terça-feira, 21 de setembro de 2010

Walter Hugo Khouri fala sobre Xuxa e Vera Fischer


Minha vida com Xuxa e Vera Fischer
                
Por Walter Hugo Khouri

Chega PENTHOUSE e me pergunta quais as minhas intenções ao fazer Amor, Estranho Amor, meu novo filme, como Xuxa e Vera Fischer, que estreia agora em outubro. Respondo: acho que não existem “intenções” quase se pensa em fazer um filme. Quase sempre, no meu caso, o que existe é um impulso, uma necessidade de expressão, de continuar transmitindo idéias, visões, pensamentos, memórias, um enfoque pessoal do mundo e dos sentimentos humanos.

Isso no que se refere ai lado criativo. No caso de Amor, Estranho Amor, tudo nasceu do convite do produtor Aníbal Massaini para a realização de um filme sobre o amor visto pelo prisma de um menino.

Em torno dessa ideia, fizemos primeiro um episódio ainda inédito e, em seguida, em vez de produzirmos mais um para complementar, resolvemos partir para um trabalho de grande porte sobre o mesmo assunto com uma visão pessoal minha.

De certo modo, o núcleo central do filme deriva (não conscientemente, devo dizer) da situação mãe-filho esboçada em Eros, meu penúltimo filme, com papéis vividos por Dina Sfat e o menino Marcelo Ribeiro. Aqui, essa situação é a tônica do entrecho e atravessa o filme inteiro, a mãe interpretada por Vera Fischer, ao lado do mesmo Marcelo Ribeiro.

Examinando o filme agora já pronto, tenho a impressão que ele se relaciona com todos os outros vinte que fiz antes, de uma forma mais ampla do que podia imaginar. Isso reforça uma conclusão a que cheguei já faz algum tempo: os filmes se realizam a partir de um processo inconsciente muito mais forte e incontrolável do que se pensa. Tenho certeza de que, quando se trabalha com sinceridade e sem premeditações, nós cineastas fazemos os filmes que de certo modo já estão prontos dentro de nós e que fluem com independência durante o processo de criação.


Neste filme, por exemplo, há todo um pano de fundo político, no clima incerto e tenso do final dos anos 30 no Brasil – época em que a ação se desenrola -, mas o que realmente importa são os sentimentos amorosos e eróticos do menino.

A luta pelo poder, ambição, o dinheiro envolvem todo o ambiente, mas ao final vemos que apenas a sublimação e a perplexidade amorosa é que resistem a tudo. Os fatos contingentes passam, o amor fica. O que não invalida nem torna supérflua a presença dos fatos, que funcionam como contraponto e reforçam a essência. É preciso ver o filme para ter uma ideia precisa do que estou dizendo. No fundo, é uma variante sobre o mistério, o inexplicável e o abismo de prazer e dor que envolvem o amor, em qualquer circunstância.

Agora, o que muita gente estranha é ter usado, no meu elenco, dois “símbolos sexuais” como Vera Fischer e Xuxa. Eu já tive o prazer de filmar com quase todas as atrizes talentosas e importantes do Brasil, e sempre me dei bem nesse relacionamento, exceto em ocasionais choques de atração-repulsão, sempre breves e construtivos. Assim, não havia novidade na situação, pois as duas, antes de tudo, são excelentes atrizes.

Quem me conhece sabe que eu jamais iria colocar uma atriz novata, como Xuxa, num papel importante, se não tivesse a convicção de que ela se sairia bem.

E foi o que aconteceu. Encontrei Xuxa por acaso, numa entrevista, e fiquei curioso e intrigado diante do jeito “impreciso” e diferente dela, apesar do lay-out estranho e talvez exagerado de sex symbol. Senti um “algo” por trás daquilo, fui tocado pelo evidente star appeal que ela possui.

Falei com Xuxa apenas mais uma ou duas vezes, depois disso, e a contratei sem qualquer tipo de teste, seguro de que estava no caminho certo. Foi um escândalo! Os amigos, atrizes, todo mundo perguntando se eu estava louco. Mas a moça era melhor do que eu pensava. Ela tem um timing de atriz nata, uma vivacidade e uma noção de marcação surpreendentes.

Além de tudo, Xuxa é espontânea, segura e inteligente, e grande profissional. No gênero ingênua-maliciosa, ninguém é melhor do que ela, e acredito que irá melhorar ainda. A última prova que tive de sua capacidade foi durante a nossa dublagem. Ela nunca tinha dublado na vida, e todos sabem como é uma coisa difícil para quem não tem prática. Pois ela chegou ao estúdio e, logo em seguida, já estava dublando com todas as nuanças requeridas!

Já sobre Vera Fischer, o mínimo que posso dizer é que ela é a personificação do sonho de qualquer diretor. O tempo como que a decantou, tornando-a uma figura de incrível força interior. Ela tem um jogo de cena sóbrio e “para dentro”, como eu gosto. Seus closes têm uma intensidade perturbadora. Enfim, Vera é uma conjunção de talento e beleza única em nosso cinema e ainda não foi bem aproveitada.

Além de tudo, se é que isso ainda fosse necessário, Vera é uma pessoa inteligente, informada, discreta, cuja presença deixa o local de filmagem em alto astral.

Depois de tudo o que falei, fica óbvio que meu convívio com elas, durante os trabalhos de Amor, Estanho Amor foi o melhor possível. Ambas são responsáveis, pacientes, bem-humoradas. A filmagem foi uma festa e, além de tudo, nenhuma rivalidade surgiu entre as duas, que são muito adultas e evoluídas para cair numa situação dessas. Por isso é que estou escrevendo mais roteiros para Xuxa e Vera Fischer, com quem espero filmar sempre.

Publicado originalmente na Penthouse brasileira edição 01, em outubro de 1982, editora Grafipar.  

2 comentários:

Adilson Marcelino disse...

Ótimo resgate, meu amigo.
Adorei ler essa entrevista do mestre.
Abração

antonico disse...

Valeu, Matheus. Sempre é bom saber um pouco mais das nossas musas.