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domingo, 25 de julho de 2021

Cineastas brasileiros em PBY: Entrevista com Daniel Filho (janeiro de 1981)

Playboy entrevista Daniel Filho

 

Uma conversa franca sobre tudo que acontece nos bastidores da televisão, com um dos homens que não só observam, mas fazem tudo aquilo acontecer

 


Nos últimos vinte anos, Daniel Filho tem despertado os sentimentos mais ferozes e contraditórios: as pessoas o amam ou o detestam, sem meio-termos, e cada um julga-se com razões definitivas para isto. Mas Daniel Filho sempre transcendeu a simplicidade dessa divisão. Por exemplo, aqueles que o detestam são obrigados a aderir à unanimidade de opiniões a respeito do seu brilho e talento como diretor de televisão. E aqueles que o amam reconhecem que, muitas vezes, ele se comportou como insuportável tirano no tempo em que assumiu a sua função de todo-poderoso da Rede Globo. Como se vê, ele não é um tipo fácil de se classificar.

Mas há ainda outro motivo para torna-lo tão amado, desejado, invejado e detestado: sua carreira amorosa, iniciada aos 13 anos quando uma corista do teatro de revista – onde ele praticamente nasceu -, iniciou-o na prática mais antiga que se pode fazer a dois. O jovem Daniel certamente gostou, porque hoje, aos 43 anos, poderia comemorar – se quisesse – trinta anos de intensa atividade na horizontal.

Nos corredores da Globo, no Rio, seus amigos costumam fazer frases como esta: “Cite-me uma mulher que ainda não tenha ido para a cama com Daniel Filho e eu te direi que deve haver alguma coisa errada com ela”. Outros comentam que, se Daniel quisesse escalar times compostos pelas mulheres de sua vida, teria o suficiente para mais de dez equipes, apenas na área das atrizes e cantoras.

Pode ser que tudo isso não passe de um grosso exagero ou lenda, mas, quando a lenda se torna mais forte do que a realidade, tende a ser considerada verídica. O próprio Daniel não faz questão de confirma-la ou desmenti-la, mas, como se verá nesta entrevista, suas opiniões a respeito de sexo surpreenderão que se limitou a toma-lo por um garanhão insensível.

Sensibilidade é o que nunca parece ter faltado a Daniel Filho, ou ele não poderia orgulhar-se de sua carreira extremamente bem-sucedida em quase todos os ramos de show-business. Um breve resumo de sua vida profissional indicaria que ele já foi lanterninha, ponto, contra-regra, figurante, palhaço, ator, produtor, diretor e supervisor de circo, teatro de revista, teatro dramático, cinema e, naturalmente, televisão, onde há 23 anos (dos quais quinze na TV Globo) promove revoluções constantes – dando às novelas o formato que fez delas um sucesso, criando os seriados brasileiros e, ultimamente, dirigindo os melhores especiais de MPB já vistos na televisão.

Não chega? Não. A inquietação de Daniel Filho diante da vida e do seu trabalho chega a ser epidérmica, como constatou seu entrevistador, o editor Ruy Castro, de PLAYBOY, nas três sessões de gravação que mantiveram no Rio. “Daniel não para”, diz Ruy. “No meio de uma frase, corre lá para dentro e traz um livro de cinema – deve ter uns mil na estante -, como se precisasse abonar uma ideia recente com alguma frase dita por Clark Gable num filme dos anos 30. Cinema, aliás, parece ser a sua maior preocupação atualmente. Não apenas para trabalhar, mas também para curtir. Passa o dia diante do videocassete que tem em casa, exibindo suas cópias particulares de filmes como Cidadão Kane, Cantando na Chuva, Uma Noite na Ópera e velhos musicais de Fred Astaire. Com essa formação cinematográfica, é natural que as pessoas estejam morrendo de curiosidade para ver o que Daniel Filho fará de O Que É Isso Companheiro?, o livro de Fernando Gabeira que ele pretende filmar”.

O apartamento de Daniel no Leblon lembra apenas vagamente que ali reside um dos homens mais poderosos da televisão brasileira. Nas paredes, fotos de suas ex-mulheres e amigas Dorinha Duval (envolvida num crime passional pouco depois de gravado esta entrevista), Betty Faria, Regina Duarte. Bem na entrada, um bar que provocou comentários irônicos de uma repórter há alguns anos, o que abalou as relações já pouco cordiais entre Daniel e a imprensa. E, espalhados pelos quartos, três aparelhos de televisão, um dos quais o de videocassete, muito mais usado do que os outros. “Prefiro ver filmes que gosto a ser imbecilizado por esses programas que levam aí”, diz ele.

A franqueza de Daniel Filho tem ocasionado frequentes atritos entre ele e o veículo em que trabalha. Mas, seja qual for o motivo – sua segurança, capacidade ou prestígio -, Daniel sai sempre ganhando. E foi com essa mesma franqueza que ele se abriu para PLAYBOY.

 




Você é considerado pelos especialistas como uma das pessoas mais importantes da televisão brasileira – além de ser, dentro do meio artístico, uma celebridade. No entanto, o grande público não o conhece. Como se explica isso?

Como não me conhece? De uma forma ou de outra, eu sei que sou popular. Daniel Filho é um nome que aparece muito na televisão – dirigindo novelas, seriados, ou especiais. Minha vida particular sai em todos os jornais e revistas. Só que o público não sabe exatamente quem eu sou ou o que faço, porque não faz muita ideia do que faço como diretor de televisão, um diretor de novela. Para o público, aquilo que ele está vendo é o trabalho de uma grande equipe – o que, aliás, também é.

 

O diretor de televisão terá, um dia, o reconhecimento artístico que o diretor de cinema passou a ter?

Não. Ele poderá ser lembrado, digamos, por uma novela ou por um programa, mas, de modo geral, o que ele faz é um prêt-à-porter diário. A televisão despersonaliza e não permite que um diretor tenha características próprias. Ele é obrigado a seguir uma fórmula de sucesso, porque o público é aquela coisa ávida que não para de dizer: “Quero mais! Quero mais!” É um monstro que a televisão tem de alimentar. E as pessoas que estão à frente desse veículo são engolidas pelo tal monstro.

 

Gilberto Braga na sua entrevista a PLAYBOY, disse que as duas pessoas mais importantes no desenvolvimento da novela de televisão no Brasil eram Janete Clair e Daniel Filho. O que você acha?

Eu concordo com ele. Eu sei que os intelectuais ficarão profundamente magoados por não serem citados, entre esses mais importantes, nomes como Bráulio Pedroso, Dias Gomes, Lauro César Muniz. Principalmente o Bráulio, que é sempre citado como o modificador da novela por causa de Beto Rockfeller. Mas, na verdade, ele não trabalhou com uma audiência forte. Por isso pôde fazer uma novela, digamos assim, de protesto. O que ele fez foi criar um anti-herói na figura do Beto. Mas, antes dele, já havia o Frederico Aldama, interpretado pelo Carlos Alberto em Eu Compro Essa Mulher. Ele também era um anti-herói, assim como o personagem de Clark Gable naquele puta novelão chamado ...E o Vento Levou também era. Quer dizer, o anti-herói é uma das coisas mais antigas de toda a literatura de folhetim. Não estrou dizendo isso para desmerecer o trabalho do Bráulio, do Dias ou do Lauro, que foi o de elevar o nível da novela, em tipos de histórias, de diálogos. Mas foi a minha dobradinha com a Janete Clair que conseguiu fazer a passagem do capa-e-espada para a chamada novela “brasileira” – sem perder o público.

 


Como foi essa passagem?

Começou com Véu de Noiva, em 1970. A ideia era manter todo o clima dos novelões romanescos, mas fazendo o personagem falar brasileiro, chamar-se João, essas coisas. Pusemos até corrida de Fórmula 1 na novela. Outra mexida importante foi o balanço da imagem, acabando com aquele estilo clássico de travellings e closes por entre as vidraças, com chuva lá fora. Mas, ao mesmo tempo, todas as características do capa-e-espada continuavam: o filho perdido, a mulher que ficou com a cara marcada, etc.

 

Não foi um risco?

Foi um risco calculado, mas, sem dúvida, um risco, principalmente porque estávamos trabalhando nos horários nobres. Era uma enorme responsabilidade porque a TV Globo estava começando a embalar na novela das 8 e, nesse horário, ninguém pode errar. As pessoas nos cobravam: “Será que o público vai entender, vai aceitar?” Se eu e a Janete quebrássemos a cara, perderíamos a TV Globo. Mas a verdade é que nós mantivemos a audiência e até conquistamos mais público para a televisão.

 

Como vocês conseguiram convencer a Globo a bancar esse risco?

Porque demonstramos todos os prós e os contras da receita. Eu dizia para eles: “Olha, aparentemente é moderno, mas eu continuo com um pé no novelão”. Era um jogo certo, não podia falhar. Depois de Véu de Noiva, nós fizemos Irmãos Coragem, que era um grande capa-e-espada situado no interior do Brasil, assim meio western. Depois vieram Pecado Capital, O Astro, etc., todos sucessos meus com a Janete.

 

Dá para se prever o maior ou menor sucesso de uma novela?

Algumas que eu fiz com o Lauro César Muniz eram uma loucura de risos, como O Casarão e Espalho Mágico. Ou O Rebu, com o Bráulio. Agora, eu não via o menor perigo em Gabriela, que o Dias Gomes adaptou do Jorge Amado. Não tinha como não dar certo. E, no caso de Dancin’ Days, que foi a estreia do Gilberto Braga no horário das 8, a novela foi construída de tal maneira que eu cheguei a prever qual capítulo daria tanto de IBOPE. Eu disse que, no capítulo 55, a novela daria um mínimo de 85% - e acertei. Porque eu sabia que, naquele capítulo, Júlia revelaria à sua filha, na hora do casamento, que ela era a mãe, e, bêbada, seria presa. Dancin’ Days tinha tudo armado: os modismos, a novidade da asa delta, o velho, o rico, o pobre em ascensão, o amor impossível, os casamentos e principalmente a discoteca. Eu tinha visto Embalos de Sábado à Noite em Nova York e sabia que aquela febre de discoteca não iria demorar a chegar por aqui. Porque isso é uma aldeia global mesmo e, quando vem o modismo, não dá para segurar.

 

Dancin’ Days foi então o seu grande barato como diretor?

Eu quis dar um tiro de chumbo grosso, porque não aguentava mais fazer novela. Eu pensava assim: “Porra, o que eu mais vou fazer em novela? Posso melhorar uma ceninha aqui, outra ali, mas e daí?” O grande barato é trabalhar com os atoes, ajuda-los a criar os personagens. Só que, depois do capítulo 20, o diretor já não tem o que dizer para o ator, porque, a essa altura ninguém conhece melhor o personagem do que ele. Pode reparar que, por melhor que seja o elenco, os primeiros 20 capítulos de qualquer novela serão péssimos se o diretor for ruim. Depois, os atores se mancam, começam a se autodirigir e tudo fica ótimo. É por isso que as novelas levam um mês para emplacar. Uma das grandes coisas das minhas novelas é que elas sempre começaram bem, inclusive Espelho Mágico, que depois fracassou, mas que, no começo, ia muito bem. Dancin’Days, em menos de quinze dias, já era coqueluche nacional.

 

A chamada máquina promocional da Globo não ajudou um pouquinho?

É lógico que essa máquina ajuda. Não sei se conseguiria implantar uma novela com a mesma velocidade se fosse na Bandeirantes. Nem sei se conseguiria implantar. Mas o fato é que, depois da minha experiência frustrante com Espelho Mágico, eu queria provar para mim mesmo que novela tinha mais de ser é folhetim, consumismo, porque é isso que o povo quer. Ficar inteligente, o cacete! É por isso que eu acho Dancin’ Days a melhor novela já feita até hoje. Era bonita, simpática, romântica, vendeu discos, moda, asa delta, tudo.

 

Você, que está lá desde que a onda começou, há quinze anos, como explica essa mania do brasileiro pelas novelas?

Acredito que o sucesso das novelas teve a ver com a revolução de 64. De quando é O Direito de Nascer, que foi a primeira novela? 1964. A novela surgiu como uma necessidade, porque poucas coisas foram deixadas para as pessoas conversarem ou discutirem na sua própria casa. Enquanto isso, começou a entrar aquele aparelho, que ajuda a passar o tempo, não provoca, não leva a fazer nada. Houve fatores externos que prenderam as pessoas àquele eletrodoméstico. Um deles, a dificuldade financeira até para sair à rua. Então, ficar vendo televisão era mais barato. As pessoas paravam de discutir até o orçamento doméstico, de ir à esquina bater um papo com os amigos, de fazer visitas. Ao mesmo tempo, os apartamentos foram ficando menores e as pessoas tiveram que botar aquele aparelho imenso e bestificante na sala. Porque não há quem não fique bestificado, depois de ouvir o mesmo comercial oitocentas vezes, mesmo que seja o da menina mostrando a bunda dentro da calça jeans. Eu, por exemplo, que tenho três aparelhos de televisão, não ponho nenhum na sala, que é para não cortar o papo com os meus amigos. Tenho um no meu quarto, e confesso que ele às vezes me incomoda profundamente. Enfim, foram vários fatores sociais, culturais e econômicos que amarraram e escravizaram as pessoas à televisão.

 


E como a novela entrou nisso?

Bem, a televisão foi criando as suas estrelas, e nós, que fazíamos novelas, nos entusiasmamos com o sucesso, fomos nos aprimorando, aprendendo com o público. Afinal, quem nasceu primeiro foi o processo social e não o processo televisivo. Não foi a televisão que puxou o público – ela apenas respondeu a uma necessidade desse público. Porque, verdade seja dita a favor desse regime que começou em 1964: não melhorou porra nenhuma, mas também não estava muito melhor antes. O Brasil só esteve bem até o Pedro Álvares Cabral chegar. De lá pra cá, foi esse caos, essa exploração. Mas, depois de 64, as notícias começaram a ser tolhidas e passamos a viver numa mentira.

 

Até o advento da TV Globo, em 1965, a televisão no Brasil não chegava a existir em escala nacional. Quando isso finalmente se tornou realidade por volta de 1968, com a escalada da Globo, a censura apertou. Pode-se dizer, então, que a televisão, como veículo de massa, mas sem censura, ainda não foi testada no Brasil?

Bem, eu continuo achando que até esse processo de crescimento da televisão brasileira foi um processo da revolução de 1964. Pode ter sido uma coincidência quer dizer: na medida em que o povo foi sendo tolhido, apareceu coincidentemente um grupo de pessoas dispostas a fazer uma televisão altamente profissionalizada. É preciso que se diga que a empresa Roberto Marinho investiu muito nessa televisão e soube utilizá-la, naquele momento político. Quando digo que foi um investimento sério, não estou julgando a empresa politicamente, mas colocando-a como uma empresa altamente profissional, que já existia como jornalismo. Tanto que, na hora em que foram armar a equipe, pegaram homens como Walter Clark e o Boni, superprofissionais. Enfim, foi o mesmo que juntar a fome com a vontade de comer.

 

Você ainda não respondeu à pergunta.

Quanto ao veículo de massa sem censura, não acredito que exista em nenhum lugar do mundo. Um veículo com a força da televisão, seja particular ou não, será sempre comandado por alguém com interesses políticos, culturais e financeiros próprios. Estatal, idem, idem. Um dos Malus, por exemplo, foi proibido na Suécia: aquele em que dois assaltantes entravam na casa dela e quase estupravam a garotinha. Foi proibido porque, para eles, esse fato não acontece na Suécia, logo não viam motivo para colocar tal violência na televisão. Acho utópica uma televisão sem censura, seja a política, ou a do preconceito. Veja o próprio cinema americano, que é considerado o mais liberal: hoje se fazem filmes à vontade sobre o Vietnã – porque o Vietnã já foi consumido. Mas, quando eles estavam com a ferida aberta, o máximo que fizeram foi Os Boinas-Verdes, com John Wayne.

 

Por que aparecem tão poucos bons autores novos de novelas?

Não só de novelas. É difícil aparecer gente nova e boa na televisão de modo geral, porque hoje não é permitido errar. Veja o meu caso: eu tenho 23 anos de televisão. Portanto, sou de uma época em que se podia fazer de tudo, experimentar, quebrar a cara, porque a televisão era ao vivo, pouca gente via, faziam-se as maiores merdas e ninguém notava. O papo mais frequente depois de um programa era assim: “Pô! Minha calça caiu naquela cena, você viu?” E o outro respondia: “Ah, ninguém notou”. E ninguém notava mesmo, porque aquela porra não era gravada, existia só durante aquele segundo. Eu gostaria de ver um teipe daquela época em que não existia o teipe. Mas por um lado foi bom, porque nós pegamos uma prática de televisão que qualquer pessoa que entrar agora dificilmente poderá pegar. Eu, por exemplo, fui ator, lutei espada contra o Falcão Nero, fiz apresentação, fiz câmara, dirigi, fiz de tudo. Atualmente, eu chamo homens como o Arnaldo Jabor ou o Cacá Diegues, que são grandes diretores de cinema, e digo: “Você quer dirigir um programa na TV Globo, para o horário das 9?” O cara responde: “Porra, tudo bem, mas tem que dar um tempo...Preciso ficar vendo como é isso...” Há dez ou quinze anos, o Jabor ou o Cacá iriam e fariam um programa na maior, porque a televisão não exigia esse compromisso de qualidade. Hoje o vídeo-taipe acusa mais o erro e, além disso, todos os olhos estão pregados na gente.

 


No começo dessa entrevista você se referiu aos intelectuais. Você acha que eles ainda têm preconceitos contra a televisão?

Será que existe ainda esse preconceito? Não sinto mais isso.

 

Algumas pessoas recusam-se até hoje a vender o passe. Chico Buarque, por exemplo.

O Chico Buarque não vendeu o passe para a Globo, como ele mesmo disse, por um problema pessoal, não político. Foi uma briga provocada durante um daqueles festivais da canção, em que o Chico teria tido uma discussão com o Boni – e que o Boni nega ter tido -, que culminou com um episódio no Antonio’s, no tempo em que as paredes do restaurante eram cobertas com retratos dos fregueses famosos. O Chico acabou mijando em cima do retrato do Boni, o Boni pegou o retrato do Chico e atirou longe, não sei bem. Tanto que, depois daquilo, acabaram-se os retratos no Antonio’s. Acho neurótica essa raiva que o Chico alimenta há séculos pela Globo, e que nem é pela Globo, porque é um assunto pessoal. Porque, se fosse uma atitude política, o Chico não iria trabalhar em nenhuma emissora de televisão, cujos proprietários são tão capitalistas quanto o Roberto Marinho. É, se ele realmente é uma pessoa de esquerda, não teria sido contratado pela Ariola, que é uma empresa alemã, fortíssima, profundamente capitalista. Ficaria fazendo só teatro ou dando shows de 1º de maio (risos).

 

Mas, afinal, existe ou não algum preconceito contra a televisão?

Eu poderia dizer que tenho preconceito contra televisão. Eu e outras pessoas que trabalham nela.

 

Que tipo de preconceito?

Eu estou fazendo televisão há muito tempo. Estou cansado de trabalhar em televisão. Porque ela é uma mulher muito ciumenta e possessiva, que não te deixa ter relações, não digo nem sexuais, mas de amizade. Sabe aquela mulher que tem ciúme dos seus amigos e quer que você seja amigo apenas dela? Pois é. Por melhor e mais inteligente que ela seja, esse relacionamento se tornará inevitavelmente burro, porque ficará apenas aquele feed-back de um para o outro e com pouca informação. Esse é o meu preconceito contra a televisão. Ela é extremamente possessiva, embora seja também muito generosa com os seus sucessos. Em termos de salário brasileiro, ela paga bem, embora eu viva desconfiado de que, se me pagam 100, é porque eu merecia 300. De qualquer forma, é uma relação perigosa, porque envolve muito dinheiro. Ela se torna um vício, tão violento quanto o da heroína, que o sujeito fica com medo de deixar porque pode morrer. Estou dizendo isso sendo um homem viciado em televisão, mas tentando tratar desse vício.

 

Só faltou dizer que a televisão compra a alguma das pessoas.

Mas compra mesmo. Você tem que se dar a ela, entende? Todos os homens de televisão ficam com a sua alma lá dentro. Não tem horário, não têm final de semana. O Boni é um homem que trabalha 24 horas por dia. Mesmo quando passa um fim de semana em Angra dos Reis, assiste à programação, fica nervoso, preocupado e tem um telefone direto ligado na estação. Isso não é a alma da pessoa?

 

Você já passou por isso?

Eu já passei três, quatro dias sonado, dentro da televisão, quando era diretor de todas as novelas. Mas, na época, eu precisava trabalhar, e não fazia muita distinção entre o quanto estava dando e o quanto recebia. Porque o artista é amador, né? Ele realmente ama, e é preciso controlar muito esse amor, porque senão ele faria de graça. O artista é alguém que, ao gravar uma cena em que ele recebe um soco na cara, se o soco pegar mal e fizer sangrar, ele pergunta depois: “Pô! A câmara pegou o sangue direto?” Além disso, não se esqueça que somos artistas de um país subdesenvolvido – apesar de o Delfim dizer que não.

 

Você disse que a televisão paga bem. Quem ganha bem na televisão?

Mas para que falar da televisão? Por que não falar do Brasil, que é exatamente a mesma coisa? Claro que há grandes diferenças salariais entre um diretor, uma estrela e um editor de vídeo-taipe. Mas, quando o governo dá um salário mínimo como esse, dizendo que é o salário do povo, eu não posso culpar a TV Globo. E coloco isso muito claramente porque não quero que pareça que estou com medo da TV Globo ou do desemprego – porque, graças a Deus, não estou. Eu nem sei se continuarei na televisão em 1981. Mas, voltando ao Brasil: este é um país onde a hora extra faz parte do seu ritmo de trabalho normal! Se o cara não fizer hora extra, não como. O ator de televisão ganha bem? Ganha bem em termos de atores de teatro. Se ele está numa novela de sucesso, pode chegar a ter um faturamento paralelo, tipo bailes de fim de semana no interior, gravar um comercial, fazer um show. Ora, isso não é hora extra de operário brasileiro? É uma pergunta que eu deixo aqui. Eu me lembro da Zilka Salaberry, há alguns anos, pedindo aumento porque não podia continuar andando de ônibus. E não era por frescura, não. Era porque ela não tinha sossego no ônibus. As pessoas olhavam, pediam autógrafo, era uma balbúrdia. Ela não podia pegar o textinho dela para vir decorando ou ficar quieta, bordando ou olhando pela janela. Estou falando da Zilka Salaberry, uma senhora e não de uma gostosa que as pessoas quisessem passar a mão na bunda, veja bem.

 

Vida de artista é tão dura quanto dizem?

Na realidade brasileira, é dura a vida de quase todo mundo. O ator de televisão, por exemplo, é um cara que precisa de um mínimo de tranquilidade e conforto para produzir o que esperam dele. Se ele for o astro da novela, ele começa a gravar às 8 da manhã, acaba às 8 da noite e mal tem tempo para jantar, decorar o texto do dia seguinte e dormir para começar tudo de novo pela manhã. Não dá para fazer uma ginástica, pegar uma piscina, olhar o filho. Isso são seis, sete meses por ano. Então, para produzir direito, o cara tem que ter um mínimo de tranquilidade e conforto fora da estação, o que evidentemente custa dinheiro. É importante que eu fale isso, porque estou falando de barriga cheia – sou bem alimentado, moro bem e ganho bem, embora muito menos que os executivos dos sistema capitalista brasileiro.

 

Quando você ganha por mês?

Esta é uma pergunta complicada porque eu sou contratado como firma. É a minha firma que vende os meus serviços. Mas é possível que, entre o pessoal da parte artística, eu seja um dos melhores salários da televisão brasileira.

 

Digamos assim por volta de uns Cr$ 700.000?

Talvez. (N. da R.: segundo fontes da Globo, Daniel ganhava, em dezembro último, Cr$ 1.300.000 por mês.)

 

Você compararia a Globo de hoje à Metro-Goldwyn-Mayer no seu apogeu, que foi em 1939,, ano de...E o Vento Levou, O Morro dos Ventos Uivantes, O Mágico de Oz e todos aqueles filmes?

Eu acho que a Globo já passou por 1939. Eu diria que a Globo está hoje como a Metro estava nos anos 50.

 

Isso significa que a Globo está indo para baixo, como a Metro naquele tempo?

Eu não diria isso. Mas está com poucas possibilidades de transformação. Claro, houve os seriados, houve a TV Mulher, houve os especiais de cantores, mas a tendência é a padronização. Ela está numa linha reta. Seria difícil a Globo ir para baixo com o material humano de que ela dispõe, que inclui 99% dos melhores profissionais na praça.

 

Esse monopólio de talento pela Globo é bom ou mau?

Em termos de mercado, não acho que seja bom, mas também não se pode dizer: “Olha aí, a Globo levou todo mundo”. O mal é de todo o mercado de trabalho no Brasil, que é pessimamente distribuído. A Globo não pode ser culpada por ter tido competência para se tornar forte. As outras emissoras que se agitem e, como não se agitaram, ficamos sem mercado de trabalho. O mercado ficou fechado na Globo.

 

Você, por exemplo, se sair da Globo, vai para onde?

Não vou para televisão nenhuma. Talvez vá para o cinema, fazer um filme de dois em dois anos e passar o resto do tempo vivendo de comerciais, como a maioria dos diretores do cinema brasileiro. Ou posso dirigir peças de teatro ou shows no Canecão. Ou seja, eu teria o que fazer fora da Globo. Logo, posso me considerar uma pessoa privilegiada.

 

O que o torna também uma pessoa invejada e temida. Por que você é acuado de ter tantos problemas com a imprensa?

Não acho que tenha problemas com a imprensa. Já tive, mas foi na época em que eu era diretor geral das novelas. Mas isso só aconteceu porque eu me pus em defesa dos atores, como uma barreira entre eles e a invasão à privacidade deles. Os coitados têm que decorar 120 laudas por semana. Não têm tempo nem pra mijar e, na hora de entrar em cena, não sabem o texto direito. Justamente quando estão dando aquela última passada, chega uma repórter e pergunta: “O que você vai fazer no carnaval?” Porra! pegue uma revista de televisão de dez anos atrás – tem as mesmas coisas que saem nas de hoje. Só que, naquela época, era a Regina Duarte, que tinha 20 anos de idade. Hoje é Lucélia Santos. O escândalo da palavra mais libertina que era dita há dez anos pela Betty Faria hoje é dito pela Lídia Brondi. Mas os atores precisam de imprensa e querem ser simpáticos. Então, eu entrava na frente e andava a repórter embora. Se quisessem me malhar, tudo bem – eu não ia sair na capa da revista, mesmo. Certa vez, expulsei uma repórter e um fotógrafo do camarim do Francisco Cuoco, ele com as caças no meio das pernas, dizendo “Minha filha, agora não posso falar, tenho que trocar de roupa, repassar o texto, o personagem é difícil...” Daí criou-se a onda do fascista, violento, irascível com a imprensa. Mas devo dizer que não estavam cumprindo ordens. Era ideia minha mesmo, e eu assumia essa barra.

 

Enquanto diretor, como você assume a barra de estrelismo dos atores?

Não posso dizer que sempre tenha feito isso, mas, de uns tempos para cá, eu procuro ver as neuroses de cada um dos atores. Lógico, todos temos as nossas neuroses. Então, eu procuro ver as inseguranças, para não paternalizar, passar a mão na cabeça e ser enrabado. Tive um problema, por exemplo, com a Norma Bengell pouco antes de Dancin’ Days estrear. Tínhamos gravado a chamada e estávamos começando a novela. Ela viu a chamada e me disse que não tinha gostado. Eu disse: “Puxa vida, então vamos ver isso. Vamos gravar as cenas de hoje e, à noite, a gente vê isso”. Ela respondeu: “Não. Quero que veja agora. Senão, não gravo”. Ainda tentei argumentar, explicando que estava tudo ali, as câmaras colocadas, dava tempo para ver tudo à noite. Ela manteve o pé firme, dizendo que não gravava, e eu comentei que ela precisava se tratar, porque não estava legal. Aí a Norma começou a atirar coisas em cima de mim, gritando: “Seu filho da puta! Seu comunista fascista! Seu KGB da CIA!” Uma coisa estranha. Depois ela pediu para voltar atrás, mas eu preferi botá-la para fora, pagando à vista o que teria de pagar durante seis meses de gravação, e regravei dezoito capítulos com a Joana Fomm no papel. Hoje nos damos bem.

 

Pinta muito estrelismo?

Todos os atores têm um certo tipo de rebeldia, de estrelismo, que eu posso compreender. Só não posso deixar que isso me prejudique. Então, tudo bem: você está nervoso, seu pai morreu, sua mãe foi estraçalhada, seu filho te abandonou, sua mulher te corneou e você está desesperado. Mas não tem direito de vir me dando porrada. Há outros que têm mania de silêncio no estúdio e há também os que eu considero maus profissionais, que são o que chegam constantemente atrasados.

 


Por exemplo?

Tônia Carrero. É uma pessoa com quem eu não trabalharia mais. É uma atriz que me emociona, acho ma-ra-vi-lho-so o trabalho dela em Água Viva, mas eu não dirijo mais Tônia Carrero, porque, além disso, ela nunca decora o texto direito. O que não quer dizer muito, porque o Lima Duarte também não decore bem, mas traz um outro tipo em compensação. A Tônia traz uma boa representação, mas não traz velocidade de trabalho, e tem horas que temos de correr com a equipe. Um dos exemplos mais curiosos da Tônia foi durante a gravação de Pigmalião 70: Era uma externa e ela queria fazer pipi. Arranjamos o banheiro de uma casa vizinha para ela ir, mas ela disse: “não”. Pegou o carro e foi fazer pipi em casa, deixando a gravação uma hora e meia parada. O que eu quero dizer é o seguinte: ninguém mandou ela fazer pipi no mato. E podia ser até que estivéssemos gravando no mato. Esse tipo de estrelismo não tem lugar e me irrita. Não sei, pode ser que a Tônia tenha mudado.

 

Que tipo de estrelismo você tolera?

Por exemplo, o Francisco Cuoco não grava de manhã. Porque ele faz análise de manhã, e colocou essa cláusula como uma imposição. Perfeito, ele é ator principal, é o que decora mais texto, grava mais horas. Então, tudo bem, não porque ele seja estrela, mas porque trabalha mais. Essa preocupação do diretor deixa então ser uma preocupação estelar, e passa a ser uma preocupação humana.

 

Tudo isso seria resultado do clima de pressão na televisão?

Não sei. No Brasil você precisa provar que é capaz de matar um leão por dia. E, atualmente, um leão só não está chegando. Nós vivemos num processo em que somos uma merda e precisamos viver provando que não somos merda. É como se estivessem nos fazendo um favor por estarmos trabalhando. Tá todo mundo te quebrando um galho, te dando uma chance, sabe como é? “Muy amigos”, como diz o Jô Soares. Então, há milhões de brasileiros morrendo aos 70 anos de idade e agradecendo a chance que lhes está sendo dada de continuarem trabalhando! É aquela coisa: “Eu vou matar outro leão hoje. Eu vou provar que sou um pouco melhor ainda”. E não é uma prova para o seu ego, mas para o exterior, para que continuem te pagando, para você continuar empregado. “Não me despeçam, não me despeçam! Eu farei melhor!” E a chamada satisfação artística, onde fica? No meu caso, me foi dada a chance de ser diretor da Divisão de Novelas da TV Globo no início dos anos 70. Chance nada. Eu era realmente a pessoa capacitada para dirigir a Divisão de Novelas. E peguei aquilo com a maior coragem. Lógico que os executivos, todo mundo, vão dizer o quanto colaboraram. Que maravilha, o que teria sido de mim senão fossem todas aquelas pessoas em volta, me ajudando, dando todas as ideias...Mas na realidade, quem estava com a cara, com o cu na seringa? Quem tomava os esporros? Eu é que era o culpado pelos fracassos, e tinha que partilhar com todos os sucesso. Isso durou cinco anos, de 1970 a 1975.

 

Em que consistia o seu trabalho?

Estava burocratizado, fazendo uma coisa que não tinha nada a ver comigo. Eu dirigia os primeiros capítulos de quase todas as novelas e produzia todas. Ou seja, eu preparava a mulher para os outros gozarem. Não que os outros não soubessem trepar bem. Mas, na verdade, meu nome sumia na massificação. Quando chegava a hora de fazer o que gostava – que era dirigir, cortas, falar com o ator -, todo mundo ia para o quarto trepar e eu ficava fora da suruba. Quando cheguei ao desespero, depois de cinco anos de mandato, pedi demissão, como um bom democrata- porque acho que ninguém deve governar mais de cinco anos (risos). Então, voltei a dirigir novelas. A primeira foi Roque Santeiro, que foi proibida, mas depois vieram Pecado Capital, que foi uma das grandes viradas da carreira da Janete Clair, O Astro, Dancin’ Days. Mas até mesmo tudo isso me encheu o saco, porque eu já não tinha paciência para dirigir uma novela inteira, entrar numa segunda-feira às 8 da manhã e sair na sexta às 8 da noite de dentro do estúdio. Não tinha saco.

 

Foi aí que você abandonou as novelas e passou para os seriados?

No meio de Dancin’ Days, o Boni me chamou e perguntou o que eu achava de mudar. Eles acham que sou um instável, o que eu não sou. Eu sou uma pessoa em mutação, quero sempre uma coisa nova, me questionar. As pessoas corretas e seguras, que eu chamo de burocratas, consideram isso uma pessoa instável, com quem não se pode contar. Mas o meu processo na novela estava concluído. De A Rainha Louca até Dancin’ Days, tinha sido sete sucessos. Então comecei a trabalhar no projeto de seriados.

 

Esses seriados seriam Plantão de Polícia, Carga Pesada e, principalmente, Malu Mulher. Que transformações você acha que eles trouxeram?

Os seriados vieram num momento coincidente com o da abertura política. Eu não sabia que tipo de abertura seria essa, portanto fiquei me autocensurando um pouco na proposta, embora o Boni me dissesse: “Vai chumbo grosso. Vai chumbo grosso!” Tanto que, quando o Boni viu os primeiros capítulos da Malu, me disse: “Daniel, você está meio fora da proposta inicial”. E estava mesmo. Aí refizemos tudo. A essa altura, eu já tinha uma preocupação cultural com o Brasil, com a realidade, com um processo de fazer brasileiro e bem-feito. E deu no que deu.

 


O que aconteceu?

Bem, os seriados estrearam com enorme sucesso, embora os primeiros quatro episódios de cada um fossem os mais violentos, no sentido político, cultural, social. Deu uma desgovernada geral. Na censura, que ficou na dúvida, e na própria Globo, que viu a necessidade de recolocar suas diretrizes políticas. Porque, na medida em que o governo abria...Começaram a nos cobrar um pouco mais de responsabilidade quando se tratasse de certos assuntos. Quando o Malu que tratava do aborto foi para o ar, quase fomos crucificados. Acharam o programa leviano, tendencioso, mal discutido. Um ano depois, ele foi repetido, com ufanismos gerais.

 

Foi por isso que você também largou os seriados no meio?

Não só por isso. Eu percebi que estava me afastando de novo do meu processo de criação direta, tinha recaído no processo burocrático, discutindo verba, salários, atrasos, comandando um mundo de gente. As duas coisas me fizeram sair. E mais a minha vontade de não me repetir, de não ficar fazendo a mesma coisa muito tempo. Então pedi para sair. O Boni foi profundamente carinhoso comigo, me deixou ficar uns três ou quatro meses parado e aí voltei para fazer esses especiais mensais que estou fazendo agora, ao vivo, capturando a essência do cantor, do palco, da orquestra e do público. O primeiro foi o da Simone. Depois vieram o Caetano, Jorge Ben, Ângela Maria, Paulinho da Viola, João Gilberto, Rita Lee. Assim, depois de quinze anos de Globo, esse é o descanso no que pensei que fosse meu ano sabático.

 

Você parece entediado com a profissão. Isso não acabará afetando seu trabalho?

Eu estou entediado é com o Brasil. Não vejo nenhum gênio capaz de dar jeito neste país, a não ser, talvez, começando por Pedro Álvares Cabral ou, antes ainda, por Cristóvão Colombo. Com esses velhos senadores e deputados enraizados no poder, afastados dos interesses do povo, eu passo a acreditar mais nos tecnocratas. Mas talvez não tenhamos bons tecnocratas no Brasil, assim como não temos bons políticos. Está provado que essa revolução não foi um sucesso. Mas eu confesso que, até há pouco, nunca tinha pensado na solução para o problema brasileiro. Porque não era meu problema solucionar o Brasil. Meu problema era votar em alguém, o que também deixei de fazer há dezesseis anos. O fato é que somos uma grande Uganda. Agora, como resolver isso? Se, numa psicanálise, você descobre que é neurótico há quarenta anos, como transar isso em menos de sete ou oito? Imagine então o Brasil, que está desse jeito há 480.

 

Por falar em psicanálise, você é um dos analisados mais célebres do Rio de Janeiro, mas ninguém acredita que seja por traumas sexuais...

Bem, como se sabe, eu nasci dentro do teatro de revista, onde meus pais trabalhavam. A partir dos 13 anos, eu fui comido por várias daquelas girls maravilhosas da revista. Ou seja, minha iniciação sexual foi bem melhor que a do Pelé, segundo ele declarou na PLAYBOY de agosto...O gozado é que eu não consigo recordar essa época como sendo uma coisa de sacanagem ou mesmo erótica. Era bonito, talvez porque eu fosse muito moço e achasse tudo aquilo muito romântico...O fato é que, com 13 anos, eu já tinha a minha vida sexual ordenada. E nunca me preocupei em transar a garotada familiar, porque já tinha as minhas namoradas no teatro e até no rendez-vous, embora estas eu só pudesse visitar depois que o coronel saísse, às 2 ou 3 da manhã.

 

Isso não o tornava diferente dos outros garotos da sua idade?

Não só isso, como também o fato de trabalhar em tetro desde garoto, de ser artista. Porque, para a garotada naquele tempo, ser artista era sinônimo de ser viado. E, não sei por quê, como eles se viam diante de uma pessoa que praticava sexo normalmente, foram se afastando de mim.

 

Você sofria com isso?

Sofria, claro. Porque eles vinham com aquela coisa do olhar de desdém, do nariz em pé, como se eu estivesse fazendo uma coisa menor. Embora eu soubesse que, no fundo, eles estavam alimentando grandes fantasias a meu respeito. Como, aliás, as fantasias eróticas que se atribuem aos artistas só existem na cabeça dos pequeno-burgueses. O artista é uma cobaia das emoções humanas. Ele é menos defendido do que a chamada burguesia. Então a burguesia transfere para ele todas as suas fantasias, imaginando: “Que surubas maravilhosas esses artistas devem fazer! Que carros incríveis! Como são ricos!” Tudo mentira, né? Quantos artistas não têm onde morar, pedem dinheiro emprestado e, às vezes, pedem dinheiro para dizer que têm dinheiro...

 

Mas você deve admitir que, no terreno erótico, os artistas se realizam muito mais do que a média das pessoas. Você próprio é um exemplo.

É verdade que eu, desde os 13 anos, nunca precisei usar a masturbação como uma coisa erótica. O que eu acho bom de dizer aqui, porque pode ajudar alguém. O Pelé, por exemplo, disse ao PLAYBOY que se iniciou sexualmente com uma bicha. Muitos devem ter lido isso e dito: “Ah, que bom! Eu também fiz isso e não tenho culpa; o Pelé também fez e ele é o Pelé!” Então, o que eu posso dizer é que, depois de 1968, depois de toda aquela geração que botou para quebrar, não consigo achar um feito extraordinário nada erótico ou sexual que eu possa contar.

 

Seja como for, você é tido como um dos símbolos sexuais deste país – como alguém que já teve mais de mil mulheres. Erasmo Carlos, no PLAYBOY de outubro, admitiu isso a respeito de si próprio (risos).

Ah, que bom, já não sou só eu (risos). O Erasmo ganhou! Vamos ver se colocamos essa história direito. O que acho é que, dentro dessa coisa machista em que nós vivemos – e o Brasil é o país dos machos, haja visto a entrevista do Ziraldo ao próprio PLAYBOY (N. da R.: abril de 1980.) -, o homem é educado para ter o maior número de mulheres possível e ter sempre o pau duro ao se apresentar a uma mulher. Tem que dar a chamada surra de pica porque, quanto mais tempo ficar em cima de uma mulher, mais macho será. Então, se como eu disse, comecei a minha vida sexual aos 13 anos tendo relações com mulheres, é compreensível que, aos 43, já tenha transado com muitas. Não sei se foram novecentas, como saiu numa revista aí, porque eu não tenho a menor ideia desse número. Sei que foram muitas, mas acho ótimo saber que o Erasmo Carlos bateu o meu chamado recorde. Como vou saber com quantas mulheres eu trepei?

 

Isso o incomoda?

Hoje, incomoda, porque passou a ser para mim uma experiência dolorosa. O que eu quero saber é com quantas mulheres eu gozei de verdade. Quantas veze eu apenas ejaculei? os homens que tiveram o verdadeiro orgasmo, esses sabem. Existe uma coisa maior do que os milhões de ejaculações que nós demos pelo meio da vida. Quantas trepadas já não dei que não eram mais que masturbações, aquela coisa insossa, de esvaziar o saco! Não eram fazer amor, eram fazer sexo. Essa coisa maior é aquela hora de profundo sentimento, profunda combinação, uma coisa romântica. E pode ser também um profundo encontra erótico, por que não?

 

Isso acontece muito com você hoje?

Não sei, mas eu passei a achar de um profundo ridículo essa coisa do homem ter de tirar a roupa e já estar de pau duro. Porque ele também não está vendo se a mulher está úmida ou não. E que bom seria se eles se deitassem com o cara sem estar com a vagina úmida, porque iriam se deitar juntos e se procurar, procurar o amor.

 

Não é essa fama que corre a seu respeito...

Eu sei- e sei qual é. Mas, meu Deus, que coisa mais grosseira e burra a ideia de ficar duas ou três horas em cima de uma mulher e achar que fez ela gozar muito mais. Nunca consegui ficar esse tempo todo em cima de ninguém. E acho que só uma mulher doente gozaria sem parar oito, nove vezes seguidas. Estou falando isso porque foram coisas que eu fui historicamente impulsionando a fazer e, atualmente, não acho que seja legal. Essa história de o cara ter dado tantas trepadas numa noite só, eu realmente não sei onde está esse tesão todo. Eu, pelo menos, não possuo esse tesão, esse cio pelo meio da rua. Eu não tenho a menor obrigação de ter cio todas as semanas – daí porque eu acho que animal talvez seja muito mais puro, ele tem dia certo. Hoje eu posso ficar sete ou dez dias sem trepar, já não é tão importante – como posso entrar no cio e sair à cata feito louco, mas será uma coisa profundamente interna. Porque eu já consigo dividir quando é o meu ser querendo e quando é a minha neurose machista querendo, entendeu? Só que, atualmente, estou dando mais valor quando é o meu ser querendo. Mesmo que seja só uma transa erótica, tudo bem. “Vamos lá?” “Vamos sim”. Mas sem aquela obrigação.

 

Quer dizer que, depois de trinta anos na praça, você já não está inteiramente disponível?

Eu já não estou sempre à disposição. Não estou mais naquela de dizer: “Sou um objeto sexual!”. Claro, é ótimo ser comido. Mas só na hora em que eu quiser. Porra, mostrar que é macho só porque comeu mais uma? Apenas para botar mais uma mulher no catálogo? Sendo que, ás vezes, o cara não faz nem seleção de qualidade! E só porque ela estalou o dedo e ele estava lá. Lógico que vão dizer: “Ah, isso deve ser um problema do Daniel...” Mas eu tenho certeza de que, quem disser isso, estará dizendo só por cauda da História que o obriga a ser esse macho no cio diário. Então eu digo o seguinte: eu já broxei várias vezes, porque na maioria das vezes não estava com vontade de trepar, estava me forçando. Todo mundo já broxou na vida. Menos o Ziraldo, como ele mesmo disse ao PLAYBOY. Você sabe que eu fiquei preocupado com o Ziraldo? Putz! O Ziraldo nunca broxou, rapaz! Ele não devia estar relaxado quando disso isso. Porque broxar é uma das melhores coisas que pode ter. É como se o teu pau estivesse te dizendo: “Malandro, não força a barra, não seja uma puta”.

                                                  

Você também já teve a fissura da performance?

Ah, mas claro! Aquela coisa de envernizar o pau, fazer uma exibição de várias posições, aquele circo. Tanto que consideravam um atleta sexual. E só estou falando disso porque, hoje em dia, acho tudo uma grande besteira. Não era uma coisa de dentro para fora, sabe? Eu pensava assim: “Agora vou fazer isso ou aquilo e fazer ela doida”. Enquanto ela podia estar pensando: “Pô! Mas esse cara está me dando uma canseira que puta que pariu!” E outros grilos que nos enfiaram na cabeça e que fundiram a cuca da gente.

 

Então, qual é a solução?

Não sei qual é a solução, mas – orra meu!-, não dava para cada um descobrir naturalmente a sua própria sexualidade? Não dava para o sexo ser uma coisa espontânea e natural, sem tantos compromissos de macheza, de performance, de tamanho de pau? O que eu posso fazer é levar na prática isso que estou dizendo. E talvez por isso o sexo seja hoje para mim uma coisa muito mais solta e alegre.

 


Chamada da entrevista na capa da edição de janeiro de 1981


Publicado originalmente na revista “Playboy” em janeiro de 1981

sábado, 10 de julho de 2021

VSP comenta o cinema brasileiro atual: "Boca de Ouro" (2020)

Boca de Ouro” **** (Brasil, 2020, ficção, direção: Daniel Filho)

Este filme acaba nos trazendo uma importante reflexão sobre o cinema brasileiro. Daniel Filho é uma referência na história da televisão nacional, sendo responsável pela produção, direção e autoria de diversos programas dentro da TV Globo e fora dela. Sua relação com a obra do dramaturgo Nelson Rodrigues é bastante antiga. Ele esteve como ator na primeira versão cinematográfica de Boca de Ouro (1963), dirigido por Nelson Pereira dos Santos. E não fez um papel pequeno: ele foi o personagem Leleco contracenando com Jece Valadão que fazia o papel título. Também foi Daniel Filho responsável pela série A Vida Como Ela É, adaptações dos textos de jornal de Nelson Rodrigues.

É interessante notar que em toda a sua trajetória Daniel Filho não descarta ou foge do selo de “artesão”. Pode-se notar que ele passou pelo Cinema Novo. Estava lá como ator em papéis significativos em Os Cafajestes (1962) de Ruy Guerra ou o no próprio Boca de Ouro (1963) de Nelson. Mas invés de fugir do selo de artesão, o experiente diretor o assume. E assume com o talento e profissionalismo. Possuí uma direção de atores excepcional, com resultados acima da média. Tem-se Marcos Palmeira no papel-título. É muito difícil compará-lo com Jece Valadão da primeira versão. Mas pode-se dizer que ele não deixa nada a desejar. Malu Mader renasce muito bem como Guigui e mesmo Guilherme Fontes (antigo galã que sumiu após dirigir Chatô) reaparece bem como o marido Agenor. Agora, a atriz Lorena Comparato dá um show como a personagem Celeste. Parece que ela nasceu para representar Nelson Rodrigues: ora é a moça ingênua, comedida. Num segundo momento é a moça pecadora, em chamas de sensualidade. Realmente eu não conhecia essa atriz e pode-se dizer que seja uma das melhores dessa geração. Outra moça que desponta com muito talento é Fernanda Vasconcellos como Maria Luisa ora mais pura e num outro momento mais provocante. O brilhante Sílvio Guindane, um dos melhores profissionais dessa geração faz o jornalista sensacionalista também com inspiração. O próprio Daniel Filho faz uma pequena participação no final. Outras pequenas participações de atores experientes como Anselmo Vasconcelos e Léa Garcia não são a toa.

O filme passa-se em poucos ambientes. E ás vezes parece um pouco televisivo demais. Pode-se algumas vezes parecer um pouco teatral também. Mas uma produção baseada numa peça de teatro não tem que ser isso mesmo? Parece que sim. Um dos outros fatos que mais me chamaram a atenção é o constante suspense. Boca de Ouro não para um minuto de ter tensão. Ao final, o espectador não sabe se ele era mesmo o bandido sanguinário ou um pobre bicheiro que nasceu numa pia de gafieira. Tem muito Nelson Rodrigues nessa adaptação. A lição que fica de Daniel Filho tem que ser repassada aos jovens diretores que querem fazer um filme popular. O realizador com vasta experiência na televisão não foge do selo de artesão ou de fazer um filme com início, meio e fim. Não, ele assume sua condição de artesão profissional e dá conta do recado com notável excelência principalmente na direção do elenco. Pelo elenco ganha a cotação máxima. Lamento não ter visto no cinema e sim numa pequena tela. Daniel Filho como diretor de cinema tem uma carreira com altos e baixos. Não tem como defender A Partilha (2001) ou Se Eu Fosse Você (2006). Mas dá para dizer que entre seus melhores momentos estão O Casal (1975) e Tempos de Paz (2009), que com este Boca de Ouro (2020) ser seus trabalhos mais consistentes.

domingo, 27 de junho de 2021

Cineastas brasileiros em PBY: Entrevista com Daniel Filho (outubro de 2006)

Playboy entrevista Daniel Filho

 

Uma conversa franca e nervosa com o diretor da Globo Filmes sobre teste do sofá, remédios para impotência, música ruim do Faustão e o mal que Glauber Rocha causou ao cinema brasileiro

Daniel Filho parece impressionado com seus 69 anos. Julga-se em idade por demais avançada para dissertar sobre sexo ou narrar seu rico passado de aventuras carnais. Por outro lado, trabalha com agilidade de um garoto. Em outubro, leva às telonas Muito Gelo e Dois Dedos D´Água, filme que dirigiu e produziu, ao mesmo tempo em que se dedica à adaptação para o cinema de O Primo Basílio, de Eça de Queiroz. Daniel também dá sinais de preocupação com uma velha sina dos profissionais do entretenimento. Um cantor que venda um milhão de cópias em sua estreia e 100 mil no segundo disco é tido como fracassado – ainda que 100 mil seja uma boa cifra. Um diretor que leva 3,5 milhões de espectadores ao cinema – como aconteceu com o próprio, com a comédia romântica Se Eu Fosse Você – sente-se pressionado a repetir o êxito na incursão seguinte. E Daniel está tenso.

A favor da saúde mental de Daniel Filho está a sua falta de tempo para dedicar-se a devaneios. O nome do chefão da Globo Filmes consta em praticamente todos os créditos do cinema nacional recente, seja como produtor, supervisor ou diretor. Eis a prova: O Auto da Compadecida, Cidade de Deus, Carandiru, Cazuza, o Tempo Não Para, Tainá II (em todos produtor associado); A Partilha, A Dona da História (diretor). Sexo, Amor e Traição, Caminho das Nuvens (produtor); A Casa de Areia, Dois Filhos de Francisco (supervisor artístico). E a lista continua, com incursões pelo teatro, produção de discos e a autoria de dois livros sobre televisão.

Daniel Filho ingressou no cinema há 51 anos, no filme Fuzileiro do Amor. Sua estreia na direção ocorreu em 1968, em Pobre Príncipe Encantado. Apesar da prolífica carreira cinematográfica, foi seu desempenho na televisão que o tornou uma figura célebre. Filho de artistas de circo, cresceu nos palcos. Virou ator de teatro e, tão naturalmente quanto migrou do circo para o tablado, foi parar na televisão. Fez seus primeiros trabalhos na época em que as novelas não eram gravadas. Produziu mais de 350 programas ao vivo, participou de 81 novelas, 14 seriados, 21 minisséries e inúmeros especiais e musicais. Essa experiência fez Daniel Filho um dos maiores conhecedores da história e da técnica de televisão no Brasil. Há seis anos, porém, voltou suas atenções para o cinema.

Em mais de meio século de carreira, boa parte dele em posição de comando, Daniel Filho colecionou uma série de desafetos por conta de algo que detesta que falem a respeito – ele é um sujeito duro. No começo desta entrevista, Daniel Filho lançou um desafio à repórter Adriana Negreiros, que esteve com ele em duas ocasiões, em seu escritório no bairro da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro: que não escrevesse o quanto ele tem fama de irritadiço, como relatou o escritor Ruy Castro na entrevista concedida por Daniel à PLAYBOY em 1981. Desafio aceito, mas não superado. Daniel Filho é irascível. Extremamente.

 




Seu novo filme, Muito Gelo e Dois Dedos D´Água trata de duas irmãs que resolvem se vingar da avó má. O que você acha que os críticos vão falar sobre ele?

Vão falar mal, sem dúvida nenhuma. Normalmente, meu filme é apontado como um filme médio.

 

Por quê?

Não gostam do filme, dizem que os atores estão bem, mas atuam sozinhos, sem direção. Outros dizem que faço um filme fácil, popular. Existe uma diferença entre o popular e o popularesco. Eu quero público no cinema? Quero. Eu faço filmes que gosto de ver, embora meu gosto seja bem amplo. Sempre há alguns filmes que eu assisto, mas não obrigo minha esposa a assistir comigo. Quem assiste é cinéfilo. Eu acabo de ver o filme e digo: “Que lindo! Mas como é lento, chato e difícil de digerir”.

 

Você considera os críticos de cinema previsíveis?

Considero que não temos críticos. Gosto do Luiz Carlos Merten, do Estadão, do Rubens Ewald Filho e de alguns outros. A maioria desconhece o assunto. Se fossem meus alunos de cinema, eu daria uma má nota para eles. Dão informações erradas. Até os livros fazem isso. Eu mesmo já corrigi enciclopédias. E os jornais abriram espaço para que várias pessoas deem opiniões. O público vai ler duas ou três críticas? Ele vai dar uma olhada na cotação. E um filme você só sabe se é bom ou ruim dez anos depois.

 

Como assim?

Tem filme do momento e o que fica. Por acaso, estamos aqui ouvindo a música “As Time Goes By” (nesse instante, o aparelho de som de Daniel Filho toca a trilha sonora de Casablanca). Acredito que todo mundo sabe cantar essa música e não sabe quem é o diretor do filme Casablanca. É um cara chamado Michael Curtiz. Esse filme é bom ou ruim? Eu diria que é excelente.

 

Ao fazer filmes você tem pretensão de ser eterno?

Não. Se seu tivesse essa pretensão, não me mexia dessa cadeira. A minha pretensão é me comunicar com meus contemporâneos, contar histórias que emocionam as pessoas. Eu faço filmes dirigidos ao público de hoje. Querer ser eterno é tão pretencioso quanto querer ser revolucionário. É ser Deus. É mais que pretensão. Pretensão é falar: “Eu sou bom”.

 

Você é bom?

Eu sou competente. Uma pessoa que vive há tanto tempo da mesma coisa deve ter valor. Competente é aquele que realiza com constância e o serviço fica bem terminado. O bom é quase uma questão de sorte.

 

E por que o cinema nacional tem tantos altos e baixos?

Porque no Brasil nenhum governo viu a cultura como algo importante. Eu já participei de umas três ou quatro retomadas do cinema. Quando a gente passou a primeira cópia do filme Os Cafajestes, na mesma hora o Anselmo Duarte estava lá e disse: “Eu estou aqui com uma cópia nova de O Pagador de Promessas”. E também foi exibido Assalto Ao Trem Pagador. Esses filmes são de 1962 e todos foram um sucesso. Aí logo depois veio o Barravento, do Glauber Rocha, e todo mundo queria fazer Barravento. Aquela coisa do Cinema Novo. Aí o público foi embora do cinema. Não foi o que aconteceu com o cinema mexicano, que sempre foi um grande melodrama. O público curtia isso. Eu disse para o Glauber Rocha que ele provocava um grande mal ao Brasil. Todo mundo achava que podia sair com uma ideia na cabeça e uma câmera na mão. Mas nem todo mundo é Glauber Rocha. Porque era o barato do cara! O que ele fazia era uma coisa única. Todo mundo queria fazer tudo solto e o público não entrava no cinema. Os próprios filmes do Glauber iam muito bem nos festivais, mas não existiam como indústria.

 

Pelo seu raciocínio, o Cinema Novo prejudicou o cinema brasileiro?

Não é isso. Ele foi bom para a divulgação do Brasil nas cinematecas mundiais. Alguns filmes concorreram em festivais, ficaram muito famosos. Mas foi apenas uma onda, a reboque da Nouvelle Vague francesa. Até o nome é parecido. Eu acho o Carlos Diegues mais consistente que o Glauber Rocha. O Glauber é de vida curta. O Carlos Diegues tem uma consistência na sua carreira. Coisa que o nosso grande Nelson Pereira dos Santos não tem. Atualmente, ele faz um filme bom e três ruins. Se você analisar a carreira dele, tem filmes realmente muito bons como Rio 40 Graus, Amuleto de Ogum e Memórias do Cárcere. Mas ao mesmo tempo tem filmes tão ruins que você até desconfia que não tenha sido ele quem fez.

 

Por exemplo?

Tenda dos Milagres é um filme muito ruim. Mas acontece, porque ele é inconstante mesmo. Não é um filme à altura dele.

 

Você está ansioso para ver o filme sobre o livro da Bruna Surfistinha?

Não.

 

O que você acha disso?

Oportunismo. Tanto do filme quanto do livro. O que não quer dizer que eu não entre no filme. Se tenho o desejo de que o cinema vire uma indústria, não posso ser preconceituoso. Eu não li o livro. E ela não é a primeira prostituta que escreve um. Nem sei se é erótico. Ok, faça, se for um bom negócio, a gente pode entrar nele.

 

O filme será feito pelo Karin Aïnouz, o mesmo diretor de Madame Satã. Madame Satã é um bom filme?

É um filme especial. Mas não pertence a uma linha de filmes, né? Vamos fazer vários Madames Satãs! Madame Satã 2! Não vejo isso. Mas vejo que o Karin é um diretor inquieto, com um bom jogo de câmera. E se ai fazer o filme sobre a Bruna Surfistinha, deve ter alguma olhada. Talvez queira unir o útil ao agradável, fazer um pouco de público.

 

Você está trabalhando na adaptação do romance O Primo Basílio, de Eça de Queiroz, para o cinema. Quando dirigiu essa minissérie na Globo, você tece que cortar uma das cenas a pedido do dono da emissora, Roberto Marinho, como você conta em seu livro O Circo Eletrônico. Como foi?

Essa história está aprovada pelos filhos e por isso escrevi no livro. Eu não trairia a confiança do Roberto. Do doutor Roberto (corrigindo-se). Numa conversa que eu tive com ele, falei que ia fazer uma minissérie sobre O Primo Basílio. De imediato, ele teve um sobressalto. Olhou para os lados e sussurrou: “Mas tem um minete”. Minete é uma palavra muito antiga para sexo oral.

 

E então?

Eu falei: “Doutor Roberto, eu tentarei ser tão discreto quanto o livro”. Mas ele ficou muito preocupado e acabou cotando a cena de sexo oral. A cena é uma brincadeira. Não é uma cena forte. Mas o doutor Roberto conhecia muito o Eça de Queiroz e leu aquele livro possivelmente com 14, 15 anos. Ou seja, ele leu uma coisa escandalosa, talvez com uma vela embaixo do lençol. Eu senti que o homem que estava falando comigo não conseguia ter a dimensão da época em que estávamos vivendo e mantinha o sentimento que aquele livro tinha causado a ele, quando o leu. Quem cortou a cena não foi o empresário. Foi o menino de 14 anos.

 

Você implementou os testes internos de atores para as produções da Globo. Isso gerou muita antipatia?

Não tenho a menor ideia. Isso é uma profundamente comum em qualquer lugar do mundo. Teste é uma coisa salutar para saber se a gente vai se dar bem ou não.

 

Teve uma ocasião em que você tirou uma atriz de um papel numa novela e isso causou frisson...

(Interrompendo). Ah, mas isso é uma bobagem tão grande, porque é muito comum uma pessoa começar uma coisa, não dar certo e ser substituída por outra.

 

Mas isso mexe com os brios de tipo de gente muito sensível.

Mexe. Mas é comum também você ser diretor e tirarem você da direção. Eu já fui despedido da TV Bandeirantes e não sei o motivo. É um jogo que nós temos que viver. Harvey Keitel, de Cães de Aluguel, tinha filmado 20 dias de Apocalipse Now e o Coppola disse: “Olha, não é você”. Tirou ele do filme entrou o Martin Sheen. É muito comum. Em novelas, já substituí diretores. Não acho que seja grave. Isso faz parte da profissão. Você substitui cenógrafo, fotógrafo.

 

Por que alguns atores viram celebridade e depois desaparecem?

(Com desprezo). Você está me fazendo perguntas da vida cotidiana.

 

Eu gostaria de saber sua opinião.

O fator mais comum é o da celebridade instantânea. Todo mundo ficará célebre por 15 minutos, atualmente até por 15 segundos. Basta entrar num bom programa da pessoa no Youtube. Com o ator é igual. Os bons resistem ao tempo. É aquilo que você me perguntou sobre querer ser eterno...Eu até achei que essa pergunta, p(*), onde você está querendo me jogar?


Você é muito desconfiado.

Sou, sou mesmo. Tem muito tempo que eu dou entrevistas e as pessoas escrevem coisas erradas. Então, voltando, é a coisa do clássico e do não-clássico. Tem atores que você vê que são clássicos, que começam a articular a carreira de uma maneira sólida e você sente que ele ficará aí trabalhando por muito tempo. Agora, o sucesso momentâneo, purpurina, capa de revista, isso vem em ondas como o mar. Eu mesmo, pessoalmente, passo por essas ondas de “tô na boca, tô fora da boca”. Te muito tempo que eu estou nas páginas. Mas existem os que são momentâneos e não tem consistência.

 

Por que isso acontece?

Agora isso é muito falado, mas sempre existiu a pessoa bonita, a modelo que foi tornada atriz. Uma vez, a Bete Davis disse: “Quando comecei, existiam muitas atrizes que queriam ser estrelas. Atualmente, existem muitas estrela querendo ser atrizes”. Nós não temos o privilégios dos problemas que você está levantando.

 

Quem são os bons atores dessa geração?

Ah! Você tem alguma dúvida sobre o Wagner Moura e o Lázaro Ramos? Esses dois caras são astros! O Rodrigo Santoro é outro. Ele vai trabalhar até o resto de seus dias. Ele é bom ator, inteligente e sabe o que está acontecendo com ele.

 

Ele vai conseguir superar essa fase dos papéis menores...

(Interrompendo). Ele sabe o que está acontecendo com ele.

 

Então diga o que está acontecendo com o Rodrigo Santoro.

Ele sabe! Ele está ganhando bem. Agora está em Lost. O papel dele no comercial da Channel com a Nicole Kidman é quase um estrelato.

 

Ele pode ser um Antonio Banderas?

Não sei qual é a intenção dele. Mas você vê a multiplicação de coisas que ele faz. Deixou dois filmes feitos aqui- Desafinados e Não por Acaso. Ele vai ficar, como ficaram Francisco Cuoco, Lima Duarte, Tarcísio Meira. Tarcísio Meira, quando começou, muitos o consideravam apenas um ator bonito.

 

Tinha fama de canastrão.

O que era irritante. Eu o adorava. Tenho não apenas uma grande amizade com o Tarcísio, como sou responsável por algumas das coisas que ele fez em televisão. Eu sou a pessoa que desmanchou o topete do Tarcísio Meira. Ele sempre deixava o cabelo penteadinho. O galã era o bom moço. Aí ele estava fazendo um toureiro e falei pelo fonte de estúdio: “Tarcísio, enfia a mão nos cabelos”. Ele fez de leve. Eu repeti, não dei jeito, desci de lá e tchá, tchá, no cabelo dele. Quando diziam que ele era canastrão, eu falava: “Esse camarada tem um poder que vocês não estão prestando atenção”. É o poder de ficar na tela uma hora, você olhando para a cara dele, ele dizendo bobagens e você ligado nele. Isso é um poder. Isso é algo que, se existir Deus, é Deus que dá.

 

Por que atores como o José Mayer ficam presos a um tipo de personagem?

Por ele ter determinado tipo físico, estão amarrando-o a um papel. Ele fez o Zé do Burro maravilhosamente bem em O Pagador de Promessas. Ele fez A Vida Como Ela É. É um ator com mais recursos, mas está aprisionado.

 

Isso é ruim para o ator?

É, ele fica insatisfeito. Ninguém vai botar a Vera Fischer para fazer uma mulher não-gostosa. Ela está condenada. Você vê os papéis que a Vera Fischer tem feito ultimamente e fala: “Lá vem aquela loira portentosa, uma senhora, mas gostosa”.

 

A personalidade do ator não contribui para isso?

Não, porque o ator é uma pessoa. O José Mayer não é aquela pessoa que está na televisão.

 

Mas a Vera Fischer é um pouco.

Nããããoo (com desprezo). A Vera não é assim. O ator tem que criar uma persona. Um político que sai na rua está representando. Eu acho que qualquer pessoa, a bem da verdade, quando sai na rua, está representando. Você, agora, está representando. Você não é assim, tendo que me dar esse tipo de atenção, tendo de me provocar. Você preparou uma personagem pra me entrevistar. Você tem que se comportar. Mas você não está sob a lente de uma câmera. Nós, atores, somos reféns disso. Eu quando entrou em um lugar e sou reconhecido – isso no Brasil acontece – não mudou meu comportamento. Mas logicamente tenho que ser mais educado do que realmente sou. Você dá uma refreada.

 

Você não pode beber todas...

Não é problema de beber, eu posso beber. É no cinema. Se eu quisesse botar os pés na cadeira, pegar a pipocona e comer de qualquer jeito, eu não posso fazer essa p(*). Tem o artista que, quando há esse burburinho, começa a representar um pouco mais. Quando passam a interpretar mais, passam a chamar mais atenção.

 

Houve uma época, quando você tinha cerca de 40 anos, em que você tinha um carro conversível, era famoso e pegava todas. Como foi essa fase?

É uma fase sonhada por todo homem. Como a coisa já passou, posso falar tranquilamente dela. Tem uma história que contam dos homens sobre sexualidade e vida material. Quando é garoto, você tem vitalidade e tempo, mas não tem grana. Depois você passa a trabalhar, tem vitalidade, está com alguma grana, mas está sem tempo, p(*). Depois você está com tempo e dinheiro e não tem vitalidade (risos). Mas eu estava numa época em que tinha tempo, dinheiro e vitalidade. E nesse dinheiro ponha-se uma frase minha: dinheiro e popularidade são duas coisas muito parecidas. Não compram as mesmas coisas, mas conseguem coisas parecidas. A boa mesa no restaurante não é só o dinheiro que consegue, mas também a popularidade. Você é a pessoa observada com mais interesse numa festa. Então, com 40 e poucos anos de idade, eu estava nessa fase e ainda por cima solteiro. Poucas pessoas achegam a essa fase solteiro. E eu fiquei uns seis, sete anos solteiro. Foi uma fase bem aproveitada (risos).

 

Um dos seus amigos da época contou que participou de algumas boas surubas das quais você fazia parte.

Não é verdade. A palavra suruba quer dizer sexo grupal.

 

Não estou dizendo que os homens transavam entre si. Mas que faziam sexo com muitas mulheres ao mesmo tempo.

Não é verdade. Não me lembro de ter feito sexo no mesmo ambiente em que estavam outras pessoas, a não ser a minha parceira.

 

Nem um ménage à trois?

Não. Isso depende do gosto sexual de cada um. Acredito que em todas as épocas sempre teve tudo. Ménage à trois, sexo grupal. Os gregos e romanos faziam isso. Agora isso não quer dizer que todos participavam.

 

Você fazia questão de transar com uma mulher diferente rodo sai, como alguns de seus amigos da época?

Quem age assim está doente. O que fazíamos era ver quem, no período de um ano, conseguia levar para a cama mais mulheres. E não valia repeteco. Era uma aposta de um grupo de cafajestes. Uns 15. Foi de onde saiu o filme. Era uma turma da qual eu fazia parte.

 

Como vocês faziam para contabilizar o número de mulheres?

Tinha que acreditar um no outro. Você via o camarada com a pessoa, mas não era uma contabilidade real. Não houve alguém contando o número de mulheres.

 

Você foi o campeão?

Não, houve um empate geral, todo mundo mentiu (risos). Todo mundo era muito garganta.

 

Era fácil chegar ás mulheres quando não havia tanta liberação sexual?

Sempre. Mas estamos falando de assuntos sexuais e eu acho que já estou com a certa idade para ficar falando deles (irritado). Eu acho que já falei tudo que tinha que falar. Minha vida não foi feita profissionalmente e nem a minha popularidade está ligada à minha figura sexual.

 

Já se contabilizou que você teria transado com 900 mulheres.

Eu acho isso uma bobagem. Passa-se tanto tempo e nós vamos falar sobre essas mesmas coisas, com tantas coisas novas para falar? Não é falta de ideia minha e tua?

 

Mas sexo é um assunto que sempre interessa bastante

Pois vamos falar de sexo hoje.

 

Vamos. Você usa Viagra?

Mas eu falei de sexo no geral. Você usa camisinha?

 

Uso.

Sempre?

 

Sim. Mas a jornalista aqui sou eu.

Eu só quero ficar no mesmo nível. Se você usa camisinha, é porque não transa com o mesmo homem.

 

É um método contraceptivo.

E não usa pílula por quê, hein?

 

Porque pílula engorda. Agora é minha vez. Você usa Viagra?

Não acho que seja necessário.

 

Ah, você não precisa?

É, eu ouvi dizer que tem muitas reações contrárias, dizem que dá dor de cabeça. Eu tenho muito medo dessas coisas que mexem com a saúde e com o físico da gente. Prefiro remédios mais naturais.

 

Eu li que você usava Ciallis.

Alguém deve ter mentido.

 

Era uma entrevista e você dizia que preferia Ciallis ao Viagra.

É a mesma empresa que fabrica os dois medicamentos?

 

Não, são concorrentes.

Então eu devo ter levado algum dinheiro da Ciallis (gargalha). Meu negócio é dinheiro, vamos lá. Qual é a outra pergunta?

 

Incomoda falar de sexo? Incomoda ser considerado garanhão?

Não, é a figura que está criada. É falta do que fazer.

 

Houve um caso recente de um diretor do programa Zorra Total que foi demitido por suspeitas de fazer o teste do sofá. Você deve ter tomado conhecimento disso.

Li notinhas no jornal.

 

Qual foi a proposta mais indecente que uma aspirante a atriz fez para você para conseguir um papel?

(Pausa). Proposta, proposta, não me lembro de ter recebido. Durante muito tempo, eu passei a não ter conversar com aspirantes a atrizes sozinho. Acho que você recebe uma cantada ou não se assim o desejar. A não ser que seja grosseira e você tenha que responder numa grosseria. Porque você se coloca num lugar de uma maneira tal que vai dar o ensejo da ação da outra pessoa. Mas receber uma oferta não profissional é secular. Isso de uma pessoa seduzir outra para ganhar alguma coisa deve ter começado logo depois de Abel e Caim. Me parece uma história bíblica (risos). Portanto, eu não me lembro de ter recebido alguma coisa assim. Quer dizer, eu me lembro de uma moça que tentou uma vez tirar a roupa na minha sala.

 

Tirou?

Não, porque eu chamei a secretaria imediatamente.

 

Como foi?

Queria mostrar que tinha um corpo bonito. Eu falei: “Não, peraí, vou chamar a minha secretária”.

 

E essa moça deu certo depois?

Não me lembro quem era a moça.

 

Teste de sofá existe?

(Irritado). É o que eu já te disse: eu não sei, meu amor Eu nunca escalei ninguém com teste do sofá. Porque a primeira coisa para eu conseguir ganhar dinheiro é que meu filme e meu programa sejam bons. Eu não acredito que seja no sofá que se veja isso. Eu nunca fiz esse teste. Existe secularmente a utilização do sexo em todos os ambientes. Tanto é que se não fosse assim não existiria a lei do assédio sexual. Essa lei não está ligada exatamente à televisão ou ao cinema. Inclusive, é fora desse ambiente que se registram mais queixas de assédio sexual, né?

 

É, mas ás vezes quando ambas as partes estão interessadas...

Aí se chama outra coisa. Chama-se sexo (risos).

 

Ainda que estejam interessadas por razões diferentes...

As pessoas estão sempre interessadas por razões diferentes. Raramente o amor é puro.

 

Ou seja, só para deixar claro, você considera legítimo que uma atriz transe com o diretor porque está interessada em conseguir um papel na novela ou no filme e o diretor porque está interessado...

Em comer a atriz. Se a atriz quer dar, é problema dela.

 

Isso não é teste do sofá?

Não sei o que é isso. Isso aí é uma moça que se deixa...Se ela é menor de idade, é pedofilia, é cadeia. Se ela é maior de idade, é um caso de concessão a dois. Do uso do poder, no máximo. Ou da pessoa não ter confiança na sua própria qualidade como atriz. Mas não precisa ser atriz. Pode ser cenógrafa, maquiadora, figurinista. Mas você também pode pedir emprega para uma mulher. Existem mulheres diretas. Mas graças a Deus eu não tô nisso.

 

Em entrevista à PLAYBOY, a Maitê Proença disse que os diretores pensam com a cabeça de baixo e que por isso algumas mulheres, quando chegam à meia-idade não são mais escaladas com a mesma frequência com que eram no passado. O que você acha dessa afirmação?

Eu acho que a Maitê tem todo direito de fazê-la.

 

Mas você concorda com isso?

Não, mas brigaria até a morte pelo direito dela de dizer isso. Deve ter sido um momento infeliz. Ela é mais inteligente que essa frase.

 

É verdade que as mulheres quando chegam aos 40 anos encontram dificuldades a serem escaladas?

Existem poucos papéis clássicos para mulheres de 40 anos, por um erro ou costume da dramaturgia. Uma mulher de 40 e poucos anos que entre no teatro vai ver que os melhores papéis foram escritos para os homens – o rei Lear, o Ricardo III, tudo foi escrito para homem.

 

Ou seja, as mulheres nas novelas tem papéis...

(Interrompendo). Eu falei na dramaturgia, não falei nas novelas. A novela nada mais é que um reflexo da dramaturgia.

 

Mas nas novelas esse fato não é mais evidente?

Não. Se você fosse mais ao teatro, você notaria. Se você visse teatro com a mesma frequência com que vê novela, iria ver isso.

 

O que você faz para deixar as atrizes à vontade quando elas precisam ficar nuas em cena?

Elas confiam em mim. É importante que ela se sinta à vontade, segura, certa de que o que ela vai fazer é bom dramaticamente. Essa confiança vem da minha maneira de trabalhar e da certeza de que ela vai fazer uma cena que não ofenda.

 

Você é um homem religioso?

Não.

 

É ateu?

Não, porque eu digo “graças a Deus”.

 

Mas pode ser força de expressão.

Não, porque eu não digo “graças a Alá”. Não acredito em santos, milagres e nem que exista um Jesus que morreu para nos salvar.

 

Então é ateu, pode-se dizer.

Não, porque acredito que tenha uma força superior.

 

Sua estreia como artista foi saindo de um caixote de palhaço. Você era uma criança exibida?

Mamãe diz que sim.

 

Nunca te ocorreu ter outra profissão que não artista?

Nunca. Mas, se eu seguisse meu pai e minha mãe, hoje seria um militar reformado que toca piano.

 

Estudou?

Até o segundo ginasial. No colégio, fiz todas as traquinagens que você pode imaginar. Era indisciplinado. Quando eu estava com sete ou oito anos, havia uma menina que sentava na minha frente e tinha o cabelo muito longo. A minha bancada ligava no banco dela. A menina jogava toda a p(*) do cabelo no meu papel. E naquela época a gente usava inteiro. Década de 40. Aí um dia eu peguei o cabelo dela e botei na tinta. Era tinta sardinha, difícil de sair (gargalha). Eu matava aula, ia no cinema.

 

Qual foi a sua relação com as drogas?

Foi numa época em que todo mundo tinha relação com drogas. Foi uma relação de moda. Houve a moda, todo mundo entrou e no que a moda acabou eu fui me mandando, vi que era uma péssima.

 

Qual era a droga da moda?

Tinha a maconha, a cocaína, mas eu peguei ainda a época do lança-perfume, álcool; comecei bebendo cachaça. Havia o ácido. Mas parou. Isso é uma coisa velha.

 

Em algum momento a droga complicou a sua vida?

Nããããão, isso nunca fez parte da minha vida.

 

E a bebida?

Não bebo, não fumo. Bebida era coisa da moda, coisa social. Eu só tomo vinho quando o jantar é ótimo. Para que eu vou gastar um vinho bom num jantar de m(*)? Não tive excessos.

 

Nunca tomou um porre daqueles?

O único porre que tomei na vida foi quando a censura liberou Malu Mulher, em 1979.

 

E nessa situação você cometeu alguns excessos?

Não, um cara bêbado é um cara bêbado. Ele vomita e cai.

 

Tem muita gente que sobe na mesa, por exemplo.

Quem sobe na mesa não está bêbado. Está ótimo. Se sobe na mesa é porque tem forças, p(*). O álcool é terrível, mata mais que o HIV.

 

Você trabalhou com Chico Anysio no início da sua carreira como diretor...

(Interrompendo). Ele me deu a oportunidade de trabalhar com ele.

 

Vocês dois tem personalidade forte. Como foi essa convivência?

Ótima! A gente se divertia, ria. Hoje somos meio diferentes, estamos meio separados. Ele é uma pessoa muito engraçada, muito boa de se trabalhar. É de uma velocidade, de um saber, de uma generosidade fantástica. O Chico eu não somos muito opostos. As piadas do Chico só ficaram mais sarcásticas que as minhas.

 

Mas em O Circo Eletrônico você disse que até hoje ele tem dificuldades com as emissoras. Ele é uma pessoa de personalidade difícil?

Nãããão...O Chico está sempre inquieto. Não gosta de estar satisfeito, você entende? Você vê o quanto ele casa. Ele tem essa coisa de ficar insatisfeito, uma inquietação. E sempre fica criando caso. Ele não sabe o que está incomodando.

 

Ele já criou caso com você?

Jáááá. Ele cismou que era eu quem trabalhava contra ele na Globo e começou a me xingar nos jornais, dizer coisas horrorosas. Mas isso passou A gente conhece o Chico, essa é uma coisa boa da idade – você conhece melhor as pessoas. Eu me lembro que as pessoas ficavam perguntando se eu tinha ficado chateado com o que o Chico tinha dito de mim. E eu respondia que o Chico precisava ainda xingar minha mãe muitas vezes até eu começar a ficar chateado com ele.

 

Você sabe quem são Mariana Felício, Grazi Massafera e Kléber Bambam?

Perdão?

 

Mariana Felício, Grazi Massafera e Kléber Bambam.

Esse Bambam não é um que participou do Brother número um?

 

Eu estou te perguntando isso para saber se você assiste ao Big Brother.

O Bambam...(pensativo). Eu me lembro desse. Não era um garoto forte, que tinha alguma espécie de problema? Tinha problemas, o rapaz. Sim, mas você está me levando para que tipo de armadilha?

 

Não é armadilha nenhuma. Você assiste ao Big Brother?

Ás vezes. Mas eu não sei quem ganhou. Se eu tiver que passar por um teste desses eu perco, não tenho a menor ideia. Eu não vejo muito televisão. É um programa que vai acabar, depois vão inventar outro, dança do gelo, não sei o quê. Isso faz parte das programações de diversão da televisão, são programas que vão e vêm. O que você acha de programas de perguntas e respostas, em que o cara ganha um milhão? É isso aí. É a mesma coisa. Mas não é algo para a gente gastar páginas numa revista como a PLAYBOY.

 

Mas eu queria saber a sua opinião sobre ele. É um programa de muito sucesso, vai entrar na sétima edição.

É um programa como outro qualquer, meu amor (irritado). Isso faz parte da programação de diversão da televisão. É como o Qual É a Música?. O que eu acho desses programas? São programas divertidos.

 

A TV forma o gosto do público ou o público tem o gosto formado pela TV?

A televisão é reflexo do público. Não tenho como fazer você usar para sempre determinada pasta dental. Posso fazer você experimentar. Mas você não vira uma pessoa que utiliza aquela pasta para sempre porque eu disse na televisão.

 

Por que os programas de auditório têm qualidade tão ruim?

Eu vou te fazer uma pergunta. Por que os programas de auditório têm qualidade tão ruim?

 

Por quê?

Por quê?

 

Daniel, só para lembrar, aqui você é o entrevistado.

Deve ser porque é o que o povo quer (gargalha). Vamos falar de uma coisa séria: Presidência da República. Quando essa entrevista sair, nós já saberemos quem é o presidente eleito. Ao que tudo indica, será o Lula, o principal representante do Partido dos Trabalhadores. Passamos por um escândalo imenso. Todos os jornais, todas as televisões explicaram o que a eleição do Lula representava para a corrupção. E o público não deu bola. Estamos nós diante de um Brasil anestesiado? Se a gente vê isso na política, o que se pode dizer da televisão? E o que a televisão pode fazer de contrário ao que pensa esse público? Se é essa música que gostam de ouvir, é a música que vai tocar. A televisão não tem como mudar isso.

 

A televisão não pode sofisticar o público?

Não. A gente não pode atribuir à televisão um papel que não é para ser feito pelo governo. Você não pode fazer que uma pessoa escute Mozart se ela não conhece nem o samba da própria terra.


Quando o Manoel Carlos, autor de Páginas da Vida, bota Bossa Nova na trilha sonora da novela não ajuda a melhorar o gosto musical do telespectador?

Não. Vende um disco de Bossa Nova. Mas eu acho que todas as catequeses são válidas. É como dizem: se no sermão em que fala para 200 ovelhas o padre conseguir conquistar uma ou duas ovelhas para o rebanho de Deus, terá cumprido seu dever. E acho que o Manoel Carlos está cumprindo o seu. Mas o que nós temos que fazer é conquistar o Brasil com educação. E não atribuíam à televisão esse poder. É tarefa do governo. Esse é um país que conviveu pouco com a democracia. Tanto é que estamos reelegendo um presidente, mesmo não gostando dele. Eu não vi um canal de televisão falando bem do Lula, nem um jornal. Alguma televisão está a favor? Não. Alguém mexe na força pessoal do Lula? Isso tem a ver com a música que a gente está achando ruim do programa Domingão do Faustão.

 

Você já disse que costuma mentir em entrevistas para parecer mais interessante do que é. Você mentiu muito aqui?

Eu menti 25 a 30%. Ou um pouco mais. Eu acho que a reportagem só fica legal quando há insegurança sobre o que o entrevistado falou. Os jornais já mentiram muito sobre mim. Então eu acho que o bom jogo é o toma-lá-dá-cá. Eles mentem sobre mim e eu minto para eles (gargalhadas).

 

Publicado originalmente na revista “Playboy” em outubro de 2006