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quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

Memórias do setorista da Boca VII: Antônio Meliande





Foi uma Via Crucis. De Guaratiba o filho dele me deixou num terminal. Dali peguei um ônibus que demorou pra xuxu até chegar no terminal central da Barra da Tijuca. Da Barra passei por São Conrado e todos aqueles bairros nobres até chegar em Botafogo. De Botafogo peguei o último ônibus que me deixou na Praia do Flamengo. Da praia fui andando cheio de areia até o Catete. Adoro o Rio de Janeiro. Sempre quando vou no Rio fico naqueles hotéis vagabundos, baratos e decadentes do Catete. Gosto de ficar onde ficam as prostitutas, os travestis, o povão mesmo. Mas eu fui em Guaratiba, um verdadeiro fim de mundo com um objetivo: conhecer e entrevistar o cineasta e diretor de fotografia Antônio Meliande.


Na Boca ele era conhecido como Toninho ou Tony Mel. Trata-se do homem que mais fotografou longas-metragens da história do Brasil. Italiano de nascimento, seu currículo é bastante extenso. Toninho foi convidado pelo ator Tarcísio Meira para ir trabalhar na Rede Globo. Ele renovou toda a linguagem televisiva do principal canal do Brasil. Toninho foi o responsável pela luz de inúmeras novelas e dirigiu minisséries como a infantil Sandy e Júnior. Era um profissional criterioso e teve uma parceria extraordinária com o cineasta Walter Hugo Khouri. Pode-se dizer que a obra de Khouri existe o antes e o depois da entrada de Toninho. Meliande dirigiu no período erótico e depois no pornô. Mesmo assim, trabalhou com profissionalismo e nunca fez nenhuma exigência. Tratava qualquer produção com o mesmo engajamento e seriedade. 

Pode-se dizer que existia uma espécie de "Série" A de diretores da fotografia do cinema paulista do período. Nos filmes de melhor orçamento ou mais bem acabados estavam Toninho Meliande, Cláudio Portioli, Carlos Reichenbach, Osvaldo de Oliveira, o "Carcaça" e Pio Zamuner. Veteranos de primeiro escalão como Tony Rabatoni e Giorgio Attili também estavam bastante próximos. Rabatoni fez a fotografia de "Cafajestes" de Ruy Guerra, clássico do Cinema Novo. Attili foi o principal colaborador de José Mojica Marins, o Zé do Caixão. Um veterano que acreditou em Mojica quando ninguém sabia quem ele era.

O cineasta Mário Vaz Filho trabalhou várias vezes como assistente de direção e continuísta com Toninho. Foi assistente do próprio Meliande quando o italiano dirigiu "Bacanal" (1980). Marinho tornou-se um diretor experimentado no período do sexo explícito. Aí foi a vez dele ter Tony Mel como colaborador em películas como "O Pistoleiro Chamado Papaco" (1986). "O Meliande é um parceiro. Mas ele era tão rápido que se você demorasse ele acabava dirigindo seu filme inteiro". Portioli era mais criterioso, demorava mais ao elaborar a fotografia. Foi o cara responsável pela maioria da iluminação dos filmes da produtora Dacar do ator, cineasta e produtor David Cardoso. Eram grandes amigos. Quando estive com David no Mato Grosso perguntei sobre o Portioli. O eterno galã ficou bastante emocionado e quase caiu no choro. David tem verdadeira adoração por ele. "A maioria dos meus amigos já morreu...Sou um camarada que vive na nostalgia, no passado. O Portioli foi mais que um parceiro. Trabalhava em filme com dinheiro, sem dinheiro. Era pau pra toda obra".

Carcaça foi o profissional mais dedicado as produções da empresa Cinedistri e tinha bastante carinho pela equipe técnica. Seu colaborador mais fiel foi Rubens Eleutério. Eleutério defende Carcaça com unhas e dentes. Quando estive com Aníbal Massaini Neto ele tomou um susto de eu perguntar sobre o Carcaça. "O Osvaldo era um técnico extraordinário. Esteve conosco várias vezes". Aníbal não gosta de dar entrevistas e não tive oportunidade de gravar um depoimento extenso dele.

Pio Zamuner era um técnico extraordinário cujo legado principal são os filmes que esteve a frente do ator e produtor Amácio Mazzaropi. "Quem sofria na mão do Pio eram os atores", afirma Virgílio Roveda, o Gaúcho, que trabalhou com ele em nove filmes do Mazza e em vários outros. Até mesmo quando Zamuner meteu-se a dirigir de maneira independente da PAM Filmes como no longa-metragem "O Sertanejo" (1979). "O Pio carregava muita produção  nas costas. Tem muito  assinado por outra pessoa que quem dirigiu no campo de filmagem foi o Pio. O diretor estava lá pra puxar papo com as menininhas do filme", diz Gaúcho. 

Podemos dizer que o diferencial de Toninho Meliande era a rapidez. Talvez por isso ele seja o fotógrafo que trabalhou na maior quantidade de longas-metragens de sua geração e de toda história do cinema brasileiro. Existe um documentário muito bom sobre ele chamado "Pau Para Toda Obra" de Daniel Camargo que chegou a ser exibido no Canal Brasil. Zamuner mereceu um curta-metragem carinhoso assinado pelo diretor paulista Thiago Mendonça. Mas ficou nisso. Todos merecem catálogos, mostras, livros, biografias, documentários. Mas grande parte desses profissionais continuam esquecidos.

terça-feira, 2 de outubro de 2018

Nicole Puzzi ganha mostra na Cinemateca Brasileira

A Cinemateca Brasileira promove durante o mês de outubro a mostra retrospectiva “Eu, Nicole Puzzi, Possuída Pelo Prazer”, dedicada a carreira da atriz Nicole Puzzi. São nove longas-metragens e um curta que contam parte significativa da trajetória da atriz. Entre as produções selecionadas está o filme de estreia da musa (Possuídas Pelo Pecado de Jean Garrett) e obras de destaque do diretor Walter Hugo Khouri (Eros, o Deus do Amor e Eu). O evento é uma realização da ADAP (Associação dos Artistas Amigos da Praça), ELA (Escola Livre de Audiovisual), Cinemateca Brasileira e Canal Brasil. A mostra conta com curadoria de Ivam Cabral, Rodolfo Garcia Vazquez e Márcio Aquilles.  Toda mostra é gratuita. A Cinemateca Brasileira está localizada no Largo Senador Raul Cardoso, 207, Vila Clementino, zona sul de São Paulo. A instituição é próxima a estação Vila Mariana do metrô.

VSP comenta alguns dos longas-metragens presentes na mostra:

Ariella (1980, John Herbert)
Cotação: ***
Um clássico do drama erótico e da filmografia da musa. Baseado num livro da polêmica escritora Cassandra Rios, Ariella (Nicole Puzzi) é criada pela família responsável pela morte de seus verdadeiros pais. Ela descobrirá a sexualidade e armará uma vingança. Filme bem acabado e bem dirigido. Destaque para o elenco estrelar que contou com gente do porte de Laura Cardoso, Sérgio Hingst e Christiane Torloni.
Sábado (06/10) ás 19h
Sábado (13/10) ás 17h



As Sete Vampiras (1986, Ivan Cardoso)
Cotação: ****
Um clássico de filmografia do cineasta Ivan Cardoso com roteiro de Rubens Francisco Lucchetti. Sílvia (Nicole Puzzi) inicia as pesquisas de uma planta carnívora que passa a atacar diversas pessoas. Ao mesmo tempo, uma série de crimes começam a acontecer com um grupo de balé chamado As Sete Vampiras.
Sábado (06/10) ás 21h
Quinta (11/10) ás 19h

Damas do Prazer (1979, Antônio Meliande)
Cotação: ****
Um grande roteiro de Ody Fraga. A vida diária de um grupo de prostitutas durante o mercado do sexo na Boca paulistana. Nicole Puzzi faz uma moça chamada NP que gosta de notícias de jornais sensacionalistas. O talentoso curta-metragem mineiro Lembranças de Mayo de Flávio V. Sperling (Flamingo) é exibido na mesma sessão.   
Quinta (04/10) ás 20h30
Sábado (13/10) ás 21h

Eros, o Deus do Amor (1981, Walter Hugo Khouri)
Cotação: ****
Filmado com a câmera subjetiva, o longa-metragem trata da vida sentimental de Marcelo (Roberto Maya). Suas relações com as mulheres seja a mãe, a esposa, a filha, a amante ou antigas namoradas. Um dos grandes trabalhos de Khouri.
Sexta-feira (05/10) ás 21h
Domingo (14/10) ás 18h



Eu (1986, Walter Hugo Khouri)
Cotação: **
O milionário Marcelo (Tarcísio Meira) reúne um grupo de mulheres na sua casa de praia. O elenco feminino é o destaque com Nicole Puzzi, Bia Seidl, Monique Lafond e Christiane Torloni.
Sexta-feira (05/10) ás 19h
Quinta-feira (11/10) ás 21h

Possuídas Pelo Pecado (1976, Jean Garrett)
Cotação: ***
Primeiro filme protagonizado pela moça vinda do Paraná. A trama gira em torno do ricaço Leme (Benjamin Cattan) que sente-se frustrado por não ter tido um filho com a esposa Raquel (Meiry Vieira). O motorista André (David Cardoso) planeja dar um golpe para ficar com o dinheiro do patrão utilizando a filha da empregada doméstica da casa (Nicole Puzzi). Uma trama envolvente. Terceiro longa-metragem dirigido por Jean Garrett e o último pela produtora Dacar Filmes de David Cardoso.
Domingo (07/10) ás 18h
Domingo (14/10) ás 20h

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Entrevista com Walter Hugo Khouri publicada em 2002

Walter Hugo Khouri

(São Paulo, SP, 21/10/1929- 17/06/2003, São Paulo, SP)



Paixão perdida, 1998

Por Almir Rosa

Sempre pensei em fazer uma carreira ligada a cinema, com 12 aos eu já pensava em cinema. Gosto de escrever, sempre li muito. Houve um momento em que eu só pensava em estudar Filosofia. Mas via muito filme. Quando criança, eu e meu avô materno íamos quase todos os dias ao cinema, e eu via muita coisa – claro que não com os olhos que tenho hoje.

Entrei para a Faculdade de Filosofia, mas fiz só o primeiro ano. Eu lia muito, até hoje sou um grande leitor, tenho uns mil livros aqui em casa. Em cinema, nunca me interessei apenas pela técnica, sempre tive vontade de dizer alguma coisa, não importante se interessava a todo mundo ou apenas a mim. Eu sempre me considerei um escritor/diretor.

Espinosa era meu filósofo favorito, todo filme meu tem uma citação dele. Essa linha mais literária, de criatividade, a parte escrita, sempre foi o principal, nunca fui fazer um filme sem que tivesse um arcabouço literário, filosófico.

Na verdade, os meus filmes ou são baseados em mim mesmo, ou com em uma visão do mundo. Se eu tivesse nascido na Bahia, por exemplo, meus filmes não seriam como são, porque teriam uma coisa local. Aqui é um pouco essa coisa estrangeira de São Paulo. São Paulo aparece muito nos meus filmes, porque nasci aqui, sou paulistano.

Minha mãe era brasileira, seus pais, italianos, eu cresci com meu avô italiano. Meu pai era greco-libanês, veio muito cedo para o Brasil.

Os libaneses são muito europeus, não têm nada de oriental. Graças ao meu avô italiano, falo italiano, sei tudo sobre a Itália, mais que muito italiano e tive muita influência da maneira de ser italiana. Sou um cara de São Paulo com características italianas.

O árabe eu falo e escrevo um pouquinho, mas foi o italiano que me marcou. Meu pai morreu muito cedo, convivi pouco com ele. Certa vez fui a Paris, um desses festivais de cinema, dei um pulinho até Beirute para conhecer minha família. O libanês já é um europeu, não é oriental.

A CARREIRA

Fiz meu primeiro filme muito cedo. Sou o famoso cara-de-pau que diz que sabe fazer, mesmo quando não sabe. Eu tinha vinte e poucos anos, foi em 1951, 1952, e se chamou O gigante de pedra. A história se passa numa pedreira, ainda tenho umas fotos, mas não sei o que acontecia, faz mais de 40 anos. O filme não é lá essas coisas. Eu estava na Faculdade de Filosofia, havia um grupo de São Bernardo que queria fazer um filme. Havia um italiano no meio que queria fazer um filme também, queria dirigir, mas tinha medo de já dirigir logo no primeiro filme. Chamava-se Lívio Rangan. E era a história de uma amiga do Lívio. Mas, nos dois primeiros anos, eu aprendi a coisa. Foi o início de minha carreira.

Eu não tinha passado por nenhuma escola de cinema, nem teórica, nem prática, nem tinha feito curta, aliás, nunca fiz curtas-metragens. Aprendi na prática a lidar com a objetiva, a sensibilidade do filme, a posição da câmera, tudo.

Meu segundo filme foi Estranho encontro. Foi o primeiro filme que fiz inteiro. Foi filmado em 1956 e lançado em 1958, pela Vera Cruz. Mas aí eu já sabia tudo e ficou bem feitinho, um filme para valer. Fronteiras do inferno (1958), lançado em 1959, foi o terceiro filme. Os produtores eram dois russos. Trouxeram filmes virgens dos Estados Unidos e depois levaram o filme pronto para uma versão em inglês. Deve haver cópias em algum lugar dos Estados Unidos, mas não imagino onde. Estranho encontro e Na garganta sofreram muita influência do produtor. Estranho encontro ganhou um prêmio em Curitiba na gestão do governador Ney Braga. E Na garganta do diabo valeu um prêmio em Mar del Plata.

A seguir, fiz A ilha (1962), um filme frustrado, porque era muito ambicioso, queria revelar a mesquinharia humana. Era a história de sete grã-finos que ficavam perdidos, o barco arrebentava e começava a acontecer algo entre eles. Era superinteressante, mas não era o que eu acho que seja bom. Logo em seguida veio Noite vazia (1964), é quando começa haver um estilo. Eu já tinha um domínio, sabia o que estava fazendo.

Fiz muitos filmes, e para mim sempre foi fácil porque eu nunca tinha de pensar “vou fazer um filme sobre a independência brasileira, sobre a guerra de Canudos”, eu sempre fazia um filme sobre as coisas que me interessavam e que eu podia trabalhar em cima delas. Tenho a impressão que fui fazendo o mesmo filme, que adquiriu as características de seu tempo.

Preste atenção no que vou dizer agora, porque pode ser mal interpretado: ter nascido num país como o Brasil em que é difícil fazer qualquer coisa, é difícil tudo, acho que foi uma vantagem. Se eu tivesse nascido na França, ou na própria Itália, ia ter de estar dentro dos padrões daqueles países, quisesse ou não, porque são sociedades tão fortes, tão marcadas, que você pode sair um pouquinho para cá, um pouquinho para lá, mas não pode ter isso que eu tive aqui. Eu fiz o que eu queria, sem que houvesse uma pressão sobre mim, dizendo o que deveria ser feito.

Construí uma obra de unidade, centrada em si mesma. O cinema tem essa coisa interessante: quando se fala de um livro, a gente pega e lê três, sete livros de um autor para ver o que é. Já com cinema é difícil, ver todos os filmes de um cineasta e lembrar de todos. Eu fiz sempre o mesmo filme, nunca mudei muito (não sei se estou exagerando, mas acho que nunca mudei muito), os personagens podem ser diferentes, mas as preocupações são as mesmas, as finalidades são as mesmas, os problemas são os mesmos, essa vontade de superação é a mesma. E não me lembro de jamais ter dito “agora vou fazer um filme sobre a fome”, por exemplo, que é um tema válido e importante.

Apesar de tudo, acho que eu sou o único cineasta no Brasil que tentou, bem ou mal, dar uma unidade a seus filmes; unidade de personagem, de tema, de lugar. Choca um pouco, porque isso é contra toda a coisa do Brasil. Isto é, o cara do Nordeste não quer saber se o Marcelo está com problemas existenciais, ele quer falar da miséria (eu posso colocar a miséria, mas, de repente, será uma miséria que vai ter uma reflexão sobre ela própria, o próprio personagem). Nunca quis fazer uma comédia. O Bergman, por exemplo, tem uma unidade de obra incrível, e fazia comédia. Eu já não saberia fazer. Ele é de um país em que as coordenadas são aquelas, e ele conseguiu. Eu até pensei em fazer uma comédia, depois vi que no Brasil seria mais difícil fazer uma comédia com os meus personagens. Quem são meus personagens? Sou eu mesmo e mais duas, três pessoas que me cercam.

INFLUÊNCIAS

Sofri alguma influência do Antonioni, de sua postura espiritual, essencial no fazer cinema. Mas isso, com o tempo, fica cada vez mais distante. Já de Bergman acho que tenho menos. Quando Bergman surgiu, eu fiquei entusiasmado, mas não há uma influência direta. Se há influência de Bergman, acho que não é proposital, é algo que paira no ar; e, como vi muito, admirei muito, acho que ficou alguma coisa. Mas é engraçado que, quando olho meus filmes, não consigo localizar a influência.

De cinema brasileiro, via de tudo. Da Vera Cruz eu não gostava de quase nada. Roberto Santos era meu contemporâneo, cheguei até a produzir um filme dele: Um Anjo Mau (1971). Fui assistente de Lima Barreto, mas não havia nada nele que pudesse ter me influenciado. Dos mais antigos, como Humberto Mauro, só acho curioso, e não vi tudo. Não me liguei a nenhuma tendência do cinema brasileiro, mas não foi de propósito, simplesmente fiz do jeito que me vinha na cabeça.

PAIXÃO PERDIDA

Essa coisa de fazer sempre o mesmo filme me leva a falar do personagem Marcelo. Ele vai aparecer aos poucos, porque no começo eu não tinha domínio do expressão para conformar o personagem como queria. Marcelo é o homem diante do mundo, com os problemas do mundo. É quase como um personagem de literatura. Eu pus Marcelo nos filmes porque vi que podia dar uma unidade aos meus problemas. Não é um personagem autobiográfico. É parte dos meus pensamentos e reflexões. Eu sou e não sou Marcelo. Sempre procurei fazer filmes intimistas que explicassem, de uma forma ou de outra, os problemas das mulheres e dos homens. Marcelo é o mesmo personagem em situações diferentes. Há momentos em que ele é jovem, em outros é mais velho e casado, mas é sempre o mesmo personagem.

Em Paixão perdida, a história é que Marcelo não pode parar, ele não para nem diante do filho. Não percebe que vai provocar um cataclisma na cabeça da criança. Marcelo não hesita em fazer o que para ele é impossível deixar de fazer, mesmo que o filho sofra daquele jeito. É um filme cruel, é um filme difícil. Houve um dia em eu que pensei: “Agora Marcelo precisa entender, ele já está meio velho e precisa renunciar” – mas ele não renuncia, vai esmigalhar o filho, mas faz o que acha que deve fazer.

A RETOMADA DO CINEMA BRASILEIRO

Quanto à Lei do Audiovisual, acho que é aquele famosa coisa bem-intencionada, que deveria funcionar como a gente quer. Mas se não funcionar não tem importância, pois de alguma forma a gente vai achar. O único problema é quando se tem de pedir dinheiro aos políticos. Mas acho que se não der certo, eles têm de corrigir.

Para mim, o que acontece com o cinema brasileiro hoje não é retomada. Se há dois ou três filmes, cada um fazendo uma coisa, não é exatamente uma retomada. Quando comecei, havia o primeiro cinema brasileiro, que era aquela confusão. Aí veio a Vera Cruz e a coisa italiana de “nós vamos fazer cinema”. Eu venho logo depois. Era um sofrimento, não tinha uma tradição, nos filmes paulistas anteriores à Vera Cruz não se encontra nada que seja bom. Aliás, ainda hoje é assim, isso porque o cinema brasileiro ainda não está sistematizado, não tem estrutura, é uma diversidade completa e cada cineasta é único. Não há uma escola, não há cineasta paulista, o cineasta carioca, o cineasta do interior. Tentou-se isso com a Vera Cruz, que construiu um cinema de estúdio, mas faltava estrutura. No Rio havia a chanchada e algumas outras coisas mais de acordo com a cidade. E até hoje o cinema brasileiro continua meio assim.

E vai continuar assim. Na época atual, o que há em termos de cinema? Você consegue dizer em que direção os cineastas estão indo? Cada um faz um filme e é muito difícil para todo mundo, e acho que vai ser assim ainda por muito tempo. Falta unidade. Eu estava pensando nisso outro dia: na Suécia, na França, há um denominador comum, uma unidade que mais ou menos agrupa, mesmo quando há diversidade. Tanto que não sabemos se é melhor é sermos primitivos, índios, civilizados, selvagens, ou outra coisa. Eu também não sei.

FILMES DIRIGIDOS POR WALTER HUGO KHOURI

1952- O gigante de pedra, 35 mm, longa-metragem.
1958- Estranho encontro, 35 mm, longa-metragem.
1959- Fronteiras do inferno, 35 mm, longa-metragem.
1960- Na garganta do diabo, 35 mm, longa-metragem.
1962- A ilha, 35 mm, longa-metragem.
1964- Noite vazia, 35 mm, longa-metragem.
1966- Corpo ardente, 35 mm, longa-metragem.
1967- As cariocas (2º episódio), 35 mm, longa-metragem.
1967- As amorosas, 35 mm, longa-metragem.
1970- O palácio dos anjos, 35 mm, longa-metragem.
1972- As deusas, 35 mm, longa-metragem.
1974- O anjo da noite, 35 mm, longa-metragem.
1975- O desejo, 35 mm, longa-metragem.
1977- Paixão e sombras, 35 mm, longa-metragem.
1978- As filhas do fogo, 35 mm, longa-metragem.
1979- O prisioneiro, 35 mm, longa-metragem.
1980- O convite ao prazer, 35 mm, longa-metragem.
1981- Eros, o deus do amor, 35 mm, longa-metragem.
1982- Amor, estranho amor, 35 mm, longa-metragem.
1984- Amor voraz, 35 mm, longa-metragem.
1987- Eu, 35 mm, longa-metragem.
1991- Forever, 35 mm, longa-metragem.
1998- Paixão perdida, 35 mm, longa-metragem.
1994/2000- As feras, 35 mm, longa-metragem.


Publicado originalmente em NAGIB, Lúcia. O cinema da retomada: depoimentos de 90 cineastas dos anos 90. Lúcia Nagib; prefácio de Ismail Xavier- São Paulo: editora 34, 2002.

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Bia Seidl fala sobre Walter Hugo Khoury

20 perguntas para BIA SEIDL





A linda rival de Maitê Proença em Dona Beija fala sobre os bastidores da novela que ameaçou a Globo, seu novo filme, suas paixões e até como ela dorme

A mistura austríaca por parte de pai, Theopilo, com o sangue italiano da mãe, Alice, deu um belo resultado: Maria Beatriz Seidl, carioca da Tijuca, 24 anos, é uma das belas atrizes da televisão. Como a Aninha Felizardo, foi a rival de Maitê Proença no maior fenômeno de audiência da rede Manchete, a novela Dona Beija. Junto com a atriz Vera Fischer, Bia foi a única atriz brasileira a ser convidada para estrelar o comercial do “sabonete das estrelas”. No próximo mês, chega aos cinemas seu primeiro filme, Berenice, dirigido pelo cineasta Walter Hugo Khoury. Um sucesso que Bia atinge após cinco anos de duro aprendizado. Saindo de um casamento com o cantor Ronnie Von, Bia tem ainda muitas aspirações: fazer teatro é apenas a primeira delas, como conta nesta entrevista, com o redator-chefe Carlos Costa, feita durante um tranquilo almoço numa tarde de domingo, no Negresco, em Ipanema.

1.
PLAYBOY: Você foi a única atriz brasileira, ao lado de Vera Fischer, a ser escolhida para o famoso anúncio do Lux, o “sabonete das estrelas”. Como foi?

BIA SEIDL: Parece que fizeram uma pesquisa de rua, e Vera e eu fomos as escolhidas dentro de um padrão de beleza que eles querem associar ao sabonete. Não sei que trabalho teria chegado a fixar meu nome com o público, porque afinal ainda não pintou nenhuma Porcina na minha vida ! (risos) E, além disso, sempre fiz papéis de mulheres malvadas. Só agora, na novela Dona Beija, é que fiz uma mulher mais boazinha.

2.
PLAYBOY: Foi por esse perfil de loura inacessível que o Walter Hugo Khoury te convidou para o filme Berenice?

BIA SEIDL: Não ! (risos) O próprio Khoury me disse que eu não era uma “coisinha”. Agora, fico uma fera quando chegam com o papo de que sou uma Catherine Deneuve, uma vênus gelada. Não sou assexuada! Certo, eu me protejo, não estou sem guarda-chuva, sou cerebral, crítica, mas fria, nunca! Sou uma vênus quente. Meu lado italiano, o Parpinelli de mamãe, uma calabresa, não deixa a paixão esfriar. Sou movida a paixão!

3.
PLAYBOY: E como foi que você descobriu essa sensualidade toda?

BIA SEIDL: Foi uma coisa linda, saudável, bem lenta. Com 11 anos já namorava um rapaz de 13. Eu não era o tipo “sapeca”, era séria, cheia de ideal, rígida. Só agora é que estou me dando o direto de relaxar, de ser leve. Mas com 15 anos eu queria casar, morar com meu namorado. E não estava pronta! Aliás, não estou pronta até hoje. Não quero nunca estar pronta. Estou descobrindo ainda a sexualidade a cada dia, acho que tem muita coisa para acontecer, não tenho pressa.

4.
PLAYBOY: Como foi o despertar da mulher, para você?

BIA SEIDL: Foi meio feito cacho de banana colocado em jornal e amadurecendo a força. Com 15 anos era quase uma mulher, já batalhando. Cresci na Tijuca, Conde de Bonfim e Largo da Segunda-Feira. Com 12 trabalhava em teatro infantil, com 16 era manequim, fotografando moda. Mas o sonho, desde menina, era ser atriz. Então, o Alexandre Lannes, apostou em mim, me levou pra conhecer o Mário Lúcio Vaz, na época diretor da Divisão de Novelas da Globo. Ele me explicou que era difícil, que eu estaria entre leões e tinha que segurar. Fiz ponta em O Jogo da Vida, de Sílvio de Abreu, e passei na linha de show, fazendo o programa do Agildo Ribeiro. Foi uma barra, eu me assustei.

5.
PLAYBOY: O que você quer dizer com barra? O Agildo? O esquema?

BIA SEIDL: Não! Mas é difícil explicar, eu não via chance de conseguir espaço, achava as pessoas muito distantes, com medo até de falar – de falar delas, da vida, de serem pessoas. Nessa época eu estava sem dinheiro, com um filho para criar, o Daniel, que tive aos 17 anos, precisava trabalhar, foi duro. Fui falar com o Augusto César Vanucci, diretor de shows, e ele me disse, com carinho: “Você não sabe fazer rir e nunca vai ficar mostrando as pernas. Então, vai procurar seu lugar nas novelas”. Eu consegui um papel em Paraíso, escalada pelo Gonzaga Blota. O autor, Benedito Ruy Barbosa, me “pescou” e aí começaram a pintar as coisas.

6.
PLAYBOY: Um projeto de menina que começava a virar realidade...

BIA SEIDL: Muitos me ajudaram. A começar pela direção da novela. O diretor, Ari Coslov, deu muitas dicas. Aprendi muito com o Wolf Maia, quando fiz com ele Louco Amor. Um dia, ele gritou comigo: “Será que você não entende que está trabalhando com raposas? Acorda! Ou cai na real ou será comida!” Eu sempre quis aprender, ia lá, cutucar, fuçar, pedir explicação. Tem muito o lance de observar, porque a câmera ensina, o assistente ensina. Precisa é encarar e batalhar. Aos poucos fui conseguindo.

7.
PLAYBOY: E o sucesso de Dona Beija?

BIA SEIDL: Não foi bom, foi ótimo! Um trabalho muito especial, projeto ousado para a emissora, que a gente conseguiu cumprir com sucesso. É bom saber que participei desse estouro, dessa surpresa da Manchete. E os motivos do sucesso são muitos. Por um lado, como diz o Adolfo Bloch, a história tem todos os ingredientes que o público gosta: padre, rendez-vous e política. Eu acrescentaria: tem amor. Apesar de ser uma novela de época, está muito perto da nossa vida.

8.
PLAYBOY: Mas a razão do sucesso não seria muito erotismo da belíssima Beija Maitê Proença?

BIA SEIDL: Acho que há um certo cansaço do naturalismo na TV, esse lance de encontrar no vídeo os mesmos tipos que se encontram ali na rua. E Dona Beija, além de ser uma novela de época, tinha a história dos equívocos de uma mulher. Mas sucesso é trabalho bem-feito, mas aquele click que dá certo e nem sempre se sabe bem por quê. Agora, tentar explicar o sucesso da novela só pelo erotismo é muito pouco, convenhamos!

9.
PLAYBOY: Dava para sentir esse sucesso enquanto estavam gravando?

BIA SEIDL: Não é uma coisa que se sinta no estúdio, claro. Ali se trabalhava e muito. Mas é certo que houve um clima de satisfação, e isso foi muito bom. Fazer fracasso é chato, ninguém gosta, né? Cria um ambiente de incerteza, de que vai haver mudanças, as pessoas se odeiam, o diretor fica inseguro. Então, foi bom a Manchete ter ousado e acertado com Beija.

10.
PLAYBOY: É diferente trabalhar na Manchete, comparado com a Globo?

BIA SEIDL: É e não é. O trabalho pessoal, que é realmente o importante, esse continua o mesmo, é feito em casa, criando o personagem, decorando textos. A tensão é a mesma, que é o próprio trabalho em televisão. Mas Dona Beija foi um trabalho especial, e o convívio com o diretor Herval Rossano foi revigorante. Eu havia feito com ele A Gama Comeu, foi uma prova de fogo viver a Gláucia, uma tremenda mau-caráter. O Herval quer tudo ao mesmo tempo, emoção e técnica, e ele joga alto, é rápido. É preciso ficar muito ligada para aproveitar tudo, aprender.

11.
PLAYBOY: E como foi o relacionamento com a Maitê, que, afinal, era a estrela da novela?

BIA SEIDL: Ah, a Maitê é uma pessoa muito especial! No final da novela, acabamos nos aproximando muito. No último dia de gravação, na saída do prédio da Manchete, nós nos abraçamos. Ela me disse que se eu precisasse de uma amiga pra desabafar, confiar um segredo, contasse pra ela. Abraçada com ela, eu disse que não era por acaso que ela havia feito o sucesso que fez. Porque há o lance da “construção” em toda atriz. E a Maitê já chegou lá. Ela é lenda, de uma beleza tocante, mas é mais bela ainda como pessoa. Ela é grande! Aí, nós duas choramos. Afinal, são poucos os momentos em que se pode ser apenas emoção, ainda mais eu, que sou virginiana, e quase não me permitia isso. E o momento atual da minha vida está sendo só emoção. É o coração que está batendo, e isso é lindo, encontrar pessoas!

12.
PLAYBOY: Quem são as grandes atrizes, pontos de referência em sua “construção”?

BIA SEIDL: Taí uma difícil questão – porque são muitas. Mas Tereza Rachel, Marília Pêra, Nathalia Timberg são grandes nomes, como Nicette Bruno e Arlete Sales. Se bem que sou suspeita para falar em Arlete, grande figura no meu coração. Já, entre os atores, minha lista não deixaria de fora o Ary Fontoura, um senhor ator. E o Tarcísio Meira, essa pessoa gostosa, carinhosa. Admiro a seriedade profissional desse homem que se joga de corpo e alma, vai fundo no que se faz.

13.
PLAYBOY: O seu encontro com ele no filme Berenice, de Khoury, foi decisivo?

BIA SEIDL: Pra começar, porque Berenice é meu primeiro filme, espero que o primeiro de muitos. Se pudesse, faria carreira no cinema – mas isso só seria possível se tivesse muito dinheiro guardado (risos). O Khoury foi especial para mim desde nosso primeiro encontro. Eu tinha medo de aceitar o convite, medo do desafio de fazer cinema, e do tema, o incesto. E o Khoury me disse que tinha certeza de que eu faria bem o papel. Achei que era apenas um truque dele para eu aceitar, mas depois senti a qualidade do trabalho dele: nunca fui tão bem tratada profissionalmente. Ele sabe exatamente o que quer, falamos a mesma língua, e eu me senti realmente uma atriz, instrumento nas mãos de um diretor. Ah, e isso é tão bom!

14.
PLAYBOY: Mas a pergunta era sobre o encontro com o Tarcísio Meira.

BIA SEIDL: Eu havia entendido, mas precisava falar tudo isso do Khoury. O Tarcísio, no filme, é meu pai, e é em torno dessa relação pai-filha – que chega ao extremo da entrega – que gira toda a história. E o Tarcísio está numa fase linda da vida dele. Teve a coragem de questionar a imagem do galã, deu um “banho” como o Hermógenes no seriado Grande Sertão, “roubou” as cenas com seu desempenho num papel pequeno; fez o difícil papel de protagonista em Berenice, estava agora em São Paulo com a peça Um Dia Muito Especial, onde fazia um homossexual. Ele tem garra!

15.
PLAYBOY: Como foram as filmagens de Berenice?

BIA SEIDL: Fiquei um mês em Ilhabela com toda a equipe. Cinema é complicado, eu tenho medo de perder o fio, não se tem uma ideia de como ficará o trabalho, é outra técnica. A cena do incesto – que na realidade é o contexto geral de todo o filme, a loucura total – foi a que gravamos por último, quando quase toda a equipe tinha ido embora. Era particularmente difícil, mas o Khoury soube conduzir a cena, foi lindo, num quarto, com muita plasticidade. O Khoury é um dos últimos elegantes, homem de enviar flores, chocolate. E eu sou uma pessoa bem comum, adoro ser paparicada. São essas pequenas surpresas que fazem a gente gostar da vida.

16.
PLAYBOY: E o que mais te desgosta num homem?

BIA SEIDL: A falta de humildade, a vaidade, a prepotência. Deus me livre também dos machões! Não preciso de quantidade, vale muito mais o lance da qualidade, um homem que me sensibilize, fascinante e inteligente, que me mobilize, me deixe de quatro, como se diz. Agora, se tem coisa que não tolero em um homem é falta de educação, das coisas primárias ás mais íntimas, num relacionamento mais pessoal.

17.
PLAYBOY: E a política, é um assunto que te preocupa?

BIA SEIDL: Claro, embora não seja de subir em palanque e fazer campanha. Votei no Brizola – não, não estou arrependida, porque eu acreditava. Mas, quando um homem se perde em pequenas rixas, perde também seu crédito! E, além do mais, eu sou a favor do pacote! (risos) Se tiver que ir a à luta, eu vou porque nunca vi o brasileiro tão engajado, patriota, pela primeira vez mobilizando, em função do Plano Cruzado. E bonito sentir como as pessoas assumiram sua responsabilidade como cidadãos! O país é outro, nos últimos tempos. Agora, claro que eu entendo o papel do Brizola, a ele cabe ser oposição, não é? Mas cá para nós, o Rio não tem dado muita sorte, poxa! (risos).

18.
PLAYBOY: Como é o dia-a-dia de Bia Seidl?

BIA SEIDL: Não tem muita rotina. Há o trabalho de dona de casa, de contas a pagar, supermercado, telefonemas para acertar os compromissos, levar meu filho Daniel, de seis anos, ao Colégio Andrews, encontrar um tempo de ver cinema, ou teatro. Mas não tenho programação fechada de academia, aulas de balé, empostação de voz (risos). E...sou também muito preguiçosa. É um sufoco levantar cedo...E adoro doces: sou uma formiga.

19.
PLAYBOY: E essa formiguinha é feliz?

BIA SEIDL: Ser feliz é ter paz de espírito, estar de acordo com seus deuses, seus astros, seu eu. Se encontrando nas coisas, encontrando coerências em suas incoerências, conviver com seus medos. E isso é trabalho de muito tempo. (Ri, assume uma expressão sonhadora). Você não vai perguntar como eu durmo?
                                            
20.
PLAYBOY: Como você dorme?

BIA SEIDL: (rindo muito) Adorei quando li em PLAYBOY a resposta da Regina Duarte, dizendo que dorme de blusão e meia. Eu não uso Chanel número 5: durmo apenas com uma camisa de malha.


Publicado originalmente na revista Playboy 133 em agosto de 1986  

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Entrevista de David Cardoso a Ele Ela em novembro de 2007


DAVID CARDOSO FOI O MAIOR NOME DO CINEMA ADULTO BRASILEIRO. NESTA EXCLUSIVA A LAURO MESQUISTA E ANDRÉ MALERONKA ELE DIZ POR QUE SUAS PORNOCHANCHADAS MEXIAM COM A CABEÇA DO POVÃO – E POR QUE O CINEMA PORNÔ ATUAL NÃO MEXE COM A DELE

O mato-grossense David Cardoso encarna como poucos a estrofe de abertura de Mulheres de Martinho da Vila: Já tive mulheres/ De todas as cores/ De todas idades/ De muitos amores. Durante seus 34 de cinema o ator, diretor e produtor celebrizou-se como o maior astro das pornochanchadas e conheceu – no sentido bíblico – algumas das maiores musas do Brasil, como Matilde Mastrangi e Nicole Puzzi. “Nunca na minha vida eu falei pra uma mulher; ‘Transa comigo que o papel é seu’. Comi a maioria mas nunca desse jeito. Elas queriam dar e eu queria comer”, diz.

Apesar de ter estrelado nos populares filmes de Mazzaropi, ter estrelado o clássico Noite Vazia de Walter Hugo Khouri, e em novelas da Globo e da Bandeirantes, David ficou conhecido como o astro das pornochanchadas. Segundo ele, que já participou de mais de 60 filmes nas mais diversas funções (“eu só não fui maquiador”, diz), os seus filmes faziam sucesso por que mexiam com a cabeça do povão. Em entrevista exclusiva a ELEELA, David fala sobre sua trajetória, o estado atual do cinema brasileiro (explícito ou não), polemiza com os atuais padrões de beleza e de quebra ainda narra suas aventuras.

Por que você ficou tão marcado com o cinema da Boca do Lixo?
Eu apareci mais porque era produtor, diretor e ator. Além disso, eu saía do filme e ia trabalhar como jurado no programa do Sílvio Santos, do Raul Gil. O Galante e o Massaini foram muito importantes, mas só trabalhavam na produção. Eu havia feito Cara a Cara com a Fernanda Montenegro na TV Bandeirantes e O Homem Proibido na Globo. O Mazzaropi dizia pra eu não fazer televisão não: “Cardoso, não faz televisão não rapaz. O povo enjoa da sua carta. Quem é que vai pagar ingresso para te assistir depois?”.

Como você foi trabalhar com cinema?
Quando eu era estudante de Direito, em São Paulo, eu contei queria trabalhar em cinema pra um cara no meu trabalho. Ele conhecia o Mazzaropi e fez um bilhete me apresentando a ele. Eu não dormi nessa noite, era louco por cinema. Cheguei lá no largo do Paissandu, fui entrevistado, contratado e aprendi a ser continuísta em O Lamparina, produção de Mazzaropi e direção de Glauco Laurelli. Depois de 45 dias de filmagem, larguei a faculdade. Meu segundo filme foi Noite Vazia, do Walter Hugo Khouri, como continuísta e ator, contracenando com Odete Lara e Norma Benguell. São dois diretores completamente diferentes, aprendi muito com os dois e com muitos outros. Só não fui maquiador, o resto eu fiz de tudo em cinema.

Quando você começou a trabalhar como diretor?
Demorou um pouco. Eu tinha receio. O primeiro filme que produzi foi em 1974, chamava-se Caçada Sangrenta e eu chamei o Ozualdo Candeias para dirigir. O Candeias era um diretor genial. Eu havia trabalhado com ele em A Herança, um Hamlet brasileiro. Ele fazia um cinema diferente, hermético.

E por que você nunca atuou em filmes do Mazzaropi? Você só trabalhou como técnico, para ele, não foi?
Um dia eu cheguei pra ele e disse: “Mazza, por que você não me chama pra ser galã num filme seu?”. Daí ele responde: “Cardoso, você só não é galã porque não quer. É só ir á noite na minha cama, não tem erro”. Não tinha condições. O homem era mais feio que duplicata vencida. Era um gênio, nunca vai haver outro cara como ele no Brasil mais. Eu hoje coloco ao lado do Charles Chaplin, do Jerry Lewis e do Cantinflas. Mas vá ser feio...

Como você saiu do Mazzaropi para as pornochanchadas?
Eu via as comédias picantes italianas, mas não tenho muita noção de como foi essa minha transformação. Eu vi que todo mundo era punheteiro, queria ver mulher pelada e bonita. Então comecei a procurar. Aí foi Helena Ramos, Matilde Mastrangi, Zilda Mayo, Nicoli Saline que virou Nicole Puzzi, Vera Fischer. Eu lancei todas elas.

E os filmes com elas eram sucessos tremendos...
Modéstia a parte, eu conseguia deixar o público louco de tesão dentro do cinema. Vou descrever uma cena pra você. Não tinha sexo explícito. Eu encontro com a Matilde Mastrangi numa festa de milionários. Saiu num puta carrão e ouço ela falar: “Meu carro tá quebrado”. E eu: “Também não, mas não faz mal eu te dar uma carona, eu moro no Morumbi”. Cinco e meia da manhã, a gente no Morumbi vendo São Paulo do mirante, ela num puta traje a rigor e eu de smoking, e eu apareço com o primeiro agrado, um beijo e corta pra dentro do apartamento. Eu falo: “Espera um pouquinho que eu vou trazer um presente pra você, eu não te conheço, mas gostaria que você viesse aqui”, e dou a caixa pra ela. Corta já pro quarto, ela tomando banho nuazinha, de costas, aparecia o seio, ela abre a caixa, dá um close na cara sacana dela, ai abrindo a câmera e mostra um hábito, de freira. Porque minha tara era comer uma freira. Aí ponho a cabeça embaixo do hábito e ninguém vê, mas sabe que eu tô chupando a perereca dela. E você só vê a expressão dela. Aí, eu me debruço em cima da mesa, tinha um uísque de boca larga, o líquido fica balançando. Eu por trás, transando com ela, só encostado, mas parecia que eu estava fazendo sexo anal. A cabeça dela vai indo pra frente, ela destampa a garrafa e põe na boca e o líquido vem vindo, parece é minha porra, e ela diz que tá gozando. O camarada fica louco, tocando bronha no cinema.

Se você voltasse a filmar, o que faria?
Rodaria uma história no Pantanal. Eu faria um capataz chucro da fazenda. O filme contraria a história de quatro francesas – três mulheres e um travesti – que vêm para o Brasil negociar uma fazenda, e eu transo as três e o travesti. Isso tudo com uma história cheia de cenas bonitas. Mas eu desanimo quando vejo filmes sendo vendidos a R$ 2,00, antes de chegar ao cinema, como aconteceu com esse Tropa de Elite. Devia haver um mecanismo para coibir esse tipo de coisa. Tem ainda uma meia dúzia de pessoas beneficiadas com essas leis de incentivo, cheia de brechas para caixa dois de empresário e produtor mal-intencionado. Por isso eu acabo acompanhando pouco a produção atual.

Uma de suas últimas produções é sobre Aids...
Eu fui o primeiro produtor, diretor e ator a fazer um filme sobre isso. Foi quando o Rock Hudson morreu. Perdi US$ 200 mil, foi um tombo, ninguém ia ao cinema para assistir. Foi bem nessa época que a gente perdeu pro sexo real. Sexo explícito eu nunca fiz. Eu sempre coloquei isso: pornográfico, eu? Pornográfica é a TV brasileira, que eu abomino. Eles (da TV) não gostam de mim porque falo demais.

E você acompanha a produção pornô brasileira?
Há anos não assisto nada disso. Eu já entrei como produtor em três filmes de sexo explícito. Não vi o filme do Frota, nem da Rita Cadillac. Eu não tenho motivação nenhuma pra isso. Há 18 anos eu poderia ter continuado, mas meus interesses eram outros. O que eu acho errado são as pessoas que renegam o que fizeram, como a Xuxa.

Você viveu a época da liberação sexual. Como você vê a situação do sexo nos dias de hoje?
Eu acho que banalizou demais. Há 25 anos atrás, só tinha filme com peito e bunda de mulher, não podia aparecer a parte da frente. Hoje, pornô é aquela coisa: dois caras comendo a mesma mulher, uma outra chupando, já começa com um bacanal. Não leva o sujeito a fantasiar, a criar uma imagem na cabeça dele. Tanto é que todo mundo pega o vídeo e fica correndo as cenas. Ninguém assiste nada do filme, é só o visual mesmo e pronto. Na época da pornochanchada, a Matilde Mastrangi fez um desfile no Gallery (a boate), e leiloou a calcinha dela. Foi um escândalo na época. Hoje qualquer uma faz. O pessoal posa pelado de perna aberta, socialites e atrizes globais, aí quando vão entrevistar elas falam: ‘Não, isso aí foi o Duran que fez, é um ensaio fotográfico’. Mas que ensaio? Perereca é perereca, cara, pau duro é pau duro! Punheteiro vai querer saber quem é Duran? ‘Não, mas eu fotografei na África’. Não importa, aí em Moema mesmo faz, em Guarulhos, o punheteiro não quer saber disso! Você pega dez camaradas e fala: “Você quer comer quem? A miss Brasil, essa que ganhou segundo lugar no Miss Universo ou a Giselle Budchen”. Nove entre dez vão querer a miss. Quem é que quer comer osso? Isso é onda que vocês (imprensa) fazem. A modelo é mais magra que não sei o que. Não sei como o Leonardo Di Caprio comeu um trem daquele.

E as suas mudanças com a idade?
Eu nunca fumei, nunca usei drogas. Eu bebo todo dia, duas, três doses de uísque, umas cervejas. Mas cinco da manhã já tô de pé, tomo meu chimarrão com ervas, e faço uma hora de esporte. Antigamente eu dava três, hoje dou uma. Fazia supino com 100 (quilos), hoje faço com 80. Mas hoje é outra coisa. Eu vejo meu filho. Ele nem tem pra que sair. Pra que? Ele pega o telefone e liga, elas vem e ainda trazem uma pizza. É só você ter grana, ser boa pinta.


Publicado originalmente na edição 431 da revista Ele Ela em novembro de 2007

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

A atriz da Boca Vanessa Alves lança biografia e relembra trabalhos no cinema

A atriz Vanessa Alves colecionou diversas histórias dentro de sua carreira. Foi musa do cinema da Boca do Lixo, recebeu prêmio no festival de Gramado e participou de mais de 35 longas-metragens nacionais. "O problema é que muitos desses filmes mudavam de nome. Eu recebi o roteiro de Fuga na Selva que acabou sendo lançado como Curral de Mulheres", lembra, rindo.

Um dos destaques da carreira de Vanessa é sua parceria com o cineasta Carlos Reichenbach (1945-2012). Eles fizeram cinco filmes juntos. "Inicialmente, ela veio como exigência do produtor Antonio Polo Galante", afirma Eduardo Aguilar, que foi assistente de Reichenbach durante anos. "Mas depois ela acabou ganhando o Carlão. No set de filmagem, a Vanessa era extremamente profissional: calma, tranquila e dedicada".

Parte das histórias da atriz e do realizador está no livro Vanessa Alves - coletânea de imagens e palavras que será lançado hoje (dia 14) pela Editora Laços. A obra foi organizada pelo produtor cultural Rafael Spaca e conta parte expressiva do cinema paulista nas últimas décadas. VICE conversou com a musa sobre sua carreira.

VICE: Como você começou no cinema?
Vanessa Alves: Recebi um convite de uma agência de atores e modelos para um teste. Era para um produtor que estava começando um filme, e precisavam de uma moça nova. Fiquei na dúvida se ia ou não ia porque o escritório era na Rua do Triunfo [centro de São Paulo], que tinha má fama. Acabei indo, e foi lá que eu conheci o [Antônio Polo] Galante [produtor de cinema]. Ele me pediu para voltar outro dia pra fazer um teste e levar um biquíni. O teste era botar o biquíni e desfilar. Eu desfilei, e ele me disse que eu estava aprovada pra fazer A Filha de Emmanuelle. Eu ia fazer um papel secundário.
Alguns dias depois, o Galante me ligou dizendo que a atriz principal tinha sofrido um acidente ou ficado doente. E perguntou se eu topava fazer o papel principal. Acabei topando.

Do que você se lembra nesse primeiro trabalho?
O Galante era muito inteligente pra títulos. Já tinha a série internacional da Emmanuelle com a Sylvia Kristel. Então, ele fez [o filme] com esse título pra chamar atenção do público. Acabou dando certo, porque foi uma superbilheteria.
Esse filme teve direção do Osvaldo de Oliveira [cineasta e diretor de fotografia conhecido pelo apelido de Carcaça]. Todo mundo falava: "Cuidado com ele. Ele é muito bravo". Já fui morrendo de medo, tanto que, um dia antes de começar[em] as filmagens, me recomendaram tomar um remédio pra ficar relaxada. Aí a idiota aqui foi, comprou e tomou. No dia seguinte, acordei mal e fiquei com uma sensação estranha. Parecia que eu estava pisando nas nuvens. Porque eu nunca tinha tomado remédio pra nada – e até hoje não sou de ficar tomando remédio. Mas foi tudo ótimo, e não tenho nada para falar mal do Carcaça. Não sei se foi sorte ou dedicação, mas me dei muito bem com ele.

Como você conheceu pessoalmente o Carlos Reichenbach?
Não lembro. Acho que foi alguém da parte da produção que nos apresentou: "Esse é o Carlão, diretor do filme e autor do roteiro. Vocês começam a filmar dia tal". Pode ter sido o Galante. Mas eu nem sabia quem era o Carlão. Pra mim, ele era outro diretor da Boca. Nem imaginava que íamos trabalhar juntos tantas vezes. O nosso primeiro trabalho foi Paraíso Proibido, que foi meu segundo longa-metragem.

Como era ele no set? 
Ele era um amor de pessoa. Nunca vi o Carlão elevando a voz, sempre ele ficava torcendo pelo bom desempenho de todos. Vibrava com os atores, e o jeito dele fazia todo mundo trabalhar melhor. Inclusive a equipe técnica. Na época da Boca, não tinha muito ensaio. Você recebia o roteiro, decorava e fazia. Mas o Carlão era um doce no set.


Filme Demência é tido como a obra mais radical do Carlão. Você consegue se lembrar de algo que seja diferente nesse trabalho?
Não. Meu papel era bem pequeno. Fizemos algumas cenas na estrada: [era] uma externa, eu pedindo carona. Era uma participação pequena, tanto que todas as minhas cenas foram rodadas no mesmo dia. Mas era muito engraçado eu contracenar com o Ênio [Gonçalves, ator]. Porque eu era muito tímida e ele também.
Lembro[-me] da gente indo para o set de filmagem numa Kombi. Ele ficava num canto lendo um livro e eu no outro canto do automóvel. Podíamos ficar horas sem trocar uma única palavra. O Carlão dizia que eu era a versão feminina do Ênio e que éramos os atores preferidos dele. Vai ver isso acontecia porque nós dois somos virginianos. Mas o Ênio era excelente ator e uma pessoa maravilhosa.


Você trabalhou diversas vezes com o Reichenbach. Parece que existia um respeito muito grande entre vocês, certo?              
Sim. Aliás, não só com o Carlão como [também com] todos os diretores com quem trabalhei. E o Reichenbach respeitava todo mundo, cuidava de todas as atrizes. Muitas vezes, elenco e equipe técnica acabavam virando uma família. Isso porque todo mundo ficava hospedado na mesma locação. Aí quando acabava o filme era uma choradeira danada. Você chorava e abraçava todo mundo porque você não ia encontrar mais aquele pessoal. Isso acontecia muito.

Você ganhou o prêmio de melhor atriz coadjuvante no Festival de Gramado por Anjos do Arrabalde. Como foi isso?
Eu estava voltando do Paraguai, onde tinha participado de um filme chamado Corruptores. Lembro que cheguei em São Paulo e, no dia seguinte, fui para Gramado. Quando anunciaram, foi uma surpresa muito grande – eu não esperava. Estava concorrendo contra grandes atrizes como a Marília Pêra. Sei que eu estava usando óculos de grau durante a premiação. Na hora, eu abracei tanta gente que os óculos entortaram. Mas eu não acreditava, foi muito emocionante. Lembro que foi um ano que não tinha prêmio em dinheiro. Ganhei só o troféu, mas pra mim aquilo foi ótimo. Depois, com o Anjos, também ganhei o prêmio Governador do Estado (concedido pelo jornal O Estado de São Paulo).

A minha personagem fala pouco no filme. Não tem grandes diálogos, não tem grandes coisas. Por isso, acho que o mérito do prêmio é todo do Carlão. Ele que escreveu o roteiro e fez a minha personagem aparecer dessa maneira.

Você teve um papel pequeno num filme do Walter Hugo Khouri (Amor Estranho Amor). Como foi isso?
Foi quase uma figuração de luxo. Eu fazia uma garota que trabalhava no prostíbulo. Nem sei se ele tirou uma cena que rodaram minha sapateando. Foi no estúdio da Álamo que dublei essa cena do sapateado e me esforcei muito para ela sair perfeita.
Agora, esse filme tinha a Vera Fischer como protagonista. A gente começava a rodar sete horas da manhã. E ela estava toda produzida: uma mulher linda, com aquela pele maravilhosa. A Xuxa era muito bonita também, lembro[-me] do Pelé aparecer com ela no set. Esse filme tinha muitos bons atores: Tarcísio [Meira], Mauro [Mendonça]. Todos muito educados, e o Khouri era um verdadeiro gentleman. Não importava se era eu, a figurante mais figurante ou a Vera. Ele tratava todo mundo igual. Sempre com uma delicadeza que fazia você se sentir a mais bela de todas, a melhor atriz de todas. O Khouri era muito educado e um superdiretor.

O que você viu de diferente em trabalhar com o Khouri?
A produção. Tudo era muito bem cuidado. No set, não tinha só café e água como na maioria dos filmes da Boca. Tinha frutas, biscoitinhos, queijinhos. Do comportamento do Khouri, o que mais marcou foi a gentileza e a educação dele com todos. Até porque as filmagens com a minha personagem duraram uma semana somente.

Você chegou a trabalhar com o Fauzi Mansur também?
Sim. Foi o único filme de terror que eu fiz na minha carreira: Ritual da Morte. Produção toda rodada no Teatro São Pedro, um teatro que estava um pouco abandonado. Eram várias cenas com aquele sangue artificial... sei que minha participação foi pequena. O engraçado foi que esse filme era todo falado em inglês. Até hoje, eu não falo inglês, mas tinha um professor que ajudava a decorar a fala. Então, a gente decorava e ficava um inglês bem tosco, né? Eu devo ter sido dublada em inglês por outra pessoa.

O que a Boca significou na sua trajetória?
Significou o início de tudo. Eu tenho certeza [de] que cheguei aonde cheguei por causa da Boca. Eu mesma sabia que existia a Rua do Triunfo e se fazia cinema lá. Mas abriram essa oportunidade de trabalho, e eu acho que devo tudo à Boca. Depois da Boca que eu fui fazer teatro e alguma coisa na televisão. Novela, a única que eu fiz foiAntônio Alves, o Taxista, no SBT; fiz muito programa de humor, teleteatro na TV Cultura. Mas fiquei mais conhecida pelo cinema mesmo.

Sua carreira no teatro e na TV não foi tão marcante. Você acha que isso aconteceu por você ter trabalhado na Boca?
Eu acho que não. Acho que eu mesma não corri atrás. Teatro, se eu quisesse, estaria fazendo até hoje. Minha última peça foi Sete Vidas, do Paulo Goulart, em 1997. Mas depois entrei de cabeça na área de dublagem. Comecei dublando e hoje sou diretora da área. Enquanto eu só dublava, dava pra conciliar com teatro. Mas depois, não. Eu nunca fui atrás, e também não vieram muito atrás de mim. Então, foi uma coisa que, se eu tivesse procurado e batalhado, poderia ter sido diferente. Mas eu nunca fui atrás.

Foi pela sua timidez, talvez?
Não. Sempre achei o meio de televisão meio desgastante, muito diferente de teatro ou filme. Eu já fui tirada de uma novela por causa de um produtor. Isso quando meu nome tinha aparecido no jornal e estava confirmado que eu iria fazer esse trabalho.


Então, o meio de televisão era mais predatório que o da Boca?
Muito mais. Pelo menos, pra mim, foi.