domingo, 15 de junho de 2008

METRALHA CALIBRE GROSSO.

Já vai longe o tempo em que Nelson Gonçalves, o rei do Rádio, venceu a gagueira. Em lugar de vo-vo-você, palavras em profusão, sempre emendadas umas nas outras, o que lhe valeu o apelido de Metralha. Não lhe cai mal: Nelson tem respostas para tudo, de nada se esquiva e conversa aqui conosco sobre desafetos, drogas, o resgate de sua obra, o novo disco, que está sendo lançado e a vida sexual, que ele garante ser intensa.

Primeiro veio a caixa do Orlando Silva, agora a sua, e vem aí mais, com o repertório de Sílvio Caldas, Carlos Galhardo, Francisco Alves, Ângela Maria, Elizeth Cardoso. Você não acha que essas caixas trazem de volta o tempo áureo das grandes vozes e que isso pode reacender a rivalidade sobre quem é o melhor cantor ou cantora ?

NG- Essa disputa do melhor cantor não vai ter, não. Quem for fã do Orlando Silva vai procurar o Orlando Silva. Quem foi fã do Francisco Alves, vai comprar Francisco Alves. O melhor das caixas é que elas permitem que um maior número de pessoas, inclusive das novas gerações, tomem contato com nosso trabalho. Meu repertório é imenso, metade do Brasil não conhece. De uns seis anos pra cá, a freqüência de gente jovem em meus shows cresceu muito. Engraçado, vejo meninas de uns 15, 16, 17 anos na platéia.

As caixas trazem várias fases do artista. Comparando-as quais conclusões o ouvinte poderá tirar ?

NG- Eles vão concluir que o Nelson está cantando cada vez melhor. Subi um tom e meio ao longo de minha carreira, o que é raríssimo. Todo cantor, quando chega na faixa dos 50, 60 anos desce um tom e isso é geral, com todo mundo. No meu caso, ao invés de descer subi.

Quais eram suas deficiências no início da carreira ?

NG- Eu era gago, muito gago. Hoje ainda sou, mas naquele tempo eu era gaguérrimo.

Era mais difícil cantar ?

NG- Não, cantar era fácil, difícil era falar.

Nos discos da caixa você só canta.


NG- Sim, mas nos shows você precisa falar: “Meus amigos, boa noite”. Só isso já era uma dificuldade desgraçada. E eu me atrapalhava pra burro. Certa vez, fiz uma viagem do Rio para Curitiba, fui inaugurar um cassino. Era o início da minha carreira cantava Renúncia, um sucesso enorme no Brasil inteiro. Quando chegamos na divisa de São Paulo com o Paraná, entrou um guardão, que veio me pedir os documentos. Eu não tinha fotografia em jornal, rapaz, não tinha Pasep, não tinha nada, nem carteira de identidade. E gago demais. O cara: “Como é que é, rapaz, a documentação ?”. Quando eu larguei brasa, foi fogo: “Senhosagloblublibulibilibilô!”

O quê, Nelson ?

NG- Foi isso que o guarda perguntou: “O quê ?!”. Eu pensei, meu Deus, vou ter de repetir tudo, e mandei mais nervoso ainda: “Osenhodabiliboropretátoquetiritó” Até que alguém explicou para o guarda que eu era o Nelson Gonçalves, o cantor. Ele falou sério: “Olha aqui, menino, se tu vai cantar aqui. Se você for esse tal de Nelson Gonçalves você passa; se não for, fica e vai levar o maior cacete”. Eu sem violão, de ressaca, cantei: “Hoje não existe nada mais entre nós, somos duas almas separadas que se devem separar...” Quando terminei, ele disse: “Olha aqui, ô garoto, tu não é esse tal de Nelson Gonçalves não. Mas tem uma coisa, você imitou muito bem, pode passar”.

Foi difícil perder a gagueira ? Você colocou pedra na boca ?


NG- Nada. Foi a necessidade. Ou você dá a meia-trava ou fica naquele negócio. Eu passei a falar pensando antes, mentalizando antes o que dizer.

Você pretende lançar um disco de músicas inéditas ?

NG- Sim. Até o fim deste mês. No repertório, tem uma música do Maurício Mattar...

Maurício Mattar !?

NG- Eu recomendei uma música dele. Eu gosto dele, o Maurício canta certo, canta direto, tem uma voz pequena, mas sabe colocá-la bem. Quem canta mal é o Falcão. Já ouviu o Falcão cantando ? Aquilo é brincadeira...O Emílio Santiago tem uma voz boa, mas deixou o sentimento em casa. O Maurício Mattar tem uma voz pequena, mas canta com sentimento e divide bem, coloca as tônicas no lugar certo. Sou muito atento à questão das tônicas.

O que mais há de novidade no disco ?

NG- Músicas do Paulo Sérgio Valle, Chico Buarque, Carlos Cola, Noca da Portela, Paulinho da Viola. Vai ser um disco com base acústica, seis selos, quatro violas, violão de sete cordas, contrabaixo, bateria, piano e uns sopros no fundo. Vai ser um disco bem alcova, sabe como é ?

Como é sua agenda de shows ?

NG- Uma loucura. Comecei no dia 29 de janeiro e só vou parar no dia 22 de dezembro. Já cantei com 39 graus de febre.

Você não se cansa ? Não dá vontade de parar uns tempos ?

NG- Claro. Mas, pense bem, este ano devo fazer uns 50 shows. Em cada um faturo em média R$ 10 mil. No meu lugar, você faria ou não os shows ? Pois é o meu caso.

Há um número máximo de apresentações ?

NG- Antes não tinha, mas, por determinação da minha filha e também minha empresária, hoje só faço dois shows por semana, na sexta e no sábado- mais ou menos oito shows por mês. É só muito desgastante, porque não é só cantar. Além das viagens e da imprensa local, existe um batalhão de pessoas que quer falar com você. O negócio é tão sério que agora, quando chego num hotel, pergunto qual é minha suíte. Se o cara diz que é a 504, por exemplo, pelo também a 615. Para todos os efeitos, vai constar que estou na 504. Acabo pagando por duas, para descansar. Senão, toda hora chega a arrumadeira, o prefeito, o diretor do clube, os fãs que burlam a segurança...

Ainda fumando muito, Nelson ?

NG- Pouquinho. Quatro ou cinco cigarros por dia.

Mas você não acabou de ter uma pneumonia ?

NG- Tive sim, mas o pior foi operar as hemorróidas. Me fazia sofrer muito, sangrava, caía para fora, eu ia fazer show e tinha de colocar aquilo dentro no banheiro. Uma coisa de louco, rapaz. Aí operei e sofri mais ainda. Os curativos são horríveis, eles enfiam agulhas no ânus para entrar o nitrato de prata. Aquilo queima até a raiz do cabelo. Eu queria matar o médico, xingava ele de filho da puta, ameaçava agredi-lo. Mas, também, fiz 12 curativos e ninguém fez 12 curativos até hoje. O máximo, de acordo com os médicos, foram cinco. A minha hemorróida era interna e externa, parecia uma laranja.

Desagradável, hein ? Mas e a pneumonia ?

NG- Quando fiquei bom, me veio a pneumonia. Porque, com a agenda de shows, acabo acumulando gripes malcuradas, me alimentando pouco e dormindo pessimamente. Recentemente, fui cantar em Manaus e, depois do show, fui direto para o aeroporto. Peguei um vôo de Los Angeles. Estava morto de cansado e logo adomerci, mas um cara me acordo dizendo para os demais passageiros: “É ele !” Aí pronto, logo o povo estava em coro gritando: “Canta, canta, canta, canta, canta, canta, canta, canta, canta, canta!...” O comandante me chamou na cabine e ofereceu o microfone: “Poxa Nelson, canta aí dá uma palinha pro pessoal”. Aí não teve jeito e tive de cantar cinco músicas. É duro, você não dorme, não come e tem que estar sempre inteiro.

E depois ainda tem de dar conta das fãs no camarim.

NG- No camarim é fogo. Puxam atrás de autógrafo, querem tirar fotografia e vem a cidade inteira, o diretor do clube, o prefeito, o diabo, mulher feia.

E como você agüenta ?


NG- Faço ginástica, comprei uns aparelhos, faço natação, tenho piscina em casa.

Você ainda luta em casa ?

NG- Não. Parei com boxe. Só faço musculação.

Como se comportam na platéia as mulheres mais atrevidas ?

NG- Elas ficam gritando: “Lindo! Lindo! Lindo!” Mas não sou eu, cara pálida, esse lindo. É ele, o Grande (Nelson aponta para o próprio pênis). Olha só. E está assim comportado, porque estou usando uma cartucheira que mandei fazer sob medida para segurá-lo. Se deixar solto, dá muito na vista.

E, no camarim, elas querem pegar ?

NG- Não. Elas pedem para tirar fotos comigo, vão se chegando até encostar. Depois dizem: “Nossa, Nelson como você está inteiro!” Outro dia, fui no programa da Hebe Camargo e ela, muito sem-vergonha, veio me perguntar se eu ainda dava no couro. Respondi que claro. “Não é possível”, ela disse, mas depois conferiu e soltou um “Oh!” Mais tarde, contou para Alcione, Gal Costa e Fafá de Belém que era meu aniversário. As três vieram me dar parabéns. Na hora se encostavam e diziam “Aiiiii”, Depois, no ar, a Hebe mandou um recado pro marido dela: “Lélio, usa a vitamina do Nelson Gonçalves. Ele está tinindo.” (risos).

Mas que vitamina é essa ?

NG- Procomil, só encontrada nos Estados Unidos. Cada comprimido são três bem dadas. Cada caixa vem com 60 cápsulas, por aí você faz as contas.

São 180. Quanto tempo uma caixa dessas dura ?

NG- Sei lá. Só seu que já comprei quatro caixas e elas já estão no fim.

As bichas assediam muito você ?

NG- Não são bestas. Dou um sopapo, o sujeito não fica em pé. Mas nunca houver isso.

Já as mulheres...

NG- Mulheres, já bati em algumas. Bati não, açoitei a pedidos.

Você está usando camisinha ?

NG- Eu não uso camisinha. Porque não fabricam o meu número.

É verdade que você fez uma prótese peniana ?

NG- É verdade, e daí? Se eu tivesse feito prótese anal seria muito pior...(risos). Fiz a prótese peniana e vou explicar: eu tinha ereção normal, como todo mundo tem, só que minha ereção durava 10 minutos; era forte, mas só durava 10 minutos. Para o que eu queria não dá. Pagar por aqui, virar, ir pelo outro lado, encarar um pega-não-pega, beija, abraça, chupa a boceta....Dez minutos não dá. Então, botei a prótese.

Você teve envolvimento com muitas mulheres famosas.

NG- Tive, mas não vou dizer não. A única mulher que dou o nome é a minha: Maria Luísa.

Como convive com sua fama de espada ?

NG- Pô...Ela me dá uma bronca danada. Faço meu papel, digo que a imprensa é assim mesmo: a gente fala pau, os jornalistas escrevem caralho. (risos).

Você tem saudade do Rio de antigamente ?

NG- Essa é a minha grande saudade. Ninguém assaltava. Você saía do Dancing Avenida com duas mulheres, uma em cada braço, e vinha andando da Lapa até a Glória. Ninguém mexia com você.

Você colocava as duas na mesma cama ?

NG- Você sabe o que é suruba ? Pois é, meu filho...

Você já levou quantas para a mesma cama ?

NG- Aquele bolo. Agora, não sou homem que ficar contando boceta em plena cama.

O Rio dos anos 40 era afrodisíaco ?

NG- A Lapa era uma beleza...

As mulheres eram mais recatadas ?

NG- Porra nenhuma. Ali, naquela área onde fica o Sambódromo, era a zona. Elas ficavam todas de calcinha, chamando “Viens mon chérie, viens mon chérie”. Cinco mangos. Eu cantava ali, com o Benedito Lacerda, o Luiz Gonzaga e o chapéu em cima da mesa. Às vezes pintava a polícia e nos escondíamos num mictório, um cubículo em que mal cabiam duas pessoas, mas hora do aperto ficavam umas 40.

Nelson qual música que as mulheres mais pedem para você cantar na cama ?

NG- Meu filho, cama não é lugar para cantar.

Você nunca transou ouvindo um disco seu na vitrola ?


NG- Pára com isso...Aí já seria sadismo. O que ocorre são aqueles sujeitos desagradáveis que me param na rua para dizer: “Pô, Nelson, dei uma ouvindo você cantar”.

No trato íntimo com as fãs, você prefere o camarim ou a suíte do hotel ?

NG- Olha aqui, sou homem casado. (Nelson puxa o gravador para si e, voz empostada, quase declama). Tudo que sou hoje, devo à minha mulher. Não venci minha luta; quem venceu foi você, Maria Luísa.

As pessoas diziam que você queria por tudo ter a Bethânia...

NG- Não sei disso, não. Apenas ela ganhou o nome por causa da minha música. Nunca tive nada com ela, nem quero ter...

Parece que ela não gosta não...

NG- Não é questão de não gostar. Isso não existe. Se existir, eu conserto.

Você acha que toda mulher homossexual tem jeito ?

NG- Não tem mulher sapatão que casou e engravidou ? E é famosa, aparece sempre na televisão...

E o que você acha desse escândalo do Michael Jackson com aquele garotinho ?


NG- O Michael Jackson é um tremando viado. Não dá pra entender...Eu gosto de música americana tradicional, do Gershwin, Tony Bennet, Cole Porter, Glenn Muller, Bing Crosby. Nesse negócio de rap, os caras não cantam, eles falam. Está difícil ouvir rádio.

No livro Estrela Solitária, biografia do Garrincha escrita pelo jornalista Ruy Castro, diz-se que o bráulio dele media 25 centímetros. Você já mediu o seu ?

NG- Não. Sou um sujeito normal. Não vou mentir, não tenho 48 nem 45, sou normal.

Mas alguma mulher já mediu ?

NG- Que medir o quê, rapaz ! Isso aqui lá é fazenda pra ficarem medindo!

Dizem que ser bem-dotado atrapalha na hora agá...

NG- Atrapalha sim, porque fica difícil de elas agüentarem. Elas berram pra caralho.

Por trás, nem pensar, né ?

NG- Tem uma ou outra que vai, mas num sacrifício medonho...

Quando esteve preso os caras respeitaram você ?

NG- Claro, meu filho. Logo que saí para o banho de sol, perguntei quem era o xerife do pedaço. Cheguei nele e, sem falar nada, o enchi de porrada. Depois, fui visita-lo na enfermaria. Quando o sujeito abriu o olho e me viu, tomou um susto. Mas eu apenas lhe disse: “Agora os xerifes somos eu e você”. Na cadeia, você deve estar pronto para matar ou para morrer.

Como se deu a prisão ?

NG- Em 66, fui preso em flagrante, em minha casa do Brookli Paulista, com cocaína para consumo próprio. Eu estava tentando parar aos poucos, mas os traficantes não queriam deixar e me deduraram. Quando saí da cadeia, tinha largado tudo, mas nem os traficantes nem a polícia me deixavam em paz. Aproveitei uma visita do (presidente) Costa e Silva a São Paulo e fomos eu e minha mulher falar com ele. O general me abraçou e disse: “Gente, nesse aqui ninguém põe a mão. Esse aqui é patrimônio nacional”.

Como você começou a cheirar ?

NG- Vivia a roda-viva do sucesso. Tudo começou em 58, no mictório do restaurante El Greco, em Copacabana. Cheguei lá de manhã, esgotado após uma viagem. Um sujeito que conhecia de vista me perguntou se eu queria me livrar do cansaço rapidamente. Fomos ao banheiro e lá ele me mostrou o pó branco, falando: “Pode cheirar que é bom”. De volta à mesa, estava novinho em folha, falei horas sobre os mais diversos assuntos. No mesmo dia, voltei ao bar para pedir mais. No auge do vício, mandava dez gramas por dia. Fiquei na roda por oito anos.

Como se livrou ?

NG- Trancafiado dentro de casa, com a ajuda da minha mulher, que suportou até espancamentos. Depois de uns vinte dias sem dormir, dei uma cochilada e foi uma emoção só. “Nelson, você dormiu, meu amor”, me disse ela vibrando. A partir daí, comecei a fazer progressos e, um belo dia, Maria Luisa me deixou olhar pela janela. Vi um padeiro e uma criança brincando na rua. A vida está aí, pensei e não onde eu estava.

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