocupado porque sempre fui de viajar em turnê com duplas sertanejas como Edson e Hudson, Bruno e Marrone. Cheguei a pensar, de verdade, que pudesse tomar uma vaia. Mas não: fui muito bem recebido quando cheguei ao Brasil. Hoje eu dou risada de toda essa situação, mas era uma questão de eu aceitar ou responder. Preferi retrucar.

 

O Roque Júnior também teve problema com o Galvão durante a Copa das Confederações em 2005 e foi tirar satisfações durante um treino.

E o Roque não voltou mais para a seleção.

 

Você acha que ele tem esse tipo de poder?

O que posso falar do Galvão é que ele é um grande profissional. (Sorri e fica alguns segundos em silêncio.)

 

Pena que a conversa não esteja sendo filmada para mostrar a sua cara agora.

É...Se eu pudesse falar tudo que eu sei... No dia em que eu parar de jogar, escrevo um livro: A Verdadeira História do Futebol. Por tudo o que aconteceu comigo de 1988 até hoje, posso escrever sobre tudo. Ambiente, treinador, imprensa, torcida, títulos, finais, chute na bandeirinha, até a história da meia.

 

Qual é a sua versão para o que aconteceu na Alemanha? Desde então há um empurra-empurra de quem teria a culpa pelo fracasso.

Tenho a mesma opinião do Zagallo, a de que foi um circo na preparação. Aí, passo a responsabilidade para o Ricardo Teixeira (presidente da CBF). E não coloco a culpa em nenhum dos meus companheiros, muito menos em mim. O Zagallo estava lá e viu o que aconteceu. O Ricardo Teixeira estava fora. Poucas vezes ia ao hotel. Sempre vou defender os jogadores e o treinador. Pode ser ruim, mas vou sempre defender as pessoas com quem convivi, e não quem estava fora.

 

Vamos falar de Corinthians. É verdade que você quase assinou com o clube em 1992?

É. Do União São João para cá. Tive até uma reunião com o então presidente Vicente Matheus, mas ele falou que eu era muito baixinho e que meu valor era muito alto – 2,5 milhões de dólares. Com esse dinheiro ele levou outros dois jogadores do União, um atacante e um lateral.

 

A recepção da torcida corintiana te impressionou?

Me surpreendeu a quantidade de gente. Mas acho que minha trajetória no futebol foi tão boa que a recepção por parte da torcida tem sido consequência. Minha despedida do Real Madrid, as chegadas no Fenerbahçe e aqui no Corinthians foram as melhores coisas que aconteceram na minha vida.

 

Por seu passado no Palmeiras chegou a temer algum tipo de reação?

Não, porque não saí do Palmeiras e vim direto para cá. Aceitei porque sou profissional. Em nenhum momento declarei amor no Palmeiras. Se fosse direto de lá para cá, talvez existisse um conflito, mas fiz quase toda a minha carreira lá fora.

 

Mas, se tivesse tido uma proposta do Barcelona, o que você faria?

Aí, se eu fosse para lá, seria traição. Não faria isso com o Real Madrid, o clube que me deu tudo na vida. Vou explicar por que: sou o jogador estrangeiro com o maior número de jogos e títulos pelo clube. Sou madridista doente. Em termos de identificação, estou para o Real como o Cruyff está para o Barcelona. Não dá para comparar com o que vivi no Palmeiras.

 

Você chegou a dizer algumas vezes que sua intenção era jogar pelo Santos. O que o fez mudar de ideia?

O projeto do Corinthians era mais ambicioso. O do Santos era apenas o de uma eleição de fim de ano. A possibilidade de eu ir para lá estava ligada ao Vanderlei (Luxemburgo). Quando decidi voltar para o Brasil, ele foi uma das primeiras pessoas com quem falei. E ele me disse que achava melhor eu não ir para lá. Era fim de mandato da presidência e que ele mesmo só ficaria se o Marcelo Teixeira ficasse. Aí entrou a história de Libertadores, a vinda do Ronaldo para cá... Foram coisas que me fizeram pensar duas vezes e me levaram a assinar com o Corinthians.

 

A presença do Ronaldo foi um fator decisivo?

Foi. Principalmente pelo que ele me falava do ambiente, da estrutura e que com a minha chegada o Corinthians estaria mais forte para a Libertadores. Tinham várias propostas: Fluminense, Santos, Palmeiras. Mas, na hora H, brigar por um título importante que eu não tenho e por ser um ano importante para o clube (centenário) pesaram. Quero continuar ganhando títulos – e um dos poucos que não tenho é o da Libertadores, que fecharia meu currículo de competições importantes.

 

Qual é a motivação de um jogador que ganhou uma Copa do Mundo e três Champions League que volta ao Brasil e aí tem de jogar o Paulistão?

(Gargalha.) É normal. Como jogador contra o Villareal, na Espanha, o Bursaspor, na Turquia. Você tem de ser profissional. É claro que já jogamos em Wembley, em Old Trafoord, Santiago Bernabeu, Nou Camp, mas a realidade do futebol brasileiro é essa: você tem de jogar em Presidente Prudente, Mogi Mirim, Bragança Paulista, Americana.

 

O que você achou da volta do Robinho?

Maravilhoso. Foi uma decisão dele ir para o Manchester City e depois vir para cá porque não estava jogando na Inglaterra. A sorte do Robinho é que ele tem uma imagem muito poderosa no Brasil. É o tipo de jogador que está sem jogar na Europa, mas que quando chega aqui é recebido de outra maneira. Fiquei preocupado quando ele saiu de Madri para Manchester achando que seria o número 1 do mundo, mas não foi assim e tudo começou a andar para trás.

 

A saída dele do City, a de Adriano da Inter de Milão, a de Vagner Love do CSKA e a de tantos outros jogadores não têm contribuído para queimar a imagem dos jogadores brasileiros na Europa?

Não suja nada. O europeu não pensa assim. Eles sabem que, se o jogador não está feliz no clube, não adiante segurar. Ninguém é obrigado a ficar onde não quer. Não custa nada sentar e chegar a um acordo.

 

O Ronaldo, quando voltou, reclamou muito de muita coisa. Do assédio da imprensa no campo, dos gramados, das concentrações. Algo tem te incomodado?

Os horários de treinamento. Aqui a gente precisa acordar cedo para chegar a tempo de treinar às 9 horas. Lá, a gente treinava às 11 mesmo na época do calor. Dava pra acordar às 10 horas. Também são muitos jogos. É quarta e sábado, quinta e domingo. Você concentra terça para jogar quarta, sábado para jogar domingo – e acabou a semana. A gente não tem a nossa viva. Vivemos 100% em torno do futebol. Enquanto isso, os filhos estão crescendo e a gente está concentrado.

 

Por que então os jogadores no Brasil não se organizam para mudar essa situação?

Porque não têm estrutura. Foi o caso do jogo contra a Portuguesa: um absurdo jogar às 4 da tarde no horário de verão, que de fato são 3! Me deu até cãibra! Todo mundo passou mal. Isso não pode acontecer. Quantos jogadores já morreram com problemas? Vão esperar outro morrer para mudar algo?

 

Não seria o caso de grandes nomes como você e Ronaldo, que já estão com a vida feita e não têm mais nada a perder, levantarem essa bandeira?

O problema aí é que envolve televisão – e no Brasil ela ainda é muito importante. Outro dia, ficamos 3 minutos no campo esperando terminar um programa de televisão para o jogo começar. Ou seja: você se aquece, tem o hino e depois fica frio. E a gente respeita isso porque é a emissora que mais paga, que transmite Copa do Mundo, que tem seu poder.

 

Dois lances chamaram atenção nos seus primeiros jogos pelo Corinthians. Em sua estreia, você deu um carrinho e derrubou dois companheiros no banco de reservas. Depois teve o lance da expulsão contra o Palmeiras logo no início.

É motivação. Não importa essa história de idade. Procuro sempre chegar antes do adversário. A expulsão foi precipitada. Em competições europeias, isso é uma jogada normal. Aqui no Brasil, qualquer carrinho que você dá o juiz já dá cartão amarelo, mesmo que você pegue a bola. É uma questão de me adaptar ao estilo dos árbitros brasileiros – e não ao futebol daqui.

 

Por que essa arbitragem é tão diferente da europeia?

Lá eles são um pouco mais profissionais. Cada um tem seu trabalho, mas eles vivem 24 horas o futebol. Aqui eles trabalham e nos fins de semana vão apitar. Se eles acompanhassem mais o futebol europeu – e não peço que copiem -, pensariam de outra maneira. Num clássico, o juiz que mostras que é autoridade – e ele não é. O juiz é uma pessoa que está ali para comandar o jogo, e não para ser o melhor em campo. Não sei se servi como exemplo ao ser expulso aos 6 minutos de um clássico.

 

Você acha que, por ser um lance de Roberto Carlos, pessoa na hora de o juiz tomar a decisão?

Não gostaria de pensar assim. Queria que esse tipo de coisa não ocorresse. Nem comigo, nem com o Adriano, nem com o Vagner Love, nem com o Pelé. De repente ele expulsa o Ronaldo, o Roberto, que são jogadores de nível internacional, porque pensa em Copa do Mundo.

 

O formato do seu contrato atual é bastante diferente do tradicional. Como Ronaldo, você tem participação nos lucros de patrocínios que trouxer para a camisa do Corinthians. Você acha que conseguirá o retorno previsto?

Não estou preocupado porque já fiz minha vida lá fora. Não vim para o Corinthians para ficar milionário, mas para jogar futebol. Lá na Europa, sim. Consegui dar estrutura para minha família e para meus filhos. E sei que os filhos dos meus filhos vão viver muito bem.

 

Como foi trocar a segurança que se tem na Europa para uma cidade violenta como São Paulo?

Para mim, foi normal. Apenas aumentei minha segurança. Sempre tive dois seguranças. Agora tenho cinco. Eu fico com três, minha mulher fica com dois. Acho normal.

 

O normal não seria não ter de se preocupar com segurança?

Exato. Mas o Vágner Love estava sem segurança e tomou pancada de torcedor. Se estivesse com proteção, aquilo não teria acontecido. Infelizmente, aqui você é incomodado quando o resultado não é bom dentro de campo. Meus filhos não aguentam mais andar com segurança. Querem ter liberdade, mas São Paulo é assim, o Brasil é assim.

 

Você não tem medo, por exemplo, de sair dirigindo sua BMW pelas ruas de São Paulo?

Eu ando de Fusca em São Paulo.

 

Mesmo?

Qual o problema de ter um Fusca? Mas aqui eu ando sempre com escolta.

 

Já teve algum incidente?

Uma vez (em 2005), em Belo Horizonte. O cara queria roubar meu relógio, dinheiro. Eu estava dando entrevista ao vivo para a Rádio Jovem Pan num carro e pedi para o (repórter Luiz Carlos) Quartarolo esperar um pouco que eu estava sendo assaltado. Aí ele solta: “O Roberto Carlos é muito querido no Brasil”. E eu: “Querido? Estou sendo assaltado!”. Achou que eu estava dando autógrafo. Mas não tenho medo dessa violência.

 

Vários colegas seus – Deco, Robinho, Luis Fabiano, entre outros – tiveram problemas de familiares sequestrados ou que sofreram ameaças. Isso te preocupa?

É a necessidade que as pessoas passam. E o futebol passa uma imagem dos jogadores ricos, milionários, e causa esse tipo de situação.

 

O que você acha dessas listas de jogadores mais bem pagos do Brasil, do mundo?

Me incomoda. Outro dia vi meu nome numa como terceiro ou quarto brasileiro que mais ganhou dinheiro com futebol. Por que o povo quer saber isso? Querem ver futebol, saber da violência diminuir, ver o salário mínimo aumentar, diminuir a pobreza. Dinheiro para mim não é importante. É só recompensa de tudo o que você faz no mês. Não sei se pouco ou muito, mas é o suficiente pelo que eu fiz na carreira.

 

Em 1998, na época da Copa, você disse uma frase que causou muita polêmica. Disse que usava um relógio que era tão aro quanto um apartamento...

Não falei isso. Quem passou isso para frente foi um jogador que tem amizade com gente da imprensa. Durante uma conversa na seleção, falávamos de dinheiro, no que eu investia, e perguntaram o valor do relógio. E o bobão aqui, mais novo, falou. Essa pessoa que estava lá contou pro amigo jornalista. Aí uma coluna de jornal no Rio publicou umas coisas mostrando minha casa, a segurança, tudo.

 

Mas que relógio era esse?

Era um Breitling que o presidente do Real Madrid havia dado e presente para cada jogador pelo título europeu. Na época, estava avaliado em 100 000 reais. Trabalhei para ter isso, não roubei.

 

É verdade que você tem uma coleção grande de relógios?

É, mas deixei todos em Madri. Coisa da época em que eu comecei a ganhar dinheiro e resolvi investir nisso. Na verdade, eu mais ganho do que compro. Quando compro, é uma peça única. Mas, se um cantor vai na televisão e fala que tem uma coleção de relógios, ninguém fala porcaria nenhuma. Se é jogador, aí, sim. O Samuel Eto´o (atacante da Inter de Milão) tem oito carros. Quando ele fala isso na Europa, todo mundo aplaude: “Parabéns! Fez por merecer!”.

 

Há alguns anos você começou a dar suas cartadas como empresário. Lançou grife de roupas, está há dois anos com uma equipe na Stock Car, é parceiro do Juninho Paulista no Ituano. Como é essa vida dupla de jogador e empresário?

Eu contrato pessoas para trabalhar para mim. No caso da Stock Car tem o Eduardo Bassani; na minha vida pessoal, o Fabiano Farah; no Ituano tem o Juninho e o pai dele; e tinha o negócio da música, que vai voltar de música, que vai voltar em breve. Sou apenas a imagem. Eu fico ali, só vendo.

 

O que mudou nessa sua geração, que trocou a história de ser dono do posto de gasolina pra virar o empresário ou dono de clube, como o Rivaldo, no Mogi Mirim?

A grana, sem dúvida. Na época do Palmeiras eu ganhava um salário horrível. Não era tanto dinheiro como agora. Agora mudou. Todo mundo quer guardar dinheiro, investir em coisa boa, que dê retorno. Além disso, os caras que trabalham com a gente hoje são inteligentes que nas antigas. Meu empresário naquela época, o Oliveira Júnior, parecia ser uma pessoa boa e depois se mostrou bastante maldoso. Por pouco não perco tudo o que tinha.

 

O nível do futebol seja melhor se os clubes no Brasil fossem administrados por ex-jogadores?

Não. Nós, jogadores, não somos preparados para isso. Talvez para ser diretor, mas presidente não. Você precisa de gente que tenha conhecimento, que saiba buscar patrocínios.

 

A sua presença e a do Ronaldo num clube como o Corinthians devem gerar muita curiosidade por parte dos jogadores mais novos. Eles não bombardeiam vocês com perguntas?

Sim, eles querem saber como é o ambiente na seleção, como era no Real Madrid. Perguntam sobre a comida na Espanha, o que a gente fazia nos momentos livres, como eram os amigos por lá. Como é o Zidane, o Beckham. O sono de todo mundo é saber como é o Beckham! (Risos.)

 

Você chegou a dizer uma vez, após trocar a camisa com ele na Copa de 2002, que ele era perfumada.

Um dia contei isso para ele e ele deu risada. É um cara que estava direto lá em casa. Ele vem sempre ao Brasil para cuidar do resort dele no Nordeste (em Natal), mas chega sem ninguém ficar sabendo.

 

Já chegou a encontra-lo aqui?

Não deu tempo. As passagens dele por aqui são sempre rápidas, e ele reclama que troco toda hora de telefone. Mas combinei de ir até lá na próxima vez que ele vier.

 

Os privilégios que você e Ronaldo têm no Corinthians causaram algum time de ciúme no vestiário?

Aqui não tem privilégio nenhum, e a gente não busca isso. Nossa vida pode ser diferente da porta do clube pra fora, mas no vestiário ou no campo tem de ser a mesma coisa.

 

Mas você já criticou os privilégios dados por Florentino Pérez (presidente do Real Madrid) a alguns jogadores. Não é a mesma coisa?

A vida no Real era complicada. Eram todos jogadores milionários. Acabava um jogo, você tinha de assinar contrato com várias empresas. Alugava um jatinho por 40 000 euros e ia embora. Aí o jogador mais jovem, que se dava bem com a imprensa, soltava: “O Beckham saiu de Bilbao no avião dele de 150 milhões de euros e foi embora”. Com o Ronaldo a mesma coisa. Aqui no Brasil não tem como fazer isso. A vida lá é diferente daqui. São outros valores. Lá era bom. (Risos.) A vida era muito boa.

 

O que mais a molecada pergunta a vocês?

De como era a nossa rotina. Normalmente a gente acordava cedo para treinar, depois chamava um monte de amigos lá para casa, ficava até a hora de jantar, saía para algum restaurante e continuava um pouco depois. Como a gente estava solteiro na época, eu e o Ronaldo estávamos sempre juntos. Aí a gente chamava o Robinho, o Cicinho, o Júlio (Baptista). Nós morávamos todos no mesmo condomínio, coisa de 7 minutos da casa de um para o outro, a mais ou menos 15 minutos do centro.

 

Você e o Ronaldo, solteiros em Madri...

Tinha encontros mais familiares, em que o Cicinho levava a mulher, por exemplo, e outros para os amigos solteiros. Aproveitamos aquela época. Nossa vida na Europa era maravilhosa. Dentro e fora de campo. Morar em Madri é bom.

 

Tem uma história de que Victoria Beckham ficou revoltada com a frequência do marido nessas festas.

Ela não me conhecia direito. O Beckham é meu grande amigo europeu. Depois ela viu que não tinha nada a ver. Eram festas normais, durante o dia. Uma vez ou outra a gente passava do horário, mas não tinha nada a ver.

 

Ela não reclamou porque tinha mulheres nessa festa?

Nunca teve!

 

Mas o que rolava nas festas?

Nada de mais. Era como ir a uma discoteca, ficar sentado numa mesa, ouvindo música, tomando uma cerveja ou um vinho.

 

Vai dizer que ficavam você, o Ronaldo, o Júlio Baptista e o Robinho dançando, ouvindo música e tomando cerveja?

É que não tem imagem. E aí não tenho como provar.

 

Assim fica difícil imaginar o que aconteceu, entender como era...

Ótimo! (Risos.) Imaginação é coisa boa. Eram festas normais, a gente se divertia pra caramba. Todo mundo solteiro, todo mundo aproveitava. Era gostoso. Ninguém se drogava, ninguém saía bêbado. Tudo na vida tem um limite. Hoje sou casado, o Ronaldo é casado. A gente aproveitou nossa época de solteiro, e agora temos nossas esposas.

 

Por aproveitar bem a época de solteiro entende-se ter muitas mulheres...

Como qualquer solteiro, a gente fazia muita bagunça. (Longo silêncio.) Coisa de solteiro... Imagina o que faz um solteiro. (Risos.) A gente preferiu fazer uma discoteca em casa a ir para alguma fora, ter foto de alguém saindo carregado. A gente ficava perto de casa, ninguém via absolutamente nada. Tinha o Papi, que era nosso segurança e motorista. Era tudo muito bem organizado. Só uma vez, em uma festa de aniversário do Ronaldo, que entraram uns ônibus cheios de gente. Só as amigas verdadeiras, os amigos verdadeiros. Proibimos fotos por medidas de segurança, mas nem era o caso, porque era só gente de confiança. Mas, depois que deu aquela confusão toda, a gente parou. O Ronaldo nunca mais fez nada desse tipo.

 

O que vocês queriam evitar mostrar a ponto de proibir fotos?

Alguém te vê tomando uma cerveja, um vinho. E a imagem do jogador tem de ser sempre corretinha. Mas até alguns evangélicos tomam sua tacinha de vinho. “Ah, mas se Jesus podia tomar, por que eu não posso?” E, para a gente que não é, uma ou dez é a mesma coisa.

 

Na Alemanha, os jogadores tomam cerveja.

Aqui no Brasil, se alguém tevê com um copo de cerveja, um copinho de uísque já soltam um “Olha lá o jogador bêbado!”!

 

Ronaldo e Ronaldinho são famosos pela fama de mulherengos. Por que de você não se ouvem tantas histórias?

Se eu contar, ninguém sabe. (Risos.) Não procurei criar minha imagem assim. Eles têm a vida diferente da minha. Sou caseiro. Só passei a ficar oito anos solteiro. O Ronaldo começou a jogar no Cruzeiro, namorava umas modelos, e elas ficaram conhecidas. O Ronaldinho, a mesma coisa. Eu, não. Só deslanchei quando me separei. Nunca namorei ou tive relacionamento longo com uma famosa.

 

E curto?

Acho que nenhum também. O negócio é ser rapidão.

 

Mas tem uma história sua com uma famosa muito falada por aí.

Minha melhor amiga. Já até sei de quem você vai falar.

 

Você não teve nada com a Ana Maria Braga?

Ela é minha amiga há dez anos. Tenho carinho por ela, muito respeito. Tanto que ela foi ver a estreia na Libertadores. É gente boa. Não tivemos nada, não.

 

Sua mulher, a fisioterapeuta Mariana Luccon, vai dar à luz seu oitavo filho, a Manuela. Seu plano é montar um time de futebol?

(Risos.) Faltam só três. A Roberta, a Giovana e o Júnior são do meu primeiro casamento; depois viram o Cadu, o Luca, o Christopher e a Rebeca, todos da época em que eu estava separado. Quando fiquei solteiro, tive relacionamentos com outras mulheres. Você quer arrumar uma namoradinha, vai lá e, bem, aconteceu. Não rejeito nenhum filho meu. Todos são iguais.

 

O que você achou da escolha do Brasil como sede da Copa de 2014?

Maravilhoso, porque somos um país rico. A estrutura aqui tanto para a Copa quanto para a Olimpíada vai ser de primeiro mundo. Temos condições de fazer a melhor estrutura, a melhor segurança.

 

Levantamento recente dá conta de que a Copa aqui custará cerca de 17 bilhões de reais. Mais que o dobro na África do Sul. Não é muito dinheiro para gastar com futebol num país com outras necessidades e histórico de desvios de dinheiro?

Ás vezes são feitos comentários sem sentido. Não dá para comparar com a África. Tem de comparar com a Europa. Os turistas preferem vir para cá, e não para a África.

 

Como cidadão, você não teme que boa parte dessa grana vá parar no bolso de algum político?

Quando é uma estrutura tão grande assim, não. Me preocupa quando se faz ponte, quando não constroem rodovias boas. Eu sou muito fã do presidente Lula. Desde que ele assumiu o país, a gente perdeu muito daquela classe baixa. Tem a média baixa, a média e a alta.

 

Quem você aposta como favoritos a conquistar a Copa?

Brasil, Inglaterra, Espanha e Itália. Há boas equipes, mas a nossa é sempre diferenciada. A Espanha ´pode estar jogando bem, mas quando enfrenta o Brasil não ganha. É um time bom, foi campeão da Eurocopa, mas mostrou na Copa das Confederações ser uma equipe que qualquer um pode bater.

 

O Brasil leva o hexa, então?

Ainda tenho dúvidas, mesmo porque essa base ainda não ganhou o mesmo que as equipes anteriores. São jogadores que estão no futebol europeu, mas esse grupo é muito novo. O Dunga está fazendo um time para ser campeão – e vai chegar entre os dois melhores, tenho certeza. Este 2010 vai ser muito bom, mas acho que certeza mesmo só que vamos levar em 2014.

 

Você acha que Ronaldo e Ronaldinho serão chamados?

Queira Deus que sim. Os adversários vão nos respeitar mais.

 

Vocês três têm fama de boêmios. Isso pode ter pesado na hora de o grupo de Dunga, formado principalmente por jogadores evangélicos, decidir quem entra e quem sai?

Isso não tem nada a ver. Futebol é qualidade. O que interessa é se você é bom no que faz. O que podemos dizer do Ronaldo, de Robinho, do Ronaldinho Gaúcho? Estão na noite e já ganharam tudo.

 

Mas o Dunga diz que chegou para botar ordem na seleção depois da zona de 2006.

O Dunga não pensa assim. Quem acha isso é a imprensa. Você acha que o Dunga vai deixar de convocar o Roberto porque ele foi na (boate) Lotus?

 

Mas pegaram mal as fotos de Ronaldo numa balada na Alemanha tiradas em plena Copa...

(Interrompe.) Eu também estava lá. Era nosso dia livre, o único dia de folga em 52 de concentração! Ninguém falou dos outros 51 dias em que ficamos no hotel, com aquele circo todo na preparação. Foram falar da noite em que saímos quando estávamos de folga.

 

Isso não pode ter passado a imagem de que o time não estava comprometido o suficiente?

Se a gente tivesse ganhado, ninguém falaria nisso. Fizemos coisas piores em 2002 e ninguém soube. No Japão era mais liberado do que em 2006. A gente arregaça.

 

E por que ninguém ficou sabendo?

Como era longe, ninguém seguia a gente. Era impressionante: acabava o jogo, a gente estava liberado. Ainda bem que não fizeram fotos nossas lá. Foi bonito.

 

Todo mundo participava dessas festas?

Eu ia. Dos outros, não falo.

 

O que você vê de positivo na equipe de Dunga?

É um grupo como o de 2002, com todos pensando no mesmo objetivo.

 

Isso é diferente do que havia em 2006?

Naquela época tinha o número 1 do mundo, o número 2 do mundo, o 3, o 4. (Risos.) Neste ano é diferente. No nosso tempo, a gente controlava muito dentro e fora de campo. Tinha reuniões com Ricardo Teixeira, treinador, jogadores. Todos sentavam e ouviam. A gente dava conselho, mas a responsabilidade era do treinador. Hoje, só falam os que comandam.

 

Você acha que ainda tem condições de vestir a amarelinha?

Estou me preparando para voltar. E meu estilo de jogar facilita para que as pessoas mencionem o meu nome quando o assunto é seleção.

 

Faz falta alguém como o Roberto Carlos na seleção?

Acho que não.

 

Como você espera ir para a Copa se não faz falta ao time?

(Risos.) Se falo que faço, vão dizer que estou em achando, que sou prepotente. É complicado. Vejo bons laterais na seleção, mas diferentes do meu estilo de jogar. O meu deu certo nesses 16 anos em que estive lá dentro.

 

Sendo realista, você ainda vê chances de ir?

Acho que sim. O Dunga tem convocado dois jogadores que atuam no meio-campo para jogar na lateral. Não vou começar a me desdobrar para conseguir ir, mas, se derem brecha, tô dentro.

 

Publicado originalmente na revista “Playboy” em março de 2010

sábado, 17 de janeiro de 2026

Boleiros I: Playboy entrevista Edmundo (maio de 2014)

Playboy entrevista Edmundo (maio de 2014)




O ex-jogador e hoje comentarista fala sobre a fama de “animal”, mulheres, Ronaldo, o filho homossexual, as burradas na carreira e a amizade com Caetano Veloso

 

Nos anos 90, ele era personagem principal do futebol brasileiro. Para o bem e para o mal. Tudo o que fazia repercutia. Os gols bonitos viravam gols antológicos. As confusões em que se metia eram amplificadas. Com pouco ou nenhum jogo de cintura, Edmundo Alves de Souza era presa fácil nas emboscadas midiáticas. Edmundo surgiu no final dos anos 80 em um Vasco que já tinha estrelas como Romário e Bebeto. Vinha do modesto bairro do Fonseca, em Niterói. Em 1993, o Palmeiras investiu 2 milhões de dólares e concretizou a maior transação no mercado interno até então. Funcionou. Já na primeira temporada, Edmundo ajudou o Palmeiras a sair de uma fila de 16 anos. Ao virar celebridade instantânea, Edmundo colecionou prêmios de melhor em campo e manchetes relatando suas brigas com adversários e companheiros. Dois títulos paulistas e dois brasileiros depois, ele chega ao Flamengo em 1995 para formar com Romário e Sávio o “melhor ataque do mundo”. Na vida real, aquele Flamengo não deu em nada. Para piorar, no mesmo ano, Edmundo foi protagonista de um acidente na Lagoa Rodrigo de Freitas que acarretou na morte de três pessoas. O exame toxicológico mostrou que Edmundo não havia ingerido álcool, mas ele estava muito acima do limite de velocidade permitido no local. O jogador foi condenado a quatro anos e meio em regime semiaberto e dormiu uma noite na cadeia. As polêmicas seguiram quando se transferiu em 1998 para a Fiorentina, na Itália. Desde o momento em que chegou, já queria voltar. Conseguiu. Voltou ao Vasco, passou por Fluminense, Santos, Cruzeiro. Nova Iguaçu, Figueirense e Palmeiras. Teve uma breve passagem pelo Napoli da Itália e ganhou dinheiro no Tokyo Verdy e no Urawa do Japão. Acabou se despedindo no Vasco em 2012. Hoje, aos 43 anos, é comentarista da Rede Bandeirantes. Está bicho solto após dois casamentos com a namorada de infância Adriana Souza e com a jornalista Clarissa Ivalski que, somados, duraram mais de 20 anos. Com Adriana, teve Carolina (19 anos) e Edmundo Jr. (15 anos). Com Clarissa, Catarina (5 anos). E da relação com a ex-modelo Cristina Mortágua, nasceu Alexandre (19 anos), o filho distante que declarou ser homossexual.

 

Para entrevistá-lo, o diretor de redação da PLAYBOY foi ao escritório da sua empresa de eventos na Barra da Tijuca. Sérgio Xavier Filho havia feito a reportagem que estampou a capa da revista PLACAR em 1995. Edmundo aparecia com um ursinho de pelúcia na foto de Bob Wolfenson com a chamada “O Animal precisa de carinho”. De lá para cá, fez análise e está mais sereno. Foram quatro horas de conversa, cinco momentos em que precisou parar para enxugar as lágrimas. O garoto irascível, genial e atormentado dos anos 90 foi embora. Em seu lugar, entrou um sujeito maduro, sereno e não menos atormentado.

 

Em 1995, “o Animal precisava de carinho”. Você segue precisando de carinho?

Preciso até hoje. Naquela época, havia uma revolta interna e ela não passou. A diferença é que eu estou mais equilibrado. Venho de uma família pobre. Cheguei ao Palmeiras com um dos maiores salários do Brasil. Com todos os microfones apontados para mim, era mal compreendido.

 

E onde está a revolta?

O jovem não percebe os erros. Nessa época, eu precisava de carinho para compreender melhor o novo mundo em que eu estava me metendo.

 

Qual é o tamanho da miséria que você passou na infância?

Eu vivia em uma tremenda gangorra. Meu pai era barbeiro, minha mãe lavava roupa para fora, também era faxineira, fazia o serviço em casa de família. O piso da nossa primeira casa era de chão batido. Só que eu tinha uma tia que trabalhava no Banco Nacional. Como ela não tinha filhos e meus pais estavam sempre na rua trabalhando, fui meio que criado por ela. Tinha acesso às coisas, tinha roupa, boa alimentação. A outra tia, a Marly, não tinha filhos e era professora de uma escola particular. Em função disso, eu estudava na escola dela. Era uma gangorra, eu vivia lá em cima com elas e baixava para a pobreza quando voltava para casa. Não passei fome, não.


Você já tinha algum ídolo no futebol?

Sou vascaíno e meu ídolo, claro, era o Roberto. Mas sempre gostei do Zico, de vê-lo jogar. Ele tinha o drible, eu me identificava mais com ele. Depois a gente se mudou para São Gonçalo, mais longe ainda que Niterói. Tentei uma vaga no Botafogo. Pegava o ônibus, ia até o centro de Niterói. Depois, a barca. Daí, mais outro ônibus até a Central do Brasil. Da Central, trem até Marechal Hermes. Dava umas quatro horas para fazer uns 60 quilômetros. E depois mais quatro horas para voltar...

 

Tem que gostar muito...

Ou precisar muito. Ainda bem que isso não durou. Uma vez aprovado no Botafogo, fui morar na concentração.

 

Por que você saiu do Botafogo?

O Botafogo de hoje é organizado, na minha época não era. Nos juniores, de vez em quando não tinha janta. Como eram três anos na categoria e no primeiro ano a chance de jogar no time de cima era pequena, eles pediram para eu sair da concentração. Não estava sendo valorizado.

 

Tinha algo já com o Vasco?

O Isaías Tinoco (supervisor do Vasco) já tinha me visto jogar pelo Botafogo. Aí, uns meses depois, eu faço um gol no Maracanã na preliminar de Vasco x Botafogo.

 

Um golaço, dizem. Daqueles que, como o de Pelé na Rua Javari, muita gente jura que viu...

Olha, talvez o mais bonito da minha vida, só que não foi gravado. (Risos.) Pego a bola na minha intermediária após o escanteio. Driblo uns quatro jogadores do Botafogo, mas o goleiro e o boto para dentro. E foi aos 45 minutos do segundo tempo, na preliminar de um jogo com mais de 100 mil pessoas (eram 34 870 pagantes).

 

E aí aparece a história de que você andava pelado na concentração.

Era verdade mesmo. Quem mora no Rio de Janeiro sabe que o lugar mais quente do mundo é Bangu. O segundo, Marechal Hermes. Lugar que era para dormirem oito pessoas, dormiam 30 sem ventilador, em beliches. A gente dormia pelado mesmo. O sono era intervalado. Dormia um pouquinho, tomava uma chuveirada gelada e voltava para dormir de novo. Aí, em um sábado, passei pelado do dormitório para o banheiro. Havia uma área aberta e dizem que a mulher de um dirigente me viu passando. A história é verdadeira, só que não foi por isso que saí do Botafogo.

 

A chance para jogar no time de cima do Vasco surgiu em 1991? O golaço do Maracanã ajudou?

Sim, mas demorou uns seis meses para surgir a chance. O (Antonio) Lopes, que treinava o profissional, me chamou para treinar com a equipe principal. Isso foi em 1991. E tinha muitos ali no meio onde eu jogava, William, Flavio, Bismarck, Geovani, muito jogador de nome na época. Na frente eram o Bebeto e o Sorato. Faltava espaço para mim. A oportunidade apareceu já com o Nelsinho Rosa de treinador. A gente tinha um jogo pelo Brasileiro em 26 de janeiro de 1992 contra o Corinthians do Neto (4x1 para o Vasco no Pacaembu). O Luisinho (volante) foi expulso e teoricamente o Nelsinho deveria me tirar para colocar mais um marcador. E aí ele pediu que a gente ajudasse na função e deu tudo certo. Foi uma estreia fantástica.

 

Você já era um bad boy em campo?

Nada. Sempre fui disciplinado. Tinha respeito à hierarquia. Eu dizia, na época, que morava dentro da mochila. Eu andava com uma mochila azul grande que tinha tudo. Surgia uma carona para Jacarepaguá? Ia com o Geovani para lá e dormia na casa de uma tia. O Bismarck morava em Niterói e aí eu dormia na casa da minha mãe. Até que, vendo essa situação instável, o (coordenador de futebol do Vasco) Paulo Angioni conseguiu que eu fosse morar no hotel onde o Vasco concentrava na Glória. Isso depois que fui convocado para a seleção. Aí me deram também um Chevetinho...

 

E quando você viu um dinheiro mais graúdo?

Nesse ano não vi muito, mas no primeiro jogo (contra o Corinthians, no Pacaembu) pintou um bicho bacana. Nós fomos de ônibus para São Paulo e o bicho foi pago na volta, e no próprio ônibus. Com o dinheiro na mochila, fui dormir na casa da minha tia. Aliás, ela (Lúcia Barros) nem é minha tia, e sim mãe do Luiz Cláudio, que jogou comigo no Botafogo e não fez sucesso. Cheguei de madrugada e só fui falar com ela no dia seguinte. Era folga, segunda-feira, tinha prometido que... (emocionado) se tudo desse certo, eu iria comprar uma máquina de lavar para ela. Ela reclamava que não aguentava mais lavar roupa. Fui ao shopping com o Luiz Cláudio e a gente comprou a máquina, roupa para mim e para ele, e ainda sobrou para eu abrir uma caderneta de poupança (enxugando as lágimas).

 

Isso só com o bicho.

Mas fui ver dinheiro de verdade quando me transferi para o Palmeiras. Aí comprei uma casa pra a minha mãe, um apartamento para mim.

 

Quando você se deu conta de que era famoso?

No Palmeiras, havia sido o maior negócio dentro do futebol brasileiro (2 milhões de dólares). Tinha a responsabilidade de tirar o Palmeiras da fila de 16 anos. E fomos campeões no primeiro ano. São Paulo valoriza quem é bem-sucedido. Fotos, todo mundo olhando...

 

Você metia a mão no bolso para pagar a conta no restaurante?

Eu já era noivo da Adriana e aí resolvi levá-la ao Jardim de Napoli, que ficava perto do hotel onde eu morava em Higienópolis. Me contaram que lá tinha o melhor polpertone do Brasil. Não sabia que aquilo era reduto palmeirense. Nesse dia, o seu Tonico (Buonerba, o proprietário) disse que eu não precisaria pagar a conta não só naquele dia, mas nunca mais. Todo domingo que estou em São Paulo para comentar jogos pela Bandeirantes, eu saio mais cedo do Rio para almoçar com eles.

 

Mas a vida no Palmeiras não foi só felicidade, certo? Você vivia às turras com o treinador Vanderlei Luxemburgo.

Eu o tratava como pai, um baita treinador, nunca fui treinado por alguém melhor do que ele. Mas ele sempre quis uma afirmação desnecessária. Naquele momento, vindo do Olaria, do Bragantino, ele precisava de reconhecimento. Aí achou que, brigando comigo, iria ter essa notoriedade. Um dia ele me substituiu e eu saí falando “se for para me tirar todo o jogo, nem precisa me colocar”. Foi o que me tirou da Copa de 94. Não era nada demais. O problema é que falei isso gesticulando, com o dedo em riste. Ele me afastou e eu não fui chamado para os últimos amistosos. Ronaldo e Viola estavam contra a Islândia em Florianópolis, fizeram gols...

 

E com os outros jogadores? Não saia faísca?

Quando se aparece mais, tudo o que você faz recebe um peso maior. De fato, de fato, a única pessoa com quem briguei do grupo foi o Antônio Carlos (zagueiro). As pessoas diziam que eu não me dava com o Evair (companheiro de ataque de Edmundo). Somos diferentes, ele do dia, da igreja, mais na dele. E eu da noite, mais expansivo. Em um dos meus afastamentos do grupo pelo Vanderlei, o Evair foi importante. O treinador reuniu o grupo para decidir pelo meu retorno. O primeiro que se levantou foi o Evair: “Ele é maluco, fominha, tem todos os defeitos, mas é imprescindível aqui”. No auge da história de que a gente não se dava, ele fez isso. Nos aproximamos depois do episódio.


A origem dos problemas é sempre a mesma. Você é um animal competitivo. Está agora aqui tranquilo comigo. Mas, se formos jogar bola, você não vai mais me tratar bem...

(Risos.) É, é verdade... Uma vez no treino do Vasco, toquei e recebi a bola torta. Xinguei o sujeito. Toquei pro outro, o cara perdeu a bola. Xinguei de novo. O time não funcionava. O Lopes parou o treino e me abraçou. Basicamente ele me disse o seguinte: “Eles não têm a sua qualidade, eles não são iguais a você. Se fossem, seriam os maiores salários do clube”. Aquilo abriu a minha mente. Já com 30 e poucos anos, parei para pensar. Tinha tudo o que sempre quis, filhos saudáveis, bons amigos, só não tinha paz e tranquilidade. Procurei uma psicóloga.

 

Mas você já tinha passado por psicólogos?

Foi a primeira vez que eu fui de coração aberto. Se eu brigo com 20 pessoas, provavelmente não são os 20 que estão errados. Passei a ter mais jogo de cintura. Era um cara, mesmo ganhando, difícil. Não conseguia recuperar a minha paz de espírito após um jogo. Levava umas três, quatro horas para ficar normal. Não dava beijo na minha mulher e nos meus filhos. Não queria ver ninguém. Voltava para casa, dava uma dormida no quarto e só então voltava a ser sociável. Sempre me entreguei demais no jogo, mesmo nas vitórias, imagina nas derrotas...

 

E você não era fácil antes das partidas também.

No dia do jogo, já não falava com mais ninguém. Telefone, nem pensar. Nada de “bom dia”, “boa tarde”. Chegava duas horas antes no vestiário. Tinha um ritual que era colocar o uniforme, pegar uma manta e um travesseirinho, mesmo com calor. Não dormia, mentalizava tudo o que iria acontecer no jogo, calculava quem ia me marcar. Quando isso não dava certo, a coisa degringolava. (Risos.)

 

E nas noitadas em véspera de jogos?

Jamais. Na véspera, nunca. Na sexta, muitas vezes. Cheguei várias vezes no recreativo do sábado virado de noitada.

 

Você se arrepende de alguma expulsão em especial, alguma briga?

Teve aquela em 1995, em Quito (o Palmeiras enfrentava o Nacional do Equador pela Libertadores), quando eu chutei uma câmera de TV. Foi na saída do intervalo. Eu tinha perdido um pênalti aos 44 minutos, estava furioso, não queria falar com ninguém, o repórter insistia na entrevista. O fio do microfone esticou no meu pescoço. Nisso, o câmera caiu no chão e eu, irritado, “pum” (chutou a câmera).

 

E aí você foi parar na delegacia.

Não, não cheguei a ir. Pela lei deles, se eu ficasse no hotel, não poderia ser detido. Fiquei alguns dias sem poder sair do hotel. Nem foi tão duro, tinha até um cassino lá dentro. (Risos.)

 

Em um jogo do Vasco contra o América, em Natal, você se irritou com o árbitro cearense Dacildo Mourão e soltou a seguinte frase: “A gente vem na Paraíba, um paraíba apita, só pode prejudicar a gente, né?” Olhando agora para trás, você se envergonha dela?

As pessoas são preconceituosas, eu não. Chamar uma pessoa de baiano em São Paulo é normal, certo? E, aqui no Rio, o baiano é o paraíba.

 

É normal, mas nem por isso deixa de ter o aspecto preconceituoso. Os nordestinos são colocados todos na mesma bacia. E não costuma ser um tom elogioso...

(Interrompendo.) Fui infeliz na frase, mas não era preconceituoso. Na minha família, havia nordestinos. É como o meu amigão, quase irmão, o Luiz Carlos. Ele é escuro, e eu falo com todo o carinho do mundo um “fala, negão”. Preconceito? Tudo comigo sempre foi exagerado. Até os gols, alguns normais viravam “antológicos”. E as cagadas também, aumentavam porque eram minhas. Até o meu apelido de “Animal”, que era uma gíria da época para coisas boas, acabou ganhando uma conotação negativa.

 

Espera aí, o apelido era perfeito para você. Tinha mesmo o lado de algo incrível, positivo, e tinha também o significado da agressividade, que combinava com o seu jeito.

É, mas o engraçado é que ele não foi feito para mim. O Osmar Santos usava para o jogador que era o melhor da partida. “O animal do jogo”. Como eu era muitas vezes o melhor em campo, o apelido pegou em mim. O Adriano, que é um cara que eu amo, acabou virando “Imperador”! Ele faz as mesmas cagadas que eu, até mais, mas virou “Imperador”.

 

Vamos só lembrar que na Itália, em Roma, tivemos imperadores mesmo e um deles se chamava Adriano. Ele deu sorte, certo?

É, tudo bem. Mas e o Luís Fabiano, que também fez muitas cagadas e vira “Fabuloso”? Sorte também?

 

Você voou em 1997. Campeão brasileiro pelo Vasco, artilheiro e recordista de gols no Brasileirão. Como você não era titular na Copa da França?

O (técnico da seleção Mário Jorge) Zagallo tinha o seu ataque titular, Ronaldo e Romário. Mas o Romário se machucou já na França, e foi cortado. Achei que eu era a bola da vez, mas aí veio aquela entrevista que deu para a Rádio Globo ao meu amigo Apolinho (Washington Rodrigues, radialista que também foi técnico do Flamengo em 1995)...

 

Você acha que não virou titular da seleção com a saída de Romário por causa de uma entrevista?

Eu não acho, tenho certeza. O Apolinho estava no Brasil e, quando soube do corte do Romário, me ligou e fez uma longa entrevista. Às vezes, a gente fala demais mesmo. Disse que tinha chegado a minha hora de ser titular. Para piorar, os jornalistas que estavam na França não gostaram de eu ter dado uma entrevista exclusiva para alguém que nem estava lá. Eles ficaram de cara virada para mim. E o Zagallo, mais ainda. De cara, ele colocou o Bebeto no lugar do Romário e o reserva imediato ficou sendo o Denílson. Fiquei sem espaço. Aí teve o episódio do jogo contra a seleção de Andorra, que foram uns 13x0 e todo mundo do banco entrou, menos eu (na realidade, a partida foi 3x0 para o Brasil e seis reservas entraram em campo, Edmundo não era um deles).

 

Você jogou mais bola que o Ronaldo em 1997?

Não só em 1997, eu joguei mais que ele a vida inteira.

 

Jogou mesmo?

Joguei. Fiz o dobro de gols (Ronaldo marcou na carreira 481 gols. Edmundo, 334). Fui campeão mais vezes. Ah, ser campeão brasileiro não tem valor. E ser campeão italiano, tem? Joguei na Itália, lá é campeonato de dois, três times. Aqui tem 12 times que podem ser campeões. Ser artilheiro aqui é duro. O Ronaldo jogou aqui e não conseguiu. A única coisa que diferencia o Ronaldo é o desempenho dele com a camisa da seleção brasileira. Fez mesmo gols antológicos, mas jogar, efetivamente... Acho que o Romário jogou mais que eu. Zico, Rivellino, Paulo César Caju, uma porrada de jogadores foram melhores do que eu. Mas o Ronaldo, sem sacanagem, não acho.

 

E o Romário, que já se atritou com você, foi melhor mesmo?

Sim. Ele era sensacional. O Romário tinha uma coisa só dele que era a finalização. Mais a percepção de posicionamento e a velocidade de pensamento. Convivi com ele no início da carreira. No pique de 20, 30 metros ele ganhava de qualquer um. Só que ele era preguiçoso, nunca trabalhou. Teve um incrível Vasco e Botafogo que fez três gols (em 1988, Vasco 4x3 Botafogo). Ele saía 10 metros atrás dos zagueiros e chegava 10 metros na frente.

 

Outro dia eu revi aquele Brasil x Uruguai, 2x0 nas Eliminatórias de 1994...

(Interrompe animado.) Esse jogo foi sensacional! Ele me ligou do intervalo. A gente era muito, muito colado. Eu estava no Maracanã. O primeiro tempo dele foi maravilhoso, só que o gol não saiu e ficou 0x0. Ele me ligou do vestiário no intervalo: “E aí, bacana?” Respondi para ele: “Calma, que o gol vai sair”. No segundo tempo, fez os dois golaços. O segundo gol foi sacanagem. Ele dá o drible da vaca, o goleiro meio que sai para o lado certo, o Romário corta caminho e ainda chega na frente. Aquilo é coisa de quem tem muita velocidade.

 

Se o Romário não tivesse se machucado em 98, o Brasil seria campeão?

Mesmo com o Romário cortado, tínhamos todas as condições de ganhar. O problema foi a convulsão do Ronaldo no dia da final que mexeu com todos. Aquela seleção da França era o Vasco de 97. Explico. O Vasco de 96 era horrível e, com a entrada de dois atletas, encaixou. Chegaram Evair e Mauro Galvão, dois jogadores mais velhos. Só aí que o Juninho virou o “super-Juninho”, o Ramón jogou pra caramba, eu tive um ano excepcional, a partir dali viramos todos craques. A França era a mesma coisa, alguns jogadores até estavam bem na Itália, como o Thuran e o Djorkaeff, o Zidane ainda não era tudo aquilo. De repente, viraram um time.

 

Voltemos à convulsão. O que só você viu?

Fui o primeiro que viu. Eram quartos conjugados com uma porta no meio. Levantei (depois do almoço, no final da Copa) para ir ao banheiro. Nisso, a porta estava aberta e vi ele tendo a convulsão. Ele estava deitado na cama e o Roberto Carlos estava na cama paralela, com a televisão ligada. O Roberto estava com o fone no ouvido e não percebeu nada. Ronaldo estava todo roxo, com a boca espumando e o corpo se contraindo. Saí para chamar o médico que estava numa estrutura distante. Quando voltei, eu e o César Sampaio tivemos a coragem de desenrolar a língua dele. Quando os médicos vieram, a imagem não era tão forte.

 

Quando eles chegaram, a convulsão tinha terminado?

Nós tínhamos controlado. O doutor Joaquim da Mata, que era mais jovem, auxiliou mais. O doutor Lídio Toledo era mais velho e, assim como o Zagallo, demorou para chegar.

 

E foram eles que decidiram pela escalação de Ronaldo...

Eles chegaram atrasados, não viram e depois escalaram, essa é a grande verdade.

 

Se você tivesse sido escalado para jogar desde o início, ainda assim haveria um abalo.

Com certeza. Cara, todo mundo se concentra e a convulsão do Ronaldo quebrou a concentração. Entramos dispersos, a França se aproveitou disso e botou 2x0 no primeiro tempo.

 

Quando vocês souberam que o Ronaldo iria jogar?

No lanche, antes da partida, aparece o Ronaldo, todo cabisbaixo. Não comeu nada e saiu para falar ao telefone no campo atrás do refeitório. Aí o Leonardo chamou a atenção dos médicos. “Esse menino não está bem, tem que levar ele para fazer exames”. Uma hora depois, já na preleção, soubemos que o Ronaldo tinha ido fazer os exames. O Zagallo contou aquela história da Copa de 62, que o Pelé não podia jogar, que o Amarildo entrou e o Brasil foi campeão... Aí, disse que Ronaldo não iria jogar quem iria entrar era o Edmundo. Aí eu soube que seria titular. Ele se dirigiu a mim: “Edmundo, essa é a sua oportunidade”. Fomos para o estádio. Trocamos de roupa e, quando nos reunimos para fazer o aquecimento, chegou o Ronaldo. Já vimos ele mais sorridente dizendo: “Vou jogar, cadê minhas coisas? Vou jogar...” Aí eles se reuniram, Zagallo, Zico, Lídio e Joaquim e Américo (Faria, supervisor). O Zagallo, de longe mesmo, me sinalizou: “Edmundo, segura um pouquinho”. Tá bom.

 

E deu no que deu.

O médico que deveria ter pulso para não permitir a escalação de alguém que tinha tido uma convulsão. Tirar o melhor do mundo não era uma decisão muito fácil.

 

Por falar em melhor do mundo, qual é o tamanho do Neymar para você?

Vamos medir na Copa. Seu desempenho no Mundial será importante para ganhar moral no Barcelona. Ele é diferente lá, não guarda posição, arrisca nos dribles. O Barcelona montou uma mecânica de jogo para que só o Messi tenha o direito de arriscar. Vejo o Neymar com o mesmo potencial do Messi e do Cristiano Ronaldo.

 

Ele já chegou no patamar de Zico e Romário?

Acho que está próximo de alcançar. Falta ainda para pegar o Zico. Ele precisa ser protagonista de um grande time. A gente vive falando de Barcelona, Real Madrid, mas o Flamengo de Zico foi protagonista do futebol mundial. A gente valoriza demais o que vem de fora. A Champions League parece interplanetária. Não é nada, eu joguei, deitei em cima daqueles malandros lá de cintura dura. É mais difícil jogar aqui, 45 graus de temperatura, campo ruim, torcida jogando coisa. Bota o Iniesta, o Messi para jogar aqui em Bangu. (Risos).

 

Qual é a mágica do Felipão?

Nunca trabalhei com ele, mas algo de especial ele tem. Pega a mesma seleção destroçada de Mano Menezes e faz um grupo campeão. Treinar é fácil. Gerir um grupo é duro, e o Felipão faz isso com maestria... Claro que a torcida pesa. Eu estava nos estádios em todos os jogos da Copa das Confederações. Chorei em todas as partidas om o hino. Eu choro, canto, apesar das limitações, do padrão Fifa... (Risos.)

 

Quem ameaça o Brasil?

A Espanha ainda é a Espanha. O Brasil terá três adversários fortes: Espanha, Argentina e Alemanha. Pouco provável que saia um campeão diferente desses. A Argentina vem muito forte, tem jogadores, e a Copa no Brasil motiva para eles também. O Messi precisa jogar bem, já é a terceira Copa dele, é bom não esquecer.

 

Quem você aposta no Brasil além do Neymar?

Fred. O Thiago Silva pode se destacar, o Paulinho é bom pra cacete, mas pra decidir, é lá na frente. Por que o Fred? Porque o Brasil tem muito volume de jogo, a bola chega muito.

 

Você jogou na Fiorentina entre 1998 e 1999. O quanto você desperdiçou a sua passagem pela Itália?

Ah, 100%. Porque é um lugar lindo, as pessoas maravilhosas. Desperdicei mesmo minha passagem por lá. Tinha acabado de ser campeão pelo Vasco, só que cheguei na Itália e fui direto para o banco. Eu me arrependo muito, muito mesmo, de ter feito tanta força para voltar ao Brasil.

 

O que deu errado então?

O Vasco me vendeu após a Copa América, só que fui “entregue” no fim do ano. Nesse meio tempo, apareceram muitas propostas melhores. Então fiz o possível para não ir. Queria melar, a Fiorentina não era um time de expressão. Enfiamos uma cláusula que me dava folga para voltar ao Brasil em todo Carnaval. E eles toparam! Tudo que eu pedia eles colocavam em contrato. Eu comecei no banco mesmo, reclamei ao treinador e ele me prometeu que, assim que eu voltasse da seleção na Copa Ouro (janeiro de 1998), eu entraria no time. Nesse meio tempo, a Fiorentina engrenou vitórias. Voltei da seleção na semana anterior ao Carnaval. Segui no banco. Fiquei furioso. A gente não aguenta quem não tem palavra. Comprei uma passagem para voltar. Não porque era Carnaval, é porque coincidiu, né? (Risos.) O Zagallo me ligou dizendo que, sem jogar, eu não poderia ir à Copa. Voltei. E virei titular. Passei a marcar gols, arrebentei. Veio a Copa do Mundo e o novo treinador, (Giovani) Trappatoni, veio falar comigo na França. Disse que confiava em mim, que eu ia ser titular absoluto. “Só que agora eu quero aumento”, avisei. (Risos.) Ora, eu vi que o (argentino) Batistuta e que o (português) Rui Costa ganhavam mais do que eu. E eles me deram aumento.

 

E você teve mais um problema no Carnaval de 1999...

No Carnaval seguinte, as parcelas do salário estavam atrasadas. Continuava no contrato que eu poderia voltar ao Brasil no Carnaval. Aproveitei para cobrar as parcelas atrasadas. Eis que vem um jogo contra o Milan, em casa. Éramos líderes do campeonato. Nesse jogo, o (atacante belga) Oliveira se machucou, o Esposito (italiano, outro atacante) entrou, tomou cartão e foi suspenso. Chegou a segunda-feira, os caras não me pagavam. Peguei o avião e vim pro Brasil. O que aconteceu? No domingo seguinte, de Carnaval, a Fiorentina jogou contra a Udinese e perdeu. Sabe quem jogou de atacante? Serena, que era lateral-esquerdo. Aí o Milan ganhou em casa e passou a gente na tabela. Eles botaram a culpa em cima de mim. Dizem que foi por causa do Carnaval. Voltei. No jogo seguinte, ganhei praticamente sozinho do Empoli. Mas o Milan não perdeu mais e acabou campeão. Ah, e eles não me pagaram, tive que receber os atrasados na justiça.

 

Onde você ganhou dinheiro na carreira?

Ganhei dinheiro no atraso dos clubes, essa é a verdade. (Risos.) Quando não recebi do Flamengo, fiquei com 15% do meu passe. O Vasco ficou um período sem me pagar, ganhei mais 15% do passe. Quando fui vendido para a Fiorentina, tinha 30% da negociação e ganhei um bom dinheiro. E depois no Japão. Quando eu recebi os dólares no Japão, eles valiam quatro reais. Amigos compraram imóveis e ganharam dez vezes mais do que eu, que fiquei com o dinheiro em dólar.

 

Quais são os seus sonhos?

Ser presidente do Vasco. E estou filiado ao PDT. Para me candidatar à próxima eleição, precisaria me desvincular da Rede Bandeirantes até 4 de julho e a Copa vai até 13 de julho. Dificilmente eu serei candidato agora.

 

Qual seria a bandeira como político?

Combate às drogas, até pelo lado pessoal. Perdi meu irmão para as drogas.

 

O seu irmão se afundou na cocaína. Terminou encontrado em um porta-malas cheio de balas. Quanto tempo você levou para se recuperar?

Estou destruído até hoje. Perdi meu irmão, meu pai, minha mãe (os pais morreram doentes poucos anos depois). O meu chão se foi. Não vou me recuperar nunca. Trocaria fama, carreira, dinheiro, tudo (emocionado)... para tê-los comigo. Em um momento, precisei me afastar deles para tentar ser alguém. Finjo que sou feliz. Meu irmão não chegou a trabalhar no tráfico, mas era usuário. Mas, sem trabalhar, ou você ajuda a vender ou faz pequenos furtos para sustentar o vício.

 

Em um momento, você se afastou da família. Você chegou a elaborar na cabeça esse afastamento?

Estamos aqui francamente (mais lágrimas), não é? Eu já saí de concentração no sábado para subir morro e buscar meu irmão que estava cheirando. Em uma dessas muitas vezes, alguém me viu descendo e saiu dizendo que eu estava envolvido com drogas. É demais isso. Só em um momento isso começou a atrapalhar. Eu não era nem a Xuxa nem a Roberta Close. Nem ajudava meu irmão de verdade, nem jogava bola. Eu buscava o Luizinho, dava banho, dava leite, porque ajudava a amenizar o efeito da cocaína. Quando o encontrava, ele já estava dois ou três dias sumindo.

 

E como você descobria onde ele estava?

Fácil. Voltava ao bairro e perguntava: “Onde está o Luizinho?” Com dois telefonemas mais, achava. O mais legal é que ele tinha um respeito enorme por mim (emocionado), ele tinha três anos menos que eu. Uma semana depois, ele estava cheirando de novo. Foi aí que resolvi conversar com meus pais, eu chorava todos os dias. Aí, disse para eles: “Só vou chorar por ele mais uma vez, que vai ser quando ele morrer”. Por incrível que pareça, o meu desprezo fez o Luizinho mudar. Ele ficou dois ou três anos sem usar drogas, já casado, trabalhando. Morreu assim.

 

E morreu por alguma dívida antiga?

Ele tinha sumido e minha mãe tinha me avisado. Achei que era recaída. Dias depois, ele foi encontrado. Eu jogava no Japão e recebi a notícia com muitas horas de atraso por causa do fuso. Iria voltar na hora, só que o Luizinho já estava em estado de decomposição, o corpo foi achado no porta-malas do carro e era preciso enterrar logo. Segurei a onda, fiz os últimos jogos do time e depois fiquei com meus pais. Especularam que poderiam ser dívidas atrasadas, não me interessei em saber. Meu pai ficou muito mal. Chegou a fazer uma tatuagem com o rosto dele.

 

Você tinha mais ligação com seu pai ou com sua mãe?

Ah, com meu pai. Mas o meu pai tinha mais ligação com a minha mãe. Meu pai me deu o que tenho de melhor. Aprendi muito. Mas nada de bola. Ele tinha pernas em tesoura. Não entendia nada. Só não gostava que falassem mal de mim. (Emocionado.) Vira e mexe, me ligavam para dizer que ele estava brigando por minha causa.

 

O que você se lembra do acidente de carro na Lagoa Rodrigo de Freitas, em 1995, no qual três pessoas morreram?

Tudo. Outra memória viva e triste. Estávamos eu e um amigo. O primeiro lugar estava lotado e fomos para o segundo. Aí apareceram três meninas.

 

Mas o acidente em si, como foi?

O menino do outro carro não era habilitado e, em uma curva mais acentuada, aconteceu. Eu vinha por dentro, ele veio por fora e atravessou na minha frente. Não houve tempo nem para frear. Bati nele e fui capotando. Ele e a namorada morreram na hora. Tinha uma menina no banco do carona que sobreviveu. E uma do nosso carro, a Joana, foi a única que não teve escoriação. Só que teve hemorragia interna e morreu no hospital.

 

Você pagou a indenização?

Para todos do meu carro e do outro. Sete pessoas. Mesmo quem não teve sequelas acabou se aproveitando. O caso acabou sendo, por assim dizer, exemplar. Houve um linchamento público. Fiz um acordo com todos. Fiz questão de fazer isso sem discutir muito, funcionou como autopenitencia.

 

Você ficou com o carimbo na testa após o acidente. Isso faz com que você se lembre dele todos os dias quando olha no espelho?

Sobre o carimbo, há controvérsias. Eu, minha mãe, meu irmão sempre tivemos a testa um pouco saliente. Aí, depois do acidente e voltando da Itália, em 1998, sentei ao lado de um cirurgião plástico brasileiro chamado Artur Pororoca. Ele olhou a minha teste e disse que era simples. Ofereceu fazer a cirurgia de graça, e o de graça sempre fica mais caro... Ele abriu retirou um tendão, tanto que a minha testa toda enruga e o meio, não (demonstra o fenômeno).

 

O acidente mudou a sua forma de dirigir?

Sim. Hoje dirijo pouco. Tenho motorista. Fiquei com trauma. Não bebi naquele dia, nunca fui de beber. Escolho um dia na semana para beber, e pouco. E jamais dirijo nesse dia.

 

A sua mulher dirige?

Sim, mas (constrangido) eu já não estou mais com ela...

 

Opa, isso não estava na nossa pesquisa.

Faz uns quatro meses

 

Você está de novo no mercado.

É. (Risos.)

 

Aliás, quando você entrou no mercado?

Cedo, sempre gostei muito de mulher, mais do que os outros. Tinha um amigo, o Maurinho, loirinho de olho azul. Eu dizia que ele entrava com o vídeo e eu com o áudio. Entendeu? Ele chamava as mulheres e eu contava as histórias.

 

E a primeira vez?

Foi com uma prima, eu acho.

 

Eu acho?

Foi com ela, a Saionara, era uma prima mais velha. Eu tinha uns 13 ou 14 anos. Ela já tinha uns 18, 19 anos, já era mulher. Eu não sabia nem onde era o buraco direito. (Risos.)

 

Conta direito essa história.

Ela que me pegou. Era complicada a coisa na época. A gente beijava pra caramba, roçava pra caramba, só que ninguém tinha dinheiro pra motel, não tinha carro pra transar dentro. Ficava tudo na ameaça. Com a primeira namorada, a Daniela, que morava em Guadalupe, é que posso dizer, com certeza, que o ato se consumou. E com prazer, tinha uns 15, 16 anos.

 

Você reconhece que é mulherengo. Casou cedo e emendou o segundo casamento no primeiro. Pelas minhas contas, você está há mais de 20 anos em uniões estáveis.

Namorei três anos a Adriana e fiquei casado com ela mais 12 nos. Seis meses depois, conheci a Clarissa. Aí namorei com ela quatro anos e fiquei mais cinco casado. Eu tinha uma vida, entre aspas, regrada. Sempre tive uma relação principal e aí dava os meus pulinhos. (Risos.)

 

As separações com as duas mulheres foram tranquilas?

Por incrível que pareça, nenhuma das duas separações foi por traição. Foram por ausência minha dentro de casa. Por sair pra jogar futevôlei 10 da manhã e voltar 10 da noite, fugir de festa de família. Traí e não tenho vergonha de admitir. Só sou bom para os eventos dos meus filhos. Agora estou bem, posso jogar baralho sem hora para voltar, levar mulher para casa, beijar quem eu quiser na boate...

 

Mas Edmundo, você já não fazia isso antes?

É, fazia casado e magoava quem eu gosto. Amei demais as duas. E magoar quem você gosta é triste. Isso me fazia mal. Hoje vivo bem, até saiu para jantar com elas, dou risada, pergunto dos namorados.

 

Não as duas juntas, imagino...

Juntas, só em aniversários. Porque a Adriana achava que eu já estava com a Clarissa quando me separei dela. E isso não é verdade. Mesmo. Outra verdade verdadeira (tom mais solene) é que nunca tive amantes. Peguei um monte de mulheres, mas nunca tive amantes.

 

E os filhos?

São maravilhosos, muito educados, carinhosos comigo.

 

E o Alexandre, que foi fruto de uma relação com a modelo Cristina Mortágua e hoje está com 19 anos?

Pago 30 salários mínimos para o meu filho que tem 19 anos. Ele não faz faculdade e não consigo baixar a pensão. Estou sempre errado, assim como aconteceu no acidente. Bateu lá na justiça, é o Edmundo, eles canetam contra.


Você costuma falar com ele?

O Alexandre, cara, eu gosto dele da mesma forma que dos outros. Mas ele... Ele trilhou o caminho próprio. Foi morar em São Paulo, é estilista, é noturno, dorme pouco. Troca de telefone toda hora. Temos pouco contato. Em função da distância, perdemos a afinidade. Mas amo ele. Meu telefone continua o mesmo. Até faço um apelo para que ele me ligue, me visite.

 

Vocês vão precisar resolver essa história mais para a frente.

Vamos, vamos. Nós tivemos um contato. Ele e a mãe tiveram um problema na delegacia (em 2011, Alexandre denunciou a mãe por agressão. E, na delegacia, Cristina agrediu o filho e a delegada antes de ser detida). A psicóloga fez com que eu tivesse dez sessões de terapia.

 

Em conjunto?

Dez, eu e ele juntos. Botamos para fora um monte de coisas. A gente se acertou. Logo depois, ele completou 18 anos. Ele sempre teve o sonho de liberdade, poder viver o mundo dele. Aí decidiu ir para São Paulo.

 

Vocês falaram sobre sexualidade? A opção sexual dele não é a sua.

Não chegamos a falar abertamente. Nas entrelinhas, deu pra ver, deu pra entender. A escolha é dele. O conselho de pai que dei foi o seguinte: comportamento na vida é tudo. A sua sexualidade pouco importa, mas seja gentil e respeite as pessoas. E seja trabalhador, corra atrás, não espere as coisas caírem do céu. Ele é educado com todos, comigo.

 

Para terminar uma curiosidade. Você é amigo mesmo do Caetano Veloso?

Eu me aproximei do Caetano por causa do filho dele, o Tom, que adorava futebol. E o Caetano também gosta. Frequentávamos a mesma praia em Ipanema. Conheci a Paula Lavigne, que era casada com o Caetano. O pai dela, o seu Artur, foi meu advogado. Mesmo quando eu jogava fora, voltava e ia almoçar lá. Altos papos. Aprendi milhões de coisas com ele. Uma das maiores alegrias da minha vida é frequentar aquela casa.

 

Publicado originalmente na revista “Playboy” em maio de 2014