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domingo, 2 de julho de 2023

50 Anos de São Marcos, parte III de IV: Leite para engordar o porco

Capítulo III: Leite para engordar o porco


 

Por Celso de Campos Júnior

 

Boca Juniors, na Argentina; Peñarol, no Uruguai; Audax Italiano, no Chile; Benfica, em Portugal – sem contar o Parma, da Itália, que sob suas asas foi transformado progressivamente de clube de província a uma das forças do futebol europeu nos anos 1990. Para a multinacional italiana Parmalat, o investimento em patrocínio esportivo, em especial no futebol, era parte da estratégia e do processo de conquista de mercados. Buscando ampliar sua presença no Brasil, onde operava desde 1977, a gigante do ramo alimentício propôs ao Palmeiras um ousado sistema de cogestão: investiria uma montanha de dinheiro para montar um supertime e participaria ativamente da administração do departamento de futebol do Verdão – obtendo de visibilidade do mercado nacional, e claro, embolsando os lucros da venda dos atletas trazidos por ela, porque ninguém é de ferro.

 

Apresentado no final de março e com duração de três anos, prevendo cifras que poderiam chegar à ordem de US$ 2,5 milhões por temporada, o acordo era uma dádiva. Tanto que, apesar de alguns terem esperneado contra a suposta perda de autonomia do clube, o contrato foi aprovado pela maioria esmagadora do conselho – 220 votos a favor e 6 contra.

 

A caneta do presidente Facchina assinou o documento em abril de 1992 e deu início a uma nova era no Palmeiras, marcada acima de tudo pela profissionalização do departamento de futebol. O amadorismo, marca registrada dos cartolas e verdadeiro câncer no Palestra, foi chutado para escanteio com a chegada de José Carlos Brunoro, novo diretor de esportes da Parmalat. Dono de uma carreira de sucesso no voleibol profissional, como jogador, treinador e dirigente da Pirelli/Santo André, Brunoro, na teoria, faria o meio de campo entre o clube e a empresa – na prática, entretanto, seria ele o mandachuva que definiria os rumos do futebol do alviverde, com inspiração nos modelos europeus de gestão.

 

Para modernizar o produto Palmeiras, a primeira medida da Parmalat seria alterar a embalagem – no caso, o uniforme. Assim, a camisa ganhou inéditas listras verticais brancas, o tradicional verde escuro foi desbotado até virar um verde claro e abriu-se um espacinho para o azul do logotipo da multinacional. Desenhado pela própria Parmalat e produzido pela Adidas, fornecedora de material esportivo do clube desde o final dos anos 1970, o manto chocou os conservadores e provocou, uma chiadeira generalizada. O maior dos crimes, contudo, foi cometido contra os indefesos goleiros palestrinos, obrigados a envergar uma camisa fúcsia (rosa, em bom português) com ombros amarelos e detalhes azuis na gola e nos braços. Foi com essa psicodélica indumentária que Carlos, Marcos, Sérgio – prata da casa que retornava um empréstimo ao Ceilândia, do Distrito Federal – e Ivan, o único dos encostados chamado para o clique, saíram na primeira foto oficial do elenco.

 

Feio ou bonito, o uniforme estrearia com o pé direito: vitória contra o Cruzeiro por 1 a 0 no Parque Antarctica, em 26 de abril de 1992, gol do atacante Paulo Sérgio. Entretanto, apesar de haver deixado as últimas colocações e subido para o décimo terceiro posto, o Verdão já não tinha aspirações no Brasileiro, que classificava apenas os oito primeiros para a fase seguinte. O negócio era já pensar no Campeonato Paulista, cujo pontapé inicial se daria em julho.

 

Nelsinho Batista estava garantido no comando, prova concreta da mudança de mentalidade no Palestra Itália. Ouriçada, a torcida já começava a especular quais seriam as primeiras contratações para o timaço que a Parmalat prometia montar no Palmeiras. Fernando Gamboa, quarto-zagueiro do Newells Old Boys da Argentina, Careca, centroavante do Napoli, e Roberto Carlos, lateral esquerdo revelação do União São João, eram nomes comentados no Jardim Suspenso.

 

Antes de qualquer um desses astros, porém, seria a primeira vez de o reserva Marcos estrear pelo clube – em um jogo que, embora escondido no rodapé da história palestrina, marcou a conquista do primeiríssimo troféu da era Palmeiras-Parmalat. Alguém lembra?

 

 

Oficialmente eliminado do Brasileiro da derrota para o Náutico no estádio dos Aflitos, no dia 11 de maio de 1992, o Palmeiras ainda teria dois compromissos pela competição nacional – mas o primeiro deles, contra o Atlético Paranaense, só aconteceria no dia 24. No fim de semana de folga, o clube resolveu marcar um amistoso contra a Esportiva de Guaratinguetá, visando começar a preparação para o Paulista e, claro, dar aquela reforçadinha no caixa. Nelsinho Batista não poupou ninguém e escalou força máxima para o duelo contra a Esportiva, que, sob o comando do técnico Benê Ramos, ex-preparador físico do lendário Osvaldo Brandão, fazia excelente campanha na segunda divisão, ponteando seu grupo.

 

Apenas no gol havia um desfalque: Carlos estava na Seleção, novamente convocado por Carlos Alberto Parreira para o amistoso contra a Inglaterra, em Wembley. Marcos e Sérgio disputavam a posição, e Nelsinho, durante a semana, fez um breve suspense antes de anunciar a escalação do menino de Oriente. O amistoso o estádio Dario Rodrigues Leite, então, ganhou ares de Copa do Mundo para o novato. “Preciso mostrar o serviço nesse amistoso para ganhas de vez a confiança do Nelsinho. Confio no meu futebol e sei que o meu dia vai chegar”, declarou, na véspera da partida, ao Diário Popular.

 

No dia 16 de maio, Marcos foi titular dos profissionais do Palmeiras pela primeira vez – e nem teve muito trabalho. Diante de 5.123 espectadores, o alviverde conseguiu impor seu jogo e marcou três gols ainda no primeiro tempo com Toninho, Marcinho e Edu Marangon. Na etapa final, depois de Nelsinho fazer quatro alterações, o Palmeiras diminuiu o ritmo e marcou só mais um, com Biro. O placar de 4 a 0 rendeu ao Verdão o Troféu Guaratinguetá, oferecido pelos organizadores e recebido com orgulho pelo capitão Toninho. Pouco mais de um mês depois da efetivação da parceria com a Parmalat, uma tacinha já chegava ao Palestra – não valia grande coisa, mas era, no mínimo, um bom prenúncio.

 

Com a sensação de dever cumprido, Marcos devolveu respeitosamente a vaga de titular a Carlos, que voltou festejado da terra da Rainha. No empate em 1 a 1 com a Inglaterra, o goleirão defendeu um pênalti de Gary Lineker e impediu o artilheiro da Copa de 1986 de igualar o recorde de Bobby Charlton, que anotou 49 gols pelo English Team – Lineker não conseguiria marcar mais nenhum tento pela seleção e encerraria a carreira com 48. Quem era mesmo o pé frio?

 

 

O Brasileiro acabou, o Paulista começou e os reforços arrasa-quarteirão ainda não havia aparecido. O mais famoso era o centroavante Sorato, herói do Vasco no título nacional de 1989, que entrou na vaga de Evair. De resto, nomes incógnitos como Edinho Baiano, adquirido do Joinville de Santa Catarina, e Jean Carlo, vindo do Matsubara do Paraná, desembarcaram no Parque Antarctica. José Carlos Brunoro, quase profético, pedia tranquilidade à torcida na Gazeta Esportiva de 27 de maio de 1922. “Meu trabalho será a médio prazo, dois anos, mas a curto prazo as coisas serão melhoradas. A torcida pode esperar”.

 

Naquele momento, a prioridade era a renovação do contrato do goleiro Carlos, que venceria no meio do ano. Uma proposta do futebol japonês fez a negociação se tornar uma novela mexicana, cujos capítulos eram acompanhados de perto pelos reservas Marcos e Sérgio, de olho na vaga. O final, porém, não foi dos mais felizes para os suplentes – Carlos ficou no alviverde. Para piorar, o Palmeiras anunciava a chegada de mais um goleiro. César, pirulão de 23 anos que já havia passado pelo Palestra em 1990. Manter quatro guarda-metas no elenco era um tanto quanto desnecessário. E a corda arrebentou do lado mais jovem. Marcos, com seus 18 anos, voltou a compor o elenco dos juniores.


Sorte da molecada: enquanto os profissionais ainda bateriam na trave naquele ano, o goleiro seria o porto seguro da equipe que comemoraria a conquista de um Campeonato Paulista – pondo fim a um jejum ainda mais longo no clube.

 

 

Sem vencer o Campeonato Paulista de Juniores há duas décadas, o Palmeiras contrataria Raul Pratali no início de 1993 para colocar ordem nas categorias de base. O ex-goleiro do Comercial de Ribeirão Preto teve de fazer uma legítima faxina no elenco dos juniores, dispensando atletas no limite da idade que não seriam aproveitados no profissional (muitos) e promovendo os destaques dos juvenis (poucos). Para completar o grupo, acionou sua rede de olheiros no interior e levou algumas promessas anônimas ao Palestra Itália. Também bateu de gente com o departamento amador para exigir a contratação de um preparador de goleiros, até então um luxo do time principal, atendido pelos serviços de Zé Mário. E conseguiu trazer para a função dos juniores um chapa de nome Carlos Pracidelli, recém-aposentado guarda-metas que fizera relativa fama defendendo o XV de Jaú e o Juventus nos anos 1980.

 

Assim, no peito e na raça, Raul Pratali montou um bom elenco, principalmente armou um excelente time. Na defesa, William, Moraes, Marcos Vicente e Ferreira; no meio-campo, Amaral, André, André Luiz e Fred; Juari e Magrão, assíduo frequentador da Seleção Brasileira de novos. De volta ao Verdinho, Marcos – conhecido nos juniores como Marcos Roberto – ganhou a posição do goleiro Marcelo, ajudando na boa campanha que levou o Palmeiras, em julho, à final do torneio, contra a Portuguesa, quando o placar já apontava 2 a 2, o alviverde teria, de novo, ficado pelo caminho.

 

A finalíssima foi disputada em 22 de julho de 1992, no Estádio Santa Cruz, em Ribeirão. Embora precisasse apenas de um empate para ficar com a taça, já que vencera o jogo de dia no Parque Antarctica por 2 a 1, o Palmeiras, honrando a tradição foi para a frente e abriu 3 a 2 já na primeira etapa, com dois de Magrão e um de Juari – Maurinho fez os dois gols do time da casa. No segundo tempo, Raul Pratali segurou a equipe, que neutralizou o Fogão e ainda esteve perto de anotar o quarto gol. Quando o juiz Paulo Roberto Garbi apitou o final do duelo, o Palmeiras derrubou sua primeira fila. Na volta a São Paulo, o elenco de juniores perfilou-se, orgulhoso, no gramado do estádio Palestra Itália para a foto oficial de campeão – com Marcos já envergando a nova camisa de goleiro, azul com detalhes em branco, criada pela Adidas depois que alguma alma sã finalmente percebeu que o rosa e o amarelo não combinavam muito com o clube.

 

O título trouxe uma responsabilidade extra para os juniores: vencer pela primeira vez o mais tradicional torneio nacional da categoria, a Copa São Paulo, em janeiro do ano seguinte. E a pressão era dobrada porque a equipe faria praticamente toda sua campanha em casa – sede do grupo D, o Parque Antarctica abrigaria os jogos do Palmeiras até as semifinais, caso a equipe lá chegasse. Como mandava a tradição, a finalíssima seria disputada no Pacaembu no dia do aniversário de São Paulo, 25 de janeiro.

 

Justificando a fama, os garotos de Raul Pratali fizeram bonito na primeira fase, batendo o Vitória da Bahia (2 a 0), o Atlético Mineiro (2 a 1) e o Paraná Clube (3 a 0). Na etapa seguinte, os adversários seriam Comercial de Ribeirão Preto, Matsubara e São Paulo, que perdera do Bahia e terminara em segundo no seu grupo. Os times se enfrentariam em um turno único, com o campeão classificado para a semifinal da Copinha. Logo de cara, o Verdinho pegou o Comercial, elo mais fraco da chave – e seguiu a sina do Verdão de tropeçar em equipes do interior. O empate em 1 a 1 colocou o Palmeiras atrás do São Paulo, que vencera o Matsubara. Assim, o alviverde era obrigado a triunfar no clássico do dia 17d e janeiro para seguir dependendo apenas de suas forças.


Entretanto, diante de um Palestra Itália lotado, o Tricolor do técnico Márcio Araújo, que tinha no elenco promessas como Pavão, André Luiz, Catê, Jamelli e o goleiro Rogério Ceni, de 17 anos, conseguiu segurar o campeão paulista. O empate de 1 a 1, gols de Sérgio Baresi e Fred, forçava o Verdinho a ganhar do Matsubara na última rodada e torcer por uma escorregada do rival contra o Comercial. “É duro depender de outro resultado como é o nosso caso, mas temos que fazer nossa parte e ver o que acontece”, declarou Marcos ao Diário Popular de 19 de janeiro. Realmente, de nada adiantou a vitória por 2 a 1 contra os paranaenses; o expressinho do São Paulo encaçapou 2 a 0 no Comercial e derrubou o invicto time de Raul Pratali do torneio, para desconsolo da nação palestrina.

 

O campeão? Estava escrito nas estrelas. A edição de número 24 do torneio pertencia ao Tricolor do Morumbi, que bateu o Corinthians por 4 a 3 na decisão e levantou sua primeira Copa São Paulo.

 

 

A boa campanha de Marcos nos juniores do Palmeira não passou despercebida pela comissão técnica da Confederação Brasileira de Futebol. Em 1992, o goleiro já havia sido convocado para os treinamentos com vista ao Sul-Americano de Juniores, classificatório para o Mundial da Austrália do ano seguinte, mas acabou cortado do grupo que embarcou para a Colômbia – um balde de água fria recebido justamente no dia do seu décimo nono aniversário, em 4 de agosto. Em 1993, porém, Marcos recebia novo chamado, agora para compor a Seleção Brasileira da categoria que excursionava pela Europa. O palmeirense vestiu pela primeira vez a amarelinha no II Festival internacional do Futebol Val´Action, na França, competição que o Brasil faturou passeando sobre os adversários: 6 a 1 na República Tcheca, 3 a 2 na Eslováquia e 2 a 1 na Rússia.

 

A parada mais importante do giro europeu aconteceria de 6 a 15 de junho, em Toulon, sede do Festival Internacional de Futebol “Espoirs”, um dos mais prestigiados certames ente seleções de base do planeta. Daniel Passarella, Stoichkov e Zinedine Zidane, entre outros, brilharam pela primeira vez ao mundo na vitrine do torneio, disputado desde 1967. O Brasil triunfara em 1980, 1981 e 1983, e registrara sua última participação em 1987, com uma equipe que, mesmo contando com Taffarel, André Cruz e César Sampaio, ficou apenas na terceira colocação.

 

A expectativa em Toulon com o escrete canarinho era grande – afinal, a Seleção vencera, no primeiro semestre, o Mundial de Futebol Júnior, na Austrália, e vinha da boa impressão deixada em Val´Action. Mas vexame é pouco para o desempenho dos garotos. Treinada por Carlos Alberto da Luz, a equipe, que tinha como destaques Sávio, Yan, Bruno Carvalho e Argel, além de Wagner e Magrão, do Palmeiras, terminou em um horrível sétimo posto, à frente somente da Bulgária. Marcos ficou de fora da estreia – em que a República Tcheca venceu por 3 a 2 e vingou-se da goleada sofrida no último encontro – e voltou contra Portugal, na vitória dos lusos por 1 a 0. O máximo que o arqueiro palmeirense conseguiu fazer foi garantir o empate sem gols contra a Inglaterra, que se sagraria campeão da competição. Para completar a tortura, a Seleção, ainda com Marcos na meta, se despediu da turnê com uma derrota para Itália, 2 a 1.

 

Mas a tristeza do goleiro não duraria muito tempo. Em seu retorno ao Brasil, Marcos se juntaria a um elenco que, dede 12 de junho de 1993, já não tinha mais fantasmas para exorcizar.

 

Publicado originalmente em CAMPOS JÚNIOR, Celso. São Marcos de Palestra Itália. Santos: Realejo Edições, 2011.

sábado, 1 de julho de 2023

50 Anos de São Marcos, parte II de IV: No império dos cornetas

Capítulo II: No império das cornetas

 


Por Celso de Campos Júnior

 

“Não é mole, não...Dezesseis anos sem gritar ‘é campeão’!” Os pulmões dos torcedores adversários enchiam-se para soltar, sorridentes, o grito que doía mais do que uma saraivada de palavrões na alma do palmeirense. Até mesmo injúrias, calúnias e difamações sobre a mãe eram mais aceitáveis do que a dura lembrança de que, naquele 1992 que se iniciava, a gloriosa Sociedade Esportiva Palmeiras entrava em seu décimo sexto ano de um aparentemente interminável jejum de títulos.

 

O último caneco levantado pelo clube havia sido no longínquo Paulista de 1976, em uma década de outo na qual o Verdão foi soberano no futebol brasileiro. Treinada pelo lendário Osvaldo Brandão, a irresistível Segunda Academia palestrina, com Leão, Luís Pereira, Dudu, Leivinha, César Maluco, Nei e, claro, o divino Ademir da Guia, entre outras feras, conquistou o bicampeonato brasileiro em 1972 e 73 e os estaduais de 72 e 74. Entretanto, desde então, o alviverde antes imponente engatara uma sucessão de tropeços, trapalhadas e desilusões, dentro e fora de campo. Brigas políticas, má administração, rodízio de treinadores, contratações equivocadas e regulamentos esdrúxulos azedavam a macarronada dos palestrinos e ofereciam um delicioso banquete de gozações aos rivais.

 

Na década perdida de 1980, o torcedor testemunhara fracassos impossíveis, extraordinários, transcendentais até. Em 1986, diante de um Morumbi abarrotado de palmeirenses, a equipe dirigida por Carbone conseguiu perder a final do Paulista para a Internacional de Limeira, na primeira vez em que um clube do interior se sagrava campeão do torneio. Três temporadas depois, o invicto time de Emerson Leão sobrava no estadual e dava mostras de que rumaria ao título quando uma única derrota, para o pequeno Bragantino, o tirou da briga pelo campeonato. Já em 1990, sob a batuta de Telê Santana, bastava vencer a Ferroviária no Pacaembu para avançar a final do Paulista. Empatou, claro.

 

Longe dos gramados, os vexames não eram menores. O frustrante resultado contra a locomotiva de Araraquara desencadeou uma das páginas mais negativas da história do Palmeiras: depois de um jogo, um bando de cem vândalos dirigiu-se para a sede social, no Parque Antárctica, e depredou a sala de troféus do clube, reduzindo a escombros os símbolos das vitórias e vitimando o próprio orgulho palestrino.

 

No desespero de acabar com a fila, a diretoria mudava de treinador como se trocasse de ceroulas. Apenas nos quatro anos anteriores, dez homens comandaram o Palmeiras do banco de reservas: Rubens Minelli, Ênio Andrade, Tata, Leão, Jair Pereira, Telê, Dudu, João Paulo Medina, Paulo César Carpegiani e, finalmente, Nelsinho Batista. Este último foi contratado em junho de 1991 como a salvação da lavoura alviverde – e não era para menos, diante da façanha que alcançara no ano anterior: conduzira o Corinthians à conquista do primeiro campeonato nacional de sua história. Só podia se tratar, portanto, de um verdadeiro mago da prancheta.

 

Mas seu feitiço não funcionaria no torneio em que o técnico estreou no Palestra, o Paulistão de 1991, disputado de agosto a dezembro – a vaga da decisão foi perdida para o São Paulo no quadrangular final.

 

Surpreendentemente prestigiado pelos cartolas, Nelsinho começou seu planejamento para 1992 recebendo da diretoria um reforço para a meta. O goleirão Carlos Roberto Gallo, veterano de 36 anos e três Copas do Mundo, chegava ao Parque Antarctica com status de titular absoluto, empurrando para o banco o antigo dono da camisa 1, Ivan. As qualidades técnicas de Carlos sob a trave eram inquestionáveis, mas os palmeirenses, tão abandonados pela sorte, assustavam-se com a fama de pé-frio do arqueiro. Em 16 anos de carreira, Carlos conquistara apenas um título – o Paulista de 1988, com o Corinthians, e ainda assim o craque nem apareceu no pôster, pois se machucou na semifinal contra o Palmeiras e ficou de fora das finais contra o Guarani.

 

O primeiro desafio da temporada era o Campeonato Brasileiro, e tudo indicava que ainda não seria daquela vez que Carlos e o Verdão sairiam da seca. No fim de março, depois de dez jogos no nacional, o clube amargava a antepenúltima colocação, com duas vitórias, dois empates e seis derrotas. As cornetas já começavam a soar pedindo a demissão de Nelsinho quando o treinador, sem aviso prévio, tomou uma medida drástica: às vésperas do duelo contra o Corinthians, afastou em definitivo os titulares Evair, Andrei e Jorginho, além do goleiro reserva Ivan, por deficiência técnica.

 

A notícia caiu como uma bomba. Jorginho foi chamado à sala do treinador e não teve tempo nem de trocar de roupa antes de sair. O capitão Toninho, líder da equipe e presidente do Sindicato dos Atletas Profissionais de São Paulo, foi tirar satisfações com o chefe, mas voltou com o rabo entre as penas. O presidente Carlos Bernardo Facchina Nunes e o diretor de futebol Adriano Beneducce garantiram que o exílio dos “Quatro Cavaleiros do Apocalipse” – como os apoiadores de Nelsinho batizaram os atletas barrados – era a primeira providência para melhorar o futuro do Palmeiras.

 

Enquanto as labaredas da crise espalhavam-se nervosamente pelo Palestra Itália, um goleiro de 18 anos recém-contratado pelos juniores era convocado para ocupar o lugar de Ivan no banco de reservas da equipe profissional no maior clássico da cidade de São Paulo.

 

Marcos Roberto Silveira Reis, bem-vindo ao Palmeiras.

 

 

Ironicamente, o campo que forjara o mais novo arqueiro alviverde não tinha sequer traves. O contorno da meta a ser defendida pelo filho de Antônia e Ladislau era pintado com tinta na divisória do terrão vizinho à casa da família, em Oriente, a cerca de 450 quilômetros da capital paulista. Nesse sugestivo paredão, os irmãos bombardeavam o caçula Marcos Roberto, nascido em 4 de agosto de 1973, a quem sobrava, pela menor idade e intimidade com a bola, a posição de goleiro.


Só que o garoto tomou gosto pela coisa. Espichou e passou a se destacar nas peladas de Oriente, assumindo a camisa 1 do Primavera, time amador patrocinado pelo mercadinho homônimo que disputava os campeonatos locais e regionais. Alguns desses embates foram testemunhados pelo goleiro do time adulto da usina açucareira da cidade natal de Marcos – acreditem, chamada Usina Paredão. Pois Flávio, guarda-metas da Paredão, ficou impressionado com o jovem do Primavera. Tanto que, na virada de 1989 para 1990, decidiu avisar um amigo treinador de futebol, Antônio Novais, mais conhecido como Neno, do potencial daquele garoto. Formado pelo mestre Pupo Gimenez, Neno, já trabalhara na base do Marília Atlético Clube e estava assumindo as categorias inferiores do Clube Atlético Lençoense, de Lençóis Paulista. Envolvido com o novo trabalho, o técnico demorou para responder ao pedido de Flávio, que, contudo, não parava de insistir. “Você precisa vir a Oriente para olhar esse moleque, Neno. O quanto antes”.

 

Algumas semanas depois, diante da teimosia do colega, finalmente o treinador resolveu ver de uma vez por todas o que o tal goleiro tinha de tão especial. Ao lado do preparador físico João Sérgio de Moraes, dirigiu-se à cidade de Vera Cruz, onde o Primavera disputaria um campeonato de tiro curto. Ali, os olhares da dupla do Lençoense se arregalaram: estavam diante de um atleta talentoso, rápido, de excelente porte físico, com falhas comuns a qualquer iniciante, mas que jogava com o coração, falando o tempo todo, orientando os defensores, incentivando a equipe. A decisão estava tomada: o clube investiria no rapaz. Ao final do dia, Neno apresentou-se a Marcos e convidou-o a ingressar nas categorias de base do clube de Lençóis Paulista.


Compor as fileiras do Demolidor da Sorocabana não era pouca coisa para um aspirante. O clube, que fizera sua fama nos anos 1940 fora do circuito oficial da bola – amistosos nada amistoso pelo interior de São Paulo e do Paraná, seguindo os trilhos da Estrada de Ferro Sorocabana -, vinha de uma excelente campanha na segunda divisão de 1988. Só perdeu o acesso inédito à elite na fase semifinal para o esquadrão caipira do Bragantino de Wanderley Luxemburgo, que, naqueles idos de 1990, já estava fazendo estragos na elite do futebol, em especial na alma do palmeirense.

 

Além disso, todo moleque que chegava ao Lençoense pensando em vencer no futebol – e na vida – tinha um exemplo e tanto em que se espelhar. Em meados da década de 1950, de forma tão anônima quanto qualquer novato, desembarcara no clube um armador de fino trato e silhueta chamado Valdir Pereira, vindo do Americano de Campos, do Rio de Janeiro. Em sua temporada em Lençóis Paulista, o atleta destacou-se e atraiu a atenção do Madureira, então na primeira divisão do futebol carioca. Não demorou para que o Fluminense o contratasse – e aí se iniciava a saga de Didi, o Príncipe Etíope, cérebro da Seleção Brasileira na conquista dos mundiais de 1958 e 1962 para um menino chamado Pelé.

 

Da quarta opção para a meta do Lençoense, Marcos logo pulou para a titularidade, disputando o equivalente ao Campeonato Paulista da segunda divisão de juniores, além da Copa Londrina e de torneios regionais. Destaque da equipe, chamou a atenção de um dos integrantes da diretoria, que tinha contratos no departamento de futebol de um clube tradicional de São Paulo. E assim Marcos foi fazer um teste no...Corinthians.

 

De acordo com a versão contada em público pelo goleiro, o time da Fazendinha o aprovou – mas, com saudades de casa e sem a perspectiva de ser efetivamente escalado, já que seria apenas o terceiro arqueiro dos juniores, atrás de Felício e Edílson, decidiu largar a capital e retornar ao Lençoense. Ao mestre Neno, porém, o aspirante relatou outra história à época do acontecido. Afirmou ter sido dispensado pelo Corinthians, e que, inconformado, juntara coragem e respondera aos cartolas alvinegros: “Um dia vou jogar em um time profissional e ganhar de vocês em uma decisão”.

 

Por uma dessas coincidências do destino, nessa mesma época, o técnico dos juniores do Palmeiras, Raul Pratali, buscava atletas para renovar seu elenco. Pratali entrou em contato com Neno, com quem havia trabalhado no Marília, e perguntou se o colega conhecia algum guarde-metas de talento. O treinador da Lençoense, então, levou Marcos e mais uma leva de promessas – entre elas, o volante André Luiz, o atacante Itamar e o lateral esquerdo Beto – para a Academia de Futebol. Sem tempo de testar os jogadores, já que precisava completar o grupo com urgência, Raul Pratali, confiando apenas na palavra de Neno, arrematou o lote. Marcos chegava ao Parque certo – de onde não escaparia mais.

 

(Independentemente de o goleiro ter sido aprovado ou não na Fazendinha, fato é que, pela segunda vez, o Corinthians deixava escapar um fora de série que alcançaria status de ídolo no maior rival. O primeiro? Um tal de Ademir da Guia. “A primeira vez que eu coloquei chuteiras foi para fazer um teste no Corinthians, em 1955. Tinha 13 anos e meu pai me levou do Rio, onde a gente morava, para o Parque São Jorge”, afirmou o divino filho de Domingos da Guia à revista FourFourTwo de outubro de 2003. “O técnico das categorias de base era o Rato, que havia jogado com meu pai no Corinthians. Foi a primeira vez num clube profissional, num clube de verdade, e foi demais. Mas o Rato disse ao meu pai que, apesar de eu jogar bem, ele não podia me contratar porque eu ainda era muito jovem – a idade mínima para entrar lá era de 15 anos. Então a gente voltou para o Rio e eu fui para o Bangu, onde fiquei por um bom tempo. Daí veio o Palmeiras”.)

 

Na hora de oficializar a transferência de Marcos e companhia limitada, dentro da sala do departamento amador do Verdão, os representantes do Lençoense sugeriram um acordo aos palestrinos. Com nome sujo na Federação Paulista de Futebol por conta de uma dívida de 40 mil dólares com o Ituano, o Demolidor da Sorocabana não podia renovar seu registro para a disputa dos campeonatos oficiais daquela temporada; a proposta, assim, era que o Palmeiras assumisse o débito em troca da liberação dos atletas. De quebra, a agremiação de Lençóis Paulista também pedia que o clube da capital cedesse uma remessa de material esportivo, principalmente calções, meias e chuteiras, já que a rouparia do alvinegro estava zerada. Negócio fechado.


A curiosa história permaneceu escondida no Parque Antárctica até 1995, quando o volante Amaral, também integrante do time de juniores do Palmeiras na ocasião, revelou aos colegas a transação – não sem antes modificar sensivelmente os termos do acerto. De acordo com o dedo-duro, o Lençoense cobrou, pelo passe do goleiro de 18 anos, um pagamento tão modesto quanto inusitado: apenas doze pares de chuteiras. Marcos, previsivelmente, virou algo de gozações dos colegas, mas levou na brincadeira e até posou para fotos com seu suposto pagamento – uma fileira de chuteiras. Para se vingar do colega linguarudo, espalhou que também Amaral fora contratado em uma permuta pouco usual: o ex-preparador de cadáveres teria sido liberado por seu clube de Capivari em troca de três calças de agasalho.

 

O pessoal de Capivari jura de és juntos que o escambo jamais existiu, mas, para ambas as histórias, vale a célebre frase do clássico filme de faroeste Os brutos também amam: quando a lenda se torna fato, publique-se a lenda.

 

 

“Sempre fui palmeirense, e ficar no banco logo contra o Corinthians vai ser demais”, vibrava Marcos, em uma de suas primeiras aparições na imprensa esportiva paulista, no Diário Popular de 27 de março de 1992. Com o afastamento de Ivan, o goleiro de Oriente, ainda em fase de ambientação nos juniores, se viu convocado para a reserva de Carlos, medalhão do Palmeiras e da Seleção Brasileira. “Aconteceu tudo muito de repente. Mas tenho de estar preparado para agarrar a oportunidade”. Sobre o titular, que tinha exatamente o dobra de sua idade, Marcos era só elogios. “O Carlos é meu ídolo, um goleiro que sabe usar toda sua experiência e tranquilidade”.

 

O Derby de 29 de março de 1992 seria a primeira partida em que Marcos assinaria a súmula como jogador de futebol profissional – e nele o jovem guarda-metas já foi apresentado à acirrada rivalidade entre os clubes. No boletim de ocorrência do “Clássico do Medo”, como o jogo foi apelidado devido ao mau momento dos dois times, registraram-se quatro vermelhos, sete amarelos e um tumulto generalizado depois de uma briga fora de campo entre Márcio e Luiz Henrique. Na bola, o volante César Sampaio marcou para o Palmeiras, mas o Corinthians saiu vitorioso, empurrando o alviverde para a penúltima colocação: 2 a 1, gols de Fabinho e Viola em falhas da sempre emocionante dupla Alexandre Rosa e Tonhão.

 

(Como prêmio de consolação, Marcos pôde ao menos ver o titular Carlos defender a cobrança de pênalti do meia Neto, que retornava ao clássico depois da suspensão pela cusparada no árbitro José Aparecido de Oliveira, seis meses antes.)

 

Onze jogos, sete derrotas, vice-lanterna do Brasileiro depois de levar uma piaba do maior rival. Em se tratando de Palmeiras, o cenário era apocalíptico. Mas, graças a uma notícia confirmada na véspera do clássico, a crise foi milagrosamente substituída por uma centelha de esperança. A vida do goleiro novato e de toda a torcida alviverde ficaria mais fácil depois que, em um acordo inédito do futebol brasileiro, uma leiteria italiana pediu passagem para pôr fim ao período de vacas magras no Palestra.

 

Publicado originalmente em CAMPOS JÚNIOR, Celso. São Marcos de Palestra Itália. Santos: Realejo Edições, 2011.


sexta-feira, 30 de junho de 2023

50 Anos de São Marcos, parte I de IV: a noite de São Marcos

Capítulo I: A noite de São Marcos



Por Celso de Campos Júnior

 

Derby do Século. Duelo Histórico. Jogo da Vida. Não faltavam nomes fantasia para aquele Palmeiras e Corinthians de 5 de maio de 1999, o mais importante confronto em oito décadas de intensa rivalidade entre os dois maiores clubes de São Paulo. Alviverdes e alvinegros, claro, já haviam protagonizado batalhas eletrizantes, como a final do Campeonato Paulista de 1954, que deu ao time da Fazendinha a faixa de Campeão dos Centenários, ou a decisão do Paulista de 1993, triunfo que redimiu o Verdão de uma fila de 17 anos sem conquistas. Pela primeira vez, porém, o Derby deixava os redutos do Brás, Bixiga e Barra Funda para ganhar ares e dimensões internacionais: Palmeiras e Corinthians digladiavam-se em uma fase eliminatória da Copa Libertadores da América, e apenas o vencedor poderia saciar a obsessão latina que tomava conta de ambas as torcidas.

 

Em jogo, estava uma vaga na semifinal do mais prestigiado torneio do continente. Mas diante do alto poder de fogo das duas equipes, o clima era de final antecipada: quem sobrevivesse ao combate estaria com uma taça na mão. A conquista da América era o objetivo traçado pelo Palmeiras desde o momento em que o técnico Luiz Felipe Scolari desembarcara no clube, um ano e dez meses antes. Igualmente hipnotizado pela competição, depois de vencer o Brasileiro de 1998, o Corinthians confiava no entrosamento do elenco campeão nacional para superar o rival.


Além da tradicional atmosfera de guerra, contudo, um curioso aspecto místico pairava sobre a peleja daquela quarta-feira à noite, no Morumbi, o primeiro capítulo da série de duas partidas entre os inimigos mortais. Enquanto os alvinegros caprichavam nas promessas a São Jorge, padroeiro do clube, e o meia Marcelinho Carioca, vulgo Pé de Anjo, revelava na véspera uma conversa com Deus para vencer o jogo, os palestrinos direcionavam suas orações à Nossa Senhora do Caravaggio, de quem Felipão era devoto fervoroso, e ao recém contratado Santo Expedito – o patrono das causas impossíveis virou o mais novo reforço do time depois que o sargentão creditou uma parcela da vitória contra o Vasco, pelas oitavas de final da Libertadores, à intercessão de uma estatueta do mártir, levada a Academia de Futebol por uma torcedora na véspera do duelo.

 

Depois que a bola rolou, no entanto, não sobrou espaço para suposições sobrenaturais. Houve milagres, sim. Mas eles foram operados por um só homem, diante do olhar incrédulo de 30 mil testemunhas.

 

Em uma das atuações mais espetaculares de um goleiro na história da cristandade, Marcos, do Palmeiras, fez coisas de que até Deus duvidou. Segurou, de todas as formas, o ataque do Corinthians que bombardeou a meta alviverde sem clemência durante os 90 minutos. Ricardinho, Marcelinho, Edílson e Fernando Baiano se revezavam nas investidas – neutralizadas pelas mãos, pelos pés, pelo peito e até pelas costas do arqueiro do Palestra. Multiplicando-se na pequena área, o camisa 12 se manteve intransponível, para desespero dos alvinegros. Ao final da partida, as estatísticas eram inacreditáveis. O Corinthians finalizou 32 vezes contra o gol de Marcos, sem conseguir marcar. Já o Verdão chutou apenas dez bolas em direção às traves de Nei – e anotou dois tentos.

 

O atacante Oséas e o volante Rogério foram os autores dos gols da vitória, mas, já nos vestiários, poucos se lembravam disso. A noite era de Marcos. Sorriso aberto e corpo fechado, o rapaz de 25 anos atendia pacientemente aos repórteres ávidos por ouvir suas palavras, transferindo para terceiros, com humildade franciscana, os louros da vitória. “Senti a mão de Deus em cada defesa que fiz. Ele é o grande responsável por esse momento, junto com meus companheiros”.

 

Não era essa a opinião da torcida. Ao apito final do árbitro, dispensando o longo e burocrático processo do Vaticano, palmeirenses de pouca e de muita fé já haviam canonizado o goleiro.

 

Nascia, naquela noite a lenda de São Marcos – parábola celestial iniciada sete anos antes, no inferno das alamedas do Palestra Itália.

 

Publicado originalmente em CAMPOS JÚNIOR, Celso. São Marcos de Palestra Itália. Santos: Realejo Edições, 2011.