quarta-feira, 30 de novembro de 2022

Homenagem a Rolando Boldrin, Boldrin early years, parte I: Do nascimento à arte

Capítulo 1: Do nascimento á arte



Por Willian Corrêa e Ricardo Taira

 

A jabuticabeira ainda está lá, frondosa e generosa, permitindo duas colheitas por ano dos frutos graúdos e doces. Se exibe majestosamente no quintal da modesta casinha de número 693 da rua Marechal Deodoro, antiga rua da Estação, região central de São Joaquim da Barra, ao norte do estado de São Paulo. Foi nesse lugar que o menino branquelo de olhos azuis chegou berrando. Nasceu numa tarde quente de outubro e encantou parteira e senhoras da vizinhança, que ajudavam a pôr filhos no mundo, na cidade onde falar em dar à luz em hospital era quase uma heresia diante de tão competentes mulheres, que perdiam a conta de quantas crianças tiraram do ente materno e colocaram para seguir o destino traçado por Deus. Quando as parteiras entravam em ação, a presença masculina era dispensada. Os homens, geralmente, ficavam na sala de casa à espera do choro desesperado de crianças recém-nascidas, indicativo de que tudo caminhava “nos conformes”, como se costumava dizer de uma tarefa bem-sucedida. Eles assistiam à passagem do balde de água quente, do balde de água fria, das toalhas, da imagem de Nossa Senhora das Dores, da vizinha do lado, da vizinha da frente, da mãe, da tia que veio de longe, da madrinha de casamento. Uma multidão num quarto modesto.

A partir do choro do bebê, os homens se abraçavam, limpavam o suor do rosto, e o dono da casa começava a passar os copos que receberiam a cachacinha de qualidade feita no melhor alambique da região. Quando a parteira saía com a criança embrulhada na manta abençoada na paróquia central, dias antes do nascimento, os beijos exalavam o cheiro da aguardente que, a partir daquele momento, iriam embalar as conversas até altas horas. Uma alegria que se repetia na casa dos Boldrin a cada dois anos.

Quando o menino de olhos azuis nasceu, a família já era bem grande. Rolando foi o sétimo filho do mecânico de automóvel Amadeu e a dona e casa Alzira. Depois dele, ainda viriam outros cinco que completariam a matemática tão sonhada pelo casal: seis homens e seis mulheres. Uma família, como tantas outras de São Joaquim da Barra, cidade a 385 quilômetros da capital de São Paulo, quase divisa com Minas Gerais, e que tinha, na época, como principais fontes de riqueza o café e a pecuária.

Era o dia 22 de outubro de 1936. Os olhinhos azuis ainda incomodados com a luz piscavam passando de colo em colo. Recebia sinais da cruz na teste e beijos um tanto exagerados, bem típicos da expansividade brasileira, misturada à dramaticidade brasileira, misturada à dramaticidade dos italianos, que passaram a habitar em grande número terras no interior paulista e de outros estados nos dois últimos séculos, formando uma das maiores comunidades de imigrantes em território brasileiro.

Os avós paternos, Mario Boldrin e Marieta Zordan, eram italianos. Ele, de Pádua; ela de Verona. Aqui, fizeram amizade com a família Machado, de ancestrais portugueses. Foi quando os pais de Rolando Boldrin se conheceram, namoraram e celebraram o casamento numa festa típica da roça, ao ar livre, com muita comida, bebida, cantoria e dança.

Era comum entre as famílias da primeira metade do século passado – principalmente no interior, onde se precisava de muitos braços para o plantio – aumentarem a prole rapidamente. Com seu Amadeu não foi diferente, embora ele não se interessasse pelo campo e procurasse sempre se aperfeiçoar na profissão de mecânico, mexendo em fordinhos. Ele só respeitava o tempo do chamado resguardo pós-parto. Seu Amadeu e dona Alzira tiveram os filhos Yolanda, Rolanda, Jaques, Tim, Aroldo, Leili, Rolando, Cida, Nino, Alzirinha, Leila e Maria.

O batizado do menino Rolando ainda demoraria. Seu Amadeu, materialista, se dizia ateu. Dona Alzira, católica fervorosa, queria os filhos seguindo as leis canônicas. Não deixava o marido em paz quando o assunto era a vivência com a Igreja. Somente quando Rolando tinha 7 anos de idade, o pai decidiu batizá-lo. E meses depois também levou o garoto para ser crismado. Os padrinhos, de batismo e de crisma, eram fazendeiros e suas respectivas esposas. Era tradição entre as famílias humildes convidar gente abastada para as cerimônias religiosas. O padrinho de crisma foi Enoque Garcia, um dos fundadores de Guaíra e também um dos primeiros prefeitos do então vilarejo. A família Garcia segue hoje na política, com enorme influência no município.

Na visão de seu Amadeu, ir à escola era uma atividade temporária. Os filhos precisavam aprender a ler, escrever e fazer contas, conhecimentos, segundo eles, suficientes para que todos pudessem enfrentar o que viesse pela frente. O importante era aprender um ofício. Isso no caso dos meninos, já que as filhas cuidariam de afazeres domésticos e permaneceriam na segurança do lar até o dia do casamento.

Quando Rolando Boldrin tinha 2 anos, a família se mudou para Guaíra, município próximo de Barretos. O aluguel era mais barato e, com a família crescendo e mais bocas para alimentar, era preciso fazer alguma economia. Foi em Guaíra que ele fez os primeiros anos do primário, hoje chamado de ensino fundamental.

O grupo escolar exigia que os alunos cantassem o Hino Nacional reunidos no pátio e observando o hasteamento da bandeira direita. Mão direita sobre o peito. A maioria disfarçava. Fingia que cantava por não saber a composição. Só havia um trecho que todos soltavam a voz: “Ó pátria amada, idolatrada, salve, salve”. Na sequência, voltavam os murmúrios. Rolando, no entanto, se esforçava para cantar a maior parte da letra escrita pelo poeta Joaquim Osório Duque Estrada.

A primeira professora foi dona Madalena, uma mulher enérgica, magra e atenta a todos os movimentos dos alunos. Os mais faladores, entre eles o menino de olhos azuis, costumavam ser advertidos com tapas na cabeça e com golpes de régua.

A rua era o parque de diversões daquela molecada nos anos 1930 e 1940, uma extensão dos próprios lares, muitos deles de terra batida, como era o caso do imóvel ocupado pela família Boldrin. Sobre o chão de terra, uma infinidade de colchões de palha e travesseiros de pena garantia a todos uma boa noite de sono, juntinhos – uma dádiva para uma família amorosa e solidária.

Em Guaíra, o pai trabalhava na oficina mecânica de José Maria Marques Bom, também dono das jardineiras, os ônibus que atendiam à população local e das cidades vizinhas. Eram veículos montados sobre chassis de caminhão. O galpão onde funcionava a oficina ainda existe e a Viação José Maria Marques Bom Ltda, segue em operação. Na oficina sempre sobravam alguns pneus velhos, que eram logo transformados em brinquedo pelo grupo de amigos dos irmãos Rolando, Leili e Nino. Estes usavam calça curta por serem os mais novos e não se acostumavam com os sapatos, sempre deixados de lado após a aula. Pés descalços prontos para as aventuras de subir em árvores, lutar na brincadeira de bandido e mocinho, mãe na mula e, a mais divertida de todas, encontrar nos velhos pneus e serem jogados ladeira abaixo. Ver o mundo de ponta cabeça a toda velocidade até bater em algo, uma árvore ou muro, e parar. Pele esfolada e arranhões pareciam não preocupar, eram apresentados como troféus numa demonstração de coragem dos pequeninos.

Desde cedo, Rolando demonstrava sua paixão pela música. Pegava uma vassoura e fingia que estava tocando violão. O pai gostava de ver aquela brincadeira e costumava chamar os amigos da oficina no intervalo do almoço para ouvir o filho cantar músicas de Bob Nelson, o primeiro artista brasileiro a misturar o estilo caipira aos dos caubóis norte-americanos. Um dos seus sucessos, “Oh, Suzana”, dizia: “oh, Suzana, não chores por mim/ Eu vou pro Alabama, vou tocando bandolim”. Com chapéu no estilo texano, lenço no pescoço, cinturão com duas armas, Bob Nelson e seus Rancheiros faziam apresentações em todos os cantos do país. O pequeno Boldrin, além de imitar o andar dos gringos durões, prontos para um duelo, também dava grito dos caubóis: “o-le-rei-iii-tiii...o-le-rei-iiiiii-tiii”. E todos caíam na risada.

A vida pacata era confrontada com um fator externo angustiante. Guaíra, um lugar minúsculo na área urbana, mas gigante na lavoura, também sentiu bastante os efeitos da Segunda Guerra Mundial. Houve racionamento de alimentos básicos, como o arroz e o pão. O mercadinho amanhecia com fila na porta, e todos saíam carregando pouca coisa. Criação de frangos, porcos, plantação de milho, árvores frutíferas e horta no quintal ajudavam a complementar as refeições de uma família tão grande quanto a dos Boldrin. O avô paterno Mário, também morava com eles. A avó, Marieta, já havia falecido.

Sem gasolina, outro produto racionado, os poucos carros de passeio e caminhões agrícolas foram deixados nas garagens. A oficina mecânica quase sem serviço até que, de repente, surgiram os veículos que suportavam, geralmente na parte traseira, o que parecia ser uma miniusina, com chaminés exalando vapor o tempo todo. Era gasogênio, um equipamento primoroso, apesar do tamanho avantajado, que foi uma opção à falta de combustíveis. A pequena usina queimava madeira, carvão ou restos de produtos agrícolas, como bagaço de milho, para criar o vapor responsável pela compreensão e capaz de fazer o motor funcionar. Em 1940, o presidente Getúlio Vargas criou a Comissão Nacional do Gasogênio com o objetivo de facilitar a produção em larga escala do equipamento. A partir daí, surgiram as frotas de ônibus movidas a vapor. Era altamente poluente, mas não deixava ninguém em pé.

A família Boldrin ficou em Guaíra até o fim da Segunda Guerra Mundial. Exatamente em 1945, voltaram a se mudar. Houve uma passagem por Ituverava antes do retorno definitivo a São Joaquim da Barra. A volta à cidade de origem fez o menino de olhos azuis abraçar o sonho de subir no palco. Falava em ser ator e via na moda caipira o início de uma caminhada que poderia leva-lo ao estrelato. O fascínio pelo palco surgiu dentro de um circo. O menino foi subjugado pelo encantamento daqueles que passam a vida sob a lona, saltimbancos, provocando alegria, causando suspense, despertando a coragem, o heroísmo, quando o roteiro circense avançou pelo imenso interior. O circo era o elo da gente simples com a arte. Era o zoológico itinerante, pela quantidade de animais transportada, desde um simples franguinho, que costumava escapar dos palhaços em ziguezagues hilários, até os grandes felinos com seus dentes de sabe intimidados pelo chicote sonoro do domador. O circo era um grande acontecimento, um instante de união das famílias.

O que mais interessou o menino Boldrin foi o circo-teatro. O garoto ficava na primeira fila e decorava peças inteiras: O ébrio, O céu uniu dois corações, O mundo não me quis. Tornou-se um frequentador tão assíduo que passou a se misturar a técnicos e cenógrafos como uma mascote da trupe, sempre curioso, sempre querendo aprender sobre tão nobre trabalho. Certa vez, o dono de um circo-teatro conversou com os pais de Boldrin e esses autorizaram o menino a viajar com o grupo. Por volta dos 9 anos de idade, o garoto chegou a fazer do elenco, sua primeira experiência como ator.

Experiências como o circo-teatro fizeram as brincadeiras darem lugar a uma mente irrequieta decidida a novas conquistas. Era o entusiasmo que tentava vencer o marasmo das poucas opções de sobrevivência profissional aos jovens de uma cidade pequena em um país se adaptando ao pós-guerra. Ganhou uma viola do pai, e um professor de ginásio, Toniquinho Della Vecchia, o ensinou a afinar o instrumento no estilo “Rio abaixo”. Uma viola tem dez cordas, dispostas em cinco pares, e as diferentes afinações variam de acordo com a região do país. A “Rio abaixo”, contadas do agudo, cordas inferiores, para o grave, as superiores, exige a sequencia de notas ré – si – sol – ré – sol, gerando um acorde de sol maior se tocadas simultaneamente. Essa afinação é muito usada no blues americano e é também muito próxima à afinação do cavaquinho brasileiro (ré – si – sol – ré).

 

Publicado originalmente em CORRÊA, Willian. A história de Rolando Boldrin: Sr. Brasil. São Paulo: Contexto, 2017.

segunda-feira, 28 de novembro de 2022

Mojica early years, parte XV: 1979-83: Deputado Zé do Caixão, às suas ordens

         Capítulo 16: 1979-1983: Deputado Zé do Caixão, ás suas ordens

 

Por André Barcinski e Ivan Finotti

 


          A viagem para a Espanha servira para inflar o ego de Mojica, mas seu bolso continuava vazio. As reportagens publicadas sobre sua premiação no exterior não renderam nenhum convite para novos filmes e, no Brasil, tudo continuava na mesma: cinemas fechavam e produtoras independentes faliam. Mojica não poderia prever, mas Perversão seria o último longa-metragem inteiramente seu a chegar às telas. Dali em diante, trabalharia apenas como diretor contratado. Completamente duro, ele fechou o estúdio da Moóca e ocupou um escritório que pertencia à “milionária assassina”, Elza Leonetti do Amaral, na rua 7 de Abril, centro de São Paulo.

Sua vida pessoal estava um caos absoluto: escondia Fátima de Nilce, Nilce de Maria e, vez por outro, ainda tinha namoricos-relâmpago com outras alunas. Começou a beber cada vez mais. Chegava a virar duas garrafas de licor de menta por dia. Cafezinho, só tomava batizado com rum. Vivia deprimido de tanto álcool e várias vezes teve de ser carregado para casa. Nilce, deprimida, pegou sua filha Nilcinha e foi morar na casa de sua amiga Elza Leonetti, no Itaim Bibi.

Por volta de março de 1979, Mojica atingiu o fundo do poço. Estava a um passo da mendicância. Desesperado, reuniu os últimos alunos que lhe restavam e começou uma campanha, batizada de “Faxina em Prol do Cinema Nacional”. Todo dia a turma ia de porta em porta, no Brás e na Moóca, oferecendo faxina de graça em troca de revistas velhas, que depois eram vendidas para bancas de jornal do centro da cidade. Nilce também começou a se virar como pôde: ela pegava saquinhos de plástico, fazia kits com um exemplar do livro Sentença de Deus, um gibi de Zé do Caixão e um compacto com a marchinha “Castelo dos Horrores”, e saía vendendo os pacotinhos pela rua, dizendo que era para ajudar os cegos e paralíticos.

Em julho, Mojica procurou os jornais para anunciar que estava colocando à venda sua coleção de gibis. Eram mais de quatro mil revistas, muitas raríssimas, que guardara desde a infância e das quais nunca sonhara em se desfazer. Para ele, acostumado a procurar a imprensa para divulgar um novo filme ou projeto, foi uma humilhação ter de confessar sua penúria e apelar para a caridade alheia.

Apesar das várias matérias publicadas, ninguém se interessou pela gibiteca. Mojica, precisando urgentemente de dinheiro, fantasiou-se de Zé do Caixão e foi com Elza Leonetti para a praça Ramos, no centro de São Paulo, onde montou uma barraquinha para vender os gibis. Foram os dias mais tristes de sua vida: multidões paravam para rir daquela insólita dupla de camelôs: pedestres faziam piadas e o ridicularizavam. Mojica sentiu-se como uma atração de circo. A humilhação acabou compensada pela venda de várias revistas, que lhe garantiram sustento por mais alguns dias.

Mesmo passando por tantas dificuldades financeiras, Mojica nunca desistiu de filmar: vivia caçando produtores na Boca do Lixo, mostrando seus roteiros e tentando convencer alguém a financiar a continuação da saga de Zé do Caixão. Ninguém lhe dava bola. Cansados de esperar, alguns alunos resolveram fazer uma coleta para produzir um filme. Arrecadaram uma mixaria. Mojica fez os cálculos e disse que, com aquele dinheiro, só teriam condições de usar filme Super-8, muito mais barato que o negativo de 35 mm normalmente usando em fitas profissionais. Alguém sugeriu filmar em Super-8 e depois ampliar para 35 mm. Essas ampliações invariavelmente resultavam em imagens granuladas e de pouca definição, mas Mojica não estava preocupado com a qualidade. Só queria filmar.

Ele reuniu a equipe numa salinha no bairro do Pari e rodou A Praga, história de um homem cujo corpo começa a apodrecer depois de ser amaldiçoado por uma bruxa. O roteiro havia sido escrito por Rubens Lucchetti para um episódio do programa Além, Muito Além do Além, e fora adaptado para quadrinhos na revista O Estranho Mundo de Zé do Caixão, número 3. O filme foi inteiramente rodado, mas faltou dinheiro para a montagem e o projeto acabou esquecido.

Logo depois, Mojica decidiu filmar um curta-metragem para aproveitar a lei que obrigava os cinemas a exibir um curta nacional em cada sessão de filme estrangeiro. Era uma mamata: qualquer porcaria passava – até 1984, não existia sequer uma comissão de seleção dos curtas – e o produtor recebia 5% da bilheteria das produções estrangeiras. Quem desse a sorte de ter seu curta-metragem exibido junto a um filme de sucesso como Contatos Imediatos de Terceiro Grau ou Os Embalos de Sábado à Noite poderia ficar rico da noite para o dia.

Os cinemas brasileiros foram subitamente invadidos por dezenas de curtas sobre cerzideiras nordestinas, concursos de pipa em Realengo e artistas plásticos piauienses. Muitos diretores fizeram seu pé-de-meia com esses filmes: Nilo Machado, o maior gênio da trambicagem cinematográfica brasileira, fez dezenas de curtas usando colagens de velhos filmes estrangeiros, que ele comprava aos quilos (um dos mais famosos foi Ginástica – Base Para Uma Boa Saúde, totalmente montado a partir de um filme sueco que mostrava um bando de garotas brincando de bambolê).

Mojica convenceu sua turma a fazer outra “vaquinha” e rodou nada menos de cinco curtas-metragens em um mês. Ele não escondeu do pessoal que só estava fazendo esses filmes pela grana: seriam todos rodados às pressas, sem muito capricho, e serviriam apenas para faturar um troco e dar mais experiência à turma. Seu plano era usar o dinheiro que ganhassem com os curtas para produzir filmes melhores.

O primeiro curta-metragem foi A Imigrante (Simplesmente Mulher), que nada mais era do que a história da vida de Nilce. Ela chegou a ficar emocionada com a homenagem, antes de descobrir que Mojica havia convidado a amante Fátima para interpretar o papel principal. Em seguida, ele rodou um filme experimental sobre a automatização da sociedade, chamado Evolução- Homem versus Máquina: A Luta do Século no Planeta dos Botões. O curta – interessante apesar da precariedade da produção – consistia de vários flagrantes de pessoas, na rua e no trabalho, fazendo gestos robotizados e apertando botões. A montagem ficava cada vez mais acelerada, mostrando uma infinidade de botões – em elevadores, calculadoras, máquinas registradoras – até que alguém aperta o botão da bomba atômica e o mundo explode. O filme termina mostrando o homem de volta ao tempo das cavernas, comendo carne crua e carregando uma clava.

Mojica depois fez dois curtas de protesto, É Proibido Caças Produtores de Cinema – Espécie em Extinção, sobre um produtor que comete suicídio depois de ver seu filme fracassar, e Justiça, Justiça, história de um ator que se aproveitava da bondade de seu produtor (interpretado pelo pai de Nilce, Antônio Feo) e depois rouba seu dinheiro. Este filme foi inspirado no episódio envolvendo o ator Amaury Silva, que anos antes ganhara uma ação trabalhista contra Mojica depois de morar de graça em seu estúdio.

O papel do ator desonesto em Justiça, Justiça ficou com Carlos Alberto de Mattos, um aluno mais conhecido por “Tarzan”. Cinco anos mais tarde, provavelmente inspirado por seu personagem, ele entraria com um processo contra Mojica, alegando que trabalhara por vários anos sem receber nada. Só que Tarzan não parecia bater muito bem da cabeça: no tribunal, disse que morava para lá de Ribeirão Preto, a quarto horas do estúdio. Quando o juiz perguntou como ele conseguia trabalhar num lugar tão longe e gastar oito horas por dia num ônibus – quatro para ir e quatro para voltar – Tarzan afirmou que só conseguia porque havia feito um curso de sobrevivência na selva, onde aprendera a suportar qualquer privação. O juiz, irritado, mandou arquivar o processo e ameaçou prendê-lo, caso continuasse mentindo.

O último curta-metragem da série foi Brincadeira Fatal, inspirado por um episódio verídico ocorrido com o aluno Manoel Cardoso, um louco de pedra. Mojica tinha dó do rapaz, e até deixou que ele morasse no estúdio por uns tempos. Certa noite, alguns alunos resolveram pregar uma peça em Manoel: esconderam-se no estúdio e, de madrugada, começaram a imitar fantasmas: “Uuuuhhhhh! Manoel, viemos buscar a sua alma!”. Ele ficou apavorado. Um dos engraçadinhos se meteu debaixo de um lençol e tentou assustá-lo. Manoel tomou coragem, sacou um canivete e furou a barriga do “fantasma”. Depois, saiu comemorando pelas ruas: “Sou um herói! Matei o fantasma do estúdio do Zé do Caixão!”. O ferido foi levado para o pronto-socorro, e Manoel, para a delegacia.

Dos cinco curtas, somente os dois primeiros – A Imigrante e Evolução – foram distribuídos comercialmente. Os três últimos nem chegaram a ser sonorizados. Mojica acertou a exibição dos filmes com o dono de um grande circuito de cinemas no Rio de Janeiro, mas o sujeito passou a bola para o filho – um conhecido traficante e cocainômano – que nunca pagou tudo que devia.

 

Em setembro de 1980, nasceu Rose, segunda filha de Nilce e Mojica. Nilce tinha esperança de que o nascimento da menina finalmente convencesse Mojica a ir morar com ela e as filhas. A situação bem que levava a crer que isso acabaria acontecendo: o romance de Mojica e Maria estava no fim e ele decidira, depois de anos de adiamentos, entrar com um pedido de divórcio de Rosita (o desquite sairia em 1981). Além do mais, seus filhos com Maria e Rosita já estavam crescidos. Se havia alguém precisando de um pai, era Nilcinha e a recém-nascida Rose. Quando tudo parecia caminhar para um final feliz, veio a bomba: Fátima estava grávida de Mojica. Nilce ficou arrasada. Pediu demissão do estúdio e arrumou emprego numa confecção. Estava resolvida a largar o cinema e nunca mais procurar Mojica.

A situação de Fátima também era crítica: sua família não aceitou a gravidez e a expulsou de casa. Sem ter onde ficar, foi morar com a mãe de Mojica, dona Carmen, num pequeno apartamento no Brás. Ela passou meses dormindo num sofá desconfortável, sem dinheiro para fazer qualquer exame pré-natal e sobrevivendo da aposentadoria de dona Carmen. Quando nasceu seu filho, Denilson, em abril de 1981, ela não tinha dinheiro sequer para comprar mamadeiras ou fraldas. O bebê dormia no gavetão de uma cômoda. Alguns meses depois, foram despejados do apartamento e acabaram nos fundos de uma garagem, onde nem cômoda havia. Fátima e a criança dormiam no chão.

 

Enquanto isso, Mojica continuava a viver de biscates e aparições em festas. Chegou a montar um pequeno grupo teatral para apresentar-se em bailes, encenando esquetes mambembes nas quais saía de seu caixão e rogava pragas para a plateia, enquanto seus alunos, fantasiados de monstros, entretinham o público. O destaque da trupe era Jurandir, um sujeito que tinha pernas mecânicas e duas garras de aço no lugar dos braços, capaz de apavorar qualquer plateia.

Mojica não sentia prazer algum em participar desses shows. Na verdade, achava uma amolação ter de despencar até o subúrbio para encenar esquetes tão furrecas e constrangedoras. O público só tinha duas reações: ou caía na gargalhada com o ridículo da cena ou vaiava impiedosamente. Mas Mojica não tinha opção; era isso ou vender gibis na rua. Para aliviar sua depressão, bebia cada vez mais.

Sua constante embriaguez causou diversos problemas durante as apresentações de seu grupinho teatral: certo dia ele foi convidado por um amigo, o empresário Samuel Moura, para participar do “Baile das Bruxas”, uma festa a fantasia num clube em Jundiaí, perto de São Paulo. Uma semana antes do baile, Mojica precisou ir a Belo Horizonte dar aulas numa escolinha de atores, mas garantiu que voltaria logo para São Paulo. Os dias foram passando e nada de ele voltar. Samuel, desesperado, mandou um assistente buscá-lo em Belo Horizonte. O sujeito caçou Mojica por toda a cidade e só o encontrou na manhã do baile, bêbado de cair. Levou-o para o aeroporto e marcou um voo para aquela mesma noite, mas na hora do embarque desabou um temporal na capital mineira e o avião não pôde decolar.

Samuel estava dentro do clube quando recebeu a notícia de que Mojica não viria. Do lado de fora, mais de 2 mil pessoas – fantasiadas de diabos e bruxas - esperavam na fila. Ele procurou um dos diretores do clube e contou tudo. O sujeito ficou tão irritado que começou a arremessar cadeiras contra uma parede. Os outros diretores deram no pé, com medo de serem linchados. O baile foi cancelado e Samuel perdeu um bom dinheiro.

Isso foi fichinha perto de um show em Araçoiaba da Serra, 110 quilômetros a oeste de São Paulo. No dia marcado, Mojica estava novamente dando aulas em Belo Horizonte. Samuel, com medo de um novo fiasco, resolveu buscá-lo pessoalmente. Durante o voo para São Paulo, Mojica roubou três garrafas de vinho do carrinho da aeromoça e chegou totalmente chumbado. Já passava das onze da noite quando chegaram a Araçoiaba da Serra. Mojica não conseguia nem andar: caiu duro num sofá e só acordou á uma da manhã, quando foi colocado no caixão e carregado para o palco, totalmente grogue. O público, que à essa altura já achava que Zé do Caixão havia dado o cano, invadiu o palco para ver mais de perto. No meio do fuzuê, um sujeito, conhecido na cidade como “Capeta”, chegou perto de Mojica e arrancou-lhe uma das unhas da mão. Depois saiu gritando: “Viva! Arranquei a unha do Zé do Caixão!”. Mojica, chorando de dor, voltou correndo para o camarim, e o delegado teve de intervir para que o baile não terminasse em batalha campal.

 

Não faltavam ofertas de trabalho para Mojica, mas sua falta de organização e irresponsabilidade punham tudo a perder. Ele foi convidado para aparecer em diversos programas de rádio e na TV, mas vivia bêbado e nunca cumpria os horários. Sua grande chance de recuperação surgiria em julho de 1981, quando a TV Record o convidou para estrear um novo programa.

A emissora estava passando por uma fase difícil com a inauguração da TVS, o novo canal de Sílvio Santos, que havia contratado alguns dos maiores nomes da Record, como Jacinto Figueira Jr., que apresentava O Homem do Sapato Branco, um show de entrevistas especializado em “mundo-cão”. A Record pensou em criar um programa de auditório com Zé do Caixão, no qual ele apresentaria cantores e faria concursos de calouros. Chegaram a rodar um piloto, mas o resultado foi tão ruim, que o projeto foi imediatamente engavetado. Foi então que a TVS anunciou que O Homem do Sapato Branco entraria no ar aos sábados às onze da noite. A Record resolveu colocar Zé do Caixão para disputar cabeça a cabeça com Figueira Jr., e sugeriu a Mojica um programa popularesco sobre terror e esoterismo. Três semanas depois, estrearia Um Show de Outro Mundo.

O novo programa misturava episódios fictícios (roteirizados por Norbert Novotny, amigo de Mojica), com apresentações de todo tipo de rituais esdrúxulos e macabros. Mojica exibiu um sujeito que dizia ser lobisomem, um artista de rua – Dito Satã – que comia cobras vivas, e um mago chamado Augustok, que atravessava a própria garganta com um espeto de churrasco. Também apresentou um ritual de satanismo comandado pela “diabóloga” Lina Capeta e um casamento de umbanda celebrado por Pai Jaú que, antes de ser macumbeiro, ganhava a vida como zagueiro do Corinthians.

A novidade do programa era a presença de um “júri” composto por supostos especialistas em fenômenos sobrenaturais, que analisavam as bizarrices mostradas. Participaram do grupo de jurados o padre Quevedo, líder de um instituto em estudos parapsicológicos; Jamil Rachid, presidente da Federação dos Umbandistas de São Paulo, e Arlete Moreira, atriz de Perversão e figurante dos Trapalhões.

Mesmo com o novo emprego e as novas responsabilidades, Mojica não parava de beber. Às vezes chegava tão biritado ao set, que precisava se amparar em cadeiras, para não cair. No dia da gravação do primeiro programa, tiveram de tirá-lo à força da casa do amigo Francisco Cavalcanti, onde estava há 48 horas jogando pôquer. O diretor artístico da Record, Hélio Ansaldo, proibiu o pessoal de beber em dia de filmagem, mas não adiantou: Mojica mandava um de seus assistentes encher uma garrafa de guaraná com pinga e fingia estar tomando refrigerante.

Apesar de todos os problemas, os índices de audiência foram surpreendentes: o primeiro programa deu quase trinta pontos, equivalente a metade dos televisores ligados no horário e a um público de quase 2 milhões de pessoas, só em São Paulo. Mesmo com a estreia de O Homem do Sapato Branco, em 22 de agosto – o que causou uma queda considerável na audiência de Mojica – seus números permaneceram fortes: sua média durante o mês de agosto foi de dezenove pontos (1,2 milhão de espectadores).

A crítica, no entanto, saiu matando: Gabriel Priolli Netto, da Folha de S. Paulo, disse que preferia ver mais terror e menos “mundo-cão”. Na Folha da Tarde, o jornalista Ferreira Netto – que havia transferido seu programa de entrevistas da Record para a TVS – criticou sua ex-emissora e zombou do português de Mojica: “Aviso ao mocinho: ‘pograma’ não existe; ‘exprocação’ também não”. (Netto encerrou a coluna escrevendo “prevaleceu” com “S”).

Com o sucesso na TV, alguns produtores voltaram a procurar Mojica: Enzo Barone, que começara sua carreira em cinema trabalhando como ator em O Estranho Mundo de Zé do Caixão, disse que havia comprado, num leilão do interior, a carcaça de um velho avião, com poltronas e tudo o mais, e queria usá-la num filme. Mojica pediu ajuda ao filho, Crounel, e em poucos dias escreveram o roteiro de O Diabólico Voo de Zé do Caixão, sobre um avião que é sequestrado por Zé e levado para outra dimensão, sobre um avião que transformaram nas figuras históricas com as quais mais se identificam. Assim, um passageiro transforma-se em Hitler, outro em Napoleão, um terceiro em Jesus Cristo, e por aí vai. Barone chegou a convidar Anselmo Duarte e o famoso grupo de discoteca As Frenéticas para atuar no filme, mas o projeto acabou ficando muito caro e nunca foi levado adiante.

Mojica ficou tão entretido na produção da fita que se descuidou totalmente do programa de TV: chegava sempre atrasado às filmagens, não decorava suas falar e faltou diversas vezes. O show caiu de qualidade e a audiência despencou: de dezenove pontos em agosto, passou para nove em setembro e seis em outubro. A Record ainda tentou transferir o programa para domingo, mas não houve jeito: no fim de outubro, apenas três meses depois da estreia, Um Show do Outro Mundo foi cancelado.

 

Não havia passado uma semana desde sua demissão da Record, quando Mojica foi com seu parceiro Mário Lima à Câmara dos Vereadores de São Paulo visitar um amigo, que havia prometido conseguir dinheiro para um filme. A Câmara vivia um período de intensa agitação, por causa das eleições marcadas para dali a um ano. Nos corredores, políticos faziam alianças estratégicas e tentavam atrair bons nomes para suas chapas. Mojica mal colocou os pés no recinto e foi logo abordado por vários vereadores, que o convidavam a se candidatar a um cargo público:

- Você é muito famoso, Zé, não quer ser candidato? Podemos fazer um bom par, você como deputado e eu como vereador – disse um sujeito do PMDB.  

- É, mas tem que ser no PDS – respondeu outro, puxando-o pelo braço.

Em cinco minutos, ele recebeu convites de todos os partidos e tendências, do mais reacionário direitista do PDS ao mais xiita dos petistas.

O tal amigo de Mário Lima trabalhava no Partido Popular (PP), um grupo liderado por Tancredo Neves e egresso da ala moderada do antigo MDB. Mojica foi apresentado ao presidente regional do PP, o banqueiro Olavo Setúbal, dono do Itaú, que imediatamente o convidou para ingressar no partido e candidatar-se a deputado estadual:

- Você é muito importante para nós. Se resolver sair candidato pelo PP, garantimos todo o apoio!

O PP, assim como todos os outros partidos, estava realmente desesperado atrás de candidatos. Pouco antes, um novo pacote eleitoral proibia as coligações partidárias, o que intensificou a luta por candidatos de peso. Na corrida para ganhar votos valia qualquer coisa: o próprio PP havia convidado Solange Joubert, a autoproclamada “rainha das massagistas” – e imortal da Academia de Letras do Vale do Paraíba, por sua obra Estes Homens Passaram por Minha Mesa de Massagem – para concorrer a uma vaga na Assembleia Legislativa. Agora era a vez de Zé do Caixão.

 

Mojica nunca havia sonhado em entrar para a política e não entendia nada do assunto. Quando lhe perguntavam sua posição ideológica, dizia situar-se “em algum lugar entre a esquerda e a direita, mais para o meio”. Era impossível negar, no entanto, que aquela bajulação toda não lhe havia subido à cabeça: por que não poderia ser um deputado? Se todos aqueles políticos já davam como certa sua vitória, por que não arriscar? Afinal, um deputado ganhava bem, tinha privilégios, e tudo que ele precisava naquela hora era um empreguinho bom. Resolveu aceitar.

Se houve uma classe de profissionais que se favoreceu de imediato com a candidatura de Zé do Caixão, foi a dos jornalistas. Nunca foi fácil criar manchetes bacanas. Algumas das melhores: “O candidato das forças ocultas”; “Zé do Caixão garante que não será um político-fantasma”; “horror na Assembleia”; “Mojica, uma luz nas trevas da política”; “O candidato que é um horror” e “Da urna funerária à urna eleitoral”.

Em entrevistas, Mojica afirmava que, caso eleito, concentraria seus esforços na defesa de três classes que considerava as mais desprivilegiadas do país: os coveiros, os lixeiros e os cineastas. “São pessoas que ninguém gosta, mas todo mundo precisa”. Quando um repórter lhe perguntou por que havia escolhido o PP, um “partido de banqueiros”, ele retrucou: “É melhor que sejam banqueiros, assim já são ricos e não precisam mais roubar. Pior seria se eu tivesse me juntado a uns mortos de fome!”. Depois, disse que a política nacional se assemelhava a um filme de ficção-científica e terror: “Veja só, os candidatos prometem mundos e fundos e, depois de eleitos, desaparecem, como se fossem tragados por um disco voador para outra dimensão. Só aparecem de novo na época de outra eleição. Parecem umas múmias, que só acordam de tempos em tempos”.

Sua plataforma incluía a proibição de seriados de TV americanos (“Precisamos prestigiar os programas brasileiros!”) e cursos obrigatórios de tiro para vigias noturnos (“Esses coitados arriscam a vida para proteger a família brasileira e nem aprender a atirar; é um absurdo!”). Mas ele também tinha boas ideias para incentivar o cinema nacional, como a criação de escolas para formar técnicos de laboratórios onde cineastas independentes pudessem revelar seus filmes por preços mais baixos.

Poucos dias antes de Mojica formalizar sua candidatura, o PP fundiu-se ao PMDB. No novo partido, o mais poderoso do país, não haveria lugar para Zé do Caixão. Foi então que o radialista Fernando Silveira, candidato a deputado estadual pelo PTB, convidou-o para se filiar a seu partido, prometendo arcar com todos os custos da campanha caso Mojica topasse aparecer ao seu lado em cartazes e santinhos. Só havia um problema: como Silveira já estava concorrendo a deputado estadual, Mojica, se quisesse entrar numa dobradinha, teria que se candidatar a deputado federal – uma parada muito mais dura. Mesmo assim, ele topou. Na mesma hora, Silveira o levou para o diretório central do PTB, na avenida Angélica, onde o apresentou a Ivete Vargas, filha de Getúlio, que preencheu pessoalmente sua ficha de inscrição. Mojica saiu empolgado: “Pô, a filha do Getúlio Vargas preencheu minha ficha! Esse partido é bom mesmo!”.

O candidato do PTB ao governo de São Paulo era outro velho conhecido de “forças ocultas”: Jânio Quadros. Mojica foi apresentado ao ex-presidente, que logo o convidou para um bate-papo em seu apartamento. No dia combinado, Mojica foi à casa de Jânio. Não passava das dez da manhã quando tocou a campainha. Jânio atendeu a porta de pijamas e chinelos. Bem-humorado, levou-o para a mesa da sala, onde sua esposa, dona Eloá, serviu suco de laranja e biscoitos.

- José, quero que você saiba que sua presença é muito importante para nós – disse o ex-presidente. – Você é uma pessoa de nome, pode atrair muitos votos!
          Mojica só balançava a cabeça, concordando. De vez em quando soltava uns “é claro”, “sim, sim”, mas na maior parte do tempo ouviu calado. Jânio pediu que não esquecesse de incluir seu nome para governador em todos os santinhos, e disse que Mojica teria de trabalhar muito para se eleger:

- Tem que fazer campanha o tempo todo, sem descanso. É preciso fazer como eu, que acordo todo dia às seis da manhã e durmo à meia-noite! (Mojica continuaria dormindo às seis da manhã e acordando meio-dia). Jânio deu dicas de como falar em comícios, e reiterou a importância da campanha corpo-a-corpo. Aí, Mojica falou pela primeira vez:

- Jânio, estou com um problema muito sério...Eu não tenho dinheiro para a campanha...

- Eu também não tenho pra te dar, mas vou te passar o telefone de dois amigos que podem te ajudar...

Os amigos de Jânio eram o dono de uma fábrica de embalagens em Santo Amaro e o proprietário de uma casa lotérica. Também não tinham grana, mas prometeram emprestar uma kombi para a campanha. Já a dobradinha com Fernando Silveira não deu certo: os dois brigaram e Mojica acabou se juntando aos candidatos Fábio Porchat (deputado estadual) e Fábio Fleming (vereador), que também se dispuseram a imprimir cartazes e santinhos, com a condição de que ele os apoiasse. Alguns dias depois, Mojica recebeu do Tribunal Regional Eleitoral (TER) a oficialização de sua candidatura: Zé do Caixão, candidato a deputado federal pelo Partido Trabalhista Brasileiro, com o número 430. Até soava bem.

Mojica logo percebeu que campanha política não era brincadeira: ele começou a ser chamado para reuniões do partido e encontros com políticos. Gostava especialmente das reuniões de cúpula do PTB, no centro, porque serviam uísque importado com amendoim. Mas nunca bebeu além da conta, pelo menos na presença dos graúdos. Sempre que avistava Jânio, Ivete Vargas ou algum outro figurão, maneirava na birita. Vexame mesmo só deu numa convenção do partido em São José dos Campos, quando subiu ao palanque com duas garrafas de Tatuzinho na cuca e fez um discurso que ficou para a história da política joseense:

- A quem pertence a terra? A Deus? Ao Diabo? Ou aos espíritos desencarnados? Meus eleitores, a besta está chegando para tomar a terra e o leite das crianças! Vamos dar leite pras crianças! Temos que dar leite pras crianças!

Num comício no Anhangabaú, Mojica foi rodeado por um grupo de motoristas de ônibus, que queriam saber mais sobre sua plataforma. Ele disse que pretendia liberar o jogo do bicho e legalizar a prostituição, inclusive dando 13º salário e benefícios às profissionais do ramo. Depois de se recuperar do baque, um dos motoristas perguntou o que ele pretendia fazer pela economia. Mojica, longe de ser um Galbraith, respondeu:

- Vou aumentar os juros da poupança! Vamos ficar ricos!

Os motoristas disseram que, se ele aumentasse os juros da poupança, as lojas também aumentariam seus preços, e ficaria tudo na mesma.

- Não, não, você vai ver! Vamos aumentar a poupança sempre mais que a inflação! Confiem em mim!

A campanha de Mojica era realmente revolucionária: ele substituiu o tradicional “corpo-a-corpo” pelo “copo-a-copo”: todo dia, visitava um bairro diferente e fazia a ronda dos botecos, enchendo a cara com os eleitores e divulgando sua plataforma, entre um gole e outro de Velho Barreiro. Enquanto isso, a candidatura de Jânio não decolava: os institutos de pesquisa anunciavam uma liderança folgada de Franco Montoro, do PMDB, seguido de longe por Reinaldo de Barros, do PDS. Jânio só aparecia em terceiro, empatado com Lula, do PT.

Para dar impulso à campanha, o PTB marcou um grande comício para o dia 9 de outubro em Sapopempa, na zona leste. As maiores atrações, além da presença de Jânio e Ivete Vargas, seriam um show de Moacir Franco – também candidato – e um concurso de sósias de Getúlio Vargas, Sílvio Santos e Pedro de Lara. O evento foi visto como a última grande cartada de Jânio. Ele declarou aos jornais que, se não conseguisse levar pelo menos 20 mil pessoas a Sapopemba, renunciaria à candidatura. Todos os candidatos do PTB foram convocados a discursar, inclusive Zé do Caixão.

Jânio cumpriu sua promessa: bem mais de 20 mil pessoas compareceram ao comício. Naquela manhã, Mojica vestiu um terno, encontrou-se com o amigo Samuel Moura e partiram juntos para Sapopemba. Antes, porém, deram uma paradinha na casa de Elza Leonetti, onde Mojica matou meio litro de Cinzano. Acabaram chegando atrasados ao comício. Largaram o carro numa esquina qualquer e só então perceberam que haviam estacionado ao lado errado, próximo à multidão e longe do palanque. Tiveram que atravessar a massa a pé, cortando pelo meio do povão. Mojica era reconhecido e abraçado. Foi um sufoco. Levaram quase uma hora para alcançar o palanque e, quando chegaram, os discursos já haviam terminado. Mojica não pôde discursas e ainda sofreu a humilhação de ouvir o apresentador chamá-lo de “José Maria Marin”.

Com todas essas galhofadas, não foi surpresa alguma quando saiu o resultado da eleição: Zé do Caixão obteve 1.228 votos, ficando em 61º lugar entre os 71 candidatos do PTV. Na classificação geral, ficou em 256º lugar entre os 278 candidatos. Jânio acabou mesmo em terceiro, atrás de Franco Montoro e Reinaldo de Barros. Os parceiros de Mojica também entraram pelo cano: nenhum dos Fábios, nem Porchat nem Fleming, conseguiu se eleger. Mojica depois acusou o TRE de ter anulado os votos dados a Zé do Caixão e computado apenas as cédulas com seu nome verdadeiro, mas a reclamação não procedia: em sua ficha de inscrição, ele havia registrado tanto o nome José Mojica Marins quanto Zé do Caixão.

 

Publicado originalmente em BARCINSKI, André & FINOTTI, Ivan. Maldito: a vida e o cinema de José Mojica Marins, o Zé do Caixão. São Paulo: Editora 34, 1998.

terça-feira, 22 de novembro de 2022

Mojica early years, parte XIV: 1976-1979: Delírios de Um Anormal

            Capítulo 15: 1976-1979: Delírios de Um Anormal

 

Por André Barcinski e Ivan Finotti


No início de 1976, Mojica procurou o produtor Alfredo Cohen implorando por um emprego. Sua situação nunca estivera tão crítica: além de não ter um tostão furado no bolso, ainda corria risco de perder sua parte em A Estranha Hospedaria dos Prazeres, já que Nelson Teixeira Mendes, de quem havia alugado câmera e luzes para fazer o filme, ameaçava entrar com um processo na Justiça caso não recebesse logo pelo aluguel. Mojica assinou com Cohen um contrato para a produção de Inferno Carnal, uma adaptação de um antigo roteiro de Rubens Lucchetti. Antes, porém, topou dirigir mais uma pornochanchada para Augusto de Cervantes, Como Consolar Viúvas.

Augusto estava passando por uma fazer muito difícil. Poucos meses antes, sua companheira por vinte anos, Nilza de Lima, morrera de um câncer no útero. Agora a filha de Nilza – e sua atual namorada, Georgina Duarte – fora diagnosticada com a mesma doença. Foi a própria Georgina quem escreveu o roteiro de Como Consolar Viúvas, uma comédia erótica sobre um espertalhão que tenta enganar três viúvas ricas. Augusto, sabendo que ela não teria muito tempo de vida, pediu a Mojica que apresasse as filmagens.

Mojica rodou o filme em dezesseis dias. Com o roteiro que dispunha, não conseguiria fazer uma fita decente, mesmo que tivesse dezesseis anos. As piadas eram das mais tacanhas – já uma brincadeira recorrente com um personagem que cultiva mandiocas – e os atores também não ajudavam. A única curiosidade de Como Consolar Viúvas é o local onde foi filmado: Georgina queria um apartamento com uma cama ampla para filmar as cenas de sexo. Sua filha Ana Nilsen (atriz de D´Gajão Mata Para Vingar) sugeriu usar o apartamento de seu namorado, o cantor Peri Ribeiro, que havia herdade de sua mãe, a grande cantora Dalva de Oliveira, vários móveis antigos, incluindo uma linda cama colonial. Todas as cenas eróticas foram filmadas na cama que pertencera à romântica Dalva de Oliveira.

Mojica ainda tentou dar um toque pessoal ao filme, adicionando algumas cenas sobrenaturais, como uma em que um sujeito é atacado por um vibrador voador, mas o resultado não foi dos mais empolgantes. Envergonhado, ele decidiu novamente assinar com o pseudônimo de J. Avelar. Goergina pelo menos pôde ver sei filme concluído. Morreu seis meses depois.

Assim que terminou Como Consolar Viúvas, Mojica iniciou as filmagens de Inferno Carnal. A verba para o filme foi conseguida novamente na base da “vaquinha” entre alunos, e completada por um adiamento do distribuidor Alfredo Cohen. A produção era tão pobre que o almoço da equipe foi o queijo provolone que havia sobrado da festa no Viola de Ouro, cinco meses antes.

No filme, Mojica interpreta o cientista George de Medeiros, um gênio da química que se dedica à descoberta da fórmula de um ácido poderosíssimo. Enquanto ele passa as noites trancado no laboratório, sua mulher, Raquel (Luely Figueiró), diverte-se com o amante, Oliver (Osvaldo de Souza). Juntos, eles planejam matar o cientista e ficar com sua fortuna. Numa noite de tempestade, Raquel entra no laboratório do marido, joga o ácido em seu rosto e foge com Oliver, acreditando ter matado George. Só que George sobrevive e começar a planejar sua diabólica vingança. A história fora escrita por Rubens Lucchetti como um episódio do programa O Estranho Mundo de Zé do Caixão, chamado “A Lei do Talião”, exibido em agosto de 1969 na TV Tupi, com José Parisi no papel do cientista e Irene Ravache interpretando a esposa.

Com Inferno Carnal, Mojica provou mais uma vez ser incapaz de criar um ambiente de alta burguesia convincente. Seu personagem é um milionário, mas anda numa Brasília velha, guiada por um motorista vestido de trocador de ônibus; seu “laboratório” não passa de meia dúzia e tubos de ensaios cheios de suco de uva, e o tal ácido poderoso fica guardado num vidro de maionese destampado. Para completar, George, o cientista, usa um jaleco com o nome de Oliver, amante de sua mulher (a gafe foi resultado de um erro dos dubladores, que trocaram os nomes dos personagens).

Mojica filmou às pressas. Estão tão desinteressado pelo filme que perdeu a seu assistente Marcelo Motta para dirigir algumas sequencias. Na terça-feira, 20 de julho, quando trabalhava na dublagem de Inferno Carnal, recebeu a notícia de que Nelson Teixeira Mandes havia perdido na Justiça a penhora de seus bens. Imediatamente ligou para Mendes, tentando, como já fizera diversas vezes, adiar o pagamento. Pediu que ele esperasse pelo menos até o lançamento de A Estranha Hospedaria, quando então teria dinheiro para quitar sua dúvida. Mas Mendes recusou. Disse que estava farto de desculpas e prometeu confiscar todos os bens de Mojica.

- O único bem que eu tenho é o Biribinha! – respondeu Mojica, referindo-se a uma velha perua DKW que havia comprado em sociedade com o técnico Luizinho de Oliveira. – Se quiser, pode confiscar!

Assim que desligou o telefone, Mojica empalideceu. Nilce perguntou o que havia acontecido. Ele respondeu que não estava se sentindo bem e que precisava descansar. Naquela noite nem bebeu, o que era um péssimo sinal. Acordou na manhã seguinte com uma forte dor no peito. Seu assistente Satã levou-o para a Clínica de Doenças Internas, no Ipiranga, onde os médicos fizeram um eletrocardiograma e descobriram quer ele havia sofrido um enfarte. Teria de ficar internado.

Na verdade, era só uma questão de tempo até que Mojica viesse a sofrer algum problema sério de saúde: ele fumava quatro maços de cigarro por dia, bebia como um peixe e alimentava-se basicamente de torresmo frio e linguiça calabresa boiando no óleo. Na sua cabeça, no entanto, logo despontou um único culpado para seu infortúnio: a “máfia do cinema”. Mojica teve a ideia de usar o enfarte para angarias simpatia e denunciar a tal “máfia” que, na verdade, era composta apenas por seus credores. Ele convocou a imprensa para fotografá-lo deitado na cama da clínica, cercado de médicos, e deu várias entrevistas nas quais dizia ter sofrido uma parada cardíaca que o deixara clinicamente morto por quatro minutos (“Agora que eu já vi a morte de perto, poderei fazer filmes de terror muito melhores!”). Também revelou, sem especificar nomes, que a “máfia do cinema” estaria tentando matá-lo.

- Na primeira noite que passei aqui na clínica, uma mulher veio ao meu quarto de madrugada e desligou meu tubo de oxigênio. Se não fosse por um discípulo meu que estava de guarda, eu estaria morto!

Mojica queria aproveitar ao máximo a situação. Durante sua internação, ele começou a rodar um documentário sobre sua própria vida, chamado O Diabólico Reino de Zé do Caixão. A ideia de fazer o filme já existia há anos, mas o momento agora parecia ser ideal, já que seus alunos e a imprensa estavam sensibilizados pelos episódios do enfarte e não hesitaram em ajudá-lo. Nilce e o faz-tudo Luizinho de Oliveira sugeriram a Mojica reencenar o episódio de sua internação, para incluir no documentário. Poucos dias depois, Mojica, usando o equipamento alugado por Alfredo Cohen para Inferno Carnal, dirigia a cena de sua chegada à clínica. Ele apareceu deitado na cama, sem camisa e desfalecido, enquanto os médicos tentaram reanimá-lo com pancadas no coração. Sua mãe, Carmen, observa angustiada, ao lado de Nilce e Satã.

Uma semana depois, Nilce pediu outro favor a Quintavalle: queria fazer uma entrevista dentro da clínica. O médico ficou temeroso de que o movimento pudesse perturbar os outros pacientes, mas Nilce garantiu que seriam poucos repórteres. No dia marcado, vieram mais de vinte jornalistas, além de fotógrafos e cinegrafistas. A clínica parecia o Maracanã em dia de decisão.

Para aproveitar a presença dos jornalistas e fazer publicidade do novo filme, Mojica mandou decorar o quarto com fotos de Inferno Carnal. Ele chamou seus credores de “abutres que se alimentam da carcaça do cinema nacional” e pediu ajuda ao povo para sair da penúria em que se encontrava. A súplica tocou fundo no coração de seus alunos, que imediatamente iniciaram a campanha “Ouro para o Mestre”, doando alianças, relógios e correntinhas de ouro para pagar a conta da clínica.

Mojica passou quase vinte dias internado. Já havia melhorado bastante e poderia receber alta a qualquer momento. Mas Nilce, percebendo que a sexta-feira seguinte cairia no dia 13 de agosto, teve uma brilhante ideia: implorou ao dr. Quintavalle para deixar Mojica internado por mais alguns dias. Depois ligou para os jornais e anunciou que Zé do Caixão receberia alta na sexta-feira, 13 de agosto, exatamente às 13h13.

No dia marcado, seus alunos fizeram uma grande festa na porta da clínica. Todos os jornais e emissoras de TV cobriram o evento. Mojica saiu amparado por dois assistentes, com ar de abatido. Abraçou seus discípulos, choravam e gritavam “Longa vida ao mestre!” e “Os abutres do cinema nunca irão nos derrotar!”. Com lágrimas nos olhos, ele agradeceu o apoio de seus alunos: “Sei que muitos de vocês chegaram até a empenhar seus dentes de ouro na Caixa Econômica. Eu nunca vou esquecer isso!”.

Mojica deu entrevistas aos jornais, identificado os supostos membros da tal “máfia do cinema”: primeiro acusou o produtor Antônio Polo Galante (Trilogia de Terror) de ter dado um calote em seus alunos, que teriam atuado como figurantes num filme, sem receber nenhum tostão. Depois, disse ter sido ludibriado por Nelson Teixeira Mendes numa transação de aluguel de equipamentos. Reservou farpas também para outro produtor, Renato Grecchi, a quem acusou de ter embolsado dinheiro a mais na venda de filmes seus como O Estranho Mundo de Zé do Caixão. Mojica não poupou ninguém: disse estar decepcionado com a falta de profissionalismo das atrizes Marizeth Baumgarten (A Estranha Hospedaria dos Prazeres) e Helena Ramos (Inferno Carnal), que teria se comportado de maneira arrogante no set de filmagens, chegando sempre atrasadas e ainda exigindo aumento de salário. E finalizou: “Outras estrelinhas sem responsabilidade e senso profissional que me sinto na obrigação de denunciar são Arlete Moreira, Sônia Suega, Aldine Müller, Sônia Garcia, Denise Ongarelli e Dirce Moraes”. Curiosamente, ele trabalharia com Arlete Moreira um ano depois, no filme Estupro.

Nelson Teixeira Mendes ficou furioso ao ler as reportagens e pediu direito de resposta. Disse que Mojica não passava de um alcoólatra e charlatão, que enganava seus alunos com falsas promessas de sucesso no cinema. Acusou-o de desonesto e de ter sumido por meses depois de receber dinheiro para dirigir o faroeste Papa Defunto, o Pistoleiro (Mendes acabou contratando o diretor Mimo Valdi para terminar o filme).

No fim das contas, depois de todos os artigos de jornal e de tantas denúncias sobre mafiosos que só existiam na sua imaginação, Mojica continuava sem dinheiro para saldar a dívida com Mendes. Alfredo Cohen veio em seu socorro e saldou a dívida com Mende em troca de um percentual maior na bilheteria de Inferno Carnal. Com um cheque, Cohen aniquilou toda a “máfia do cinema”.

 

Em meio a essa agitação toda, Nilce vivia um grande drama pessoal: estava grávida de Mojica. Ele não queria que Rosita e Maria descobrissem, e tampouco contava com a ajuda de Dona Carmen, que ainda a culpava pelo fracasso do casamento do filho. Resolveu esconder a gravidez de Carmen, apesar de morarem juntas no pequeno sobrado da Moóca. Nilce passou a sair às cinco da manhã e ficava o dia inteiro no estúdio. Só voltava às onze da noite, quando Mojica já estava dormindo.

No dia 5 de janeiro de 1977, exatos doze anos depois de seu primeiro encontro com Mojica, Nilce deu luz à uma menina, Nilcemar, logo apelidada de Nilcinha. Assim que saiu da maternidade, ela levou a filha para a casa dos pais, no Brás, Maria soube do nascimento da criança e, desconfiada de que o filho era de Mojica, foi correndo tirar satisfação. Chegou na porta da casa e tocou a campainha. Ninguém atendeu. Furiosa, começou a esmurrar e chutar a porta como uma louca. Uma vizinha saiu, assustada: “Não faça isso, dona, a moça aí acabou de ter um neném e precisa de descanso!”. Maria respondeu: “Pois eu vim mesmo para estrangular mãe e filha!”.

Depois desse episódio, Nilce mudou-se para um sobrado no Alto da Moóca, alugado por Mojica. Pela primeira vez na vida, tinha casa só sua. Assim que se recuperou do parto, voltou a frequentar o estúdio. Quando saía para trabalhar, deixava a filha com a irmã, Rosa Feo. Às vezes, quem cuidava da menina era Fátima Senna Porto, uma jovem de 19 anos, recém-chegada à escolinha. Nilce gostava de Fátima, menina esforçada e muito prestativa. Mojica também curtia a nova discípula, mas por outras razões: era uma morenaça de encher os olhos. Logo estaria de caso com Fátima.

Com mais uma namorada, a situação de Mojica passou a ser a seguinte: continuava morando com Maria e os três filhos no Brás, mas quase não parava em casa. Passava os dias com Nilce no estúdio e as noites com Fátima em algum boteco. De vez em quando, ainda arrumava um tempinho para visitar Rosita. Tudo isso, enquanto acertava o lançamento de vários filmes e tentava levantar dinheiro para novos projetos. Em fevereiro de 1977, ele tinha nada menos de quatro fitas simultaneamente em cartaz em São Paulo: A Estranha Hospedaria dos Prazeres, Como Consolar Viúvas, Mulheres do Sexo Violento (co-dirigido por Francisco Cavalcanti) e Exorcismo Negro, que estava sendo repisado dois anos depois de seu lançamento. Em maio, estreou também Inferno Carnal. Logo depois, ele foi contratado pela atriz Rosângela Maldonado para ajudá-la na direção da comédia erótica A Mulher que Põe a Pomba no Ar.

Mojica estava ansioso para terminar logo o filme com Rosângela e poder se dedicar a seu próximo projeto, Delírios de um Anormal, que marcaria a volta de Zé do Caixão às telas. Pela primeira vez desde Exorcismo Negro, tinha esperanças de fazer um bom filme. Seria seu retorno ao terror, depois de experiências malsucedidas com pornochanchadas, comédias e filmes de suspense. Rubens Lucchetti havia escrito um ótimo roteiro, sobre um psiquiatra (Jorge Peres) que é atormentado por alucinações com Zé do Caixão.

Assim como a maioria dos filmes que havia rodado durante os anos 70, Delírios de um Anormal foi financiado na base da coleta entre alunos. Mojica sabia que não teria muito dinheiro para fazer o filme, por isso decidiu utilizar diversas cenas que havia criado para outras fitas, fazendo uma colagem com as melhores imagens de seus grandes clássicos. Muitas dessas sequencias ainda eram inéditas para o público, pois haviam sido cortadas pelos censores dez anos antes. Mojica acreditava que a Censura, bem menos severa em 1979 do que no fim dos anos 60, liberasse o novo filme sem reclamar.

Mais de 90% das cenas de alucinação de Delírios de um Anormal foram tiradas de Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver, O Estranho Mundo de Zé do Caixão e Exorcismo Negro. A maior ousadia de Mojica, no entanto, foi incluir diversas sequencias de Ritual dos Sádicos, filme que continuava interditado. Nenhum dos censores percebeu o truque.

Em Delírios, Lucchetti novamente colocou Mojica interpretando dois papéis: o dele próprio e o de Zé do Caixão. O cineasta José Mojica Marins é chamado pelos amigos do psiquiatra delirante para ajudá-lo a curar sua obsessão pelo personagem. É curioso – e ao mesmo tempo triste – notar a preocupação de Mojica em mostrar-se sempre como um diretor de sucesso e fortuna: ele aparece sentado na confortável sala de sua mansão (na verdade a casa de um bicheiro, seu amigo), fumando um cachimbo e tomando um bom scotch. Depois, passeia pelo jardim e observa os empregados divertindo-se na piscina. Um amigo comenta: “Poxa, Mojica, você dá tantas regalias a seus funcionários!”.

Enquanto no filme os funcionários de Mojica tomavam banho de piscina, na vida real os infelizes comiam o pão que o diabo amassou: o diretor de produção Giulio Aurichio, o assistente de câmera Luizinho Oliveira e o ator principal do filme, Jorge Peres, foram encarregados de conseguir vários morcegos para uma cena. Alguém sugeriu que eles tentassem embaixo de uma ponte na Via Anchieta, no caminho de Santos. Munidos de lanternas, gaiolas e uma rede de pesca, os três rumaram para o local.

Realmente não faltava morcego na Anchieta. Eram milhares. Luizinho, Giulio e Jorge pegaram a rede e começaram a caçá-los como se estivessem pescando no ar: quando os bichos voavam, dando rasantes em suas cabeças, eles arremessavam a rede e os capturavam em pleno voo. Mas os morcegos morriam esmagados assim que a rede batia no chão. Luizinho teve a ideia de esticar a malha em frente a um buraco, por onde saíam os pequenos vampiros. A tática deu resultado e logo eles pegaram mais de cinquenta. Puseram os bichos nas gaiolas, cobriram com um pano preto e voltaram ao estúdio.

Durante a viagem de volta, morreram trinta morcegos. No estúdio, os outros também começaram a bater as botas, um atrás do outro. Quando chegou a hora de filmar, só haviam sobrado cinco. Assim que o fotógrafo Giorgio Attili ligou os holofotes para iluminar a cena, ouviu-se o crespilhar das asas dos morcegos, torrando sob as luzes fortes. Morreram queimados.

- Incompetentes! – gritou Mojica, possesso. – Não conseguem nem achar um morcego que preste!

A turma teve de improvisar, amarrando fios de náilon nas patas dos morcegos. O resultado não foi dos melhores: em vez de voar, os vampirinhos aparecem saltitando pelo cenário, como se fossem ioiôs.

Outra cena que demandou muito esforço foi a do “túnel de nádegas”: Mojica havia pedido ao carpinteiro e eletricista Rafael Bastos que construísse um túnel de madeira com vários buracos no teto. A ideia era botar moças sentadas em cima da estrutura, com as nádegas nos buracos. De dentro do túnel, veria-se apenas um monte de nádegas, que seriam maquiadas e pintadas com olhos e bocas. Como as moças não podiam se mexer, sob risco de arruinar a maquiagem, as coitadas tinham de ficar por horas enlatadas no túnel, num desconforto terrível.

 

A decisão de reciclar cenas antigas para compor as alucinações em Delírios de um Anormal foi vista como uma grande trambicagem por vários produtores e fãs. De um ponto de vista puramente estético, no entanto, o filme é uma maravilha: a montagem de Nilce é preciosa e a seleção de cenas não poderia ser melhor.

Para atrair a atenção da imprensa, Mojica começou a espalhar que Delírios era uma colagem de todas as cenas cortadas pela Censura, o que não era verdade (muitas sequencias já haviam sido exibidas nos cinemas). Inventou também uma tremenda cascata, dizendo que havia usado no filme um novo processo cinematográfico, recém-descoberto nos Estados Unidos, chamado “para-audiovisual”. Segundo ele, o processo causava delírios e alucinações nos próprios espectadores. Para provar, mandou seus alunos simular chiliques e desmaios dentro dos cinemas. Ninguém acreditou. Quando o filme estreou, Mojica bolou outra atração, o “estande humano”: diversos alunos foram para a porta dos cinemas, fantasiados de monstros, e reencenaram sequencias do filme. O estande foi um sucesso e rendeu diversas reportagens.

Todo esse esforço promocional, no entanto, não livrou o filme de críticas negativas. No jornal Última Hora, Jean-Claude Bernardet reclamou – com razão – que o uso de imagens antigas e o excesso de cenas de alucinação prejudicavam o andamento da fita:

 

Delírios de um Anormal apresenta-se como uma antologia ou museu de filmes anteriores de Mojica, a totalidade, ou quase, das alucinações do “anormal” são fragmentos de outros filmes, o que dá um tom particular a este novo filme. Primeiro porque Zé do Caixão fica mudando constantemente de caro: as sobrancelhas, a barba, as unhas de Mojica, a cara mais ou menos gorda se modificam a cada sequência, uma variação sobre si próprio. E também porque as sequencias de inferno, tortura, sadismo, isoladas dos enredos para os quais foram concebidas, tornam-se estáticas. O filme não anda. Os pesadelos se multiplicam, mas em cada um deles repetem-se incansavelmente. O tempo parou. O que sobra são efeitos visuais, cenografia, bichinhos etc. Algumas dessas imagens são fortes, outras ridículas, como as desse inferno povoado de chacretes infernais de véus roxos. Aqui, o inferno está entre o fantástico show da vida e Chacrinha.

 

O crítico de O Globo, Ely Azeredo, viu no uso de cenas antigas um protesto de Mojica contra Censura:

 

Delírios de Um Anormal é menos (ou mais) que um filme. É um desabafo, um protesto, um festival. A rigor, não deveria receber cotação. Dez anos depois de proibição (que persiste) de Ritual dos Sádicos, o criador de Zé do Caixão, José Mojica Marins – que sofreu cortes desde o início de sua filmografia de terror, iniciada em meados da década de 60 – resolveu promover à sua maneira uma celebração do obscurantismo oficial. Aproveitando certo relaxamento dos rigores censórios, realizou Delírios apoiado no fato de que nada se perde, tudo se transforma (...) Para os críticos e cineastas aficionados de Zé do Caixão e de seu criador, Delírios deve valer por uma orgia de prazeres cinematográficos (...) Quem não conhece outros filmes de Mojica e entrar na sala que exibe Delírios deve ficar perplexo e/ou desertar sem demora. O que a Censura, em outras oportunidades, condenou como excesso, torna-se efetivamente excessivo nesse festival de cortes resgatados. As alucinações (além de repetitivas, redundantes) têm em comum uma poluição sonora e visual difícil de suportar (...) Mojica presenteia os aficionados com visões infernais temperadas com insólitas aparições de nus e de muros decorados com muitos traseiros e seios. Um gênio incompreendido? Há quem responda afirmativamente.

 

Delírios de Um Anormal levaria mais de um ano para ser lançado. Nesse meio-tempo, Mojica prosseguiu as filmagens do documentário O Diabólico Reino de Zé do Caixão, e co-dirigiu outro filme de Rosângela Maldonado, A Deusa de Mármore – Escrava do Diabo, uma história mística sobre uma mulher de 2 mil anos de idade – interpretada pela própria Rosângela – que se conserva bonita e jovem sacrificando homens para Satã.

Foi durante esta filmagem que ele fez amizade com o produtor Wilson Garcia, dono de uma grande loja de autopeças no centro de São Paulo. Garcia tinha bastante dinheiro e gostava de cinema. Quando Mojica lhe falou da ideia que tinha para um novo filme, Estupro, ele ficou imediatamente interessado. O projeto tinha tudo para ser um sucesso: alguns meses antes, Mojica havia sido apresentado a Elza Leonetti do Amaral, uma quarentona bonita e elegante, conhecida em todo o país como a “milionária assassina”. Fazia dois anos que ela havia matado a tiros seu amante, o ricaço Roberto Lee. Elza alegou legítima defesa e foi condenada a dois anos de prisão domiciliar. Depois surgiram indícios que ela havia forjado o suicídio de seu primeiro marido, o milionário Anésio Augusto do Amaral Filho, de quem havia herdado não só o sobrenome, mas também todo o dinheiro. Mojica sugeriu a Elza fazer um filme inspirado em sua vida, sobre uma mulher que, traída e maltratada pelo marido, resolve se vingar. Ela adorou a ideia se dispôs a bancar parte da produção. Mojica foi além e prometeu inclusive usá-la como atriz. Já podia até ver as manchetes: “Filme reúne Milionária Assassina e Zé do Caixão”.

Wilson Garcia farejou ouro na jogada e topou entrar de sócio. O orçamento ficou em 1 milhão de cruzeiros. Combinaram que Garcia pagaria metade e Mojica e Elza dividiam a outra parte. Só que Mojica não tinha onde cair morto. Seu plano era pegar a grande de Garcia, começar a rodar Estupro e depois usar o dinheiro da bilheteria de O Diabólico Reino de Zé do Caixão e Inferno Carnal para finalizá-lo. Isto é, se conseguisse lançar os dois filmes. Outra hipótese seria convencer atores e técnicos a trabalhar de graça. Ele teve uma ideia: reuniu seus amigos e sugeriu rodar um filme-relâmpago, bancado por cotar, na qual ele atuaria e dirigiria sem ganhar nada. A bilheteria seria toda dos alunos. Em troca, o pessoal se comprometeria a trabalhar de graça em Estupro. A turma concordou e poucas semanas depois já estava rodando Mundo, Mercado do Lixo – Manchete de Jornal.

Mojica anunciou o filme como sua homenagem aos jornalistas. Ele interpreta um repórter que recebe de seu editor a missão de encontrar uma manchete em menos de 24 horas, sob risco de perder seu emprego. O intrépido homem de imprensa pega seu bloquinho e sai pela cidade em busca de uma notícia, mas dá um azar tremendo e sempre perde os acontecimentos por questão de minutos.  É só ele ir embora de um lugar que logo acontece alguma tragédia ou crime. Enquanto ele está na rua procurando uma manchete, o editor vai até sua casa e estupra sua mulher (bela homenagem aos jornalistas!). No final, o personagem de Mojica mata o editor e acaba virando a própria manchete do dia.

As filmagens levaram apenas três semanas. Mojica filmou numa correria louca, improvisando a maioria das cenas. Seu filho Crounel, então com 15 anos, foi assistente de direção, continuísta e escreveu vários diálogos, além de fazer uma ponta. Para Crounel, foi um curso intensivo de cinema “mojicano”, uma chance de sentir na pele a dureza de filmar sob condições tão precárias. No roteiro, havia uma cena passada numa favela. A equipe de Mojica chegou ao local e não havia favela alguma.

- Ué pai, cadê a favela? – perguntou Crounel.

- Que favela? Não tem favela, tem um bar! – disse Mojica, apontando para um botequim.

- Mas pai, no roteiro não tem bar, tem favela!

- Não tem, porque você não escreveu ainda! Começa logo, que a gente vai filmar já!

Crounel ficava louco com o esculacho do pai. Ele era um rapaz caprichoso e metódico, que se orgulhava de suas boas notas na escola e de seu conhecimento de teatro e cinema. Passara meses estudando o método de Stanislavsky, e agora tinha de aprender, em questão de minutos, o método “caixotesco” de cinema de improviso. Como todos os outros discípulos de Mojica, Crounel aprendeu rápido: Mundo, Mercado do Lixo foi rodado, montado e dublado em menos de dois meses. Só estrearia, no entanto, mais de um ano depois, com o título mudado para Mundo, Mercado do Sexo, para tentar faturar em cima da onda de pornochanchada.

 

A equipe nem teve tempo de descansar: mal terminaram Mundo, já iniciaram as filmagens de Estupro, outra história passada nos círculos do “soçaite” paulistano. Mojica bolou um enredo envolvendo uma moça pobre que se vinga do milionário que violentara sua irmã. Ele próprio interpreta o vilão, comendador Vitório Palestrina, um ricaço italiano, cafajeste ao extremo, que se satisfaz humilhando suas amantes e gabando-se de suas conquistas sexuais.

Palestrina violenta uma jovem, Sílvia (Nádia Destro) e, numa cena grotesca, arrancha um dos mamilos da moça a dentadas. Orgulhoso de sua façanha, o tarado exibe o mamilo para os amigos, como se fosse um troféu de caça. Em seguida, é apresentado a uma linda moça, Verônica (Arlete Moreira), mas ela não parece atraída por seu charme irresistível. Louco de paixão e desejo, Palestrina faz de tudo para conquistar a rapariga, sem saber que na verdade ela é irmã da menina que ele seduzira. Elza Leonetti interpreta uma advogada que acusa o comendador de ter violentado Sílvia.

Os grã-finos de Estupro andam de terno quadriculado e tomam uísque em copo de requeijão; o comendador, para impressionar Verônica, leva-a para um banho de mar em Santos, e em seguida convida seus amigos para um jantar chique – numa churrascaria da Praça da República! Os diálogos são pretensamente rebuscados e soam ridículos. Durante uma aula na USP (a personagem de Verônica é estudante de medicina) um dos alunos pergunta: “Professor, o soro glicosado 5% pode ser injetado na veia?”. O professor rebate com outra pérola: “O coração é dividido em duas aurículas e dois ‘ventríloquos’”. A trilha sonora do filme beira o surreal: Mojica usou – sem pagar um centavo – músicas de Pink Floyd e Paul McCartney. Cada vez que seu personagem aparece, ouve-se o tema de A Ponte do Rio Kwai.

Ninguém gostou do filme. os críticos malharam e a Censura exigiu a mudança do título para algo mais “ameno”: Perversão. Na revista Isto É, Rubens Ewald Filho escreveu:

 

Difícil é aceitar que Mojica seja um milionário, principalmente italiano, como é seu personagem, o comendador Vitório, com sua casa povoada de grã-finos da Boca do Lixo, vestindo terninhos da Ducal e comendo salgadinhos em bandejas de papelão. A ideia que Mojica e seus colegas cineastas da Boca fazem dos ricos merece um estudo sociológico. Segundo eles, os ricos são todos imbecis sem profissão, que dizem frases em português escorreito, formulando ideias dignas de uma novela de rádio, e com uma única ideia na cabeça: de faturar as vadias que se passam por mulheres da sociedade (...) O triste é que José Mojica Marins, nos seus primeiros filmes (Á Meia-Noite Levarei Sua Alma e Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver) tinha um certo charme do malfeito. Era como um pintor primitivo que levaram para a escola a fim de aprender a pintar. Disseram-lhe que era gênio e ele acreditou. Hoje já sabe fazer fotografias de cartão-postal e dar declarações intelectualizadas. Mas é apenas um borra-botas igual a tantos outros.

 

Quando finalizou Perversão, Mojica estava exausto. Entre 1976 e 1978, ele dirigira ou co-dirigira nada menos de oito filmes: Como Consolar Viúvas, Inferno Carnal, A Mulher que Põe a Pomba no Ar, Deusa de Mármore, Delírios de Um Anormal, Mundo, Mercado do Sexo, Estupro (Perversão) e o documentário O Diabólico Reino de Zé do Caixão. Nenhum desses se comparava, em termos de inventividade e força, aos filmes que fizera nos anos 60. Apesar de sua produção prolífica, Mojica continuava numa dureza de dar pena. Ele não recebia percentual sobre a bilheteria de alguns filmes, e o desempenho das fitas nas quais tinha parte – Inferno Carnal, Delírios de um Anormal e Perversão – não ficou nem peto do que esperava.

Quanto a O Diabólico Reino de Zé do Caixão, Mojica deu um azar tremendo: na véspera de começar a dublagem, seu continuísta Ronaldo Rocha dos Santos desapareceu, levando os blocos de anotação com todos os diálogos. Não era costumeiro fazer documentários com som dublado, mas Mojica nunca havia aprendido a usar som direto e ainda utilizava o antiquado método de copiar à mão as falas, para depois reproduzi-las em estúdio. Com o sumiço do continuísta, ele agora tinha horas de cenas filmadas e não sabia o que os personagens estavam falando. A solução foi inventar uma esquisita narração em off, na qual ele simplesmente comentava as cenas que eram mostradas.

 

Nessa época, Mojica havia transferido sua escolinha para um prédio na rua Barão de Jaguara, na Moóca. Estava tão duro que costumava ir a pé até o centro para economizar o dinheiro do ônibus. Um dia, Crounel teve uma ideia louca: queria fazer uma discoteca no estúdio. O Brasil vivia a febre de Os Embalos de Sábado à Noite e da novela Dancin´Days, e a juventude da Moóca só queria saber de calças boca-de-sino e camisas de náilon. Mojica, que não tinha nada a perder mesmo, permitiu.

A primeira festa foi um desastre: uma caixa de som caiu na cabeça de um sujeito que estava dançando e o pessoal, assustado, se mandou. Crounel não desistiu. Na semana seguinte, alugou um som potente, decorou o estúdio com desenhos de caveiras e batizou o lugar de Discoteca do Caixão. O público gostou da novidade. Em menos de um mês, a discoteca transformou-se no maior programa da moçada da Moóca. Às sextas e sábados, o point da galera era o “Caixão”. A polícia também aprovou:

- Seu Mojica, muito legal essa discoteca que o senhor montou. Antes, a gente tinha que policiar a Moóca inteira, agora é só aqui, porque os maus elementos estão todos reunidos!

A discoteca sustentou o estúdio por seis meses, até que os vizinhos, fartos do movimento e barulho, reclamaram na delegacia e exigiram seu fechamento.

Em julho, Mojica foi convidado para exibir Delírios de um Anormal e o faroeste A Sina do Aventureiro numa mostra de filmes de horror que seria realizada paralelamente ao Festival de Brasília. Era a primeira vez que participava de um festival no Brasil. Apesar de a mostra ter sido batizada de Horror Nacional, o único diretor efetivamente dedicado ao gênero era ele. Os outros filmes eram de cineastas ligados ao cinema “udigrudi”, como Rogério Sganzerla (O Abismu, Sem Essa Aranha e Anjo), Júlio Bressane (Agonia e Rei do Baralho) e Elizeu Visconti (Os Monstros de Babaloo).

Essa mostra paralela, dominada pelo chamado cinema alternativo, ou marginal, fez um contraponto interessante à mostra oficial, marcada por fitas de diretores do establishment embrafílmico como Cacá Diegues (Chuvas de Verão), Ruy Guerra (A Queda), Walter Lima Júnior (A Lira do Delírio) e Arnaldo Jabor (Tudo Bem). Mojica foi o grande destaque do festival: não só exibiu dois filmes, como ainda atuava em O Abismo, de Sganzerla, e era tema de um curta-metragem do cineasta Ivan Cardoso, O Universo de Mojica Marins. Deu dezenas de entrevista e passou tardes bebendo uísque na piscina do Hotel Nacional, em companhia do diretor de TV Walter Clark.

Quando voltou a São Paulo, Mojica recebeu um, convite para participar do Festival de Cinema Fantástico de Sitges, na Espanha, que se realizaria em outubro. Ele já havia sido convidado em anos anteriores, mas sua desorganização e problemas com a liberação dos filmes na Censura haviam atrapalhado seus planos. Desta vez, estava decidido a ir. Para divulgar sua viagem, organizou uma festa em comemoração aos quinze anos do caixão que o acompanhava desde as filmagens de Á Meia-Noite Levarei Sua Alma. Vários amigos e admiradores compareceram, como Rubens Lucchetti, o físico nuclear Mário Schemberg e Almeida Salles, presidente da Cinemateca Brasileira.

Mojica rebocou para a Espanha uma verdadeira comitiva: além dele e do assistente Satã, viajaram o produtor de Estupro, Wilson Garcia, sua mulher, Aparecida e o jornalista e cineasta Jairo Ferreira, que cobriu o evento para a Folha de S. Paulo. A viagem não foi tão excitante quanto a visita a Paris, quatro anos antes. Em vez de exibir seus velhos clássicos, Mojica teimou de levar três produções recentes – Estupro, Delírios de um Anormal e Mundo, Mercado do Sexo – que decepcionaram o público. Os jurados, para não o deixar voltar de mãos vazias, resolveram lhe conceder uma menção honrosa pelo conjunto de sua obra e por “grandes serviços prestados ao cinema de horror”.

 

Publicado originalmente em BARCINSKI, André & FINOTTI, Ivan. Maldito: a vida e o cinema de José Mojica Marins, o Zé do Caixão. São Paulo: Editora 34, 1998.