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quarta-feira, 18 de setembro de 2024

Playboy entrevista Renato Aragão (janeiro de 2015)

Playboy entrevista Renato Aragão

 


Uma conversa franca com o homem por trás de Didi Mocó sobre preconceito contra nordestinos, Bolsa Família, recordes de bilheteria, críticos de seu humor, Os Trapalhões, Zacarias, Mussum, Dedé e, é claro, Didi Mocó

 

Quando Renato Aragão foi pela primeira vez entrevistado por PLAYBOY, em agosto de 1984, ele era um dos homens mais influentes do país: acabara de lançar dois filmes que, juntos, levaram quase 7 milhões de brasileiros aos cinemas e, apesar da então recente briga com seus colegas Dedé, Mussum e Zacarias, estava prestar a lançar mais um Os Trapalhões e o Mágico de Oróz. Além dos sucessos nas salas, Renato encabeçava o programa Os Trapalhões, líder de audiência que imortalizou bordões como “ô psit!” e “cacildes!”.

 

Nascido em Sobral, no interior do Ceará, no dia 13 de janeiro de 1935, pai de Paulo, de 54 anos, Ricardo, 52, Renato Júnior, 46; Juliana, 37, todos do seu primeiro casamento com Marta Rangel; e Livian, de 15 anos, sua filha com Lilian, sua segunda esposa, Renato se tornou, ao longo de mais e 50 anos de carreira, um dos maiores humoristas do Brasil – apenas comparável na história do gênero na televisão ao também cearense Chico Anysio.

 

Trinta anos depois daquela entrevista, no entanto, muita coisa mudou. Mauro Faccio Gonçalves, o Zacarias, morreu em 1990, aos 56 anos, por uma infecção nos pulmões. Sua morte tirou o fôlego da trupe, que depois do lançamento de Os Trapalhões e a Árvore da Juventude, em 1991, entrou em um hiato nas telonas. A esperança de que os três remanescentes, que continuavam firmes na Globo, se reunissem para lançar um novo filme acabou definitivamente em 1994, quando morreu Antônio Carlos Bernardes Gomes, o Mussum, aos 53 anos, que não resistiu a um transplante de coração.

 

A partir de então, Renato virou “o” trapalhão e, apesar de a dupla com Dedé Santana nunca ter sido oficialmente desfeita, os dois seguiram caminhos próprios. Renato se manteve na Globo, onde teve dois programas nos últimos vinte anos: Turma do Didi, no ar entre 1998 e 2010, e As Aventuras de Didi, que durou quatro temporadas entre 2010 e 2013. Também lançou nove filmes. Mas nem na televisão nem no cinema consegui alcançar os sucessos estrondosos que o acompanharam ao longo dos anos 1980. Para toda uma geração, Renato Aragão se tornou, na melhor das hipóteses, o senhor que apresenta o Criança Esperança – e, na pior, o sujeito taciturno e mal-humorado que, dizem, briga com o personagem que o consagrou.

 

Até que surgiu a oportunidade de relançar no teatro Os Saltimbancos Trapalhões, um dos maiores sucessos de bilheteria do grupo no cinema. A peça, sucesso de público e, algo raro na carreira de Renato, também de crítica, renovou Didi e seu intérprete, que está de novo sob a atenção dos holofotes. Foi esse Renato Aragão prestes a chegar aos 80 anos que o repórter João Pedro Jorge encontrou por duas sessões de duas horas cada durante o mês de novembro. A primeira ocorreu em sua espaçosa casa, em um condomínio fechado na Barra da Tijuca, recanto de artistas e famosos (“Ali, naquela esquina, mora a Xuxa”, ele apontou). Vestindo uma camisa polo verde, calça bege e sapatos, Renato foi atencioso e simpático. Além de mostrar a casa da vizinha, apresentou os dois cachorros da raça rough collie (a mesma da Lessie) chamados Kelly e Kimba, convidou para tomar um café “tipicamente nordestino”, com tapioca e queijo coalho, e, com o gravador desligado, falou longamente sobre uma de suas paixões: o Vasco da Gama.

 

Na segunda sessão, no camarim da Cidade das Artes, no Rio, onde Os Saltimbancos Trapalhões está em cartaz, Renato apareceu vestido a caráter e, prestes a entrar em cena, bem mais irritadiço: reclamou do entra e sai de contrarregras que tentavam consertar um ar-condicionado e da insistência do repórter com alguns temas (“Mas eu já falei tanto disso!”, protestou). Mesmo assim não demonstrou em nenhum momento o seu famoso lado carrancudo (aquele que boa parte da imprensa adora pintar para ele). O resultado dessa conversa você “aí da poltrona” confere agora.

 

Você vai ficar bravo se eu o chamar de Didi?

Eu não sei quem inventou essa calúnia. A única mágoa que eu guardo é com quem inventou isso aí. Eu tive que processar o jornal e a colunista (em 24 de agosto de 2012, Fabíola Reipert publicou em seu blog que Renato teria demitido um motorista que o chamou de “Seu Didi”). Como é que pode uma pessoa inventar uma coisa dessas? Nem me conhece! Seria o mesmo que eu chegar aqui e falar: “Você é um repórter mau caráter”. Quem vai dizer o contrário?

 

Então não se incomoda quando chamam você pelo personagem?

Não. Meu trabalho é esse. Quando eu vou a algum lugar, estou disposto a tudo. Ao carinho, a parar para tirar selfie. Para mim, aquilo é uma vitória. O povo me conhece, sabe como eu sou. Sabe que eu sempre tenho um sorriso, que eu sempre paro. Minha maior preocupação é não decepcionar essa gente que me colocou aqui.

 

Por que surgiu essa história, então?

Quando você está lá em cima, quando começa a fazer sucesso no cinema, na televisão e no teatro, sempre vem a inveja. A inveja é uma merda. E tem gente que é pior que a inveja.

 

Você se incomoda com o que escrevem a seu respeito?

Eu nem dou bola mais para isso. As pessoas sabem da minha vida, sabem como eu sou. Sabem que eu sempre procuro agir com moral, honestidade e lisura. Durante toda a minha vida, eu pensei: “Por que vou falar com a imprensa, se eles sabem mais da minha vida do que eu?” (Apontando para a cópia da entrevista de 1984). Você mesmo trouxe uma reportagem aí que eu nem me lembrava. Mas não importa. Eu continuo falando e sendo coerente com aquilo que eu digo.

 

Mas costuma ler o que é publicado sobre você?

Olha, eu sei que toda semana estou no hospital. É muita falta do que fazer! Eu não acho nem idiotice mais. É falta do que fazer. E fico triste com isso, porque é de um baixo nível tão grande. Antigamente as reportagens eram mais sadias, agora você não sabe o que é a verdade. Então falando de você toda hora, e as pessoas captam essas mentiras. Parece que as mentiras são boas, mas o desmentido ninguém dá.

 

Você esteve de fato mal em junho deste ano. O que aconteceu?

Eu sempre achei que meu coração seria o único órgão do meu corpo que não teria problema. Eu tenho uma alimentação saudável, não como gordura, fritura nem doce. Também faço ginástica e exercícios. Mas acho que foi emoção dos 15 anos da minha filha. Nisso a minha pressão subiu muito e, de repente, comecei a passar mal. Me deram um Isordil (vasodilatador que ajuda a controlar a pressão), não resolveu. Botaram o segundo e apaguei. Quando acordei a festa tinha acabado. (Risos.) No dia seguinte, eu vim para casa, tomei café, e então me deu uma dor no peito muito forte, uma coisa terrível. Eram um sábado e, graças a Deus, o (Hospital) Barra d´Or é aqui perto. Chegando lá me colocaram um Stent (prótese que é colocada na artéria para evitar o seu entupimento), e não ficou nem cicatriz. Mas à noite veio uma febre tão grande que eu comecei a tremer. Peguei uma bactéria, uma infecção hospitalar. Até descobrirem, foram mais sete dias no hospital.

 

Você é notoriamente religioso. Durante esse momento, chegou a ver algo sobrenatural?

Não cheguei a ver nada, não. As pessoas que veem é porque entraram em coma, coisas assim. Eu não. Eu fiquei deste lado de cá.

 

E agora, como está a saúde?

O coração está zero. Eles colocaram o stent mais moderno possível. Disseram: “Pelo coração, você tem mais 75 anos de vida”. É muito, né? Dá metade para quem precisa. Te garanto que de coração não tem mais problema. Agora, os outros órgãos eu já não sei. (Risos.)

 

Depois de 50 anos de carreira você estreou ano passado no teatro. Foi bom para você?

Esse foi um acidente muito bom na minha vida. Quando (os diretores) Charles Möeller e Cláudio Botelho me fizeram o convite, eu fiquei: “O que é, menino? Teatro? Eu nem sei o que é isso!” Eu nunca tinha feito teatro. Fiz uns 4 mil shows com Os Trapalhões, mas era uma coisa distante, ficava aquele público enorme lá longe, a gente num palanque. Teatro é uma coisa intimista. E ainda eles me disseram que fariam Os Saltimbancos Trapalhões, tive certeza que não daria certo. Um filme que eu levei um ano para fazer, foi gravado até nos Estados Unidos, como é que você vai montar aquilo num palco? Esses caras são loucos. Depois descobri que eles não eram loucos, eram gênios.

 

Foi difícil sua adaptação ao teatro?

É diferente do cinema, né? No cinema tem corte, tem close. No teatro você está ali, olho no olho do público, e o povo fica ali sentado vendo todas as suas expressões. Tudo o que a gente faz, as reações, ele sente.

 

Os Saltimbancos Trapalhões talvez seja o filme mais político da trupe, com a crítica à opressão usando o circo como analogia. Essa faceta permanece?

Permanece a mesma coisa. As músicas continuam as mesmas do Chico Buarque, que é genial, não errou nenhuma. O texto dele é um poema, um poema musicado. E ele é um cara que entende muito de política. No espetáculo estou coberto de tudo quanto é lado. Por essa dupla de diretores e pelo Chico, que é um gênio.

 

Por vários motivos, o lançamento de Os Saltimbancos, em 1981, marcou uma virada na história do grupo, de um maior esmero nas produções e de uma aproximação com a classe média. Foi por isso que ele se tornou peça?

Não. Eles escolheram porque era um filme musical. Eu fiz Ali Babá, Aladin, Robin Hood, mas nenhum deles é musical. Esse filme já tinha todas as músicas para o teatro, com cantares e tudo.

 

Mas Os Saltimbancos foi mais bem produzido que os filmes anteriores, não?

Olha, sempre que faço um roteiro quero fazer melhor do que o anterior. Se esse filme é bom, depois quero fazer outro melhor e, depois, outro ainda melhor. Eu quero me superar.

 

Seus filmes tinham limitações técnicas que eram comuns para a época. Eles eram realmente bons?

Tive 5 milhões de espectadores. E, naquela época, não tinha controle de bilheteria. Esses 5 milhões hoje seriam 10, 20 milhões de pessoas. É até ruim eu falar isso, mas se fosse hoje, ninguém ia superar a minha bilheteria. Mesmo sem controle, nós fizemos no total dos filmes, mais de 130 milhões de espectadores, por aí.

 

Mas existe essa correlação entre público e qualidade?

Se o filme é bom, o povo vai ver. Os críticos são preconceituosos. Por que é que o meu filme é popular? Por que as pessoas são burras? Por que são nordestinos? Por que é um humor circense? Não, porque elas gostam! Eu faço os meus filmes para o meu público. Não faço para vocês, intelectuais, pseudointelectuais. Não faço os meus filmes para críticos. Nunca fiz filme para críticos. Eu faço filme para o povo. E aí o povo vai ver.


Essas críticas o incomodavam?

Eu nunca liguei para isso, nem vou ligar. Tinha gente que criticava meus filmes sem assistir! Foi comprovado isso. Mas, quanto mais eles me malhavam, mais crescia o bolo, mais dava bilheteria. Os pseudocineastas ficavam umas araras porque os filmes dele não encostavam. Chegava um nordestino com um rolo compressor e passava por cima.

 

Por que você acha que era tão maltratado pelos críticos?

No mundo todo é assim. A crítica quer falar mal, ela te que falar mal. Se ela falar bem, ela é pobre. O crítico que fala bem é um crítico que não merece ser crítico. Então eles têm que arranjar algum defeito. Às vezes ele sabe que está falando aquilo de má-fé, ele sabe que aquela atriz não está mal e que o vestido dela não é ruim. Aliás, até isso já falaram: “O figurino está horrível”. Mas eles têm que achar alguma coisa para falar mal, senão eles perdem o emprego.

 

Eu reparei que você tem um quadro do Romero Britto na sala. Ele também é nordestino, também faz sucesso e também é alvejado pelos críticos. Acha que há um paralelo entre vocês dois?

Eu e o Romero ficamos amigos na festa que a Globo para os 50 anos do Didi lá no Copacabana Palace. Ele fez esta homenagem muito boa para mim (aponta o quadro com ele, sua mulher Lilian e a filha Livian aparecem em toda as cores de Britto), e eu fiquei muito feliz em conhecer um artista brasileiro internacional que os invejosos não perdoam. Eles não perdoam o sucesso. O sucesso se tornou o oitavo pecado capital. Se fosse um carioca ou um gaúcho que fizesse sucesso, também seria alvo. Ninguém perdoa o sucesso.

 

Apesar disso, os críticos aclamaram Os Saltimbancos Trapalhões...

(Interrompe.) Aliás, eu gostaria aqui de agradecer. Eu nunca recebi uma unanimidade como recebi Os Saltimbancos. Pela primeira vez eu recortei tudo, recortei os jornais. Estava lá, na primeira página: “Bravo! Bravo!” Para mim, é mais uma realização. Tenho de agradecer aos críticos de teatro por terem me dado quatro estrelinhas.

 

Você acha que nessa crítica talvez esteja imbuído um fator nostalgia?

Tem uma memória afetiva de quem via às 7 da noite, de quem ouvia aquela musiquinha (canta as primeiras notas do tema de Os Trapalhões) e de quem viveu aqueles lançamentos de seis em seis meses dos meus filmes. Você via muita gente naquela época que morava em prédios de seis andares e que dava para ouvir a música em todos os apartamentos.

 

Como surgiram os bordões de Os Trapalhões?

Aquilo vem, eu recebo. Hoje eu nem me lembro mais quantos bordões já lancei. O mais famoso foi “ô psit!”, que veio do “psiu”, e “ô da poltrona!” O Didi não ia ficar falando “s” e “r” corretos. Ele tinha um modo de falar o povo para mim.

 

Nessa época você sofria muito assédio?

Tinha assédio, mas não chegava até a gente. Nos shows a gente ficava em meio a uma multidão muito grande, e tinha uns seguranças, e a gente saía, ia embora, e não tinha tempo de falar com os fãs.

 

E assédio de mulher?

Não, não, não. A gente era comediante, ninguém era ator, ninguém era galã. Era tudo comediante. O pessoal olhava e ficava rindo: “Me dá um autógrafo?” Naquela época era autógrafo, não era selfie.

 

Você anda com seguranças ainda hoje?

Ando. Eu ando com segurança por dois motivos: eu tenho uma família e a Globo não pode arriscar um talento. Então, quando eu vou para a Globo, eles me dão segurança, e eu tenho um particular que é motorista também. Mas a gente não é mito visado. Eu pelo menos nunca passei aperto, graças a Deus. O pessoal tem medo da repercussão que seria fazer algo contra alguém tão conhecido.

 

O fato de morar na Barra da Tijuca tem a ver com segurança também?

Não. Eu sou pioneiro da Barra, cheguei aqui no fim dos anos 1980, não tinha nem estrada. Não saio mais.

 

Mas tem a ver com a privacidade?

É muito mais tranquilo. Mas eu quase não saio da casa, não gosto de praia. Eu vou a um restaurante de vez em quando, gosto de ir ao shopping, mas é difícil, não dá para andar.

 

Por causa das pessoas...

(Interrompe com veemência.) Carinhosamente eu digo isso. Mas eu falo com todo mundo, não deixo de tirar foto. Agora, com celular, você não tem sossego! Mas eu atendo todo mundo.

 

Você já pensou em morar fora do país para ter uma vida mais tranquila?

Não, o que é isso? Eu viajo muito. Vou sempre para os Estados Unidos, passo lá o fim de ano e tudo, mas quando dá uns 15, 20 dias, eu já estou arrumando as malas para voltar. Sinto falta do meu país. Eu poderia passar lá um período grande. Gosto de Orlando. Mas morar? De jeito nenhum.

 

Em 1984, você estava engatilhado alguns projetos internacionais. Existe alguma frustração sua por não ter feito tanto sucesso fora do Brasil?

Para mim não. Graças a Deus, fiz sucesso no meu país com filmes para o povo brasileiro. Para fazer sucesso lá fora, eu teria de sair do país, aprender inglês. É muito difícil. Só agora alguns atores estão começando a romper essa barreira: o Rodrigo Santoro, a Alice Braga, o Wagner Moura. O Santoro é um cara que conseguiu sair do estereótipo.

 

Dos 11 filmes brasileiros que ultrapassaram a barreira dos 5 milhões de espectadores, cinco são seus e apenas três lançados na última década. Por que hoje é tão difícil atingir bilheterias expressivas?

Hoje eu poderia atingir muito mais, pois há um controle muito bom. Olha, nós temos uma concorrência americana muito forte. Os filmes americanos não precisam nem de ator, você viu as coisas que eles estão fazendo? Cada filme! Como é que eu vou pegar uma trucagem daquelas? Uns efeitos daqueles? É um melhor que o outro. Mas a gente “tupiniquimente” pode fazer bons filmes. Estou esperando um hiatozinho para poder fazer um filme.

 

É uma questão de concorrência com os americanos, então?

Não. Eu estou falando em relação à comparação com os efeitos especiais que eles têm lá e nós não temos aqui.

 

Então qual o problema?

Está todo mundo fazendo cinema e fazendo muito bem-feito, mas há uma saturação muito grande, principalmente em comédias. Tem que segurar um pouquinho. E sabe uma questão que mudou muito? O estacionamento. Naquela época, com cinemas de mil lugares, o cara estacionava lá longe, não tinha estacionamento. E muita gente me falava: “Será que quando eu voltar lá meu carro vai estar?” Hoje não. Você tem shopping centers em que o seu carro está guardadinho, você vai tranquilo, mas as salas são menores. Não são salas de mil lugares.

 

Você mudaria algo em seus filmes se pudesse?

Eu mudaria, sim. Antigamente, nas fotos de cartaz botávamos os heróis, os quatro trapalhões, de revólver na mão. Hoje eu nunca colocaria uma arma na mão dos heróis. Isso não pode jamais.

 

Você fez muito sucesso em uma época em que o país vivia a Ditadura Militar. Chegou a sofrer censura?

Ela não me incomodou muito. A única coisa que me incomodava é que você tinha que fazer um filme e mandar para Brasília, e lá eles davam o certificado de censura. Era como se fosse um selo: “Este filme está liberado”, essa coisa toda. Então eu mandava um emissário para Brasília, os caras assistiam ao filme... Era um incômodo. Mas nos meus filmes, nunca disseram “corta isso, corta aquilo”. Dos meus filmes, nunca cortaram nada.

 

As pessoas hoje se autocensuram mais por causa do politicamente correto?

Não sei. Mas acho que nada deveria ser censurado. Tinha que ser tudo livre, e a cada um que se responsabilizasse pelo que fala. Se você faz uma coisa que atinge a sociedade, essa coisa vai voltar contra você. Você vai chegar num programa de televisão, numa novela, e dar mau exemplo? Não merece censura, mas merece a resposta das pessoas. A sociedade é que deveria “censurar”, mudar de canal. A melhor censura é o controle remoto.


Várias piadas de Os Trapalhões hoje são consideradas politicamente incorretas...

Mas, na época, a gente fazia como uma brincadeira. Era uma brincadeira de circo entre mim e o Mussum. Como se fôssemos duas crianças em casa brincando. A intenção não era ofender ninguém. Hoje todas as classes sociais ganharam a sua área, a sua praia, e a gente tem que respeitar muito isso. Eu sou até a favor. Mas, naquela época, essas classes dos feios, dos negros, dos homossexuais, elas não se ofendiam. Elas sabiam que não era para atingir, para sacanear. O Mussum, o Zacarias e o Dedé até forçavam a piada. “Olha, agora é a hora de falar aquela merda, mas vai devagar!” (Risos.) Eu chamava o Dedé de “rapaz alegre”, entende? Mas era uma coisa de ator para ator, de personagem para personagem. Eles me chamavam de paraíba, mas era uma coisa dos personagens.

 

Você chegou a sofrer preconceito por ser nordestino?

Em tudo. Eu vou te dar um exemplo, e essa era a coisa mais clássica que eu ouvia, até fiquei saturado de responder: “Renato, ontem eu vi teu programa passando no quartinho da empregada”. Poxa, por que você não vem para a sala? (Risos.) É mais confortável! O pessoal pensava: “Esses caras estão aí, vieram do Nordeste e estão fazendo sucesso?” E Os Trapalhões fez um sucesso que chegou a dar 80% de audiência. Hoje eu não sei se daria tudo isso com TV a cabo, a internet.

 

Você acompanha essa nova onda de humoristas brasileiros que está fazendo sucesso na internet?

Faz isso não, rapaz. (Risos.) Eu acompanho muito pouco, vejo internet muito pouco. Não sou desta geração da tecnologia. Tenho computador, entro nos meus e-mails, mas não acompanho muito. Gosto do Gregório Duvivier, aquele menino é muito bom. Eles só estão errando porque pegam pesado demais. Não precisa. Eles falam muita merda. (Risos.) Se eles pegassem mais leve, conquistariam um público muito maior.

 

O Nordeste novamente foi pivotal nas eleições presidenciais. Com estados tão diferentes entre si, é possível falar em uma cultura nordestina?

Essa pergunta eu devolvo para você. Acho muito preconceituoso isso.

 

Mas há semelhanças, não? O articulista Diogo Mainardi chegou a dizer depois das eleições no programa Manhattan Connection que “o Nordeste sempre foi retrógado, sempre foi governista, sempre foi bovino..”

(Interrompe.) Peraí, por que ele não vai lá educar as pessoas se ele acha que a gente não tem educação, não tem conhecimento? Por que ele não vai exigir que o governo é educação? Isso aí é preconceito. Os nordestinos são esclarecidos demais, mas eles precisam comer. Eles são pobres. Eu sou a favor do Bolsa Família. Sou a favor com uma condição: dá um Bolsa Família, mas dá emprego. Se der só o Bolsa Família, a pessoa cruza os braços.

 

Você acha que o Brasil está dividido?

Acho que o país quer mudança. Eu até parei de votar, por que eu não sei mais em quem. Me apresente alguém? São todos corruptos... Desculpe, tem muita gente que quer fazer um país melhor, mas eles não conseguem porque os corruptos são muito mais fortes. Hoje em dia não tem mais cadeia para botar, e agora, quando entrar essa delação premiada, cara! Você vê esse escândalo da Petrobras? Essas coisas vergonhosas. Eu me sinto tão indefeso...O povo fica indefeso.

 

Na entrevista de 1984, em meio ao processo de reabertura política, você disse: “Eu sou palhaço, mas quero escolher meu presidente”. A democracia foi um processo frustrante para você?

Ao contrário! Minha frustração foi acabarem aqueles protestos. Temos que ir para a rua, temos que exigir mais democracia. Você sabe que a primeira vez em que vi os protestos, aquelas milhares e milhares de pessoas na rua, eu queria sair para lá, nem que fosse para ser mais um, para fazer uma figuração. Acho que era a hora de a gente mudar o Brasil. O povo tem que começar a puxar o país para ele, não pode deixar na mão de gente corrupta. Mas, de repente, veio a esculhambação, vieram os aproveitadores. Eles acabaram tirando aquela turma que foi exigir um Brasil melhor. Quando entraram os baderneiros, poxa, eu fiquei muito triste.

 

Você ficou satisfeito com o resultado das eleições do ano passado?

O Brasil precisa mudar, não só mudar os políticos, mas mudar o modo de fazer política. Se é o PT que está aí, ele tem que mudar. Não é só fazer uma mudança de um partido para o outro, do PT para o PSDB. Tem que mudar o modo de gerenciar o país. Temos que ter reformas políticas, reformas econômicas, reformas de tudo. Estamos estagnados. O Brasil não vai crescer se continuar assim.

 

Um dos gritos dos protestes de julho foi: “O povo não é bobo, abaixo a Rede Globo”. Isso o incomoda?

Mas o que a Globo tem a ver? O que a Globo fez de errado? Isso aí foram meia dúzia de baderneiros, meia dúzia de desocupados que não tinham mais o que fazer. Ninguém, nem a Globo, levou isso em consideração. Não é por aí. Tinham que fazer protestos contra a má gestão dos governantes, e fizeram. Mas tudo deu errado porque entraram esses baderneiros, esses black blocs da vida.

 

Como era a sua relação com o Roberto Marinho? Vocês eram próximos?

Não. Eu me encontrei com ele poucas vezes. Uma vez num aniversário, logo que eu cheguei na Globo, e outra vez quando a Unicef me nomeou embaixador. Nós nos falamos umas duas ou três vezes.

 

E como foram esses encontros?

Eu fiquei meio nervoso, claro. (Risos.) Da primeira vez, eu estava chegando, fiquei nervoso para chegar e apertar a mão daquele cara. Ele é um símbolo. O doutor Roberto, para mim, é um símbolo. Um cara que começou a fazer televisão com 60 anos. Nenhum empresário teve esse talento e essa visão que ele tinha. As pessoas de 60 anos naquela época já estavam pensando em se acomodar, e ele, que já tinha tudo, chegou aos 60 anos e falou “vou fazer televisão”. E fez maior televisão do Brasil.

 

Na entrevista de 1984, começava a ser criado o programa Criança Esperança, uma das marcas mais associadas à sua figura, e que também sofre críticas...

(Interrompe.) Isso é inveja! Tudo o que faz sucesso é perigoso, sucesso incomoda muito. E todo ano inventam coisas sobre mim e a Globo. Mas no que é que a gente ia se aproveitar? No que é a Rede Globo, com a grandiosidade dela, ia se aproveitar? Correr o risco da lisura dela? Da minha também? Isso aí já está fixando ridículo. Isso é ridículo. Eu e a Globo encontramos todo ano isso, mas o povo já sabe que a doação vai direto para onde ele quer que vá.

 

Essas críticas ao Criança Esperança o incomodam muito?

Me incomoda tudo que é injusto contra quem quer que seja. A pessoa vai falar mal do Criança Esperança? Tudo que faz sucesso... É aquele negócio que eu já te falei. O programa explode e é: “Ah, por que a Globo, me vez de fazer aquele programa, não doa o dinheiro para o povo?” É cruel isso. Me incomoda muito quando falam da Rede Globo. Eu não admito que falem mal da Globo.

 

Como todo casamento, o seu com a Globo já passou por crises. Você já se sentiu magoado?

De repente, tudo muda. Já fiquei seis anos sem fazer nada na Globo quando faleceram os dois companheiros, só fazendo um especial ou outro. Nem filme eu fazia. Fiquei muito triste.

 

Mas pensou em sair?

Não, eu nunca pensei em sair. A gente tem sempre que esperar o momento das coisas. De repente as coisas mudam, a gente vai se acomodando ali dentro, se acoplando. Antigamente faziam seriados e os programas eram de uma hora. Depois passou a ser sitcom de meia hora, e a gente se adapta. Então eu não tenho mais intenção de sair da Globo. Não sei se isso é recíproco, mas por mim, não saio.

 

Tem vontade de voltar a fazer um programa semanal?

Tenho. Hoje a minha vontade é fazer seriados, porque fazer um programa semanal é muito desgastante. Fazer um seriado com 16 episódios. Tenho várias ideias, mas eu não posso falar para você, não vou entregar o outro.

 

Como funciona o seu processo criativo?

Quando escrevo alguma coisa, sinto o que estou escrevendo. Eu sofro com meus personagens, rio com eles, me canso com eles. Às vezes estou escrevendo uma história, pego um personagem e penso: “Será que eu estou sendo muito perverso com ele? Não, esse vilão não merece ser sacaneado, ou ser preso, ou ser morto”, que, aliás, é algo que nunca aconteceu nos meus filmes. Não. Eu vou dar um carinho nele, ele vai se recuperar. Eu faço sempre assim. E eu vivo o Didi. Quando eu estou escrevendo, sinto o Didi. Parece até que ele me leva no computador.

 

Foi você quem escreveu todos os roteiros desde o começo?

Dos filmes, quase todos. Desses 50, 40 e tantos (ao todo, Renato Aragão fez 47 filmes) escrevi quase todos. Depois é que eu comecei a pegar autores, mas quando eu comecei na televisão eu que escrevia. Foi difícil, aliás. Comecei lendo todas aquelas comédias da SBAT, Sociedade Brasileira de Autores Teatrais. Eram uns livrinhos assim, tipo literatura de cordel, com comedinhas, e eu lia aquilo dia e noite para saber como é que entrava e saia de um palco, como é que escrevia. Teve uma época em que eu escrevia uma comédia por semana. Eu tinha que escrever 25 páginas. Hoje eu faço um “sinopão” e digo: “Turma, é com vocês”. E aí meus autores colocam dialogo. Mas o começo, meio e fim são meus.


Você ainda assiste a muita televisão?

Só jornalismo e futebol. O futebol é a minha paixão. Eu joguei muito futebol quando era adolescente, quase fui profissional lá no Ceará por um clube que não existe mais, chamado Gentilândia. Jogava de center-half, que hoje seria um meio-campo, um volante.

 

E era bom?

Médio. Não decepcionava. Não era um craque, mas não decepcionava.

 

Dava para jogar no Vasco?

Rapaz! Eu sofro tanto com o Vasco. Ele está subindo agora para a primeira, subiu aos trancos e barrancos. Mas o Botafogo, vou te falar, dos clubes cariocas, é o que está na situação pior. Em proporções diferentes, claro, porque ele ainda estava na primeira. O Vasco, o Botafogo, o Flamengo... Esses times têm uma tradição enorme. Não podem ir para a segunda divisão. É um grande problema  a administração do futebol em todo o país.

 

O que você acha de movimentos como o Bom Senso?

Para você ver, é uma manifestação! Nós temos que mudar o futebol. Somos um país de tradição futebolística exemplar, várias vezes campeão do mundo, e não podemos passar por essa humilhação que a gente passou contra a Alemanha. Isso aí vai ficar como marco que não vai se apagar mais. Não vai apagar mais esse vexame que a seleção deu nessa Copa do Mundo. Eu quase desmaiei assistindo ao jogo. Eu ia tomar café, era um gol. Eu ia fazer xixi, era um gol. Olhava o comentário, era um gol! Meu Deus, isso aí não é o Brasil. Terminou o jogo eu fiquei sentado sem acreditar no que via. Fiquei anestesiado.

 

Na entrevista de 1984, você falou sobre os problemas que sua filha Juliana Aragão passava pela ausência do pai. Você se arrepende de ter sido um pai distante?

Naquela época, o sucesso me empurrou, e eu não podia parar. Mas, claro, eu voltava para casa. Não era uma pessoa ausente. Eu voltava, conversava com eles. Mas não podia estar lá sexta, sábado e domingo, que eram os dias em que eles estavam de folga da escola, porque eu estava fazendo shows com Os Trapalhões. Mas te digo que, hoje em dia, ela me acha o pai ideal. Todos os meus filhos, na verdade. Eles nem se lembram daquele período. Hoje eles compreenderam aquela minha situação.

 

Essa experiência mudou a forma de você se relacionar com a Livian, sua filha mais nova?

Desde que eu me casei com a Lilia, a Livinha participou de tudo. A Juliana não, ela ficava em casa. Não só a Juliana, mas os outros filhos também. Eu passei dois dias em casa, o resto era ou gravando, ou filmando, ou fazendo show. Agora com a Livian, onde eu ia fazer show, gravar, ela ia. A mãe dela ia grávida e tudo. A Livinha chegou a participar de um filme com 8 meses (Os Trapalhões e a Luz Azul.) Quando eu fiz uma caminhada de 150 quilômetros para agradecer à Nossa Senhora Aparecida pelo Criança Esperança, elas foram comigo. A Livinha estava num trailer, claro, mas a mãe foi caminhando comigo. Até nisso eu levava junto.

 

Você é um pai ciumento?

Não fala isso! (Risos.) Eu sou ciumento assumido. Muito, muito ciumento. Esse moleque (o ator Nicolas Prattes, namorado da Livian), para poder entrar em casa, levou muito tempo. Eu não admitia. Pô, eu sou ciumento mesmo, e daí? Tem gente que não é, mas eu sou. Mas o moleque ganhou o espaço dele. É um menino muito bom, tem bom caráter. Graças a Deus, ela soube escolher. Aí eu joguei a toalha.

 

E com outras coisas, você é ciumento?

Sim, eu sou. Sou ciumento com tudo. Mas não sou possessivo.

 

Isso influenciou de alguma forma a separação de Os Trapalhões? O que aconteceu exatamente naquela época?

(Irritado.) Eu não gosto mais de falar disso. Foi uma situação muito delicada para todas as partes, fui muito magoado pelas críticas que só vieram para o meu lado. Eu fiquei de vilão nessa história, e por isso eu não gosto de falar. Quem passou por aquele período que tome suas decisões e tire suas conclusões a meu respeito. Mas eu não gosto de falar nisso. Inclusive porque dois companheiros já se foram, e fica muito indelicado falar.


Foi por causa de grana?

Não foi nada disso! Cada um quis fazer o seu filme. Eu fiz o meu filme, e eles fizeram o deles. Foi só esse o motivo. Não foi outro.

 

Mas por que cada um quis fazer um filme?

Eu vou te responder sempre do mesmo jeito que você perguntar. Não tem outra resposta para te dar que não seja essa.

 

Você citou a morte do Zacarias e do Mussum. Sente muita falta deles?

Eu sinto muita falta deles. Não vejo os filmes, não assisto mais. Tenho muita saudade. Para mim é até difícil. Quando tocam nesse assunto, já me sensibilizo.

 

Depois de idas e vindas, você e o Dedé Santana voltaram a ter uma parceria sólida. Acha que o Zacarias e o Mussum, se estivessem vivos, estariam com vocês dois em Os Saltimbancos Trapalhões?

O quarteto estaria sempre junto. Se eles não fossem levados lá para cima, para outros planos, nós estaríamos fazendo o musical. E tinha ainda o Tião Macalé, esse também estaria aqui conosco com certeza. (Imita o bordão de Macalé.) “Tchan!”

 

E como é a sua relação com o Dedé hoje?

O Dedé mora em Santa Catarina, em Camboriú, mas ele vem sempre para cá, para o Rio de Janeiro. Ele está aqui agora muito por causa do teatro, e vem também quando é para fazer os meus telefilmes. E quando o Dedé vem para cá a gente sempre se encontra, jantamos quando dá tempo de jantar, saímos quando dá tempo de sair. Aí a gente só fala besteira, fica falando brincadeiras, eu, ele e o Sargento Pincel (personagem de Roberto Guilherme, eterno algoz da trupe em Os Trapalhões).

 

Vocês ficaram distantes por muito tempo. Se sente bem com essa reaproximação?
Claro! Isso aí faz tanto tempo que ninguém lembra. Vou te dar um exemplo: eu brigo com a minha mulher às vezes por besteira. Era esse tipo de atrito que existia em Os Trapalhões. Mas as pessoas gostam de tocar nessa ferida que, para mim, já está cicatrizada.

Você chegou a provar a cerveja do Mussum, a Biritis?

Cheguei a ver, mas não provei. Um amigo me deu, eu guardei... Eu não bebo cerveja. Só bebo vinho. Gosto de beber uma taça de vinho quando saio com os amigos no fim de semana. E isso não me faz mal. Faz até bem. Mas outra bebida? Eu tenho em casa por educação, para servir às pessoas. Para receber as pessoas.

 

Nunca foi de beber?

Nunca bebi. Eu não bebia nada. Bebo às vezes numa convivência social, num jantar.

 

Tem alguma história de porre?

Não, não, não. (Risos). Eu até gostaria de ter tomado um porre, mas não tomei.

 

E fumar? Você fumava?

Eu já cheguei a fumar na época da moda. Não sei se você lembra que o Kojak (personagem vivido por Telly Savallas na série homônima dos anos 1970) fumava um cigarro comprido assim. Eu até cheguei a botar isso na boca para ver como era, mas nunca foi vício. E também nunca botei outro cigarro, a não ser esse da moda.

 

Mas não era raro ver personagens fumando em Os Trapalhões, principalmente nos filmes...

Você veja, o próprio Pica-Pau mudou também. O Pica-Pau era um mau exemplo danado, um mau caráter! (Risos.) Agora a nova versão mudou. Essas coisas mudam com a sociedade. Tomara que isso sempre aconteça. Tomara que a gente não seja um condutor do mau exemplo para as crianças. Fumar! Antigamente se fumava em cena. Não sei se nos meus programas, eu não me lembro, mas nos próprios filmes em preto e branco americanos o ator fumava. Era todo mundo fumando. Mas isso foi acabando.

 

Renato, para terminar, uma pergunta clássica de PLAYBOY que você não respondeu em 1984: como foi sua primeira vez?

Olha, eu estou com 79 anos... Vou te falar que eu não lembro. Não me lembro mesmo, com toda a sinceridade. Não sei que idade tinha, talvez uns 16. Naquela época, era muito distante a primeira vez. Mas eu vou me lembrar para a próxima entrevistar que eu dar para PLAYBOY, daqui a 30 anos.

Publicado originalmente na revista “Playboy” em janeiro de 2015

segunda-feira, 30 de agosto de 2021

A trajetória de Orlando Drummond (1919-2021) no cinema: 101 anos em três comédias populares

 

Foram mais de 100 anos de vida. O ator, comediante e dublador carioca Orlando Drummond (1919-2021) nunca foi um ator dedicado a sétima arte. Ele ficou conhecido nacionalmente pelo personagem Seu Peru na Escolinha do Professor Raimundo da TV Globo. Natural de Vila Isabel e torcedor do Fluminense, Drummond construiu uma longa carreira na dublagem. Neste ramo tornou-se um dos mais ativos e requisitados profissionais brasileiros sendo responsável pela dublagem de personagens como Scooby Doo, Leão da Montanha, Popeye, Gargamel dos Smurfs, Bibo Pai, Hong Kong Fu e o extraterreste Alf, o teimoso. O jornalista Victor Gagliardo é autor da biografia do ator e dublador: Orlando Drummond, Versão Brasileira publicada pela editora Gryphus em 2019. Gagliardo afirma que o ator teve pequenas participações em cinema porque se dedicava mais ao rádio e a dublagem. Quando os principais artistas migraram do rádio para TV, ele até fez esse caminho mas não abandonou o rádio que era uma grande paixão em sua vida. Somando a dublagem, ele não teve tanto tempo para se dedicar à TV e ao cinema, ressalta o escritor.

Orlando Drummond fez sete longas-metragens como ator. De fato foram participações pequenas, reconhece Gagliardo. Mas isso nunca o incomodou. Ele sempre fez questão de fazer o seu trabalho da melhor forma – independente do papel. A dublagem permitiu ele criar muitos personagens que ficaram eternizados na história. Mesmo assim, separei três papéis de diferentes momentos do ator e dublador em comédias populares brasileiras.


O Rei do Movimento” (Brasil, 1954)

Direção: Victor Lima

Companhia produtora: Cinedistri Produção e Distribuição Audiovisual Ltda.

Companhia co-produtora: Cinelândia Filmes

Produção: Eurides Ramos

Produtor associado: Osvaldo Massaini

Argumento e roteiro: Alípio Ramos e Victor Lima

Direção de fotografia: Hélio Barrozo Netto

Montagem: Hélio Barrozo Netto

Elenco: Ankito, Carlos Tovar, Gilberto Martinho, Wilson Grey, Janete Jane, Margot Morel, Suzy Kirbi, Costinha, Carlos Duval, Paulete Silva, Billy Davis, João Celestino, América Cabral, Almeidoca, Grijó Sobrinho, Jesus Ruas, Wilson Viana, Orlando Drummond e Amadeu Celestino.

Crítica:

Cotação: ***


Letreiros iniciais de "O Rei do Movimento" de Victor Lima

Chanchada bem produzida dentro dos padrões do gênero e funciona como um veículo para o comediante Ankito (1924-2009). Co-produção da produtora carioca Cinelândia Filmes e da empresa paulista Cinedistri mas toda filmada no Rio de Janeiro. Desta vez, Ankito interpreta o atrapalhado carteiro Clementino que anda sempre atrasado e não é feliz na sua vida profissional. Sou sonho é ingressar na vida artística mas continua trabalhando nos Correios. O protagonista sempre chega atrasado no seu lugar de trabalho e mantém um relacionamento amoroso com Carolina, filha da dona da pensão onde mora. Clementino acaba envolvendo-se em diversas situações cômicas quando vai entregar suas correspondências. Ele escolhe um bairro grã-fino para realizar seu trabalho mas mesmo assim se mete em várias confusões.

Uma das situações mais engraçadas é quando um maluco (Costinha) o persegue com uma espingarda. Uma cena digna do melhor do cinema mudo de humor. O filme trabalha muito com o humor mudo, não existem muitas falas para Ankito. Ele consegue fazer graça durante muitos episódios. Tudo vai bem para Clementino até quando o temível Bandido Mascarado começa a fazer uma série de crimes na cidade. O recordista Wilson Grey faz uma pequena ponta como um dos colaboradores do bandido principal.

As atrações musicais de "O Rei do Movimento"

Ao mesmo tempo, Carolina consegue que Clementino faça uma participação no show do conhecido mágico Martino (Carlos Tovar) para um show de hipnotismo. Um dos melhores trabalhos de Ankito destacando-se como cômico e levando o filme no peito. As situações cômicas são somadas a bons números musicais com nomes de destaque da época como a cantora Ângela Maria (bastante nova), o sambista Blecaute, a Emilinha Borba (cantando em homenagem a Marinha) e até o bossa-novista Lúcio Alves cantando Valsa de Uma Cidade do compositor e radialista Antônio Maria. O Rei do Movimento estreou no Brasil no mesmo momento que filmes clássicos norte-americanos como Sete Noivas Para Sete Irmãos de Stanley Donen e Janela Indiscreta de Alfred Hitchcock estrearam. Os críticos da época comparavam Ankito com Oscarito. Acredito que seja uma tremenda injustiça. São dois atores cômicos de formações diferentes. Ankito vinha do circo e de família circense. Já Oscarito era um ator formado no teatro de revista. Ambos dois excelentes cômicos com público cativo. Foram duas estrelas da época. A chanchada tinha espaço para ambos.

Uma pena que o Canal Brasil, a TV Cultura e outros canais terem tirado seus espaços dedicados exclusivamente para as chanchadas. A TV Brasil da EBC é uma honrosa exceção. As comédias musicais da década de 1950 eram a cara do Brasil, faziam um sucesso com um público cativo. “O aspecto cultural mais marcante dessas comédias foi a divulgação daquilo que os críticos elitistas da época chamavam de “filosofia barata”. E bem poderia ser diferente, pois muitos espectadores eram ainda analfabetos e preferiam o cinema nacional porque não podiam entender as legendas das fitas importadas” (PIPER, 1977, p. 30).


Comentário sobre a participação de Orlando Drummond:


O nome de Orlando Drummond nos créditos de "O Rei do Movimento"

Este é o primeiro longa-metragem de Orlando Drummond como ator. Ele aparece durante exatos 34 segundos. Ele interpreta Natanael, o dono de uma joalheria roubada pelo perigoso bandido Mascarado.  Na realidade, esse nome consta em todos os dicionários e referências. Mas no filme mesmo o personagem não tem nome sendo o gerente da joalheria. É um papel bem pequeno e rápido. Talvez numa maior produção com mais recursos seu papel poderia ter sido mais bem explorado. Como não tive acesso a cópia de Angu de Caroço, longa-metragem feito no ano seguinte por Ankito e Orlando não dá para saber se ele recebeu um papel maior. Mas seu nome aparece nos fins dos créditos.


Repositório (críticas e matérias sobre o filme em seu lançamento e algo em livros):

 

"O Rei do Movimento" foi uma co-produção Cinelândia Filmes e Cinedistri

MUITO REAL- Contam na madrugada que o artista Wilson Grey, durante as filmagens de “Rei do Movimento” e quando contracenava com Ankito, este atleta que é, atirou-lhe uma barrica com tal veemência que o pobre Grey, com aquele corpinho que a natureza lhe deu, foi parar no Pronto Socorro, tendo que fazer “pontajour” no lábio superior. A revelação de “Matar ou Correr” estava mesmo sem sorte. Voltando ao “set”, foi atacado por dois cães policiais, também personagens do filme, que o deixaram em frangalhos por dentro e por fora...Até o momento, o Grey não voltou a circulação e está recolhido em sua residência. Deitado e de bruços.

Publicado originalmente no Diário da Noite em 15 de fevereiro de 1955


Circuito paulistano de "O Rei do Movimento": muitas salas com o filme em seu lançamento

O REI DO MOVIMENTO” EM BENEFÍCIO DA CASA DO ATOR

A Cinedistri vai apresentar, dia 30 próximo, ás 22 horas, no cine Paramount, o filme “O Rei do Movimento” em sessão cuja renda reverterá em benefício da Casa do Ator. Trata-se de uma comédia protagonizada por Ankito, Janete Jane, Carlos Tovar e outros com a participação de Angela Maria, Lúcio Alves, Emilinha Borba, Blecaute e outros. Comparecerão à sessão da Paramount os astros do filme e os cantores afim de emprestar maior brilho ao espetáculo”.

Publicado originalmente no Correio Paulistano em 12 de maio de 1955


 

“O REI DO MOVIMENTO”

Circuito comercial de "O Rei do Movimento" no Rio de Janeiro

Tive uma boa surpresa com esta comédia “O Rei do Movimento” que a Cinedistri apresenta no Art e Broadway, além de outros vinte cinemas, estrelada por Ankito, que se revela o maior concorrente de Oscarito na preferência do nosso público pelas comédias musicais típicas do cinema brasileiro. Trata-se de um espetáculo muito bem realizado, tanto sob o ponto de vista da história, da cenarização, do som e da fotografia, como da atuação dos principais intérpretes, conscientes do papel que apresentavam e imprimindo a maior dose de veracidade a todos os seus gestos e atitudes.

Defeitos há, mas são tão insignificantes, que, diante do conjunto harmonioso de fatores de criação do filme, que nem sequer contam no balanço geral. Hélio Barrozo Neto responsável por três setores importantes: fotografia, corte e som, realiza um admirável trabalho, dando a esses elementos uma perfeição realmente elogiável. A direção de Victor Lima, por sua vez, soube conduzir a ação num ritmo vivo e interessante, movimentando os intérpretes com perfeito domínio de cena, fazendo Ankito viver sua parte e não apenas representa-la, o que produziu os melhores resultados.

A história e a atuação de Ankito, porém, é que se impõe, principalmente, perante o espectador, proporcionando-lhe divertidos momentos sobre as aventuras de um carteiro. Depois das cenas iniciais, que não prenunciavam nada de bom com o Carlos Duval falando na cumbuca, é que a fita realmente começa a ficar boa. Toda a sucessão de cenas das entregas de correspondência no bairro grã-fino e suas respectivas ilustrações cômicas, como a avantajado bebê, do maluco caçador de borboletas, a fuga e o banho inesperado, - é da melhor qualidade como comédia. Mas, o que vem depois também não lhe fica atrás, com ligeira exceção para a cena da televisão na pensão, logo superada com as trapalhadas no teatro e a divertida fuga, até o final, sempre provocando gostosas gargalhadas na plateia.

Ankito, dono de um estilo pessoal de comediante, socorre-se de suas habilidades de antigo ginasta (da dupla Anky e Mori) para melhorar ainda mais as suas cenas cômicas. Tudo quanto faz é bem feito, natural e convincente. É o grande fator de êxito de “O Rei do Movimento”, um espetáculo divertido, que satisfaz plenamente.

WALTER ROCHA”.

Publicado originalmente no Correio Paulistano em 9 de junho de 1955

 

"O Rei do Movimento" teve lançamento em todo Brasil 

FILMES DA SEMANA

(...)                            

Definitivamente insignificante, entre tudo isso, é o cinema brasileiro num dos seus piores vícios: a chanchada. Em “O Rei do Movimento”, onde aparece Ankito comandando todas as escolas de samba da Cidade...

Publicado originalmente no Jornal do Brasil em 3 de julho de 1955

 

“CINEMA: O REI DO MOVIMENTO

Mais uma vez um filme nacional de Alípio Ramos, desta vez sem formar dupla com o mano Eurides, por isto que foi escrita em parceria com Victor Lima e dirigida pelo último. Não sabemos se a pressa com que são feitos os filmes da Cinelândia ou que motivos outros impelem os seus produtores para as mesmas falhas. O certo é que “O Rei do Movimento” continua sendo fiel ao padrão, com as mesmas bobagens, idênticos erros e péssima realização. Não é possível compreender como Alípio Ramos que teve um começo acertado em “Querida Suzana”, desandou a realizar fitinhas que fazem nosso cinema retroceder, sem nada que mereça a pena ser levado em conta. “O Rei do Movimento” em que se pese a entrada de Victor Lima, foi finalizado com recursos de puro pastelão, autênticos do tempo em que tivemos aquelas fitas cômicas que fizeram rir nossos avós. Mesmo assim, a sua realização é mal-feita, sem espontaneidade e com as situações das mais forçadas, dando motivo ainda para encaixar números do rádio e pastorinhas mas tudo na maior pobreza e de indumentária. Uma palhaçada que entristece, em vez de agradar. E maior pena dá ainda ver artistas como Carlos Tovar, se prestar a papéis como que apresenta nesta fita. O próprio Ankito, palhaço que disputa a Oscarito as honras das chanchadas, poderia ser melhor aproveitado, ao menos pelos seus recursos de acrobata. Mas o filme desfila ainda vários nomes como Margot Morel, Jeanette Jane e outras e outros, mas tudo tão mal posto, que não se sabe a que fim aparecem. E como não poderia faltar nesses filmes de baixa categoria, lá estão os números de rádio, com Emilinha Borba, e desta vez, Angela Maria, ridícula, provando que deveriam continuar exclusivamente ausentes das telas, sejam de cinema ou de televisão. Que juízo farão aqueles que assistirem aos nomes do nosso rádio em situações tão esdrúxulas? É verdade que ainda aparece Black-Out, outro que não se atura nem de costas e com algodão nos ouvidos, além de Lúcio Alves e companhias...E como se não bastasse, no filme ainda se ouve a voz de Francisco Alves. Vamos deixar de profanar os mortos...A fotografia e o som de Hélio Barroso Neto não está má! “O Rei do Movimento”, não é fita, é atoleiro, onde se afunda cada vez mais o cinema nacional...

PEDRO LIMA”.

Publicado originalmente no “O Jornal” em 8 de julho de 1955


Ankito (ao centro) é o personagem central de "O Rei do Movimento" 

 

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O REI DO MOVIMENTO

Nova produção dos irmãos Ramos invariavelmente péssima. Estes produtores, com a prática adquirida com uma série de filmes, já estariam obrigados a nos oferecer trabalhos mais dignos ou pelo menos de nível técnico mais consolador. Nada acontece e O Rei do Movimento é uma prova irrefutável da capacidade de ambos, como diretores e produtores. O filme é mal feito, a história não se considera, os atores péssimos (incluindo Ankito), os números musicais calamitosos, sobretudo o de Emilinha Borba.

Publicado originalmente em “Diário de Pernambuco” em 31 de julho de 1955



Propaganda de "O Rei do Movimento" em seu lançamento comercial

O Rei do Movimento tem no elenco Costinha, Heloísa Helena, Billy Davis, Margot Morell e Carlos Tovar, que se tornaria, depois deste filme, um grande amigo de Ankito. Angela Maria lançou, nesse filme, a música Escuta de Ivon Cury. O ator passa por coisas inesquecíveis, como quando Ankito se esconde embaixo de uma mesa, onde algumas pessoas estão sentadas. Um homem de pernas cruzadas, sacode o pé, quando Ankito se aproxima, sente um chulé, que entranhou em suas narinas e fez com que ele fizesse o gesto instintivo de torcer o nariz e passar o dedo. Esta cena está registrada no filme e o chulé na memória !”. Retirado de Ankito: Minha Vida...Meus Humores de Denise Casais Lima Pinto.

 

 Bonga, o Vagabundo” (Brasil, 1971)


Direção: Victor Lima

Companhia produtora: Produções Cinematográficas Herbert Richers S.A.

Produção: Herbert Richers

Argumento: Victor Lima e Renato Aragão

Roteiro: Victor Lima

Direção de fotografia: Antônio Gonçalves

Montagem: Victor Lima

Elenco: Renato Aragão, Maria Cláudia, Neila Tavares, Jorge Doria, Ronaldo Canto e Mello, Angelo Antonio, Leda Vale, Lúcia Palermo, Amandio, Orlando Drummond, Nilton Braga e Monica Dias.

Crítica:

Cotação: **


Letreiro de "Bonga, o Vagabundo" de Victor Lima

O ator Renato Aragão sempre teve uma admiração confessa por dois grandes cômicos: o brasileiro Oscarito e o inglês Charles Chaplin. Este último em especial é a principal referência quando o ator cearense faz seu personagem Bonga. Este é o quinto longa-metragem da carreira de Aragão que tinha 36 anos quando essa produção foi lançada. O argumento é dele próprio sobre Bonga, um vagabundo que mora perto do Rio de Janeiro. O rapaz vive de pequenos golpes para conseguir comer e um dia acaba conhecendo Ricardo (Ronaldo Canto e Mello), jovem rico na entrada de uma boate. Mas o rapaz grã-fino acaba gostando da humildade e do jeito de Bonga. Os dois criam uma amizade. Logo nesse primeiro encontro na boate acontece um conflito entre eles e um grupo de rock comandado por um personagem vivido por Angelo Antonio. É também ali que conhecemos a personagem Maria Clara (Neila Tavares), uma moça apaixonada por Ricardo mas desprezada pelo próprio.

Tempos depois, Bonga acaba conhecendo a jovem Sônia (Maria Cláudia) que segundo a própria está “curtindo uma fossa”. Os dois passam a aplicar pequenos golpes e colecionar aventuras. O caldo começa a engrossar quando o pai de Ricardo vivido por Jorge Doria começa a cobrar que o filho comece a trabalhar e consiga uma noiva. Ricardo irá iludir a jovem Maria Clara para isso. Mas ela irá tomar um porre homérico sendo substituída por acaso por Sônia que começa a gostar do grã-fino.


Renato Aragão em "Bonga"

O humor de Bonga, o Vagabundo é bastante pueril e mesmo infantil. Victor Lima é um diretor especializado no cinema artesanal. O filme começa muito bem e com poucas falas parecendo mesmo comédias antigas de Charles Chaplin como Carlitos. Mas a coisa só vai bem até o meio. Depois parece que perde o tempo e vira uma comédia romântica meio perdida. Mas tem seus momentos. Parece que Renato Aragão sempre conseguia render melhor quando estava com seus colegas de Trapalhões (Dedé Santana, Mussum e Zacarias). Aragão voltaria a fazer o personagem Bonga em Os Vagabundos Trapalhões (1982) de J.B. Tanko. Mas aí já estaria ao lado dos seus companheiros habituais de trapalhadas e o resultado final seria bem melhor.

 

Comentário sobre a participação de Orlando Drummond:

Orlando Drummond entre os últimos nomes dos letreiros de "Bonga, o Vagabundo"

O ator e dublador Orlando Drummond faz uma pequena participação como um garçom da falsa festa de casamento entre Ricardo (Ronaldo Canto e Mello) e Maria Clara (Neila Tavares). Ele aparece em duas cenas. Juntando tudo dá em torno de dois minutos e o personagem não tem nenhuma fala. Drummond aparece vestido de garçom meio embriagado tentando comer uns salgadinhos escondido. Mas Bonga (Renato Aragão) e Sônia (Maria Cláudia) acabam roubando quase todos os salgadinhos que Orlando Drummond ia comer.

Orlando Drummond em cena de "Bonga, o Vagabundo"

O escritor e jornalista Vitor Gagliardo escreveu a biografia de Orlando Drummond. Ele detalha a relação entre o ator e Renato Aragão. Eles tinham uma relação de respeito profissional. Bonga, talvez, seja o filme mais conceitual do Renato Aragão. Tem uma cena icônica do Drummond com o eterno Didi nos Trapalhões. Orlando foi convidado para fazer uma participação como o Popeye. Didi era o esperto interessado na Olivia. O mais interessante foi analisar a forma como Drummond dublava o marinheiro. Por causa do cachimbo, a sua boca está quase sempre fechada. Foi muito legal, pois a dublagem em si não tinha tanto espaço nos programas de televisão e não tinha redes sociais.

  

Repositório (críticas e matérias sobre o filme em seu lançamento e algo em livros):

 

BONGA, O VAGABUNDO”

Produção brasileira em cores. Direção de Vitor Lima com Renato Aragão, Maria Cláudia. Argumento de Renato Aragão; roteiro de Vitor Lima. No Palácio, São Luís, Miramar, América e outros cinemas.

Mais um filme de Renato Aragão, comediante que tem sua base na televisão. Vitor Lima é um diretor experimentadíssimo no gênero.

Publicado originalmente no Jornal do Brasil em 21 de março de 1971


OS PRÓXIMOS FILMES

O sucesso de bilheteria da semana na certa deve ser As Escandalosas, o filme que Miguel Borges fêz e depois renegou, para depois voltar atrás e dizer que, afinal, o filho não é tão feio assim....

Para quem gosta de bangue-bangue a pedida será Por Um Dólar Machado de Sangue, garantido pela presença de Broderick Crawford, excelente ator.

Mas, afinal, qual o melhor filme da semana, de acordo com as exigências da crítica? Não deve ser, naturalmente, A Luta Pela Terra, de Nathan Juran, diretor que já fez de tudo e até agora não fez nada que prestasse. Tampouco Bonga, o Vagabundo, chanchada do velho amigo Vitor Lima, com aqueles velhos ingredientes do gênero, inclusive o comediante Renato Aragão. O jeito, mesmo arriscando, é ficar com Valérie, realização francesa de Denis Héroux narrando uma história de sexo e erotismo, o que, aliás, as nossas Escandalosas tem para dar e vender.

Aí está tudo, em resumo. Escolham seu programa e divirtam-se.

Publicado originalmente na Luta Democrática em 21 de março de 1971


BONGA, O VAGABUNDO’

(Nacional)

Bonga é um vagabundo autêntico, de alma boa, honesto que resolveu seguir a vida que leva por um desgosto amoroso. Sua casa, se é que podemos chamar aquele brigo feito por dois ou três pedaços de bambu e sapé, fica num lugar aprazível, à beira de uma linda cachoeira. Um dia ele encontra a jovem Sônia – que também está numa fossa daquelas. Leva-a para casa, procura tornar-lhe a vida mais alegre, e aos poucos, se vai enamorando dela, embora Sônia nada saiba. E assim, a vida continua para Bonga – que vive de filosofia ou boêmia, até o dia em que Sônia encontra o seu grande amor, Ricardo. Daí em diante, a tristeza foi sua grande companhia. Produção da Cinematográfica Hérbert Richers S.A. com Renato Aragão no papel de ‘Bonga’, e Maria Cláudia como ‘Sônia’, dirigidos por Victor Lima. O galã Antonio Cristiano é o diretor de produção. O filme ‘Bonga, o Vagabundo’, considerado de ‘Bilheteria-Certa’, está programado, amanhã, nos cinemas Palácio, São Luís, Miramar, América Central e Petrópolis.

Publicado originalmente em O Jornal em 21 de março de 1971

 

BONGA, O VAGABUNDO – As peripécias do divertido vagabundo “Bonga”, uma figura sobejamente conhecida na Guanabara. Com Renato Aragão (“O Carlitos carioca”), Maria Cláudia, Ronaldo Canto e Mello, Neila Tavares, Jorge Doria, Leda Vale e Angelo Antonio (da turma da pesada). Direção de Vitor Lima, em cores. Hoje, no Art Palácio (sala São Paulo), Scala e circuito.

Publicado originalmente no Diário da Noite em 7 de junho de 1971

 

BONGA, O VAGABUNDO – Nacional – (Rio de Janeiro, GB), 22 de março de 1971, 105 minutos. Produção, distribuição: Herbert Richers. Direção, roteiro, montagem: Victor Lima. Argumento: Renato Aragão. Fotografia: Antonio Gonçalves. A cores. Elenco: Renato Aragão, Maria Cláudia, Ronaldo Canto e Mello, Neila Tavares, Jorge Doria, Angelo Antonio, Leda Vale. Desde ontem, nos cines Art Palácio (Sala São Paulo) Scala e circuito.

Comédia (sentimental?) produzida por Richers e adaptada, e dirigida por Victor Lima segundo uma história (chapliniana?) que o próprio (e será que não horrível?) Renato Aragão imaginou para veicular seu próprio “estrelismo”. Aqui ele é uma alma boa que, por um desgosto qualquer, tornou-se um vagabundo e que mesmo assim e – platonicamente – ainda encontra jeito de abrigar em seu casebre à beira de uma linda cachoeira, uma linda moça que “está numa fossa daquelas”. Aragão também é amigo de um “playboy” e, ao procurar salvar o estroina de uma enrascada, acaba perdendo a moça, que já amava, para o rico e bem apessoado rapaz. No elenco secundário, dois bons atores como Angelo Antonio e Jorge Doria. RUBEM BIÁFORA

Publicado originalmente no O Estado de S. Paulo em 8 de junho de 1971



Circuito comercial de "Bonga, o Vagabundo" no Rio de Janeiro

Tonga? Conga? Não, Bonga

Rubens Ewald Filho

É a primeira exceção à nossa regra de não criticar filmes nacionais sem importância. Mas se “Bonga, o Vagabundo” (no Iporanga) não é muito diferente dos outros filmes de Vitor Lima (chanchadas de Zé Trindade, Ankito, Grande Othelo) tem uma grande qualidade: a falta de pretensões.

É apenas uma comédia infantil repetindo esquemas emprestados de Chaplin. Seu maior erro é usar um ator duro, pobre de recursos, como Renato Aragão. Apesar de sua boa vontade, ele simplesmente não é engraçado. E perde muito quando os anúncios o chamam de “Chaplin brasileiro”. (E eu falando em falta de pretensões!).

O título é muito infeliz. Bonga parece nome de bichinho-desenho de Walt Disney ou dança latino-americana ou palavra nagô. Não de um vagabundo feliz que um dia encontra uma moça misteriosa (Maria Cláudia), apaixonando-se por ela e perdendo-a para seu amigo rico.

Se a história é previsível, o filme pelo menos é limpo, sem escorregões, sem apelos óbvios. É realmente um filme para crianças, que deveria ser lançado em tempo de férias. A mocinha Maria Cláudia, que veio da TV não deixa qualquer impressão especial. Fotografa mal em “close”, mas o papel tampouco lhe dá maiores chances.

Como “vilã” aparece Neila Tavares, que está também em “Um Uísque Antes, Um Cigarro Depois”. Seu papel poderia ser bom, uma alcoólatra que gosta do herói do filme. Mas sua cena-chave, isto é, ela bebendo, nunca chega a aparecer. Prejudicada pelo penteado mal escolhido, Neila pelo menos demonstra sua versatilidade. Seu melhor momento: a briga na buate. Para bom entendedor sua basta: a confiança no seu talento foi a única razão que nos fez ver o filme.

E se “Bonga” é um tipo de cinema de vinte anos atrás, é também razoavelmente bem-feito, fácil de ver. De quantos filmes recentes pode-se falar o mesmo?

Publicado originalmente na “Tribuna” de Santos em 24 de junho de 1971



O Doce Esporte do Sexo” (Brasil, 1972)


Direção: Zelito Viana

Companhia produtora: Produções Cinematográficas Mapa Ltda.

Produção: Chico Anysio e Zelito Viana

Roteiro: Armando Costa, Arnaud Rodrigues, Oduvaldo Vianna Filho e Zelito Viana

Direção de fotografia: Antonio Ventura

Montagem: Eduardo Escorel

Elenco: Chico Anísio, Irene Stefânia, Wilson Grey, Olívia Pineschi, Rodolfo Arena, Orlando Drummond, Ana Maria Magalhães, Rafael de Carvalho, Mário Shigueo, Jorge Doria, Manfredo Colasanti, Isabel Ribeiro e Carlos Imperial

 

Crítica:

Cotação: **

Parece que a ideia original do diretor Zelito Viana era armar um filme popular para ter grande bilheteria. Para isso, chamou seu irmão mais velho: Chico Anysio, o comediante mais bem sucedido do Brasil naquele início da década de 1970. Comédia de cinco episódios, O Doce Esporte do Sexo já demonstrava temas que seriam trabalhados na chamada pornochanchada embora o filme seja bastante leve e até mesmo ingênuo. Talvez essa divisão em episódios venha do cinema italiano cujas comédias faziam grande sucesso aqui nesse período. Todos os segmentos de O Doce Esporte do Sexo são protagonizados por diferentes personagens feitos por Chico Anysio.


Circuito de "O Doce Esporte do Sexo" no Rio de Janeiro

O primeiro episódio, O Apartamento trata de um casal: Virgílio (Chico Anysio) e Irene (Irene Stefânia) que quer consumar seu fato mas nunca consegue. Um porteiro impertinente (o recordista Wilson Grey) acaba os incomodando. O resultado final é um tanto tacanho.

O segundo (Boca) conta sobre Tuneca (Chico Anysio), um empregado de uma fábrica de tecelagem apaixonado por prostitutas da Praça Mauá. Sua paixão no momento é a “irresistível” Vanda (Olívia Pineschi, atriz que foi casada com o diretor Élio Vieira de Araújo). Tipo meio palerma, Tuneca vive tomando Dreher nos botequins da Lapa, ouvindo canções de Nelson Gonçalves e faltando no emprego para viver sua paixão por Vanda. Mesmo aconselhado por um amigo (Rodolfo Arena numa participação especial) para esquecer a vedete. Talvez o lado bom de Tuneca seja que ele é o personagem mais bem trabalhado por Chico Anysio neste longa-metragem. Mas não que isso represente algo de notável.

Chico Anysio em cena de "O Doce Esporte do Sexo"

Já em O Filminho um alto-executivo organiza uma festinha em que irá passar uma produção estrangeira de sexo para amigos. Vale pela presença de atores como Jorge Doria e do também cantor Ângelo Antônio, que chegou a gravar dois LPs no período. A desaparecida musa Meiry Vieira aparece meio perdida também rapidamente.

O Torneio parece uma daquelas piadas antigas do Costinha. Esse episódio tem um ar diferente dos anteriores um episódio de temática rural. As cidades vizinhas de Banabuiú e Pindaré Mirim disputam todo ano um torneio de virilidade que foi sete vezes vencido por Lourenção (Chico Anysio). Tem até um juiz neutro (Nelson Dantas) para apitar a peleja. Mas dessa vez ele será desafiado por um japonês (Mário Shigueo) que parece ser profissional. Otávio Augusto faz o técnico de Lourenção que tem como namorada a bela Ana Maria Magalhães que fez muitos filmes dos diretores do Cinema Novo. A veteraníssima Estelita Bell faz a primeira dama de Pindaré Mirim.

O Doce Esporte do Sexo se fecha com o episódio A Suspeita. O coronel Manuel Moreira (mais uma vez Chico Anysio) é um homem bastante conservador e reacionário. Mas sua esposa dona Sinhá (Isabel Ribeiro) acaba suspeitando que ele possui uma amante. Ela se surpreenderá quando achar a verdadeira face do marido. Pode-se ver as boas intenções do diretor, do elenco estrelar e do excelente mestre do humor que é Chico Anysio. Mas ele merecia um filme melhor. Sem grandes recursos, O Doce Esporte do Sexo é um filme razoável e de entretenimento dispensável. Mas é interessante por ser talvez o único longa-metragem em que Chico Anysio protagonizou diversos personagens. Ele fez muito pouco cinema durante toda sua longa carreira.

 

Comentário sobre a participação de Orlando Drummond:

Orlando Drummond nos letreiros do episódio "Boca" de "O Doce Esporte do Sexo"

Esse talvez seja o maior papel de Orlando Drummond no cinema. Ele faz o português dono de um bar que serve e contracena com o personagem Tuneca (Chico Anysio) no segundo episódio de O Doce Esporte do Sexo chamado Boca. É uma cena até que divertida apesar de bastante rápida durando um minuto e trinta segundos. Mais uma vez o papel de Drummond poderia ser aumentado. Ele mesmo deve ter se dublado nessa produção.  

O jornalista e escritor Vitor Gagliardo detalha a relação entre esses dois ícones do humorismo brasileiro. Ele afirma que Orlando Drummond e Chico Anysio se conheceram nos anos 1940 quando o primeiro atuava na rádio Tupi e o segundo na Mayrink Veiga duas emissoras concorrentes. Embora de emissoras adversárias, eles se encontravam nos bares da vida. Nos anos 50, Drummond se tornou diretor artístico e foi chefe do Chico Anysio. Mas a amizade entre eles só cresceu. Já nos anos 80, Chico abriu a portas da Globo para Orlando. Sem dúvida, uma amizade sincera. Provavelmente a participação no filme tenha sido um convite do Chico.

 

Repositório (críticas e matérias sobre o filme em seu lançamento e algo em livros):

 

CHICO ANÍSIO NO CINEMA- Chico Anísio vive cinco personagens diferentes, sempre envolvidos por cinco lindas mulheres em O Doce Esporte do Sexo, produzido e dirigido por Zelito Viana. Este é o primeiro filme de Chico Anísio. É uma comédia, com uma pinta de erotismo a exemplo das italianas. Em cores, O Doce Esporte do Sexo tem também no elenco Irene Stefânia, Ana Maria Magalhães, Isabel Ribeiro, Mary Vieira e Olívia Pineschi.

Publicado originalmente no “O Jornal do Brasil” em 28 de dezembro de 1971

 

Zelito Viana

Um dos nomes mais importantes na indústria cinematográfica no Brasil – produziu os principais filmes de Glauber Rocha – está lançando agora o seu filme O Doce Esporte do Sexo, que marca a estreia de Chico Anísio, seu irmão, como ator de cinema.

-  Doce Esporte do Sexo foi construído em torno da figura do Chico. Ele cria cinco novos e engraçadíssimos personagens, em cinco situações amorosas e maliciosas: Virgílio, um amante desgraçado; Tuneca, um boêmio emocionalmente fixado em mulheres da Praça Mauá; Dr. Fausto Fiúza, um capitão de indústria aficionado em porn-film; Lourenção, um campeão de um torneio de virilidade e o latifundiário Coronel Moreira, a maior surpresa do filme.

Óculos claros quadrados, cabelos pretos, Zelito explica que o filme se destina ao público adulto, oferecendo “algo novo a esse milhão de pessoas que aplaudiram Chico nos seus espetáculos do Rio e São Paulo”. No elenco, ainda estão Irene Stefânia, Isabel Ribeiro, Ana Maria Magalhães e Olívia Pineschi.

Publicado originalmente no “Jornal do Brasil” em 28 de janeiro de 1972

 

Chamada do episódio "A Boca" do filme "O Doce Esporte do Sexo"

Plá 71 do Imperial acontecerá hoje

(...)

Sábado próximo, dia 5, no cine Bruni-70, será feito o lançamento oficial do filme O Doce Esporte do Sexo, que traz o genial humorista Chico Anísio no papel principal contracenando com um time de mulheres que não é brincadeira: Irene Stefânia, Isabel Ribeiro, Ana Maria Magalhães e outras. Antes, ele faz as duas sessões normais do Teatro da Lagoa, onde vem estourando as bilheteria com Uma Noite com Chico Anísio.

(...)

Publicado originalmente no “Correio da Manhã” em 1 de fevereiro de 1972

 

Chico vai filmar as proezas de Linguinha

Chico Anísio está tão confiante na estreia de O Doce Esporte do Sexo, sua estreia no cinema, que estará em cartaz a partir de sábado no Super-Bruni 70, que decidiu realizar outro filme ainda este ano. Está pensando em levar para o cinema as aventuras de Linguinha, seu atual sucesso na televisão, destinado ao público infantil.

COMICIDADE MOCIOSA

Para filmar as aventuras de Linguinha, Chico Anísio já está em entendimentos com Zelito Viana, produtor e diretor de O Doce Esporte do Sexo e também um dos argumentistas do filme, que teve seus cinco episódios escritos por uma equipe integrada por Zelito e Chico Anísio além de Armando Costa, Oduvaldo Vianna Filho, Joaquim Assis e Arnaud Rodrigues.

O Doce Esporte do Sexo foi elaborado em torno da figura de Chico, que vive 5 episódios de malícia e de amor interpretando cinco diferentes e novos personagens. Do filme, participam as atrizes Irene Stefânia, Isabel Ribeiro, Ana Maria Magalhães e Olívia Pineschi.

Segundo Chico Anísio, as histórias dos cinco episódios foram submetidas a um rigoroso e trabalhoso processo de filtragem, para se obter o melhor rendimento cinematográfico de sua comicidade. A equipe de argumentistas escreveu vinte argumentos, dos quais foram selecionados dez para o primeiro tratamento de roteiro. Do roteiro de produção, constavam sete dos quais foram filmados.

Publicado originalmente no Correio da Manhã em 3 de fevereiro de 1972

 

Cinema neste fim de semana

O DOCE ESPORTE DE CHICO ANÍSIO

O Doce Esporte do Sexo, Zelito Viana, amanhã, no Super-Bruni 70

Apesar de ter um irmão muito ligado ao cinema, Chico Anísio não tinha até agora protagonizado filme algum, limitando suas atividades cinematográficas a breves aparições como ator e eventuais colaborações como escritor.

Reunindo-se finalmente a seu irmão, Zelito Viana, ele acaba de aderir ao cinema, justamente quando maior é seu empenho na televisão e no teatro. Zelito que, como sócio da produtora Mapa, já havia colaborado no roteiro de O Homem Que Comprou o Mundo, de Eduardo Coutinho, passando à direção (dividida com Armando Costa) em Minha Namorada, há muito desejava trabalhar com Chico.

O resultado é O Doce Esporte do Sexo, com cinco histórias e cinco personagens para Chico Anísio.

A grande filmagem

Afirma Zelito Viana que não quis fazer um filme inteiramente dependente de Chico Anísio: - Perguntei-me sempre se eu filmaria qualquer uma das cinco histórias sem a presença dele.

A equipe de argumentistas de O Doce Esporte do Sexo chegou a escrever 20 histórias, das quais foram selecionadas 10 para o roteiro; destas, sete foram filmadas e apenas cinco montadas na versão final.

- Essa grande filtragem me permitiu depurar a obra no estilo que escolhi desde o início – explica o diretor. – Tomei como ponto de partida o lastro de expressividade e leveza da melhor comédia urbana, com abertura para o erotismo. No Brasil, já se fez muita coisa nesse gênero, e o cinema italiano oferece excelentes exemplos desse modelo cinematográfico.

Ao lado dos irmãos, trabalharam nas histórias alguns profissionais de prestígio em cinema, teatro e televisão: Joaquim Assis, Armando Costa, Arnaud Rodrigues e Oduvaldo Viana Filho. A fotografia em cores é de José Antônio Ventura. A montagem, de Eduardo Escorel.

Nos cinco episódios, Chico Anísio contracena com Irene Stefânia, Wilson Grey (O Apartamento), Olívia Pineschi, Rodolfo Arena (A Boca), Ana Maria Magalhães, Nildo Parente, Rafael de Carvalho, Nelson Dantas (O Torneio), Jorge Doria, Manfredo Colassanti (O Filminho), Isabel Ribeiro, Renato Coutinho e Carlos Imperial (A Suspeita).

O máximo de rendimento

- É uma comédia para o público adulto, as centenas de milhares de pessoas que tem ido aos meus shows nos teatros do Rio e São Paulo, aceitando minha comicidade maliciosa sem que vissem nela qualquer coisa de obsceno ou chocante – diz o comediante.

Chico Anísio está certo de que o público receberá muito bem, no cinema, a visualização da comicidade picante que, no palco, tem feito com o auxílio de narração e descrição: - De acordo com Zelito, adotei uma tática em minhas relações com o cinema. Não me preocupei demais com as diferenças entre a técnica cinematográfica e a do teatro ou a da televisão. Eu e Zelito fizemos aquilo que nos parecia melhor em cada caso, sem teorização ou normas fixas. O mais importante é conservar a naturalidade e a espontaneidade, e por isso mesmo acho que a primeira tomada de cada cena é sempre a melhor.

FILMOGRAFIA DE CHICO

Ao contrário do que muita gente pensa – e do que a própria publicidade de O Doce Esporte do Sexo está apregoando – Chico Anísio não está fazendo agora a sua estreia cinematográfica.

É verdade que, pela primeira vez, ele é protagonista de filme, mas apareceu como ator em várias chanchadas: O Palhaço, o Que É? (1959), Cacareco Vem Aí (1960), Entrei de Gaiato (1960), Pequeno por Fora (1961) e Eu Sou o Tal (1961).

Além disso, colaborou como argumentista e/ou roteirista, colaborou em Baronesa Transviada (1957), Hoje o Galo Sou Eu (1958), Alegria de Viver (1958), O Camelô da Rua Larga (1958), Minha Sogra É da Polícia (1958), Pé na Tábua (1959), Garota Enxuta (1959), Mulheres á Vista (1959), Cacareco Vem Aí (1960), Entrei de Gaiato (1960), Pequeno por Fora (1960), Só Naquela Base (1960).

Publicado originalmente no “Jornal do Brasil” em 4 de fevereiro de 1972

 

Cinema

O DOCE ESPORTE DO SEXO

Ely Azeredo

Teoriza Chico Anísio: “Com o banheiro perto, de chinelos, cigarrinho acesso e outras comodidades, o público de televisão está preparado para pedir muito menos. Para tirá-lo desse conforto e leva-lo ao teatro ou ao cinema, é preciso dar-lhe a certeza de que vai encontrar alguma coisa que ele não tem a menor esperança de ver na televisão. O fenômeno é o mesmo em todo o mundo. E foi pensando nele que fizemos O Doce Esporte do Sexo”. Realmente, ninguém espera encontrar na TV a história de um torneio de resistência sexual ou a um sex-party programado com um filmezinho pornográfico. Mas uma ideia na cabeça e uma cama à mão não bastam para fazer cinema. A diferença entre Chico Anísio em vídeo-tape e este em película cinematográfica se limita ao assunto que permanece tabu na TV. O Doce Esporte se serve do (e desserve o) comediante, vinculando-o a uma grossura cuja ausência era, até então, uma das características de sua imagem espetacular.

Como era fácil prever, o ator-co-autor passa por cinco metamorfoses nos cinco episódios do Esporte. Além do coronelão interiorano (que não é novidade em sua carreira), ele se apresenta como amante tímido e sujeito a crises de impotência; grande capitalista apreciador de fitinhas pornográficas; campeão de torneios sexuais; operário vidrado numa prostituta e empenhado em regenera-la. Se o coronel e o capitalista são vinhetas de fácil desempenho, porque o essencial dos episódios que protagonizam está na invenção de enredo, os outros três personagens exigem esforço especial de composição. O produtor-diretor Zelito Viana recebeu esse esforço sem proporcionar ao intérprete o apoio cinematográfico que permitisse o pleno desenvolvimento dos personagens – ainda que dentro das naturais limitações do filme de episódios. O único episódio bem sucedido é o primeiro, que se apoia na sintonia das qualidades de Chico e Irene Stefânia. Mesmo aí, onde a importância da interferência diretorial é mínima, o controle do tempo do diretor está longe de favorecer o dueto C.A.& I.S.

A fotografia (em cores) é muito deficiente. A música é improvisada; de discoteca.

O APARTAMENTO- Depois de burlar a vigilância (imaginária) do porteiro (Wilson Grey), o inseguro Virgílio (Chico) enfrenta uma crise de impotência na intimidade da afoita Irene (Estefânia). Até atingir a meta do encontro, Virgílio provoca uma inundação, um princípio de incêndio, a quase total destruição da garçonière. A desenvoltura bem humorada de Irene Estefânia contribuí muito para o que o episódio tem de espontaneidade. E há uma boa contribuição de Wilson Grey.

A BÔCA- Tuneca (C.A.), empregado numa fábrica de roupas, tem fixação pelas mulheres que fazem a vida na Praça Mauá. Persegue Vanda (Olívia Pineschi) com a obsessão de vê-la, algum dia, suando numa máquina de costura. Entre as frustrações salvacionistas de Tuneca e sua vocação para metragem maior, o episódio se perde, insatisfatório, como que inconcluso.

O FILMINHO- O doutor Fausto (C.A.), respeitável capitalista, organiza uma sex-party e, para a ocasião, compra uma fitinha pornográfica made in Italy. O fornecedor (Manfredo Colassanti) entrega-lhe, por engano, um filmezinho amador sobre as férias de uma família. Enquanto esta, igualmente vítima da confusão, toma um choque com o espetáculo, os convidados do Dr. Fausto encontram as intenções mais extravagantes em imagens de brincadeiras domésticas. Apenas uma anedota e, como tal, poderia ser mais sucinta e consequente.

O TORNEIO- Uma ideia que poderia ter sido desenvolvida com menos grossura: depois de sete anos de vitórias, o campeão de virilidade de uma cidadezinha do interior, Lourenção (C.A.), luta para vencer pela oitava vez o torneio a fim de que a taça fique em definitivo com seus contemporâneos, mas a cidade rival o desafia com um japonês que pratica ioga e conhece todos os segredos do vigor físico. Uma ideia extravagante – e um pouco mais.

A SUSPEITA- Ligeiríssimo sketch que não faria falta ao conjunto de Esporte. Protagonistas: um coronel supermachão (C.A.) tirânico e aparentemente perfeito pai de família e a esposa superdoméstica (Isabel Ribeiro), que, a essa altura, se julga traída. A vida secreta do coronel é mais surpreendente do que se espera, mas a surpresa não chega a justificar o episódio.

CINEMAS: Super-Bruni-70 e Roma-Bruni. Horário: 14h, 16h, 18h, 20h, 22h. Censura: 18 anos.

Publicado originalmente no “Jornal do Brasil” em 8 de fevereiro de 1972

 

O DOCE ESPORTE DO SEXO – Nacional – (Rio de Janeiro, GB), 5 de fevereiro de 1972. Produção: Mapa. Distribuição: Lívio Bruni. Produtor, diretor: Zelito Viana. Fotografia: José Antonio Ventura. Cenografia: Zelito Viana, Joaquim Assis. Montagem: Eduardo Escorel. Em Eastmancolor. O Apartamento- Entrecho: Zelito Viana, Armando Costa. Elenco: Chico Anísio, Irene Stefânia, Wilson Grey, Antonio Carlos Mello. A Boca- Entrecho: Arnaud Rodrigues, Chico Anísio. Elenco: Chico Anísio, Olívia Pisnechi, Rodolfo Arena, João Elias, Aida Santos, Ivan de Souza, Orlando Drummond, Arnaud Rodrigues, Wandik Vandré, Maximiliano Chaves, Sérgio Vapor, Sergi Amorim, Aloisio Taylor, Linda Brahim, Chiquinho. O Torneio- Entrecho: Oduvaldo Viana Filho. Elenco: Chico Anísio, Ana Maria Magalhães, Nildo Parente, Estelita Bell, Rafael de Carvalho, Otávio Augusto, Nelson Dantas, Ely, Afonso, Mário Shiquo, Pedro, Raul. O Filminho- Entrecho: Zelito Viana. Elenco: Chico Anísio, Jorge Doria, Manfredo Colassanti, Meiry Vieira, Angelo Antonio, Leni Garcia, Edna, Olinda, Eliana Abranches, Vilma Pinto, Black Power, Sérgio Cabral, Leila Ferreida. A Suspeita- Entrecho: Chico Anísio, Zelito Viana. Elenco: Chico Anísio, Isabel Ribeiro, Laura Cherques, Renato Coutinho, Carlos Imperial, Luís Guilherme, Ingrid. Desde segunda-feira última, nos Cines Coral, Bruni, Pigalle, Rio e circuito.

Fita em episódios produzida e dirigida por Zelito Viana a fim de aproveitar a popularidade (em TV, teatros e “shows”) de seu irmão Chico Anísio. Sete histórias filmadas. Montagem e decisões finais eliminaram duas. Assim, pela ordem, temos o caso do casalzinho que não consegue “local” para seu encontro; do empregado de uma fábrica de roupas com mania de recuperar as mulheres das “bocas” da cidade; o machão oficial de uma cidade do interior que se vê compelido a um torneio de virilidade com o pequeno e incrível japonês; o filminho pornográfico destinado a um capitão de indústria que é trocado no laboratório por outro encomendado por uma família  que havia fixado as suas inocentes férias, bem como o último, o da zelosa senhora que ao mandar seguir o marido, temendo uma rival, descobre que o viril coronel tem encontros com nada menos que...Carlos Imperial. Aliás, Imperial bem como Irene Stefânia, Isabel Ribeiro, Jorge Doria, Manfredo Colassanti, Angelo Antonio e Renato Coutinho deverão ser as figuras essencialmente cinemáticas do elenco. RUBEM BIÁFORA.

Publicado originalmente no O Estado de S. Paulo em 21 de maio de 1972.

 

CHICO EM FOTOGRAMAS

Rubens Ewald Filho

Depois de muitas ameaças, Chico Anísio chega finalmente ao cinema. Ele já tinha feito várias pontas (e participado de vários roteiros) na época da chanchada, antes de virar famoso na tevê. Mas, como astro, seu nome foi indicado várias vezes. Ia ser “O Alienista”, ia fazer “O Homem Que Comprou o Mundo”, mas acabou estrelando mesmo “O Doce Esporte do Sexo” (no Indaiá).

Sua relação com o cinema é também familiar. Chico é irmão de Zelito Viana, produtor de “Terra em Transe” e outros filmes da Mapa e que, em 1970, estreou na direção com “Minha Namorada” (ainda inédito em Santos). Por fim, seu irmão acabou convencendo-o a fazer esta comédia em cinco episódios.

Todos eles têm uma coisa em comum. São boas histórias estreladas por um bom humorista (Chico Anísio fazendo tipos diferentes). E sempre em todas, alguma coisa não funciona. É difícil entender o quê, mas o palpite mais provável é mesmo o da direção. A culpa provavelmente é de Zelito, que não soube dar ritmo interno às filmagens, conservando momentos mortos (suportáveis na tevê mas não no cinema) e deixando ficar piadas fracas.

A primeira história – “O Torneio” – é uma bem bolada sátira. Numa cidadezinha há, pela oitava vez consecutiva, uma peleja para ver quem é o homem mais viril da região. Chico já venceu sete vezes, mas antes de ganhar o título definitivo encontra o obstáculo intransponível de um japonês. O engraçado é que tudo repete o clima de um jogo de futebol: a torcida, o juiz, os palavrões, as caravanas, o massagista.

Em “A Boca”, Chico é um pobre infeliz apaixonado por uma prostituta (Olívia Pineschi). O episódio tem muito dos filmes de Alberto Sordi e funcionaria muito se não fosse tão longo e repetitivo.

“O Filminho” e “A Suspeita” são pouco mais do que anedotas muito rápidas e razoavelmente engraçadas. O nível melhora com “O Apartamento”, as dificuldades para Chico ter um encontro com Irene Stefânia. Talvez o episódio mais comunicativo.

Em tudo uma saudável liberdade de linguagem, todo mundo falando palavrões à vontade. E no filme só há uma verdadeira piada visual, a gozação com o filme “Um Homem, Uma Mulher”, o melhor momento de todos.

Se não realiza tudo aquilo que prometia, a comédia, no entanto, é bem razoável. Nesta safra de agosto é das melhorzinhas.

Mas o “mais ou menos” já não satisfaz tanto, ao se ver muita gente boa envolvida com o roteiro (além de Chico e Zelito, Oduvaldo Vianna Filho, Armando Costa e Arnaud Rodrigues) e se saber que na verdade foram rodadas sete histórias, das quais só foram aprovadas cinco.

Mas muito mais rigoroso do que eu é o próprio Chico, que em entrevista à “Tribuna” classificou sua experiência no cinema como “lamentável, porque foi a única atividade em que não me dirigi. Tudo que faço sozinho, faço bem. Mas, no cinema, dependia de um diretor e apenas cumpria ordens. Para mim, “O Doce Esporte do Sexo” só teve uma parte boa, a do sexo”.

Publicado originalmente na “A Tribuna” de Santos em 10 de agosto de 1972

 

O ano era 1972 e dentro da proposta de fazer filmes para o mercado, decidi que era hora de ficar rico. Para isso, nada melhor que fazer um filme com Chico Anysio. E aproveitando a versatilidade dele, decidimos fazer um filme em episódios.

Era meu primeiro filme sozinho. Sofri o pão que o diabo amassou. A partir deste filme aprendi que cinema, apesar de fruto de uma viagem muito pessoal do diretor, é uma arte coletiva e a equipe tem participação decisiva no resultado do produto.

A outra constatação óbvia, mas ao mesmo tempo fundamental, é que o filme é o resultado de sutis momentos obtidos durante a filmagem. A soma desses momentos pode gerar uma obra-prima para alguns e ao mesmo tempo um abacaxi para outros.

O Doce Esporte do Sexo tem uma história engraçada. Como nós tínhamos dinheiro, filmamos usando negativo colorido e fizemos copião em preto. Então, nós montamos o filme inteiro e só descobrimos na pré-estreia que a Irene Stefânia começa a cena com uma calcinha preta e depois está com uma vermelha. Ela trocou de calcinha na cena e não notamos na moviola.

Lembro que na filmagem, em algum momento, ela me perguntou se a calcinha dela iria aparecer, eu disse que sim.

- Então eu vou comprar uma calcinha que essa não é boa de aparecer.

E ela foi comprar uma calcinha por conta própria. Eu não prestei muita atenção e o resultado é que a cena começa com a Irene de calcinha preta e corta para ela com a calcinha vermelha. No preto e branco, preto e vermelho são iguais.

Nós montamos o filme durante meses e nunca vimos nada de errado, só fomos ver na pré-estreia no cinema. Aliás, essa foi uma das maiores gargalhadas do filme. O público se divertiu com a pobreza do copião.

O Doce Esporte do Sexo foi outro filme que fez sucesso. Ele faturou três vezes o seu próprio custo, mas nós esperávamos muito mais. Dessa vez a gente achava que iria ficar milionário pro resto da vida. Fazer comédia é muito difícil, me desinteressei completamente pelo gênero”. Retirado de Zelito Viana: histórias e causos do cinema brasileiro de Betse de Paula

 

Filmografia completa de Orlando Drummond:

1954- “O Rei do Movimento” de Victor Lima

1955- “Angu de Caroço” de Eurides Ramos

1968- “Bonga, o Vagabundo” de Victor Lima

1971- “O Doce Esporte do Sexo” de Zelito Viana

2005- “O Sarcófago Macabro” de Ivan Cardoso

2005- “Um Lobisomem na Amazônia” de Ivan Cardoso

2020- “De Perto Ela Não é Normal” de Cininha de Paula

Victor Gagliardo relembra como se deu a participação de Orlando Drummond em De Perto Ela Não é Normal de Cininha de Paula. Eu liguei para a diretora Cininha de Paula para agendar uma entrevista para o livro. Eu queria entrevista-la sobre a Escolinha do Professor Raimundo e, claro, saber mais sobre o Seu Peru. Fizemos a entrevista e antes de desligar ela me disse que estava gravando o filme De perto ela não é normal e perguntou se o Drummond não topava participar. Ela gostaria de fazer uma homenagem. Falei com a família e eles toparam. Era uma participação pequena, uma homenagem mesmo. A ideia não era cansa-lo. Mas ele ficou tão à vontade que começou a improvisar texto. Foi uma grande homenagem e um dia feliz para o Drummond.

 

Bibliografia

 

Livros:


AUGUSTO, Sérgio. Este mundo é um pandeiro: a chanchada de Getúlio a JK. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.


CATANI, Afrânio Mendes; SOUZA, José Inácio Melo. A chanchada no cinema brasileiro. São Paulo: Brasiliense, 1983.


GAGLIARDO, Vitor. Orlando Drummond: versão brasileira. Rio de Janeiro: Gryphus, 2019.

 

PAULA, Betse. Zelito Viana: histórias e causos do cinema brasileiro. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2010.

 

PINTO, Denise Casais Lima. Ankito: Minha vida...Meus humores. Rio de Janeiro: Funarte, 2008.

 

PIPER, Rudolf. Filmusical brasileiro e chanchada. São Paulo: Loren, 1977.


Sites:

Cinemateca Brasileira (www.cinemateca.gov.br)

IMDB (www.imdb.com)

Memorial Chico Anysio (www.memorial-chico-anysio.com.br)

Trapalhões Nostalgia (www.trapalhoesenostalgia.com)


Agradecimentos:

Victor Gagliardo (pela intensa colaboração)