segunda-feira, 9 de setembro de 2019

O JECA TORNOU NOSSO MAZZAROPI IMORTAL (revista Som do Sertão, 1981)



Circo, rádio, televisão e cinema: tudo isso ele fez com brilho e mereceu os elogios da crítica. De norte a sul, o Brasil inteiro vibrou com o seu Jeca.

O JECA TORNOU NOSSO MAZZAROPI IMORTAL



Quem o conheceu não vai esquece-lo jamais: era a imagem viva do nosso caipira. Mas mesmo as novas gerações aprenderão a amá-lo vendo os filmes que deixou.

Reportagem de Ézio Ribeiro

O segundo domingo do mês de junho, deste ano, dia 14, foi uma data triste para o Brasil inteiro: o corpo do comediante Amácio Mazzaropi estava sendo velado no Hospital Albert Einstein, em SP. Mazzaropi, como todos o conheciam, faleceu vítima de câncer na medula, aos 69 anos de idade.

Mas, como havia feito durante toda a sua vida, até a morte do comediante trouxe em seu bojo alegria misturada à tristeza: seus fãs, emocionados, puderam ver que só morreu a criatura e não o criador. Sua criação, a figura do Jeca, mais que nunca se tornou viva e, ele, imortal.

Como e quando o Jeca nasceu

Nascido em São Paulo, em 1912, Mazzaropi cresceu sem problemas. Estudou um pouco, mas a preguiça o impediu que terminasse o ginásio. E aos 15 anos, de tanto assistir peças caipiras no teatro – ele tinha fascínio pela dupla de atores Genésio e Sebastião de Arruda -, acabou indo parar nos bastidores. Então, sem que ele mesmo tenha sabido explicar o como e o porquê, acabou trabalhando no teatro, como pintor de cenários.

Isso foi só o comecinho: logo logo Mazzaropi trocava o pincel por roupas à moda caipira e ia para o interior, onde representava monólogos cômico-dramáticos. O sucesso foi imediato: ele fazia o público rir na mesma medida em que o fazia chorar. Mas o que ganhava – 25 mil réis por apresentação – mal dava para pagar as despesas de comida e estadia...

Mas a sorte estava do seu lado. Tão logo formou sua companhia, começou a ficar conhecido e a ganhar mais: não havia circo que não quisesse ter um show com Mazzaropi. E, daí para o rádio (a Tupi, SP, em 1946) e para a TV (o canal 6, no Rio, em 1950) foi um pulo.

O cinema veio em seguida, em 1952, como conclusão lógica do seu excelente trabalho. Abílio Pereira de Almeida, autor de peças para o Teatro Brasileiro de Comédia, ficou deslumbrado quando o viu num programa de televisão. Chamou-o para um teste e uma semana depois dirigia Mazzaropi em “Sai da Frente”, seu filme de estreia.

Foi com este filme que o Jeca nasceu: ele criou um tipo caipira, caboclão de roupas sujas e curtas, fala mansa e andar desajeitado, que passou a ser sua marca registrada pela vida afora.


O Carlitos brasileiro

Em 18 de carreira Mazzaropi fez 31 filmes e chegou a uma situação privilegiada dentro do cinema brasileiro.

Os cinemas, principalmente no interior, lotaram sempre que seu nome era anunciado.

O público sabia que, além do Jeca, ele era capaz de interpretar com perfeição tipos humanos com os quais a gente convive todos os dias: são magistrais suas interpretações de um patrão, de um motorista ou até mesmo de um milionário.

Querido pelo povo, a frase de um espectador ouvida quando da pré-estreia de “Uma Pistola Para Djeca” (este filme é de 1970 e marcou o Jubileu de Prata – 25 anos – de Mazzaropi como ator) dá bem a ideia de seu talento “-Ele é o Carlitos brasileiro!”. Talento que jamais será esquecido por quem o viu nos cinemas. E que continuará a ser prestigiado sempre que seus filmes voltarem às salas de exibição.



COMO FICA O CINEMA DE MAZZAROPI

Os fãs de Mazzaropi sabem que, já doente, ele escreveu outro roteiro e chegou a mandar construir os cenários de Maria Tomba Homem, o filme que tencionava fazer. A partir de sua perda, todos perguntam: qual o destino de sua obra? Com quem ficou a PAM Filmes, a empresa com a qual o comediante se tornou independente?

SERTÃO tem boas notícias sobre o assunto: a PAM hoje pertence a Péricles Moreira e a João Batista de Souza, filhos adotivos do comediante. E Péricles já decidiu continuar o trabalho do pai: “Nós vamos filmar. Para viver o personagem estamos buscando uma dupla caipira. Porque não queremos substituir Mazzaropi: ele foi e será único! Mas vamos dar continuidade ao que ele começou: temos uma produtora nas mãos, com tudo funcionando perfeitamente: estúdios, máquinas, filmes virgens e um legado de 24 produções de Mazzaropi que rendem o suficiente para mantermos tudo aberto, funcionando normalmente. A PAM não vai deixar de existir: ela tem que preservar a história e tudo que ele conseguiu conquistar em 34 anos que dedicou ao cinema”.

Além dos filhos adotivos, os antigos funcionários de Mazzaropi também tem uma pequena parcela na produtora e distribuidora: ele deixou em testamento para eles. O restante de sua fortuna – ele morreu rico – ficou para sua mãe, D. Clara Ferreira Mazzaropi, hoje com 90 anos de idade. Numa coisa todos concordam: “Mazzaropi se foi e deixou uma grande herança, que são seus filmes. Nós vamos procurar manter sua imagem viva enquanto for possível”.

Publicado originalmente na revista “Som do Sertão”, edição especial de Contigo, número 348-A, editora Abril.

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