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domingo, 23 de maio de 2021

ADONIRAN, SEM RETOQUES (Playmen, setembro de 1980)

ADONIRAN, SEM RETOQUES (Playmen, setembro de 1980)

 

ADONIRAN, SEM RETOQUES

 



Por Celso Lungaretti

 

Conheci o Adoniran num escritoriozinho que a gravadora Odeon mantinha na rua Bento Freitas. Eram só dois funcionários, que aguardavam os malotes, distribuíam o material vindo da matriz e recolhiam outros tantos volumes para despachar de volta. Eu costumava passar lá e apanhar os lançamentos do mês, para fazer minhas críticas. E sempre encontrava o Adoniran, paradão, ouvindo o papo dos outros, cochilando. Ás vezes o pessoal saía e deixava o Adoniran tomando conta. E ele pacientemente esperava que alguém voltasse.

Esse escritório fechou, quando a Odeon abriu uma representação à altura em São Paulo. Mas Adoniran continuou tendo seu itinerário particular, que cumpre com a pontualidade de um empregado-modelo. Passar a manhã na rádio Eldorado, até a hora do almoço. Sair para almoçar com algum conhecido de lá, talvez o amigo Nogueira, um divulgador. Ficar meio triste quando todo mundo está com algum compromisso e ele tem que ir comer sozinho. Mas disfarçar, recusar se aparece o convite de um “estranho”. (Meu caso. Ele balançou a cabeça e disse: “Eu vou sair por aí, na direção do Arouche. Não sei nem se vou almoçar ou comer um sanduíche. Fica para outra vez”). Comparecer todas as tardes no La Barca, um boteco onde espera encontrar outro amigo o Talismã, líder do conjunto que atualmente o acompanha. E assim por diante.

Lembro-me do meu sogro, notívago e bom papo, que sempre sonhava com o que ia fazer quando se aposentasse: pesar, passear, comprar uma granja e plantar sua horte, assistir aos filmes de TV que passam à meia-noite. Afinal chegou o dia. E na manhã seguinte, lá estava ele de novo na repartição, no horário de sempre, para “bater uma caixa” com os amigos e ir junto para o bar. Nada mudou. Até hoje.

 

Você acha que eu estou com um pé na cova?

As homenagens programadas para a comemoração de seu 70º aniversário desconcertaram Adoniran, que chegou até a dizer que não as merecia, “afinal não sou nenhum João Paulo 2º, nenhum Chaplin ou presidente da república”. E, de qualquer forma, não serviram para compensar anos e anos de esquecimento. Homem às antigas, Adoniran ainda não habitou a virar notícia apenas em tempo de efeméride. Cansou-se de dar entrevistas, “o que mais posso dizer da minha vida? Já disse tudo, para todo mundo!”. E não conseguiu conter o desabafo de quem teve de lutar demais para obter um reconhecimento tardio e superficial. “Por que não me procuraram há vinte anos atrás?”.

Mas em geral esforça-se para corresponder ao clima festivo. Pergunta-lhe se ainda espera alguma coisa da vida. “Por que, você acha que eu estou com um pé na cova?”. Explico melhor: falta-lhe realizar algum sonho, uma grande meta? Aí ele dá um sorriso e mostra que continua atento ao linguajar das ruas. Sabe até a gíria da meninada: “O que vier, eu traço. Tudo bem!”.

 

“Um boêmio pobre. Filante. Bicão”.

Efeméride é a palavra-chave. Era preciso comemorar os 70 anos de Adoniran, nem que para isso se-lhe romantizasse o passado, transformando-o numa imagem ao gosto do público de agora. E já que o folclore paulistano nem de longe se compara ao da Lapa carioca ou de Vila Isabel, que tal promover Adoniran a algo assim como o estereótipo do boêmio do Bexiga?

Com um pouco de boa vontade e puxando por sua veio saudosista, conseguiram extrair de Adoniran declarações na medida para coloca-lo dentro do figurino pretendido. “Fui na Bela Vista procurar o Bexiga e não achei. Antes o pessoal sentava na calçada, agora por lá andam muito diferentes, cheias de viaduto; o Brás eu também não encontrei, as casas baixas foram embora; a Rangel Pestana também não está mais lá; o Largo da Concórdia ficou cheio de banquinhas de camelô; a Celso Garcia, onde havia o melhor carnaval do Brás, também já não existe. No Belém não achei o Largo São José com seus casarões e suas árvores. Nem a Lapa, onde não nem sinal de calma de bairro de antes. O Largo da Sé acho que venderam”. (JT, 9/8/80). A matéria fala também de suas saudades de um bar “boêmio” da Av. São João e de um bonde “boêmio” que rodava a noite inteira.

Adoniran, você foi mesmo esse boêmio que estão pintando? “Fui mas é um boêmio pobre, que ia de bar em bar, de boteco em boteco, sem dinheiro, filando bebidas dos amigos. Um boêmio bicão”.


“Só de samba ninguém vivia”.

Adoniran era capaz de registrar impressões acerca da cidade com alma de artista. É o grande cronista de São Paulo. Mas suas andanças não foram despreocupadas como as dos sambistas cariocas e sua história está longe de ser a de um boêmio. Mesmo porque seu amor pela cidade não era correspondido: ela rejeitava seu samba, só queria saber de serenatas, valsas, modinhas, boleros e tangos.

Nesta cidade de imigrantes, ciosa de suas raízes culturais alienígenas, não havia espaço para os ritmos, costumes e tradições realmente brasileiros. Adoniran testemunha: “Só de samba ninguém vivia, em São Paulo. Era pouquíssimo executado. Os sambistas daqui como a Isaura Garcia e o Vassourinha, eram obrigados a ir lá no Rio e gravar composições de autores cariocas”. Daí o seu orgulho em ter sido o grande divulgador do samba paulista, “não o iniciador, porque já existiam o Raul Torres, o Nestor Amaral, o Cacique. Mas o Rio só veio saber que se fazia samba em São Paulo quando os meus entraram lá. E aí a coisa se estendeu parta todo o Brasil”.

Até que chegasse esse reconhecimento (e mesmo depois dele), a vida de Adoniran foi tipicamente paulista, mas num aspecto pouco romântico e que as matérias louvaminhas esqueceram de registrar: o trabalho. Carreira sacrificada, árdua, difícil. E não foi por acaso que o pão nosso saiu quase sempre de suas atuações como rádioator e não da música. O clássico Trem das Onze, por exemplo, não veio de impressões deixadas por agradáveis noitadas boêmias, mas sim de observações feitas quando ia ao Circo do Batista, lá no Jaçanã, interpretar ao vivo os tipos que faziam sucesso no programa de rádio História das Malocas. “Aliás, o trem nunca foi das onze; era das oito, eu me lembro muito bem”.

 

“Não parava em emprego nenhum”

Adoniran Barbosa na verdade é João Rubinato, um dos seis filhos (três homens e três mulheres) de um casal italiano que se estabelecera em Valinhos. Tinha catorze anos quando o pai, empregado em olarias, descobriu que seria rendoso trabalhar perto da capital, onde, de quebra os filhos homens também encontrariam sua colocação. Assim, em 1924 a família se mudou para Santo André.

Adoniran tem boas lembranças da infância, “pobrinha, mas tranquila. Uma infância comum. Não miserável. Tinha tudo. Boa comidinha em casa. Com minha mãe, meu pai, tudo”. Fez até o terceiro ano primário, entregou marmitas. Já em São Paulo, passou por uma variedade enorme de empregos, sem se dar bem. Foi operário de fábrica de tecidos, serralheiro, pintor de parede, ferragista, encanador, balconista, metalúrgico, garçom. “Não parava em emprego nenhum. Fui tanta coisa que nem me lembro”.

Nas horas de folga, gostava de assistir aos ensaios das bandas de música. Até que um dia faltou o tocador de caixa e ele se oferecer para substituir, “isso lá por 1926, 28, mais ou menos. Então eu gostei tanto da coisa que comecei a estudar música. Comprei um flautim, passei a tocar o danadinho também”.


“No baralho tem um ás de ouro. Na Rádio São Paulo tem três”

Em 1932, ele veio sozinho morar em São Paulo. Logo começou a frequentar as rádios, cantando sambas em programas de calouros. No dia do animador Jorge Amaral, na rádio Cruzeiro do Sul, ganhou o primeiro prêmio, interpretando “Filosofia”, Noel Rosa, apropriada para sua voz rouquenha. Recebeu 25 mil réis e um contrato, pois teve a sorte de ser notado por Paraguassu, diretor do programa. Adotou um nome artístico que “homenageava” dois amigos: o funcionário de correio Adoniran e o sambista carioca Luiz Barbosa.

Cantou músicas alheias, com regional, nas rádios Cosmo (hoje América), São Paulo, Difusora. Em 1935, inscreveu Dona Boa (composição sua, em parceria com o pianista J. Aymberê) no concurso para o carnaval oficial da Prefeitura paulista. Ganhou o primeiro prêmio: 500 mil réis. O cheque foi descontado na Praça da Sé e o dinheiro mal deu para a farra que Adoniran e os amigos aprontaram. Ele acabou voltando a pé para casa.

Nesse mesmo concurso, o segundo lugar ficou com outro novato, o Ranchinho. E Adoniran se encontrara com essa notável dupla caipira no cast da rádio São Paulo, ainda em 1935. Foi quando saiu a primeira matéria com ele em jornal, com um título que ainda hoje repete de memória: “No baralho tem um ás de ouro. Na Rádio São Paulo tem três: Adoniran Barbosa, Ranchinho e Alvarenga”.

 

“Eu falando já era uma piada”

Um dia, Blota Jr. e o Vicente Leporace resolveram fazer uma experiência e colocaram o Adoniran num programa humorístico que eles tinham na Cruzeiro do Sul. O auditório entrou em delírio. E a partir daí a carreira de rádio-ator passou a ser sua principal ocupação, deixando a música em segundo plano até 1969, quando ele “se aposentou”.

Transferiu-se para a rádio Record em 1942, chamado pelo Otávio Gabus Mendes. Os programas foram se sucedendo: Palmolive no Palco, Escolinha Risonha e Franca (ele era o Barbosinha Maleducado da Silva), Casa da Sogra (ele interpretava vários tipos: o galã de cinema francês Jean Rubinet, o professor de inglês Richard, o cobrador de prestações Moisés Rabinovic, o chofer de táxi do Largo do Paissandu Perna Fina), Zé Conversa e Catarina (o Zé Conversa era um crioulo folgado da Barra Funda, que vestia a roupa do patrão para conquistar as empregadinhas), O Crime Não Compensa (este já sério e o Adoniran fazia sempre o criminoso).

Mas o grande sucesso foi mesmo o História das Malocas, escrito por Osvaldo Molles (o Adoniran com seu característico sotaque italiano, o chama de “Molichi”) e inspirado pelo sucesso da música Saudosa Maloca. A galeria de tipos é inesquecível: a Terezoca, o Trabucão, Panela de Pressão, Pafunça...E o principal deles, “um negro da favela, vagabundo que não faz nada”, marcaria época, interpretado por Adoniran: o Charutinho. Trata-se de mais um dos personagens curiosos baseados no carismático presidente do Corinthians, Alfredo Ignácio Trindade. (Outro deles é o político populista vivido por José Lewgoy no filme Terra em Transe, de Glauber Rocha).

O História das Malocas ficou no ar de 1954 a 1968 em dois horários: domingos ás 12,00 e sexta-feira ás 21,00. Adoniran diz que ele foi o programa humorístico de maior audiência do rádio brasileiro, graças ao talento de Molles (“Igual a esse não apareceu mais nenhum e nem vai aparecer!”). Pergunto se ele próprio, Adoniran chegava a criar alguma piada. “Eu não. E nem precisava que eu falando já era uma piada”.

 

A consagração na capital do samba

“Antigamente era mais difícil entrar e mais difícil ainda fazer sucesso. Ninguém queria nada com a gente. O elevador vazio, para artista sem nome, estava sempre lotado. E agente tinha que ficar dando em cima das gravadoras, dos cantores, dos locutores, dos diretores artísticos”. A confissão de Adoniran explica bem porque compôs de forma tão descontínua: Joga, a Chave, Malvina e Iracema em 1943; pausa até 1950, ano de Saudosa Maloca, Samba do Arnesto, Os Mimoso Colibri; novo colapso até 1956, quando suas composições antigas fazem sucesso através do Demônios da Garoa e ele se anima a uma parceria com Vinícius de Morais, Bom Dia Tristeza, que Aracy de Almeida gravou.

Finalmente, em 1964, o grande sucesso: Trem das Onze, que sem ser música carnavalesca, acabou se tornando um dos cinco sambas mais executados no carnaval do Centenário do Rio de Janeiro, valendo a Adoniran dois mil cruzeiros de prêmio e um troféu que ele exibe até hoje, com a inscrição ‘Adoniran Barbosa, campeão carioca do carnaval’. Era o coroamento de sua carreira de compositor paulista, se consagrar na capital do samba!

E depois? O justo reconhecimento, a possibilidade de gravar seu próprio LP, a aceitação de seus sambas originais, falando de tipos esquecidos do cotidiano em linguajar simples e cheio de erros de português? Nada disso. Mais um período obscuro, de vacas magras. E ele, que já atuara em cinema (inclusive em O Cangaceiro), chega até o fim dos anos 60 fazendo pontas em novelas da Tupi como Mulheres de Areia e Ovelha Negra.

 

Arnesto e a Censura ortográfica

Foi então que o produtor musical João Carlos Botezelli, o Pelão, tornou-se seu amigo e começou a corrigir as injustiças de toda uma vida. Levou Adoniran para se apresentar no Teatro Treze de Maio, foi um tremendo êxito. Conseguiu que ele gravasse seu primeiro LP na Odeon, em 1975. Dá-se o episódio pitoresco de colocar nesse disco, onde estão reunidos seus grandes sucessos, o Samba do Arnesto, porque um decreto oficial proibia o mau uso do vernáculo nos veículos de comunicação.

O professor Antônio Cândido sai em defesa de Adoniran, na contracapa: “Já tenho lido que ele usa uma linguagem misturada de italiano e português. Não concordo. Da mistura, que é o sal de nossa terra, Adoniran colheu a flor e produziu uma obra radicalmente brasileira, em que as melhores cadências do samba e da canção, alimentadas inclusive pelo terreno fértil das Escolas, se aliaram com naturalidade às deformações normais de português brasileiro, onde Ernesto vira Arnesto, em cuja casa nóis fumo e não encontremo ninguém, exatamente por todo esse país”.


“Nós ganha poco, mas nóis si diverti”

Mais um LP em 1976. E um novo hiato até agora, quando saiu o disco de seus 70 anos, em meio a todas as festividades programas pela EMI-Odeon. Um sucesso certo, a julgar por sua qualidade, pela repercussão da data e pelo peso dos convidados (Clementina de Jesus, Clara Nunes, Carlinhos Vergueiro, Djavan, Elis Regina, Gonzaguinha, MPB 4, etc).

E depois? Quanto tempo levará até que o público recorde novamente esse que é um dos mais sensíveis e humanos retratistas do cotidiano? Meses, anos? Não importa. Adoniran seguirá mantendo seus rituais diários, resistindo obstinadamente à velhice e à acomodação. Continuará se apresentando pela periferia e pelo interior, em faculdades, escolas, prefeituras, entusiasmado com o público jovem que conquistou. “Até a criançada já conhece!” – afirma, orgulhoso. Não importa que volte dessas excursões exausto, desabe na cama e permaneça o dia e a noite toda recuperando as forças. E se alguém lhe perguntar se gosta da vida que leva, decerto ele responderá sinceramente que sim, talvez até acrescentando sua frase célebre: “Nóis ganha poco, mas nós si diverti”.


Publicado originalmente na revista “Playmen” em outubro de 1980

sábado, 22 de maio de 2021

ADONIRAN BARBOSA: “EU TORÇO PARA O POVO” (Revista Fiesta, março de 1978)

ADONIRAN BARBOSA: “EU TORÇO PARA O POVO” (Revista Fiesta, março de 1978)



 
Por Walter Negrão

 

Um dia estávamos em Taubaté gravando uma telenovela. Um homem com jeito de assessor do prefeito se aproximou de Adoniran e falou muito solene: “- Preparamos um churrasco em sua homenagem. Vai ser amanhã, ao meio dia”. A resposta veio seca e direta: “-Não quero, não quero, não quero! Não gosto de churrasco. Não encomendei churrasco”.


Malcriado? Não! Franco. Sincero. Simples e maravilhoso. Assim é Adoniran Barbosa, que na verdade se chama João Rubinato. Sua idade? Ninguém sabe. Profissão? Todas. Manias? Muitas. Uma delas: detesta entrevistas. Aceitou falar aqui porque apelei para nossa velha amizade. Fiz chantagem sentimental, inventei que perderia o emprego na revista. Mesmo assim Adoniran chegou querendo partir. Aos poucos fui relaxando e nosso papo durou duas horas.

 

Posso garantir: duas horas de conversa com sêo Rubinato representam um curso de dois anos de sabedoria popular, de humorismo e – principalmente – de humor, de alegria de viver. Alguns preferem conhecer lugar (ver Roma, depois morrer). De minha parte, confesso: prefiro conhecer gente. Troco tranquilamente Paris por uma noite de papo com Adoniran Barbosa, num botequim qualquer de uma esquina qualquer. Vejam aí porque.

 

FIESTA- Como foi sua infância Adoniran?

ADONIRAN- (vendo chegar a secretária com dois copos plásticos)- Que é que tem nesse copo aí?

 

FIESTA- Uísque.

ADONIRAN- Bom. Uísque é bom. Mas não é só eu bebendo não. É eu e o repórtis. Ah, minha infância foi pobrinha mas tranquila. Foi o grupo escolar até o terceiro ano. Depois fui trabalhar na fábrica de tecidos. Uma infância comum. Não miserável. Tinha tudo. Boa comidinha em casa. Com minha mãe, meu pai, tudo.

 

FIESTA- Seu pai e sua mãe? Cadê eles?

ADONIRAN- Se foram! Faz tempo que morreram os dois. Tenho uma lembranças dos dois. Tenho uma lembrança muito boa deles. Era bons pra mim. (Impaciente, querendo ir embora)- Acabou a fita do gravador?

 

FIESTA- Como acabou a fita? Mal começamos. Você disse que trabalhou em fábrica.

ADONIRAN- Em Santo André. Lá fui tecelão. Fazia brim no tear. Daí eu fui pintor de parede, daí eu fui serralheiro. Fazia caixilhos, janelas. Depois eu fui ferragista em loja de ferramentas. Depois eu fui metalúrgico, no Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo. Depois...loja de tecidos. Balconista. Encanador. Uma porção de coisa eu fiz. Aí eu me meti no samba, não quis mais saber de trabalhar. Me meti em samba em 1932, 33, 34, até hoje.

 

FIESTA- Mas você ainda tem uma oficina em casa pra fazer brinquedos...

ADONIRAN- Eu gostava muito de mecânica, sabe? Tenho em mim isos aí. Faço em casa. Faço bicicleta, faço abajur, faço patins. Aos domingos fico em casa, assim à vontade, e faço meus brinquedos. Fiz agora um trenzinho elétrico. Você viu na televisão? Mostraram o meu trenzinho na televisão. Tem a locomotiva, o vagão de passageiros e o vagão de carga. O vagão é de madeira. Foi o meu compadre que fez. Bem feito. Bom sujeito o meu compadre. Isidoro se chama. Bom cara ele. Isidoro Dias Lopes.

 

FIESTA- Isso tudo você faz nos domingos em que não tem show, claro.

ADONIRAN- Eu nunca pego show de domingo. Não quero. Nem que me paguem mil vezes. Fico em casa. Levanto lá pras nove horas, tomo um banho rapidinho, vou lá pro barracão, fico até a hora da minha mulher chamar pro almoço. Aí tomo meus vinte uísques, vou almoçar ás três da tarde já meio de fogo. Começo achar defeito em tudo. Isso é comum, né? Todos nós somos assim. Acha defeito em tudo. É chato mas é isso que a gente faz mesmo. Depois do almoço dorme um pouquinho, toma um lanche, vê televisão e pumba, bum! Dormir de novo. Pra amanhecer segunda-feira lépido, né? (Querendo mudar de assunto pra terminar logo a entrevista) – Agora o samba da praça da Sé parece que todo mundo gosta. Deus queira que seja sucesso.

 

FIESTA- Divagar seu Rubinato! Depois falamos de música. Seu jardim é muito bonito. Você cuida das plantas também?

ADONIRAN- Não. A minha mulher que cuida. Eu cuido de mim só. O jardim é com dona Matilde.

 

FIESTA- Estão casados há muitos anos?

ADONIRAN- Quarenta anos. Puxa! Meio século! Sabe o que é meio século juntos? Ela acompanha todos os meus trabalhos. Minhas músicas, meus programas. Tudo ela acompanha, desde áureos tempos, quando era mais moço.

 

FIESTA- Que signo você é?

ADONIRAN- Leão. Ela é touro.

 

FIESTA- Uma briga brava!

ADONIRAN- Não. Tá bom. A gente se dá bem, graças a Deus. Matilde é formidável. Pra me aguentar tem que ser muito legal.

 

FIESTA- Te “aguentar”, por quê?

ADONIRAN- Porque eu sou chatão. Sou exigente, sabe?

 

FIESTA- Verdade que ela proíbe você de fumar?

ADONIRAN- Ô! Demais, coitada! Ela fiscaliza, mas não adianta. Não tenho cigarro no bolso, nunca. Peço pros meus amigos. Eu serro cigarro o dia inteiro. Eu filo. Cada um que passa eu já peço um cigarro. Quer dizer, em vez de vinte, fumo quarenta. E eu não posso fumar mesmo, por causa da bronquite.

 

FIESTA- E por que você não compra cigarro?

ADONIRAN- Pra não fumar. (E rindo) – Me dá um cigarro.

 

FIESTA- Dona Matilde acompanhou você no carnaval também?

ADONIRAN- (Querendo desconversar) – Pergunta do meu natal.

 

FIESTA- (Sem entender) – Do natal?! Por quê?

ADONIRAN- Porque o natal foi antes do carnaval, né? Não tá querendo perguntar tudo na ordem, organizadinho?

 

FIESTA- Vai lá, que seja, sêo Rubinato. Como foi o seu natal?

ADONIRAN- Foi uma beleza! Eu e a minha mulher só. E a minha cachorrinha, a loirinha. Natal, mesa farta. Trabalhei o ano inteiro pra ter um Natal legal. Então na minha mesa tinha...bebidas. Todas! Fanta uva e vinho Capelinha. Um garrafão. É bão. Dá urticária na unha, mas é bão! Eu tinha comprado no Mercado Central um cacho de coquinho. Desse coquinho selvagem. Um belo dum cachão. Mais de dois mil coquinhos. Aí eu fui no Ceasa e trouxe caroço de pêssego. Então tinha coquinho selvagem, caroço de pêssego, um martelo e uma bigorna. Pra quebrar o caroço e comer o miolo, que seria a avelã, a amêndoa.

 

FIESTA- E eles vendem caroço de pêssego no Ceasa?

ADONIRAN- Você vata no chão. Ih, tem bastante! Enchi uma cesta. Você parte ele com o martelo, na bigorna. Dentro tem a amêndoa. Avelão era o coquinho. Você mastigava ele, depois partia o coquinho na bigorna e comia o miolinho que vinha a ser a avelã, né? Uma hora um coquinho escorregou da bigorna com a martelada, voou pela janela, matou um pardal que tava na árvore, coitado. Mas tudo bem, ceiamos legal, fomos dormir. No outro dia amanhecemos, fomos almoçar fora. O almoço de Natal também foi cem por cento.

 

FIESTA- Onde foi?

ADONIRAN- Foi no Pizza Rodízio. Comemos pizza rodívio. Muitos pedaços. Eu e a minha mulher. Aí, de noite, tomamos um alka-seltzer cada um e fomos dormir. Assim foi o meu natal-mesa-farta.

 

FIESTA- Podemos falar do carnaval agora?

ADONIRAN- No carnaval – agora falando seriamente – eu fiquei em casa. Carnaval não é mais pra mim. Fiquei vendo televisão, torcendo pra todas as Escolas de Samba.

 

FIESTA- Torcendo pra todas?

ADONIRAN- Claro, porque eu torço pro povo e o povo tá em todas elas. Torço pra todas, mas eu sou Pérola Negra, de São Paulo.

 

FIESTA- E no Rio?

ADONIRAN- Eu sou campeão carioca do carnaval, sabia? Campeão carioca do centenário, com “Trem das Onze”. Fiquei entre os cinco mais executados. Tenho o troféu em casa, que tá lá escrito: Adoniran barbosa, campeão carioca do carnaval.; E só daqui a cem anos que vai ter outro, porque foi no Centenário do Rio de Janeiro. Ganhei dois mil de prêmio. E em tinha feito “Trem das Onze” pra carnaval. Fiz pra meio de ano.

 

FIESTA- Falando em dinheiro, como vai a vidinha? Tá com o burro na sombra?

ADONIRAN- Se eu não trabalhar entra areia. Tenho um grupo aí, o conjunto Talismã, um quarteto, que trabalha comigo. Faço shows nas faculdades, para prefeituras do interior, nas firmas.

 

FIESTA- Você tem empresário?

ADONIRAN- Não. O empresário somos eu. Semos eu mesmo. Quando alguém quer contratar um show, liga pra TV Tupi de São Paulo, eles dão o telefone da minha casa, me encontro com a pessoa e acerto tudo. Por exemplo, se ligarem pra tua revista querendo show meu pode dar o telefone.

 

FIESTA- E qual é o preço do seu show?

ADONIRAN- Ah, no interior é conforme a distância. Aqui em São Paulo é 12 mil. Lá fora é quinze, vinte, conforme o local.

 

FIESTA- Você mudou de gravadora agora, não é?

ADONIRAN- Mudei. Eu fiz dois LPs na Odeon: em 75 e 76. Depois ninguém mais me chamou, ninguém mais falou comigo, eu mudei de fábrica. O Wilson Miranda me convidou pra Continental, eu fui. Vou fazer um LP na Continental agora. Só tem quatro músicas novas. O resto é do passado, músicas que não pegaram. Que deviam pegar, não pegaram. Tô gravando de novo, eu mesmo cantando, sabe?

 

FIESTA- Tem cuidado da voz pra gravar?

ADONIRAN- Tenho. Na semana que vou gravar não fumo e não bebo. Depois que gravou, aí tiro a forra. Aí desconto os dias perdidos. Já gravei duas músicas pro LP: “Um Samba no Bexiga” e “Madame Estação Sé”, em homenagem a Praça da Sé.

 

FIESTA- Por que “madame”?

ADONIRAN- Porque ela agora é madame. Agora ela é linda por baixo e por cima.

 

FIESTA- Como é que você sente essas mudanças de São Paulo, da Sé, do Bexiga, com viadutos, muito concreto?

ADONIRAN- Tá bom. É o progréssio, né? O progréssio. Mas eu gostava mais do Bexiga antigo, das casas velhas.

 

FIESTA- Você nasceu no Bexiga?

ADONIRAN- Não. Eu sou de Valinhos, interior de São Paulo. Perto de Campinas. Perto, hein? Perto, só! Vim pra São Paulo com catorze anos. (Indignado) – Epa! Esse uísque é meu!

 

FIESTA- Estou tomando um pouquinho do seu porque acabou o meu

ADONIRAN- (Bravo) – É. Eu sei. De pouquinho em pouquinho o repórtius enche o papo.

 

FIESTA- Naquele tempo do velho Bexiga você era galã, não era?

ADONIRAN- Eu galã? Não tenho pinta de galã, mas em todo caso...JJames (Charles) Bronson também é feio e é galã.

 

FIESTA- Entendi. É galã até hoje.

ADONIRAN- Eu sou galazão. Mas fui galã de novela de rádio. No tempo do Otávio Gabus Mendes eu fazia galã, já madurão. Não mocinho, não, galã bão. Papel bão que me davam pra fazer na novela. No rádio.

 

FIESTA- Foi fácil a sua entrada para o rádio?

ADONIRAN- Não. Eu é que era uma presa fácil nas mãos de meus algozes!

 

FIESTA- Por quê? Não gostavam de você?

ADONIRAN- Gostavam tanto de mim que elevador vazio pra mim tava lotado.

 

FIESTA- E o humorista, como aconteceu na sua vida?

ADONIRAN- Foi na rádio Cruzeiro do Sul. Tava lá o Blota Júnior e o Leporace. Eles tinham um programa de humorismo e um dia botaram eu no programa. Deu certo, foi um delírio no auditório. Aí o Otávio Gabus Mendes me chamou pra Record. Lá tava o Osvaldo Molles. O meu grande amigo Molles. Ele achava eu muito engraçado. Eu fazia programa do Molles, só programa do Molles, de humorismo. Fazia quadros cômicos com Raul Duarte e outros. Tinha o programa “Zé Conversa e Catarina”, que eram dois personagens crioulinhos e tinha também “A casa da sogra” tudo do Molles, sucesso. Depois veio “O crime não compensa”. Aí era sério. Eu fazia o criminooooso! Vinham os processos do Fórum e o Molles fazia as histórias. Nem apareceu mais, nem vai aparecer. Desculpe, mas não vai aparecer outro.

 

FIESTA- Que tal publicarmos um conto do Molles no mesmo número da revista em que sair a sua entrevista?

ADONIRAN- Bão. Muito bão! O Molles mesmo morte é mais sucesso que muita gente viva. Bota aquele conto dele chamado “Piquenique Classe C” que é formidável.

 

FIESTA- Como nasceu a idéia do programa “História das Malocas”, onde você fazia o famoso Charutinho? Que nasceu primeiro, o programa ou o seu samba “Saudosa Maloca”?

ADONIRAN- O Molles teve a ideia de fazer o programa por causa do samba. Eu fiz o samba em 1950. Depois é que veio o programa e fez dez anos de sucesso. Com o Charutinho, a Terezoca, o Trabucão, Panela de Pressão, Pafunça...uma turma boa na maloca.

 

FIESTA- Como era o Molles?

ADONIRAN- Era um que nem você assim. Só que mais alto, de cabelo branco, mais calmo, sem barba, mais gordo e não bebia nunca. Único vício dele era fumar e jogar baralho. Jogava toda noite com o Pagano Sobrinho e o maestro Gabriel Migliori. Vou gravar dois sambas que fiz com ele nesse meu LP novo: “O casamento do Moacir” e “Chora na rampa, negrão”. (E rindo) – Isso é com você não, Warte. Quando fizemos o samba nem te conhecia.

 

FIESTA- E a gente se conheceu bem depois...

ADONIRAN- Lembra quando foi, lembra? Eu lembro. Eu tava no bar ao lado do Teatro Record, morrendo de medo porque ia cantar no programa da Elis Regina, aquele tal de “Fino da Bossa”.

 

FIESTA- Lembro sim. Você estava tomando café no copo...

ADONIRAN- Falei que era café pra te enganar, porque você era repórtis da Última Hora. Mas era bebida. Eu tava apavorado de entrar no programa. Depois foi aquele sucesso que eu fiz. Você foi no bar e falou: viu o teu medo? Pra quê medo? Viu o sucesso que você fez? Lembra que você falou isso, depois escreveu no jornal? Eu tenho isso aí em casa, recortado.

 

FIESTA- Depois só voltamos a cruzar quando você entrou de ator numa novela minha e do Chico de Assis.

ADONIRAN- É. Foi no “Ovelha Negra”, da Tupi. Sabe o que eu ganhei com essa novela? Sabe o que eu ganhei gravando naquele pasto desgraçado, naquele fim de mundo, naquele descampado frio, naquel lugar onde o vento balançava a mijo?

 

FIESTA- O que você ganhou?

ADONIRAN- Micuim. Carrapato. Carrapato de grama. Era um pasto, né? Tinha o pasto seco com muito micuim, que é um carrapatinho de mato. Aí eu precisei ir no médico pra tirar carrapato. Não sarava nunca, pelamor de Deus! Aí o médico deu um remédio que sarou. Eu sentia muita coceira no pé e na canela. Foi isso que eu ganhei com aquela tua novela: micuim.

 

FIESTA- Me lembro que eu ficava espantado com sua facilidade em decorar o texto da novela...

ADONIRAN- Quando o texto é ruim não dá pra decorar. Mas quando é bom eu decoro fácil. Eu decoro cantando, sabe? Ponho melodia na fala e decoro cantando. Pra mim é mais fácil decorar com música. Mas não gosta de fala muito grande. Prefiro falar pouco e aparecer bastante na televisão. É aquele negócio: microfone neles, câmera ni mim.

 

FIESTA- Quais foram as pessoas importantes na sua vida?

ADONIRAN- Tantas! O Zara, o Carlos Zara é importante. Eu tinha me aposentado na Record, fui passear na Tupi, ele me botou pra fazer o Chico Belo na novela “Mulheres de Areia”. O Zara é o único culpado de eu tá em novela, de eu ter arrumado esses shows pra fazer por aí, agora. O Zara confiou em mim, me respeita muito.

 

FIESTA- E Pelão, como entra na história?

ADONIRAN- Eu sou o Pedro Álvares Cabral. O Pelão descobriu eu. Eu sempre fui o que sou, né? Mas o Pelão ficou meu amigo, levou eu pro Teatro Treze de Maio. Chovia pra burro. Fiz sucesso no teatro. Aí ele arranjou LP na Odeon pra mim. Ele começou a botar eu no mau caminho do LP, sabe? Eu não queria fazer isso aí. Eu gosto demais dele. EU amo o Pelão. É meu amigo o Pelão. Ele que é culpado de eu tá no LP. Começou aí, viu?

 

FIESTA- Mas você já havia gravado como cantor...

ADONIRAN- Já. Em 78 rotações, na RGE. Mas tinha parado. Não ia, não dava certo, eu parei. Com o LP deu certo. Não vem reclamar comigo que a culpa é do Pelão que produziu meu LP. (Impaciente, virando-se para a fotógrafa) – Que horas são, moça? Já é tarde, hein! Manda buscar mais uísque que é tarde!

 

FIESTA- Sempre tomou uísque, Adoniran? Ou teve a fase da pinga?

ADONIRAN- Ah, muita pinga! Ô! Praça da Sé! Muita pinga! Comecei tomar uísque nas festas, nas buates, nos shows. No Clubinho, com o Paulo Vanzolini, com o Gregorian. Que cara legal, que morreu cedo também! Lima Barreto, Di Cavalcanti. Aqueles caras no Clubinho, na Bento Freitas. Eu ia pra lá. Eu, minha mulher e o meu cachorrinho. Não era a loirinha ainda. Era o Mosquito. Ele ia junto comigo no Clubinho. No meu pé e da minha mulher. Teve um outro cachorrinho meu, o Peteleco. No tempo da Vera Cruz, onde a gente filmava, ele tinha muito cartaz porque era meu. Ey tinha um pouco de prestígio lá. Então, eu e o Alberto Ruschel, a gente ia pro Nick Bar, no Bexiga, eu ia com meu cachorrinho. O porteiro abria a porta do bar, o Peteleco pulava no piano. Sentava na cauda do piano. O garção já trazia pra ele churrasquinho em pedacinho. Eu lá no balcão, ele não saía de cima do piano. Daí eu falava: vão embora! Ele pulava do piano, ia pro táxi. Era boêmio o Peteleco.

 

FIESTA- Você sempre andou de táxi? Nunca teve carro?

ADONIRAN- Tive. Tive um Ford 36. Eu dirigia, mas machuquei a perna, falei: não quero mais automóvel. Agora eu sou táxi. Táxi-man. (Procurando o botão para desligar o gravador) – Acabou a fita, né? Chega. Tá bão. Depois você destrincha tudo isso.

 

FIESTA- Mais duas perguntinhas só. Depois vamos pra padaria da esquina tumar a última, a saideira. A sua religião, sêo Rubinato?

ADONIRAN- Sou católico. Mas não vou na igreja. Não precisa ir à missa. Você é católico, pensa em Deus, tudo bem. Bobagem ir na igreja.

 

FIESTA- O que é que você pensa da morte?

ADONIRAN- Não sei. A morte eu acho que ela vem, tem que aceitar. Não penso ainda na morte. A hora que ela vier, eu digo: é agora? Ah, é sim senhora? É agora? Então vamos! O pior é ficar doente. Eu tenho bronquite, mas a minha é alérgica. Se eu não fumar não tem bronquite. Me dá um cigarro.

 

Publicado originalmente na revista “Fiesta”, ano 3, número 25, março de 1978

sexta-feira, 21 de maio de 2021

Encontro Radical Adoniran Barbosa V de V: Um pouco além da cidade

CAPÍTULO 5
UM POUCO ALÉM DA CIDADE

Por Valter Krausche

Seleção e transcrição: Matheus Trunk

Adoniran com Clementina de Jesus e Carlinhos Vergueiro, comemorando os seus 70 anos e seu terceiro LP, no Bixiga, 1980

Veio a noite. E, quando já doente, perguntavam-lhe em que a noite mais o cativava, ele respondeu:

“Nada, a noite. Escurecia, aí eu gostava. Na noite sim, eu começava a viver”.

A relação é clara: o gosto pelo escurecer, pelo noturno, como impulso na vida. No entanto, no início veio a luz, mas que não passava de um sonho:

As mariposa
Quando chega o frio
Fica dando vorta
Em vorta da lâmpida
Pra se esquentá
Elas roda, roda, roda
E dispois se senta
Em cima dos pratos das lâmpida
Pra discansá
Eu sou a lâmpida
E as muié é as mariposa
Que fica dando vorta
Em vorta de mim
Tuda as noite só pra me beijá
(break)
- Boa noite, lâmpida
- Permita-me oscular-lhe a sua face?
- Pois não. Mais rápido, porque daqui a pouco eles me apaga”.
(As Mariposa, Adoniran Barbosa, 1955).

O privilégio de ser “lâmpida”, atração obrigatória das “mariposa”, pode acabar logo, como num sonho, partido. O prazer do beijo pode ser interrompido “porque daqui a pouco eles me apaga”. O dia deve logo chegar. Além disso, é o sonho do maloqueiro, do marginalizado, como indica o caráter “errado” desse samba, corrompendo a língua oficial. Distanciando-se do dia, sonhando, o cantor chega ao prazer. Foi preciso escurecer para acender.

A noite mudava o ritmo do cotidiano. A boêmia e o sonho alimentavam aquele momento estratégico. Estávamos então em 1964:

Lá no morro
Quando a luz da Light pifa
Nóis apela pra vela
Que alumeia também
Quando tem
Se não tem
Não fais mar
A gente samba no escuro
Que é muito mais legar”.
(Luz da Light, Adoniran Barbosa)

Com a interrupção da moderna luz da Light, chega-se ao escuro, melhor que a penumbra, onde o samba é “muito mais legar”. Quando a luz vai se apagando, torna-se possível captar novos comportamentos.

Passaram-se os anos. Em 1972, o cantor já pedia um pouco mais de luz:

Acende o candeeiro, ó nega
Alumeia o terreiro, ó nega
Vai avisar o pessoa
Que hoje tem ensaio gera
Vai nega, vai”.
(Acende o Candieiro, Adoniran Barbosa)

Já não dava pé sambar no escuro. Contudo, o herói ainda tenta resistir. Não canta o neon que passava a iluminar todos os espaços. Pedia somente para a Nega Maria o favor de:

...passar pelo armazém
De trazer um pacote de vela
E um litro de querosene”.                

A “maloca” tinha que acompanhar o progresso, embora as suas condições lhe permitissem apenas lançar mão da “vela” e de “um litro de querosene”; O compositor continuava sutilmente a propagar a sua denúncia, embora já sentisse a “necessidade” de se adaptar à luz geral, à claridade que expõe as pessoas à vigilância, que as obriga a se comportar com gestos muito semelhantes, de um modo público. Á luz do neon todos são pardos, visíveis mas constrangidos em suas atitudes. As diferenças e as individualidades, os sussurros e os mistérios tendem a desaparecer no mapa da noite.

A rua deixava de ser acolhedora. O progresso colocava o artista numa situação difícil. Em 1959, segundo Abrigo de Vagabundos, conseguia uma maloca lá pelos lados da Mooca. Porém, em 1964, era expulso para a periferia, processo que registraria em 1969 em Despejo da Favela. Diante do oficial de justiça entregando-lhe a ordem de despejo, exigindo que a favela deveria estar vazia em 10 dias, resta-lhe-ia cantar o pouco que sobrou:

“Dispois o que eu tenho
É tão pouca mudança
É tão pequena
Que cabe no bolso”.

Mas voltemos a 1964. Ali, as suas andanças já estavam comprometidas:

Não posso ficar
Nem mais um minuto com você
Sinto muito, amor
Mas não pode ser
Moro em Jaçanã
Se eu perder esse trem
Que sai agora ás onze horas
Só amanhã de manhã
E além disso, mulher
Tem outras coisas
Minha mãe não dorme
Enquanto eu não chegar
Sou filho único
Tenho minha casa para olhar
(Não posso ficar)”
(Trem das Onze)

O herói deveria voltar cedo para casa. A noite terminava para ele: era difícil caminhar/permanecer na cidade, afinal, o seu local de moradia, Jaçanã, ficava longe. O samba manifestava uma ruptura: o andar separado do morar, não identificado mais com o maloqueiro, aquele que é obrigado a ficar pelas ruas ou porque foi expulso, ou porque mora tão mal que andar e morar são para ele um único ato. Tampouco revela o boêmio, outro personagem das andanças urbanas. A identidade boêmio-maloqueiro cedia o seu lugar ao moço com responsabilidades, filho único, casa para olhar.

A cidade escapava-lhe do andar. Os automóveis corriam pelas pistas elevadas que destruíam bairros, avenidas...O neon eliminava buscas e mistérios. Tudo ficava muito insignificantemente claro. A TV fazia a colagem definitiva entre voz e imagem, instantaneamente absorvida pelo público. A imaginação deixava de ser o esforço final para dar vida às máscaras promovidas pela voz. Não havia mais lugar para “Charutinho”, para malandros e velhos boêmios. O espaço da criatividade enfim transformava-se. Iam morrendo o humor, as radionovelas e os programas de auditório promovidos pelo rádio.

Entretanto, o herói lutava. Em 1968, por exemplo, apresentava na I Bienal do Samba, promovida pela TV Record, o samba Patrão, Mulher e Cachaça, em parceria com Oswaldo Moles: a música foi desclassificada.

Era um momento de reveses. Em 1968, Histórias das Malocas perdia muito em audiência, e com o suicídio de Oswaldo Moles tiraram-no do ar. O grande Adoniran-Charutinho foi sendo marginalizado dentro da Rádio Record. Todos os dias encaminhavam-se ao trabalho, procurava o seu nome na escalação para os programas e não encontrava. O Samba do Arnesto reproduzia-se em escala cruel e ampliada: nem um recado na porta. Adoniran ia para o bar onde ficava papeando. De vez em quando uma ponta na TV Record. Quando à televisão, já havia participado de algumas experiências: Histórias das Malocas, em 1958-59, que não deu muito certo. Imaginem só o diretor Randal Juliano pintando Adoniran de preto para interpretar “Charutinho”! Em 1964, também atuara em O Horário Nóbre...ga, pela mesma editora.

Na fase em que foi marginalizado dentro da Record, chegou a atuar em Ceará contra 007, de Marcos César, a primeira novela humorística da televisão, e Papai Sabe Nada. Até que, em 1972, foi aposentado com um ordenado um pouco acima de dois mil cruzeiros. Adoniran saía extremamente ferido e magoado não contra o novo circuito, mas contra o modo pelo qual ele se instalava demolindo as pessoas.

Abriam-se as portas para o novo “malandro”, o de “terno, gravata e capital”, segundo Homenagem ao Malandro, Chico Buarque de Holanda (1978). A partir de 1968, o regime político instalado com o golpe de Estado de 1964, através de novos mecanismos institucionais, reforçava o seu controlo e a repressão sobre grande parte da população do país. Á sombra do autoritarismo, sedimentava-se o processo concentrador de renda proporcionando ainda mais, no campo dos meios de comunicação de massa, um aumento do poder de controlo e seleção da rede de telecomunicação e do complexo fonográfico. Consequentemente, ampliava-se o poder de manipulação das relações entre voz e imagem. Tornava-se definitivamente possível impor a todo país uma fala “nacional” para descrever imagens regionais.

Sob toda essa luz reprimindo os gestos, desobrigada e impedida de flexionar seu texto ou música com as imagens de sua cidade ou região, a estratégia criadora do artista não poderia nascer mais do seu andar pelas ruas. Chegava-se ao ponto de proibir a utilização das linguagens mais cotidianas através dos meios de comunicação. Um exemplo é o que diz respeito ao próprio ‘Adoniran Barbosa’: se o leitor já ouviu o seu LP de 1973, sentiu falta do famoso Samba do Arnesto; pois é, foi proibido por um decreto federal que não permitia o uso “errado” do vernáculo no rádio, na TV, etc.

Diante de tanto brilho e tanta luz, o velho boêmio jogaria com os seus últimos triunfos: inventava a boêmia vespertina (como disse numa certa ocasião Mathilde, sua mulher), como se quisesse surpreender o cotidiano. Na fase final da vida, realizava à sua peregrinação diária, frequentando o restaurante Parreirinha, velho reduto dos sambistas de São Paulo, o La Barca, um barzinho na Rua General Jardim e tirando a sesta no Estúdio Eldorado; tudo no centro da cidade.

De 1973 a 1976 conseguiu papéis em novelas da TV Tupi: Mulheres de Areia, onde era o pecador “Chico Belo”; Os Inocentes, onde interpretava um barbeiro sempre sequioso por uma boa fofoca; Xeque-Mate e Ovelha Negra. Todavia, esse desempenho estava dissociado de sua produção musical: a cisão entre atuar e cantar atingia a seu ápice. A condição básica do andar-compor estava finalmente morta. Os rostos das pessoas, das ruas e da cidade, que Adoniran tanto procurava, estavam se perdendo para sempre.

Talvez não tenha sido coincidência o afastamento entre Adoniran e seus grandes intérpretes, Os Demônios da Garoa. Há diferentes versões a respeito do motivo. De qualquer maneira, ficava explícito que o samba afastava-se de suas vozes, sendo tal ruptura um aspecto da cisão entre o atuar e o compor. Nos últimos anos, Adoniran se fez acompanhar por um novo regional, o grupo Talismã. O samba já não morava mesmo no Brás. Arnesto saiu, nem deixou o esperando recado na porta. Há muito o cantor denunciava o rompimento dos compromissos sócio-culturais de uma cidade. É essa quebra de compromissos que se torna estrondosa a partir dos anos 60, e mais demolidora ainda nos 70.

Dos tanguinhos de Zequinha de Abreu, dos maxixes das “sociedades” paulistanas, das batucadas comunitárias do Largo da Banana, na Barra Funda, das ruas do Parque Peruche e das ladeiras do Bixiga, chegava-se ao rádio e ao disco. Dos anos 30 aos 50, sob a égide do rádio, a música urbana foi perdendo o seu poder de reforçar as relações de solidariedade e de vizinhança, definindo-se como canção de consumo e de massa. Quando esse processo atinge o seu ponto crítico, nos anos 60, os valores comunitários foram expulsos de vez da canção – definitivamente não se fazia mais músicas para vizinhos, para o bairro, para os rituais e as festas do lugar. O músico popular não era mais expressão direta de uma coletividade, mas fruto da estratégia traçada pelos meios de comunicação de massa. Ele não era mais “descoberto” nas ruas e depois propagado pela mídia; ele é porque resulta de uma “programação”. O músico (popular) tendia a se tornar uma extensão da indústria do disco, do rádio, da TV e do VT. Desse modo, o espaço de autonomia, de livre criação (não produzir canções exclusivamente “comerciais”), tende mesma a ser anulado? Ou criam-se outros?

No começo foi a rua. Mas na década de 60, um dos espaços mais criativos foi o “cantinho”. A expulsão do artista das ruas (ou a sua retirada estratégica?) transportou-o para a penumbra das boites e para o cantinho dos apartamentos. Era a bossa- nova coma sua canção elaborada e intimista, com o seu tom coloquial:

“Um cantinho, um violão
Este amor, uma canção....

Eram Antônio Carlos Jobim e Newton Mendonça que cantavam através de João Gilberto. A cidade passava a ser captada a partir do interior:

da janela vê-se o Corcovado
O Redentor, que lindo!”


Adoniran no Bixiga em 1978
Entretanto, quando chegávamos no ano de 1967, talvez os últimos cantinhos já tivessem sido neutralizados. Pelo menos os seus músicos e cantores, os que mais brilharam, já estavam produzindo a canção com gesto, com mise-en-scêne, muitas vezes com arroubos melodramáticos, como fazia Elis Regina no programa de televisão O Fino da Bossa (TV Record). O palco, o programa de TV, os Festivais de música popular brasileira contribuíam para a canção do espetáculo. O cantor já se distanciava das ruas e mesmo do seu cantinho: transformava-se em um dos criadores da linguagem dos mídia, do espetáculo que ele proporcionava. O que estava acontecendo? Será que o músico popular tendia a se tornar um servidor dos meios de comunicação de massa, perdendo o seu espaço de criação e de crítica?

Provavelmente a resposta mais audaciosa tenha vindo com Caetano Veloso, Gilberto Gil, o poeta Torquato Neto e o maestro Rogério Duprat: A Tropicália. Tratava-se de usa o espaço do espetáculo, participar dele, para expô-lo através de significações que ficavam encobertas pelo vozerio da MPB. A Tropicália não nascia para denunciar, para fazer crítica social, mas para inverter o sentido do espetáculo. Como? Pelo ato antropofágico (ato estético preconizado pelo poeta modernista Oswald de Andrade). Para o tropicalista, praticar essa antropofagia cultural significava deglutir tudo aquilo que os meios de comunicação veiculavam, assimilando e utilizando as informações (gêneros musicais, telenovelas, literatura, etc.), e criando, a partir daí, uma nova mensagem. Gêneros musicais diferentes e “concorrentes” (baião, iê-iê-iê, música erudita contemporânea, etc.), imagens conflitantes (as que traduziam o atrasado e o moderno) faziam parte de uma mesma canção.

Na contracapa do LP Tropicália ou Panes et Circensis (1968), o maestro Rogério Duprat provocava: “...como receberão a notícia de que um disco é feito para vender?”. Esforçava-se por denunciar que o músico já não podia pensar em si como um “passarinho” pelas ruas da cidade. Nem mesmo teria a liberdade intimista de um “cantinho”. Estava, sim, condenado a se perceber como produtor de mercadorias – para as massas.

Assim, o último rosto que Adoniran tanto procurava nas ruas chegava ao fim. O seu destino: finalmente, a multidão. Impossível buscá-la nesse imenso buraco urbano sem fundo. Ou para buscá-lo já não se podia andar a pé.

Estávamos bem longe do idílico Luar do Sumaré, de Décio Pacheco da Silveira, e bem mais distante das valsas de Martins Fontes e de Alberto Marino do início do século. E mesmo da mais recente Praça Clóvis, de Paulo Vanzolini, compositor que, como Adoniran sofria a angústia da busca pelos rostos da cidade. O seu samba-canção Ronda é um dos exemplos mais desesperados:

“De noite
Eu rondo a cidade
A te procurar
Sem encontrar
No meio de olhares espio
Em todos os bares
Você não está...”

No final da década de 70, há ainda quem queira cantar a cidade. Mas como fazer isso, se o seu músico não consegue interromper, através de sua canção, os passos apressados do homem que passa, nem reter a cidade em seu movimento? O andar-compor aí não teria mais caminho: aderiria e perder-se-ia no vozerio surdo da multidão. Portanto, decifrar musicalmente o exterior, opor-se ao caminhar sem rosto à procura de sua identidade, torna-se-ia extremamente problemático. Isolado em relação ás ruas, a única saída seria tentar interromper o fluxo das linguagens que a multidão transporta: a canção de consumo, os quadrinhos, a TV, etc., invertendo-lhes os significados, desconcertando-os aos olhos e aos ouvidos do público.

Alguns músicos populares optaram, naquele final de década, por essa via. Em São Paulo, Arrigo Barnabé estruturava sua mensagem com a utilização da música atonal e a linguagem dos quadrinhos. Em 1980, gravava Clara Crocodilo (LP), personagem visto como “um perigoso marginal”, que se o ouvinte prestar atenção, poderá ser “confundido” com o próprio disco de Arrigo ou com a sua própria música. Em outras palavras, o personagem da música popular não é mais um objeto exterior captável pelo compositor. Ele não surge como alguém (real ou fictício) que a canção revela. Clara Crocodilo percorre os quadrinhos, as “tiras” musicais, sem as quais não existiria.

De uma forma ou de outra, artistas e grupos arriscaram-se a cantar a cidade: Itamar Assumpção, Premê (Premeditando o Breque), Grupo Rumo e outros. O Premê, por exemplo, ridicularizando e/ou parodiando canções e outros discursos: ao cantarem a sua São Paulo, São Paulo, realizam uma paródia do hit internacional New York, New York, mostrando São Paulo como um avesso – uma grande metrópole subdesenvolvida – onde não há mais lugar para sambistas e boêmios líricos como Adoniran Barbosa e Paulo Vanzolini.

Adoniran Barbosa viveu intensamente todo esse processo, debatendo-se entra a sua sedução pela cidade que crescia e a sua resistência em aceitar que o samba “comunitário” (aquele que havia sido combinado com o “Arnesto) e a solidariedade tradicional entre os vizinhos fossem dilacerados. E nessa luta ele avançou envolvendo-se com a linguagem cotidiana do progresso, na busca desesperada pelos últimos gestos, pelas últimas fisionomias. Nos últimos anos de sua vida, Adoniran, vivendo de alguns shows, participações esporádicas em programas de TV e de alguns jingles, no processo de desfiguração de sua máscara, atingia um público diferente daquele de sua grande fase no rádio, um público constituído mais de universitários e intelectuais do que de ouvintes dos lares paulistanos comuns. O novo circuito, matando a lembrança do rádio tradicional, apagando-lhe a memória sepultava as múltiplas vozes que Adoniran interpretou.

A imagem que ficou, apesar de tão forte e verdadeira, onde o seu olhar é vivo, é aquela marcada pela presença de sua gravatinha borboleta, do seu cachecol, do seu paletó e do seu chapéu. Segundo testemunhas, esses aspectos da imagem foram resultados de seus problemas de saúde, defesas que adotou. Porém, houve, por parte do cantor, uma escolha, salientando tão bem a sua última grande imagem, esforço para impedir a diluição de sua identidade. Nesse sentido, Adoniran foi os personagens que cantou: Matogrosso e Joca, Mané, Inês, Iracema, que iam sendo tragados pelo “progréssio”. O artista popular é aquele que não aspira à imortalidade, mas que quer resistir contra o desaparecimento de sua persona em cada novo passo pelo qual avança. Eis a sua última viagem.

Sua morte ocorreu em 23 de novembro de 1982, segundo o laudo oficial, por insuficiência cardíaca. O enterro, de acordo com o Jornal da Tarde (24.11.1982), “tinha no máximo 500 pessoas (...) Mas só gente respeitável. Compositores, cantores, músicos, velhos companheiros de boêmia, pessoal de escola de samba, sua mulher, seus amigos, populares. Nenhuma autoridade, como disse o maestro Júlio Medaglia, ‘graças a Deus (...) Adoniran devia estar feliz. Pois foi uma festa bem ao seu estilo”.

Adoniran morreu. Como um grande. Segundo a Folha de S. Paulo, deixou como herança “uma residência em São Paulo, uma aposentadoria de 125 mil cruzeiros e a quantia de 60 mil cruzeiros por trimestre, referente a direitos autorais”. Herança de quem lutou muito pela vida. Mas que isso, deixou-nos seus sons e imagem a chave para entendermos a história da cultura e da arte de uma grande cidade. Uma Prova de Carinho, para citarmos um samba que compôs com Hervê Cordovil (outro grande músico paulista) em 1960, e em homenagem à sua mulher, Mathilde.

Adoniran no Bixiga, 1978
Fica-nos essa imagem.

Publicado originalmente por KRAUSCHE, Valter. Adoniran Barbosa. São Paulo: Brasiliense, 1985.