sexta-feira, 4 de maio de 2012

“Fiz outra porralouquice”


Por Matheus Trunk

Fotos:  Matheus Chiaratti


Noite de segunda-feira. Um frio desgraçado em São Paulo. Cineastas, atores, técnicos e desocupados se reúnem numa pequena sala no centro da cidade. Os boqueiros, o pessoal que fazia a Boca do Lixo acontecer, também marcaram presença no Instituto Ozualdo Candeias, uma nova entidade que pretende fazer reuniões mensais no local. Todos vieram assistir A Mulher Barata, novo curta-metragem do cineasta Mário Vaz Filho, um dos remanescentes do Cinema da Boca do Lixo. O cara ficou famoso por dirigir diversos clássicos do pornô brasileiro nos anos 80 como Um Pistoleiro Chamado PapacoAbre as Pernas, Coração e A Dama de Paus. O primeiro, de 1986, faz sucesso na Internet - sua mistura de pornografia e faroeste italiano tem quase 80 mil acessos no YouTube. da região.

No novo trabalho, o realizador não dispensou a boa e velha sacanagem. A trama gira em torno de uma prostituta veterana que se transforma em inseto. “É uma brincadeira com o Kafka. Mas tudo só aconteceu por causa da Débora Muniz (atriz principal). Sem ela nada disso teria acontecido”, revela Marinho. Sobre os filmes antigos que são hit no You Tube, Mário Vaz tem pouco a declarar. “Fazer o quê?”, pergunta com ar seco. O público deu boas gargalhadas com A Mulher Barata. “O legal é que esse filme foi baratíssimo. Nós sabemos fazer cinema sem dinheiro nenhum”, gaba-se.

Débora Muniz é contemporânea dele. Ícone do cinema erótico paulistano, a musa trabalhou em dezenas de produções. “Mas sempre me preocupei com tudo e decorava o roteiro.” Débora se emociona ao falar sobre a rua do Triunfo, centro da produção cinematográfica entre as décadas de 70 e 80. Quando isso acontece, os olhos da musa chegam a brilhar. “Me entristece é olhar pra esse lugar e não ver mais os amigos que já se foram.” Mas ela mantém o otimismo e elogia o novo projeto. “O Marinho é um puto. Ele só me chamou porque ele sabia que eu era a única maluca que toparia fazer um trabalho como esse. Ele é um amigo querido. Mas fiz outra porralouquice.” Aos 52 anos, a musa tornou-se uma atriz versátil. No próximo mês, ela estará trabalhando em quatro peças de teatro. “Duas são espíritas.” Em A Mulher Barata, a atriz aparece pelada quase o tempo todo, e isso não é problema para ela. A maioria das musas do explícito sumiu do mapa. Eliane Gabarron, Sandra Midori, Márcia Ferro e Sandra Morelli não estão mais na área cinematográfica, Débora é a única que persistiu. “Sou apaixonada por cinema e arte. O diferencial foi que cada uma chegou ao cinema pra ser a estrela, viver grandes personagens. Mas eu não. Minha adolescência foi na Boca, na sinagoga que servia de estúdio pro Zé do Caixão.”

Dentre os atores de A Mulher Barata, um em especial chamou a atenção do público. Barbudo e com inúmeras correntes pelo peito, o faxineiro e agora ator Jesse Jelvys Ploteus roubou a cena do curta. Durante a projeção, o estreante estava usando um visual um tanto exótico: inúmeros brincos e um chapéu a lá Indiana Jones. Pergunto a Marinho onde ele teria achado tal figura para fazer parte do elenco. “Ah rapaz, isso é coisa do Diomédio (Diomédio Piskator, produtor). Só sei que esse sujeito é um maluco beleza”, diz rindo.

O próprio cara se define de uma maneira inusitada. “Nunca fiz nenhum curso, mas nasci artista. Escrevo prosas, mensagens, temas. Sou um selvagem racional da selva de pedra e da selva silvestre.” Entendeu? Eu não.

Após a exibição do filme, o papo prosseguiu noite à dentro no boteco ao lado da sala, entre os noias da região. “O importante é que estamos voltando para o grande tapete do cinema paulista que é a Boca”, define Débora.

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