segunda-feira, 13 de julho de 2009

O verdadeiro Frank Sinatra brasileiro





No lugar onde trabalho, ficamos assistindo aqueles canais com 24 horas de telejornais. Atualmente, as notícias tem girado em torno de dois assuntos: Michael Jackson e o Corinthians (eta imprensa de gambá!).

Na sexta-feira, estavam comentando o show de 50 anos do Roberto Carlos. Um comentarista disse: “O Roberto é genial. Ele ao mesmo tempo é o nosso Elvis e o nosso Frank Sinatra”. Isso me causou uma revolta.

Caro amigo comentarista, você tem razão em algumas coisas. Sim, o Roberto é genial. Sim, ele fez coisas belíssimas em todo esse tempo de carreira. E sim, ele foi o nosso Elvis. Ele introduziu o rock no Brasil, em um momento em que havia um grande preconceito contra o gênero. Ele tem grandes méritos por tudo isso. E sem falar que é o nosso artista mais popular.

Mas dizer que ele foi o nosso Frank Sinatra é uma coisa completamente questionável. Se existe algum FS tupiniquim é o gaúcho Nelson Gonçalves (1919-1998).

Só num país como o Brasil para um cara como o Nelsão não ganha uma biografia caprichada. Se fosse nos Estados Unidos, teríamos uma série de livros sobre este importante personagem da nossa canção popular. Durante sua vida, o cara foi um autêntico punk. Nelson foi viciado em tudo: drogas, cigarro, toda a espécie de jogos de azar, corridas de cavalo. Antes do estrelato foi jornaleiro, garçom, mecânico, engraxate, polidor, tamanqueiro, boxeador e cafetão na Lapa carioca.

Era gago. Toda sua carreira artística foi dentro de uma mesma gravadora: a RCA Victor. Vendeu aproximadamente 65 milhões de discos. Ninguém no Brasil levava menos tempo para gravar um disco que ele. Era extremamente hábil e rápido, totalmente sem frescuras. E ninguém gravou mais que ele.

O “metralha” gravou toda a espécie de compositores brasileiros. Da velha-guarda levou ao disco tudo de seu amigo Adelino Moreira e mesmo de caras como Ary Barroso, Herivelto Martins, Ataulfo Alves, Jair Amorim, Evaldo Gouveia, Mário Lago, Custódio Mesquita, Noel Rosa. Embora falasse mal da Bossa Nova, gravou todo mundo do movimento. Gente como Billy Blanco, Dolores Duran, Vinícius de Moraes, Tom Jobim, Roberto Menescal, Ronaldo Bôscoli, e mesmo Carlos Lyra. Esse aliás, fazia coisas especialmente para o boêmio.

Também gravou muitas parcerias da dupla Roberto/Erasmo. E medalhões da MPB como Chico Buarque, Paulinho da Viola. E também bregas-românticos como Wando, Benito di Paula, Luiz Ayrão, Waldik Soriano. Da geração do rock dos anos 80, Nelson chegou a gravar canções de compositores como Lobão, Angela Rô Rô, Lulu Santos e do grupo Kid Abelha.

Casou-se e descasou diversas vezes. Era extremamente mulherengo. Diz a lenda que a cantora Berry White chegou a botar fogo nas próprias vestes por paixão a Nelson.

Portanto, não tem conversa. Nelson foi o eterno fantoche, o último boêmio e dono das calçadas. Foi poeta das doidivianas, deusas do asfalto, normalistas, mariposas e negas manhosas. Cantou a última seresta, deu um ultimato e viveu pelas ruas do mundo com violão, sardinha e pão. E sempre foi um homem de brio.

6 comentários:

Edson Tavares disse...

Amigo, permita-me uma crítica construtiva...

Percebo em seu texto, uma emotividade muito forte, que terminou por comprometer um pouco a sensatez do que escreve.

Primeiro, esse lance de dizer que fulano é o sicrano tupiniquim soa-me pejorativamente - sem xenofobismo, viu? - uma depreciação do artista nacional. Frank Sinatra foi Frank Sinatra, e Nelson Gonçalves é o Nelson Gonçalves brasileiro. E só. Essas comparações acho o maior "nada-a-ver".

Pior ainda foi quando vc reuniu os argumentos para sustentar sua afirmação: juntou tudo o que foi de defeito, de aspecto menos glorioso da vida de Nelson; aí fica parecendo que ele foi o "Frank Sinatra brasileiro", como vc diz, por ser mulherengo, cafetão, viciado em drogas, cigarro e jogo de azar...

Para encerrar, vc quis aproveitar as canções de Nelson para homenageá-lo, mas começou com a pior homenagem de todas, ao dizer, dubiamente, que ele foi um "eterno fantoche".

Desculpe amigo, penso que vc foi infeliz em alguns momentos do texto. No mais, partilho com vc esta paixão pela "voz que superou o tempo".

Abraço.

Adilson Marcelino disse...

Caro Matheus,
Concordo com o Edson no que ele diz sobre comparações. Também não me agrada, pois foi como a imprensa falou do Paulo Autran quando morreu, dizendo que ele era o Lawrence Olivier do Brasil.
Agora, se é para fazer referência, concordo com você quando diz que o Sinatra não tem a ver com o Roberto.
O Roberto foi ou roqueiro ou um cantor romântico, e por isso não se assemelha ao Sinatra.
E, ainda que goste muito do Sinatra, o Roberto e o Nelson me dizem muito mais.
Um abraço meu amigo.

Matheus Trunk disse...

Edson: valeu pela crítica construtiva. Poxa, pra fazer um texto argumentativo, como esse, é necessário emotividade. Vai ver exagerei na dose rsrs, embora ache qie não. Seguinte: a comparação estabelecida é entre o Nelson e FS. O FS também teve uma vida pessoal bastante controvérsia e rica, como a do Nelson. Quero deixar claro com isso que além de serem grandes cantores, ambos tiveram vidas pessoais (e eram personagens) muito parecidos. Quando digo que ele é um eterno fantoche, usando esta canção, quero dizer que sua vida pessoal é muito parecida com os personagens de suas canções. Por isso, falar aqui que ele é um "eterno fantoche". Dizendo isso, estou dizendo que algumas vezes, o Nelson se sentiu um fantoche, como o personagem da canção do Adelino. Sò isso. No mais meu caro Edson, valeu pelas críticas construtivas e respeitosas cara, apareça sempre por aqui!

Adilson: como você, pra mim o RC e o Nelson tem muito mais pra mim. Em breve mais posts sobre o Nelsão.

R. D´Elia disse...

1) Eu lembro de uma edição da finada Showbizz (que antes era Bizz) com matéria & fotos especiais com Nelson e suas namoradas; duas mulheres varias décadas mais jovens. "Eu uso uma prótese peniana", disse ele.

2) Sorry man, but our real Elvis is Erasmo Carlos. Robertão tá mais pro nosso Johnny Rivers.

Matheus Trunk disse...

Oi Delia. Realmente o Nelsão colocou prótese, mas somente no final de vida. Roberto vendeu muito mais discos que o Erasmo, sempre esteve numa gravadora de ponta e sempre foi mais ídolo. O Erasmo começou numa gravadora pequena (RGE) e seu primeiro sucesso nacional foi somente nos anos 80, naquele disco em que ele aparece com a Narinha na capa. Belo disco e grande Erasmo!

Anônimo disse...

Frank Sinatra é estadunidense.Antônio Gonçalves(Nelson)é brasileiro.É impressionante a falta de auto estima a fazer tais comparações.Mas não é pra menos,a maioria dos produtores musicais são mal preparados e agem de forma burra na hora de comercializar seus cantores.É uma pena.Quem perde é a nossa musica....E depois o pessoal reclamava do Tom Jobim! rsrs!