domingo, 21 de fevereiro de 2010

O ex-malandro


O ex-malandro

As histórias de um sambista que aderiu à teosofia

Um pequeno apartamento na Vila Industrial de Campinas, interior de São Paulo, foi alugado às pressas para que o sambista Germano Mathias e a cabelereira Ivone pudessem enfrentar a mais nova etapa de sua vida de casados que já dura cinco anos. Lá, Germano, barriguinha saltando fora do cinto, aos 44 anos, está eufórico com o novo emprego. “Vou inaugurar o primeiro forró-sambão de Campinas”, diz ele, felicíssimo. A razão para tal euforia se explica: nos últimos nove anos ele cantou seus antigos sucessos em desconhecidas gafieiras e cabarés de São Paulo. E isto, quando conseguia comover seus proprietários que, em troco, lhe pagavam cachês simbólicos. Por pouco, Germano não entra para a gloriosa – mas pouco rentável – galeria dos “monstros” da música popular brasileira, o que equivale ao esquecimento total por parte de gravadoras e rádios, e o reconhecimento não-remunerado de teóricos e historiadores.

Mas, para sua surpresa, acaba de sair pela Phonogram o LP “Gilberto Gil e Germano Mathias”, onde suas primeiras gravações – de vinte anos atrás – são alteradas com interpretações de Gil para seus grandes sucessos. “Eu nem sabia de nada”, espanta-se Germano. “A gravadora bem podia ter-me procurado para que eu regravasse as músicas”. A Phonogram, porém, o procurou em vão, durante semanas, pela noite paulista e muita gente sequer se lembrava de seu nome. “Fiquei muito relegado ao segundo plano”, lamenta. “Acho que é porque sou um sambista autêntico demais e isso choca”.

BATUQUE DE ENGRAXATE- A história do paulistano Germano Mathias – de fato um autêntico sambista de bossa sincopado – é típica dos artistas do passado.  Muito sucesso na década de 50, bajulação, dinheiro aos montes. De repente, as portas se fechando, o dinheiro sumindo – e teve início uma nova e penosa trajetória. Quando surgiu em 1955 – contratado pela Rádio Tupi para substituir o sambista Caco Velho –, Germano trazia no seu jeito de cantar uma novidade para a época. Frequentador assíduo das rodas de samba que os engraxates dar praças da Sé, Clóvis Beviláqua e João Mendes costumava fazer aos fins de tarde, ele levava para suas apresentações uma tampa de lata de graxa niquelada e gingava com o corpo no mesmo estilo dos engraxates – uma espécie de jogo de capoeira.

“Todo sambista tem que cantar o samba e enfeitá-lo. Precisa ter coreografia, criar um tipo”, explica ele, dando os exemplos de Moreira da Silva com a gíria, Caco Velho imitando o som da cuíca com a boca, Joel de Almeida batucando no chapéu de palha e Cyro Monteiro na caixa de fósforos. “Eu compareci com a minha trampolina de gordura – tampa de graxa”.  Depois do primeiro disco lançado em 1956 pela Polydor (hoje um selo da Phonogram) – “Minha Nega na Janela” – “começou a chover na minha horta”. As gravações se sucediam – gravou até hoje 17 LPs, onde estão seus maiores sucessos, “Guarde a Sandália Dela”, “Tem que Ter Mulata”, “Nega Dina” – e os convites para apresentações eram inúmeros. Em 1964 recebeu da Escola de Samba X-9, de Santos, um diploma de bacharel do samba e ficou conhecido como “O Catedrático do Samba”.

PERSONALIDADE PARADOXAL- “Tudo ia muito bem até aparecer essa tal de Jovem Guarda”, conta Germano. “Aí tudo mudou”. Germano acha que entrou numa fase tão negra que alguns jornalistas, ao falarem de seus discos, argumentavam que a música era uma bobagem e que ele usava acompanhamentos pré-históricos. Indignou-se: “Então cavaquinho, violão e pandeiro viraram, de uma hora pra outra, acompanhamento pré-histórico?” dos programas de televisão e shows de boates famosas, Germano passou imediatamente a frequentar gafieiras e cabarés. Uma época – em 1975 – foi obrigado a abandonar a carreira e arrumar emprego no fórum como oficial de justiça criminal. “Me sujeitei a trabalhar por cachês irrisórios, fui muito humilhado por pessoas que antes me bajulavam. Mas o pior de tudo é que fui muito farrista. Gastei todo meu dinheiro – e como tinha naquela época ! – com jogo, mulheres e bebida”. É por isso que hoje aconselha aos que estão numa boa a guardar o “onipotente deus no mundo”, o venerável dinheiro. “Cheguei num ponto em que, se visse uma nota de 500 pela frente, era capaz de beijá-la por ardor”.

De farrista e malandro hoje Germano não tem mesmo mais nada. Há cinco anos casou-se e tornou-se adepto do espiritismo.

“Tenho uma personalidade paradoxal”, ele explica. “Como sambista, interpreto sambas de malandragem, deveria ter vícios, beber, fumar, jogar. Abandonei tudo. Sou completamente o oposto”.

Em Campinas, em pleno clima de Copa do Mundo, ele estava animado com as perspectivas abertas pelo lançamento do LP de Gilberto Gil: “Eu o conheci numa apresentação em São Paulo, cantando uma música minha. Fui cumprimentá-lo e ele me disse que um dia ainda teria uma grande surpresa”.

E, mais que qualquer teórico, encontrou uma surpreendente explicação para a volta da música brasileira às paradas: “Só pode ter sido o fato de nos tornarmos campeões do mundo em 1970”. E agora?

Publicado originalmente na revista Veja em 28 de junho de 1978

3 comentários:

antonico disse...

Bela lembrança Matheus. O Germano elevou a latinha de graxa à categoria de instrumento musical só isso já mostra o gênio do cara...

Matheus Trunk disse...

Antonico: o Germano tem vários serviços prestados a nossa música popular. Realmente ele elevou a lata de graxa, fruto da influência dos engraxates do centro de São Paulo. Em breve mais coisas sobre ele.

Matheus Trunk
www.violaosardinhaepao.blogspot.com

André Cardoso disse...

Li a biografia do Germano e adorei, chama-se sambaexplícito e foi escrita pelo Caio Silveira ramos.
Como em todos carmas, nosso amigo penou um bocado, diria, décadas, até reencontrar-se com o sucesso e a estabilidade. Eu diria que ele passou uns 30 anos, quase mendigando...
Hoje, lendo esta reportagem, dá até vertigem na barriga pensar no que ainda ele teria que passar.
Entretanto tudo acaba e hoje ele está muito bem.