segunda-feira, 3 de abril de 2017

VSP Entrevista: Antônio Petrin


Janeiro de 2017. Fui enviado para cobrir a 20º edição da Mostra de Cinema de Tiradentes pela revista Vice. Procuro também entrevistar veteranos do cinema brasileiro. O ator Antônio Petrin estava no evento por fazer parte do elenco do longa-metragem Um Filme de Cinema de Thiago Mendonça. Consigo agendar com a assessoria de imprensa do festival uma entrevista exclusiva com o ator.

Aos 78 anos, Petrin participou de quase vinte longas-metragens nacionais. Mesmo assim, o ator possui uma filmografia interessante. Trabalhou com diretores autorais como Maurice Capovilla em O Jogo da Vida, Héctor Babenco em O Beijo da Mulher Aranha e João Batista de Andrade em O País dos Tenentes. Dos diretores atuais, Petrin teve papel expressivo em Se Nada Mais Der Certo (2009) de José Eduardo Belmonte. “Ele é muito bom diretor. Acho que ele ainda vai fazer um grande filme”, admite o ator. Petrin também detalha seu trabalho com um dos realizadores mais polêmicos do cinema brasileiro atual: Sérgio Bianchi. “Você precisa acreditar na ideia dele. Ele gosta de colocar todos os intelectuais na parede”.

Foi uma hora de entrevista num depoimento exclusivo e contundente. Bastante educado, Petrin não fugiu de nenhuma pergunta e opinou sobre a situação do cinema brasileiro atual.

Seu Petrin: o senhor gosta dos filmes que fez? O senhor acha que poderia ter feito mais cinema?

Bom...na verdade eu sou um ator de formação de teatro, né? Toda a minha carreira foi dedicada ao teatro. Eu fiz cinema esporadicamente, alguns foram marcantes na minha carreira como O Beijo da Mulher Aranha que eu fiz há muitos anos. Outro que fiz foi A Hora e a Vez de Augusto Matraga numa versão recente. Não a do Roberto Santos. Atualmente, eu tenho feito alguns curtas e tem um filme que vai ser lançado, uma produção do Rio de Janeiro chamado O Divórcio 109, uma coisa assim de um diretor novo. Não lembro o nome dele...

É uma comédia?

É uma superprodução da Paris Filmes que ainda vai ser lançada. E de uma certa forma são esses os filmes que eu andei fazendo, né? Teve um outro filme que foi lançado a pouco tempo: Um Amante Para a Minha Mulher, né? Já foi lançado no final do ano passado. Esse filme do Thiago Mendonça: Um Filme de Cinema que é uma história muito bonita dirigida para crianças, adolescentes, né?

Eu vi ontem. Estava na sessão, muito bacana. O senhor fez quantos longas? Uns vinte?

Não, não. Acho que não cheguei a vinte.

Qual filme o senhor mais gostou de ter participado? Foi no filme do Héctor (Babenco)?

Olha...não, não. Na verdade, eu não sou, não fui muito...minha carreira não foi muito feliz com cinema não. Porque geralmente os diretores chamam os atores que estão mais próximos. Principalmente atores do Rio de Janeiro....ali sempre foi o local que mais se produz cinema no Brasil, né? Então, sempre foi melhor para as produções pegarem atores mais próximos. Como eu sou ator de São Paulo sempre tenho essa dificuldade...

Uma espécie de restrição?

Sim. E eu também já recusei alguns filmes por não ter interesse nenhum pelo roteiro. A maioria das produções cinematográficas em que estive presente não me deram personagens muito interessantes.

O primeiro filme do senhor é um com o Sílvio? O primeiro longa-metragem que o senhor trabalhou: A Árvore?

Sílvio...ah sim, mas isso foi também a muito tempo.

Sim, sim. Mas eu queria justamente falar desses filmes antigos...

Foi, foi. Foi num filme chamado A Árvore dos Sexos. Era uma história interessante de um conto português e depois transformaram esse mesmo conto numa novela que fez muito sucesso. Nesse filme o Sílvio de Abreu estava iniciando a carreira.

Onde foi filmado?

Foi numa cidade entre São Paulo e o Rio de Janeiro. Nem me lembro...faz tantos anos que eu não me lembro o nome da cidade. (Árvore dos Sexos foi filmado na cidade de São José do Barreiro, interior de São Paulo).

O senhor faz o prefeito da cidade?

É, isso aí, o prefeito.

O senhor gostou desse filme? Foi um trabalho...

Não, não. Era um filme que tinha mais ou menos um apelo erótico. Não me agrada muito não.

É um filme tido daquela época...

Exatamente.

Tido como comédia erótica?

Exatamente. Foram feitos vários filmes desse tema na época.

Mas o senhor não acha que esse gênero foi importante para o cinema brasileiro?

Olha, eu acho que no Brasil tudo que se faz, tudo que se experimenta fazer, toda produção que se faz sempre é um caminho a frente. O pior é quando não se tem nada pra fazer. Eu acho que o cinema da Boca do Lixo de São Paulo também teve o seu momento, serviu pra revelar vários diretores que criaram um cinema popular para o Brasil. Enfim, falar...renegar esses momentos não é bom pra ninguém. Eu acho que o cinema brasileiro sempre precisa ter algo a mais pra fazer. Temos que torcer que revelem mais diretores como Thiago Mendonça que vão se exercitando na sua produção.

E era um orçamento bom o Árvore? Era uma produção razoável?

Médio, médio, né?

Era do fruto, né?

Sim, sim.

Ney Santana.

Ney Santana, né? Nunca mais ouvi falar do Ney Santana, filho do (cineasta) Nelson Pereira (dos Santos). Mas...a história é muito interessante, né? Porque o fruto que aquela árvore dava era um falo humano e as mulheres que comiam daquele fruto acabam engravidando. É uma história incrível, né? Uma história de um casamento que o fulano vem e rouba a noiva. Some e quando o noivo encontra os dois acabam os matando. Aí naquele local nasce essa árvore e em torno dela cria-se essa cidade. Essa árvore dá esses frutos que acaba causando esse escândalo na cidade.

O senhor lembra com quem o senhor contracena? Era um papel pequeno acredito.

Era, tinham uns atores antigos...A Virgínia Lane trabalhava nesse filme. Não tenho muita lembrança desse trabalho. Eu também fiz um filme feito em 2002 que foi feito aqui em Tiradentes. Chamava-se As Alegres Comadres da Hipólito, uma diretora com um elenco bacana: Edwin Luisi, Milton...filmamos aqui. Acontece que esse filme foi também o único trabalho dessa diretora...Leila Hipólito. Era baseado numa peça do Shakespeare que ela adaptou para aqui em Tiradentes.

O senhor gostou desse trabalho?

Eu gostei. O filme não fez, acabou não repercutindo porque a Leila obedeceu muito Shakespeare, sabe? Então, era um filme de muitos diálogos, locação, tudo. Mas acabou sendo um filme legal.

Voltando a falar do primeiro longa do senhor: financeiramente era vantajoso fazer esses filmes? Ou o cinema brasileiro sempre pagou...

O cinema brasileiro sempre pagou mal. A gente não pode ficar: “Ah”. Talvez um ou outro personagem que você protagoniza aí você consegue um bom cachê para o trabalho, mas normalmente isso não acontece.

O senhor fez um filme do Capovilla também: O Jogo da Vida.

Fiz O Jogo da Vida. Eu fiz também Eles não Usam Black-Tie. Mas esse último no cinema.

No Jogo da Vida o senhor contracena com o Maurício do Valle...

Maurício do Valle, Guarnieri, uma turma maravilhosa.

E Lima Duarte?

Lima Duarte. Os três. Porque era baseado num livro do (escritor) João Antônio que falava de uns jogadores de sinuca que se reuniam num bar. Aliás, o João Antônio tinha vários outros argumentos bons para cinema pena que ele morreu e quase...mas esse filme Jogo da Vida foi muito interessante também. E o Capovilla era um diretor fantástico também, muito bom.

O senhor gostou desse filme?

Eu gostei muito.

Dizem que o João Antônio não gostou do resultado final.

Pois é. Muito difícil isso dar certo também, né? Por exemplo: eu vi agora na televisão (a minissérie) Os Dois Irmãos. Mas eu acho que os autores sempre tem restrição quando transporta pra cinema. Te confesso que não lembrava dessa manifestação do João Antônio.

O Capovilla deu uma entrevista dizendo que o João Antônio não gostou do filme. Mas não sei o motivo também.

É...alguma coisa não rolou direito.

O papel do senhor também é pequeno?

É, muito pequeno, sempre ali com pouco dinheiro.

O senhor foi muito amigo do Maurício? O senhor tem alguma história com ele?

Do Maurício? Eu na verdade acabei fazendo novela no Rio de Janeiro com o Maurício do Valle, né? Ele era uma pessoa muito engraçada, muito irreverente. Um encanto de pessoa. E fez um filme marcante...

Deus e o Diabo.

Mas ele era uma pessoa maravilhosa. E morreu cedo também, né?

Sim. O senhor foi bem amigo dele ?

Não, a gente era amigo no trabalhando quando eu fiz essa novela na TV Tupi do Rio de Janeiro, né? E quando a gente fez esse filme. Éramos amigos, mas não tínhamos uma convivência diária. Ele não foi de frequentar a minha casa.

E bom ator ele?

Era interessante, era muito. Para o cinema ele funcionava muito bem. Mas ele nunca foi bem aproveitado na televisão. Por exemplo: eu estava vendo aí o (Antônio) Pitanga dando entrevistas. O Pitanga também é outro ator que fez muito cinema, bastante teatro e foi pouco aproveitado na televisão. Coisas que acontecem na nossa profissão.

O Capovilla era bom diretor? Como o senhor lembra dele dirigindo?

O Capovilla sim. Aliás, todos os diretores teoricamente são muito bons. Ás vezes no set podem não ter domínio. Mas o Capovilla era um grande diretor, ele fez bons filmes também. Ele...teve uma geração de diretores de cinema muito importantes pro Brasil. Vindos do Cinema Novo, tal e aos poucos vão se descobrindo novos diretores. Porque eu ainda me lembro do tempo da Vera Cruz, né? Eu inclusive estou lendo uma biografia do Adoniran Barbosa, né? Então, o Adoniran Barbosa além de ser compositor que ficou famoso ele era ator de cinema da Vera Cruz. E eu sou de uma cidade chamada Santo André que ficava próxima onde ficava o estúdio da Vera Cruz. Eu lembro que uma das coisas que me atraíram provavelmente pra profissão foi eu assistir quando adolescente uma filmagem de uma cena que era feita pela Vera Cruz entre dois atores chamados Alberto Ruschel e Benedito Corsi. Era uma cena...nunca mais me esqueci dessa cena. O Alberto Ruschel saia como se estivesse saindo de um banco e o Benedito Corsi garotão jogando figurinha na calçada. Os dois tinham uma cena juntos e a cena era repetida várias vezes. Eu assistindo fiquei fascinado com aquilo, aquele momento mágico e falei: “Um dia eu vou querer fazer esse tipo de coisa”. Então, a minha primeira inspiração foi ensaiada a partir do cinema.

Não foi nem do teatro?

Não foi nem do teatro. O teatro veio depois com teatro amador, né? Escola de arte dramática e a carreira mais pelo teatro.

Dos seus filmes como ator, o senhor gosta mais do segundo filme que do primeiro?

Sem dúvida, né? Um trabalho que gostei muito foi O Beijo da Mulher Aranha. Foi muito importante também pelo diretor, pelos colegas de elenco.

Como o senhor conheceu o Héctor? Como surgiu essa oportunidade do senhor trabalhar com ele?

Olha...O Héctor na verdade me conheceu pelo teatro e me convidou pra fazer esse filme. Era uma dificuldade porque o meu personagem tinha que falar em inglês com sotaque francês. E eu sou brasileiro, não falava inglês e muito menos tinha sotaque francês (risos). Então, eu tive que ter alguns dias de aprendizado para falar aquele texto. E foi muito interessante porque eu era muito amigo da Sônia Braga. A Sônia Braga começou no teatro comigo eu fazendo a primeira peça profissional dela e a primeira profissional minha. Nós fizemos uma peça do Molière chamado Jorge Dandin. Ela depois foi fazer televisão e acabamos nos cruzando nesse filme. Porque eu acabava...uma cena que inclusive foi cortada foi quando eu matava a personagem da Sônia Braga. Foi uma cena rodada dentro do Teatro Municipal lá de cima eu empurrava ela e ela caia lá embaixo na plateia. A gente se divertiu muito fazendo esse filme. Eu inclusive tinha que mancar porque me arrumaram uma bota com uma plataforma que me obrigava a mancar muito.

Eu não me lembro muito do seu personagem. Mas o senhor chega a bater em alguém?

Não, não. No Beijo da Mulher Aranha eu trabalho no filme dentro do filme. Eu era...

O senhor era o que contracena com o Grey?

É...você conhece tudo isso, cara?

Eu gosto de cinema. O senhor não contracena com o William Hurt?

Não. Mas eu assisti uma cena...eu assisti uma discussão muito séria do Héctor Babenco e o William Hurt com o Raul Julia. Eu fui lá provar uma roupa no estúdio da Vera Cruz e eles estavam filmando. Na hora que eu cheguei lá, o guarda-roupa era lá e a cena tinha parado porque havia uma grande discussão entre o William Hurt e o Babenco por causa de uma cena. Então, foi interessante assistir aquela briga entre eles.

E o senhor acompanhou como foi feita aquela cidade que se passa porque no filme dentro do filme era Berlim ou Paris....

É. Tanto é que a gente usou um espaço perto da estação...hoje é a Sala São Paulo. Ali no...Bom Retiro. Nós pegamos toda aquela fachada bem antiga da estrada de ferro e depois numa praça perto da avenida Paulista tinha um local ali tem um visual lindo. Aí foi feito ali pra reconstruir aquela área.

Mas tudo meio improvisado?

Não, não. Esse era uma produção grande. Tanto que trouxeram dois atores internacionais.

E a decisão de ser falado em inglês foi do Héctor?

O filme era todo falado em inglês. Na verdade, passado em São Paulo, mas retratava...porque o personagem era da ficção da história. Então, ele tinha que falar com sotaque francês, aquela coisa toda.

E o Héctor era muito duro com os atores?

Muito, muito. Eu soube isso depois quando ele fez o Carandiru, né? Aí eu fiquei sabendo de coisas. Inclusive eu fui convidado pra fazer Carandiru. Tive uma entrevista com ele durante muito tempo e aí ele acabou me mandando um bilhete dizendo que ele só ia usar atores não profissionais. Pra minha surpresa ele usou atores profissionais porque foi uma exigência da TV Globo em usar porque a TV Globo estava bancando também. Ela tinha uma participação também. Aí eu soube que tiveram alguns laboratórios de trabalho que foi bastante duro, muito exigente.

E com você? Como era ele no set?

Não, não. Eu nunca tive esse tipo de problema. Sempre me tratou muito bem. Provavelmente...mas ele era muito duro com os atores, os outros atores. Eu fiz um filme também com o Sérgio Bianchi que foi esse último...

Cronicamente Inviável?

Cronicamente Inviável foi o primeiro que fiz com ele.

Depois o senhor fez O Jogo das Decapitações. Certo?

Isso. Esse filme eu gostei muito de ter feito também. Porque era uma história muito interessante e o filme não foi muito bem. Também o Sérgio Bianchi cria uma animosidade com a imprensa, com os intelectuais.

Ele é uma pessoa meio difícil?

Muito difícil, né? E ás vezes também com os atores. Comigo no primeiro dia de filmagem foi meio complicado. Mas depois a gente chegou a se entender.

E quem era mais complicado o Héctor ou ele? Ou os dois eram personalidades...

Olha...acho que se equivalem. É difícil você falar essas coisas de diretor porque muitas vezes é o momento, o diretor quer uma coisa, o ator não consegue entender. Ás vezes tem certo improviso e não é algo pra se levar pra esse tipo de divulgação.

E o que o senhor acha que o Héctor tinha de diferente dos outros diretores?

Ele era uma pessoa muito inteligente e sabia o que ele queria, né? Ele era uma pessoa determinada no seu trabalho. Porque o cinema dele era um muito pessoal. Tanto que ele acabou no seu último filme foi a sua vida...

Um testamento talvez.

Um testamento.

Dava pra entender ele falando português?

Corretamente, corretamente. Não tinha esse problema não.

O senhor chega a contracenar com o Wilson Grey no Beijo?

Com o Wilson Grey? Sim. Nós fazíamos uma dupla. Ele fazia o motorista e a gente contracenou durante muito tempo, eu e o Wilson Grey. Não estava nem lembrando. O ator que mais fez cinema.

O senhor tem alguma lembrança do Grey? Alguma história?

Não, não. Uma pessoa muito alegre, muito simpática. Estava sempre contando uma piadinha. Era um prazer trabalhar com ele.

Acho que foi a única vez que o senhor trabalhou com ele. Até mesmo por ele ser do Rio.

Sim, sim.

Inusitada essa dupla: o senhor é um ator de teatro e o Grey era um autodidata.

Só cinema. Queira ou não ele fazia parte daquela turma do Rio de Janeiro, né? Precisava de um personagem X encaixavam o Wilson Grey.

Mas por exemplo...o senhor é um ator com formação e contracenar com um autodidata. Isso é importante pro senhor?

Olha, não existe diferença. Na hora de estabelecer um diálogo você vai lá com um colega ou com outro você ajuda, entendeu? Ás vezes é complicado você trabalhar com uma pessoa que não sabe nada. Ai é complicado. Eu fiz agora a pouco tempo um curta-metragem que o menino trouxe...eu perguntei: “Quem vai fazer?”. Eram só dois personagens, eu falei: “Quem vai fazer?”. “É uma amiga minha”. Aí quando chegou ela não sabia absolutamente nada. Aí foi complicado. Deu tudo errado (risos).

Só fechando o Beijo: o senhor não contracena com os estrangeiros? Nem com o William, nem com o Julia?

Não, não. Eu fiquei muito afastado e não participei. Eu só vi a briga entre o William e o Babenco. Foi uma briga que ficou famosa.

Sim, sim. Mas ele diz inclusive que ele melhorou como ator por causa disso. Ele tem uma espécie de gratidão ao Babenco.  Quando o Babenco morreu ele mandou um texto muito bonito.

Sim, sim.

O senhor fez um filme do John Herbert?

Ah...Os Bons Tempos Voltaram. Essa é outra dessas comédias de sacanagem, comédia erótica: Os Bons Tempos Voltaram. Uma brincadeira do John Herbert, né? Depois acabou e nós nos tornamos amigos trabalhamos no teatro juntos. Mas aquela época o Johnny era um produtor de cinema, fazia filme. Uma pessoa muito ligada a essa arte, né?

E o senhor gostou? O Johnny era bom diretor? Sabia dirigir cinema?

Olha, ali tinha que fazer o filme, não tinha filosofia. Era uma comédia, uma comédia mesmo.

Era no Morumbi? Onde era aquela casa?

Era perto do estádio do Morumbi. Pra ser sincero, eu não me lembro direito mas só sei que foi uma filmagem muito engraçada.

Tinha o Dionísio Azevedo

O Dionísio Azevedo, exatamente.

O senhor contracena com ele?

Contracenava. Um ator nossa...Maravilhoso.

Mas o senhor fez mas não é um filme que o senhor tenha muito carinho, né?

Não. Na verdade pra te dizer a verdade eu não tenho grandes coisas com cinema não. Eu não tenho muito o que exaltar na minha carreira. Lamento. Eu fiz um filme que esteve no Festival de Brasília...de um diretor de Goiás ou de Brasília. Não lembro o nome do filme.

Mas foi um trabalho legal esse?

Foi muito legal. Foi feito lá em Goiânia.

Goiânia? Poxa, um lugar diferente pra se fazer cinema. Bacana.

Pois é. Foi uma experiência muito satisfatória esse filme.

O Johnny o senhor tem muito o que contar? O senhor conheceu bem ele?

O Johnny conheci muito bem. A gente trabalhou muito no teatro, a gente morava próximo de casa. Então, a gente estava sempre junto.

O senhor deve ter conhecido bem ele quando estava casado com a Eva Wilma?

Não, não. A minha amizade com ele veio muito tempo depois. Veio acho cinco anos antes da morte dele.

Ele era bom ator, o senhor gostava do trabalho dele?

Bom ator. Ele tinha um estilo dele, muito legal.

O senhor também fez um filme com o João Batista de Andrade?

João Batista de Andrade...fiz. País dos Tenentes. A partir desse filme a gente ficou bem amigo, ele falou: “Puxa, te convidei pra um papel pequeno espera no próximo eu fazer um trabalho melhor com você”. Mas o João Batista a gente acabou ficando bem amigo e agora parece que ele está num cargo executivo do governo.

Mas qual papel o senhor faz?

Eu fazia um delegado. Eles gostavam que eu fizesse delegado (risos).

O senhor fez delegado várias vezes?

Fiz. O meu tipo físico sempre atraia os diretores pra esse tipo de coisa. Coisa que eu odiava (rindo).

Sério? O senhor não gostava de fazer delegado?

Não, porque você não tem muitas possibilidades. Só se fosse um trabalho tendo um delegado como protagonista. Mas o delegado é sempre uma ponta. Não dá pra você fazer algo de diferente. Ou de original mesmo.

Mas tantas participações pequenas irritam o senhor? O senhor gostaria de ter feito algo maior?

Eu acho...eu tenho 50 anos de carreira. Se é algo que eu me lamento na minha carreira é não ter feito um cinema melhor, entende? Isso sempre vai te deixar marcado, o cinema deixa muita marca. Eu não posso ter esse privilégio de dizer: “Eu fiz tal coisa, tal”. Não, as coisas que eu fiz, tentei fazer direito, né?

Nesse filme do João Batista o senhor chega a contracenar com Paulo Autran?

Chegava, chegava. Eu fui muito amigo do Paulo Autran. Trabalhei muito com o Paulo Autran no teatro também. Um cara maravilhoso.

Eu vi esse filme a pouco tempo não é um grande filme, mas ele está muito bem

Exatamente.

Quem Matou Pixote do Joffily foi um papel pequeno também?

José Joffily. Eu estava trabalhando no Rio, fazendo televisão e o Joffily me chamou pra fazer Quem Matou Pixote?. Depois eu acabei trabalhando com o Joffily na televisão.

E o senhor gostou dele como diretor?

Bom, bom. Muito bom diretor.

Era um papel pequeno também?

Sim. Outro filme que gostei de fazer foi um chamado Veias e Vinhos. Que era protagonizado por aquele ator que fez O Homem Que Virou Suco...

José Dumont?

José Dumont. Trabalhamos juntos. Esse Veias e Vinhos era baseado num livro que o cara também não gostou da adaptação. Mas era um filme político.

Mas o João Batista tem uma obra política.

Sim, sim.

O senhor gosta do João Batista dirigindo?

Ah sim. Acho que ele tem um cinema bacana, marcante. Esse papel era muito bom.

O José Dumont também era um ator...

Trabalhei muito com o José Dumont. Televisão principalmente, né? Ele é um ator muito engraçado, irreverente. Gosta de colocar caco no texto, entende?

O senhor também gosta de colocar caco?

Não, não. Sigo exatamente a minha fala. Eu sou CDF nesse aspecto (risos).

Porque isso? É algo do teatro?

Acho que é por causa do teatro. A minha formação exigia muita disciplina em relação ao texto.

Com o Sturm o senhor trabalhou uma vez?

Não, trabalhei duas vezes. Eu fiz esse Sonhos Tropicais que foi um filme que me deu muito prazer. Eu fiz um belíssimo trabalho como um judeu que explorava as polacas que chegavam no Brasil e faziam com que elas tornassem prostitutas. Então, eu tinha que falar em iídiche inclusive. Mas foi um filme muito interessante de ter feito. Depois eu fiz um outro com o Sturm que eu trabalhei com o (ator Ricardo) Darín, um ator argentino. O Ricardo Darín era um colega maravilhoso também. Foi muito bacana trabalhar com ele.

Agora ele está na moda.

Exatamente. Ele está até agora fazendo uma série na televisão. Bom ator.

Da Tata Amaral foi um papel pequeno?

Ah bom...isso foi um longa de uma diretora. Foi um trabalho muito pequeno também, né? Era um filme em que as protagonistas são todas mulheres não tinha quase personagens masculinos. Você levantou toda a minha filmografia cara!

Não sei se toda. Próximo disso. O senhor muitas vezes trabalha com diretores bem mais novos. Isso é um problema também?

Pelo contrário. Você se renova com eles. Ás vezes, eles tem dificuldade de dizer o que eles querem porque tem diretor que tem tudo na cabeça. Então, é difícil falar: “Olha, eu quero isso, eu quero aquilo”. Mas a gente acaba se entendendo.

Quando é esse filme com o Cauã e a Caroline Abras. A personagem dela chamava-se Marcine, não é isso?

Sim, sim.

Esse filme chama Se Nada Mais Der Certo. O seu personagem era um vagabundo, certo?

Exatamente. Eu fazia um marginal, né? Um homem de rua, um morador de rua.

E foi difícil fazer esse personagem?

Não, não. Foi tranquilo.

Como o senhor conheceu o Belmonte? Ele que chamou o senhor?

Ele que em chamou. Eu nem conhecia ele direito, ele é de Brasília, né?

Sim. O primeiro filme dele inclusive foi feito em Brasília inclusive.

Então...de vez em quando a gente faz contato através de rede sociais e conversa.

O senhor acha que o Belmonte é um dos bons diretores dessa nova geração?

Eu acho. Pena que ás vezes ele não tenha chance de fazer filme no momento, né? Então, fica muito tempo sem fazer filme. Isso atrapalha, isso atrapalha muito a carreira de um diretor. Muitas vezes ele fica lá ansioso pra fazer seus roteiros e não consegue idealizar.

O Belmonte era bom diretor?

Sim. Eu acho o Belmonte muito bom diretor, muito bom. Eu acho que ele ainda vai fazer o grande filme dele.

O senhor não contracena com o Cauã (Raymond), certo? É mais com a Caroline Abras?

Sim, ela parecia um hominho no filme. A Caroline está muito bem, ela fazendo o filme era impressionante. Ela era de muita boa qualidade, uma atriz fantástica. Me surpreendi com o trabalho dela, né?

O senhor achou que era alguém mais inexperiente...

Sim, achei. Mas ela fazia maravilhosamente bem.

Esse personagem do vagabundo, como era? Qual o nome dele?

Não me lembro.

Fala um pouco do último filme que o senhor fez com o Bianchi. Como foi isso?

O Bianchi? O Bianchi você precisa acreditar na ideia dele. Porque ele falava que todos os intelectuais...ele estaria colocando na parede a teoria dos intelectuais da USP principalmente. Porque o que ele questionava no filme eram pessoas que participaram ou não da Ditadura e depois reivindicaram um valor por terem sido presos. E ele era absolutamente contrário a tudo isso. Então, no filme ele é muito crítico sobre isso.

O Sérgio Bianchi já é um diretor com uma filmografia bem dele, né?

Já, já. Parece que ele está agora preparando um novo filme. Mas não tenho muita informação a respeito.

Confesso que não vi esse filme que o senhor atua com o Bianchi. Era um personagem grande?

Era um professor universitário, era um professor universitário que dava aula na universidade. Alguns alunos que eram personagens principais eram alunos desse professor e eles tinham discussões filosóficas, ideológicas, entende? Então, era bacana. O Fernando Alves Pinto que fazia o protagonista investigava um pai que tinha sido preso, torturado e a sua família estava reivindicando um valor. Essa investigação, cada vez que ele conhecia mais ele se surpreendia e tinha grandes discussões com esse professor, com os colegas. Era um filme muito político, né?

E era difícil decorar esse texto?

Não, não. Eu me lembro que o Bianchi...no primeiro dia de filmagem era numa mesa, um jantar e filmando. Eu começo a dizer o texto e ele falou: “Petrin menos teatral”. Falei: “Tá bom”. Fiz de novo, de novo e ele: “Petrin menos teatral”. “Vem cá: senta aqui. Agora você me diz o que é menos teatral”. Aí ele não soube me dizer, mas aí acabamos filmando. Quando acabou o filme ele me ligou e falou: “Acabei de editar o filme e quero te cumprimentar pelo seu excelente trabalho. Valeu a pena”.

E o senhor já sabia da fama dele de ser uma pessoa difícil?

Ah..no Quanto Vale ou é Por Quilo eu presenciei uma cena dele numa fazenda em que estávamos filmando que eu fiquei estarrecido. Ele começou a xingar um técnico de som, pegou o aparelho e jogou fora. Mandou o técnico embora. Eu presenciei e fiquei horrorizado. Nesse filme eu fazia uma ceninha muito pequena.

E mesmo assim já deu pra perceber que ele era uma pessoa enérgica?

Sim, sim. Complicada.

E esses filmes do Bianchi tinham uma grande produção?

É...o elenco sempre foi muito bom, né? Acho que esse filme inclusive, esse último filme do Bianchi o elenco era excelente: Cláudio Mamberti, Clarisse Abujamra, Fernando Alves Pinto. Tinham outros atores novos muito bons...o elenco era muito, muito legal.

O Fernando também é muito bom ator, sobrinho do Ziraldo.

Sim. Ele foi premiado várias vezes. Muito bom.

Quais filmes que o senhor fez que ainda não estrearam? Essa comédia?

Exatamente. Carlos Amorim o diretor do filme. Ele faz um trabalho muito bacana, um roteiro ótimo. É uma comédia, mas uma comédia de muita boa qualidade. Tem no elenco a Camila Morgado.

É um tipo de longa-metragem que vai passar no shopping? Mais popular?

Eu ouvi que agora em abril vai ser lançado.

Pro ator muda muito? Fazer um filme como com diretores como Bianchi, Babenco e outros mais comercial?

Olha, seria interessante se o ator pudesse escolher. Ele falaria: “Olha, eu só faço fita cabeça ou eu só faço comédia”. Isso realmente não existe. Pode ser que aconteça com alguns atores americanos, alguns atores europeus, mas para o Brasil não temos muita escolha. A inveja que a gente ás vezes tem no Brasil são dos atores argentinos. Por exemplo, os atores da minha idade são muito requisitados, fazem cinema de uma forma magnífica, né? E colocam sempre eles numa discussão bacana como atores, em trabalhos maravilhosos, roteiros incríveis. Eu sempre penso: se eu tivesse nascido na Argentina eu estaria fazendo cinema. Na verdade no Brasil atores da minha idade são muito pouco usados.

Para protagonista, papel maior?

Isso, isso.

Esse filme que o senhor fez que foi uma comédia: Divórcio 99. Financeiramente é muito vantajoso participar de um filme desse que de uma produção menor, mais autoral?

A mesma coisa. A diferença nunca é grande. Depois outra: você não sabe se o filme vai pra festival, se vai ser visto. O cara te manda o roteiro...por exemplo, um sujeito a pouco tempo me mandou um roteiro na minha casa em São Paulo. Depois falei com o diretor. Ele me falou: “Trata-se de um projeto especial. São três personagens, três entrevistas. O personagem chega e vai ter uma câmera que ele dá entrevista. A câmera fica aqui gravando ele. Você poderia fazer uma leitura pra nós?”. Eu disse: “Claro”. Fui lá e fiz uma leitura como eu achava que poderia ser. Fiz uma leitura bem realista. Terminei isso e ele virou pra mim: “Você poderia agora improvisar”. Falei: “Improvisar o quê?”. Ele falou: “Essa situação que você leu agora. A gente queria que você improvisasse”. Eu falei: “Olha aqui meu amigo: estou conhecendo esse roteiro que você me deu. Agora, querer que eu improvisasse, poxa...me desculpe. Se você me der um dia, um tempo eu vou pensar, ler tudo direito e faço”. Acabei não sendo escolhido para o personagem, né? Aí um amigo meu que foi escolhido, perguntei pra ele: “Mas você fez improvisação?”. “Fiz. Mas eles acabaram me dando o livro do qual o roteiro foi baseado. Fui pra casa, li o livro e aí eu fui fazer improvisação”. Você vê que é diferente uma coisa da outra. Então, mas esse é o tipo de filme que é especial, não vai esperar grande público, aquele que o cara faz com prazer...

Um filme autoral. Um filme que passa aqui em Tiradentes, hermético.

Exatamente.

Pro ator não existe papel preferido?

Exatamente Ah não ser que seja uma bobagem, algo muito ruim que você fala: “Não vou fazer isso”.

E o filme do Thiago Mendonça? Como foi trabalhar com ele?

Foi muito legal. O Thiago te dá toda liberdade de você trabalhar. Trabalhar com criança sempre é algo complicado, né? Então, tinha que ter todo cuidado, a paciência no ensaio que fizesse o que a menina estava fazendo. Mas adorei fazer o filme, adorei mesmo.

E falar do Meliés, né?

Essa fantasia que ele coloca no filme, né? Você se transformar, de repente você ser aquele personagem da história do cinema. Isso é uma coisa fascinante, né? Então, valeu a pena por conta disso também.

O senhor gostou do resultado final?

Eu gostei. Até fiz uma observação pro diretor, uma crítica que achei que o protagonista, o pai devia...o público devia saber que ele também estava fazendo um filme e estava em crise por conta do filme que ele estava fazendo. E essa informação chega um pouco depois. Pra você ele fala: “Eu estou em crise com o filme que eu estou fazendo”. E a filha pegando a câmera, fazendo. A filha não tem crise nenhuma foi fazendo como brincadeira. O pai não, ele está em crise: “Porra não consigo dar sequencia no meu trabalho”. Essa informação tinha que vir um pouco antes. Eu acho que ela chega depois e falei isso pro Thiago. Não sei se ele concordou, mas os colegas concordaram com a minha observação. Mas enfim, são coisas que ainda podem ser consertadas, né? O Thiago é uma pessoa de fácil trato. Foi muito amável com todo o elenco.

O que o senhor acha desse momento que o cinema brasileiro está vivendo? Esses filmes de grande orçamento conseguem aparecer, essas produções de menor investimento acabam ficando nos festivais.

Olha, tem filmes cara que você fala: “Pô, quero ver tal filme”. E já saiu de cartaz. Aí é terrível porque eu acho que nós ainda somos sujeitos a programação americana das grandes produtoras, desses estúdios que dominam. Tanto a Paramount como a Paris...enfim, eles tem a facilidade de programar. Por exemplo: tem um cinema perto da minha casa que tem lá um blockbuster ocupando duas salas. Cinema, salas enormes, pra quê duas salas? Por que não dividem melhor? Mas o que manda é o dinheiro. Enquanto a gente não tiver um cinema forte, a gente não vai conseguir superar isso. Lamentavelmente. Porque eu acho que nós temos muitos talentos, diretores de grande talento, bons atores. A gente pode fazer bons filmes, mas ás vezes o cara não faz por que fala: “Vou fazer esse filme e quem vai assistir?”.

É cruel, né?

É muito cruel. Você vê: um diretor como o Luiz Fernando Carvalho que já mostrou a sua cara, ele com esses Dois Irmãos se ele tivesse feito no cinema seria um puta filme brasileiro maravilhoso. No entanto, ele teve que fazer pra televisão porque se ele fosse fazer pra cinema quem iria assistir? Pro tipo de produção que seria aquilo. Então, o que o cara faz: ele acaba fazendo algo para televisão. Aliás, tem várias pessoas fazendo isso.

O senhor acha legal isso?

Claro que não acho legal. Mas é a sobrevivência. Afinal de contas, a televisão acaba pegando todo o filé mignon de grandes diretores.

Mas para um ator como o senhor que tem uma carreira longa no cinema como na televisão e mesmo no teatro: fazer novela é chato mesmo?

É...olha não é...você vai lá pra sobreviver também cara. Não tem outra. Quem falar que é diferente está mentindo. Você vai lá fazer cinema porque você dá graças a Deus de ter um contrato quando hoje no Brasil um ator tem um contrato de oito meses pra fazer uma novela. Ele sabe que ele vai fazer uma bobagem lá, vai ser bom nos cinco primeiros capítulos e os outros serão repeteco daqueles cinco, entende? Vai ser aquela mesmice de sempre. Como você vê atores maravilhosos fazendo essa novela das nove horas. Por exemplo: a Vera Holtz está fazendo um trabalho magnífico. Você fala: “Porra, poderiam estar fazendo um cinema maravilhoso”. No entanto, você vai lá porque a televisão ocupa até o espaço do cinema. Então, não tem o que reclamar. Você vai fazer produção de teatro e como é que você vai conseguir dinheiro pra colocar essa peça em cartaz? É um grande sacrifício. Você coloca essa peça em cartaz e tem que fazer um preço tão pequeno pra você ter público. Aí não se paga, então, você precisa de um incentivo pra você se manter. Então, esses incentivos acabam gerando uma dificuldade pra sobrevivência e você acaba sempre dependendo da Lei Rouanet daqui, o patrocínio dali. E você fica girando em torno e a gente nunca sai do lugar. A gente sempre acaba tendo dificuldade, sempre tendo as mesmas desculpas. O roteirista tem na sua gaveta três, quatro roteiros. Mostra pra um, mostra pra outro e acaba o diretor sofrendo porque tem um roteiro e não consegue realizar. Entende? Então, é complicado. Eu fui agora, eu fiz um documentário sobre a cidade de Presidente Prudente. O diretor me convida, fala assim: “Olha, eu quero fazer um documentário sobre a cidade. Tenho uma verba que me deram e vou fazer”. Pra conseguir isso ele fez um roteiro de atores pra viver os personagens da cidade, você vai lá e você não tem vergonha de ir não. Eu falei: “Fiz sim um filme sobre a cidade de Presidente Prudente”. E você vai fazer assim como o diretor fez. E assim é sempre, né? É claro que Wagner Moura tem uma possibilidade de fazer filme internacional, o Lázaro Ramos são atores maravilhosos. Mas sabe, de repente aconteceu na vida deles. Quantos atores maravilhosos nós temos e estão ali sem fazer porra nenhuma.

Nem novela? Nem teatro?

Nada. Absolutamente nada.

O senhor conhece vários que estão assim?

Claro, claro. Entendeu? Quantos atores da minha idade estão em novela? Muitos poucos, você conta nos dedos.

E o mesmo tipo de personagem sempre.

Exatamente. Você vai fazer esses personagens.

Sei lá: avô ou velho safado...

Exatamente, exatamente.

Sempre estereótipo?

Exatamente, esses personagens.

Mas não cansa Seu Petrin?

Chega um ponto que você fala assim: eu tenho cinquenta anos de carreira, eu vou fazer o quê? Vou trabalhar no comércio? Não, eu vou ser ator, vou trabalhar com o que vem pra mim. Essa é a realidade.

Sim. Mas quando vem algo que questiona, um desafio é mais legal?

Claro, claro. Você vai e mergulha, o cara está berrando com o técnico e fala: “Vamos lá gente. Apaziguar e fazer o filme, fazer a novela, fazer a peça”. Mas que é complicado é. Quando a gente vê exemplos de atores em outros países. Como dizia o Plínio Marcos: um ator morto nos Estados Unidos ganha muito mais que um ator vivo no Brasil.

O senhor foi muito próximo do Plínio?

Muito, muito.

Entendi. Acho que era mais ou menos isso. Dos filmes que o senhor fez qual o senhor mais gostou?

Todos. Eu sempre procuro ter uma relação bacana. Apesar de crítico, eu sou muito crítico. Tenho sempre, nunca no meu trabalho algum diretor falou assim: “Com você eu não trabalho mais”. Pelo contrário: todos os diretores que eu trabalhei sempre me chamaram para um segundo trabalho. Então, eu tenho orgulho apesar de criticar o seu próprio trabalho. O que importa é você ser correto no seu trabalho, ter o respeito pelo diretor sem ser submisso a ele. Você discute as cenas porque também é ruim quando o diretor fala: “Quero que você faça isso. “Mas por que eu vou fazer isso?”. Eu quero saber o motivo e ás vezes tem diretor que se enche de dar explicações, mas eu exijo porque eu quero fazer o trabalho direito. Pode ser que eu não consiga, mas a minha intenção é sempre fazer o melhor.

O senhor vive recebendo roteiros e espera fazer mais filmes?

Sim, sim. Esse ano mesmo eu recebi vários roteiros. Principalmente de curta-metragem, a molecada que está se formando nas universidades me chamam. Vou lá e faço com o maior prazer.

E ás vezes até com pouca grana?



Ás vezes nenhuma, nenhuma. Mas faço sim. Primeiro porque eu também me exercito, né? Faço meu exercício de ator e também estou colaborando para um talento novo que está surgindo aí. 



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