domingo, 7 de fevereiro de 2010

Pagode na garoa


Pagode na garoa

Um LP mostra que há bom samba em São Paulo

Por Okky de Souza

Os passistas da Mangueira e da Portela podem até duvidar e pedir explicações aos orixás, mas um dos discos mais originais da atual safra carnavalesca é de autoria de um sambista de São Paulo. Trata-se de Preto no Branco, segundo LP de Osvaldinho da Cuíca, um integrante da ala dos compositores da escola de samba Vai-Vai – a mais popular do Carnaval paulistano. A primeira surpresa ao se ouvir Preto no Branco é que seu autor não se dedica a apenas uma corrente no gênero: há desde o samba pagode até o samba de roda baiano, o de inspiração africana, e também sambas românticos. A segunda surpresa é que Osvaldinho incluí em seu disco faixas apenas instrumentais – uma afronta à cartilha de sucesso das gravadoras. A melhor surpresa do disco, porém, é descobrir em Osvaldinho um sambista de grande inspiração.

Osvaldinho tem de sobra uma habilidade que falta a muitos sambistas cariocas: sabe rechear de melodias bem elaboradas mesmo os sambas animados e de empolgação. Em faixas como Sai do Pagode, Mané e Pagode da Bicharada, o clima é de festa, mas, ao ouvi-las, pode-se cantarolar uma melodia, e não apenas bater o pé para acompanhar o ritmo. Nas faixas mais lentas, como Seus Olhinhos, o autor mostra ser um craque no samba romântico, sem a simplificação que costuma rondar o gênero. Suas harmonias e letras são construídas com capricho, na tradição de Cartola e Paulinho da Viola, que parecem lhe servir de influência imediata. “Em São Paulo copia-se o samba do Rio de Janeiro, e copia-se mal”, diz o compositor. “Por isso, habituei-me a compor sambas de diversos gêneros”.

ÍMPETO DE ESTREANTE- Se há algo de que não se pode acusar Osvaldinho da Cuíca é de copiar os padrões cariocas do samba. Como intérprete, ele não esconde o sotaque paulista e às vezes o usa em inflexões abertamente irônicas. Nos arranjos do disco, seu naipe de percussão soa menos compacto, mais aberto e experimental que os de Beth Carvalho ou Martinho da Vila. Finalmente, entre os instrumentos que usa, figuram alguns excêntricos, como os teclados e o berimbau. É justamente esse empenho em quebrar os padrões estabelecidos do samba, e sua divisão geográfica, que faz do compositor um caso raro.

Apesar de demonstrar em seu disco a garra e o ímpeto de um estreante, Osvaldinho da Cuíca é, na verdade, um sambista veterano. Aos 46 anos, ele é dono de um extenso currículo como músico de estúdio – já gravou com nomes como Ataulfo Alves, Jair Rodrigues e Benito di Paula. Fez também excursões com Toquinho e, em duas ocasiões, em 1968 e 1980, integrou o conjunto Demônios da Garoa, o mais célebre do samba paulista. Há dez anos, Osvaldinho fundo a ala de compositores da Vai-Vai e seu samba sagrou-se campeão dos desfiles paulistanos em 1978 e 1982. Apesar disso, só agora consegue lançar seu segundo LP – o primeiro, gravado há dez anos, era uma equivocada coletânea de sambas tipo exportação.

“Sou apenas um sambista de botequim”, diz Osvaldinho, que na vida real divide-se entre a enfermagem e funções burocráticas num hospital de São Paulo. Mesmo como sambista de botequim, Osvaldinho é capaz de peripécias de fazer inveja a uma letra de samba-enredo. Nas horas vagas, por exemplo, ele ministra aulas de samba a turistas japoneses de passagem por São Paulo, recrutados por uma agência de viagens com a qual estabeleceu um convênio ao visitar o Japão no ano passado. Sua grande aventura, porém, é fazer bom samba numa cidade de rala tradição no gênero.

Publicado originalmente na revista Veja em 5 de fevereiro de 1986

4 comentários:

antonico disse...

Grande Matheus, valeu pela ótima resenha resgatada. É preciso iluminar e relembrar as coisas boas do passado...

Matheus Trunk disse...

Meu caro Antonico: fique frio. Em breve mais resgates sobre o samba paulista.

André Setaro disse...

Gosto de seu blog porque ele é livre, solto, sem amarras de qualquer espécie e é um elogio à cultura popular, à sinceridade dos sentimentos do povo, do artista que pensa com o coração e o sentimento. Admiro sua elevação do cinema popular paulista, assim como faz a nossa colega de espaço virtual Andrea Ormond.

Vou aproveitar para fazer aqui um VIVA A ADONIRAN BARBOSA. "Nos viemos aqui para beber ou para conversar?"

Matheus Trunk disse...

Prezado professor Setaro, fico emocionado com o seu depoimento. Sua sabedoria e sinceridade são de um homem acima da média. Valeu. Um post antológico sobre Adoniran em breve.

Matheus Trunk
www.violaosardinhaepao.blogspot.com