sábado, 30 de abril de 2016

O sucesso e a decadência de Raffaele Rossi



Por Ruy Martins Sanches

Com milhões no bolso, Raffaele Rossi estava realizado. Para alguns amigos, a fortuna reacendeu o brilho dos seus olhos azuis e a pele clara de seu rosto. Os passos acabrunhados que demonstrava ao caminhar pelas calçadas da Boca desapareceram. Livre do peso da responsabilidade de garantir o sustento da família, agora mais numerosa, Rossi era outro. Seu futuro também. Altivo, mas não orgulhoso. E mais próximo e mais compreensivo com aqueles que o procuravam. Francisco Cavalcanti, José Mojica Marins e João Manuel Baptista concordam – Raffaele Rossi deu a mão a muita gente depois que ficou rico. “Depois que o Mazzaropi morreu, ele ajudava muita gente que trabalhava na PAM”, diz Francisco Cavalcanti, produtor, diretor e ator de diversos filmes na Boca paulista.

Na companhia de Renata e do filho Eduardo, embarcou para a Itália meses após a confirmação de ser o número um na lista do cinema brasileiro. Finalmente proclamara sua independência! E a vontade de rever sua terra natal, sua humilde residência e os parentes e conhecidos da saudosa Sant´Arsenio foi a primeira das vontades que o dinheiro conseguido, depois de vencer tantos problemas e tantos preconceitos, pôde lhe proporcionar.

Quando voltou, o gênero pornô já fazia rotina da Boca do Lixo. Os exibidores não queriam outra coisa para mostrar. Sexo explícito era o que dava dinheiro, era o que mantinha as salas cheias, o lucro fácil. Então, com muito dinheiro no bolso, Rossi associou-se a Francisco Lucas, proprietário de dezenas de salas de exibição no centro de São Paulo, para a produção de dois pornôs: Império do Pecado e De Todas a Maneiras, ambos dirigidos por Marcelo Motta, em 1981 e 1983, respectivamente.

Com tempo para desfrutar os prazeres que a vida lhe negara até estourar na bilheteria com Coisas Eróticas, Rossi resolveu inovar. E investir numa antiga paixão: o futebol. Palmeirense e amigo de vários jogadores de futebol, alguns dos quais inclusive no financiamento de alguns de seus filmes, Rossi funda um clube de futsal- o Grêmio Recreativo Rossi. A sede era localizada em sua casa, no sítio que comprara em Embu-Guaçu, nas cercanias de São Paulo, e para onde se mudara com esposa e filhos logo após o estrondoso sucesso de seu filme. Rossi frequentemente excursionava com a equipe dentro e fora do Brasil e da qual faziam parte três jogadores paraguaios pertencentes à seleção vice-campeã mundial de futsal daquele país. E bancava as festas e banquetes que se seguiam após as vitórias ou as derrotas, tanto fazia. A essa altura a vida de Rossi era sempre uma celebração. Entre uma partida de futebol e outra, Rossi ainda realizou uma continuação de Coisas Eróticas, que chamou espertamente de Coisas Eróticas II (1984), obviamente a fim de capturar o mesmo público que havia lotado alguns anos antes as salas de exibição para ver aquele que é considerado o primeiro pornô nacional.

Com a maior parte das salas de exibição do país inundadas por produções de baixíssimo nível e a invasão de pornôs estrangeiros o sucesso de Rossi não continuou. Coisas Eróticas 2, mesmo contando com algumas estrelas da Boca como Jussara Calmon, Marília Nauê e o casal erótico Eliana e Walter Gabarron, não obteve o sucesso que ele esperava, registrando oficialmente pouco mais de 1,1 milhão de espectadores. Ainda assim ocupando a quinta maior bilheteria do ano. A rotina de voltar a competir com produtos semelhantes ao seu ameaçava sua competência de realizador novamente. Então, com a introdução do videocassete no mercado brasileiro, Rossi muda o foco e abre, em companhia dos filhos, sua própria distribuidora de vídeos, a fim de comercializar suas películas. A Rossi Vídeo também é responsável pelo lançamento comercial no país do filme Je vous salue, Marie (Jean-Luc Godard, 1985); meses depois perde a batalha judicial travada com os distribuidores americanos pela distribuição de outro título polêmico da década: A Última Tentação de Cristo (Martin Scorsese, 1988).

O prazer pelo futebol leva Rossi a associar-se na produção de A Pelada do Sexo (1985) de Mário Lúcio. Mesmo com o sexo explícito dentro de campo, o público não compareceu e o filme fracassou. Mas Rossi não é de desistir facilmente e tenta mais uma vez ainda com um filme igual aos outros. Em 1987, produz e dirige Gemidos e Sussurros. De novo um filme em episódios no qual trazia o nome da atriz Zaíra Bueno. E de novo um filme seu passara despercebido, como muitos outros produzidos na Boca do Lixo naquele ano. A competição com os filmes nacionais e estrangeiros do mesmo gênero, além da proliferação de locadoras de vídeos e dos videocassetes já instalados na sala de estar de milhares de lares brasileiros era árdua. O filão lucrativo que ele mesmo iniciara estava se esgotando, para desespero de muitos. E o pior: começara a trazer sérias preocupações aos realizadores que enxertavam seus filmes com cenas de sexo sem o consentimento dos envolvidos nas filmagens. (...)

Enquanto sua união com Maria Cândida desmoronava, Rossi ainda desfrutava das festas e das viagens que empreendia em companhia de seu time de futebol. Era o começo de seu amargo fim. E também o início daquela que é considerada a primeira indústria brasileira de filmes independentes, que fez o que pôde para manter-se na ativa até ser engolida pelo monstro que ele mesmo ajudara a criar. Raffaele Rossi morreu do mal de Alzheimer no dia 5 de novembro de 2007, na única propriedade que lhe restava, o seu pequeno sítio em Embu-Guaçu. Ao seu lado, naquele momento, estavam sua primeira esposa Davina, de quem nunca se separou oficialmente e dois de seus filhos – Rafael e Eduardo, além do caseiro Benedito.


Publicado originalmente na dissertação de mestrado O homem que calou a Boca: uma análise da obra de Raffaele Rossi de Ruy Martins Sanches defendida na Universidade Anhembi Morumbi em 2013.

Um comentário:

ADEMAR AMANCIO disse...

Devia ter aplicado melhor o dinheiro.A grana quando vem de montão...