quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Flash Bola ABC 1- Para veterano do Saad, Maradona foi superior a Pelé


Na contramão da maioria dos jogadores brasileiros dos anos 60, Mário Mesquita defendeu 18 equipes em 16 anos de carreira. Em entrevista, o ex-atleta fala sobre a carreira e sobre o futebol atual.

MATHEUS TRUNK

Nos anos 60 e 70, a maioria dos jogadores brasileiros permaneciam durante muitos anos defendendo um único clube. Foi assim com Pelé, no Santos, Ademir da Guia, no Palmeiras, Rivellino, no Corinthians, entre outros. Um dos primeiros atletas brasileiros a ter passe-livre, Mário Mesquita, 65, teve uma história diferente.

Com o passe na mão, ele tinha o poder de atuar nos times que desejasse sem precisar se submeter ao interesse de dirigentes e empresários. “Eu desafiei todo mundo. Por isso, na cabeça dos cartolas, eu simplesmente não prestava”, relembra.

Em 16 anos de carreira profissional, o ex-meia colecionou passagens por 18 times diferentes. A carreira deste “tropeiro da bola” iniciou-se em 1960, no infantil do São Paulo. “O Tricolor tinha muitos jogadores bons. Por isso, não consegui encontrar o meu lugar e fui defender outras equipes”, afirma Mesquita.

O ex-jogador atuou em cinco times do ABC: Palestra de São Bernardo, Aliança, Transauto, Monte Alegre e Saad. Clube tradicional de São Caetano, o Saad foi uma das maiores equipes de SP nos anos 60 e 70. O time era bancada pelo empresário Felício Saad, que investia pesado na equipe.

Mesquita também defendeu Jabaquara, São José, Ferroviária, Coritiba, Valencia da Venezuela, Banfield da Argentina, Uberaba, Valeriodoce, América de Rio Preto, Ferroviária, Botafogo de Ribeirão Preto, Paulista e Portuguesa Santista.

Aposentado, ele reside no Jardim Bela Vista, em Santo André, e falou ao RROnline sobre sua trajetória. Leia abaixo trechos da entrevista.

Rudge Ramos Online- Como era o relacionamento do Felício Saad, diretor do Saad Esporte Clube, com os jogadores da equipe?
Mário Mesquita- O Felício era um cara excepcional. Na concentração era ótimo, ele sempre dava presentes pra gente. Infelizmente, ele nunca teve ajuda dos políticos do ABC pra manter a equipe. Meu melhor momento no time foi quando ganhamos uma partida contra o Santos do Pelé.

RRO- Como foi esse jogo?
MM- O Santos tinha o maior ataque de todos os tempos: Dorval, Coutinho, Mengálvio, Pelé e Pepe. A partida foi em plena Vila Belmiro, num sábado a noite. Tinha mais de 10 000 pessoas de São Caetano no estádio. Vencemos por 3 a 1. Só sei que o jogo foi no sábado e fizemos uma grande festa. Só voltamos a treinar na terça-feira.

RRO- É verdade que antigamente a arbitragem favorecia os times grandes?
MM- Sempre existiu isso no futebol. Numa das equipes que eu joguei, eu trazia dinheiro para o cara que comandava os árbitros e eles favoreciam o nosso time. Era gozado, o time não pagava os jogadores, mas pagava os juízes. Fomos campeões e subimos de divisão.

RRO- Como foi essa passagem pela Venezuela?
MM- Fiquei um ano e pouco lá. Vesti a camisa do Valencia, uma das maiores equipes do futebol venezuelano. Fui um dos primeiros brasileiros a ir jogar nesse país. Os dirigentes queriam que eu me naturalizasse para atuar pela seleção local, mas acabei não fazendo isso. O melhor do Valencia era o pagamento.

RRO- Ganhava-se muito bem lá?
MM- Sim, a gente ganhava em dólar. Eu ganhei muito mais lá que em todos os times que eu passei no interior de São Paulo. Com o dinheiro que eu ganhei no Valencia, consegui comprar dois apartamentos. Em muitos times do interior, eu ficava meses sem receber. Mas o mais legal era ir pra Caracas, a capital do país. Era uma baita cidade, cheia de cassinos.

RRO- E pelo Banfield da Argentina?
MM- Eu sempre admirei muito o futebol argentino. No meu ponto de vista, o Maradona foi um jogador superior ao Pelé. E olha que eu vi os dois jogarem. Infelizmente, no Banfield eu fiquei somente quatro meses. Eu quebrei a perna e acabei sendo dispensado. Por isso, acabei retornando em seguida para o Brasil.

RRO- O senhor não chegou a sentir falta do Brasil? Da família?
MM- Nunca. Isso é coisa de jogadorzinho de hoje, que é tudo fresco. Eles ficam falando que sentem falta da mãe, da comida da família. Tudo papo...

RRO- Como era feito o exame anti-doping antigamente?
MM- Não existia isso. Se existisse, eles teriam pego todo mundo. Todos os jogadores usavam bolinha, atleta de time grande, de time pequeno. A gente conseguia correr mais assim. Eu usei bastante também.

RRO- Mas o sr. não tinha medo disso prejudicar seu desempenho depois?
MM- Eles falavam que isso acontecia. Mas era frescura deles. Eu não acreditava nisso.

RRO- O senhor jogou em quatro equipes treinadas pelo técnico Filpo Nuñez: América de Rio Preto, Coritiba, Jabaquara e Portuguesa. Como era trabalhar com ele?
MM- O Filpo sabia tudo de futebol. Psicologicamente, ele era muito inteligente. Ele chegava nos jogadores e falava: “Você é muito bom. Você é melhor que o Rivellino”. Ele tinha umas frescuras de usar terno e gravata, como o Luxemburgo hoje. Mas era um grande treinador.

RRO- Por que o senhor encerrou a carreira?
MM- Eu tive um sério problema de diabetes. Esse momento foi muito difícil pra mim. Nem sei te explicar o que eu senti. Fiquei dois meses sem sair de casa, não conseguia fazer absolutamente nada.

RRO- O que o senhor acha dos empresários dominarem o futebol hoje?
MM- Na minha opinião, isso é uma grande palhaçada. Tem jogadorzinho que tem três, quatro empresários. Na minha época, não tinha esse tipo de frescura. Os atletas de hoje ganham muito dinheiro. Os jogadores antigos não ganharam praticamente nada.

Publicado originalmente no Jornal Rudge Ramos Online da Universidade Metodista de São Paulo em 20 de fevereiro de 2009

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