terça-feira, 10 de dezembro de 2019

Jornalistas políticos em PBY: Cláudio Humberto em 1991



Playboy entrevista Cláudio Humberto



Uma conversa franca com o porta-voz do presidente Collor sobre bater e levar, poder, imprensa e televisão, Leonel Brizola, Jô Soares, drogas e a sua capacidade de se indignar.



Só a lista telefônica de São Paulo, a maior do continente, gasta 59 de suas 2020 páginas com o sobrenome Silva. E Cláudio Humberto Rosa e Silva consegue ser “o pior dos Silva”, na avaliação do corrosivo colunista Tutty Vasques, da Revista de Domingo do Jornal do Brasil. É o que pensa certamente a maioria dos brasileiros, especialmente os Silva, quando vem surgir na televisão o marcante bigodinho circunflexo desse alagoano de Maceió. Depois do plim-plim da Globo, a voz do secretário da Imprensa do Palácio do Planalto é o sinal de maior audiência do país – e sinal de confusão. Com o carrancudo general Medeiros, no governo Figueiredo, Cláudio Humberto é a face dura do regime. Não demite, como o general, mas desmonta e desmoraliza com uma crueldade que só o civil Carlos Lacerda, no passado conseguia igualar. Sacando com rapidez de sua cartucheira de adjetivos. O porta-voz de Fernando Collor atira primeiro e só depois pergunta: “Está bom ou quer mais?”.



Ele chama jornalista de “moleque”, jurista de “analfabeto”, deputado de “mentiroso”, governador de “ladrão”, sindicalista de “malcheiroso”, empresário de “incompetente”. É o que seria, por exemplo, o Myke Tyson no cargo de porta-voz do presidente Bush: ao toque da campainha, Cláudio Humberto sai de seu canto e bate duro, bate forte para derrubar o adversário logo no primeiro round. Ás vezes, não espera nem o toque da campainha de Collor para bater. Na verdade, rebater, pois Cláudio Humberto só fecha a cara – e o punho - quando alguém bate no chefe. Na vida privada, esse psicólogo de 37 anos é um homem de vida pacata, que combina a paixão forte e a racionalidade permanente, típicas do ariano de 19 de abril, Dia do Índio e dia de nascimento de Getúlio Vargas. Recebe poucos amigos em seu apartamento funcional (da Radiobrás) na 311 Sul de Brasília, uma cidade que ele detestou, vinte anos atrás, e hoje adora: “Para ser o melhor lugar do mundo, só faltam as praias de Maceió”, lamenta. Na sala de jantar, cercado por quadros de Siron Franco, Mabe, Fukuda e um imenso óleo (O Tio Imprevisto) de seu ídolo no jornalismo, Mino Carta, o arauto da porrada colorida passa ali os únicos momentos em que leva sem bater – nos treinos de judô com Tiago, de 6 anos, filho de seu segundo casamento, com Taís, uma bela morena e ex-jogadora de vôlei da seleção alagoana que Cláudio Humberto sacou, com olho de águia, na redação do jornal de Maceió que ele chefiava e onde Taís, nove anos mais jovem, estreava. Com a primeira mulher, Crisales, vivem as duas filhas – Manuela, 13, e Humberta, 11 anos.



Quando não está apanhando do filho, Cláudio Humberto está passeando com ele e seus dois melhores amiguinhos, Guilherme e Artur, filhos de um vizinho que ele não conhece mas imagina ser um grande sujeito – o deputado Luiz Gushiken, do PT de São Paulo. Em casa, tragando um portentoso Hoyo de Monterrey cubano, que pode ser notado por vizinhos não tão próximos, Cláudio Humberto se delicia pilotando sua parafernália de som e imagem que inclui um telão onde só não vê novela. Ali, ele projeta seus filmes favoritos, De Volta para o Futuro, Indiana Jones (que Freud certamente explicaria) e, “nos momentos de recaída intelectual”, qualquer um de Akira Kurusawa. Até em japonês ele tem uma versão de Imagine, em vídeo-disc, que todos os discos dos Beatles. O porta-voz de “Indiana Collor” joga um tímido tênis eventual, uma ou duas vezes por semana, no horário do almoço substituído por uma escapada até a quadra do Planalto, mas é um roqueiro da pesada. Gosta de Léo Jaime, Titãs, Lobão, Joe Cocker, Bruce Springsteen, com uma concessão moderada a Frank Sinatra.



Recebe pouco e sai menos ainda. Numa dessas saídas, para um almoço dominical no Lake´s Baby Beef, restaurante que o porta-voz recomenda pela cozinha mas nunca pela conta, Cláudio Humberto recolheu os cheques de uma despesa de quatro casais e cinco crianças e pagou tudo com o seu American Express. A conta e a história acabaram saindo no jornal que ele menos aprecia – A Folha de S. Paulo – e o levaram a cancelar todos os seus cartões. Agora, só usa dinheiro: “Voltei a Idade Média”, diz. Com o Plano Collor, ele quase deixar de usar parte dos 15.000 dólares mensais que recebeu por um ano e meio de campanha para presidente acabou bloqueada, na forma de cruzados, com o plano do chefe que bateu e levou a economia de milhões de brasileiros. Vive com um salário de 500 mil cruzeiros (a mulher, repórter de um jornal local, o BSB, não ganha a metade como repórter do Caderno de Cidades) e algumas rendas do período alagoano.



O homem que bate na esquerda viu amigos presos, no regime militar, quando ainda era militante da esquerda independente. Um desses companheiros de juventude e ideologia, Renan Calheiros, se afastou quando, como líder do governo, rompeu com o presidente: “Eu me imaginava seu amigo. E ele disse que a amizade com o porta-voz era decorrente da convivência dele. E eu achava que isso não tinha nada a ver com amizade”, lembra, ainda magoado. O homem que bate na Igreja partidária foi, surpreendentemente, editor durante dois anos de O Semeador, o jornal da arquidiocese de Maceió que ele, para o espanto do bispo conservador, semeava com fotos e textos dedicados aos papas da Teologia da Libertação – dom Pedro Casaldáliga, dom Tomás Balduíno e dom Hélder Câmara. “Era mais contundente que O São Paulo, de Dom Evaristo Arns, orgulha-se até hoje.



Jornalista de oposição ao prefeito Collor, Cláudio Humberto é hoje o jornalista mais poderoso junto ao presidente Collor. Pelo menos um dos ministros foi escolhido com base num dossiê pedido a ele pelo presidente e encomendado – para o espanto da classe – a um jornalista. Cláudio Humberto é, sem dúvida, um dos secretários de imprensa mais fortes da história da República. Ele entra no gabinete do presidente, no terceiro andar do Planalto, sempre que necessário e sobre e desce umas 50 vezes ao dia as escadas que ligam Collor a sua sala, no segundo andar. Chega ao Palácio antes do Presidente, por volta das 8h, e vai embora depois, ás 9 ou 10 da noite. No dia em que o Presidente desce a rampa e sai mais cedo, a sexta-feira, Cláudio Humberto já contabilizou umas jornadas de 132 telefonemas, de jornalistas a ministros. Ao sair de casa, de manhã cedo, já leu o clipping da Radiobrás com a primeira página e o resumo das principais notícias e colunas dos mais importantes veículos da imprensa brasileira. “Já saio de casa irritado”, brinca.



O trabalho continua no fim de semana, graças ao espírito esportivo do chefe. A mídia das camisetas, uma das marcas do marketing agressivo de Collor, é uma responsabilidade direta do porta-voz, que precisa de muita criatividade e rapidez para nunca deixar o Presidente na incômoda condição de descamisado diante das câmeras de TV, que amanhecem todo santo domingo na porta da Casa da Dinda. Com a agilidade de uma produtora mágica da agência Propeg, chamada Fabrícia Laport, Cláudio Humberto bola a camiseta, fala ao telefone, recebe o esboço pelo fax do Palácio, aprova e vai dormir descansado. A equipe de Fabrícia trabalha de madrugada e, de manhã cedo, a indumentária é entregue na casa do Lago Norte, quando o Presidente ainda dorme. A resposta de Collor ao rompimento de Renan, por exemplo, veio através de uma camiseta (“O tempo é o senhor da razão”) confeccionado com a velocidade de um jet ski: “O Renan rompeu no sábado, decidimos fazer a camiseta ás 10 da noite e, ás 7 da manhã de domingo, ela foi entregue na Casa da Dinda. Um trabalho fantástico”, lembra Cláudio Humberto, que vestiu o Presidente com o “Roxo de Paixão pelo Brasil” para amenizar o impacto do viril desabafo do chefe no comício de Juazeiro do Norte.



Na segunda semana de abril, Cláudio Humberto abriu sua agenda, sua casa e sua vida a PLAYBOY para uma conversa de nove horas, em cinco sessões diferentes, com o editor-contribuinte Luiz Cláudio Cunha, para a seguinte conversa:



PLAYBOY- Para ser porta-voz de Collor, é preciso ter aquilo roxo?



CLÁUDIO HUMBERTO ROSA E SILVA- É preciso ter aquilo tão roxo quanto o do Presidente.  



PLAYBOY- Secretário, se eu bater, levo?



CLÁUDIO HUMBERTO- Experimente.



PLAYBOY- O senhor bate desde criancinha?



CLÁUDIO HUMBERTO- Brigão eu nunca fui, mas devo ter sido autoritário no relacionamento com os amigos e os colegas. Acho que era autoritário porque o meu apelido, durante boa parte de minha infância, era “Delegado”.



PLAYBOY- Não era “Porta-Voz”, não?



CLÁUDIO HUMBERTO- Suponho que este apelido não terá sido injusto. Eu era o dono da bola, o líder das brincadeiras e, com certeza, não levava desaforo para casa.



PLAYBOY- O que o senhor queria ser na vida?



CLÁUDIO HUMBERTO- Num primeiro momento eu me entusiasmava com aquelas reportagens da revista Manchete sobre a Academia Militar das Agulhas Negra. Eu queria ser militar. Isso coincidiu mais ou menos com o golpe de 1964. Tinha 10 anos de idade justamente nessa época em que sonhava com a farda. Era ainda muito criança, mas percebi que aquilo estava errado. Meu pai, que sempre teve senso crítico muito aguçado, era um homem de esquerda.



PLAYBOY- Era comunista?



CLÁUDIO HUMBERTO- Não, mas sempre foi simpatizante da esquerda. Sempre votou na oposição. E oposição em Alagoas, na época, era militar no PCB. Meu pai chegou a ser militante, sem ser comunista. Na província, você só tinha duas opções: integralismo ou comunismo. Meu pai sempre rejeitou o fascismo, com muita firmeza, e passou por comunista um tempo, sem ser militante.



PLAYBOY- E foi preso?



CLÁUDIO HUMBERTO- Não, mas foi perseguido e obrigado a sair de Alagoas. Em 1964, eu via meu pai, indignado com o golpe, com a quebra do processo constitucional. Lembro claramente da cassação de um nosso vizinho, o prefeito de Maceió, Sandoval Caju, um homem muito popular na cidade e virtual candidato a governador pelo PTB nas eleições de 1966. Seria um nome imbatível nas urnas. Eu e meu pai íamos com ele às inaugurações da prefeitura e me emocionava vê-lo saudado, na praça, por milhares de pessoas. A cassação do prefeito consternou a todo mundo. E comecei, aí, a vincular o regime militar a uma coisa negativa. E mudei, então, minha postura.



PLAYBOY- Mudou para o quê?



CLÁUDIO HUMBERTO- Passei a sonhar em ser médico, mas não por muito tempo. Aos 14, 15 anos, meus amigos eram todos universitários, de esquerda. Começava o processo de turbulência que culminou em 1968 com o AI-5. Foi quando comecei a conviver com medo que o regime provocava nas pessoas.



PLAYBOY- O medo apareceu como?



CLÁUDIO HUMBERTO- A cidade era muito pequena e, de repente, sabia-se que o filho do sicrano, de beltrano tinha desaparecido. No início dos anos 70, uma médica famosa em Maceió, Selma Bandeira, de esquerda, foi presa e barbaramente torturada. Minha experiência com a repressão começou aí. Eu ajudava na panfletagem junto ao movimento estudantil. Nos tínhamos uma forma curiosa de distribuir nossos panfletos aos secundaristas. Quando o estudante chegava na sala e abria sua carteira (sou do tempo em que havia carteira...), encontrava um pacote com papel de presente, lacinho, bem embrulhado. Abria e encontrava um panfleto dobrado. Em geral, o máximo que traziam era um ataque aos lambe-botas do regime ou a algum diretor autoritário.



PLAYBOY- Escrito no mais autêntico estilo Cláudio Humberto?



CLÁUDIO HUMBERTO- Eu não redigia, só entregava. Era apenas panfletagem, absolutamente romântica, mas acabou incomodando muito o regime. Um dia, em 1970, início do governo Médici, houve um black-out em Maceió, durante alguns minutos, e todos os dirigentes do DCE da universidade foram sequestrados, simultaneamente. Entre eles, o presidente e líder do movimento, Denis Agra, que já foi meu amigo. Sumiram e reapareceram três meses depois no DOI-CODI do Recife – todos eles terrivelmente debilitados física e psicologicamente pela violência da tortura, acusados de coisas inacreditáveis e absolutamente mentirosas. Como, por exemplo, a suposta intenção de envenenar o reservatório de água da cidade. A prisão dessas pessoas me chocou muito. Minha irmã namorou o irmão de um deles, dos que mais sofreram. Participou de sessões de tortura, pessoalmente, um delegado do DOPS enviado de São Paulo e chamado Sérgio Fleury, A repressão imaginou ter desbaratado uma cédula comunista violentíssima. Não era ada disso. Eram apenas alguns meninos panfletando contra a ditadura. Isso é uma coisa que me marca até hoje.



PLAYBOY- Marcou como?



CLÁUDIO HUMBERTO- Eu fiquei mais amargo. Até me embruteceu, do ponto de vista da tolerância. Produziu em mim, como na minha geração, a sensação de que só havia bons e maus neste país. Aquele maniqueísmo que distorce a realidade que dividia o mundo entre pessoas inteiramente boas ou inteiramente más. Esse sentimento me atrapalhou a vida um bom tempo e só fui me recuperar disso muito recentemente. Naquele tempo, meados de 1973, eu comecei a pensar na carreira diplomática. Imagine! A impressão que tenho, até hoje, é a de que o Itamaraty é uma das nossas melhores escolas de formação profissional do serviço público. A Universidade de Brasília estava inaugurando, em 1974, o curso de Relações Internacionais, que seria paralelo ao do Instituto Rio Branco. E vim para Brasília.



PLAYBOY- Mas a diplomacia não o colocaria a serviço do regime que tanto o indignava?



CLÁUDIO HUMBERTO- Eu acharia que estava a serviço do país, não do governo. Via a diplomacia como uma atividade bonita. Fiz o vestibular, passei, mas a minha vida na capital era angustiante. Não me adaptei a Brasília. Gostava muito da cidade, mas as pessoas...Tudo era muito estranho.



PLAYBOY- Por quê?



CLÁUDIO HUMBERTO- Eu sentia a cidade tensa, havia muita polícia na rua. Cruzava com muita frequência com a tropa de choque. Em Maceió não tinha disso. As pessoas eram muito fechadas. A cidade era um peso muito forte. Eu tinha uma certa resistência pela cidade. Nunca manifestei interesse, nem a mim mesmo, em passear pela Esplanada dos Ministérios, nem em conhecer o Palácio do Planalto. Eu vivia nos fundos de uma casa da 711 Sul e morava só.



PLAYBOY- Era mais duro, então?



CLÁUDIO HUMBERTO- Muito mais. E, meu amigo, eu era duro mesmo. Passei os primeiros meses, aqui, fazendo uma única refeição por dia. Meu pai me mandava uma mesada, com extremo sacrifício, e para economizar eu comia uma única vez, sempre ás 15 horas – e isso me sustentava o resto do dia. Comia no restaurante do SESC, graças à liberalidade de um funcionário, ou na pizzaria Roma. Tempos depois, consegui um emprego de secretário de um subprocurador da República, chamado Arnaldo Setti, pai do jornalista Ricardo Setti, hoje chefe de redação do O Estado de S. Paulo.



PLAYBOY- Como era a sua vida em Brasília?



CLÁUDIO HUMBERTO- Só frequentava cinema, sempre só. Namorei duas ou três garotas, mas nada de marcante. Tinha alguns colegas na escola e no trabalho. Minha vida era muito pobre em termos de amizade. O domingo era o pior dia. Eu acordava e saía. Olhava para um lado e outro da Avenida W-3, que durante a semana era o lugar mais movimentado da cidade, e não via nada, ninguém. Absolutamente deserto. Parecia uma cidade fantasma. Quarteirões adiante, até onde a vista alcançasse, não havia um único carro, uma pessoa se movendo. Nada. Eu pensava: “Ué, foram embora e não me avisaram”. O país ainda vivia no embalo do slogam “ame-o ou deixe-o”. Antes de terminar o primeiro semestre da UnB, tranquei a matrícula e saí. Brasília não me fazia muito bem e, em 1975, voltei a Maceió para fazer o vestibular de Psicologia.



PLAYBOY- Por que Psicologia?



CLÁUDIO HUMBERTO- Eu tinha uma namoradinha de adolescência e decididos juntos, meio malucamente, fazer o curso. Voltei a fazer parte do movimento estudantil, no diretório acadêmico, como integrante da esquerda independente.



PLAYBOY- Independente do quê?



CLÁUDIO HUMBERTO- Independente de partidos. Seja Moscou, Pequim ou Albânia. Era simplesmente esquerda, contra a situação vigente. Eu achava que a ligação com partida era uma coisa meio idiota, que aprisionava. Não tinha uma atuação pública. Sempre fui um pouco inibido. Meu desempenho era mais na articulação, nas ideias. Escrevia muito, redigia documentos. Meu texto sempre foi apreciado.



PLAYBOY- Quem inspirou o seu texto?



CLÁUDIO HUMBERTO- Graciliano Ramos, sem dúvida. Ele me fascinava não só pelo estilo seco e contundente, mas porque eu sabia que Graciliano não era daquele jeito. Meu pai o conhecia bem. Eu tentava imaginar como é que um sujeito tão mal-humorado, tão carrancudo, podia escrever coisas tão deliciosas. Os relatórios do prefeito Graciliano Ramos, publicados em Viventes das Alagoas, são das coisas mais saborosas da literatura brasileira. O governador de Alagoas era um jornalista, Costa Rego, e os prefeitos tinham então a saudável obrigação de apresentar um relatório ao governador. De repente, o prefeito de Palmeira dos Índios produzia um texto em que dizia, por exemplo, no item “cemitério”, o seguinte: “No cemitério municipal, enterrei tantos mil-réis. É pouco, reconheço. Mas ali residem os únicos munícipes que não reclamam”. Graciliano foi descoberto nesse relatório. Li toda a sua obra. Me identificava muito com ele. No jornalismo, fui leitor da imprensa alternativa, colecionei o Pasquim desde o número 1, mas os textos que mais me influenciaram foram os de Mino Carta e Alberto Dines. Sempre quis escrever como eles escreveram.



PLAYBOY- O senhor tinha fama de brigão na faculdade?



CLÁUDIO HUMBERTO- Meu relacionamento com os amigos e colegas sempre foi baseado em muita cordialidade. Como Graciliano, sou duro nas palavras. Prefiro falar, em vez de sair na porrada.



PLAYBOY- Um talento natural para porta-voz?



CLÁUDIO HUMBERTO- Nunca tive um comportamento agressivo. Na adolescência, incorporei um princípio de meu pai que me acompanha até hoje. Ele me ensinou a nunca perder minha capacidade de indignação. Sempre me dizia que era preciso ficar indignado pelo menos umas três vezes ao dia, para manter o senso crítico sempre afiado. E desde então eu fico catando coisas, no dia-a-dia, para me indignar.



PLAYBOY- Houve um tempo, em Alagoas, em que o senhor era indignado contra Fernando Collor, não?



CLÁUDIO HUMBERTO- Eu assumi a chefia de reportagem da Tribuna de Alagoas, um novo jornal, que, dois anos depois, seria comprado pelo senador Teotônio Vilela. Quando comecei lá, por volta de 1979, estava assumindo o novo prefeito de Maceió, Fernando Collor. O principal jornal do Estado, a Gazeta de Alagoas, pertencia à família Arnon de Mello e, naturalmente, apoiava o governo municipal. Por uma razão meramente de mercado, então, a Tribuna optou por atacar o governo. Era para vender jornal...



PLAYBOY- E vendeu?



CLÁUDIO HUMBERTO- Vendeu muito. O jornal passou rapidamente a segundo de Alagoas, aumentando a tiragem de 4.000 para 10.000 exemplares. Nosso estilo era o de “peladeiro” – do pescoço para baixo, era canela. Valia tudo. A gente atacava os problemas da cidade, comuns a qualquer cidade do planeta. Era uma opção de marketing, não havia nada de tão grave assim. Eu tinha um texto agressivo e qualquer notícia mais forte no jornal era sempre atribuída a mim. Mas eu era apenas o chefe de reportagem. Acima de mim tinha os fechadores, o chefe de redação, o editor, o diretor...



PLAYBOY- Os ataques do jornal deixavam o prefeito Collor roxo?



CLÁUDIO HUMBERTO- Não. E o que mais nos irritava é que o prefeito ignorava olimpicamente os nossos esperneios. Ele não passava recibo, mas não deixava sem resposta. Uma notícia merecia uma carta imediata ao diretor do órgão público citado na reportagem. Nada ficava sem resposta. Já o então governador, hoje senador, Guilherme Palmeira geralmente acusava o golpe, nunca teve muito talento nessa esgrima.



PLAYBOY- E isso é talento?



CLÁUDIO HUMBERTO- Digo com autoridade de quem foi estilingue: não há nada mais que incomode o estilingue do que uma vidraça que desdenha da pedrada. Com ele, o estilingue funcionou ao contrário. O jornal da família sempre se referia a ele como Fernando Mello ou, no mínimo, o nome completo – Fernando Collor de Mello. E aí o meu jornal, só de pirraça, começou a tratá-lo por Collor. O nome acabou pegando e ele adotou. Ou seja, o que começou com uma sacanagem do jornal virou uma boa ideia para o prefeito.



PLAYBOY- Foi nessa época que o senhor conheceu o Collor?



CLÁUDIO HUMBERTO- Meu primeiro contato pessoal foi ainda no Jornal de Alagoas, antes de passar para a Tribuna. Um dos entrevistados da edição de domingo era o prefeito e lembro que o que me incomodou muito foi exatamente o desempenho dele – foi ótimo. Entrou na redação elegante, descontraído, bem-humorado, e tirou de letra todas as nossas provocações. Só voltei a encontrar Fernando Collor, já deputado federal, em outubro de 1983, nos corredores da Câmara em Brasília. Um mês antes, tinha falecido o pai dele, senador Arnon de Mello, que foi um personagem da maior importância na história de Alagoas. E o nosso jornal, de oposição, decidiu fazer uma edição especial, que acabou saindo muito melhor do que a edição da Gazeta, o jornal da família. Isso nos trouxe um duplo problema: fomos acusados de tratar bem um adversário e quase provocamos a demissão em massa da redação da Gazeta, por incompetência. Por isso, o deputado Collor me cumprimentou, elogiou a edição e disse que, se soubesse que aconteceria aquilo, teria pedido que pelo menos naquele dia fossem trocadas as redações da Gazeta e da Tribuna.



PLAYBOY- Foi um convite?



CLÁUDIO HUMBERTO- Não, foi apenas um gesto de gentileza. Meu jornal passou todo o tempo descendo pau, todo dia, no prefeito. Em 1982, ele enfrenta as urnas e sai delas como o deputado mais votado em Maceió, concorrendo pelo PDS e numa eleição onde o PMDB teve 74% dos votos na capital. Aquilo tudo mexia com a gente. Será que o povo estava errado? Então, no início de 1986, eu estava fora do jornalismo – a Tribuna tinha fechado e eu trabalhava na reitoria da Universidade, quando Collor me convidou para jantar. Ele tinha acabado de ingressar no PMDB, estava querendo modernizar seu jornal e me convidou para trabalhar. Eu, da chamada esquerda Independente, diretor do sindicato, fiquei tão espantado com o convite que pedi tempo para pensar. Um idiotice completa: eu, desempregado, estava sendo convidado pelo deputado  mais votado de Alagoas, dono da maior rede de comunicação do Estado, e tive a arrogância suficiente para pedir dez dias de prazo para uma resposta. Cheguei a passar uma semana de dúvida no Recife.



PLAYBOY- Qual era a dúvida?



CLÁUDIO HUMBERTO- Política. Para mim, era uma espécie de escândalo trabalhar com Collor. Minha mulher, que apesar de muito jovem é sensata, disse que era bobagem e lembrou que não havia nada melhor do que um bom jornalista ser convidado para trabalhar numa boa empresa. Apesar disso, fui ao sindicado – imagine !- submeter o convite aos companheiros.



PLAYBOY- Aprovaram?



CLÁUDIO HUMBERTO- Não houve um deles que não recomendasse não aceitar o convite. Pelo contrário. Todos disseram que era politicamente bom – todos aliás muito oportunistas. Queriam alguém ali para lhes garantir espaço político e, eventualmente, emprego. Decidi aceitar o convite. Alguns meses depois, Collor foi indicado como candidato a governador pelo PMDB e aí a Tribuna de Alagoas, que tinha voltado a circular em maio de 1986, dirigida pelos mesmos companheiros que me recomendaram aceitar a oferta da Gazeta, na primeira edição publicou uma nota dizendo que eu havia sido comprado pelo esquema do Maluf. Em 1985, Collor havia votado no candidato do seu partido, o PDS, no Colégio Eleitoral. Ai eu entendi que não havia mudado simplesmente de emprego. Eu tinha feito uma opção política. Saí daquele grupo quando descobri o que significava exatamente a expressão “esquerda burra”. Eles exerciam o mais autêntico fascismo. Eu constatei isso alguns meses depois, na campanha eleitoral.



PLAYBOY- O que aconteceu?



CLÁUDIO HUMBERTO- No dia 5 de agosto de 1986, fiz uma coisa que nunca fazia. Fui almoçar em casa. Acabara de me mudar para uma espécie de sítio, a uns 10 quilômetros do centro. Era uma área de lazer com uma piscina e uma casa rústica, tipo galpão, quase uma dependência de empregada, com três cômodos. Era tão longe e precária que as duas empregadas se demitiram. Então, para ajudar a Taís a cuidar do Tiago, que faria 2 anos três semanas depois, fui almoçar em casa. O garoto tinha trocado de roupa, me distraí fazendo a barba e, subitamente, Tiago despareceu. Coisa de um minuto. Dei um grito e imaginei o pior. Corri para fora e vi de longe sua roupa vermelha boiando na piscina, de bruços e gritei de novo: “Meu Deus!”. Ateu convicto, graças a Deus, até então nunca tinha sentido a necessidade de apelar para pensar a alguma entidade para me proteger de uma tragédia. Mergulhei na piscina e fiquei ainda mais desesperado – o corpo dele, inerte acompanhava a marola que se formou. Os olhos estavam entreabertos, o coração não batia. Tentei a respiração boca a boca e não sabia como era isso. Não sabia se soprava, se aspirava. A caminho do hospital, percebi alguns sinais de vida. Quando entreguei meu filho ao médico, ele achou que o Tiago não sobreviveria. Era um caso em mil. Passou três dias na UTI, praticamente em coma.



PLAYBOY- Sobrevivia com aparelhos?



CLÁUDIO HUMBERTO- Monitorado permanentemente. Eu ficava ali, ia e noite, ao lado dele. Lembro que, depois de passar mais de 24 horas sem dormir, tenso com a expectativa, cochilei e caí por cima do Tiago. Acho que esbarrei num daqueles fios que o monitoravam. Era o fio do batimento cardíaco E ouvi então, aquele barulhinho uniforme de morte...biiiiiiii. Entrei em pânico, achando que o meu filho tinha morrido. Fiz tanto barulho que ele acabou acordando Só então percebi que estava bem. Mas, o que mais me machucou, nisso tudo, além do próprio afogamento, foi no dia seguinte o jornal onde eu havia trabalhado e onde estavam os meus melhores amigos publicou uma nota cujo título era “Bem Feito”. De repente, eu descubro que algumas daquelas pessoas, que eu considerava as mais dignas, as mais puras do ponto de vista ético e humanitário, era as mais cruéis com quem já tinha convivido.



PLAYBOY- E o senhor reagiu?



CLÁUDIO HUMBERTO- Quase todos eles, como eu, eram membros da diretoria do Sindicato dos Jornalistas e fui lá reclamar contra aquela brutalidade, sem tamanho. E uma dessas pessoas, de quem eu mais gostava me explicou: “A questão, companheiro, é política...”. Esse sujeito tinha contraído câncer e o que mais doeu foi me lembrar que, ao saber que ele estava doente, eu chorei. Pela eloquência com que defendeu a oportunidade daquela nota, eu compreendi que ele era o autor. Desse dia em diante nunca mais voltei ao sindicato.



PLAYBOY- E aí o senhor trocou de profissão?



CLÁUDIO HUMBERTO- Foi exatamente nesse momento. Minha prioridade passou a ser outra. Não era mais a produção de notícias, era a produção de fatos. E com Fernando Collor conheci a capacidade permanente de conservar sempre a iniciativa. É o princípio de que o ataque é a melhor defesa, inclusive a defesa de suas ideias, de seu projeto político. Essa coisa do “bateu-levou” começou aí...Essa história de oferecer a outra face é um erro brutal, em política. O Getúlio Vargas explicou o sucesso ao Otávio Mangabeira lembrando que, em política é preciso ter inimigos. E emendou: “Se você não tem, faça-os”.



PLAYBOY- E o senhor os fez entre os jornalistas?



CLÁUDIO HUMBERTO- É, fiz parte do grupo de trabalho que preparou a reforma administrativa do governador eleito Fernando Collor. E eu, que era o virtual secretário de Comunicação, propus a extinção da secretaria. Achava um exagero um Estado pequeno ter uma secretaria para isso. Uma simples assessoria já seria suficiente. E o Sindicato de Jornalistas considerava a secretaria “uma conquista da categoria”. Comunista adora emprego público. Só pode ser por isso, porque quando assumi verifiquei que havia 110 jornalistas – um terço da categoria em Alagoas – empregados na secretaria e que só apareciam no final do mês para pagar o salário. Demiti-os todos. Mas o projeto de extinção da secretaria acabou derrotado na Assembleia, por pressão do sindicato.



PLAYBOY- A “caça aos marajás” foi sua primeira produção de fatos?



CLÁUDIO HUMBERTO- Nunca houve essa preocupação de marketing. Para Collor, era apenas o resgate de um compromisso de campanha. Uma semana antes da posse, em março de 1987, ele ingressou com um pedido ao Supremo pedindo a suspensão dos vencimentos dos marajás. Eu, que cuidava da área de comunicação, tive um insight e percebi que só ele atendeu à expectativa da opinião pública. Aí foi aquela coisa de alagoana orgulhoso do seu governador...



PLAYBOY- O que o senhor fazia?



CLÁUDIO HUMBERTO- Comecei a agredir o mercado. Comecei a pautar. Ligava para os jornalistas, chefes de redação, colunistas...Fui vendendo o meu chefe. Não conhecia ninguém. Ligava no peito e me apresentava: “Boa tarde, aqui é o Cláudio Humberto, assessor de imprensa do governador. Sergipe, não. Alagoas, companheiro”. Pouca gente conhecia. O governador Miguel Arraes, de Pernambuco, tinha a chamada audiência inercial eu tanto beneficia a Rede Globo. O que falava era manchete. O meu governador estava dando um banho de competência e dignidade e ninguém notava. Achava isso uma injustiça. Aí, eu pegava o telefone e ligava, enchia o saco.



PLAYBOY- E era bem atendido?



CLÁUDIO HUMBERTO- A petelhada das redação dizia: “Vamos dar espaço ao Collor para – usando a linguagem deles – aguçar as contradições das classes dominantes”. E abriam espaço para o governador de Alagoas. E assim a gente foi abrindo picada.



PLAYBOY- Existiria Collor sem a Rede Globo?



CLÁUDIO HUMBERTO- Sem dúvida. Se não existisse a Globo existiriam outras emissoras que, isoladas ou somadas, alcançariam o público da Globo. A cobertura da Globo ao governo de Alagoas foi tão intensa quanto a do Jornal do Brasil, da Rede Manchete, do SBT. Agora, é preciso notar que os noticiários da Globo têm em média 78% da audiência. Se a pergunta se refere a qualquer tipo de envolvimento político entre o governador e o doutor Roberto Marinho, não havia nenhum.



PLAYBOY- A Globo descobriu Collor em Alagoas e Collor descobriu Alberico Souza Cruz na Globo?



CLÁUDIO HUMBERTO- Nós dávamos prioridade no relacionamento do dia-a-dia com o produtor da notícia, com o repórter, o colunista, o editor de política. Nesse caminho nos pareceu mais acertado que, na Globo, tivéssemos um contato com o Alberico por ser ele o editor do Jornal Nacional. Ele era, pelo que sei, a pessoa indicada elo Armando Nogueira exatamente para manter esse tipo de relacionamento com a classe política.



PLAYBOY- Collor teve participação na mudança de cúpula do jornalismo da Globo, com a troca de Armando justamente por Alberico?



CLÁUDIO HUMBERTO- Nenhuma participação. Na verdade, quem informou o presidente sobre essa mudança fui eu. Quando eu soube e confirmei, informei a ele. Ele ficou surpreso. Nunca houve nenhum problema de relacionamento entre o Presidente e o Armando Nogueira.



PLAYBOY- Não houve porque não se falavam...



CLÁUDIO HUMBERTO- Não se falavam porque o Armando Nogueira sempre torceu o nariz para a classe política. Essa tarefa ele atribuiu ao Alberico.



PLAYBOY- Mas, no Colégio Eleitoral, Collor não torceu o nariz e votou no Maluf contra Tancredo. Isso não incomodava o senhor?



CLÁUDIO HUMBERTO- O mal era o Colégio Eleitoral. O que havia de errado na história não era uma ou outra candidatura, mas o processo de escolha, este sim arcaico e antidemocrático. Nunca tive ilusões quanto à pretendida beatificação do doutor Tancredo. Eu o achava mais simpático que o Maluf. Nunca identifiquei divergências políticas ou ideológicas entre eles.



PLAYBOY- O senhor está colocando Maluf e Tancredo no mesmo saco?



CLÁUDIO HUMBERTO- Não, eles se colocaram no mesmo saco, o Colégio Eleitoral. Ao participar do processo, mergulhando voluntariamente naquele saco, Tancredo tornou-se mais um gato.



PLAYBOY- Se Maluf tivesse vencido, a transação teria seguido o mesmo caminho?



CLÁUDIO HUMBERTO- Olha...o Maluf, eleito no Colégio Eleitoral, não creio que fizesse um governo muito pior do que foi o governo Sarney.



PLAYBOY- A briga com Sarney foi outra jogada de marketing?



CLÁUDIO HUMBERTO- Todo mundo imagina que o Presidente viva de jogadas. Não é exatamente isso. Tudo o que o presidente Collor faz e produto de profunda reflexão. Ele tinha audiência com o Sarney para comunicar a vitória em Alagoas e, por coincidência, ela foi marcada para o dia seguinte ao anúncio do Cruzado II. Ao ser recebido por Sarney, Collor disse que estava ali para convidá-lo para a festa da posse mas, diante da edição do Cruzado II, que ele considerava uma traição à confiança do povo, não via motivos para comemorar. E cancelou a festa. Pouco antes da posse, tentou marcar uma audiência com Sarney e não conseguiu mais.



PLAYBOY- A expressão “colorido” foi uma invenção do acaso?



CLÁUDIO HUMBERTO- Foi mesmo. Saiu ao natural, quando mandei um cartão para ele no Natal de 1987, com a frase: “Vamos colorir este país”. Usei no sentido que a palavra tem, com o sentimento de que o comportamento dele encantava o Brasil inteiro. Mas quem primeiro usou essa expressão, na imprensa, foi o colunista Luciano Martins no O Estado de S. Paulo – e não fui eu quem passou para ele.



PLAYBOY- O senhor nunca temeu que essa candidatura desbotasse?



CLÁUDIO HUMBERTO- Olha, nunca duvidei que fosse eleito. Nunca. Um dia, no início de 1989, eu liguei para o gerente do Data-Folha, o Machado, me identifiquei e disse: “Olha, vocês publicaram uma coisa, uma pesquisa no jornal, falando em Sílvio Santos, Antônio Ermírio, gato, sapato, quem é, quem não é, e não falaram em Collor. E ele é candidato”. Aí ele me respondeu: “Olha..essa relação é fornecida pelo editor de política do jornal e ele não considera séria essa candidatura...”. A primeira vez que a Folha de S. Paulo publicou o nome de Collor como candidato foi numa inacreditável pesquisa do Datafolha, publicada na antevéspera de convenção do PMDB dizendo que Quércia seria o eleito, se fosse candidato. Se Ulysses ganhasse a convenção, o eleito seria Collor.



PLAYBOY- E a candidatura de Sílvio Santos? Era séria?



CLÁUDIO HUMBERTO- Aquilo foi um momento tenso da campanha porque foi uma jogada de meia dúzia de políticos espertos que se utilizaram dele. O Sílvio Santos me disse, há pouco tempo, que não percebia a extensão do que estava sendo feito.



PLAYBOY- E o senhor acreditou nele?



CLÁUDIO HUMBERTO- Acreditei sim. Ele é muito convincente.



PLAYBOY- Nessa história o Sarney é inocente?



CLÁUDIO HUMBERTO- Não. Ele não era o mentor, mas no mínimo autorizou aquilo. O Sílvio ia dificultar um pouco, talvez fosse o adversário de Collor no segundo turno, mas não iria mudar o resultado final.



PLAYBOY- Então, por que apelar para o depoimento da ex-mulher de Lula, Miriam Cordeiro?



CLÁUDIO HUMBERTO- Com o depoimento dela, revelamos quem era esse cidadão. Coisa, aliás, que a PLAYBOY já tinha revelado anos antes (julho de 1979), quando Lula era presidente do Sindicato dos Metalúrgicos...



PLAYBOY- Revelado o quê?



CLÁUDIO HUMBERTO- Lula tinha revelado suas práticas pouco ortodoxas, do ponto de vista moral e sexual. A ex-mulher dele apareceu na TV após toda uma campanha em que o PT xingou o pai de Collor, morto há sete anos, disse que o candidato casou dando “o golpe do baú”, fez as piores coisas, do mais baixo nível. Isso, os coleguinhas da imprensa permitiam. O que não podia era o contrário, era alguém ofender o “São Lula”, como alguns setores da Igreja o tratavam.



PLAYBOY- Miriam Cordeiro é uma invenção do Leopoldo Collor?



CLÁUDIO HUMBERTO- Não, a Miriam é uma invenção do Lula. Foi ele quem fez aquilo que ela denunciou. Sei que ela, desde o início da campanha, procurava o comitê de São Paulo para oferecer esse depoimento. E a gente vinha empurrando, evitando, até que chegou um ponto em que um padre do interior pintou um quadro onde colocava o Lula na mesa da Santa Ceia. Uma heresia política. Numa campanha tão disputada, onde o adversário usava mão de agressões tão vis, por que evitar que a ex-mulher aparecesse como ela queria aparecer? Ninguém aguentava mais ver, na TV, o nosso candidato sendo tão cruelmente ofendido.



PLAYBOY- Foi a Miriam que desequilibrou o segundo debate na TV, abalando Lula e levando Collor a se recuperar do primeiro debate?



CLÁUDIO HUMBERTO- Eu discordo dessa avaliação. Acho que foi equilibrado e a campanha do Lula teve a competência, que nós não tivemos, de sair na frente e dizer que ganhara o debate.



PLAYBOY- Mas Collor estava mal naquele debate...



CLÁUDIO HUMBERTO- Estava mal porque morria de dor, estava com um canal de dente aberto e o nervo exposto. O desempenho não podia ser melhor. No segundo debate, Lula chegou calçando sapato alto, como se diz no futebol. E Collor não tinha mais aquela dor de dente.



PLAYBOY- Lula ganhou o primeiro debate no aproveitamento do horário político. Collor ganhou o seguindo no aproveitamento da Globo?



CLÁUDIO HUMBERTO- Não, ele ganhou porque ganhou mesmo. Essa questão da Globo é outra manipulação da petelhada das redações. Ninguém se lembra da manipulação que foi feita, na Globo mesmo, no Jornal Hoje, que foi desonesto porque mostrava um equilíbrio que não houve.



PLAYBOY- E a edição do Jornal Nacional daquele dia?



CLÁUDIO HUMBERTO- O Jornal Nacional foi exato. É a mesma coisa que a Globo mostrar os melhores momentos da luta entre Mike Tyson e Pinklon Thomas, que foi nocauteado aos 90 segundos, escolhendo três bons de um e de outro, e dizer que aquilo resume a luta. O que o Jornal Nacional recuperou foi exatamente isso – os melhores momentos do debate, indicando uma vitória ampla, absolutamente inquestionável, do candidato Collor.



PLAYBOY- Collor não foi desonesto quando disse que gostaria de ter um som igual ao do Lula?



CLÁUDIO HUMBERTO- Foi um momento de bom humor. A verdade é que ele não tinha um equipamento como aquele...



PLAYBOY- O quê? Um três-em-um?



CLÁUDIO HUMBERTO- Pelo aspecto, parece ser um equipamento sofisticado, que Collor não tinha em casa. O que ele tinha era um toca-fitas.



PLAYBOY- Collor, pelo jeito, não se preocupava com som e muito menos com militares. Como é que ele escolheu os seus ministros fardados?



CLÁUDIO HUMBERTO- Ele ouviu muita gente desde militares da reserva até os ministros da época. E acabou optando por três nomes antes mesmo de conhece-los pessoalmente.



PLAYBOY- É verdade que o general Leônidas Pires Gonçalves tentou continuar no cargo de ministro do Exército?



CLÁUDIO HUMBERTO- Não soube que ele pessoalmente pretendesse continuar, mas havia quem defendesse a permanência dele. Sei, por exemplo, que o ex-ministro Bernardo Cabral é uma dessas pessoas que consideravam muito simpática essa possibilidade.



PLAYBOY- O Presidente em algum momento considerou essa possibilidade?



CLÁUDIO HUMBERTO- Não.



PLAYBOY- Com Leônidas fora do páreo, Cabral não tentou emplacar o general Wilberto Lima, aquele mesmo que tinha invadido a CSN em Volta Redonda, matando três metalúrgicos?



CLÁUDIO HUMBERTO- O que sei é que a candidatura do general Wilberto Lima era uma coisa colocada por essas pessoas que defendiam a permanência do ministro Leônidas.



PLAYBOY- A área militar não reagiu bem à indicação de um civil, um jovem de 30 anos, para a Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE), que sucedeu ao SNI e...



CLÁUDIO HUMBERTO- A Secretaria não sucedeu ao SNI. O SNI foi extinto e foi criada a SAE, que é uma secretaria que cuida da macroestratégia...



PLAYBOY-...e, entre outros assuntos, da área que era do SNI.



CLÁUDIO HUMBERTO- Mas a secretaria não tem informantes, não grampeia telefones.



PLAYBOY- Não existe mais escuta telefônica?



CLÁUDIO HUMBERTO- Isso não existe mais. Acabou. Não há mais grampo, não há escuta, não há mais agentes bisbilhotando a vida dos adversários do governo. O que há são funcionários da melhor qualidade intelectual pensando e propondo ao Presidente estratégias para o país, sobretudo no plano internacional. No plano interno, muito pouco.



PLAYBOY- Secretário, o senhor fala tudo ao telefone?



CLÁUDIO HUMBERTO- Tudo.



PLAYBOY- Mas tem muita gente no governo que prefere uma conversa pessoal e evita o telefone. Por quê?



CLÁUDIO HUMBERTO- É porque hoje é possível a qualquer pessoa grampear telefone com equipamentos que se vendem pelo reembolso postal.



PLAYBOY- Essa é uma atividade privativa, secretário?



CLÁUDIO HUMBERTO- Ah, sem dúvida. Nesse governo é.



PLAYBOY- Então, por que o presidente Collor possui um scrambler um misturador de vozes, em seu gabinete de trabalho?



CLÁUDIO HUMBERTO- Eu imagino que seja por isso. Hoje em dia a indústria de equipamentos de escuta é popularizada. Você compra qualquer coisa pelo correio...



PLAYBOY- Qual é a função do porta-voz?



CLÁUDIO HUMBERTO- Meu parâmetro é o Presidente. Então, quando eu bato – e bato sempre de forma muito mais amena do que indignação impõe -, eu estou ali...



PLAYBOY- Indignação sua ou do Presidente?



CLÁUDIO HUMBERTO- De ambos. Elas se somam. Quando faço isso, estou ali tentando representar...estou portando a voz mesmo. Mas a voz é dele.



PLAYBOY- O senhor tenta imitar algo de seus antecessores?



CLÁUDIO HUMBERTO- Acho que, se pudesse dosar, uma boa média seria a elegância na postura do ministro Carlos Átila, o fair-play do jornalista Frota Neto e a força política do jornalista Fernando César Mesquita.



PLAYBOY- A batida é inspiração de quem?



CLÁUDIO HUMBERTO- É uma característica pessoal, aprimorada por saudável contaminação na convivência com o Presidente. Meu trabalho é facilitado pela coerência dele. Eu respondo porque sei que ele não mudou de opinião sobre o que me disse dois, três anos atrás.



PLAYBOY- Quais as regras básicas do seu trabalho?



CLÁUDIO HUMBERTO- A primeira é só falar com a imprensa quando for do interesse do governo. Estou me lixando para o fato do repórter, no final do dia, estar sem lead para a sua matéria.



PLAYBOY- E quando for do interesse da imprensa?



CLÁUDIO HUMBERTO- Então, a imprensa que trate de se virar. O problema não é meu. É do repórter, do jornal, do diretor. Eu me manifesto quando for exclusivo interesse do governo e do país. Se ficar à disposição do pessoal, vão me perguntar sobre a falta de segurança em São Paulo e, aí, cria-se o problema. A outra regra é saber calar.



PLAYBOY- Calar os outros?



CLÁUDIO HUMBERTO- Saber calar a própria boca. Numa reflexão que o ministro Antônio Rogério Magri, que coleciona corujas, descobri que a coruja tem fama de sábia não porque seja sábia, mas porque é muda. Eu me calo sempre que o momento recomenda imersão.



PLAYBOY- O jornalista Pierre Salinger, porta-voz de John Kennedy, tinha três regras: não se meter em polêmica, não usar adjetivos e não ofender ninguém.



CLÁUDIO HUMBERTO- Certamente por isso nunca ouvi falar nele. Ouvi falar do Kennedy, que tem um trabalho certamente mais notável do que o porta-voz que o serviu. Eu faço exatamente as três coisas que ele condena.



PLAYBOY- O que é bom para a Casa Branca não é bom para o Palácio do Planalto?



CLÁUDIO HUMBERTO- Rigorosamente, não é. Porta-voz deve se meter em polêmica, na medida em que isso seja de interesse do governo. Deve usar adjetivos porque esse é instrumento utilizado pelos adversários. E finalmente, esse governo não oferece a outra face. Bateu, levou.



PLAYBOY- O senhor consulta antes a voz ou bate por conta e risco?



CLÁUDIO HUMBERTO- Várias vezes, por conta, com a certeza de que manifesto o sentimento de indignação do Presidente. Como nesse caso, respondendo à CUT, dizendo que sua nota era “mentirosa, irresponsável, cínica, suja e malcheirosa – a cara do Meneguelli”. Respondi na bucha. Depois, quando o presidente me ligou para dizer que era preciso responder, eu já tinha respondido.



PLAYBOY- Collor dá o tom da batida?



CLÁUDIO HUMBERTO- Da batida, não. Ele dá instruções sobre que declarações eu devo dar. Agora, nem sempre bato. Sou até uma pessoa muito gentil, de fino trato. Eu procuro, mesmo, é passar a emoção da indignação. Não posso permitir que um Presidente tão digno, tão correto, tão patriota, seja ofendido por qualquer vagabundo.



PLAYBOY- Collor bate mais que o porta-voz?



CLÁUDIO HUMBERTO- Ele mesmo disse isso, numa entrevista ao Globo, revelando que eu costumo amenizar as pancadas que ele ordena.



PLAYBOY- O Presidente usa muito palavrão?



CLÁUDIO HUMBERTO- Ele é uma das pessoas mais gentis, mais amáveis, menos propensas a explosões que eu conheço. Ele não...



PLAYBOY- Mas o Brasil todo ouviu, via Embratel, o sonoro “puta que o pariu” dito por Collor, numa reunião ministerial, quando bateu com o joelho na quina da mesa.



CLÁUDIO HUMBERTO- Mas o Presidente é um ser humano. Não conheço ninguém capaz de dar uma joelhada e reagir com um educado “puxa-vida”. Ninguém diz isso. Diz “puta que o pariu” mesmo.



PLAYBOY- O senhor tem o raro talento de frasista capaz de desmontar alguém com duas ou três frases. Quem é o seu ídolo, nessa área?



CLÁUDIO HUMBERTO- Carlos Lacerda, sem dúvida, foi o grande gênio. No presente, admiro muito o talento do jornalista Carlos Brickman, editor da Folha da Tarde. Ele escreve coisas que eu gostaria de assinar. É brilhante.



PLAYBOY- O senhor nunca se arrepende do que diz? Um dos políticos de melhor trânsito hoje no Planalto, o governador Leonel Brizola, ganhou do senhor o apelido de “Escadinha da política” na campanha presidencial...



CLÁUDIO HUMBERTO- Brizola, como diz meu amigo Cleto Falcão, agora é um irmão fraterno. Eu disse aquilo no calor da campanha, obrigado a defender o meu candidato, batendo também. Mudaram as circunstâncias. Hoje ambos têm responsabilidades.



PLAYBOY- Brizola deixou de ser o “Escadinha”. O que ele é, hoje, na política?



CLÁUDIO HUMBERTO- O governador do Rio de Janeiro é uma das pessoas mais competentes da história política brasileira. Um caso raro de alguém que há trinta anos está na linha de frente, permanentemente confirmado pelas urnas e sem perder a coerência. Aprendi com o presidente Collor, desde Alagoas, que é preciso respeitar a vontade das urnas.



PLAYBOY- O ex-governador Tasso Jereissati é produto das urnas. Mas foi tratado pelo Planalto como um reles meliante da área de furtos e roubos...



CLÁUDIO HUMBERTO- Mas, quando suas empresas fraudaram o fisco, isso não foi aprovado pelas urnas. Sabe, eu acho que existem três grandes profissionais, hoje, na política brasileira. O primeiro de todos, é claro, é o meu chefe.



PLAYBOY- Quando diz isso, o senhor não teme ficar com a palma da mão roxa?



CLÁUDIO HUMBERTO- Collor é a melhor cabeça política que conheço. É absolutamente brilhante do ponto de vista da percepção, da sagacidade, da visão. Os outros dois são os governadores Antônio Carlos Magalhães e Leonel Brizola.



PLAYBOY- Secretário, vamos admitir o pior. Se o Collor não tivesse passado para o segundo turno, em quem votaria?



CLÁUDIO HUMBERTO- Muito antes de ser candidato, ele disse numa entrevista à PLAYBOY (outubro de 1987) que votaria em Mário Covas.



PLAYBOY- Ao dizer isso, Collor queria ser vice de Covas?



CLÁUDIO HUMBERTO- A personalidade do Presidente não estimula uma inferência nesse sentido. Ele não seria vice de ninguém. Collor jamais será segundo. Em nada. Eu sei que, na época, alguns dos futuros candidatos estavam entre as opções do governador Collor. Entre eles, o Brizola. Tenho a impressão que, se ele não fosse candidato, em nenhum momento, é provável que uma dessas opções fosse o governador Brizola.



PLAYBOY- Trocaria o Covas por Brizola?



CLÁUDIO HUMBERTO- Antes de se declarar pelo Covas, ele chegou a dizer a pessoas amigas que Brizola seria um bom nome para merecer seu voto. Depois, ele acabou optando pelo Covas, até o momento em que percebeu que faltava ao senador uma coisa fundamental para avançar em política. O senador Covas não tem olho de águia. Ele tem olho de peixe morto.



PLAYBOY- Qual é a diferença?



CLÁUDIO HUMBERTO- Collor visitou várias vezes o senador e sempre falava que não era politicamente interessante, naquela altura, negar a candidatura Covas. Ele dizia que o senador deveria se comportar já como se fosse candidato, acenando, cumprimentando o povo como candidato. E o senador Covas ouvia naquelas colocações do governador de Alagoas olhando assim, com aquele olhar vago escondido por trás dos óculos, um cigarro apagado entre o nariz e o lábio superior...Ele estava fazendo um esforço olímpico para deixar de fumar. E ficava assim – cheirando o cigarro e olhando o governador. Collor ainda visitou o senador várias vezes, tentando convencê-lo disso. Até que, numa dessas visitar no apartamento do senador aqui, na 309 Sul, ele disse: “Olha, governador, deixe eu lhe dizer...Na verdade, eu não em sinto preparado para presidir o Brasil. Antes de ser presidente, eu preciso ser o governador de São Paulo”.



PLAYBOY- E o Collor respondeu?



CLÁUDIO HUMBERTO- Não, ele respeitou a autocrítica do senador. Depois eu comentei com ele: “Governador, uma liderança nacional como o senador Covas, líder do PMDB na Constituinte, respaldado por 8 milhões de votos, diz agora que não se sente preparado para presidir o Brasil? Se bem ele mesmo acredita nas suas possibilidades, como é que nós vamos fazer isso?”.



PLAYBOY- Secretário, quem é que tem olho de águia na política brasileira?



CLÁUDIO HUMBERTO- O presidente Collor, Brizola, Antônio Carlos Magalhães, Orestes Quércia...São pessoas que tem o olhar da determinação, dotadas de uma força interior muito acentuada, firmes em seus objetivos.



PLAYBOY- E quem tem olhar de peixe morto?



CLÁUDIO HUMBERTO- O senador Mário Covas, sem dúvida. O deputado Lula...Para ser vitorioso em política, é preciso ter tesão. E essas pessoas não têm. Não entusiasmam, não empolgam, não lideram, não trazem atrás de si a força das multidões. É o caso do presidente do PT: ele, na minha opinião, foi um fenômeno mais partidário do que de massas.



PLAYBOY- Mas o Lula fez comícios com milhares de pessoas, no Rio de Janeiro e em São Paulo.



CLÁUDIO HUMBERTO- O senador Covas, o doutor Ulysses. No entanto, deu no que deu.



PLAYBOY- O porta-voz tem olho de quê?



CLÁUDIO HUMBERTO- Porta-voz não tem ambição política. Nunca teve.



PLAYBOY- Mas tem olho.



CLÁUDIO HUMBERTO- Meu projeto político é o do Presidente. Sempre foi e sempre será. Eu estarei, politicamente, onde ele estiver.



PLAYBOY- O deputado Ibsen Pinheiro foi chamado pelo senhor de mentiroso. Hoje, ele é presidente da Câmara. Algum motivo de arrependimento?



CLÁUDIO HUMBERTO- Não. O deputado cometeu uma injustiça com o presidente Collor e com seus próprios colegas, dizendo na época que o governo praticava a política do “toma-lá-dá-cá”. O deputado foi infeliz na sua acusação e eu tinha o dever de registrar a indignação do governo e do Presidente. Não o conheço de perto, mas posso dizer hoje que há um número apreciável de pessoas dignas do meu respeito e admiração que o consideram um homem sério.



PLAYBOY- Secretário, não foi muita presunção e arrogância sua recomendar que o presidente da OAB voltasse ao colégio?



CLÁUDIO HUMBERTO- Presidente em exercício da OAB. Ele, de fato, era o vice-presidente. E era analfabeto.



PLAYBOY- Analfabeto, um presidente de OAB?



CLÁUDIO HUMBERTO- Analfabeto jurídico. A portaria contra os excessos da TV é determinada pela Constituição e recomendada no Estatuto da Criança e do Adolescente, votado pelo Congresso. Então, esse sujeito é um ignorante que, em entrevista, acusou o governo de fazer o país retornar às trevas do autoritarismo. Aquele idiota não podia acusar o governo dessa forma...Esse idiota não poderia reivindicar para si o caráter de democracia mais do que alguém como o presidente Collor, eleito pelo povo, com dezenas de milhares de votos.



PLAYBOY- O deputado Delfim Netto, outro bom frasista, diz que o país não tem porta-voz. Tem, na verdade, um porta-desaforo.



CLÁUDIO HUMBERTO- É uma boa frase. Mas o Presidente tem um porta-voz que eventualmente não leva desaforo para casa. Deixa no serviço.



PLAYBOY- Um dos desaforos mais comuns no eixo Rio-São Paulo, secretário é que o Brasil se livrou de um governo maranhense para cair num governo alagoano.



CLÁUDIO HUMBERTO- É um preconceito descabido. Até porque o Presidente, embora tenha vindo de Alagoas, nasceu no Rio e tem cara de alguém do Sul Maravilha. Eu senti isso, antes de iniciar a campanha, num jantar oferecido a ele pelo presidente da Federação do Comércio de São Paulo, Abrahão Szanjman. Num grupo de que fazia parte o anfitrião, o senador Franco Montoro, o empresário Laerte Setúbal e o banqueiro Olavo Setúbal, ouviu-se esse comentário: “Pena ele ser nordestino”. E um outro observou: “É, mas tem cara de paulista”.



PLAYBOY- E o porta-voz? Se o senhor tivesse cara de sueco, alto, loiro, de olhos azuis, poderia esperar um tratamento mais simpático da imprensa?



CLÁUDIO HUMBERTO- Veja bem, eu não me queixo da imprensa. O fato de ser mulato, e não loiro de olhos azuis, e o sotaque não ser marcadamente paulistês ou carioquês talvez fosse uma dificuldade no início. Mas isso foi superado com a nossa vitória.



PLAYBOY- O governo exaltou o relator da Constituinte e o presidente da CVM e convocou um e outro para ministro da Justiça e presidente da Petrobrás. Mais tarde, Bernardo Cabral e Motta Veiga deixaram seus cargos com fama de incompetentes. O governo é ruim de avaliação?



CLÁUDIO HUMBERTO- Não. Houve uma decepção quanto ao ex-presidente da Petrobrás. Ele seria demitido e, na verdade, antecipou-se em algumas horas à decisão de demiti-lo por absoluta incompetência.



PLAYBOY- Livrou-se da fritura?



CLÁUDIO HUMBERTO- Não há fritura nesse governo. O presidente simplesmente demite, quando não lhe agrada o desempenho de alguém. Ele não submete ninguém a nenhum tipo de desgaste.



PLAYBOY- Mas o que dizer de um governo que convoca um “incompetente” para dirigir a maior estatal brasileira?



CLÁUDIO HUMBERTO- Pois e, mas não era assim que ele parecia...Por exemplo, a imprensa me vendeu o ministro Bernardo Cabral como um dos maiores juristas da história desse país, porque era o relator da Constituinte, onde exercia influência e liderança. Empossado o ministro, a imprensa passou a dizer que não era exatamente aquilo. Que os relatores da Constituinte, de fato, eram os deputados Konder Reis e Nelson Jobim...



PLAYBOY- Mas, espera lá, secretário, não é a imprensa que nomeia ministro. É o Presidente...



CLÁUDIO HUMBERTO- Não estou dizendo isso. Digo que a mesma imprensa que vendeu esse peixe passou a fazer esse tipo de cobrança. Ora, foi a imprensa que convenceu a todos os brasileiros que ninguém conhecia mais a Constituição do que o relator. Esse presidente da Petrobrás, com uma reputação construída à base de suas amizades no meio jornalístico, revelou uma vocação irresistível para o estrelismo e uma irremovível incompetência para a condução de uma estatal daquele porte.



PLAYBOY- Ainda existem cicatrizes da campanha eleitoral em relação aos jornalistas?



CLÁUDIO HUMBERTO- Não consigo esquecer a cena de Collor chegando ao aeroporto, para embarcar rumo ao segundo e último debate com o candidato do PT, e sendo recebido por um “corredor polonês” de jornalistas cantando o “lula-lá” do candidato petista. Na saída de uma entrevista na TV Record, em São Paulo, os repórteres não se contentaram em cantar a música e o nome de Lula – chegaram a chutar as portas do táxi que levava Collor.



PLAYBOY- Essa atitude cessou com a eleição?



CLÁUDIO HUMBERTO- Não. Um mês depois, 17 de janeiro, o Presidente embarcou na base aérea de Brasília para uma viagem de fim de semana ao Cone Sul e foi recebido com vaias pelos repórteres. Estou convencido de que é preciso lembrar sempre que isso ocorreu.



PLAYBOY- Lembrar para quê?



CLÁUDIO HUMBERTO- Como uma lição, para que numa outra eleição esse comportamento vergonhoso não se repita. Quando fui conversar com o jornalista Ricardo Kotscho, assessor de imprensa do PT, ele me contou que se organizou uma entrevista logo que ficou confirmada a passagem de Lula para o segundo turno. E o Kotscho me disse que ficou envergonhadíssimo quando chegou ao local da entrevista, junto com Lula, e foi recebido pelos jornalistas, de mãos dados, cantando o “lula-lá”.



PLAYBOY- Isso aconteceu porque Collor era o candidato dos patrões da imprensa e Lula o dos trabalhadores da imprensa?



CLÁUDIO HUMBERTO- De forma alguma. A questão não foi de classe. Até porque, na maior parte dos casos, o comportamento da reportalhada era autorizado ou coincidia com a postura dos patrões.



PLAYBOY- Mas a grande imprensa apoiou Collor até em editorial.



CLÁUDIO HUMBERTO- Ah, sim, mas quem lê o editorial é o dono do jornal e o homenageado. Mais ninguém. Na presunção de que a candidatura tinha o apoio do doutor Roberto Marinho, os jornais concorrentes cruzavam os braços e deixavam que essa reportalhada, que cantava o “lula-lá”, disse o tom. Mas sei de esforços importantes em alguns jornais. Preocupado com a questão de espaço e conteúdo. O Estado de S. Paulo, por exemplo, manteve uma vigilância severa. O mesmo comportamento tiveram O Globo  e o Jornal do Brasil.



PLAYBOY- Quem não teve?



CLÁUDIO HUMBERTO- A Folha de S. Paulo, por exemplo. Ali todos eram levianos. A leviandade era comum a todos os setores do jornal. Nenhum candidato foi mais cruelmente atacado do que Fernando Collor. Todo esse conjunto de ofensas eram produzido não com base em informações, mas na leviandade que balizava o comportamento juvenil da Folha. Ela chegou a comparar o candidato com Mussolini. Fez uma matéria de página inteira sustentando a teoria de que o pai do candidato era uma pessoa violenta e que aquilo era hereditário. Ouvia psiquiatras, traçava o perfil patológico do candidato...



PLAYBOY- Foi por isso que, em março do ano passado, a Polícia Federal invadiu a Folha?



CLÁUDIO HUMBERTO- A Polícia Federal não invadiu. O que aconteceu foi que o departamento comercial da empresa Folha da Manhã (que edita a Folha) estava enganando seus clientes (segundo a Polícia Federal, a Folha da Manhã estava cobrando em cruzeiros faturas imitidas em cruzados novos. A empresa alegou que essa medida do recém-inaugurado Plano Collor permitiu mais de uma interpretação, como de fato, aconteceu no mercado publicitário). Um deles se queixou à Receita Federal e ela foi lá verificar. Agiu como no caso de maus comerciantes que tentavam ludibriar seus clientes. A decisão de ir ao jornal foi exclusiva da Receita. Eu, pessoalmente, fui informado pela sucursal da Folha em Brasília...



PLAYBOY- Não tinha o dedo do Planalto nessa decisão?



CLÁUDIO HUMBERTO- De forma alguma. A única coisa da qual não podemos ser acusados é de burrice. A maior parte desse primeiro período de governo eu tratava esse pessoal da Folha com idêntica atenção e cordialidade. Só que eles não estão interessados em informação. Eles se interessam, como me disse certa vez o Gilberto Dimenstein, diretor da sucursal de Brasília, em pôr em prática o que eles chamam de “marketing da porrada”...Ou seja, uma preocupação obsessiva em bater todos os dias em alguém – preferencialmente o presidente da República.



PLAYBOY- O “marketing da porrada” não é também um recurso do porta-voz?



CLÁUDIO HUMBERTO- Não, o porta-voz não toma a iniciativa de bater. O porta-voz não bate, rebate.



PLAYBOY- Secretário, como é que o senhor reagiu à carta aberta do diretor da Folha, Otávio Frias Filho, ao presidente da República?



CLÁUDIO HUMBERTO- Não reagi. Repito o que disse quando me perguntaram sobre a carta: ao governo, resta aguardar o pronunciamento da Justiça. Uma análise adequada do seu conteúdo deve ser feita a partir do ponto de vista clínico, não político.



PLAYBOY- Mas é uma grande carta. Não há um único ponto, nela, que lhe tenha agradado?



CLÁUDIO HUMBERTO- Não gostei de nada da carta.



PLAYBOY- A sociedade civil reagiu com muita força ao documento, solidarizando-se com o jornal. Isso não preocupa o governo Collor?



CLÁUDIO HUMBERTO- Isso parece ser mais uma obra de marketing político...



PLAYBOY- Secretário, e o fato de que a Gazeta de Alagoas, o jornal do irmão do presidente, tenha publicado no mesmo dia a mesma nota que levou a Folha à Justiça, sem ter sofrido nada? Isso não desmoraliza o processo do governo contra o jornal?



CLÁUDIO HUMBERTO- Não. Isso apenas demonstra que, na Gazeta de Alagoas, não há censura prévia. O processo é contra a Folha porque a coluna pertence à Folha e foi distribuída pela Folha.



PLAYBOY- A Folha alega que seus repórteres não são atendidos, no Planalto, nem por escrito.



CLÁUDIO HUMBERTO- Eu concedo briefings coletivos, com a participação inclusive dos jornalistas da Folha. Agora, eu almoço e janto com pessoas inteligentes – e escolhe as minhas companhias.



PLAYBOY- Mas o único grande jornal que Collor não recebeu, para entrevista, sobre o primeiro ano de governo, foi a Folha.



CLÁUDIO HUMBERTO- É mentira. Nós convidamos o jornalista Newton Rodrigues, articulista da Folha, para uma conversa no Palácio. O que aconteceu é que, após esse encontro, o jornal suspendeu a sua coluna e o demitiu. Foi deplorável. O relato do telefonema, através do qual ele foi demitido pelo diretor do jornal, é que é terrível. Nesse telefonema, aos gritos, o diretor do jornal dizia ao Newton Rodrigues que o jornal estava em  guerra contra Collor e que queria destruir o Presidente.



PLAYBOY- O senhor nunca pediu a cabeça de um repórter?



CLÁUDIO HUMBERTO- Nunca.



PLAYBOY- Nem a do colunista político Ricardo Noblat, que escrevia no Jornal do Brasil?



CLÁUDIO HUMBERTO- Olha, esse aí caiu de podre. Passou a campanha inteira xingando o Presidente, errando pra burro. Por volta de março de 1989, numa roda de amigos, ao comentar a candidatura Collor, o Noblat disse que o Collor era uma brincadeira...Não era uma candidatura séria. Tanto não era, garantiu que até novembro não teria necessidade de grafar uma única vez o nome Collor em sua coluna, porque haveria algo mais importante a fazer.



PLAYBOY- E não escreveu?



CLÁUDIO HUMBERTO- Quinze dias depois, Collor chegava pela primeira vez ao topo da pesquisa do Ibope. E aí ele teve que escrever, com muita raiva. Quando foi cobrado, por um colega, o Noblat respondeu: “É, mas esse Collor me paga. O que é que eu ou dizer aos meus leitores?” No final da campanha, o Noblat foi demitido, não sei por que, mas imagino que por incompatibilidade dentro do jornal.



PLAYBOY- Os chargistas já retrataram o porta-voz com cara de porco, cachorro, frigideira...O senhor acha graça?



CLÁUDIO HUMBERTO- Eu acho uma glória. Recorto todas as charges. Algumas são de mau gosto. Mas acho o Chico Caruso o mais genial dos chargistas brasileiros. Absolutamente genial. Só não gosto quando ele me retrata.



PLAYBOY- E o senhor ainda conseguiu um lugar cativo, todos os domingos, na coluna do Tutty Vasquez, a revista do JB...



CLÁUDIO HUMBERTO- Esse rapaz, o Alfredo Ribeiro, que escreve como Tutty...Nunca consegui achar graça no que ele faz. Ele, coitado, foi responsável pela pior fase da coluna “Informe JB”. Quando aquele rapaz assumiu, quase acabou com a coluna.



PLAYBOY- Mas o Tutty é um dos maiores sucessos do JB aos domingos.



CLÁUDIO HUMBERTO- Continua sendo publicado? É? Eu acho que não.



PLAYBOY- O que o senhor lê?



CLÁUDIO HUMBERTO- Antes, tinha um hábito da leitura mais acentuado pelo Jornal do Brasil. Hoje, em função de minhas atribuições, leio também O Globo, O Estado, o Correio Braziliense e quando não tenho alternativa, a Folha. Gosto da revista Imprensa e da PLAYBOY. E leio todas as semanais, embora acho que todas passam atualmente por um mau momento.



PLAYBOY- E televisão?



CLÁUDIO HUMBERTO- Vejo tudo. Vejo até a TV Nacional. Sou absolutamente tarado por TV. E considero que a TV Globo é a melhor televisão que se faz no planeta.



PLAYBOY- No planeta?



CLÁUDIO HUMBERTO- Conheço o mundo inteiro e, seja onde for, tenho sempre a curiosidade de sintonizar as emissoras. E posso assegurar que a televisão feita no Brasil é, sem dúvida, a melhor do mundo. O padrão de qualidade imposto pela Globo acabou puxando as outras redes. Não há nenhuma rede de televisão importante nos Estados Unidos que faça uma TV melhor, por exemplo, que o SBT. O programa do Jô Soares, um show de inteligência, foi o melhor acontecimento da TV. Acho que o Jô e o Boris Casoy representam talvez os dois marcos mais importantes da televisão brasileira nos últimos dez anos.



PLAYBOY- E livros?



CLÁUDIO HUMBERTO- O último que li, há alguns dias, foi Fábrica de Mentiras, do Gunther Walraff, contando os bastidores da imprensa marrom na Alemanha. Identifiquei ali muita semelhança entre o Bild e certos jornais daqui...



PLAYBOY- E o seu livro, secretário, quando sai?



CLÁUDIO HUMBERTO- Acho que não sai, não. Eu até gostaria muito de escrever, mas isso certamente alteraria meu relacionamento com o Presidente. Estaria preocupado em sair de um encontro e fazer anotações. Isso me faz mal só em pensar. Tenho muito orgulho da confiança que o Presidente tem em mim e não gostaria que isso fosse perturbado pela decisão de escrever um livro. Por isso, não tenho essa pretensão.



PLAYBOY- E o futuro? Quais os seus planos quando acabar o governo?



CLÁUDIO HUMBERTO- Não imagino nada. Eu perdi a capacidade de planejar o meu próprio futuro. Serei o que o Presidente desejar que eu seja.



PLAYBOY- Então eu mudo a pergunta: qual será o futuro de Collor, ao final do mandato?



CLÁUDIO HUMBERTO- Até agora essa questão não me tinha sido colocada...Como brasileiro, orgulhoso do Presidente que tenho, gostaria de vê-lo reeleito.



PLAYBOY- Mas isso é vedado pela Constituição.



CLÁUDIO HUMBERTO- Pois é, mas é o que eu gostaria. No caso de um governo parlamentarista, gostaria de vê-lo primeiro-ministro.



PLAYBOY- E ele gostaria?



CLÁUDIO HUMBERTO- Aí eu não sei, tem que perguntar a ele. Ele nunca disse isso. Isso é o que eu gostaria que acontecesse.



PLAYBOY- Encerrado o mandato do Presidente e de volta à redação do jornal, qual a manchete que o jornalista Cláudio Humberto daria para definir o governo Collor?



CLÁUDIO HUMBERTO- “Esse homem mudou o Brasil”.



PLAYBOY- Secretário, depois de um início colorido, o Presidente exibe uma totalidade arroxeada ao completar um ano de mandato. Qual será o tom dominante ao final do governo, em 1994?



CLÁUDIO HUMBERTO- Azul.



PLAYBOY- O senhor acha que a PLAYBOY bateu?



CLÁUDIO HUMBERTO- Se bateu, levou.



PLAYBOY- E o que o senhor achou da experiência de ser entrevistado por PLAYBOY?



CLÁUDIO HUMBERTO- Uma sensação muito agradável. Essa maratona de quase nove horas de entrevistas me levou a refletir sobre minha vida, coisa que não fazia há mais de um ano, porque não tinha tempo para isso. Recordei fatos, alguns dolorosos, mas a maioria deles gratificantes. Ao ser entrevistado por PLAYBOY tive, pela primeira vez, a sensação de ser alguém que conquistou a notoriedade. E isso me orgulha muito.



PLAYBOY- Secretário, assim PLAYBOY vai ficar com aquilo dolorido...



CLÁUDIO HUMBERTO- E roxo.



Publicado originalmente na revista Playboy em junho de 1991