sábado, 11 de abril de 2009

Boca do Lixo: tentativa de sintaxe



Por Matheus Trunk


A Boca do Lixo foi o momento de maior sucesso comercial do cinema brasileiro. Durante os anos 70 e 80, as ruas do bairro de Santa Efigênia, no centro de São Paulo, viviam lotadas pelo pessoal do cinema. Eram diretores, atores, atrizes e técnicos que tinham naquele espaço toda sua atividade profissional. O bar Soberano era o ponto oficial das reuniões do meio cinematográfico. Segundo muitos, a Boca foi uma autêntica indústria cultural, uma espécie de Broadway paulistana.

O cinema paulista deste período nasceu, cresceu e morreu completamente independente do Estado. Seu modo de produção era completamente diferente da Embrafilme e do chamado “cinema oficial brasileiro”. Os produtores radicados em São Paulo investiam com capital privado, sempre dependendo da bilheteria para pagar suas próximas produções.

As fitas da “Hollywood Brasileira” se apoiavam em um erotismo softcore com produção relativamente barata, de custos controlados. O período de ouro da Rua do Triunfo aconteceu entre os anos de 1976 e 1982, quando filmes do chamado “quadrilátero do pecado” dominavam as salas brasileiras.

A pornochanchada sempre foi completamente desprezada pela imprensa e pela crítica especializada. As divulgações dos filmes eram feitas por mídias populares, como o jornal Notícias Populares e por revistas masculinas de “segunda linha” como Homem e Fiesta. De 1974 a 1977, a revista Cinema Em Close Up, publicada pelo jornalista Minami Keizi, publicava matérias específicas sobre o cinema da rua do Triunfo.

No raciocínio dos produtores paulistas, não existia tempo para se investir em “fitas de arte” ou com propostas autorais. A saída era fazer filmes populares, que conseguissem estabelecer comunicação direta com o público. Os produtos eram destinados a um público masculino, de origem humilde.

Apesar de todo compromisso com o erotismo, a produção cinematográfica da Boca apresentava produções bastante diversificadas. Comédias, dramas, policiais, filmes de terror, faroestes (inspirados nos western spaghetti italianos), fitas sertanejas e até filmes católicos. Porém, quase sempre todas as produções tinham um mesmo ingrediente básico: lindas mulheres em cenas eróticas.

Muitas atrizes ficaram reconhecidas e tornaram-se verdadeiras musas de várias gerações de brasileiros. A Boca criou um verdadeiro star system. Helena Ramos, Matilde Mastrangi, Aldine Müller, Nicole Puzzi e Patrícia Scalvi tornaram-se rainhas dos cinemas do dia para a noite. Num grupo subalterno podem-se destacar outras atrizes que também ficaram bastante famosas como Zilda Mayo, Zaíra Bueno, Neide Ribeiro, Claudete Joubert e Vanessa Alves.

Entre os produtores da época, dois se destacaram por conseguirem serem atores e diretores ao mesmo tempo. Embora tenham estilos cinematográficos completamente diferentes, David Cardoso e Tony Vieira são duas pessoas essenciais dentro do cinema da Boca.

Natural do interior do Mato Grosso do Sul, David Cardoso se tornou nacionalmente conhecido como o “rei da pornochanchada”. Iniciou-se no cinema nos filmes do comediante Mazzaropi. Trabalhou como coadjuvante e na assistência de produção de diversos filmes. Com experiência no setor, fundou sua própria produtora, a Dacar. Produziu tramas policiais com clima de erotismo, se adequando as exigências do público da época. Trabalhou com bons diretores como Jean Garrett, Ody Fraga, John Doo e Luiz Castillini. Também dirigiu muitos filmes, sempre destacando sua imagem de astro e homem das mil mulheres como em Dezenove Mulheres e Um Homem e As Seis Mulheres de Adão. Porém, seus filmes mais interessantes são os que não atua, e que se dedica somente a produção e direção como no episódio O Pasteleiro de Aqui, Tarados! e Caçadas Eróticas.

Mauri de Oliveira Queiroz, o Tony Vieira (1938-1990) foi o rei dos cinemas de periferia e de cidades do interior do Brasil. Iniciou sua carreira fazendo pontas e sendo coadjuvante em filmes rurais de outros realizadores. Associado ao empresário Francisco Assis Soares (conhecido como Comendador) formou a produtora MQ. Interpretou, dirigiu e produziu 15 longas-metragens, faroestes e fitas policiais de baixo orçamento. O sucesso foi muito grande e Vieira tornou-se um dos mais conhecidos cineastas brasileiros da época, com diversos fã-clubes espalhados pelo país. Formou ao lado de sua então mulher Claudete Joubert e do comediante Heitor Gaiotti o trio de aventureiros de suas películas. Segundo seus contemporâneos, em certas partes do Brasil a popularidade de Tony só era comparada a de cantores como Roberto Carlos e Odair José. Realizadores como Rubens da Silva Prado, Francisco Cavalcanti e Custódio Gomes fizeram películas na mesma linha de Tony. Porém, ele era o cineasta mais conhecido deste filão cinematográfico.

Os diretores da Boca eram formados pela universidade da vida. Muitos, pelo forte cuidado artesanal com seus filmes e conseguiram tornar-se bastante respeitados entre seus pares. Ody Fraga e Jean Garrett são dois realizadores fundamentais do período.

Dentro do cinema paulista, o intelectual Ody Fraga e Silva (1927-1987) foi um monstro sagrado. Como roteirista, ele esteve presente em mais de 60 longas-metragens. Como realizador, fez 25 filmes. Alguns, apenas razoáveis, outros, verdadeiras obras-primas. Muitas vezes, Ody pecou pela enorme quantidade de trabalhos que fazia simultaneamente. Espécie de Nelson Rodrigues de São Paulo, Fraga mantinha em suas histórias sempre um olhar bastante irônico sobre a classe média e a Igreja (muitas vezes bastante parecido com o espanhol Buñuel). Era uma espécie de líder da Broadway paulistana, que sempre definia como “o meio intelectual dos pobres”. Apesar de ser um grande leitor de autores como Thomas Mann, Albert Camus e outros, o diretor detinha um grande desprezo pelos meios acadêmicos: “Na USP se faz diariamente um discurso sobre cinema. Aqui se faz cinema”, declarou ele em uma histórica entrevista a revista Status. Ody se declarava um pornógrafo: “Sou pornógrafo convicto e com muito orgulho, pois a pornografia é o sexo sem vergonha de si. Já o erotismo, é complexado e exige véus”. Quando o cinema explícito chegou, ele foi o único realizador da Boca que admitiu gostar de dirigir fitas do novo gênero.

Natural do distante arquipélago dos Açores, José Antônio Nunes Gomes e Silva (1947-1996) foi outro personagem bastante especial. Seus contemporâneos são praticamente unânimes em dizer que ele foi o melhor diretor do período. Com o pseudônimo de Jean Garrett, o português realizou 18 longas-metragens e tornou-se o “menino de ouro da Triunfo”. Sempre demonstrava muito cuidado em seus filmes, trabalhava com os melhores técnicos e namorava as mulheres mais desejadas do país. Sua obra é bastante variada, sempre trafegando entre os mais diferentes gêneros, mas sempre demonstrando um talento descomunal. Três são verdadeiras obras-primas: Amadas e Violentadas, Excitação e O Fotógrafo. O fim do cinema da Boca foi um golpe muito duro para este criador extraordinário. Jean morreu com apenas 49 anos, completamente esquecido pela mídia oficial.

O cinema da Boca começou a sentir os primeiros sintomas de crise, com a chegada do filme de sexo explícito. A chegada dos filmes hardcore estrangeiros, no começo dos anos 80, despertou uma evasão do público das pornochanchadas. Os exibidores iniciaram uma grande pressão sobre os produtores e cineastas paulistas, para embarcarem no novo gênero. O primeiro filme de sexo explícito da rua do Triunfo, Coisas Eróticas (1981) de Rafaelle Rossi, teve 4 milhões de espectadores.

Neste momento, muitos diretores, técnicos e a grande maioria das atrizes se afastaram do meio cinematográfico. Muitos realizadores assinavam seus filmes com pseudônimos. As películas explícitas da Boca se caracterizavam por serem produções mais baratas e filmadas com mais rapidez que as pornochanchadas. Durante uma década, a Rua do Triunfo produziu cerca de 500 títulos hardcore. Atrizes como Márcia Ferro, Sandra Midori, Sandra Morelli, Eliane Gabarron, Andrea Pucci e Débora Muniz tinham públicos cativos. Sem conseguir concorrer com os similares internacionais, as produções XXY paulistas, tiveram que apelar para aberrações sexuais e zoofilia, para continuarem tendo algum público. No início dos anos 90, a Boca do Lixo já tinha encerrado seu ciclo como centro de produção cinematográfica. Ficaram os filmes, as histórias e alguns sobreviventes do tempo em que o “quadrilátero do pecado” foi a Hollywood tupiniquim.


Originalmente publicado no catálogo da Mostra Retrospectiva do Cinema Paulista-Da Vera Cruz á Retomada. CCBB-SP, janeiro de 2009.

4 comentários:

Adilson Marcelino disse...

Caro Matheus,
Que texto precioso.
Adorei.
Abs

Sergio Andrade disse...

Matheus, você conseguiu sintetizar muito bem o que foi o cinema da Boca do Lixo. Excelente texto!

Marcelo V. disse...

Matheus, parabéns pelo texto e bela ótima entrevista com o Claudio Cunha. Abraço!

Anônimo disse...

Adilson, Sergio e Marcelo, valeu pelos elogios. Muito obrigado.

Matheus Trunk
www.violaosardinhaepao.blogspot.com