sexta-feira, 29 de julho de 2022

Mojica early years, parte IV: 1951-1957: Primeiros Passos de Um Cineasta

           Capítulo 3: 1938-1950: Primeiros passos de um cineasta

 

Por André Barcinski e Ivan Finotti

 

Outubro de 1953: a primeira reportagem publicada sobre a Apolo, no jornal Última Hora

Em maio de 1951, dona Clementina, proprietária do Cine Santo Estevão, alugou o prédio para uma fábrica de ferragens e deixou os Marins sem teto. Por sorte a família conseguiu alugar um quarto na casa de uns amigos, os Perez, a poucos quarteirões do cinema. Antônio logo arrumou um emprego de motorista na refinadora de óleo Anderson Clayton e Carmen começou a comprar roupas em fábricas para vende-las de porta em porta. Mojica, por sua vez, continuava desocupado.

Quando precisava de dinheiro, Mojica pedia emprestado a Maria, filha de Jesus Perez, o amigo que estava hospedando sua família. Jesus ficava furioso com a filha, mas ela não conseguia resistir aos encantos do rapaz. Aliás, eram poucas meninas que resistiam a Mojica. Embora estivesse longe de ser um galã – tinha uma testa larga, queixo pontudo, orelhas de abano e uma boca enorme com dentes separados – Mojica vivia cercado de garotas, todas encantadas com seu carisma e seu papo envolvente. Enquanto os meninos de sua idade passavam as tardes disputando “rachas” nos campinhos de pelada do bairro, Mojica organizava peças e filmagens, e sempre convidava as meninas para participar. Era carinhoso e educado. Sua habilidade com as mulheres parecia ter sido herdada do pai, outro grande galanteador e mulherengo. Várias donas de casa de Vila Anastácio saracoteavam para o lado de Antônio, o que provocava brigas terríveis com Carmen.

Mojica viveu de brisa por um bom tempo, até que seu pai, cansado de tanta vagabundagem, arranjou-lhe um emprego de mensageiro na Anderson Clayton. Mas o jovem logo descobriu que o mundo de relógios de ponto não condizia com seu espírito livre e empreendedor. Pelos próximos nove meses, passaria por outros quatro empregos: foi auxiliar de mecânico, encanador, aprendiz de ourives e soldador de fábricas de projetores de cinema Centauro.

Em janeiro de 1953, prestes a completar 17 anos, Mojica foi admitido como aprendiz de maquinista na fábrica de fósforos Fiat Lux, bem perto de Vila Anastácio. Lá fez amizade com vários jovens do seu bairro. As meninas de sua seção divertiam-se com seus delírios cinematográficos e sonhos de grandeza. Já os rapazes consideravam-no um metido. O que não deixava de ser verdade: Mojica era folgado mesmo, se achava melhor que todo mundo, o bambambã do pedaço. Quando perguntavam sua profissão, respondia: “Diretor de cinema!”. Era mirrado, 46 quilos de puro osso, mas gostava de fazer o gênero galã. Depois do trabalho, vestia um esquisitíssimo terno de linho branco e andava pelo bairro com pinta de astro de Hollywood.

Tanta arrogância lhe causou vários contratempos: certo dia decidiu ir até o bairro vizinho, a Vila Jaguara, atrás de uma menina que estava paquerando. Vestiu um terninho puído, ajeitou o bigodinho ralo que começava a nascer e saiu andando por aquelas ruas do bairro com a fleuma de um milionário passeando pelos Champs Elysées. A moçada da Vila Jaguara, quando viu aquele folgado botando banca de que iria conquistar a princesinha do bairro, não perdeu tempo: deu-lhe uma tremenda surra e o jogo numa poça de lama fedida. Um rapaz, entretanto, não gostou da brincadeira e impediu da turma deixar Mojica pelado. Seu nome era Hélio Bolim.

Os dois tornaram-se grandes amigos. Hélio também gostava de cinema e ficou empolgado quando Mojica lhe contou sobre seu estúdio no galinheiro. Sua “equipe”, aliás, aumentava a cada dia: depois de muita insistência, algumas meninas da Fiat Lux resolveram arriscar uma visita ao estúdio. Com a pompa de um Cecil B. De Mille, Mojica mostrou as instalações e seu equipamento de filmagem – uma câmera à manivela e um tripé caindo aos pedaços. Elas ficaram tão impressionadas que concordaram até em ensaiar uma ceninha ou outra diante da câmera.

As moças começaram a tomar gosto pela coisa e logo passaram a frequentar o estúdio. Sua presença atraiu alguns rapazes da vizinhança. Somados aos frequentadores habituais, como João Português, Jurandir, Dinho e Abdul, já havia gente suficiente para montar uma equipe de cinema. Mojica teve então de formar uma cooperativa com a turma. Seu plano era simples: todos colaborariam com pequenas quantias e o dinheiro arrecadado seria usado para bancar a produção de filmes. E troca de colaborações, cada um poderia escolher sua função na equipe, fosse no elenco ou na parte técnica.

Em 1 de junho de 1953, ele reuniu a turma e propôs a criação de uma empresa, que batizou pomposamente de Companhia Cinematográfica Atlas. No primeiro dia foi assinada a ata de inauguração da produtora e recolhidas as primeiras cotas, no valor de 50 cruzeiros, equivalente ao salário de dois dias na Fiat Lux. Aos 17 anos, Mojica tornava-se chefe de um “estúdio cinematográfico”.

O primeiro filme da Atlas foi o curta-metragem A Mágica do Mágico, uma comédia sobre um mendigo – interpretado pelo próprio Mojica – que acha no lixo um pequeno livro que lhe dá poderes mágicos. O filme foi exibido em igrejas, circos e parques de diversão, com Mojica e sua trupe dublando ao vivo, com o uso de microfones, as falas dos personagens. Eles cobravam ingresso e investiam o dinheiro na compra de mais negativos. Foi assim que conseguiram rodar Sonho de Vagabundo, uma comédia chapliniana sobre a amizade entre um mendigo e um cachorro, e Almas Condenadas, uma história sobre bandidos que fogem para uma ilha deserta e acabam soterrados por uma erupção vulcânica (a turma chegou a construir uma maquete para fazer o vulcão, mas o resultado não foi bom e acabaram abandonando o filme pela metade).

As reuniões da Atlas começaram a tomar a feição de um verdadeiro culto. Com o objetivo de tornar o grupo cada vez mais unido, Mojica criou estranhos rituais, que deveriam ser seguidos à risca. Antes de cada ensaio, todos davam as mãos e entoavam o “grito de guerra” da Atlas: “Não tenhas receio do futuro, que o pessoal é de confiança!”.

Nessa época começaram a surgir as primeiras reportagens sobre o candidato a diretor. O jornal Última Hora de São Paulo, atraído pela história de um grupo de jovens obstinados fazendo filmes dentro de um galinheiro, publicou uma reportagem de página inteira, sob o título “Das fábricas para as câmeras – estrelas de mãos calejadas realizam cinema”, com fotos de toda a turma. Ao ser entrevistado, Mojica mentiu quanto à sua idade. Achou por bem dizer que tinha “vinte e poucos anos”, quando na verdade não passava dos 17. Afinal, raciocinou, quem o levaria a sério caso confessasse ser menor de idade? A partir daí, passou esconder sua data de nascimento verdadeira, 13 de março de 1936. A quem perguntasse, respondia ter nascido em 1929 ou 1931. Essa seria a primeira de uma série de pequenas mentiras que, ao longo dos anos, Mojica iria adicionando à sua biografia.

O resultado foi que, nos anos 60, quando ficou famoso e os jornais começaram a publicar sua história, ele havia criado um passado totalmente ficcional, que incluía sete casamentos, 24 filhos e filmes rodados ainda nos anos 40.

 

Mojica tinha tanta convicção que conseguiria vencer no cinema que pediu demissão da Fiat Lux em outubro de 1953, para dedicar-se somente ao estúdio. Naquele mesmo mês, anunciou seu próximo projeto, o longa Geração Maldita, sobre uma gangue de fugitivos da Justiça que se perde numa floresta. Ele tentou angariar a verba necessária, mas logo percebeu que não conseguiria. Fazer cinema de brincadeira num galinheiro era uma coisa, mas produzir um longa-metragem profissional fazendo uma “vaquinha” com os amigos era impossível. Só o aluguel do equipamento de 35mm custaria 12 mil cruzeiros, equivalente ao salário mensal de 25 operários. O fracasso da empreitada, no entanto, alertou Mojica para a necessidade de bolar outras formas de arrecadação.

Foi aí que ele teve a ideia de montar uma escola de cinema. Com dezenas de alunos pagando mensalidades, pensou, certamente teria dinheiro suficiente para fazer seus filmes e, de quebra, poderia usar os próprios alunos como atores, evitando assim ter de pagar um elenco. Empolgou-se com a ideia, mas sabia que precisaria de outro local para sua escola. Ninguém levaria a sério um professor que desse aulas dentro de um galinheiro.

Algumas semanas depois, Mojica recebeu uma carta de Francisco Neto, filho de um rico comerciante de ferro-velho. Francisco havia lido a reportagem na Última Hora e disse que gostaria de juntar-se a turma. Contou que sua família era dona de um galpão vazio na Freguesia do Ó, zona norte de São Paulo, que poderia servir de estúdio. Quando viu o lugar, Mojica quase caiu para trás: era um salão enorme, 20 metros de cumprimento por 10 de largura, com um pé direito de pelo menos 4 metros. Com a ajuda de Hélio Bolim – que a essa altura substituíra João Português como vice-líder da turma -, o estúdio foi transferido do galinheiro para o salão. Em seguida, decidiram rebatizar a empresa com o igualmente pomposo nome de Indústria Cinematográfica Apolo Ltda., e publicaram anúncios em jornais paulistas convidando jovens a se matricular na nova escolinha de atores.

Mojica criou um método para aulas de interpretação que, se não fazia Lee Strasberg e seu Actors Studio tremerem nas bases, pelo menos parecia agradar aos operários, motoristas de ônibus, vigias e outros humildes que passaram a frequentar seus cursos, e que pagavam mensalidades de 150 cruzeiros – uma semana de salário na fábrica – para ter aulas com “professores” que, poucos meses antes, ganhavam a vida embalando caixas de fósforo.

O método de Mojica procurava incentivar a improvisação: um dos seus testes prediletos era mandar um aluno até a rodoviária, fingindo-se de retirante perdido. Outro consistia em fazer seus pupilos imitarem expressões de expressões – medo, ansiedade, pavor, fúria etc. – e colou estas fotos nas paredes de estúdio. Os alunos tinham de observar as fotos e imitá-lo.

Isso era fichinha, perto dos chamados “testes de extravasamento” (um nome equivocado, já que seu objetivo principal era avaliar o autocontrole e a frieza dos alunos): Mojica pedia a um candidato que vestisse seu melhor terno; assim que o coitado aparecia, levava um balde de tinta na cabeça. Se reagisse, estaria reprovado. A prova das meninas era igualmente esdrúxula: alguns “professores” passavam a mão nas coxas das donzelas, que deveriam permanecer impassíveis. Arrepiou? Reprovou!

Para dar um toque mais sério ao curso, Mojica criou também os “testes de aptidão artística”, a que todos os candidatos a uma vaga na escola deveriam se submeter. Nesses testes ele dava notas a quesitos como “expressão artística”, “interpretação cênica” e “leitura de texto”, além de julgar a “presença de espírito” e até mesmo o “sistema nervoso” dos candidatos. O teste era seguido por um bizarro questionário, onde se perguntava, entre outras coisas, se o candidato sabia nadar, jogar futebol e lutar caratê.

Com a inauguração da Apolo, Mojica, que já tinha o nariz empinado, ficou mais convencido ainda. Passou a exigir que seus alunos o chamassem de “mestre” e mandou confeccionar cartões de visita com os dizeres: “José Mojica Marins – Diretor Cinematográfico”. Sua soberba continuou causando problemas: no início de 1954, foi à Aeronáutica apresentar-se ao serviço militar. Seu pai já havia conseguido um “pistolão” para que ele escapasse do quartel, mas sua falta de senso de ridículo quase pôs tudo a perder. Quando perguntaram a sua profissão, ele estufou o peito e disse: “diretor de cinema!”. Um major achou tantra graça que mandou Mojica andar de quatro na frente do pelotão, enquanto os oficiais se revezavam chutando sua bunda. Depois de levar duas dúzias de pontapés, ele implorou para ir ao banheiro e fugiu por uma janela. Só foi tirar o certificado de dispensa militar quinze anos depois, quando o governo anistiou todos que estavam em falta.

Mojica não se deixou abater pelo episódio humilhante e continuou determinado a fazer cinema. Pediu a seu amigo Francisco Neto, filho do comerciante de ferro-velho, que lhe apresentasse a alguns espanhóis abastados, para tentar convencê-los a investir na Apolo. A família de Francisco era muito influente na comunidade espanhola de São Paulo e costumava organizar festas que reuniam todo o “soçaite” hispânico.

Foi numa dessas festas, em junho de 1954, que Mojica bateu os olhos numa morenaça de parar o coração: olhos castanhos, uma boca vermelha como um morango e cabelos negros que caíam sobre um pescocinho fino. Seu nome era Patrocinia Mataran Alcaraz, mais conhecida como Rosita Soler, uma artista que fazia bastante sucesso cantando num programa de músicas espanholas da Rádio América e dançando flamenco no Teatro Odeon, no largo da Concórdia. Mojica ficou vidrado. Chegou perto da belezoca e apresentou-se como um famoso diretor de cinema. Rosita riu, soltou um gracejo e foi para o salão ser adulada. A falta de atenção dela mexeu com os brios de Mojica. Afinal, não era qualquer uma que podia esnobar o diretor de cinema mais famoso de Vila Anastácio!

 

Todos os esforços para arrancar dinheiro dos espanhóis ricos foram inúteis. Cansado de esperar, Mojica começou a preparar o primeiro longa-metragem da Apolo, Sentença de Deus, um dramalhão sobre uma família rica que se vê na miséria depois do suicídio de seu patriarca. Seu plano era rodar alguns minutos da fita e usar as cenas para atrair investidores. Nessa mesma época, matriculou-se na escola um jovem espanhol chamado Manoel Augusto Sobrado Pereira. Augusto havia chegado ao Brasil sete anos antes, vindo de Chantada, um vilarejo no noroeste da Espanha. Mojica simpatizou com ele: tinham praticamente a mesma idade, amavam a Espanha e eram mulherengos incorrigíveis. Passavam horas conversando sobre as “calientes” espanholas e gabando-se de suas conquistas amorosas. Foi durante um desses papos que Augusto disse conhecer a grande artista Rosita Soler.

- Me traz ela aqui que você não paga nem mensalidade – entusiasmou-se Mojica.

Não se sabe como, mas Augusto de fato conseguiu aproximar-se do pai de Rosita, João, e convenceu-o que sua filha deveria fazer um filme com Mojica. “Trata-se de um diretor de cinema extraordinário”, dizia Augusto, ousando a lábia que, anos depois, faria dele um dos maiores produtores de cinema de São Paulo. “José Mojica Marins é filho de um dos maiores toureiros espanhóis, e está prestes a rodar um grande filme, Sentença de Deus.  O papel principal parece que foi feito para Rosita!” O pai da donzela caiu na lorota e combinou de visitar o tal “gênio do cinema” no dia seguinte.

Mojica mandou seus alunos limparem o estúdio para receber as visitas e caprichou no visual: vestiu seu terno de linha branco e enfeitou-se com anéis e um lenço vermelho no bolso do paletó. Estava um verdadeiro dândi. Rosita chegou acompanhada da família inteira, inclusive irmãos e avós. Mojica, cheio de pompa, beijou a mão dela e de quem mais estivesse ali. Depois falou de seu filme, “uma história majestosa de paixão, ódio e vingança”, e foi empurrando o roteiro em suas mãos. “Decore a sua parte e volte daqui a uma semana para o teste. Dezenas de atrizes estão disputando o papel, mas sinto que você tem grandes chances”.

Era tudo armação, é claro. Ele daria o papel para Rosita de qualquer maneira, mas era sempre bom se fazer de difícil. A moça voltou para casa maravilhada com o profissionalismo do famoso diretor. Na semana seguinte, quando retornou ao estúdio, deu de cara com Francisco, e imediatamente lembrou que já conhecia Mojica da festa. Este safou-se com uma pérola, que adora repetir até hoje: “Nada acontece por acaso, tudo tem uma razão de ser”.

Rosita fez o teste e saiu-se maravilhosamente bem. Mas Mojica, ainda bancando o profissional, pediu que ela esperasse mais alguns dias pela resposta definitiva. Quando a moça já estava ficando louca de expectativa, ele a procurou e disse: “Parabéns o papel é seu!”. Depois convidou-a para sair e comemorar. Não demorou para que os dois começassem um namoro firme.

Alguns dias depois, Mojica estava passeando com Hélio Bolim pela avenida Duque de Caxias, no centro, quando viu uma mulher espetacular saindo de um carro e entrando num prédio chique. Perguntou ao porteiro quem era o avião. Tratava-se de Nancy Montez, o “broto louro de Cuba”, uma dançarina de rumba que estava se apresentando numa boate chique na rua Augusta. Mojica nunca tinha ouvido falar dela, mas resolveu ir até a boate checar os dotes da moça. Quando Nancy apareceu, com um shortinho minúsculo que deixava à mostra sua cinturinha fina e umas pernas de derreter iglu, Mojica não acreditou em tanta gostosura. Precisava ter aquela mulher em seu filme de qualquer maneira!

Ele passou alguns dias pensando numa maneira de impressionar a rumbeira, até que teve uma ideia maluca: levou Hélio Bolim e dez alunos para a porta do prédio da moça e ficou à espreita. Quando ela desceu, acompanhada de dois marmanjos, os alunos simularam uma pancadaria dos diabos na calçada. A briga assustou os cubanos, mas Hélio e Mojica surgiram do nada, gritando: “Parem com isso, seus vagabundos! Cuidado com a senhorita!”. A turma fingiu que se assustou com os gritos e saiu correndo.

Um dos homens agradeceu a ajuda. Era o pai de Nancy. Mojica apresentou-se e deu seu cartãozinho. Quando o sujeito leu “diretor de cinema”, comentou: “Que coincidência! Minha filha já trabalhou em alguns filmes!” Ao que Mojica retrucou: “Nada acontece por acaso, tudo tem uma razão de ser. O seu destino é trabalhar comigo!”. Nancy achou graça. Três dias depois, aceitaria um papel em Sentença de Deus.

 

As coisas estavam começando a dar certo. Mojica, impressionado com a lábia de Augusto, decidiu recompensá-lo e promoveu-o a gerente da Apolo. Com Augusto no comando, a escola cresceu: ele publicou anúncios em vários jornais, ampliou a divulgação e começou a organizar o caixa da empresa. Cada dia chegavam mais candidatos. Mojica e Augusto passaram a viver das mensalidades de seus pupilos e iniciaram uma venda de cotas para a produção de Sentença de Deus.

O sistema de cotas não era exclusivo de Mojica. A Apolo tinha diversas concorrentes, entre elas a Hércules, uma escola liderada pelo ator Renato Ferreira, que também costumava recolher colaborações de estudantes para financiar suas fitas. A escola de Ferreira durou vários anos, mas fechou as portas depois que ele torrou a grana dos alunos no faroeste Éramos Irmãos, tão ruim que logo foi apelidado de “Erramos, Irmãos!”.

Mojica e Augusto sabiam que as cotas não renderiam o suficiente para produzir Sentença de Deus. Precisariam atrair investidores de qualquer maneira. Passaram a ir juntos às festas chiques da comunidade espanhola, posando de magnatas do cinema e tentando persuadir algum ricaço a investir no filme. Era uma situação cômica: dois pobretões botando banca de milionários. Augusto estava tão duro, que não tinha nem onde morar. Nos primeiros meses de 1955, o pai de Mojica foi contratado para tomar conta de outro cinema, o Casa Verde, no bairro de mesmo nome. A família Marins mudou-se para o cinema e levou Augusto, que passou a dormir num quartinho atrás da tela.

Durante meses, Mojica e Augusto procuraram algum otário disposto a investir em Sentença de Deus. Enquanto isso, os alunos da Apolo começaram a se impacientar com a demora para o início das filmagens prometidas. Em maio de 1955, o aluno Francisco Rimonato, irritado porque Mojica se negara a fornecer recebido por uma cota de participação que um filme que custava a sair (e que, de fato, nunca sairia), contou o caso ao ator Milton Ribeiro, seu conhecido. Milton, famoso pelo sucesso internacional de O Cangaceiro, acionou o repórter Guarany Edu Gallo, do jornal Equipe Artística, e foi com ele ao estúdio da Apolo.

Gallio e Ribeiro pressionaram Mojica e ele começou a mentir a torto e a direito: primeiro disse que Tony Rabatoni, grande fotógrafo da Vera Cruz, faria a fotografia de seu novo filme. Depois garantiu que Antarctica, Brahma e Mesbla já haviam liberado a verba da nova produção da Apolo. Para finalizar, jurou que era “primo em segundo grau” do famoso José Mojica, o padre cantante.

A reportagem foi massacrante: “Milton Ribeiro desmarcara chantagistas”, ou o “Charle Chaplin da Freguesia do Ó”, como escreveu Gallo, foi chamado de cabotino, vigarista e ignorante. O repórter classificou a Apolo de “arapuca para incautos” e descreveu o estúdio como “um barracão sombrio, sórdido, destituído de qualquer ventilação, e onde falta água até para beber”. Gallo zombou ainda do português incorreto de Mojica (“Mojica...nos ‘expricou’ tudo”) e Milton Ribeiro concluiu: “Trata-se de um caso de psiquiatra!”. Para ilustrar a ignorância de Mojica, o repórter transcreveu um de seus poemas, que adornava uma parede do estúdio:

Quando em apuros você cair,

Não deixes que por só se tomem,

Procure ajuda pedir,

Pois, para isso, eres homem.

 

Mojica ficou desesperado: se o pai de Rosita lesse aquele jornal, nunca deixaria sua filha participar do filme!

- Só há uma solução: vamos comprar todos os exemplares!

O Equipe Artística era um jornal semanas, com uma tiragem de 5 mil exemplares. Mojica mandou reunir seus alunos, pegou metade da grana arrecadada com as cotas de Sentença de Deus e distribuiu o dinheiro entre o pessoal.

- Quero que vocês comprem todos os exemplares do Equipe Artística, entenderam? Não pode sobrar nenhum na banca!

Em poucas horas a turma comprou mais de 3 mil exemplares. Mojica deu um giro pela cidade e respirou aliviado quando não encontrou um jornal á venda.

Na manhã seguinte, o diretor do jornal, Wilson Brasil, quase soltou um rojão de felicidade ao ser informado de sua vendagem extraordinária. Nunca, em seus cinco anos de existência, o Equipe Artística havia vendido tanto. Ficou tão satisfeito que mandou reimprimir a edição. Quando Mojica viu a nova edição, não teve forças – nem dinheiro – para comprar tudo de novo. Era um círculo vicioso. Então tomou coragem, foi à redação e ajoelhou-se na frente do repórter Guarany Edu Gallo, implorando para que ele parasse com aqueles artigos. Mojica abriu seu coração: disse que não era picareta, que estava com medo de ser assassinado pelos pais dos alunos, e jurou que iria procurar um estúdio adequado. Mas Gallo só se comoveu mesmo quando ele contou sobre a compra dos exemplares. No fim, toda aquela choradeira não deu em nada: o jornal foi publicado e ninguém percebeu.

 

 

Mojica e Augusto continuaram arrancando cada centavo que podiam dos alunos. Em junho de 1955, haviam arrecadado um bom dinheiro. Ainda não era o suficiente para pagar o filme todo, mas pelo menos daria para os primeiros dias. Mojica decidiu começar logo a filmar Sentença de Deus e reservou para si mesmo o papel principal, o de um rapaz íntegro que, ao ver sua família perder toda a sua fortuna, acaba se envolvendo com marginais. Rosita faria o papel de uma dançarina de cabaré.

A filmagem seguia aos solavancos: eles rodavam por um ou dois dias e depois paravam por um mês, até conseguirem dinheiro para as cenas seguintes. Enquanto isso, as aulas na Apolo continuavam a todo vapor. A escola crescia e o galpão na Freguesia do Ó logo ficou pequeno para abrigar tantos alunos. Mojica transferiu a escola para um salão maior na rua Haddock Lobo, no Jardim Paulista, e depois para uma sobreloja na rua Frederico Abranches, 104, no centro.

No fim de 1955, ele teve a ideia de organizar um espetáculo de danças espanholas, aproveitando a fama de Rosita. Falou de se projeto para o chefe de um grupo de bailado espanhol do Teatro Odeon, que sugeriu contratar também o cast de cantores da Rádio América. A coisa começava a se complicar: o que deveria ser um pequeno show de flamenco estava se transformando numa superprodução. Mojica, impulsivo e inexperiente, convenceu seus alunos a organizar uma “vaquinha” para financiar o espetáculo:

         - Se quisermos ganhar dinheiro, temos que arriscar! Com o dinheiro desse show podemos terminar Sentença de Deus!

         O pessoal se empolgou. Três alunos chegaram a hipotecar suas casas para ajudar na empreitada. A essa altura o espetáculo mais parecia um musical da Broadway: havia mais de cem artistas envolvidos, entre dançarinos, músicos e coreógrafos. Mojica, num ataque de megalomania, resolveu alugar um estádio de futebol em Sorocaba com capacidade para 7 mil pessoas, e agendou o espetáculo – batizado de “Um Fim de Semana na Espanha” – para os dias 24 e 25 de dezembro, em pleno Natal.

         A trupe chegou em Sorocaba quatro dias antes do show, para ter tempo de ensaiar e dar os ajustes finais. Os dançarinos e cantores ficaram hospedados em hotéis, tudo por conta da Apolo. Mojica, que nunca havia dançado na vida, conseguiu uma ridícula fantasia de cigano e coreografou um pas de deux com sua namorada Rosita. Estava realmente convencido de que o show seria um sucesso.

         Os sorocabanos, no entanto, não se animaram a sair na noite de Natal para ver Mojica rodopiando pelo palco. No dia 24, estreia de “Um Fim de Semana na Espanha”, apenas setenta pessoas pagaram ingresso. Mojica tratou de tranquilizar a turma:

         - Calma, gente! O que deve ter acontecido é que o pessoal preferiu passar o Natal com suas famílias. Mas amanhã isso aqui vai ficar lotado!
         No dia seguinte, havia mais dançarinos no palco do que espectadores nas arquibancadas. Menos de trinta bilhetes foram vendidos. Mojica e seus alunos voltaram para São Paulo numa pindaíba de dar pena. Alguns tiveram de fugir do hotel pela janela para não pagar a diária.

 

         Com esse rombo nas finanças da Apolo, estava ficando cada vez mais difícil filmar Sentença de Deus. Numa manobra desesperada, Mojica inventou de vender ingressos antecipados para o filme. A pessoa comprava o bilhete e ficaria esperando até que a fita estreasse. Apesar do absurdo da ideia, os alunos conseguiram vender 2 mil bilhetes para parentes e amigos. Mas o empreendimento acabou causando uma tremenda confusão, quando estreou em São Paulo um filme americano chamado A Última Sentença. O pessoal achou que era o mesmo filme e fez fila na porta do cinema. Depois de barrados pelo gerente, chamaram a polícia e denunciaram Mojica, que teve que devolver o dinheiro.

         Sentença de Deus parecia mesmo destinado ao fracasso: no início de 1956, uma das atrizes do filme, Conchita Espanhol, morreu afogada numa piscina dentro dos estúdios da Vera Cruz. Semanas mais tarde, Nancy Montez, o “broto louro de Cuba”, mudou-se para o Rio de Janeiro e abandonou as filmagens. Mojica sabia que não teria condições de terminar o filme sem as duas atrizes. Para compensar um pouco sua frustração, procurou uma conhecida, a escritora Aldenoura de Sá Porto – autora feminista, elogiada até por Monteiro Lobato – e pediu que ela escrevesse uma adaptação da história de Sentença de Deus. O livro chegou às lojas no fim de 1956, com uma bela foto colorida na capa, mostrando Mojica carregando em seus braços Nancy Montez, que aquela altura deveria estar sacudindo os quadros em boates cariocas.

         A depressão tomou conta da Apolo. Para evitar debanda dos alunos, Mojica iniciou outro filme, ironicamente batizado de No Auge do Desespero. Seria uma fita bem mais simples, sobre três amigos que ficam presos numa montanha após um desabamento. No dia da filmagem, no entanto, desabou um temporal pavoroso que derrubou todo o cenário. O projeto foi engavetado.

         No meio de tanta desgraça, pelo menos uma coisa boa aconteceu para Mojica: depois de dois anos de namoro, Rosita finalmente concordou em casar-se com ele. Quem não gostou nada da notícia foi o pai dela, João, que a essa altura já sabia que ele era um pé-rapado: “Você só casa com minha filha se eu estiver morto e enterrado”.

         Para sorte de Mojica, os irmãos e a mãe de Rosita, dona Maria, simpatizavam muito com ele, e concordaram em armar um complicadíssimo cambalacho para convencer o patriarca. Certa manhã, Rosita saiu de casa dizendo que ia comprar pão e se mandou para a casa da avó. João, supondo que a filha estivesse com Mojica, foi à casa dele buscá-lo. Antônio atendeu a porta e disse: “João, meu filho fugiu com Rosita para a Argentina e disse que só volta depois que você consentir com o casamento”. Muito a contragosto, o coroa, mas, para provar seu desagrado, nem compareceu ao casamento.

         Mojica e Rosita alugaram uma casinha em frente ao Cine Casa Verde, na praça do Centenário, e marcaram a cerimônia na igreja para o dia 23 de fevereiro de 1957. Duas horas antes da festa, Mojica foi com o amigo Francisco Neto a um alfaiate no Bom Retiro biscar o belo terno preto que havia encomendado para o casório. Enquanto provava o terno, caiu uma tempestade que inundou o rio Tietê e alagou o bairro todo.

         Francisco sugeriu esperarem um pouco até a água descesse, mas Mojica, nervoso, resolveu arriscar. Os dois entraram no velho Mercury-Sedan de “seu” Antônio e partiram para a igreja. Cinco quarteirões depois, deram de frente com um lago que havia se formado numa esquina. O calhambeque parou no meio da poça e não pegou mais. Desesperado, Mojica viu a lama entrando pelas portas. Teve de sair do carro, todo coberto de barro, e voltou os cinco quarteirões a pé até o alfaiate, enquanto Francisco procurava ajudar para rebocar o Mercury Sedan. Mojica convenceu o alfaiate a emprestar-lhe outro terno e lavou-se numa pia. Meia hora depois, Francisco apareceu. Havia conseguido rebocar o carro até um mecânico, que secou o motor e ainda deu uma rápida lavada nos bancos, sem no entanto tirar o futum de lama. Os dois entraram novamente na caranga e chegaram à igreja com uma hora de atraso. Mojica tinha barro nas orelhas e cheirava a cachorro molhado. O casamento já começava mal...

 

Publicado originalmente em BARCINSKI, André & FINOTTI, Ivan. Maldito: a vida e o cinema de José Mojica Marins, o Zé do Caixão. São Paulo: Editora 34, 1998.

sexta-feira, 22 de julho de 2022

Mojica early years, parte III: 1938-1950: Vila Anastácio

Capítulo 2: 1938-1950: Vila Anastácio

 


Por André Barcinski e Ivan Finotti

 

José mal havia completado 2 anos quando os Caruso venderam a propriedade e a família Marins teve de sair da Vila Mariana. Vicente, Carlos paz e as duas filhas mudaram-se para uma casa no Tatuapé, levando junto dona Conceição e sua filha, Conceição, que estava noiva de um alfaiate chamado Atílio. Já Antônio e Carmen ficaram com uma mão na frente e outra atrás: sem casa, sem emprego e com um filho pequeno para criar. Antônio resolveu apelas para seu amigo João Caruso, que prometeu fazer de tudo para ajudá-lo. Poucos dias depois, João voltou à chácara com uma boa notícia:

- Antônio, tenho boas novas! Você se lembra da minha sogra, a Clementina? Ela construiu um cinema em Vila Anastácio, na Lapa, e está precisando de um gerente. Você não quer o emprego?

- Um cinema? Mas eu nunca entrei num cinema!

João tranquilizou o primo. Era moleza, disse. Tudo o que ele tinha a fazer era tomar conta da bilheteria e deixar o cinema limpo.

- Falei para a minha sogra que você tomou conta sozinho da nossa chácara e ela disse que o emprego é seu. O salário não é grande coisa, mas vocês podem morar de graça num puxado de dois quartos que ela tem nos fundos do cinema.

Antônio e Carmen não tinham outra opção. Em maio de 1938, fizeram as malas e carregaram o pequeno José para o Cine Santo Estevão, na rua Martinho de Campos, 386, Vila Anastácio, distrito da Lapa.

 

Após quatro anos de uma vida de sonhos no casarão de Vila Mariana, a mudança para a Vila Anastácio foi uma volta à realidade para os Marins. Não haveria mais as noitadas musicais na varanda dos Caruso, nem os banquetes de jaboticabas e mangas no pomar da chácara. Seus vizinhos não seriam mais os políticos e empresários que habitavam as casas chiques de Vila mariana, mas operários, empregadas domésticas e motoristas de ônibus.

A Vila Anastácio era um típico bairro proletário, com casas de um único pavimento intercaladas por armazéns e depósitos. Os mais pobres moravam em cortiços. As ruas eram de terra. Não havia calçamento, nem iluminação pública, e o esgoto corria a céu aberto. Imensas fábricas cinzentas circundavam toda a área.

A imigração havia transformado o bairro num cadinho de raças: a rua dos Marins, a Martinho de Campos, era dominada por húngaros, assim como as ruas Conselheiro Cândido de Oliveira e Conselheiro Olegário. Lituanos eram maioria nas ruas Caiapós, Camacam e Benedito Campos Moraes, quanto italianos e portugueses dividiam as ruas Bartolomeu Paes, Alvarenga Peixoto e Conselheiro Ribas. Apesar dessa mistura toda, os moradores se entendiam. Os times de futebol de bairro dividiam-se por nacionalidade e disputavam pelas acirradas, porém amigáveis. As crianças de Vila Anastácio divertiam-se aprendendo palavrões em vários idiomas. José nem bem começou a falar e logo aprendeu a xingar a mãe dos outros em seis línguas diferentes.

O Cine Santo Estevão era um cinema simples, de um único andar, chão de taco e pouco mais de seiscentas cadeiras de madeira. Como o cinema atendia basicamente aos moradores do bairro, quase todos operários, não havia sessões durante o dia, exceto em finais de semana. Durante a semana só eram exibidos filmes às terça e quintas, sempre ás 19h30. Um ingresso dava direito a uma sessão dupla, geralmente uma chanchada brasileira e um filme de aventura americano. Nos fins de semana havia também uma matinê, às 14h30, na qual eram exibidos desenhos animados, filmes de Tarzan e seriados de Flash Gordon.

Antônio logo descobriu que administrar um cinema não era tão simples quanto João Caruso fez parecer. Suas tarefas incluíam pintar os letreiros, limpar a sala, tomar conta da bombonière e buscar as cópias dos filmes nas distribuidoras no centro da cidade. Quando faltava gente, ele dobrava como bilheteiro e, às vezes, até projetava os filmes. Era trabalho duro, sem direito a folga. Ás segundas-feiras, Antônio se ocupava de decorar a fachada do cinema com temas relativos ao filme que estrearia no dia seguinte. Se era um filme de Tarzan, ele colava arbustos e desenhava cobras e outros bichos, imitando uma floresta. Quando era um filme romântico, Antônio pintava grandes corações vermelhos e anjos segurando arcos.

Não demorou para a família Marins se enturmar no bairro. Eles frequentavam as festas espanholas nos clubes Camacan e Santo Estevão – onde Carmen dançava flamenco – e não perdiam a missa de domingo na igreja de Santo Estevão. Aos sábados de manhã, antes da matinê, Antônio levava José para assistir ao futebol de várzea, jogado às margens do rio Tietê. Como a maior parte da comunidade espanhola de São Paulo, os dois torciam para o Madrid, um time formado por carvoeiros espanhóis que dominou os torneios de várzea na cidade nos anos 30 e 40. O pequeno José adorava também o Corinthians, time preferido dos hispânicos.

O Cine Santo Estevão rapidamente passou a fazer parte da rotina dos moradores de Vila Anastácio. Naquela época pré-televisão, o cinema era um dos grandes pontos de encontro da comunidade, e a Lapa era bem-servida de salas. O primeiro cinema do bairro, o Cine-Teatro Recreio, havia sido inaugurado em 1911. Até a inauguração do Santo Estevão, os moradores de Vila Anastácio frequentavam outros cinemas da região, como o Cine Santa Maria, o Lapa Cinema e o famoso Cine-Teatro Carlos Gomes. Muitos desses cinemas funcionavam também como local para shows e até bailes. Durante o carnaval, Antônio desaparafusava as cadeiras do cinema, lustrava o piso de taco e organizava animados bailes, com banda e tudo. Os foliões de Vila Anastácio passavam os quatro dias dando voltas no pequeno salão, cantando “Ala-la-ô” e jogando confete. Uma farra. Só havia um porém: como o piso era em declive, de vez em quando um folião mais empolgado escorregava no chão liso e arrastava vinte para o fundo do salão.

O Santo Estevão vivia lotado. Por volta de 1942, o cinema ia tão bem que Antônio já não estava dando conta de tanto trabalho. Decidiu contratar alguém para ajudá-lo na bilheteria. Sempre pensando no bem-estar da família, ofereceu o emprego a Atilio, marido da cunhada, Conceição. Atilio e Conceição haviam acabado de ter uma filha, Lurdes, e estavam em sérias dificuldades financeiras. Antônio propôs que Atilio trabalhasse à noite na bilheteria do cinema em troca de moradia. Havia um pequeno apartamento de quatro e cozinha, colado à sala de projeção, onde Atilio, Conceição e a pequena Lurdes poderiam morar.

A combinação foi boa para todos: Atilio, que durante o dia trabalhava como alfaiate, ficaria à noite na bilheteria, em troca do aluguel. Carmen e Conceição, as duas irmãs, se revezariam tomando conta de José e Lurdes, o que daria mais tempo a Camen para cuidar da bombonière. Conceição mal podia conter a felicidade por estar novamente ao lado de sua adorada irmã. Também ficou extasiada quando percebeu que, de sua cozinha, podia ver a tela do cinema (durante os anos seguintes, ela iria adquirir uma respeitável formação cinematográfica assistindo aos filmes enquanto lavava louça).

Foi por volta dessa época que Antônio começou a organizar shows de música no cinema. O Santo Estevão, assim como vários antigos cine-teatros, tinha um pequeno palco em frente à tela. Ás sextas-feiras, dia em que não havia sessão, apresentavam-se lá alguns dos grandes nomes da época, como Dircinha Batista, Nélson Gonçalves, Aurora Miranda e Orlando Silva. Mas o show que realmente marcou época em Vila Anastácio foi o de Vicente Celestino, no fim de 1942. Antônio, fã de carteirinha do cantor, passou a semana inteira preparando o cinema para receber o astro: ele lustrou o palco, retocou a pintura da fachada e limpou as cadeiras. Deixou tudo um brinco. Na noite do concerto, vestiu um paletó, alinhou seus cabelos com gomalina e arriscou até mesmo uma raríssima borrifada de perfume. Mandou Carmen botar um vestido bonito e arrumar José com capricho.

- Temos que dar uma recepção de luxo para esse homem! – disse.

Uma hora antes do show, já havia gente de pé nos corredores do cinema. Era uma noite de gala para os operários de Vila Anastácio: carregadores de caixa de linguiça vestiram fraques; fiandeiras tiraram do armário seus vestidos longos. Nunca o Santo Estevão viveram noite tão chique. Só havia um problema: Vicente Celestino não chegava.

- Meu Deus, o que é que eu vou fazer se ele não vier? Esse pessoal vai me matar! – grunhiu Antônio, enquanto esperava nervoso na porta do cinema, ouvindo o zunzunzun da multidão do lado de dentro.

- Calma, Antônio! – disse Conceição. – você sabe como são esses astros...

- Ele é um profissional – completou Atilio – Não vai faltar com seus compromissos.

O martírio de Antônio durou outros trinta minutos. O público já estava assoviando impaciente, quando os carros que traziam Celestino e seu grupo finalmente chegaram à porta do teatro. Eufórico, Antônio aproximou-se do cantos para saudá-lo:

- Senhor Vicente! É um prazer recebe-lo!

Celestino saiu do carro e andou alguns passos na direção de Antônio, cambaleando.

- Ih, Atilio, acho que ele está bêbado – cochilou Conceição.

Celestino estava, de fato, chumbado, tão zonzo que teve de ser praticamente carregado para dentro do cinema. Seu motorista, no entanto, fez questão de tranquilizar Antônio:

- Fique sossegado que, assim que ele subir no palco melhora!

E melhorou mesmo. Apesar de seu estado etílico preocupante, Celestino deu um show irrepreensível. A cada canção o público aplaudia com mais intensidade. Foram três “bis” e uma ovação no fim, quando cantou seu grande sucesso “O Ébrio”. José assistiu a tudo da cozinha da tia, aplaudindo junto com a mãe. Quando o show terminou, por volta de onze da noite, o cantor deixou seu carro esperando e, a convite de Antônio, foi tomar um lanche em sua casa. Conceição e Carmen serviram café e biscoitos de nata preparados especialmente para a ocasião.

- A senhora não tem nada mais forte? – perguntou Celestino.

- Ah, está fraco o café? – respondeu Conceição.

- Não, o café está ótimo! Eu só queria algo mais forte, talvez uma cerveja, se não for incômodo...

Antônio correu para a geladeira e abriu a primeira de várias garrafas. Em pouco tempo, Celestino se descontraiu: falou da sua vida, contou piadas e casos extraordinários sobre suas viagens pelo Brasil, sempre esbanjando simpatia. Antônio e Atilio, que também não dispensavam uma gelada, entraram no papo, sem se preocupar com as horas. A conversa rolou noite adentro. Já passava das duas da manhã quando o astro se despediu dos Marins, prometendo voltar qualquer dia. Celestino abraçou Antônio e Atilio e beijou as mãos de Carmen e Conceição. Era um cavalheiro. Os Marins estavam tão emocionados pela atenção dispensada, que nem perceberam o pequeno José, ainda acordado, de olhos vidrados em Vicente Celestino...

 

José levava uma vida excitante. Seu pai era, afinal de contar, um homem de espetáculos. Não importava que Antônio Marins fosse apenas o gerente de um pequeno cinema de bairro: José havia conhecido Vicente Celestino; Aurora Miranda o havia levantado no colo. Em sua mente de criança, ele via o pai como um homem importante e respeitado. Antônio, ás vezes, juntava-se ao irmão Miguel e ia tourear no famoso Circo Chic Chic, que excursionava pelo interior de São Paulo e Paraná. Aos 8 anos, José acompanhou o pai em duas ou três dessas excursões. Antônio lhe deu uma tarefa importantíssima: ele ficaria responsável por catar as moedas e os chapéus que o público jogava na arena. Depois do espetáculo, o pequeno José corria pela plaza improvisada, recolhendo as pratinhas e agradecendo os aplausos. Pela primeira vez sentiu-se como um verdadeiro artista.

É lógico que as touradas do Chic Chic não eram sangrentas como as da Espanha: o touro não terminava o espetáculo atravessado por espetos; apenas um pouco tonto com os “olés” e as risadas da plateia. A especialidade de Antônio era um truque dificílimo que arrepiava as senhoras presentes: ele sentava numa cadeira bem no meio da arena, com as mãos amarradas e com um lenço vermelho na boca. O touro investia contra ele e, com um jogo de corpo, Antônio não só se esquivava como ainda prendia o lenço no chifre do animal. José pediu ao pai que lhe contasse o segredo do truque.

- Os touros, meu filho, sempre atacam de olhos fechados. Eles miram, fecham os olhos e avançam numa reta só. Quando ele chega perto, eu dou um jogo de corpo e saio da frente. Colocar o lenço no chifre usando a boca exige treino, mas o importante é sair da frente na hora certa. Quanto ás vacas, essas são perigosas, porque atacam de olhos abertos. Por isso não é possível fugir delas na última hora.

 

José teve suas primeiras experiências cinematográficas nas matinês do Santo Estevão. Seus finais de semana eram os melhores que uma criança poderia desejar por volta de meio-dia, depois de passar a manhã inteira brincando com seus colegas num terreno baldio próximo ao cinema, ele voltava para asa, onde sua mãe lhe dava um banho caprichado, vestia-o e servia o almoço. Sua tia Conceição preparava bolo de fubá, pastéis de nata e outras guloseimas. Depois do banquete, José subia para a cabine de projeção do cinema. Era lá, sentado ao lado do projetor barulhento, que ele gostava de assistir aos seriados. Seu favorito era Flash Gordon, o herói espada! os colegas de rua o invejavam:

- Que sortudo você é! Assiste os filmes de graça!

José logo percebeu o trunfo que tinha nas mãos e começou a tirar partido de sua posição privilegiada. Ele passou a trocar ingressos para o cinema por botões de galalite ou revistas em quadrinhos. Quando seu pai permitia, ele convidava seus colegas para assistir aos filmes. Certa vez, exagerou na bondade e levou os amigos para uma matinê. Quando Antônio viu aquela molecada toda ocupando as primeiras filas do cinema, ficou furioso:

- José! Você quer me levar à falência?

- Mas, pai... O senhor disse...

- Eu disse que podiam chamar um colega, não cinquenta! Desse jeito não via sobrar criança no bairro para assistir à sessão! – e expulsou toda a turma, incluindo seu filho.

O pequeno Marins era o garoto mais mimado de Vila Anastácio: era o único, entre seus colegas, a andar sempre de sapatos. Vivia limpinho, bem-vestido e penteado. Sua mãe o enchia de presentes; seu pai, de orgulho. Ele nunca se acostumou a ser contrariado, e não precisou dividir a atenção dos pais contra outra criança (Carmen sofreria um aborto em 1946 e nunca mais engravidaria). Logo José começou a se achar mais importante que seus colegas. Com o passar dos anos, sua empáfia foi crescendo, assim como seu carisma e espírito de liderança. Estava longe de ser o valentão do bairro, e tampouco se destacava na bola, na pipa ou no pião. Mesmo assim, parecia exercer um domínio sobre as outras crianças de Vila Anastácio.

José tinha também um fascínio pela fantasia. Nem bem aprendera a ler e começou a colecionar gibis. Comprava diariamente revistas como Globo Juvenil, O Guri e O Mirim. Também não perdia um número das incríveis Coleções King, álbuns de luxo com histórias de Walt Disney, Mandrake, Príncipe Valente e Flash Gordon e que traziam na borda de cada página um “cineminha” com desenhos que pareciam movimentar-se quando as páginas eram folheadas rapidamente. José resolveu criar uma “gibiteca” em casa, cobrando uma bolinha de gude ou figurinha de cada criança que quisesse passar algumas horas folheando suas revistas.

Não demorou para ele demonstrar sua aptidão artística: aos 9 anos, começou a organizar pequenos shows de marionetes. Ele se trancava com os colegas no porão do cinema, que era usado como depósito, e criava suas próprias peças com bonecos de papelão e tecido. José vivia num mundo de faz-de-conta: costumava andar pela Vila Anastácio fantasiado de índio, caubói ou astronauta. Inspirado por Buck Rogers, construía armas de raio paralisante e roupas espaciais. Não havia limites para sua imaginação: num dia, o terreno baldio em frente ao cinema era a superfície da Lua; no outro, era uma selva, tal qual as que ele via nos seriados de Tarzan. José e seus colegas encenavam peças ao ar livre e não tiravam as fantasias nem para comer.

Em 1945, o garoto entrou para a primeira série do Grupo Escolar Dr. Reinaldo Ribeiro da Silva, na rua Alvarenga Peixoto. Era um aluno bom e aplicado que, em pouco tempo, começou a se destacar por seu carisma, espírito de liderança e, principalmente, por sua excentricidade. Quando a professora Eulália precisou de um voluntário para liderar a encenação de Chapeuzinho Vermelho, ele foi o único a se oferecer.

- Eu quero trabalhar na peça, professora!

- E o que você quer fazer na peça, José?

- Tudo!

Ele não estava brincando. A professora percebeu – tarde demais – que o garoto levava a coisa muito a sério. José marcou ensaios para depois das aulas, fez testes para escolha do elenco e ajudou a fazer as roupas para todos os personagens. O que era uma simples peça de escola foi encarada como uma estreia no Municipal. José só se irritou quando, vencido por votação da classe, teve de escalar para o papel de Chapeuzinho Vermelho uma menina que havia se mostrado uma tremenda canastrona nos ensaios. O que ele não sabia é que a princesinha era filha do dono da mercearia e havia subornado a turma com paçocas e cocadas.

- Vocês não querem nem saber se a peça vai ser boa ou não – disse José, vivendo seu primeiro conflito entre tarde e comercialismo.

Os ensaios foram uma tragédia: por mais que o resto do elenco se esforçasse, a canastrona estragava tudo. Numa cena em que o lobo assustava Chapeuzinho Vermelho, a atriz, em vez de gritar feito uma celerada conforme ele exigia, soltava um gemido fracote. José prometeu a si mesmo que faria a incompetente gritar de qualquer maneira. No ensaio seguinte, levou uma lagartixa escondida no bolso e, na hora da cena do grito, arremessou o bicho nos cabelos encaracolados da menina. O truque deu certo: a canastrona gritou como nunca. Por meia hora. Também chorou e esperneou, arruinando o ensaio. José foi suspenso por uma semana e nunca mais dirigiu uma peça na escola.

 

Não demorou para a fama de excêntrico se espalhar pelo bairro. Para diferenciar o José “esquisito” dos vários outros Josés de Vila Anastácio, seus colegas passaram a chamá-lo pelo nome com que viria a ser conhecido pelo resto da vida: Mojica. José adorava seu nome, especialmente porque era parecido com o nome de um dos artistas mais famosos da época, o frei José de Guadalupe Mojica, um mexicano que fazia grande sucesso cantando em filmes americanos. Ele começou a se espalhar que era parente do “frade cantante”, o que só fez aumentar sua fama no bairro.

Essa popularidade, aliás, multiplicou-se depois que o pequeno Mojica recebeu elogios de ninguém menos que Mazzaropi, na época um famoso artista de circo, onde já interpretava o caipirão ingênuo que depois faria sucesso no cinema. Numa das inúmeras passagens de seu circo por Vila Anastácio, Mazzaropi promoveu um concurso de música com a garotada do bairro. Mojica cantou “Porta aberta”, de Vicente Celestino, e ganhou o primeiro prêmio, capa de toureiro.

Aos 10 anos, Mojica já não tinha interesse em jogar futebol nem em soltar pipa. Passava seus dias no cinema, brincando de teatrinho com os amigos ou lendo gibi. Não se empolgava nem com a diversão predileta da molecada do bairro, que era brincar nos lamaçais prestilentos que se formavam nos terrenos baldios depois das chuvas. Apesar de seu isolamento, fez alguns bons amigos: seu vizinho João Andusiac, mais conhecido como João Português, era o colega mais chegado. Também fez amizade com outros meninos do bairro, como José Curto Rodrigues, Jurandir da Silva, Fernando Francisco – o “Dinho” – e Abdul Ruhmann.

Mojica adorava o pai de Abdul, Roberto Ruhmann, um artista que fazia exibições de força em circos, arrebentando correntes e entortando barras de ferro. Sempre que ia à casa de Abdul, ele pedia a “seu” Roberto para contar histórias do circo. Roberto simpatizava com Mojica e presenteou-o com uma foto sua, em que aparecia sem camisa e em posição de luta, com os punhos cerrados e cara de mau. Mojica gostou tanto da fotografia que imitou a pose numa foto de sua turma da escola.

João Português morava no número 333 da Martinho de Campos, a 30 metros do cinema. Nos fundos de sua casa havia um galinheiro, onde Mojica e seus amigos costumavam fazer teatrinho com espadas de madeira e máscaras de Zorro. Eles passavam tardes inteiras inventando histórias e criando fantasias de cartolina e tecido. Mojica gostava de se fantasia de vampiro, com longas unhas e dentes de papelão.

Aos 11 anos, ele ganhou de seu pai uma máquina fotográfica e criou uma espécie de cineminha de terror, inspirado no famoso “Bat-sinal” de Batman. O truque era simples: ele tirava fotos com filmes preto-e-branco, mandava revelar o filme e colava os negativos na boca de uma lanterna de mão. Depois ia para algum lugar escuro e projetava a luz da lanterna numa parede branca, o que dava às imagens uma aparência fantasmagórica. Quando não havia sessão no Santo Estevão, Antônio deixava o filho projetar as imagens na telona do cinema.

Mojica e seus amigos eram considerados os “malucos” do bairro, e logo tornaram-se alvo de chacotas. Naquela época, o terror dos meninos de Vila Anastácio era um menino negro forte e atrevido chamado Gazuza. Ele era o líder de uma turminha braba, e ninguém passava na sua rua sem levar uns cascudos. Mojica e João eram seus sacos de pancada prediletos. Depois de apanha incontáveis vezes do gângster mirim, Mojica propôs um acordo: o valentão se abstinha de embolachá-lo e ele conseguiria com seu pai entradas de graça para o cinema. Gazuza tornou-se o maior cinéfilo da Vila Anastácio.

Mojica estava a salvo dos tabefes de Gazuza, mas não de suas gozações. Toda vez que passava pela rua fantasiado para uma de suas peças, ouvia os maiores impropérios:

- Olha lá o maricas! Fresco!

Ele corria para o galinheiro e só saía de lá quando Gazuza e seus capanguinhas haviam sumido. Certo dia, Mojica andava pela Martinho de Campos fantasiado de caubói, com chapéu de abas largas e estrela de xerife no peito, quando deu de cara com a gangue de gazuza. O celerado não poderia mesmo perder a chance de desafiar um homem da lei e, ignorando a trégua combinada, deu uma surra no xerife de Vila Anastácio.

 

Mas Gazuza não era o único terror na vida de Mojica. Desde pequeno ele se interessava por tudo que dizia respeito ao sobrenatural. Era uma época em que as crianças se reuniam nos campinhos de várzea, ao cair da noite, para contar histórias sobre almas penadas e lobisomens. Na Vila Anastácio havia vários terreiros de macumba e candomblé, e não foram poucas as vezes em que o menino subiu numa árvore para observar os pais-de-santo e as pombas-gira rondando ao som dos tambores.

Os pais de Mojica eram católicos mas, como muitos de seus vizinhos, requentavam um centro espírito no bairro. Dona Carmen acreditava em reencarnação e dizia ter o poder de se comunicar com parentes mortos. Essa mistura de religião e misticismo mexia com a cabeça do menino: quando seu primo Robertinho – segundo filho da tia Conceição – morreu de pneumonia, Mojica passou dias tentando conversar com seu espírito. Diversos episódios envolvendo a morte ou o sobrenatural ficaram gravados na mente de Mojica e ressurgiriam mais tarde como tema ou inspiração para seus filmes. Um deles – sem dúvida o mais marcante na vida do futuro diretor – beirava o surreal: a visão de Manoel, um quitandeiro querido em Vila Anastácio, levantando do caixão no meio do próprio velório. Verdade ou não – e muitos em Vila Anastácio confirmam o episódio, que teria sido provocado por um ataque de catalepsia -, o fato é que a imagem do cadáver abrindo os olhos ficou guardada para sempre na memória do menino e acabou inspirando, vinte anos depois, um episódio do filme Trilogia do Terror.

 

Não demorou para Mojica cansar-se do teatrinho mambembe que fazia com os colegas. Já se julgava um adulto. Como prova de maturidade e macheza, começou a fumar cigarros de folha de chuchu, verdadeiros mataratos que ele tragava numa rodinha com os amigos. Folheando uma revista certo dia, Mojica descobriu seu novo sonho de consumo: uma câmera 8 milímetros. Ele tanto insistiu com seu pai que acabou ganhando uma câmera como presente de aniversário de 12 anos. Depois disso, mal parava em casa: eram dias inteiros brincando com a máquina, ao lado de João Português, Abdul e Dinho.

Os primeiros experimentos da turma não passavam de brincadeiras de criança: filmavam o bairro, suas famílias, os vizinhos e colegas. Mojica conseguiu um projetor emprestado e exibiu seus primeiros filmes caseiros num lençol estendido em um varal no porão do cinema. Ele lembra do exato instante em que viu pela primeira vez uma de suas cenas – a fachada do Cine Santo Estevão – projetada na tela improvisada. Foi o dia mais feliz de sua vida.

A turma passou quase três anos usando a câmera diariamente. Pouco a pouco, seus experimentos foram se tornando mais complexos. Eles ainda não tinham muita preocupação com enredo ou continuidade, mas já haviam começado a filmar cenas esparsas de brigas e perseguições. Mojica era o mais esperto do bando e foi o primeiro a descobrir os conceitos elementares de montagem. Sem dispor de um sistema de edição, ele percebeu que poderia criar sequencias de ação na própria câmera, simplesmente filmando as cenas em ordem e trocando sempre o ângulo de visão.

Assim, para filmar uma cena de briga, ele se postava atrás de um dos atores e mandava que este desse um soco em um colega. Depois trocava o ponto de vista, filmando nas costas do sujeito que havia levado o murro. Quando projetavam o filme, a sequência parecia fluida e cheia de movimento (infelizmente, todo esse material, filmado entre 1958 e 1950, se perdeu).

O primeiro experimento da turma a merece o nome de “filme” – ou seja, o primeiro a ter um enredo com começo, meio e fim – foi o curta-metragem O Juízo Final, rodado em 1949, quando Mojica tinha apenas 13 anos. O filme contava a história de um ataque de naves espaciais à Terra. Para fazer as naves – que tinham formato de caixão de defunto – Mojica usou novamente o recurso do “Bat-sinal”, colando na boca de uma lanterna uma cartolina vazada com um buraco em forma de caixão e projetando o facho de luz numa parede. Antônio, um tremendo pai-coruja, achou o filma uma obra-prima e deixou que eles o projetassem na tela do Santo Estevão.

 

Com o tempo, Mojica foi ficando mais exigente: começou a reclamar da qualidade da imagem da câmera 8 milímetros (realmente péssima, já que o negativo era minúsculo) e tentou convencer seus amigos a comprarem uma máquina de 16 milímetros. Acabaram fazendo uma “vaquinha” e, em 1952, foram até uma loja no centro da cidade e comparam uma câmera Cinclox, movida a corda e com uma única lente. Mojica ainda não estava satisfeito. Se quisessem fazer filmes de verdade, precisariam também de um estúdio onde pudessem construir cenários. Sugeriu usarem o galinheiro do João Português, local espaçoso e escondido. “Não vai dar certo”, reclamou João. “Todo filme vai ter galinha no meio!”.

Mas não seriam cinquenta galinhas que destruiriam seus sonhos de grandeza. Como um thriller de detetive, só havia uma solução, drástica, porém necessária: as galinhas precisavam ser eliminadas! Mojica e João, decididos, foram até uma mercearia e compraram veneno de rato. Depois misturaram o pó à comida as infelizes. No dia seguinte, quando a mãe do João foi dar comida às penosas, cinco já estavam mortas. As outras pareciam meio grogues.

- Meu Deus, o que está havendo? Nunca vi galinhas tão brocoxôs!

Naquela mesma noite, outras seis passaram desta para melhor. João convenceu seus pais de que deveria tratar-se de alguma epidemia: “Isso pode pegar na gente, mãe!”. Assustados, os pais se livraram das galinhas sobreviventes e limparam o galinheiro, deixando o espaço livre para os “cineastas”.

Pelos meses seguintes não fizeram outra coisa senão filmar de todas as formas possíveis: Mojica subia numa escada e filmava de cima; depois deitava no chão e mandava os outros andarem por cima dele. Experimentaram filmar em baixa velocidade, para que a imagem, quando projetada à toda velocidade normal, parecesse acelerada. Depois fizeram o inverso, filmando em velocidade rápida e conseguindo o efeito de câmera lenta.

Mojica começou a tentar truques mais complexos: usando uma cartolina, ele tapava metade da lente, expondo apenas uma parte do filme. Depois retrocedia o filme no cartucho e filmava tapando a outra parte, conseguindo assim duas imagens distintas no mesmo fotograma. Usando esta técnica, eles rodaram uma sequência em que João parecia estar dividido ao meio: do lado esquerdo ele aparecia limpinho e, do lado direito, todo coberto de lama. O método serviu também para fazer sobreposição de imagens. Primeiro eles filmavam a rua, depois retrocediam o filme e filmavam uma vaca ou um cavalo, com cuidado de enquadrar o bicho numa posição que, quando gravado por cima da imagem da rua, parecesse estar no céu. Uma vaca nos céus de Vila Anastácio!

Eram apenas experiências, mas Mojica, orgulhoso, fazia questão de batizar cada uma delas com um nome pomposo, como se fossem filmes de verdade. Nesse esquema, fizeram Os Três Leões, um filme infantil em que Dinho, Jurandir e Ricardo, fantasiados de leões, tentavam convencer os humanos a não maltratar os animais. Rodaram também o filme policial A Encruzilhada da Perdição e Feitiçaria, um documentário sobre um centro espírita na Vila Anastácio, que pode ser considerado o primeiro filme de horror de Mojica.

 

Publicado originalmente em BARCINSKI, André & FINOTTI, Ivan. Maldito: a vida e o cinema de José Mojica Marins, o Zé do Caixão. São Paulo: Editora 34, 1998.

segunda-feira, 18 de julho de 2022

Mojica early years, parte II: Da Espanha para o Brás

           Capítulo 1: Da Espanha para o Brás

         

Antônio Marins, o pai, e Carmen, a mãe 

Por André Barcinski e Ivan Finotti

 

Talvez a genética explique a impulsividade de José Mojica Marins. Em sua família, não são raros os casos de pessoas que largaram tudo para começar uma vida nova. Seus avós, tanto os Mojica como os Marins, deixaram a Espanha no início do século para tentar a sorte em São Paulo.

José André Martins e Ana Mello Marins saíram de Barcelona em 1904. Francisco Mojica e Conceição Mojica Imperial partiram de Madri no ano seguinte. Os casais cruzaram o Atlântico num cargueiro e vieram parar no bairro do Brás, zona leste da cidade. Os Marins alugaram uma casinha na rua Carneiro Leão. Já os Mojica foram para a rua Piratininga, a apenas dois quarteirões de distância. Apesar da proximidade, o encontro entre as famílias demoraria trinta para acontecer.

 

Quando as duas famílias chegaram a São Paulo, a cidade parecia uma sucursal da Europa: entre 1890 e 1909, mais de 1 milhão de imigrantes desembarcaram no Estado, entre 600 mil italianos, 175 mil espanhóis e 116 mil portugueses.

A viagem até o porto de Santos era um verdadeiro martírio. Por três semanas, os imigrantes viajavam espremidos em porões superlotados, sem as mínimas condições de higiene. Muitos não suportavam e morriam de fome, doença ou exaustão. Outros chegavam doentes e morriam em terra, enquanto aguardavam a legalização de seus documentos. Eram tantos os mortos que a capitania do porto de Santos decidiu construir um cemitério para enterrá-los, evitando assim qualquer risco de contaminação por doenças contagiosas (os paulistas ainda tinham na memória a terrível epidemia de varíola que havia atacado a região em 1875).

Muitos imigrantes já tinham família no Brasil. Os mais sortudos contavam até com um emprego, obtido graças a algum parente. Para os que chegavam sem ter onde ficar, no entanto, a melhor opção era procurar abrigo em uma das hospedarias de imigrantes construídas em São Paulo. Na época, o governo garantia hospedagem e alimentação gratuitas por oito dias para qualquer família de imigrantes que viesse tentar a sorte na capital. Havia grande interesse em atrair imigrantes. As fábricas e fazendas precisavam de mão-de-obra e a cidade crescia rapidamente. Setores como a construção civil e o comércio careciam de trabalhadores.

Essas hospedarias passaram a funcionar como agência de empregos: era lá que as fábricas recrutavam operários e onde os fazendeiros buscavam trabalhadores para suas lavouras. Uma das maiores hospedarias da cidade foi erguida na rua Visconde de Parnaíba, no Brás. O albergue atraiu muitos imigrantes e acelerou ainda mais o crescimento do bairro que, desde meados do século XIX, era uma das regiões mais procuradas de São Paulo. Em 1860, o viajante Augusto Emilio Zaluar descrevia o Brás como “um dos arrabaldes mais belos e concorridos da cidade, já notável pelas elegantes casas de campo e deliciosas chácaras onde residem famílias abastadas, ao lado, todavia, de casebres e ranchos meio aristocráticos, mas que nem por isso deixam de formar um curioso contraste”.

Muitos imigrantes, especialmente italianos e espanhóis, começaram a se mudar para o bairro. A população local, de apenas 2300 habitantes em 1882, multiplicou-se por quinze em menos de uma década. O bucolismo tão admirado por Zaluar logo deu lugar a vilas de operários e a diversas fábricas – a primeira, a São Paulo Gás Co., fundada em 1875 -, além de cortiços e de infectos quiosques onde se fritavam lascas de fígado, sardinhas, bolinhas de bacalhau e qualquer bicho que tivesse o azar de cair na chapa – daí o apelido de “frita-moscas”.

O Brás, como outros bairros proletários paulistanos do início do século – Moóca, Bom Retiro, Belenzinho -, era pobre. Enquanto muitos imigrantes prosperaram trabalhando nas lavouras de café no interior, os estrangeiros que ficaram na capital não tiveram outra opção senão trabalhar em fábricas ou viver de biscates. É curioso notar que os espanhóis, donos, no passado, de um gigantesco império, foram tratados como cidadãos de quinta categoria quando chegaram ao Brasil. Isso se deveu principalmente ao preconceito de seus próprios conterrâneos, que consideravam emigrantes espanhóis como “traidores da Pátria”.

Diferentemente da Itália, que encorajava a emigração para solucionar problemas internos de superpopulação e pobreza, a Espanha, orgulhosa via o emigrante como um símbolo de seu atraso e miséria. As autoridades consulares espanholas pouco fizeram para unir a colônia no Brasil ou para ajudar os conterrâneos. Um espanhol que desembarcasse no Brasil não tinha uma autoridade a quem pudesse pedir ajuda. Por isso, muitos não tiveram sequer a preocupação de regularizar sua situação quando chegaram ao país, preferindo burlar a burocracia brasileira a correr o risco de extradição.

Os espanhóis começaram a abraçar ofícios menos qualificados, trabalhando como cocheiros, vendedores ambulantes, sapateiros, pedreiros e carroceiros. Muitas famílias passaram a morar em cortiços imundos. Com tanta miséria, os índices de criminalidade, alcoolismo e prostituição entre a comunidade cresceram rapidamente. Logo os espanhóis passaram a ser vistos como “escória da cidade”, humilhados em charges de jornais e em piadas racistas. Uma vila de imigrantes hispânicos na rua Ana Neri, na Moóca, foi apelidada pelos paulistanos de “La Mierda”.

Apesar da pobreza, o Brás do fim do século XIX era uma festa: os bares da região ficavam lotados de italianos tomando vinho, comendo provolone e jogando scopa e víspora. Os espanhóis se reuniam nos chamados pavilhões, clubes onde se dançava o flamenco e se comiam paellas deliciosas. Foi nesse bairro, humilde, porém festivo, que os destinos das famílias Mojica e Marins viriam a se encontrar.

 

Em 1903, uma carta chegou à casa de José André Marins, em Barcelona. Era de um amigo, Pedro, um carpinteiro que havia emigrado para São Paulo no ano anterior. Na carta, Pedro dizia que havia conseguido um bom emprego numa fábrica de roupas e sugeria a José e a sua mulher, Ana Mello, que se juntassem a ele em São Paulo. A vida na Espanha estava mesmo complicada para José e Ana: os biscates que ele fazia de pedreiro não rendiam o suficiente para sustenta o casal e o filho, Miguel. José havia perdido o emprego de garçom fazia mais de um ano e não via perspectiva de trabalho no futuro próximo. Resolveu aceitar a sugestão de Pedro. Em janeiro de 1904, o casal e o filho, Miguelito, embarcaram num cargueiro rumo ao Brasil. Um mês depois, estavam estabelecidos em um casebre na rua Carneiro Leão, no Brás.

José era um sujeito ambicioso. Desde pequeno sonhava em tornar-se um toureiro famoso. Era fascinado pelas touradas e passava suas tardes de folga na plaza de toros, admirando os grandes mestres da época. Chegou a tourear na Espanha, mas a concorrência era forte demais. No Brasil, pensou, seria diferente. Em seus primeiros meses na nova terra, José conseguiu relativo sucesso toureando em circos e plazas improvisadas no interior do Paraná e de São Paulo, mas sua incipiente carreira sofreu um baque quando a polícia proibiu a matança de touros em espetáculos públicos. José não se abalou e resolveu criar um número novo, misto de tourada e espetáculo circense, no qual enfrentava o touro amarrado a uma cadeira, vendado ou vestido de palhaço. Não era a forma mais honrosa de praticar a velha arte espanhola, mas era preferível adaptar-se às exigências locais do que abandonar sua paixão.

Sua família sempre o acompanhava nessas touradas pelo interior. Foi durante uma dessas excursões, a São José do Barreiro, no nordeste do Estado, que, no dia 7 de setembro de 1905, nasceu o segundo filho do casal, Antônio André Marins, que viria a ser pai de José Mojica Marins. Os Marins levavam uma vida excitante: viajavam de cidade em cidade, acompanhando circos e espetáculos teatrais. Desde pequenos, os irmãos Miguel e Antônio se acostumaram à vida itinerante de artistas.

Em 1909, Ana engravidou novamente. José queria uma menina para completar o trio. O parto, no entanto, correu mal: Ana perdeu muito sangue, sofreu uma hemorragia e morreu ao dar à luz uma menina, que também morreu. José ficou sozinho com Miguelito e Antônio. Ele continuou a levar os filhos para as touradas no interior. Os meninos cresceram praticamente dentro de circos e plazas, e logo começaram a mostrar jeito para a coisa.

 

As touradas também eram a paixão de Francisco Mojica, um humilde alfaiate madrilenho. Foi numa plaza de toros, em maio de 1901, que ele conheceu Conceição Imperial. Ele tinha 21 anos e ela, 17. Casaram-se seis meses depois e tiveram dois filhos, Francisco e Vicenta.

Os dois Mojica também foram atraídos ao Brasil por uma carta, escrita pela irmã de Conceição, Josefa, que trabalhava em São Paulo como costureira de uma sapataria. Josefa dizia que várias sapatarias e confecções da cidade estavam precisando de mão-de-obra e que ela poderia ajudá-los a conseguir um emprego. No início de 1905, Francisco, Conceição e as duas crianças viajaram para São Paulo e se estabeleceram numa pequena casa de dois quartos da rua Piratininga, no Brás. A casa logo ficou pequena para abrigar outros quatro filhos: João, nascido em 1907; Carmen (mãe de Mojica), em 1912; José, em 1914 e Conceição, em 1917.

Em 1918 chegou ao Brasil uma epidemia que mudaria para sempre a vida dos Mojica: a terrível gripe espanhola. Até hoje não se sabe ao certo a origem da epidemia: alguns cientistas afirmam que ela teria nascido nas trincheiras fétidas da Primeira Guerra, outros dizem ter sido uma variação da febre suína. Na Espanha, certamente não foi, mas como o rei espanhol foi um dos primeiros a cair doente, ela acabou batizada de “espanhola”.

Foi a epidemia mais devastadora do século XX: num período de dois anos, a gripe atingiu todos os países do planeta, debilitou a saúde de 1 bilhão de pessoas e matou cerca de R$ 25 milhões. Só na Ásia morreram 16 milhões. Na África, outros 6 milhões. Nos Estados Unidos morreram 500 mil pessoas. A espanhola era letal e fulminante: pessoas entravam num ônibus, bem-dispostas, e morriam sentadas nos bancos, sem tempo sequer de pedir ajuda. Morria gente dentro de escritórios, em restaurantes, no meio da rua. Em Nova York, a cada parada de metrô, fiscais vistoriavam os vagões para retirar vítimas.

A epidemia chega ao Brasil em outubro de 1918 e rapidamente propagou-se pelas áreas mais populosas do país, especialmente São Paulo e Rio de Janeiro. O governo tomou algumas medidas de prevenção, como o fechamento de jardins públicos e a proibição de concertos e peças, mas não conseguiu evitar a disseminação. Para piorar, as farmácias passaram a cobrar até cinco vezes mais pelos remédios, e o limão, cujo suco era usado como elixir pela população mais pobre, sumiu do mercado e passou a ser vendido como ágio.

A população mobilizou-se para tentar conter a tragédia: postos médicos foram improvisados em escolas e igrejas; moradores promoveram distribuição de comida e remédios nas áreas mais afetadas. Mesmo assim, brasileiros morriam às dúzias. Os cemitérios não usavam dando conta de tantos enterros. No Rio e em São Paulo, as prefeituras ordenaram aos familiares das vítimas que deixassem os cadáveres em frente às suas casas, onde seriam recolhidos por caminhões de limpeza pública.

A fase crítica da epidemia durou de novembro de 1918 a janeiro de 1919. Nesses três meses, ela infectou 40% dos paulistas e 50% dos cariocas. Em São Paulo, morreram quase 5 mil pessoas, o equivalente a 1% de sua população. No Rio, a tragédia foi ainda pior: quase 15 mil mortos, ou seja, 1,5% dos habitantes da cidade. Em pouco mais de um ano, a espanhola matou 35 mil brasileiros. Nem o presidente eleito, Rodrigues Alves, escapou: morreu em 1919º, sem conseguir tomar posse em seu segundo mandato.

O Brás foi um dos bairros mais afetados. O cemitério local chegou a ter cinquenta enterros por dia. Por volta de fevereiro de 1919, no entanto, a mortandade havia diminuído e a vida começava gradualmente a voltar ao normal. A família Mojica parecia ter passado incólume pela tragédia: a não ser por alguns resfriados inconsequentes, nenhum deles caiu vítima da gripe. Francisco e Conceição rezavam todos os dias, agradecendo a Deus por tê-los poupado da morte que havia levado tantos vizinhos e amigos. Mas a epidemia reservara uma surpresa fúnebre para a família...

Em 3 de março de 1919, Francisco acordou bem-disposto. Era aniversário de sete anos da filha Carmen e ele queria, antes de ir para o trabalho, passar numa confeitaria e encomendar um bolo. Despediu-se da mulher, beijou os filhos e saiu a pé pela rua Piratininga. Morreu três quarteirões depois, fulminado pela espanhola.

A situação financeira dos Mojica ficou desesperadora. Conceição, viúva aos 35 anos e com seis filhos para criar, não teve outra alternativa senão tirar as crianças da escola e botá-las para trabalhar. O mais velho, Francisco, 16 anos, conseguiu emprego numa fábrica. Vicente, 15 anos, e João, 12, foram vender bananas e mexericas na rua, enquanto Conceição ficava em casa tomando conta de Carmen, mal havia completado 10 anos, foi contratada como fiandeira da fábrica de sacos de juta Santana.

 

Em 1931, Carmen e sua irmã Conceição conseguiram empregos na Fábrica de Cigarros Caruso, na rua São Bento, no centro da cidade. Trabalhavam encarreirando cigarros, oito horas por dia, seis dias por semana. O salário era pequeno e o trabalho, monótono e estafante. A única coisa que motivava Carmen a ir todo dia para a fábrica eram os galanteios de um simpático gerente, Antônio Marins.

Antônio era considerado o bonitão do pedaço: 26 anos, moreno, alto, só andava de terno e com os cabelos perfeitamente alinhados por gomalina. Ganhava pouco, mas se vestia com bom gosto e aparentava um nível social muito superior ao seu (da primeira vez que o viu, Carmen comentou com a irmã que o rapagão parecia o Rodolfo Valentino). Ele havia conseguido o cargo de gerente da fábrica graças a um longínquo parentesco com a família Caruso, e seu salário sustentava também o pai, José, que a essa altura já havia abandonado as touradas. Depois de alguns anos acompanhando José em touradas, Antônio havia decidido procurar um emprego mais estável. Seu irmão Miguelito, no entanto, continuava a percorrer o país toureando em circos.

Antônio gamou em Carmen, a espanholita tímida de olhos grandes, que vivia grudada na irmã menor. Não havia um dia em que ele não passasse pela seção da moça, com a desculpa de checar seu desempenho. Conhecedor da rígida moral espanhola, flertava com cautela, para não parecer desrespeitoso. Carmen, criada sob os olhares atentos da mãe, retribuía os galanteios com discrição.

Numa tarde nublada, quando as duas irmãs estavam saindo da fábrica, um temporal desabou sobre a cidade. Elas ficaram paradas na porta, esperando que o toró passasse. Antônio vinha saindo e se ofereceu para levá-las em casa:

- Eu tenho um guarda-chuva bem grande, dá para nós três!

Eles resolveram esperar até que a tempestade arrefecesse. Antônio foi a cozinha da fábrica e trouxe café com biscoitos. Passou um bom tempo conversando com Carmen, enquanto Conceição entretinha com as bolachas. Assim que o temporal diminuiu, os três rumaram para a casa dos Mojica. Quando chegaram em frente ao portão, Carmen mandou a irmã seguir em frente: “Vai, entra, que eu quero conversar um pouco com seu Antônio”, ordenou, cheia de segundas intenções. Ali mesmo, ele a pediu em namoro.

Carmen temia que a mãe desaprovasse o namoro. Afinal, a matriarca já havia proibido um noivado com outro pretendente, por este ser um pobretão. “Minha filha, você tem que arrumar um homem bom e com dinheiro, para poder ficar em casa só cuidando dos filhos”, dizia Conceição. E Antônio não tinha um tostão furado. Mesmo assim, Carmen decidiu arriscar e o apresentou à família. Para sua felicidade, todos tomaram afeição por ele e a mãe consentiu com o namoro. Antônio parecia um sujeito bom e honesto. Pesou também o fato de os Mojica conheceram seu pai, José Marins, o toureiro.

A vida foi boa para Carmen e Antônio durante os anos seguintes: cada vez mais apaixonados, eles começaram a juntar dinheiro, pensando no casamento. De certa forma, Antônio supriu a falta de uma figura paterna para os adolescentes José e Conceição, e apegou-se com tanto carinho à futura sogra, dona Conceição, que até a chamava de “mãe”.

 

Antônio e Carmen casaram-se em 21 de dezembro de 1933. Ele tinha 28 anos e ela, 21. Poucos meses depois, Antônio foi convidado pela família Caruso para tomar conta de uma chácara que os donos da tabacaria tinham na rua Domingos de Moraes, em Vila Mariana (onde hoje fica o Corpo de Bombeiros, quase em frente à estação Santa Cruz do metrô). A propriedade estava hipotecada e, enquanto não era resolvido o litígio, os Caruso acharam por bem deixar alguém tomando conta do lugar. A chácara tinha um belo pomar e um casarão de três andares. A função de Antônio seria manter a casa limpa e o terreno arrumado, além de supervisionar a venda de flores que eram cultivadas na propriedade e vendidas para floriculturas de toda a cidade.

O salário oferecido não era lá muito alto, mas os Caruso permitiriam que Antônio ocupasse o primeiro andar do casarão. Ele teve uma ótima ideia: em vez de mudar-se para a chácara levando apenas Carmen, levaria toda a família dela, garantindo moradia gratuita para todos. O primeiro andar da casa, afinal, tinha sala, cozinha, um banheiro grande e cinco quartos, mais do que suficiente para abrigar a todos. Assim, além de Antônio e Carmen, mudaram-se para a chácara dona Conceição, seus dois filhos mais novos – José e Conceição – e também sua filha Vicenta, acompanhada do marido, Carlos Paz, e das duas filhas pequenas.

A mudança foi um choque para os Mojica: subitamente eles saíam de uma casa velha no Brás e ocupavam uma mansão em Vila Mariana. O casarão tinha móveis caros, luxuosas escadarias de mármore e imensas janelas que abriam para um quintal florido. No segundo andar havia um salão festas e uma sala de música com piano. Um andar acima, ficava o salão de fumantes. A família formou uma espécie de comuna: enquanto as mulheres trabalhavam na limpeza da casa e do terreno, os homens – com exceção de Antônio – trabalhavam fora. Carlos Paz era tipógrafo e José, garçom do Hotel Esplanada, no centro da cidade. Todo o dinheiro arrecadado era dividido igualmente e usado para comprar alimentos e roupas para a família.

Antônio acordava às cinco da manhã para cuidar dos pés de caqui, goiaba, café e abóbora. Depois limpava o pequeno lago que havia na propriedade e colhia as camélias, rosas e hortênsias do jardim. Toda manhã, uma charrete puxada a burro vinha à chácara recolher os buquês, que eram então distribuídos para as floriculturas. Apesar do trabalho duro, Antônio não poderia estar mais feliz: órfão de mãe desde criança e vivendo constantemente longe do pai, pela primeira vez ele realmente tinha a chance de experimentar a vida em família.

Os nove faziam tudo juntos: aos domingos, iam à missa numa igreja vizinha à propriedade dos Caruso. Depois, dona Conceição preparava um almoço caprichado, às vezes, até uma feijoada. Quando a saudade dos patrícios apertava, eles pegavam um bonde e passavam o dia no Brás. No fim da tarde, reuniam-se na varanda da mansão e ouviam discos de Carlos Gardel, saboreando goiabas e mangas tiradas do pomar. Era uma vida de sonhos. Só faltava uma coisa para completar a alegria de Antônio: um filho.

Em agosto de 1935, Carmen deu ao marido a notícia que ele tanto esperara: estava grávida. Antônio, exultante, disse que, se fosse um menino, batizara-o com o nome de seu cunhado predileto, José. Às quatro da manhã do dia 13 de março de 1936, nasceu José Mojica Marins. Era uma sexta-feira 13.

 

Publicado originalmente em BARCINSKI, André & FINOTTI, Ivan. Maldito: a vida e o cinema de José Mojica Marins, o Zé do Caixão. São Paulo: Editora 34, 1998.