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sábado, 5 de setembro de 2015

Gaúcho 70: Mazzaropi


Roveda comenta sobre seus trabalhos com o ator e produtor Amácio Mazzaropi. Gaúcho é a pessoa viva que mais vezes trabalhou em longas-metragens com Mazza. Foram nove filmes como assistente de câmera. Desde O Grande Xerife (1974) ao derradeiro O Jeca e a Égua Milagrosa (1980). 


O Mazza era o contrário: não tinha nenhuma prática no aspecto técnico. Aliás, nem queria saber: posição de câmera, lentes, movimentação. Ele só queria saber o tamanho da enquadração pra saber o campo de ação dele na câmera. Ele ficava ligado nisso, foi aprendendo porque no início ele nem sabia isso. Inclusive o aspecto interpretativo, estar próximo, longe, o quadro aberto, fechado. Ele não se ocupava com isso, se o eixo estava certo, se dava montagem ou não. Ele não estava nem aí com isso, nem se preocupava sabia que tinha gente competente cuidando disso. O Mazza se ligava mais com o roteiro, o esqueleto da história, começo, meio e fim. Nisso, ele ia lapidando sequencia por sequencia. Nas novelas, tem esse tipo de coisa, esse tipo de comportamento típico de ator. Se um ator, um núcleo de cena está se desenvolvendo melhor ele direciona mais ações para aquele ator, aquela atriz.  Então, o Mazza cuidava muito do lado artístico, né? Tem um fenômeno que ocorre, no comportamento, o relacionamento do Mazza: a procedência dele  é do mundo artístico. Então, ele tinha um diálogo, um relacionamento com os atores. Equipe, elenco, gente da produção ele não tinha um carinho especial. Ele prestava mais atenção no elenco. Isso era tão normal que com o tempo eu acabei me acostumando com isso. Pode ser isso que fez a gente ter trabalhado tantas vezes juntos. Ele foi um cara único.

sábado, 29 de agosto de 2015

Gaúcho 70: A Boca




Roveda é das pessoas que não gosta que denominem a região da rua do Triunfo como Boca do Lixo. Ele prefere nomear o local como Boca do cinema paulista. Ele conviveu diariamente do ambiente no final da década de 1960 até o início dos anos 1990. Aqui ele dá um depoimento sobre uma das personalidades mais interessantes do ambiente: o roteirista Rajá de Aragão.

O Rajá fez muitos roteiros pro Tony, era o braço-direito dele na parte de roteiro. Ajudava muito no acabamento, letreiro de apresentação. Era competente no que se propunha a fazer. Ele tinha uma certa noção de cinema, né? Foi ex-presidiário, foi uma babaquice de ser bookmaker aqueles caras de corrida de cavalo que são perseguidos. Ele era ligado a jockey, bookmaker, aquela coisa de corrida de cavalo. Então, existia uma perseguição da polícia, eu sei que de vez em quando algum parava em cana. E ele foi um que parou em cana. Mas uma puta experiência, uma vivência no submundo, essa coisa toda. Ele tinha vivência e passava muito. É importante quem escreva um roteiro se propunha a escrever sobre assuntos em que ele entenda e conheça. Que ele tenha uma noção, intimidade com o material. Ele viveu, o cara que vai fazer. Tony Vieira viveu no mundo noturno de São Paulo, na noite. Então, retratar isso a linguagem, comportamento até a gesticulação ele vivia isso. Isso se chama tarimba. Fica ruim o cara estar navegando num mar que não tem intimidade. (...) Acho que um dos problemas do cinema nacional não ter deslanchado até hoje é isso. O camarada muitas vezes prepara um argumento ou roteiro sobre algum assunto que ele desconheça. Aí tudo acaba dando em água de batata. Acho que os profissionais que deram mais certo foram aqueles que procuraram falar do universo que conheciam. Quando conseguiram ter alguma relação direta com o assunto.

sábado, 22 de agosto de 2015

Gaúcho 70: assistente de câmera



Durante muito tempo, Gaúcho trabalhou como assistente de câmera. Ele cumpriu essa função em 27 longas-metragens. Aqui o técnico comenta seu relacionamento com o diretor Eduardo Llorente, com quem trabalhou em Maria...Sempre Maria (1978).


É curioso. Fui contratado inicialmente no Maria...Sempre Maria como assistente de direção. Mas teve uns atrasos da produção. Fui trabalhar em outros filmes. Mas a produção ficou emperrada durante algum tempo. Por isso, depois acabei trabalhando naquele filme do Llorente como assistente de câmera.

O Llorente tinha um problema...a visão dele era comprometida. Usava um óculos quase de fundo de garrafa. Muito falante, teórico, muito teórico. Ele conhecia porque era um dos poucos cineastas no Brasil com grau de escolaridade, tinha título de engenheiro cinematográfico da Universidade de Madri. Engenheiro cinematográfico e ele fazia um plano de trabalho até fazia...ele entendia de montagem. Edição e montagem. Ele programava um trailer num papel e calculava o tempo das tomadas, fotogramas. Ele fez um plano pro filme no balcão da Líder. Encontrou com o Robertinho (o montador Roberto Leme), ele estava com um maço de fotografias pra fazer o trailer de um dos filmes do Zé do Caixão. Ele estava enrolado: “E agora? Filmar como? Ir pro tabletop?”, tinha que ir com o mínimo possível e filmar com as fotografias no tempo certo que seria a ordem deixando pronto o trailer. O Llorente virou: “Dá aqui. Pera aí. Dá o papel aqui”, sempre com o óculos caindo. Uma hora e pouco depois ele estava com uma planilha: “Robertinho: segue essa planilha e manda brasa”. (...) Llorente? Entendia muito de montagem, entendia na prática e na teoria. Ele era professor, inclusive dava aula na Escola Superior de Cinema onde eu conheci o padre Lopes, espanhol jesuíta. O Llorente dava aula lá. Politicamente, tinha uma visão interessante, uma amplitude das coisas naquela época. Aquela bronca dos espanhóis com a Igreja e tinha um problema que eu cheguei a comentar com ele.