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quarta-feira, 19 de julho de 2023

Histórias de Heleno de Freitas, parte III de III: Cidade maravilhosa

 Histórias de Heleno de Freitas, parte III: Cidade maravilhosa

 

Capítulo III: 1933-1935 Cidade maravilhosa

 

Por Marcos Eduardo Neves

Heleno de Freitas parecia o galã Rodolfo Valentino: gomalina nos cabelos e vestido com bom gosto


            O Rio de Janeiro que encontraram respirava política. Havia três anos, a cidade presenciara a revolução que impediu o eleito Júlio Prestes de tomar posse na presidência da República. Em voga desde 1894, a “politica do café-com-leite” que alternava no poder os partidos republicanos paulista e mineiro, provocara a reação de Rio Grande do Sul, Paraíba e até Minas Gerais na indicação do sucessor de Washington Luís. Estava formada a Aliança Liberal, que, após a morte de João Pessoa, caminhou em marcha resoluta rumo ao Distrito Federal. Para tomar o poder e deixar o país nas mãos do líder Getúlio Vargas, agora chefe do governo provisório.

 

            A linha dura tomava conta do mundo. Se nos Estados Unidos Franklin Roosevelt colocava em prática o “New Deal”, seu plano para superar a severa crise econômica provocada pela quebra de bolsa de Nova York, ocorrida em 1929, poucos repararam o teor de outras notícias que estamparam regularmente os jornais. Em Portugal, Salazar criara o seu “Estado Novo”. Meses depois o Japão abandonava a Liga das Nações. Na Alemanha, Adolf Hitler, seu chanceler, assumia o papel de Führer com o Partido Nazista no poder. Desejando vingar as heranças malditas do pós-guerra, como a cruel recessão, Hitler defendia a superioridade da raça ariana para, ao negar as instituições básica da democracia liberal, incitar uma luta pelo expansionismo na Europa. Ganhava a população usando sem freios os meios de comunicação e transformando comícios em verdadeiros espetáculos. Já na Itália, cada vez mais áspero e desumano era o governo de Mussolini. Volta e meia as manchetes dos principais periódicos do Distrito Federal, como o Jornal do Brasil, o Correio da Manhã, o Diário de Notícias, A Noite e o Diário Carioca, omitiam tais informações. As modernidades tecnológicas eram bem mais modestas. Havia muitas dificuldades para se comunicar a longa distância.

 

 

Mas o Rio, em si, era um caldeirão de novidades. Dona Miquita, Heleno e Vera Maria, que só a conheciam por fotos, logo constaram que a cidade era maior, bem maior do que imaginavam. Milhares de automóveis, motocicletas e caminhões faziam de suas ruas uma autêntica sinfonia de buzinas. Proliferavam ônibus de dois andares, os “chopes-duplos”, que viajavam do Centro ao Pavilhão Mourisco, em Botafogo. Eram da Light, estofados e confortáveis. Os táxis, geralmente pretos, cobravam por quilometragem e não por hora. Nas calçadas, inúmeros reclames com letras garrafais, expostos nos muros, eram lidos por homens de bigode, sem pressa, mas determinados, e por mulheres elegantes, que desfilavam seus perfumes e colônias, atraindo a atenção do sexo oposto. Quase todo mundo usava chapéu. Um dos locais de maior concentração de chapéus era o boêmio Café Nice, na avenida Rio Branco. Como também era bastante concorrida a Galeria Cruzeiro, a metros dali. O Centro era o coração do Rio. A alma eram suas músicas.

 

As escolas de samba ainda engatinhavam, mas seus desfiles já eram bem-vistos pela elite e classe média. O carnaval de rua houvera sido movido pelo som de “Linda morena”, de Lamartine Babo, e “O teu cabelo não nega”, de Lamartine e os irmãos Valença. Naquele 1933, Francisco Mignone escrevia seu bailado afro-brasileiro, “Maracatu do Chico-Rei”, mas havia muito que não a clássica, e sim a negra, a música que se tornava a melhor expressão da essência nacional.

 

A música invadia as casas pelo rádio, que vivia fase de expansão desde que o governo liberava a veiculação de comerciais. O aparelho era obrigatório nos lares; acalentava o povo por misturar música erudita com popular em meios a programas de variedades. Num deles, a Rádio Cajuti, “o rei da voz” Francisco Alves lançou o cantor Orlando Silva – que se revelaria seu principal rival artístico.

 

A beleza da capital federal tocava os estrangeiros, que prometiam voltar e cumpriam. Fiéis admiradores da praia, da vida noturna, do charme e glamour das pessoas, os turistas vinham despreocupados, apenas para curtir, curtir e gastar. Quem tinha bala na agulha assinava a ficha de entrada no suntuoso Copacabana Palace. Local que Heleno muito ainda iria frequentar. Na mocidade. Pois, aos 13 anos, ao desembarcar as malas, o que mais fez foi conferir o que havia de melhor nos cinemas.

 

Coincidência assegurar-se, logo de cara, que Hollywood combinava com o Brasil. Ginger Rogers e Fred Astaire, por exemplo, pela primeira vez dançavam juntos em Voando para o Rio, uma expressiva homenagem ao país. Pouco antes – Heleno não pôde contemplar -, sua musa, a linda Greta Garbo, estrelava Grand Hotel, da Metro Goldwyn-Mayer, junto a John Barrymore. Quanto aos filmes nacionais, uma voz já conhecida nas rádios, Carmen Miranda, a mais brasileira das portuguesas, começava a se impor, tornando-se figura marcante e assídua nos telões.

 

Dona Miquita acertou em se mudar. No Distrito Federal as escolas superiores formavam os bacharéis que construíam a elite política do país. Meio caminho andado, já que seus filhos eram aplicados na escola, loucos por livros. Naqueles idos, florescia a inteligência brasileira, sendo publicados marcos como Casagrande & senzala, de Gilberto Freyre, e Evolução política do Brasil, de Caio Prado Júnior. Por viverem em ambiente no qual se lia muito e se conversava profundamente sobre quaisquer assuntos, ampliava Heleno e seus irmãos suas aptidões verbais e intelectuais.

 

 

A cidade fez bem aos Freitas. A liberdade de circulação e a circulação de ideias eram melhores. A família se instalou no Posto 6, na rua Conselheiro Lafaiette, 29, 3º andar, apartamento 7. Copacabana podia parecer provinciana, seus moradores levavam uma vida simples e tranquila, mas sua beleza era tão valorosa que já havia apartamentos de aluguel por temporada, destinados a estrangeiros e turistas que vinham ao Rio passar o verão na praia. Ou, a exemplo dos Freitas, se estabelecer.

 

Curioso, Heleno percorria os cantos de Copacabana. E de Botafogo. Pois, enquanto tomava conhecimento dos prazeres da capital, a cidade se vestia de preto e branco com o bicampeonato do Botafogo Football Club. Heleno se apaixonou pela festa que fez sua torcida no estádio de General Severiano – festa essa que só findaria em 1935, com o até hoje tetracampeonato dentro de campo de uma agremiação na cidade. Como disse anos mais tarde João Saldanha, “nada como um time campeão para conquistar um coração de um garoto”.

 

Mas não era apenas por causa do famoso futebol carioca que Heleno ansiava todo dia sair de casa. Amor à primeira vista sentiu também pela praia, onde repousava o corpo na areia para contemplar o sol ou catar tatuí. Areia branca, céu azul, mar limpo e sol forte, de que mais precisava?

 

De mulheres. Afinal, fora matriculado no rígido São Bento, próximo à praça Mauá, famoso pela segregação dos sexos. A primeira atividade física de Heleno no Rio foi a azaração dos footings pela avenida Atlântida.

 

Os footings eram caminhadas sem compromisso por entre o Lido e o Posto 5. Como se fosse o único point de uma cidade do interior, era ali o melhor local para as moças se exibirem, enquanto os homens paqueravam ou discutiam política ou futebol. As cariocas mais modernas e elegantes, que na areia trajavam maiôs compridos e comportados, nas caminhadas desfilavam diversas tonalidades de azul e vermelho em vestidos com enfeites de renda, faixas de cetim, golas jabot e lanços de crepe georgette. Estilo que exigia um corpo frágil, esguio e delicado. Envoltas de leque, luvas, lenços e poderosos chapéus, abusavam de sensualidade quanto conduziam à boca, com classe, seus cigarros Bungalow ou Magnólia.

 

Heleno gostava de andar de bicicleta sem destino por Copacabana. Sua mãe só pedia uma coisa: que não fosse a Ipanema. O bairro vizinho sofria com o descaso das autoridades. As ruas eram esburacadas e a praia mais parecia um imenso matagal. Além da falta de policiamento, era precário seu saneamento. Embora muitos já decantassem o Arpoador como local ideal da cidade para banhos de mar.

 

Ainda que julgasse belíssimo o mar, mergulhar não era a praia do mineiro Heleno. Ao contrário dos meninos de sua idade, jamais ousou pegar jacaré. Antes do advento do surge, os garotos se esbaldavam entrando nas ondas de peito, sem tábua. Como não sabia nadar, Heleno somente os contemplava, não encarava. Habitué da praia da moda, a em frente ao Posto 6, em breve transformaria, metros à esquerda, o corpo mirrado num de atleta. Em outro esporte.

 

Apesar da profissionalização do futebol, ocorrida em janeiro, as páginas esportivas de destaque nos jornais endereçavam-se ao turfe. Heleno pouco se apetecia com equinos, mas era apaixonado, louco por carros. Marcos presença no Grande Prêmio do Rio de Automobilismo, no circuito da Gávea. Em 8 de outubro de 1933, 35 pilotos, alguns internacionais, como o alemão Hans Stuck, atraíram uma multidão, aglomerada nas calçadas. Manuel de Teffé, francês radicado no Brasil, venceu a prova com um Alfa-Romeo de seis cilindros. Heleno suspirou e disse para si mesmo que ainda teria um carrão importado.

 

Enquanto não podia dirigir, deslumbrado ficava com a excelência dos cinemas. Não perdia um filme no Rian. Arrependimento? Talvez ter assistido ao polêmico Match da Morte – a íntegra dos 13 assaltos da luta entre Primo Carnera e Ernie Schaaf, na qual o segundo, um jovem boxeador, perdeu a vida trabalhando. Em seu bom coração não havia espaço para tragédias.

 

Os outros esportes eram interessantes, mas a paixão do jovem era mesmo o futebol, já bastante popular na cidade. Depois de décadas como esporte amador e elitista, praticado por filhos de boa família, a profissionalização prometia embates ainda melhores nos grandes estádios. Se, anteriormente, alguns atletas pobres recebiam gorjetas de sócios ricos para representarem seus clubes – o famoso amadorismo marrom -, daquele ano em diante a certeza era de que os melhores jogariam, independentemente de credo ou classe social. Sendo ainda pagos para isso.

 

Mas Heleno não era assíduo em estádios. Quando não estava na classe, ainda em Copacabana, mais precisamente no Posto 4, assistindo às partidas dirigidas por Antônio Ferreira Franco de Oliveira, o Neném Prancha. Admirava cada jogada, sentado no paredão da avenida Atlântida – como era chamado o calçadão, que as pessoas precisavam pular para pisar os pés descalços na areia fofa. Na época, o futebol de praia ateava fogo na paixão dos cariocas. O paredão vivia cheio onde tinha jogo. Heleno via aquelas rixas disputadas com andor, truncadas, se estremecia de raiva quando zagueiros desesperados distribuíam pontapés para intimidar atacantes habilidosos. Ficava louco para entrar. O problema é que era tímido demais para se enturmar com desconhecidos.

 

Figura que se tornaria folclórica no futebol brasileiro, aos 27 anos o humilde Neném Prancha ainda era um obscuro jogador do Carioca que fazia sucesso na praia pela forma diferente de comandar seus meninos. Fluminense de Resende, filho de um biscateiro e uma doméstica, chegara ao Rio em 1917, adotado por uma família que morava na rua Constante Ramos, em Copacabana. No pedaço de praia ali em frente, fundou, com um jogo de camisas e duas bolas de borracha, seu primeiro time, o Posto 4 Futebol Clube. Alegria de muitos garotos.

 

Parrudo, alto e pesando oitenta quilos, seu corpo forte escondia um mulato solitário, feio e introvertido, para muitos tido como assexuado. Nada disso. Como muitos treinadores de praia daquele tempo, Neném Prancha satisfazia suas necessidades hormonais com algumas crianças sem talento que tinham como maior desejo integrar uma equipe de futebol.

 

Este e, principalmente, os que pareciam ter melhor futuro nos campos, Neném agradava pagando refrigerantes, oferecendo sorvetes, tentando se tornar uma espécie de guarda-costas dos meninos. Pelas mãos e pés enormes – 23 centímetros e sapatos 44, respectivamente – recebeu o apelido de Prancha. Quanto á boca, era uma metralhadora de pérolas.

 

Com uma boina na cabeça para espantar o sol, Neném gesticulava sem parar, dava autênticos sermões nos intervalos, embora sempre falasse mansamente, com carinho e ternura. Não se banhava no mar, mas, se necessário mandava os indisciplinados darem um mergulho de cinco minutos, “para refrescar a cuca”. Com o tempo, teria problemas de vista. Mesmo assim, preferiu não enxergar bem a usar óculos. Afinal, não precisava. Sentia craque pelo cheiro.

 

 

Heleno se enfeitiçou pelo uniforme do time de Neném Prancha – camisa preta e branca como a do Botafogo, mas de listras horizontais, e short preto. Do paredão o guri apreciava o fino trato que o astro Pirica aplicava na pelota. E se identificava com o espírito alegre do centroavante João Alves Jobim Saldanha, um rebelde de 17 anos prestes a se filiar ao Partidão, que, se tinha pouca intimidade com a bola, estava sempre pronto para encarar qualquer encrenca.

 

Os principais rivais do Posto 4 FC eram o Lá Vai Bola, o Atlântico, o Cruzeiro e o Huracán. Mais tarde, duelos memoráveis seriam travados em campeonatos organizados com times como o Posto 3 Atlético Clube, o Ouro Preto, o Escrete Guanabara, o 103 FC – nome que remetia à linha dos ônibus mais modernos do Distrito Federal -, o Copacabana, o Americano e o 11 Garotos. Quem organizava o 11 Garotos era Catulino Veloso. Respeitado mas ruim de bola, Catulino foi na verdade quem pronunciou a famosa frase, atribuída anos mais tarde a Neném Prancha: “Arrecua os arfe previtá catástre”. Neném não falava assim – pelo contrário, era até filósofo. Catulino, sim, era capaz de confundir seus próprios jogadores: “Centra alto rasteiro! Centra alto rasteiro!”.

 

Heleno não via a hora de penetrar este universo. Um dia o instinto foi mais forte e ele tomou coragem para ir até Prancha implorar uma chance.

 

- Não fiz fé no menino – confessaria Neném. – Sempre o via acompanhando o jogo da calçada, a distância. Fiquei surpreso quando ele apareceu de calção pedindo para jogar. Tão compenetrado, e de repente parecia um demônio atormentado por mil deuses a correr endiabrado pela areia.

 

Como eternizou o escritor Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta, de quem, Heleno se tornaria amigo, na crônica “O Ídolo”:

 

(...) Um dia nós saímos rua abaixo. De calção bem curtinho, toalha no pescoço, íamos para a praia, como fazíamos todas as tardes, jogar futebol na areia.

            Aos poucos iam chegando todos; uns pulavam o paredão e vinham bater bola, outros ficavam lá por cima mesmo, de conversa, esperando os retardatários. Quando não faltava mais ninguém, começava a distribuição de camisas.

            Aproximei-me de um grupo, já metido no seu “uniforme”, quando alguém segurou-me pelo braço para apresentar o novo jogador. Era um garoto magro, moreno, de cabelos muito lisos. Veio com um andar gingante, apertou-me a mão com um sorriso e, logo em seguida, o jogo começava.

Nada de pontapés sem bola, nem trancos, nem nada. Tudo correndo normal, a gente gritando os nomes uns dos outros, pedindo ou mandando passes, alegres e divertidos, que não havia nada mais alegre e divertido do que jogar futebol na areia (...)

Mas naquele dia foi diferente. Sem ninguém compreender por que, o jogador novo, de repente, saiu dando murros no ar, esbravejando cheio de ódio, a dizer que não era palhaço, que quebrava a cara do primeiro que lhe fizesse um foul.

Quando o jogo acabou, na rua acima, de volta para casa, alguém me disse, comentando a briga: “Aquele camarada é maluco”.

 

 

Em 1934, Vargas assumiu, oficialmente, a presidência da República. O uso político das rádios se revelaria um traço marcante de sua gestão. Não havia como fugir. Getúlio percebia que a comunicação era o melhor canal para propagar sua política às camadas mais pobres da população.

 

Precoce, Heleno não só se informava pelas emissoras como folheava os jornais do dia, assim como a revista Beira-Mar, uma espécie de “porta-voz” da Zona Sul carioca. Defronte às bancas, parava à cata de boas-novas. Que ás vezes não eram boas, como a eliminação da Seleção Brasileira na Copa da Itália, em plena primeira fase. Que às vezes eram trágicas, como o triste fim de Ernesto Nazareth.

 

Foi terrível para o menino saber que o compositor, um gênio da música brasileira, morreu afogado na represa da Colônia Juliano Moreira, em Jacarepaguá, tentando fugir do hospício. Cabisbaixo, Heleno descobriu que a vida podia ser cruel. Não com ele, mas com outros.

 

Para ele o mundo era euforia. Desde que entrou, não saiu mais do time de Neném Prancha. Na verdade, pela tenra idade, do segundo time. Jogando de zagueiro, Heleno se dava em cada disputa, cada lance contra os atacantes adversários. Tinha de fazer o melhor, afinal, no gol estava um topetudo, gorducho e amedrontado Sérgio Porto. Um guri de apenas 11 anos que tremia só de pensar na bola se aproximando.

 

Além de Porto, figuravam no time o jovem Sandro Moreyra, um ponta-direita preguiçoso para correr – jogava na parte dura da areia, próximo ao mar. Faria Lima era, na ponta esquerda, o inverso: cheio de fôlego. Neném também gostava de pontas abertos e ofensivos como Roberto Silveira, muitas vezes escalado. Gildo Borges era um atacante diferenciado. Sem dúvidas, o que mais arriscava a gol. E o que menos acertava o alvo. O meia Neves era o craque da equipe.

 

Quanto a Heleno, cujo temperamento inconstante despertava a curiosidade dos “torcedores” do Posto 4, Neném bem que tentava aconselhar:

 

- Não adiante reclamar da marcação do juiz, Heleno! Só vais conseguir ser expulso. Jamais um juiz voltou nem voltará atrás de uma decisão por obra de estrilos de um jogador! Joga teu jogo e deixa o juiz apitar, menino!

 

Assim pregava, mas em questão de minutos Heleno era novamente posto para fora pelo árbitro. Neném preferia assumir a culpa. Acreditava que poderia, com sua experiência, lapidar aquele diamante bruto. O guri valia o esforço, sabia tudo, parecia conhecer de outras vidas os segredos da areia. Sem falar em sua devoção à equipe. Mesmo quando caía doente na cama, conseguia encontrar estímulo para defender o Posto 4 uma ou duas horas depois. Com um gorro a conter-lhe os lisos cabelos, pernas finas e cara de mau, o comprido e bonito Heleno levou seu time ao triunfo na primeira liga formada pelos clubes de Copacabana. Vocação de craque, seu futebol começou a ser reconhecido no bairro.

 

Contagiado pelo grupo com que frequentava a praia, em abril de 1935 Heleno se inscreveu como sócio do Botafogo. Em pouco, começaria a fazer história pelo clube.

 

Publicado originalmente em NEVES, Marcos Eduardo. Nunca houve um homem como Heleno. Rio de Janeiro: Ediouro, 2006.

terça-feira, 18 de julho de 2023

Histórias de Heleno de Freitas, parte II de III: Rebelde sem causa

Heleno de Freitas e João Saldanha. Ambos bastante jovens

 Capítulo II: 1920-1933 Rebelde Sem Causa

 

Por Marcos Eduardo Neves

 

Heleno nasceu em berço esplêndido, numa tradicional família de São João Nepomuceno, município inserido na mesorregião da Zona da Mata mineira, e que faz parte da microrregião de Juiz de Fora. A cidade, cuja população é estimada em 25 mil pessoas, localiza-se a 322 quilômetros da capital do estado, Belo Horizonte. Da cidade do Rio de Janeiro distancia-se 247 quilômetros.

 

Com parcos 408 metros quadrados, a mineira São João Nepomuceno não passava de uma bucólica cidade entre montanhas e carros de boi, com ruas, vielas e calçadas de pedras rombudas, que somente aos domingos se mexia, graças ao movimento da roça que vinha para a missa. Conhecida como cidade garbosa, da moda e da alegria, terra de belíssimas cachoeiras, trilhas, rios, matas, ainda hoje é possível admirar fazendas, ricos casarões coloniais, alegria e receptividade em sua gente. E um patrimônio histórico que remete aos tempos dos barões do café.

 

Em 1920, Oscar de Freitas não era barão, mas um próspero negociante de café. E não só de café. A Casa Americana, propriedade sua, refinava também açúcar. Os Freitas, que sempre ocuparam cargos importantes e de destaque na Velha República, tinham negócios espalhados, como roupas, armarinhos, ferragens, louças, chapéus, calçados, papéis e tintas. Oscar era sócio de seu irmão Lincoln, o mais abastado da família, e de Gomes de Freitas, que se desdobrava para acumular, com os negócios a gerência da agência da Caixa Econômica local. Uma de suas irmãs Maria de Freitas, casou-se com o advogado Francisco Zágari, e outra, Ida com Carlos Pinheiro, que exercia cargo de destaque no Banco do Brasil. O outro irmão, Euclides, era médico. Enfim, entre os Freitas nunca se aventaria a hipótese de que fossem gerar para o mundo um jogador de futebol.

 

Natural de Pombal, Oscar era casado com uma moça de Cataguases, mas criada em Ouro Preto, chamada Maria Rita de Freitas. Perdendo a bela silhueta com o passar dos anos, não perdia o respeito na cidade. Chamada por todos de Dona Miquita, orgulhava-se por ser uma das primeiras professoras do Grupo Escola Coronel José Braz, onde seus filhos cursariam primário.

 

Embora se completasse um quinto de século XX, não só São João Nepomuceno como todo o país parecia ter se estagnado no anterior. Poucas eram as mudanças permitidas por aquele rodízio, aparentemente eterno, entre presidentes ora de Minas ora de São Paulo. Naquele começo de ano, Epitácio Pessoa dirigia a nação de pouco mais de trinta milhões de pessoas. As finanças não iam mal; permitiam até despesas de vulto. Enquanto as duas paixões nacionais- o futebol e o Carnaval – floresciam.

 

Em âmbito mundial, sem sequer imaginar que se tornaria uma marca milionária, aos 30 anos a inglesa Agatha Christie explodia com “O misterioso caso de Styler”. E se sua literatura seira sucesso no Brasil, o que dizer do esporte nacional, que traduzia cada vez mais a autoconfiança do povo? Na metade do ano, quando pela primeira vez participaram de uma Olimpíada, os brasileiros conquistaram, nos Jogos de Antuérpia, na Bélgica, suas três primeiras medalhas. Todas na prova de tiro. Inclusive uma de ouro.

 

Antes disso, porém, as emoções do Carnaval. Se o Rio foi contagiado pelas primeiras marchinhas, São João Nepomuceno não deixou por menos. A cidade se dividiu entre os bailes dos clubes Democráticos e Trombeteiros do Momo, além dos blocos e cordões de rua, que, em meio a palmas e vivas dado em profusão, atraíram centenas de visitantes dos municípios vizinhos.

 

Todavia, numa das noites carnavalescas, o clima em uma das casas da rua do Totó estava longe de ser festivo. Enquanto Dona Miquita dava à luz um novo rebento, na chácara da família, aos vinte minutos do dia 12 de fevereiro, os Freitas passaram maus bocados para salvar filho e mão. Tamanha a aflição que Dona Miquita, mulher de muita fé, fez até uma promessa: dar ao filho, ou filha, nome de santo, caso sobrevivesse. Como era devota de Santa Helena, por nascer homem, decidiu, seria Heleno. Heleno de Freitas. Nada melhor que um nome abençoado para protege-lo ao longo da vida.

 

Cresceria o pequeno Heleno ao lado dos cinco irmãos, Rômulo, Marina, Heraldo, Oscar e Vera Maria – os gêmeos Lúcio e José Lúcio morreram ainda crianças.

 

Marina era a mais velha. Gordinha, cabelos pretos que escorriam até os ombros, revelava desde pequena, ninando bonecas no colo, traços da dona de casa cuidadosa e amorosa que seria. Ajudaria muito a mãe a cuidar dos irmãos. Como Rômulo, seu primeiro, e que lhe deu muito trabalho. Lindo semblante, bem moreno, cabelos em forma de onda e olhos azuis que, quando molhados, tendiam ao verde, se nunca gostou de brincar de bola, assim que crescer passou a se gabar do seu indiscutível sucesso com as mulheres. Antes de se formar, no Rio de Janeiro, em direito, Rômulo chamava a atenção por sua beleza e simpatia. Quando bem-sucedido, trabalhando no departamento jurídico do SESC, casou-se e teve herdeiros, sem jamais deixar de aventurar-se na boemia do então Distrito Federal.

 

Segundo homem a nascer, desde pequeno Heraldo apresentava-se como o de melhor gênio. Sorridente, cativava as pessoas com um olhar. Cresceu sempre amigo, alegre e comunicativo. Nas peladas era dos primeiros a ser escolhido. Muitos o aconselhavam a seguir carreira de jogador de futebol, mas, com problemas sucessivos no joelho, teve de abandonar a bola. Mesmo assim, seria diretor do Mangueira Futebol Clube, um dos melhores clubes da região. Magro, 1,78 metro, olhos negros como os cabelos, também se formaria em direito no Rio, mas para voltar e trabalhar em sua terra.

 

Oscar seria outro a desistir do futebol, apesar do dom. Quatro anos mais velho que Heleno, foi a criança mais pacata, tranquila, da casa. Sossegado, para não dizer fechado, só se rebelava quando, jovem, o chamavam de Oscarito – personagem que fazia sucesso em peças e filmes. Com olhos claros, cabelos lisos e 72 quilos satisfatoriamente distribuídos por 1,75 metro, formar-se-ia na Faculdade de Odontologia, na Urca, montando em seguida um consultório na avenida Nossa Senhora de Copacabana, esquina com Joaquim Nabuco. Determinado a construir família e apaixonado, firmaria matrimônio com Irene Ramos, dando-lhe como o maior presente o sobrenome Freitas.

 

Sobrenome que herdara de nascença Vera Maria, a caçula. Morena alta, de cabelos lisos, pele branca, aparência europeia, simpática e com tendência para engordar, tinha uma beleza quer lhe valia o corpo sempre inconstante. Adulta, ao ser desposada Vera Maria não trocou os deveres de funcionária pública – trabalhava no IBGE, também na Urca – pelas tarefas do lar.

 

Antes de Vera, dando uma pequena volta na história, naquele segundo mês de 1920, veio ao mundo Heleno. Dentre todos, quem possuía os olhos mais brilhantes, cheios de vida. Ao mesmo tempo, disparado, o mais tímido, mais introvertido. E paradoxalmente, o mais exaltado, como assegura sua prima Ema Zágari, filha de Maria de Freitas:

 

- Ele defendia os mais jovens, aprontava a maior confusão, se irritando com o que não achava certo. Desde pequeno foi assim.

 

 

Todos os irmãos eram muito queridos na cidade. Apontados como os mais bonitos e bem cuidados da região, foram sempre tratados a pão-de-ló pelo pai e pela mãe, cada vez mais gorda, bochechuda, olhos carregados. Apesar da idade, Dona Miquita não se descuidava de apresentar-se sempre bem-vestida. Colecionava turbantes, mas não era de ostentar. Dona de um sorriso sincero, sua alegria de viver começava e acabava dentro de casa, onde passava horas contando historias para os pimpolhos, e onde, com o passar dos anos, acolhia com educação e delicadeza os amiguinhos que seus meninos diariamente convidavam.

 

Não achava Dona Miquita que carinho demais podia atrapalhar a formação dos rebentos. Quanto a Heleno, por exemplo, o mimo era tanto que a matriarca o queria sempre limpinho, arrumadinho, engomadinho. Heleno pouco brincava no chão, como qualquer guri, fosse de bola de gude ou pião, temendo se sujar. Seu negócio era pique e corda de pular. Aos 6 anos começou a demonstrar notável interesse pela leitura. Ficava horas se entretendo com livros e coleções, sozinho, encantado.

 

Criança desconfiada, ansiosa, o pequeno Heleno temia cometer atos ridículos. Perturbava-se, por exemplo, quando um brinquedo se quebrava. Era como se tudo estivesse perdido. Ficava agitado, impaciente. Mas era um mundo de felicidade e confiança quando se mostrava capaz de desempenhar sozinho qualquer tarefa solicitada, principalmente se o êxito viesse acompanhado dos honestos elogios dos adultos amigos de seu pai. Os de fora o tinham como muito agradável. Arrebatando-os com deliciosas gargalhadas, seu caharme joveil conquistava qualquer um.

 

No café-da-manhã, porém, irritava-se no copo de leite enxergasse vestígios de nata. Criado com regalias e fartura, os pais prometiam qualquer coisa que lhe interrompesse o pranto desconsolado. Seu Oscar era bastante amoroso – instituía a disciplina, não o castigo, enquanto sua mãe apoiava-lhe as tendências. Na profissão que optasse, daria a maior força. Desde que escolhesse entre ser médico ou advogado.

 

O problema é que, entre os irmãos, Heleno sempre foi o mais vidrado em futebol. Durante sua infância o esporte bretão tornou-se sucesso popular no país. Embora pretendesse seguir o roteiro dos irmãos, formando-se no Rio, Heleno não desgrudava da redonda. Na cidade, havia um escalvado improvisado de campo, desmarcado por quatro escadas, onde, entre pedras e buracos, chutou sua primeira bola, feita com meias de mulher, que perdia depressa a forma, ainda mais com todos a lutarem por ela ao mesmo tempo. Ás vezes, podia ser encontrado ali, até porque gostava de pesar lambari num córrego próximo. Juntava o útil ao agradável.

 

Tinha muito intimidade com a pelota tanto em campos duros quanto nos de terra batida. Não tardou a treinar no Mangueira, sendo dirigido pelo mano Heraldo, um dos atletas do time de cima. O clube era o principal da região; o maior rival do Botafogo e Operário locais. Aos 7 anos, atuando entre os mais velhos, Heleno já cavava seu espaço. Da reserva ao infantil, rapidamente se tornou titular. Ao contrário do que pregaria mais tarde o “Príncipe Etíope” Didi, para Heleno treino não era treino, era jogo – e de vida ou morte.

 

Disputava cada lance como se estivesse numa guerra; vencer era uma questão de honra. Invariavelmente arrumava encrenca. Uma vez Heraldo decidiu expulsá-lo, para repreendê-lo, impor limite. Altivo, gênio forte, Heleno recusou-se a sair. Para reforçar sua autoridade, Heraldo o arrastou pelo campo do meio à lateral e, como irmão ainda resistia, dirigiu o restante do treino a segurá-lo com o pé sobre seu pescoço.

 

O infantil do Mangueira logo se transformou na mais temida equipe da região. Por contar com Heleno. Segundo seu vizinho Renê Mendonça, o jogador se enfezava com tudo, embora não guardasse rancor:

 

- Vi Heleno no começo de carreira, jogando pelo Mangueira. Jogava o fino, de half-esquerdo, half-direito, onde fosse. Mas a qualquer momento podia se tornar intolerável. Que foi que deu na sua telha, Heleno? Se quer respondia. Num piscar de olhos, transformava-se no sujeito mais desagradável do mundo.

 

Companheiro de Heleno no Grupo Escolar, a melhor escola pública da região, Renê sentia que o guri tinha um quê de especial. Além de compor músicas e jogar muita bola, era quem melhor se apresentava na sala de aula e na igreja – a mãe sempre tentou encaminhá-lo, tanto que Heleno confessava e comungava -, apesar de, algumas vezes, zangar-se por qualquer contrariedade.

 

Como na hora das refeições. Heleno dava bastante trabalho à Dona Miquita, pois agora seu feijão não podia ter casca, o arroz não podia estar molhado e o bife, como ele, sempre fino e sem gordura. E nada, nada de cebola. Tinha alergia e nojo.

 

Apesar das idiossincrasias, sempre foi o mais querido da mãe e aquele em quem o pai depositava as maiores esperanças. O velho Oscar queria que se tornasse um doutor, de anel e diploma, ou general como Floriano Peixoto, valente e patriota. Heleno pensava da mesma forma. Jogar bola era bastante divertido, mas ser advogado era seu grande sonho.

 

 

Por volta dos oito anos, em casa, com a sala repleta de visitas – os velhos e sisudos amigos do pai - , Heleno erguia atrevidamente sua voz infantil às alturas defendendo tese. Falava, com olhar de indignação, das futuras condenações inexoráveis que aplicaria aos mais tórridos criminosos. Fossem eles ricos e tentasse suborna-lo, dizia:

 

- Eu lhes cuspiria as ventas e as condenações seriam perpétuas!

 

Nessa parte foi interrompido pelo pastor Clementino, presente à reunião. Procurando acalmar seu espírito conflitante, o religioso só lhe fez crescer a raiva. Ao denunciar o feio pecado de escarrar a face de um irmão...

 

- Considerar criminoso meu irmão – replicou, na hora, Heleno. – Ah, isso, nunca!

 

Disse-lhe isso e botou as mãos nos bolsos. Lançou em torno e notou que os velhos senhores, amigos do pai, sorriam a bastar daquilo que o sacerdote fora obrigado a escutar.

 

- Se todos os advogados tivessem a mentalidade do pastor Clementino – discursava Heleno -, não repelindo subornos nem cuspindo no rosto de quem os propusera, os pobres e oprimidos teriam de clamar pela justiça divina, porque clamar pela justiça da erra é que não podiam, ou, se clamassem, não arranjariam nem para o café -concluiu, insolente.

 

Palavras tais, argumentos expostos por um menino que beirava os 9 anos, causaram impacto. Aqueles respeitáveis fidalgos foram a seu encontro, apertaram-lhe a mão e teceram elogios à sua personalidade. Heleno chegou a ser comparado a Cícero.

 

- Não, talvez ne Cícero fosse tão eloquente na sua idade – comentou, amável, um velhinho.

 

O elogio motivou Heleno a permanecer insensível perante o pastor. Quando deixou a sala, vangloriado pelos aplausos que recebera, um turbilhão de imagens tomou-lhe a mente. Viu-se crescido, advogado famoso. Projetou um futuro de sucesso e glória.

 

 

Da infância Heleno não esquecia da primeira vez que entrou em um circo. Nada o maravilhara mais que o trapezista – e sua coragem dar o salto da morte. Os ouros personagens do espetáculo se apresentaram a seus olhos como “míseros fósforos apagados”, diria anos mais tarde. Quando o anfiteatro se despediu da cidade, foi tomado por cólera. Até matutar uma solução que lhe aplacasse a ira. A ideia luminosa: inaugurar com os irmãos e alguns amigos um novo picadeiro. Em casa.

 

Com a permissão dos pais, chegava o dia da estreia. A garotada toda da região se juntou para ver o acontecimento. Seu lar, um formigueiro humano. Ninguém faltou. Lá estavam, novamente, o pastor Clementino e sua senhora, e, principalmente, Margarida, a filha de seu professor no primário.

 

Embora menina, Margarida se enquadrava perfeitamente no tipo “mulher fatal”. Lançava olhares ora doces ora vampirescos. Namorava três ao mesmo tempo. Certa tarde, numa tentativa desesperada e inútil, Heleno foi procura-la, com sua autoridade de futuro advogado, para conduzi-la ao “caminho do bem”. Traduzindo: foi rogar que deixasse em paz aqueles três corações sofredores, três meninos que não tinham mais vontade de estudar, muito menos de aparecer em campo para defender as cores do Mangueira.

 

Primeiramente, Margarida riu do pobre coitado. Depois o percebeu melhor; começou a se insinuar. Recitou que jogava tanto, fazia composições tão bonitas, dançava tão bem nos bailes do Democráticos...Falava tudo sorrindo, meio envergonhada, soltando olhares cálidos, inquietantes. Acabou conquistando-. Tornou Heleno sua quarta e mais bela vítima.

           

Quanto ao circo, as exibições foram abertas com Heleno no papel principal. O primeiro número do espetáculo era, justamente, o salto da morte – por ele desastrosamente encerrado. De tão mal executado, quase morreu de verdade. Quebrou a cabeça, machucou a clavícula, teve de tomar 123 pontos na coxa e, como o corte da perna infeccionou, passou um mês de cama. Em compensação, todo dia Margarida visitava-o, como se fosse enfermeira. Quando ele gemia, ela o beijava. Talvez intuindo a tal lei de Skinner – estímulo/resposta -, Heleno passou a gemer sempre.

 

A alegria terminou com a morte prematura do pai, aos 46 anos, em 11 de novembro de 1931. Oscar foi levado por uma pneumonia que, à época, era praticamente fatal, devido à falta de antibióticos. A família pôs luto por quase meio ano:

 

- Nem brincamos carnaval três meses depois – conta Ema Zàgari.

 

O medo de seus impulsos agressivos, combinados com o conhecimento da morte como algo real, próximo, causou em Heleno insônia, madrugadas mal dormidas. Chegaria a trocar o dia pela noite. Pelo menos, lia bastante durante as horas de vigília.

 

O forte golpe da perda do marido fez que Dona Maria Rita agisse. Após dois anos vivendo em Barbacena, onde Heleno cursou a primeira e segunda séries do Ginásio Mineiro, a matrona mudou radicalmente o destino dos Freitas. Com Rômulo a cantar e decantar as vantagens do Rio de Janeiro, vendeu, em junho de 1933, a casa e os negócios da família para que toda a prole tentasse a sorte na capital federal.

 

Publicado originalmente em NEVES, Marcos Eduardo. Nunca houve um homem como Heleno. Rio de Janeiro: Ediouro, 2006.

 

segunda-feira, 17 de julho de 2023

Histórias de Heleno de Freitas, parte I de III: Gilda!

 

Capítulo I: 1947- Gilda!

 


Por Marcos Eduardo Neves

 

Adentrou o gramado o Fluminense, perfilando-se defronte às sociais. Seus atletas foram aplaudidos com frenesi. O Botafogo, ao fim do trote, tomou a tradicional chuva de vaias. Fazia parte do espetáculo.

 

Heleno de Freitas, o ídolo da massa alvinegra, batia bola para se aquecer. A aristocrática social de Álvaro Chaves, não o perdoava, xingando-o sem cessar sempre que por lá pisava os pés. Afinal, jogara na base tricolor, era um “traidor”. O centroavante, titular da seleção brasileira, seguia tranquilamente se exercitando. E com um quê de narcisismo. Bem ou mal, adorava ser reconhecido.

 

Quando o Botafogo saía da casa para enfrentar times pequenos, os zagueiros o cutucavam:

 

- Lá vem o “viadinho” de Copacabana.

 

Tudo porque deixava o vestiário com as pernas brilhando da massagem de aquecimento, encharcadas de óleo. E um penteado à base de gomalina que, aliado à beleza física, dava-lhe um ar de Rodolfo Valentino de chuteiras. Era uma vedete.

 

Ao dar o pontapé inicial, rolando para Otávio, Heleno escutou um grito diferente:

 

- Gilda!

 

Reconheceu a voz – era um amigo seu, tricolor, do “Clube dos Cafajestes” -, sorriu, aceitou o desafio.

 

Começava o jogo.

 

Aquele berro despertou a argúcia da torcida pó-de-arroz, a do Fluminense, assim chamada com desdém pelas massas rivais por causa de seu perfil aristocrático. Gilda remetia à personagem de Rita Hayworth no filme homônimo de Charles Vidor, que estreara cinco dias antes na cidade. Não havia apelido melhor. Gilda era uma linda, glamourosa e temperamental mulher. Capaz de derrubar homens cantando e jogando suas luvas para eles. Atributos que se encaixavam, exceto pelas luvas e melodias, com Heleno de Freitas de forma perfeita. Não tardou em virar coro da multidão.

 

- Gilda! Gilda! Gilda! – os torcedores do time da casa já começavam a incomodar. Heleno não podia pegar na bola que escutava a saudação. Começava a ser travada uma espécie de guerra psicológica, que, embora tentasse disfarçar, o desestabilizava emocionalmente.

 

Corajoso, impetuoso, Heleno seguia lutando, louco para fazer um gol. Quando errava um chute, não escapava da gozação:

 

- Gilda! Gilda! Gilda! – a massa se divertida, aliviava o espírito.

 

Sujo, no empurra-empurra da área, nos escanteios, segurava os colhões de adversários, artimanha que aprendera com os argentinos:

 

- Gilda ! Gilda! Gilda !

 

Num lance, atracou-se com o meia Orlando Pingo de Ouro:

 

- Gilda! Gilda! Gilda!

 

Assim que o juiz Mario Vianna virou as costas para os dois, Orlando deu uma cotovelada em Heleno. Insaciável, o goleador alvinegro se vingou sem medir consequências. Com força diabólica, arrancou o cordão do pescoço dele.

 

- Gilda! Gilda! Gilda!

 

A torcida teimava em não se calar. Nas arquibancadas e sociais, uma festa só. Ainda mais com o resultado, nitidamente, dando certo. Ainda que o Botafogo estivesse vencendo, Heleno estava a um passo da insalubridade. Maliciosos, o teste psicológico perduraria por todo o segundo tempo.

 

Heleno se martirizava a cada “Gilda!”. As provações miravam-lhe mais e mais os nervos já desgastados. E não era só “Gilda!”. Marchinha de carnaval da época, o público esgoelava-se cantando “Helena, Helena, vem me consolar!”, música de Antonio Almeida. O centroavante reagia. Ou correndo até a lateral do campo para ensaiar passos de Carnaval, ou distribuindo “bananas” para as arquibancadas.

 

- Escandalosa! – berrava um ou outro. Mas “Gilda! Gilda! Gilda!” era o som que tomava conta do ambiente. E de seu espírito atormentado.

 

O ídolo reagiria de forma agressiva. Agressiva e pornográfica. Sabendo que a alta burguesia das Laranjeiras concentrava nas cadeiras várias senhoras de família, Heleno fez que ia mostrar a genitália para as sociais.

 

- Uh! Cafajeste! – respondiam. E tacavam veneno, em perfeita sincronia: - Gilda! Gilda! Gilda!

 

“Houve um instante em que a torcida tricolor gritou com toas as suas forças: ‘Gilda! Gilda!’. Heleno olhou o placar, meditou, e só depois de concluir a jogada colocou o indicador e o médio em V, como que antecipando a conquista do segundo gol. E teve sorte, porque Teixeirinha fez o segundo”.

 

O Botafogo ganhou de 2 X 1. O outro gol foi assinalado por Geninho. Ironizando os tricolores – fez sinais de que espalhava pó-de-arroz pelo rosto -, Heleno de Freitas, a melhor figura em campo, saiu de campo nos ombros da torcida.

 

Duas semanas depois, o astro viveu o mais memorável dia de sua carreira. Na última partida do turno, 12 de outubro de 1947, o estádio da rua General Severiano ficou pequeno para Botafogo e América. Foi um jogo fantástico. Incansável, destemido, Heleno fez dois belos gols. Era um virtuose da pelota. Na metade do segundo tempo o Glorioso se acomodou, permitindo que o time rubro crescesse e surpreendentemente, empatasse. O pior estava por vir. O goleiro Ary Nogueira César tomou uma bolada na cabeça e desmaiou. Como o médico não conseguiu reanimá-lo, teve de deixar o campo. O zagueiro Gérson dos Santos passou a tomar conta das traves. Qualquer chute a gol era um golpe de emoção nos corações botafoguenses.

 

Com a igualdade no marcador, Heleno teve uma crise de nervos. Friamente, buscou a bola nas redes e a levou ao meio, mas o que se viu no restante do jogo foi um atacante alucinado. Gesticulava sem parar, incitava os companheiros, xingava Deus e o mundo. Revoltado, o treinador Ondino Vieira chegou perto dele numa jogada colada à linha e gritou:

 

- Continue assim que eu vou te responsabilizar pelo placar!

 

Heleno retribuiu com um olhar cheio de ódio. De repente, começou a fazer misérias em campo. Numa investida, sozinho com a bola dominada, quase marcou seu terceiro. Aproximava-se o final do jogo e os zagueiros americanos não desgrudavam do artilheiro.

 

“Mas veio uma bola alta na área e Heleno saiu do chão como um bailarino clássico, leve, macio, fácil, como se tivesse asas...Ninguém pôde impedir que ele mandasse a bola de cabeça para um companheiro, que a devolveu alta. Na corrida, um salto de Heleno e cabeçada magistral no canto. Então, houve outro milagre e o goleiro Osni voou, e com a ponta dos dedos, pôs a corner. Aí só faltavam agarrar Heleno e amarrá-lo.

 

“Devia faltar um ou dois minutos. Heleno fingiu desinteresse no corner e saiu da área para amarrar as chuteiras. Todos os zagueiros se preocupavam então com Nílton, half forte e alto, bom cabeceador. Todos pularam sobre Nílton, que deixou a bola passar. Heleno entrou na área como um tufão e a bola foi limpinha para ele. Osni subiu de braços abertos, mas Heleno, lá no alto, deu com a testa na esfera e a mandou ao chão, bem no cantinho atrás dele. Nem sei como pôde fazer isso”, escreveu, estupefato, o presidente da Federação Metropolitana de Futebol – e sobrinho de Getúlio – Vargas Neto, colunista do Jornal dos Sports.

 

Narrando a partida pela Rádio Globo, Luiz Mendes se recorda que, depois de seu terceiro gol no jogo, Heleno deu um pique até Ondino e vociferou:

 

- Agora, seu gringo filho-da-puta, quero ver você me responsabilizar!

 

O árbitro apitou o fim da batalha. Botafogo 3 X 2. Imediatamente os companheiros e Alvinegro o carregaram em triunfo. Era normal que torcedores, enlouquecidos, invadissem o campo e suspendessem seus heróis nos ombros. Mas os próprios jogadores, era um fato novo. Uma prova de que era mesmo diferente. De que nunca houve um homem como Heleno.

 

Publicado originalmente em NEVES, Marcos Eduardo. Nunca houve um homem como Heleno. Rio de Janeiro: Ediouro, 2006.