quinta-feira, 23 de junho de 2016

Eder Mazzini (1950-2016)

Namorei uma menina que tinha família no interior. Sempre que ia pra cidade dela eu passava por Catanduva (“cidade feitiço”). Sempre que passava por lá lembrava: “Poxa, ainda não entrevistei o Eder Mazzini”.
Eder Mazzini (1950-2016) nasceu em Catanduva e nunca quis me dar entrevistas. Chegamos a conversar várias vezes. Era montador de prestígio na Boca paulista. Grande companheiro do Carlão Reichenbach. Lembro que encontrei Eder no velório do Carlão no MIS. Acho que ele deve ter ficado o tempo inteiro do velório junto com a família do Reichenbach. Mazzini era branco, magricela e usava óculos. Sempre muito educado. Mas naquele dia estava devastado. Estava mais branco que o normal e fumava um cigarro atrás do outro. “Agora quem sabe eu possa te dar a tal entrevista. Eu falava com o Carlão todo dia”, admitiu. Os dois tinham sido sócios da produtora Embrapi, uma tentativa de profissionais da Boca tornarem-se produtores independentes. Eder ficou inclusive dono das produções da empresa. Tentei diversas vezes fazer que ele vendesse os filmes pro Canal Brasil: “Eram dez sócios, vai dar o maior rolo isso. Deixa pra outra hora”.
Eder veio do interior para estudar engenharia. Parece que não saiu-se muito bem nessa parte. Acabou caindo na rua do Triunfo. Ali trabalhou como assistente de montagem de algumas pessoas, inclusive do Walter Wanny. Quando começou a montar não parou mais. Montou filmes de praticamente todos os grandes diretores da Boca como Ody Fraga (O Sexo Mora ao Lado), Cláudio Cunha (O Gosto do Pecado, Oh Rebuceteio!) Jean Garrett (A Força dos Sentidos, Karina, A Mulher que Inventou o Amor, A Noite do Amor Eterno), Fauzi Mansur (O Inseto do Amor), Walter Hugo Khouri (Paixão Perdida, Amor Estranho Amor, Forever, Amor Voraz) e Luiz Castellini (Tara-Prazeres Proibidos e A Reencarnação do Sexo). Mas parecia ter um carinho todo especial para os filmes que montou de Reichenbach. Talvez sejam os trabalhos mais representativos de Carlão como diretor: Amor, Palavra Prostituta (1982), Extremos do Prazer (1984), Filme Demência (1986) e Anjos do Arrabalde (1987).
Convidei Eder pra dar seu depoimento para a série Papo de Boqueiro. Ele nem me respondeu. Encontrei-o pela última vez na segunda-feira da semana passada numa sessão de 30 anos do filme Um Pistoleiro Chamado Papaco de Mário Vaz Filho. Mais uma vez me disse: “Estou aposentado, sossegado. Não vou te dar entrevista”, disse meio rindo.

Eder foi um dos grandes técnicos da Boca. Um amigo me confidenciou: “Muita gente não gostava de montar com o Eder porque ele não fazia simplesmente o que o diretor queria. Tentava botar um traço autoral no seu trabalho”. Talvez por isso Eder não tenha sido tão chamado para trabalhar em seu ofício após o fim da Boca. Ele merecia ser mais lembrado. Mas vivemos no Brasil e vai ser difícil algum veículo da grande mídia lembrar dele. Triste.

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