Playboy entrevista Roberto Carlos (março de 2010)
Uma conversa franca com o ex-lateral esquerdo da seleção e
atual craque do Corinthians sobre sua vontade de disputar o Mundial na África,
o trauma do meião, desavenças com Galvão Bueno, relógio de 100 000 reais,
noitadas em tempos de Copa e festas de arromba ao lado de Beckham e Ronaldo em
Madri
Raros são os jogadores de futebol que podem ostentar
currículo tão vitorioso quando o de Roberto Carlos da Silva. Nascido em Garça,
a 415 quilômetros da capital paulista, o lateral-esquerdo tem em sua galeria de
troféus dois campeonatos brasileiros (pelo Palmeiras), quatro campeonatos
espanhóis, três Champions League e dois Mundiais de Clubes (pelo Real Madrid),
além de uma Copa do Mundo. Isso para falar nos mais importantes dos 23 títulos
conquistados em 22 anos de carreira. Pela seleção brasileira, disputou três
Mundiais e tornou-se o segundo jogador que mais vezes vestiu a camisa amarela,
com 132 partidas, apenas seis a menos que Cafu. Com o uniforme do Real Madrid,
superou o lendário argentino Alfredo di Stéfano no rol dos estrangeiros que
mais vezes defenderam o clube merengue. Em 14 anos e meio na Europa, jogou na
Inter de Milão (1995/1996), no Real Madrid (1996 a 2007) e no Fenerbahçe (2007
a 2009).
A ideia de se aposentar na Europa foi abandonada depois da
enxurrada de críticas que ele enfrentou após a eliminação da seleção brasileira
na Copa de 2006, na Alemanha. O jogador foi considerado culpado por não marcar
o atacante Thierry Henry no lance que resultou no gol da vitória francesa por 1
a 0 – a famosa “ajeitada de meia”. Determinado a voltar ao Brasil e incentivado
pelo amigo Ronaldo, em janeiro deste ano juntou-se ao “bando de loucos” que
quer dar ao Corinthians, no ano de seu centenário, o tão sonhado título da Taça
Libertadores – o único que falta tanto na galeria do clube quanto no currículo
do jogador.
Roberto Carlos recebeu o repórter Carlos Eduardo Freitas
por duas vezes no Parque São Jorge, na zona leste de São Paulo, antes e depois
da vitória por 2 a 1 sobre o Racing, do Uruguai, na estreia do time na
competição sul-americana. Na segunda sessão, um curativo no dedão da
mão-direita mostrava as marcas do jogo da noite anterior. No intervalo entre as
duas conversas, lançou sua grife de roupas, a RC3, e viveu a expectativa do
nascimento do oitavo filho, Manuela, a primeira com a fisioterapeuta Mariana
Luccon, sua segunda mulher. Com sinceridade que muitas vezes é confundida com
arrogância, não reclamou ou fugiu de nenhuma pergunta. Nem mesmo quando o
assunto caiu nas festanças feitas por ele e Ronaldo em Madri em seus tempos de
solteiro. Determinado a voltar a vestir a camisa da seleção brasileira na Copa
da África do Sul, evitou apenas falar sobre o desentendimento com o jornalista
Renato Maurício Prado, um de seus desafetos. Já com Galvão Bueno, que o
criticou de forma dura depois da eliminação da Copa de 2006, diz ter se
entendido.
Em 2007, você disse que tinha se despedido da seleção, mas
anda dizendo por aí que quer ir à Copa da África. O que mudou?
O Dunga está buscando um lateral-esquerdo desde que eu saí e
tem feito muitas experiências. Se eu jogar bem, claro que a imprensa vai falar,
a torcida vai pedir. Pus na cabeça também que tenho um passado tão bonito na
seleção que não é por causa de um comentário malfeito de pessoas da imprensa
que vou me preocupar.
No caso, a história da ajeitada de meião contra a França
citada pelo Galvão Bueno e um outro problema com o comentarista Renato Maurício
Prado, não?
Sobre o problema cm o Renato, prefiro não falar. Não vou
criar polêmica. Se fosse sobre futebol, tudo bem, mas sobre vida pessoal não é
o caso. Com relação ao Galvão, sempre me dei muito bem com ele. Só acho que ele
começou com essa história e todo mundo foi atrás. Faltou respeito, e virei
motivo de piada. Já falei tudo que tinha para falar sobre o Galvão, soltei
minha mágoa. Mas conversei com ele, voltamos a ter um contato normal.
Como você ficou sabendo dessa história?
Na mesma noite, pela minha família. Não tinha de estar ali,
não era obrigação minha marcar o Thierry Henry ou nenhum outro dentro da área.
Não tenho nem ideia de quem deveria estar lá.
Você chegou a ter receio da reação da torcida com relação a
esse episódio?
Fiquei meio preocupado porque sempre fui de viajar em turnê
com duplas sertanejas como Edson e Hudson, Bruno e Marrone. Cheguei a pensar,
de verdade, que pudesse tomar uma vaia. Mas não: fui muito bem recebido quando
cheguei ao Brasil. Hoje eu dou risada de toda essa situação, mas era uma
questão de eu aceitar ou responder. Preferi retrucar.
O Roque Júnior também teve problema com o Galvão durante a Copa
das Confederações em 2005 e foi tirar satisfações durante um treino.
E o Roque não voltou mais para a seleção.
Você acha que ele tem esse tipo de poder?
O que posso falar do Galvão é que ele é um grande
profissional. (Sorri e fica alguns segundos em silêncio.)
Pena que a conversa não esteja sendo filmada para mostrar a
sua cara agora.
É...Se eu pudesse falar tudo que eu sei... No dia em que eu
parar de jogar, escrevo um livro: A Verdadeira História do Futebol. Por
tudo o que aconteceu comigo de 1988 até hoje, posso escrever sobre tudo.
Ambiente, treinador, imprensa, torcida, títulos, finais, chute na bandeirinha,
até a história da meia.
Qual é a sua versão para o que aconteceu na Alemanha? Desde
então há um empurra-empurra de quem teria a culpa pelo fracasso.
Tenho a mesma opinião do Zagallo, a de que foi um circo na
preparação. Aí, passo a responsabilidade para o Ricardo Teixeira (presidente
da CBF). E não coloco a culpa em nenhum dos meus companheiros, muito menos
em mim. O Zagallo estava lá e viu o que aconteceu. O Ricardo Teixeira estava
fora. Poucas vezes ia ao hotel. Sempre vou defender os jogadores e o treinador.
Pode ser ruim, mas vou sempre defender as pessoas com quem convivi, e não quem
estava fora.
Vamos falar de Corinthians. É verdade que você quase assinou
com o clube em 1992?
É. Do União São João para cá. Tive até uma reunião com o
então presidente Vicente Matheus, mas ele falou que eu era muito baixinho e que
meu valor era muito alto – 2,5 milhões de dólares. Com esse dinheiro ele levou
outros dois jogadores do União, um atacante e um lateral.
A recepção da torcida corintiana te impressionou?
Me surpreendeu a quantidade de gente. Mas acho que minha
trajetória no futebol foi tão boa que a recepção por parte da torcida tem sido
consequência. Minha despedida do Real Madrid, as chegadas no Fenerbahçe e aqui
no Corinthians foram as melhores coisas que aconteceram na minha vida.
Por seu passado no Palmeiras chegou a temer algum tipo de
reação?
Não, porque não saí do Palmeiras e vim direto para cá.
Aceitei porque sou profissional. Em nenhum momento declarei amor no Palmeiras.
Se fosse direto de lá para cá, talvez existisse um conflito, mas fiz quase toda
a minha carreira lá fora.
Mas, se tivesse tido uma proposta do Barcelona, o que você
faria?
Aí, se eu fosse para lá, seria traição. Não faria isso com o
Real Madrid, o clube que me deu tudo na vida. Vou explicar por que: sou o
jogador estrangeiro com o maior número de jogos e títulos pelo clube. Sou
madridista doente. Em termos de identificação, estou para o Real como o Cruyff
está para o Barcelona. Não dá para comparar com o que vivi no Palmeiras.
Você chegou a dizer algumas vezes que sua intenção era jogar
pelo Santos. O que o fez mudar de ideia?
O projeto do Corinthians era mais ambicioso. O do Santos era
apenas o de uma eleição de fim de ano. A possibilidade de eu ir para lá estava
ligada ao Vanderlei (Luxemburgo). Quando decidi voltar para o Brasil,
ele foi uma das primeiras pessoas com quem falei. E ele me disse que achava melhor
eu não ir para lá. Era fim de mandato da presidência e que ele mesmo só ficaria
se o Marcelo Teixeira ficasse. Aí entrou a história de Libertadores, a vinda do
Ronaldo para cá... Foram coisas que me fizeram pensar duas vezes e me levaram a
assinar com o Corinthians.
A presença do Ronaldo foi um fator decisivo?
Foi. Principalmente pelo que ele me falava do ambiente, da
estrutura e que com a minha chegada o Corinthians estaria mais forte para a
Libertadores. Tinham várias propostas: Fluminense, Santos, Palmeiras. Mas, na
hora H, brigar por um título importante que eu não tenho e por ser um ano
importante para o clube (centenário) pesaram. Quero continuar ganhando
títulos – e um dos poucos que não tenho é o da Libertadores, que fecharia meu
currículo de competições importantes.
Qual é a motivação de um jogador que ganhou uma Copa do Mundo
e três Champions League que volta ao Brasil e aí tem de jogar o Paulistão?
(Gargalha.) É normal. Como
jogador contra o Villareal, na Espanha, o Bursaspor, na Turquia. Você tem de
ser profissional. É claro que já jogamos em Wembley, em Old Trafoord, Santiago
Bernabeu, Nou Camp, mas a realidade do futebol brasileiro é essa: você tem de
jogar em Presidente Prudente, Mogi Mirim, Bragança Paulista, Americana.
O que você achou da volta do Robinho?
Maravilhoso. Foi uma decisão dele ir para o Manchester City e
depois vir para cá porque não estava jogando na Inglaterra. A sorte do Robinho
é que ele tem uma imagem muito poderosa no Brasil. É o tipo de jogador que está
sem jogar na Europa, mas que quando chega aqui é recebido de outra maneira.
Fiquei preocupado quando ele saiu de Madri para Manchester achando que seria o
número 1 do mundo, mas não foi assim e tudo começou a andar para trás.
A saída dele do City, a de Adriano da Inter de Milão, a de
Vagner Love do CSKA e a de tantos outros jogadores não têm contribuído para
queimar a imagem dos jogadores brasileiros na Europa?
Não suja nada. O europeu não pensa assim. Eles sabem que, se
o jogador não está feliz no clube, não adiante segurar. Ninguém é obrigado a
ficar onde não quer. Não custa nada sentar e chegar a um acordo.
O Ronaldo, quando voltou, reclamou muito de muita coisa. Do
assédio da imprensa no campo, dos gramados, das concentrações. Algo tem te
incomodado?
Os horários de treinamento. Aqui a gente precisa acordar cedo
para chegar a tempo de treinar às 9 horas. Lá, a gente treinava às 11 mesmo na
época do calor. Dava pra acordar às 10 horas. Também são muitos jogos. É quarta
e sábado, quinta e domingo. Você concentra terça para jogar quarta, sábado para
jogar domingo – e acabou a semana. A gente não tem a nossa viva. Vivemos 100%
em torno do futebol. Enquanto isso, os filhos estão crescendo e a gente está
concentrado.
Por que então os jogadores no Brasil não se organizam para
mudar essa situação?
Porque não têm estrutura. Foi o caso do jogo contra a
Portuguesa: um absurdo jogar às 4 da tarde no horário de verão, que de fato são
3! Me deu até cãibra! Todo mundo passou mal. Isso não pode acontecer. Quantos
jogadores já morreram com problemas? Vão esperar outro morrer para mudar algo?
Não seria o caso de grandes nomes como você e Ronaldo, que já
estão com a vida feita e não têm mais nada a perder, levantarem essa bandeira?
O problema aí é que envolve televisão – e no Brasil ela ainda
é muito importante. Outro dia, ficamos 3 minutos no campo esperando terminar um
programa de televisão para o jogo começar. Ou seja: você se aquece, tem o hino
e depois fica frio. E a gente respeita isso porque é a emissora que mais paga,
que transmite Copa do Mundo, que tem seu poder.
Dois lances chamaram atenção nos seus primeiros jogos pelo
Corinthians. Em sua estreia, você deu um carrinho e derrubou dois companheiros
no banco de reservas. Depois teve o lance da expulsão contra o Palmeiras logo
no início.
É motivação. Não importa essa história de idade. Procuro
sempre chegar antes do adversário. A expulsão foi
precipitada. Em competições europeias, isso é uma jogada normal. Aqui no
Brasil, qualquer carrinho que você dá o juiz já dá cartão amarelo, mesmo que
você pegue a bola. É uma questão de me adaptar ao estilo dos árbitros
brasileiros – e não ao futebol daqui.
Por que essa arbitragem é tão diferente da europeia?
Lá eles são um pouco mais profissionais. Cada
um tem seu trabalho, mas eles vivem 24 horas o futebol. Aqui eles trabalham e
nos fins de semana vão apitar. Se eles acompanhassem mais o futebol europeu – e
não peço que copiem -, pensariam de outra maneira. Num clássico, o juiz que
mostras que é autoridade – e ele não é. O juiz é uma
pessoa que está ali para comandar o jogo, e não para ser o melhor em campo. Não
sei se servi como exemplo ao ser expulso aos 6 minutos de um clássico.
Você acha que, por ser um lance de Roberto Carlos, pessoa na
hora de o juiz tomar a decisão?
Não gostaria de pensar assim. Queria que esse tipo de coisa
não ocorresse. Nem comigo, nem com o Adriano, nem com o Vagner Love, nem com o
Pelé. De repente ele expulsa o Ronaldo, o Roberto, que são jogadores de nível
internacional, porque pensa em Copa do Mundo.
O formato do seu contrato atual é bastante diferente do
tradicional. Como Ronaldo, você tem participação nos lucros de patrocínios que
trouxer para a camisa do Corinthians. Você acha que conseguirá o retorno
previsto?
Não estou preocupado porque já fiz minha vida lá fora. Não
vim para o Corinthians para ficar milionário, mas para jogar futebol. Lá na
Europa, sim. Consegui dar estrutura para minha família e para meus filhos. E
sei que os filhos dos meus filhos vão viver muito bem.
Como foi trocar a segurança que se tem na Europa para uma
cidade violenta como São Paulo?
Para mim, foi normal. Apenas aumentei minha segurança. Sempre
tive dois seguranças. Agora tenho cinco. Eu fico com três, minha mulher fica
com dois. Acho normal.
O normal não seria não ter de se preocupar com segurança?
Exato. Mas o Vágner Love estava sem segurança e tomou pancada
de torcedor. Se estivesse com proteção, aquilo não teria acontecido.
Infelizmente, aqui você é incomodado quando o resultado não é bom dentro de
campo. Meus filhos não aguentam mais andar com segurança. Querem ter liberdade,
mas São Paulo é assim, o Brasil é assim.
Você não tem medo, por exemplo, de sair dirigindo sua BMW
pelas ruas de São Paulo?
Eu ando de Fusca em São Paulo.
Mesmo?
Qual o problema de ter um Fusca? Mas aqui eu ando sempre com
escolta.
Já teve algum incidente?
Uma vez (em 2005), em Belo Horizonte. O cara queria
roubar meu relógio, dinheiro. Eu estava dando entrevista ao vivo para a Rádio
Jovem Pan num carro e pedi para o (repórter Luiz Carlos) Quartarolo
esperar um pouco que eu estava sendo assaltado. Aí ele solta: “O Roberto Carlos
é muito querido no Brasil”. E eu: “Querido? Estou sendo assaltado!”. Achou que
eu estava dando autógrafo. Mas não tenho medo dessa violência.
Vários colegas seus – Deco, Robinho, Luis Fabiano, entre
outros – tiveram problemas de familiares sequestrados ou que sofreram ameaças.
Isso te preocupa?
É a necessidade que as pessoas passam. E o futebol passa uma
imagem dos jogadores ricos, milionários, e causa esse tipo de situação.
O que você acha dessas listas de jogadores mais bem pagos do
Brasil, do mundo?
Me incomoda. Outro dia vi meu nome numa como terceiro ou
quarto brasileiro que mais ganhou dinheiro com futebol. Por que o povo quer
saber isso? Querem ver futebol, saber da violência diminuir, ver o salário
mínimo aumentar, diminuir a pobreza. Dinheiro para mim não é importante. É só
recompensa de tudo o que você faz no mês. Não sei se pouco ou muito, mas é o
suficiente pelo que eu fiz na carreira.
Em 1998, na época da Copa, você disse uma frase que causou
muita polêmica. Disse que usava um relógio que era tão aro quanto um
apartamento...
Não falei isso. Quem passou isso para frente foi um jogador
que tem amizade com gente da imprensa. Durante uma conversa na seleção,
falávamos de dinheiro, no que eu investia, e perguntaram o valor do relógio. E
o bobão aqui, mais novo, falou. Essa pessoa que estava lá contou pro amigo
jornalista. Aí uma coluna de jornal no Rio publicou umas coisas mostrando minha
casa, a segurança, tudo.
Mas que relógio era esse?
Era um Breitling que o presidente do Real Madrid havia dado e
presente para cada jogador pelo título europeu. Na época, estava avaliado em
100 000 reais. Trabalhei para ter isso, não roubei.
É verdade que você tem uma coleção grande de relógios?
É, mas deixei todos em Madri. Coisa da época em que eu
comecei a ganhar dinheiro e resolvi investir nisso. Na verdade, eu mais ganho
do que compro. Quando compro, é uma peça única. Mas, se um cantor vai na
televisão e fala que tem uma coleção de relógios, ninguém fala porcaria nenhuma.
Se é jogador, aí, sim. O Samuel Eto´o (atacante da Inter de Milão) tem
oito carros. Quando ele fala isso na Europa, todo mundo aplaude: “Parabéns! Fez
por merecer!”.
Há alguns anos você começou a dar suas cartadas como
empresário. Lançou grife de roupas, está há dois anos com uma equipe na Stock
Car, é parceiro do Juninho Paulista no Ituano. Como é essa vida dupla de
jogador e empresário?
Eu contrato pessoas para trabalhar para mim. No caso da Stock
Car tem o Eduardo Bassani; na minha vida pessoal, o Fabiano Farah; no Ituano
tem o Juninho e o pai dele; e tinha o negócio da música, que vai voltar de
música, que vai voltar em breve. Sou apenas a imagem. Eu fico ali, só vendo.
O que mudou nessa sua geração, que trocou a história de ser
dono do posto de gasolina pra virar o empresário ou dono de clube, como o
Rivaldo, no Mogi Mirim?
A grana, sem dúvida. Na época do Palmeiras eu ganhava um
salário horrível. Não era tanto dinheiro como agora. Agora mudou. Todo mundo
quer guardar dinheiro, investir em coisa boa, que dê retorno. Além disso, os
caras que trabalham com a gente hoje são inteligentes que nas antigas. Meu
empresário naquela época, o Oliveira Júnior, parecia ser uma pessoa boa e
depois se mostrou bastante maldoso. Por pouco não perco tudo o que tinha.
O nível do futebol seja melhor se os clubes no Brasil fossem
administrados por ex-jogadores?
Não. Nós, jogadores, não somos preparados para isso. Talvez
para ser diretor, mas presidente não. Você precisa de gente que tenha
conhecimento, que saiba buscar patrocínios.
A sua presença e a do Ronaldo num clube como o Corinthians
devem gerar muita curiosidade por parte dos jogadores mais novos. Eles não
bombardeiam vocês com perguntas?
Você chegou a dizer uma vez, após trocar a camisa com ele na
Copa de 2002, que ele era perfumada.
Um dia contei isso para ele e ele deu risada. É um cara que
estava direto lá em casa. Ele vem sempre ao Brasil para cuidar do resort dele
no Nordeste (em Natal), mas chega sem ninguém ficar sabendo.
Já chegou a encontra-lo aqui?
Não deu tempo. As passagens dele por aqui são sempre rápidas,
e ele reclama que troco toda hora de telefone. Mas combinei de ir até lá na
próxima vez que ele vier.
Os privilégios que você e Ronaldo têm no Corinthians causaram
algum time de ciúme no vestiário?
Aqui não tem privilégio nenhum, e a gente não busca isso.
Nossa vida pode ser diferente da porta do clube pra fora, mas no vestiário ou
no campo tem de ser a mesma coisa.
Mas você já criticou os privilégios dados por Florentino
Pérez (presidente do Real Madrid) a alguns jogadores. Não é a mesma
coisa?
A vida no Real era complicada. Eram todos jogadores
milionários. Acabava um jogo, você tinha de assinar contrato com várias
empresas. Alugava um jatinho por 40 000 euros e ia embora. Aí o jogador mais
jovem, que se dava bem com a imprensa, soltava: “O Beckham saiu de Bilbao no
avião dele de 150 milhões de euros e foi embora”. Com o Ronaldo a mesma coisa.
Aqui no Brasil não tem como fazer isso. A vida lá é diferente daqui. São outros
valores. Lá era bom. (Risos.) A vida era muito boa.
O que mais a molecada pergunta a vocês?
De como era a nossa rotina. Normalmente a gente acordava cedo
para treinar, depois chamava um monte de amigos lá para casa, ficava até a hora
de jantar, saía para algum restaurante e continuava um pouco depois. Como a
gente estava solteiro na época, eu e o Ronaldo estávamos sempre juntos. Aí a
gente chamava o Robinho, o Cicinho, o Júlio (Baptista). Nós morávamos
todos no mesmo condomínio, coisa de 7 minutos da casa de um para o outro, a
mais ou menos 15 minutos do centro.
Você e o Ronaldo, solteiros em Madri...
Tinha encontros mais familiares, em que o Cicinho levava a
mulher, por exemplo, e outros para os amigos solteiros. Aproveitamos aquela
época. Nossa vida na Europa era maravilhosa. Dentro e fora de campo. Morar em
Madri é bom.
Tem uma história de que Victoria Beckham ficou revoltada com
a frequência do marido nessas festas.
Ela não me conhecia direito. O Beckham é meu grande amigo
europeu. Depois ela viu que não tinha nada a ver. Eram festas normais, durante
o dia. Uma vez ou outra a gente passava do horário, mas não tinha nada a ver.
Ela não reclamou porque tinha mulheres nessa festa?
Nunca teve!
Mas o que rolava nas festas?
Nada de mais. Era como ir a uma discoteca, ficar sentado numa
mesa, ouvindo música, tomando uma cerveja ou um vinho.
Vai dizer que ficavam você, o Ronaldo, o Júlio Baptista e o
Robinho dançando, ouvindo música e tomando cerveja?
É que não tem imagem. E aí não tenho como provar.
Assim fica difícil imaginar o que aconteceu, entender como era...
Ótimo! (Risos.) Imaginação é coisa boa. Eram festas
normais, a gente se divertia pra caramba. Todo mundo solteiro, todo mundo
aproveitava. Era gostoso. Ninguém se drogava, ninguém saía bêbado. Tudo na vida
tem um limite. Hoje sou casado, o Ronaldo é casado. A gente aproveitou nossa
época de solteiro, e agora temos nossas esposas.
Por aproveitar bem a época de solteiro entende-se ter muitas
mulheres...
Como qualquer solteiro, a gente fazia muita bagunça. (Longo
silêncio.) Coisa de solteiro... Imagina o que faz um solteiro. (Risos.)
A gente preferiu fazer uma discoteca em casa a ir para alguma fora, ter foto de
alguém saindo carregado. A gente ficava perto de casa, ninguém via
absolutamente nada. Tinha o Papi, que era nosso segurança e motorista. Era tudo
muito bem organizado. Só uma vez, em uma festa de aniversário do Ronaldo, que
entraram uns ônibus cheios de gente. Só as amigas verdadeiras, os amigos
verdadeiros. Proibimos fotos por medidas de segurança, mas nem era o caso,
porque era só gente de confiança. Mas, depois que deu aquela confusão toda, a
gente parou. O Ronaldo nunca mais fez nada desse tipo.
O que vocês queriam evitar mostrar a ponto de proibir fotos?
Alguém te vê tomando uma cerveja, um vinho. E a imagem do
jogador tem de ser sempre corretinha. Mas até alguns evangélicos tomam sua
tacinha de vinho. “Ah, mas se Jesus podia tomar, por que eu não posso?” E, para
a gente que não é, uma ou dez é a mesma coisa.
Na Alemanha, os jogadores tomam cerveja.
Aqui no Brasil, se alguém tevê com um copo de cerveja, um
copinho de uísque já soltam um “Olha lá o jogador bêbado!”!
Ronaldo e Ronaldinho são famosos pela fama de mulherengos.
Por que de você não se ouvem tantas histórias?
Se eu contar, ninguém sabe. (Risos.) Não procurei
criar minha imagem assim. Eles têm a vida diferente da minha. Sou caseiro. Só
passei a ficar oito anos solteiro. O Ronaldo começou a jogar no Cruzeiro,
namorava umas modelos, e elas ficaram conhecidas. O Ronaldinho, a mesma coisa.
Eu, não. Só deslanchei quando me separei. Nunca namorei ou tive relacionamento
longo com uma famosa.
E curto?
Acho que nenhum também. O negócio é ser rapidão.
Mas tem uma história sua com uma famosa muito falada por aí.
Minha melhor amiga. Já até sei de quem você vai falar.
Você não teve nada com a Ana Maria Braga?
Ela é minha amiga há dez anos. Tenho carinho por ela, muito
respeito. Tanto que ela foi ver a estreia na Libertadores. É gente boa. Não tivemos
nada, não.
Sua mulher, a fisioterapeuta Mariana Luccon, vai dar à luz
seu oitavo filho, a Manuela. Seu plano é montar um time de futebol?
(Risos.) Faltam só três. A Roberta,
a Giovana e o Júnior são do meu primeiro casamento; depois viram o Cadu, o
Luca, o Christopher e a Rebeca, todos da época em que eu estava separado.
Quando fiquei solteiro, tive relacionamentos com outras mulheres. Você quer
arrumar uma namoradinha, vai lá e, bem, aconteceu. Não rejeito nenhum filho
meu. Todos são iguais.
O que você achou da escolha do Brasil como sede da Copa de
2014?
Maravilhoso, porque somos um país rico. A estrutura aqui
tanto para a Copa quanto para a Olimpíada vai ser de primeiro mundo. Temos
condições de fazer a melhor estrutura, a melhor segurança.
Levantamento recente dá conta de que a Copa aqui custará
cerca de 17 bilhões de reais. Mais que o dobro na África do Sul. Não é muito
dinheiro para gastar com futebol num país com outras necessidades e histórico
de desvios de dinheiro?
Ás vezes são feitos comentários sem sentido. Não dá para
comparar com a África. Tem de comparar com a Europa. Os turistas preferem vir
para cá, e não para a África.
Como cidadão, você não teme que boa parte dessa grana vá
parar no bolso de algum político?
Quando é uma estrutura tão grande assim, não. Me preocupa
quando se faz ponte, quando não constroem rodovias boas. Eu sou muito fã do
presidente Lula. Desde que ele assumiu o país, a gente perdeu muito daquela
classe baixa. Tem a média baixa, a média e a alta.
Quem você aposta como favoritos a conquistar a Copa?
Brasil, Inglaterra, Espanha e Itália. Há boas equipes, mas a
nossa é sempre diferenciada. A Espanha ´pode estar jogando bem, mas quando
enfrenta o Brasil não ganha. É um time bom, foi campeão da Eurocopa, mas mostrou
na Copa das Confederações ser uma equipe que qualquer um pode bater.
O Brasil leva o hexa, então?
Ainda tenho dúvidas, mesmo porque essa base ainda não ganhou
o mesmo que as equipes anteriores. São jogadores que estão no futebol europeu,
mas esse grupo é muito novo. O Dunga está fazendo um time para ser campeão – e
vai chegar entre os dois melhores, tenho certeza. Este 2010 vai ser muito bom,
mas acho que certeza mesmo só que vamos levar em 2014.
Você acha que Ronaldo e Ronaldinho serão chamados?
Queira Deus que sim. Os adversários vão nos respeitar mais.
Vocês três têm fama de boêmios. Isso pode ter pesado na hora
de o grupo de Dunga, formado principalmente por jogadores evangélicos, decidir
quem entra e quem sai?
Isso não tem nada a ver. Futebol é qualidade. O que interessa
é se você é bom no que faz. O que podemos dizer do Ronaldo, de Robinho, do
Ronaldinho Gaúcho? Estão na noite e já ganharam tudo.
Mas o Dunga diz que chegou para botar ordem na seleção depois
da zona de 2006.
O Dunga não pensa assim. Quem acha isso é a imprensa. Você
acha que o Dunga vai deixar de convocar o Roberto porque ele foi na (boate)
Lotus?
Mas pegaram mal as fotos de Ronaldo numa balada na Alemanha
tiradas em plena Copa...
Isso não pode ter passado a imagem de que o time não estava
comprometido o suficiente?
E por que ninguém ficou sabendo?
Como era longe, ninguém seguia a gente. Era impressionante:
acabava o jogo, a gente estava liberado. Ainda bem que não fizeram fotos nossas
lá. Foi bonito.
Todo mundo participava dessas festas?
Eu ia. Dos outros, não falo.
O que você vê de positivo na equipe de Dunga?
É um grupo como o de 2002, com todos pensando no mesmo
objetivo.
Isso é diferente do que havia em 2006?
Naquela época tinha o número 1 do mundo, o número 2 do mundo,
o 3, o 4. (Risos.) Neste ano é diferente. No nosso tempo, a gente
controlava muito dentro e fora de campo. Tinha reuniões com Ricardo Teixeira,
treinador, jogadores. Todos sentavam e ouviam. A gente dava conselho, mas a
responsabilidade era do treinador. Hoje, só falam os que comandam.
Você acha que ainda tem condições de vestir a amarelinha?
Estou me preparando para voltar. E meu estilo de jogar
facilita para que as pessoas mencionem o meu nome quando o assunto é seleção.
Faz falta alguém como o Roberto Carlos na seleção?
Acho que não.
Como você espera ir para a Copa se não faz falta ao time?
(Risos.) Se falo que faço, vão dizer
que estou em achando, que sou prepotente. É complicado. Vejo bons laterais na
seleção, mas diferentes do meu estilo de jogar. O meu deu certo nesses 16 anos
em que estive lá dentro.
Sendo realista, você ainda vê chances de ir?
Acho que sim. O Dunga tem convocado dois jogadores que atuam
no meio-campo para jogar na lateral. Não vou começar a me desdobrar para
conseguir ir, mas, se derem brecha, tô dentro.
Publicado originalmente na revista “Playboy” em março de 2010

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