sábado, 16 de outubro de 2010

Gigantes do Jornalismo Esportivo: Sílvio Luiz


“Espécie de Brancaleone, com o dom da graça cáustica e impiedosa, ele vai marcando seus gols no Ibope. Virou ídolo do futebol sem nunca ter chutado uma bola”.

Por Ronaldo Hein

Sevilha, junho de 1982. Os hóspedes do quinto andar do Hotel Colón, por pura sorte, ou azar, acabam de perder uma cena insólita. No fundo do corredor, um jornalista brasileiro foi abandonado, completamente nu, ainda úmido de seu banho. Puxaram-lhe a toalha, fecharam-lhe a porta do quarto e lá ficou o jornalista, coitado, gritando socorro e rezando para que o elevador não se abrisse num flagrante dramático.

Personagem do episódio: Sílvio Luiz Peres de Souza, 46 anos de idade, diretor de esportes da Rede Record de Televisão, o locutor esportivo mais irrequieto, agressivo, polêmico – e engraçado- do Brasil. Caso típico do feitiço contra o feiticeiro. O incansável Sílvio Luiz havia idealizado a peça contra um companheiro de equipe. Só que a vítima, transformou-se em algoz.

Santo, sagrado bom humor. Remédio impecável para as tensões que, naquela exata circunstância, ameaçavam explodir nas estranhas do narrador da Record. Meros cinco minutos antes escutara-se um chamado na sala das canganchas, o estúdio que a pequena mas brava trupe da Record, o brancaleônico exército enviado à Espanha para enfrentar a superfrota multiestelar da Rede Globo, instalara improvisamente num dos aposentos do Colón. Meros cinco minutos antes de uma voz proveniente de São Paulo pedia a presença de Sílvio Luiz. O patrão, Paulo Machado de Carvalho Filho, o Paulinho herdeiro do velho Marechal da Vitória, queria comunicar como andavam as coisas na matriz – os números do Ibope.

Todo o planeta se lembra que a Globo apoderou-se da exclusividade das transmissões da Copa da Espanha. Como vencer tão pedante barreira? Com seu tradicional pendor para o improviso, Sílvio Luiz armou um esquema tão ousado como maluco. Irradiaria as partidas do mundial através das ondas sonoras da Rádio Record. Naquela base: “Fique de olho na TV e os ouvidos ligados na Rádio Record”.

Poderia ser um fracasso. Quem sabe o fim irremediável de um bom período de sucesso, mais um dos curtos e intermitentes estágios de notoriedade de Sílvio Luiz conhecera em toda a sua carreira. Os números, todavia, apontaram o rumo contrário. De fato os brasileiros estavam cortando o som de seus televisores e fazendo funcionar seus aparelhos de rádio. Melhor: mesmo quem não possuía vídeo algum ao seu alcance depositava suas preferências na voz de Sílvio Luiz, uma audiência bem superior à arrebanhada pelos famosos medalhões do dial.

Sílvio Luiz recebeu as notícias nu em pelo, vestido somente com os fones que lhe passavam as informações de São Paulo. O baixinho invocado, comprador das brigas mais baratas, depois de trinta anos de batalhas nem sempre gloriosas, o baixinho que já fizera de tudo na vida – “menos ser motor de popa e asa de avião” – enfim desembarcava, pelado e comovido, no seu momento de apogeu.

Que diferença do cidadão cabeludo e mal-ajambrado que meia década antes fora apertado contra a parede por um dos dirigentes da Record: “Ou você corta essas melenas e se arruma um pouco, ou não vai dar”. A Record vivia uma crise de dinheiro e de talento. Sílvio Luiz era o seu chefe de produção mas, no fim das contas, não tinha condições de produzir absolutamente nada. Gastava seu tempo com uma eterna mania: colecionar lápis e canetinhas coloridos e desenhar mapas e preencher formulários, cartesianamente, em várias tonalidades, para facilitar a compreensão. Sem locutor, a casa decidiu recorrer à solução mais próxima e mais barata. Transmitiram os jogos de futebol, alternadamente, Sílvio Luiz e outro veterano e experiente profissional, Hélio Ansaldo. Além disso, para fixar as imagens da dupla, Sílvio e Hélio apareciam à noite, num programa chamado Jornal da Noite, fazendo pequenos comentários cotidianos. Sílvio podou a cabeleira, comprou um par de camisas novas, paletós da moda. Fez-se um sorteio para escolher quem iria inaugurar o revezamento. Ganhou Sílvio Luiz. Em pouco tempo o próprio Hélio Ansaldo concordaria: “O Sílvio vai estourar como narrador. Chega de trocas. Eu fico só com os comentários”.

Começava a implantar-se um estilo guerrilheiro e capaz de solapar as tradicionais, avassaladoras lideranças da Rede Globo. Um estilo forjado partida a partida, chute a chute, um estilo sem rótulos e etiquetas convencionais. Sílvio Luiz, digamos assim, transmite futebol como o torcedor da arquibancada faria – se tivesse um microfone ao alcance da boca, se possuísse o dom da graça cáustica e impiedosa.

Sílvio Luiz não perdoa ninguém. Paulo Isidoro virou Torresmo. Serginho tornou-se o Chulapa. O cartola José Ferreira Pinto, que numa ocasião tentou subornar o árbitro Sílvio Luiz (isso mesmo, o nosso herói foi até juz de futebol), ganhou a alcunha de Anão de Jardim, uma homenagem deliciosa às suas dimensões especialmente avantajadas na horizontal e nada generosas na vertical. O comentarista Pedro Luiz, que sucedeu Hélio Ansaldo no esporte da Record, transformou-se no Lorde, conseqüência de seus modos solenes – e inúmeras vezes, enquanto explicava uma modificação tática fatal, teve sua palavra cortada por perguntas do tipo: “Como é Lorde, você deu ou não deu um tapa na aranha?”.

Aos poucos a Record foi descobrindo que o público se interessava muito mais pelas piadas de Sílvio Luiz, por seu comportamento escrachado, do que pelas análises de cada partida. Sílvio Luiz ampliou seus alvos. Para combater a politicagem na Federação Paulista de Futebol candidatou-se, debochadamente, à sua presidência – marchou até o recinto da votação de fraque e encarapitado numa charrete. Passou a ironizar a concorrência, a própria imprensa. Nas suas irradiações noturnas faz questão de soletrar os nomes de certos jogadores “para que o pessoal das redações, que escreve suas matérias via TV, não publique nada errado no dia seguinte”. Sílvio Luiz cunhou frases e expressões que qualquer garotinho de curso primário repete com prazer, desde o “pelo amor dos meus filhinhos” até o “inhaca” – utilizado para afugentar a desgraça nos momentos de maior perigo frente ao gol da seleção nacional.

A platéia adora. Além de freqüentemente bater os ibopes globais, Sílvio Luiz recebe caixotes de cartas por semana – especialmente aquelas que chegam acompanhadas de uma fotografia, de um selo para a resposta, e que pedem uma charge do missivista, assinada por Dino, o ilustrador exclusivo da TV Record. Nem todas as pessoas, entretanto, apreciam com a devida tolerância o caráter despachado do narrador. Quando o Lorde saiu da Record, cerca de oito meses atrás, Sílvio convidou Oswaldo Brandão, ex-treinador de vários times e da seleção, para ocupar o lugar de comentarista. Brandão, conservador e mal-humorado, agüentou até uma jornada em que o locutor, no encerramento de um jogo, diante das câmeras, montou em suas costas sexagenárias e disse, com a inflexão vampiresca que a situação exigia: “Se esconde aí, maestro, porque daqui a pouco tem a Sessão Terror, no Canal 7”.

Sílvio Luiz não possui censuras. Tudo o que diz e faz brota de forma absolutamente natural, como se o mundo fosse acabar no instante seguinte e ele precisasse cometer ao menos uma derradeira anedota. Já era assim no passado, anos 60, quando Carlos Manga, diretor de cinema, de shows, homem de publicidade, chamou-o a fazer parte do corpo de entrevistadores de um programa de enorme audiência, o Quem Tem Medo da Verdade, sempre na Record. Por ser habitualmente desbocado, caberia a Sílvio Luiz, no programa, o papel do vilão áspero e patrulheiro. Uma experiência amarga. Sílvio precisava do cachê, duzentos cruzeiros – e em troca ganhou a imagem de calhorda, grosso e imbecil. Sua mãe, a pioneira radialista Elisabeth Darcy, conta que chorava sempre que assistia o filho fazer perguntas impertinentes a gente como Leila Diniz, que aliás também desabou em prantos com as cobranças do rapaz. Sua mulher, Márcia, a excelente cantora de Eu e a Brisa, composição de Johnny Alf que a consagrou num dos festivais da Record, recorda que era abordada na feira por donas-de-casa perplexas: “Mas a senhora tem mesmo coragem de conviver com um animal como o Sílvio Luiz?”.

Infelizmente para Sílvio Luiz, que ironia, o Quem Tem Medo de Verdade chegou a atingir picos de 90% de audiência. A imagem de cafajeste pegou. E Sílvio Luiz, na tentativa de se livrar da pecha, teve de enfrentar um bom punhado de anos na mais frígida geladeira.

O ostracismo. Não foi uma experiência nova para quem já fizera de tudo no rádio e na televisão do País. Sim, de tudo, sem exceções. Sua mãe, entronizada duas décadas antes como a primeira locutora de rádio do Brasil, ensinou-lhe as minúcias do métier. E, adolescente, Sílvio Luiz ganhou um empreguinho de ator de novelas na São Paulo, a dona do mercado na ocasião. “Minha entrada era marcante”, ele relembra com cinismo especial. “Num determinado momento eu dizia: ‘Uma careta para o senhor’. E ia embora, missão cumprida.”

Quando Elisabeth Darcy transferiu-se para a extinta TV Paulista, Canal 5, em meados dos anos 50, o garoto acompanhou sua mamãe. Evidentemente, faltava pessoal à emissora. Era preciso improvisar. E Sílvio Luiz acabou transformado em Jacob, o judeu da prestação, debaixo de quilos de maquilagem e com um sotaque qualquer, recolhido do fundo do baú, no teleteatro Sinhá das Dores, de um certo Cardoso Silva.

De fato, estar na televisão, naqueles tempos longínquos, significava ser polivalente – no sentido das habilidades e também da coragem. Não existia o vídeo-teipe. E por isso não podia haver enganos. Todos tinham de aprender a labutar na frente e atrás das câmeras. Sílvio Luiz praticamente morava nos estúdios da Paulista. Diariamente lhe arrumava um servicinho diferente. Puxava cabo, soldava fiação, trocava lâmpadas – e nas horas vagas, nas tardes de terças e quintas, começou a virar locutor esportivo. Futebol, basquete? Nada disso. O meninão transmitia, mesmo, estranhas peripécias animais, matungos puxando exóticas bigas, as corridas de trote que a Paulista tinha a coragem de mostrar aos desocupados de plantão. Sílvio não entendia nada de fascinante modalidade. Ao menos, porém, sabia como tratar o “sorvete”, o microfone que, naqueles tempos heróicos, ostentava as dimensões mais absurdas que algum técnico em transistor possa hoje imaginar.

A prática que adquiriu no trote logo lhe assegurou um lugar de repórter de campo na equipe futebolística da Paulista. Insinuante, agressivo, Sílvio Luiz começou a chamar a atenção de outros patrões. E apenas dezessete dias depois de inaugurada a TV Record, mudou de emprego – e foi formar com Raul Tabajara, Paulo Planet Buarque e Flávio Iazetti uma eficientíssima, inesquecível trupe, uma das melhores que a Nação já viu e escutou.

Delicioso período, aquele. O repórter de campo carregava um vistoso equipamento sem fio, o microfone volante, sem retorno, quer dizer, sem escuta. Só entrava em ação depois de levantar o polegar e receber, da cabina localizada trinta, quarenta metros acima, no estádio do Pacaembu, a necessária permissão do locutor titular. Resultado: o cenário ficou negro, certo domingo, quando Sílvio Luiz, devidamente autorizado, encostou sua latinha nos lábios do irrequieto meia Luisinho, do Corinthians, que acabava de ser expulso no clássico contra a Portuguesa de Desportos. O jogador, sem pensar, desabafou: “Foi tudo culpa daquele gaveteiro filho de uma puta!”.

A Paulicéia moralista tremeu em seus alicerces. No dia seguinte, até a Câmara Municipal se notabilizou para aprovar um projeto que vedasse a existência dos repórteres de campo. Felizmente não houve qhorum.

Furão, briguento, Sílvio Luiz aproveitou-se do episódio para se valorizar como profissional competente. Entrevistou Getúlio Vargas no hipódromo da Cidade Jardim, em plena época do mar de lama, depois de muito chorar suas desafortunadas e de colocar seu emprego nas mãos do indevassável Gregório Fortunato, o guarda-costas do presidente. Fez a primeira transmissão Rio-São Paulo da história da televisão brasileira, exibindo-se, meio sem jeito, nas areias de Copacabana, conversando com os banhistas que comprovariam a façanha. Numa outra vez, João Mendonça Falcão, presidente da Federação Paulista de Futebol, proibiu os repórteres volantes de entrarem em campo. Sílvio não hesitou. Convenceu um par de jogadores amigos, Mauro Ramos de Oliveira e Alfredo Ramos, do São Paulo, a executarem por ele o trabalho. De novo, como no caso do palavrão de Luisinho, a medida foi cancelada.

Para melhor explicar os detalhes de cada jogo, decidiu fazer um curso de árbitro de futebol. Chegou a apitar inúmeras pelejas dos principais certames nacionais. “O que eu sofri, meu irmão, não foi escrito em evangelho nenhum”. Padeceu, pior ainda, a instabilidade da própria televisão nos anos 60. Depois de uma passagem pela Rádio Bandeirantes, tornou-se diretor de produção da TV Excelsior, apresentador de programas de rock, selecionar de imagens – encarregou-se, por exemplo, da mesa de switch no festival que Elis Regina ganhou com Arrastão, a antológica composição de Edu Lobo e Vinícius e Moraes.

Retornou à Record em 1965 para não mais sair, disposto a perpetrar o que lhe oferecessem – inclusive a vilania de Quem Tem Medo da Verdade. Já se casara com Márcia, premeditava a formação de uma família – hoje ampliada com os filhos Alexandre, André e Andréia. E, à sua maneira, continuou impiedoso. Só que, atualmente, assesta os seus exocets na direção de gente ou instituições bem mais poderosas do que a então frágil Leila Diniz. A Rede Globo, para citar apenas com objetivo saboroso.

Desde que Sílvio Luiz se tornou o locutor titular da Record as audiências da emissora não pararam de crescer. Em janeiro de 81, durante o Mundialito do Uruguai, as cabeças da Vênus Platinada literalmente entraram em pânico – com Pedro Luiz nos comentários e Flávio Prado, o “Frango”, nas reportagens, a Record assumiu o primeiro lugar nas preferências populares. Em resposta, a Globo se assenhoreou da exclusividade da cobertura da Copa da Espanha. E o repique da Record, e de Sílvio Luiz, já se sabe, apenas serviu para aumentar a rivalidade entre as duas empresas – e as audiências da Record.

São Paulo, 1983. Ídolo nacional, Sílvio Luiz anda às voltar com os múltiplos contratos publicitários que obteve graças à sua impressionante ascensão como locutor esportivo. E não são contratos mesquinhos. Quem trata com ele? Os principais executivos de firmas como a Volkswagen ou a Antárctica, sempre atentos a uma piadinha aqui, um lance de deboche ali, coisas que possam, posteriormente, repetir. As ruas das maiores cidades do País estão cobertas de outdoors com os retratos de Sílvio Luiz. Atestado de celebridade. Sua conta bancária subiu. Sua casa em Cotia mereceu uma gostosa reforma. A cada dia Sílvio Luiz desponta na Record com um relógio de pulso diferente, daqueles que produzem “até previsão do tempo”. Mas o menino que começou transmitindo trote na TV não mudou seu temperamento, seus modos. Permanece vestindo jeans e tênis e cuidando, meticulosamente, com suas canetinhas coloridas, da produção de suas próprias transmissões. “Você quer saber de um pormenor? Se me perguntarem a que altura estou voando, juro que não vou responder.” Entrelismo? Ás vezes Sílvio Luiz dá os seus berros, age como se estivesse na estratosfera do sucesso. Mas, como afirma o produtos executivo de esportes da Rede Record, o inesgotável Fábio Caetano, “ele é assim só na aparência”. De fato, a maior qualidade de Sílvio Luiz, sem dúvida, é saber brincar consigo mesmo.

“Frank Sinatra canta e a orquestra toca”, disse Sílvio Luiz, dia desses, à sua perplexa equipe. E quando todos pensavam que ele fosse oferecer uma exibição de pedantismo, entre gargalhadas saborosas Sílvio Luiz, razoavelmente afinado, desandou a cantar Strangers in the Night.

Publicado originalmente na Penthouse brasileira edição 06, em março de 1983, editora Grafipar.

2 comentários:

antonico disse...

Oi Matheus, beleza ? Ótima lembrança. Me recordo das transmissões do trio Silvio Luiz-Flavio Prado e Eli Coimbra de antigos campeonatos paulistas na TV.

Um episódio muito nebuloso que até hoje ficou mal contado foi a agressão física sofrida pelo Silvio Luiz por parte do Milton Neves.

David da Silva disse...

Vê só a coincidência, Matheus!
No sábado fui visitar meu velho amigo Moreira, 78 anos, ex-metalúrgico, ex-caminhoneiro, ex-garçom, ex-taxista, ex-músico e sapateiro recém-aposentado. Gastamos a tarde do sábado entre boas lembranças de belas canções.
Enquanto isto, o Silvio Luiz mandava ver na narração do jogo Sport x Coritiba. O Moreira me confessou ser fã de carteirinha do Silvio Luiz ("na emissora que ele for, eu vou atrás", disse-me ele às gargalhadas).
O Silvio Luiz tem o dom de dar tempero à mais sórdida partidinha de futebol, tranformando o jogo naquilo que ele realmente é: um entretenimento cheio de graça e mumunha e picardia na chuteira e na ponta da língua.