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domingo, 13 de junho de 2021

Cineastas brasileiros em PBY: Entrevista com Guilherme Fontes (dezembro de 2015)

Playboy entrevista Guilherme Fontes

 

Uma conversa franca com o ex-galã da Globo e diretor do filme Chatô, o Rei do Brasil sobre os 20 anos de espera pelo longa, as acusações de desvio de dinheiro público, sexo, drogas e a maneira como foi humilhado por José Wilker


Quando Guilherme Fontes adquiriu os direitos do projeto Chatô, o Rei do Brasil, inspirado no best-seller de Fernando Morais, em novembro de 1994, a Netflix demoraria 17 anos para chegar ao país. A capa de PLAYBOY estampava a nudez de Patrícia Lucchesi, a menina do primeiro sutiã, e o presidente do país, Itamar Franco, passaria a faixa para seu sucessor Fernando Henrique Cardoso dois meses depois. Guilherme, com 28 anos de idade na época, pretendia lançar seu filme de 12 milhões de reais em 2000. Com uma carreira promissora na TV, no teatro e no cinema, ele tinha o mundo (e os executivos das principais empresas) a seus pés. Captou milhões como nunca se havia visto no país e chamou o chefão Francis Ford Coppola para ser seu braço direito. Mas, de repente, como num filme B de terror, o dinheiro, que jorrava, se virou contra ele. Guilherme se transformou em bandido e Chatô não via mais como se encaixar nas telas do cinema nacional. Até o mês passado.

 

Nascido Guilherme Machado Cardoso Fontes, em Petrópolis, região serrana do Rio, em 1967, o ator, o sétimo filho de uma família de classe média, cresceu com a mãe. Aos 13 anos se apaixonou pela arte de interpretar e entrou na escola de teatro Tablado. Na TV, estreou como ator na novela Ti Ti Ti, em 1985. Um ano depois, fez seu debute nos cinemas com o longa A Cor do Seu Destino, ao lado da atriz Norma Benguell, com quem dividiria problemas parecidos anos depois. Vieram mais dois filmes, diversas novelas e peças de teatro de sucesso, como Eu Odeio Hamlet, que produziu e atuou ao lado de Cláudia Abreu, com que esteve casado entre 1989 e 1994. Até que em 1994, ainda amargando a separação, veio Chatô. Hoje, o pai de Carolina, de 10 anos, e Carlos, de 7, do segundo casamento com Patrícia Lins e Silva, está solteiro.

 

Há 48 horas da estreia nacional de Chatô, o Rei do Brasil, o ator e diretor Guilherme Fontes chegou para um almoço no Terraço da Editora Abril, à beira do Rio Pinheiros, em São Paulo, no começo do mês passado. Qual é a expressão do rosto de alguém que levou porrada incessantemente ao longo dos últimos 20 anos? Como essa pessoa reage a provocações ao longo de uma conversa? Quais são as marcas mais evidentes que ela traz consigo depois de duas décadas ininterruptas nas cordas? Essas eram as perguntas que passavam pela cabeça dos editores Jardel Sebba e Marco Bezzi antes da primeira sessão da entrevista. “Vamos tomar um vinho para relaxar”, pediu Guilherme ao chegar ao restaurante. Provocativo, o cineasta mostrou uma autoconfiança inacreditável para quem passou os últimos anos tendo que justificar um possível fracasso para a vida toda. Foram três horas e meia de conversa divididas entre o encontro na Editora Abril e um almoço tardio no restaurante Avenca, de frente para o Jardim Botânico do Rio, três dias depois. O melhor das duas sessões você confere aqui.





Depois de tudo o que você passou, faria igual?

Em relação ao projeto, eu não mudaria uma vírgula, tomaria as mesmas decisões artísticas. Mas não começaria o filme sem o dinheiro integralizado, foi aí que eu botei a bunda na janela. Eu tinha dois projetos grandes para o Chatô. E fui captando tudo muito rápido. Passava pelas empresas, as secretárias me adoravam, era bajulado pelos diretores. Isso resultou numa ciumeira generalizada dos pequenos, médios e grandes produtores.


Você se cercou de pessoas erradas?

Eu não tinha sócios, e isso me fragilizou. Eu, além de diretor, era produtor, relações públicas, era eu que dava a cara a tapa. Foi ruim estar sozinho.

 

Acha que Chatô é o começou ou o fim da sua carreira no cinema?

O começo, 100%. Pena que perdi 15 anos. Nesse tempo podia ter feito mais dez filmes, seria milionário. E num próximo (filme), sei que tenho de encontrar uma fonte de dinheiro segura, de procedência privada. Não posso confiar no Brasil, me enrolei todo. Você tem que tomar o cuidado com as pessoas que assinam os papéis pelo país.

 

Uma pessoa que te impediu de captar mais dinheiro foi o (então Ministro da Cultura no governo FHC) Francisco Weffort.

Ele é um banana, um bananão. O apelido dele é “Wefraco”. E foi totalmente manipulado pelo sociólogo lá (FHC), aquele falso moralista que vai para a televisão para falar de anticorrupção. O Weffort me parou.

 

É estranho porque você tinha relações muito boas com a cúpula do governo. O (então ministro das Comunicações) Sérgio Motta até te ajudou a captar dinheiro.

Com o Sérgio Motta a minha relação era excelente. Mas aí você tinha o Fernando Henrique, um covardão com aquela pose de intelectual. O segundo mandato dele foi um fiasco, ele se vendeu para todo mundo e eu fiquei no meio do caminho. O Chatô era o único filme sendo feito naquele momento, em 1999. Ele fugiu de mim.

 

Por que ele não queria te receber?

Porque era um covarde. Pelo menos comigo, se portou como um. Mas no fim, depois que provei que ele e todo mundo estavam errados, voltou atrás. A verdade é que o Fernando Henrique acha que é a Gisele Bundchen. Ele finge uma certa humildade que não tem.


Como assim voltou atrás?

No fim do governo, enchi tanto o saco que consegui com que a Petrobras me financiasse parte do projeto. Mas aí já era tarde. O governo FHC acabou e entrou o Lula. Os comunistas acharam que eu tinha olho azul demais e me pararam mais uma vez.


Você chegou a tratar com o Gil (Gilberto Gil, primeiro ministro da Cultura do governo Lula)?

O Gil? Só rindo. Fiquei muito triste, ele me conhece desde criança. A Preta (Gil) foi a minha primeira assistente do filme. Ele também foi omisso e covarde comigo, fez aquela cara de passeio, de paisagem. Do lado dele ainda estava o assessor para assuntos audiovisuais Manoel Rangel, quando eu o encontrei a única vez. Como tinha uma certa intimidade com o Gil, passei um tempo no Ministério naquele dia. De repente ouço: “Esse projeto nunca poderia ter sido aprovado”. Fiquei muito ofendido. Pequenas coisas me ofendem demais. Olhei para o lado e perguntei: “Você conhece o projeto, já leu alguma frase dele? Fica quieto aí que você não sabe de nada”. Entrei para a lista negra do Rangel. E assim que ele assumiu a Ancine (Agência Nacional de Cinema), em 2005, me proibiu de captar. Eu estava no Cadin (Cadastro Informativo Municipal), e ele disse que quem estava no órgão não podia mais captar, me fecharam de novo. Eu nunca, em momento algum, estourei o orçamento.

 

A amizade com o Gil não ajudou em nada?

Ele não moveu uma palha, zero, estava sempre muito ocupado. A verdade é que as pessoas sujam as mãos no poder, e não querem que os outros vejam que a mão está suja. O Gil estava mais interessado em colocar a coroa de símbolo cultural do Brasil do que em entender a executividade do processo cultural. O executor, na verdade, era o Juca (Ferreira), que depois virou ministro.

 

E depois do Gilberto Gil, você foi procurar o então prefeito do Rio César Maia e a RioFilme?

A RioFilme ia me dar 1,7 milhão e só me deu 1,3 milhão, e mesmo assim de uma maneira tortuosa, doentia. Foi de chorar, eu tinha que lidar com o José Wilker (então diretor-presidente da RioFilme), que era um colega de trabalho. E ele me humilhou bastante naquela época.

 

Como o José Wilker te humilhou?

É uma situação complexa, que eu nunca falei, porque ele não está mais aqui (Wilker morreu em abril de 2014). Quando o Cesar Maia resolveu me dar dinheiro, o Wilker montou uma comissão de notáveis, de quase 14 pessoas. Quando o projeto foi aprovado, ele se sentou na cadeira e também em cima do meu projeto. O Cesar Maia enchia os cofres da RioFilme ele não me repassava. Eu tinha contrato no tesouro e sabia que o dinheiro estava na conta. Ele me deu um pedacinho para começar, que, na verdade, não deu para nada, eu já estava todo enrolado.

 

Você tinha uma relação anterior com o Wilker?

E era maravilhosa. Foi o primeiro cara que eue chamei para dirigir uma peça (Eu Odeio Hamlet). Lembro eu, ele e a Cacau (Cláudia Abreu) no Maracanã naquele dia em que caiu o mundo.

 

Final do Campeonato Brasileiro de 1992, Flamengo e Botafogo?

Isso, o jogo em que a (torcida) Raça desabou. A gente estava do outro lado do estádio. Eu lembro do Wilker com aquela cara amassada no meio daquela gente toda, totalmente não-me-toques, e a gente entrando meio pendurado. Mas daí ele se sentou na cadeira, ganhou uma caneta, acho que era rei. Hipócrita, falso, mentiroso.

 

E os seus coleguinhas, como se portaram?

Na verdade, teve um ser humano da classe que eu lembro bem. Vejo uma matéria desse cara, que foi fazer um filme no exterior. Vou lendo e, na última frase, ele diz: “É, mas aí vem o Guilherme Fontes para fazer bobagem...”Eu fiquei muito puto, liguei para a agente dele e mandei um recado: “Fala para o seu amigo nunca mais dirigir a palavra a mim. Quando ele estiver caminhando no Projac, que atravesse a calçada, senão vou dar uma cabeçada no nariz dele e ele vai ter de fazer outra plástica. Ele não sabe nada, está se metendo em assunto que não é devia e devia lavar a boca”. Esse sujeito tem negócios com seres humanos muito estranhos.

 

Uma outra pessoa disse que você não roubou, mas que o dinheiro foi mal administrado.

Esse é outro infeliz. Um diretor meio cultuado, da minha turma. Ele namorou e casou duas ex-mulheres minhas. E veio com esse papo. Para mim, mal administrado é roubado, ainda mais sendo dinheiro público. O cara é um cagão, um covarde. Eu soube depois que ele colocou o dedo na cara do Marco Ricca dizendo que nós tínhamos acabado com o cinema nacional. O cara é um débil mental, um drogado. E fala de mim, da minha vida, quem é o cara?

 

Você disse uma vez que nem com 5 milhões, nem com 8 milhões, nem com nenhum dinheiro esse filme poderia ser feito no Brasil. Não é natural que as pessoas pensem que exista uma certa prepotência num sujeito, independentemente de quem for, que queira fazer um projeto desse no Brasil?

Ninguém quer fazer (um projeto desse tamanho), e cada um faz o que quer e o que tem capacidade para fazer. Este filme não acabou em 2000, mas poderia ter acabado. Você tem que entender o meu momento e a minha determinação na época. Eu estava mal, numa fossa profunda, tinha acabado de me separar (da atriz Cláudia Abreu), estava triste. Sempre fui um ambicioso do bem, e ambicioso no Brasil, é confundido com ladrão. Eu queria arranjar uma coisa grande, um desafio. Esse filme nunca sairia da noite para o dia, naturalmente levaria cinco. Quando estava no quarto ano, neguinho ficou louco porque eu ia acabar o filme no começo de 2000. Era uma ambição de longo prazo.

 

Ter tirado o projeto da antessala do Barretão (o produtor Luiz Carlos Barreto) também complicou a sua vida? Consta que você ofereceu 150 mil dólares pelo projeto enquanto ele teria oferecido a metade.

A minha proposta era pragmática e a dele, etérea. Não vou confirmar esse número, mas ofereci muito menos do que a obra merece. Chegaram a falar de 1 milhão.

 

O Fernando Morais ficou ao seu lado todo esse tempo?

Foi um dos únicos. Coitado. Passou anos tendo que responder perguntas sobre Guilherme Fontes em todas as palestras. Ele me ligava para reclamar: “Não aguento mais ter de falar de você! Quando esse filme sai?” Nossa relação ficou cada vez mais próxima, ele é padrinho da minha filha.

 

Você disse que não mudaria nada no processo do filme, mas parece que as pessoas em que você confiava te puxaram o tapete. Podemos chamar isso de ingenuidade?

Fui muito ingênuo. Mas não posso ir para um negócio achando que querem me foder. Ainda mais um cara que quer me dar dinheiro. Quando percebi, o secretário audiovisual não estava nem aí para mim, se meu filme explodisse tanto fazia. Para a Ancine também não fazia a menor diferença. Todos acharam que o filme ia pro saco.

 

Mas por que fazer tudo sozinho?

Eu não encontrei sócios, uma série de coincidências ruins aconteceram. Meu vizinho era banqueiro e me viu reclamar no elevador. Pediu para procura-lo. Qual o banco? Fonte-Cindam. O banco quebrou e eu com meus míseros reais lá dentro. Quando eles sofreram a auditoria eu estava lá no meio do furacão, na lista. E estava bem acompanhado. Meu dinheiro somava 2 milhões, tinha gente com 200 milhões. Meu processo não tinha nada e eu consegui reverter.


Mas você foi condenado a pagar 83 milhões.

Quando você pega dinheiro público para construir uma ponte e mostra as notas fiscais, vão perguntar onde está a ponte. Se ela não existir, vão querer o dinheiro. Agora eu tenho filme. São pequenas discussões que ou ter de explicar. O que é uma violência, porque venho prestando contas há anos. Tinha de prestar contas quando o filme acabasse.

 

Se você tivesse de pagar 83 milhões, como faria?

Teria de pedir dinheiro para PLAYBOY, Globo, para todo mundo. Não tenho esse dinheiro. Dei como garantia meus imóveis nas ações.


Houve uma matéria na época em que dizia que encontraram na sua empresa 600 mil reais em notas frias, nenhum registro contábil de 1999, quando você teria arrecadado boa parte do dinheiro...

Deixa eu te ajudar: foi um estupro. Eles organizaram uma matéria num jornal dizendo: “Chamam a polícia! Prendam o garoto! Invadam a casa dele! Levem Tudo!” E me pegaram com a casa desarrumada. Foram lá pedir esclarecimentos, ver as notas. Prestação de contas só é entregue depois que o filme acaba. Imagina, eu ainda estava me organizando contabilmente, como todo mundo faz. Mas não, eu tinha de entregar de qualquer jeito. Eles, o sistema da CVM (Comissão de Valores Mobiliários), porque o Ministério não podia naquele momento me investigar. E a CVM vai lá entender de notinhas de filme? A CVM lá entende que o maquinista mora no morro e que eventualmente a empresa dele é fraudulenta? Não sou fraudulento, é a empresa do pobre coitado que é. Deram a volta em todos os morros cariocas, “essa empresa não existe”, “essa é falsa”. Sim, são procedimentos corriqueiros no Rio de Janeiro. Se você me vende pão, eu não sei se a sua padaria paga impostos ou não.


Você pensou na hipótese do filme dar errado? Em um plano B?

Nunca. Estava muito satisfeito com o filme.

 

Houve resistência de algum ator a fazer o filme?

Nenhuma. Precisei do André (Matos), do Gabriel (Braga Nunes) e do Marco. Foi difícil, mas não foi preciso dublar de novo, foram offs que decidi fazer depois.

 

Você pensou que o que aconteceu com a Normal Benguell poderia acontecer com você? Apenas 15 pessoas estiveram no enterro dela.

Foi uma tristeza, mataram ela. E quem acusou estava carregando o caixão. Fiquei muito ofendido. A Norma não tinha a minha disposição para se defender, ela nunca foi até os ministros do TCU (Tribunal de Contas da União) para isso. Eu ligava pedindo pra ela ir até Brasília se explicar. Ela tinha feito o filme (O Guarani, de 1997) no prazo. (Exaltado.) Os problemas dela com a prestação de contas eram de 20,30% do total. E todo mundo sabe que o diretor pode vir a ganhar até 10% do orçamento. E o captador tem o direito de receber 20% do orçamento. Então ela tinha esse direito! E com esse dinheiro, comprar o apartamento dela. Porque ela ganhou! Deixa de ser público e passa a ser o salário dela. Um dia liguei pra ela e perguntei: “Quanto você captou?” Ela disse que tinha captado 4 milhões. Pedi para ela escrever carta de próprio punho doando o filme para dirimir qualquer dúvida ou equívoco. Mas não deixaram. Fiquei com muita raiva disso.

 

Em algum momento passou pela sua cabeça que tudo o que estava acontecendo poderia acabar com a sua carreira de ator?

Como sempre, tive a consciência tranquila e a segurança de que estava fazendo um filme legal, de que estava no caminho certo, nunca pensei isso. Ainda que o filme ficasse muito ruim, tipo: “Ele gastou esse dinheiro todo e olha que porcaria ele fez...” Nunca achei que minha carreira ia acabar nesse meio de caminho. Ao contrário, confesso a você que passei esses anos todos muito constrangido de atuar.

 

Por quê?

Porque eu atuava apenas para ganhar dinheiro, para me fazer vivo, me fazer presente, mostrar que a minha carreira de ator não tinha a ver com a de diretor. O que era uma grande bobagem, porque o corpo era o mesmo.

 

Mas não é algo natural trabalhar para ganhar dinheiro?

É, mas eu estava fazendo obrigado, só por causa do dinheiro. Estava fazendo constrangido, porque tinha uma dívida de compromisso com as pessoas que só podia cumprir se gravasse uma novela.

 

Você chegou a fazer coisas que não faria normalmente?

Eu preferia não ter estado no ar esses anos todos antes do filme ficar pronto, depois das acusações. Sempre me senti um pouco idiota me vendo no ar, com tantos problemas do lado de fora. Com tantos compromissos assumidos e não cumpridos. Eu parecia um galãzinho que esqueceu das coisas importantes e dos compromissos sérios que tinha na vida para ir dar beijo em mulher bonita.

 

Ao mesmo tempo, pensava nas dívidas e lembrava que precisava fazer...

É, tinha que pensar nas dívidas, pensar no meu filme, nos meus filhos, na minha família e nas pessoas que trabalharam para mim, e tinha que acabar o filme. Então eu separava 60, 70% do meu dinheiro e gastava no filme, e o resto mantinha minha vida apertada. Mas sempre muito seguro do que estava fazendo. Ninguém entendia o porquê. “Porra, para que gastar nesse filme?”, “Para de botar dinheiro!”, “Não tem mais por que fazer isso, acabou, o que foi, foi, já está bom”, “Vende tudo, vende sua casa, vamos resolver”. E nada disso eu aceitei. Tudo tinha claramente um tempo. Eu dava uns passos, mas sabia que não ia chegar no final porque não tinha dinheiro. Era muito difícil. Sofri muitos esses anos na calada da noite.

 

Em 2000 você já tinha filmado 80% do filme e apresentado uma cópia ao Ministério da Cultura. Não teve a tentação de terminar e entregar logo?

Eu quase apanhei do (diretor) João Emanuel Carneiro, porque ele entrou um dia na ilha de edição com um editor, que é um grande amigo meu, e disse: “Vamos resolver com o que tem”. Eles entraram e fizeram uma versão. Dirigiu a montagem e me mostrou. Eu achei fabuloso, mas era um filme muito difícil, muito artístico, muito autoral. Tinha que ter muito conhecimento da história para compreender aquilo. Dava tesão? Dava. Mas não era o meu filme, era um arranjo. Eles queriam que eu fingisse que estava ótimo, maravilhoso, e não estava. Isso foi em 2000.

 

Num mundo ideal, o cinema brasileiro formaria uma indústria e não dependeria tanto de dinheiro público. Você acha isso viável?

Completamente viável. Basta que nossas autoridades e nossos financistas perceberam que o business é altamente rentável. Cada dia mais. Há uma profusão de canais produzindo, precisando de conteúdo. Você precisa do dinheiro público? Sim, para um primeiro filme, talvez. Tem que existir dinheiro público para cultura dar um primeiro empurrão. Assim como o Brasil precisa de educação, a gente precisa de formação, da plateia e dos profissionais. A gente está muito atrasado, é um inferno. Quem não nasceu na miséria vive com este país agarrado na miséria. Você não consegue resolver esse problema da miséria, não resolve a educação, e nem nada. É um horror, está tudo errado. É difícil pra caralho. A gente está uns 50 anos atrasados.

 

Você chegou a entrar em depressão nesses 20 anos?

Quando eu ia para a antessala do Wilker, tinha uma Kopenhagen no caminho. Antes de subir, como sabia que ia esperar ali por muito tempo, comprava 100 gramas de chumbinho (açúcar coberto com chocolate). Isso por 30 dias. Engordei 10 quilos.

 

Quando você voltou para a Rede Globo, em Estrela Guia (2001), disse que antes estava num processo autodestrutivo. A que pontoo chegou essa angústia? Pensou em se matar?

Jamais. Não tenho esse instinto suicida. Mas tive noites horrorosas, minha família foi atingida. Meus irmãos passaram poucas e boas na rua. E atrapalhou meu casamento em 100%. Talvez eu não tivesse me separado. A minha insistência em gastar todo o dinheiro no filme, em passar dificuldades, foi algo muito penoso. Minha família esteve do meu lado e eu sempre estie muito claro e seguro. Eles não estavam se beneficiando desse “roubo”. Estávamos todos fodidos, porque eu era arrimo de família, minha mãe depende de mim.

 

Teve um momento em que sua mulher te pediu para parar?

Nunca. Ela só queria entender por que o filme não acabava. Mas a nossa relação ficou ruim. Eu dizia para ela ficar calma. Lembro que, no começo do namoro, eu tinha juntado um bom dinheiro dos anos anteriores. Mas pensei que (se gastasse) iam dizer que roubei esse dinheiro com a captação. Sabe o que eu fiz? Investi tudo no filme. Foi a grande cagada que eu fiz. Porque eu não tinha mais dinheiro para pagar advogados. Havia muito preconceito contra mim no escalão de cima da TV.

 

Seus filhos sofreram bullyng na escola?

A minha filha sofreu. Um coleguinha falou um monte de bobagem para ela e eu perguntei qual era o sobrenome dele. Ela me deu o sobrenome e eu descobri que era o de um ator da Globo. Expliquei para ela que o pai daquele menino era um megabandido, que tinha sido demitido da Globo, cheio de ranço. Esse garoto deve ter escutado o pai dele falando mal de mim e só repetiu. Mas eu expliquei para ela tudo bem direitinho, bem didático.

 

Quantas vezes teve vontade de ar uma cabeçada em alguém?

Nunca dei cabeçada em ninguém, mas adoraria.


Você sofreu hostilidade em locais públicos?

Jamais. As pessoas gostam de mim de graça, eu tenho um público enorme que me adora. Esse assunto nosso aqui é elite, é em cima da pirâmide. Lá embaixo eles não sabem o que está acontecendo. Eu me expus e falei com muita convicção o que estava acontecendo. Esse personagem do Guilherme triste, amargurado, foi criado pela imprensa. A imprensa usava fotos minhas só com imagens de tensão, imagens feias. O tempo todo aquelas fotos soturnas. Foram me vendendo como o vilão.

 

Olhando para trás, qual foi o seu pior momento?

Foi quando esse secretário do audiovisual (Manoel Rangel) me deu as costas. Percebi que ele estava decidido a me destruir, ou pelo menos tentar. Quando fui tentar conversar com o cara, ele me disse literalmente: “Você é problema meu só para 2010, 2021...” Ele embaralhou o processo. O TCU sofreu pra cacete para entender o processo.


Você disse que chegou a ficar sem dinheiro para comer?

Passei dificuldades sérias de dinheiro. As pessoas tripudiavam em mim quando eu falava de dinheiro. A TV Globo baixou o meu salário, me tirou benefícios.

 

Chegou a tomar remédios?

Passei, a ter muitos problemas para dormir, a dormir pouco e mal, e tomei remédios. Mas lá no fundo eu tinha uma certa tranquilidade, porque eu não tinha culpa. Mas também não tinha grana, e sem grana não tinha como comprar mídia. Isso me angustiava. Lancei o filme agora e também queria ter mais mídia pra poder divulga-lo.

 

Você usou três expressões na Globo News para resumir a causa dos seus problemas: “ciúme de captação”, “ciúme de mulher” e “amores infantis”. Quando diz isso, não parece que tudo aconteceu porque o galã não quis comer meia dúzia de moças, ou porque as comeu e largou?

Eu comi na hora errada a mulher de uns dois figurões. As pessoas são muito pequenas, e esses problemas estão na base. Mas vou ter de esperar 15 anos para dar nome ao santo. (Maliciosamente.) Porra, eu era tão garotinho...Mas mesmo que soubesse (que daria merda), teria comido. Foi ótimo, um ensinamento. E ninguém dá para ninguém de graça. Dá porque tem tesão.


Você foi um comedor?

Só antes de começar a me casar.

 

De levar duas, três para a cama?

Nunca fui surubeiro. E nem gosto de traição. Dos meus 15 aos 21, fiz aquele strike antual que você faz. Ou fazem com você. Quando você é garoto, é comum ser amante, pegar mulher (casada) insatisfeita. Depois fiquei uns dois anos nessa farra quando me separei da Cláudia. E agora estou solteiro de novo. Estou calmo, muito ocupado, não quero confusão, nem quero casar tão cedo. Não quero nem sair de mão dada.

 

Aliás, parece que você conhece nem a entrevistada de PLAYBOY do mês passado...

Ah, a Luana (Piovani). Minha passagem ali foi rápida, namoramos só uns três, quatro meses. Tinha acabado de me separar de Cláudia, em 1994. Naquela fase, passei dois anos saindo um pouco mais, aproveitando.

 

Você chegou a namorar muita gente do seu meio?

Não tantas quanto o Marquinhos Palmeira...(Risos).

 

Fazer teatro na pré-adolescência foi também uma forma de encaminhar a sua iniciação sexual?

Minha iniciação sexual foi tão banal, tão simples. Era muito novo e peguei uma empregada.

 

Quantos anos, uns 11, 12?

Por aí. Foi engraçado. Passei um fim de semana transando, não sabia nada, depois fui atacado de noite, ela dizendo que eu a tinha engravidado. Foi horrível.

 

Então a sua família inteira ficou sabendo?

Até que não, ela segurou a onda.

 

Mas na época de galã da Globo deve ter sido uma festa, não?

Essa situação de galã é tão relativa, depende muito da Globo. Eles passam um tempo usando um ator, depois acabam com a imagem dele. E eu sempre tive muito medo de ficar o tempo todo no ar, acho terrível que as pessoas tenham de olhar para a cara de um mesmo ator a todo momento. Eu tinha medo de que isso acontecesse comigo. Eu não tinha pressa, trabalhava com parcimônia, não acho que a carreira do ator é imediata. Eu sempre fui muito inquieto, já era produtor de teatro.

 

Mas não houve deslumbramento no auge do sucesso, na primeira metade dos anos 1990?

Não, sempre fui muito centrado. Não em sinto mais ou menos porque tenho mais ou menos sucesso. Eu sempre batalho muito. Por exemplo, quando fiz Bebê a Bordo (1988), foi um sucesso do cacete. Era uma linguagem político-sexual libertária e exacerbada, porque naquele momento estávamos na metade do governo (José) Sarney e ele havia perdido o controle do país. O Roberto Marinho chegou a lugar para mandar a gente pegar mais leve, porque a novela estava muito pesada para o horário das sete. Aquilo foi demais na época. Agora, antes disso eu já tinha vivido coisas incríveis, porque já tinha passado pelo cinema. Toda a minha base, de concentração, de valorização do meu trabalho, teve origem no teatro e no cinema. A televisão é uma consequência. Lembro que eu dizia: “O que eu prefiro, prestígio ou popularidade? Prestígio é mais legal!” Com prestígio você vive melhor, as pessoas começam a te chamar pelo seu nome, não pelo nome do personagem. A televisão populariza, vira uma coisa meio varejão, uma coisa gigantesca. Você perde um pouco o controle do objeto, da obra.

 

Como ator, você também tem fama de ser um cara questionador. Tem uma história, por exemplo, de você teria chegado às vias de fato com o diretor Paulo Ubiratan. É verdade?

Foi a única vez. Não, foram duas vezes, com o Ubiratan e com o (também diretor) Herval Rosano. Tenho horror a grosseria, a falta de educação, e reajo, seja comigo ou com a pessoa ao meu lado. Cheguei atrasado a uma gravação, e os atores nunca são responsáveis pelos atrasos, é sempre a produção, todo mundo sabe disso. O diretor acha que aquele dia é dele. Há uma disponibilidade geral de todo mundo em função daquele deus que se chama diretor, e acho isso uma babaquice. Nesse dia, cheguei atrasado uns 10, 15 minutos. Nada que não se recuperasse com o que eu podia dar no set. Tem atores que repetem e atores que fazem direto, e eu sempre fui um dos que fazem direto. Aí vi uns caminhões indo embora e alguém me disse: “O Ubiratan cancelou a gravação por sua causa, disse que você é um idiota, vai pedir a sua cabeça para a Globo, ai direto no Mário Lúcio (Vaz)”. “Minha cabeça? Não vai, não...” Dei a volta, peguei meu carro, cheguei na sala do Mário e o Ubiratan não tinha chegado ainda. Ele entrou e começou a me xingar. Eu falei: “Vai se foder, vai tomar no cu, está falando comigo desse jeito por quê?”.

 

Alguém além de vocês presenciou essa cena?

Não, estávamos só nós dois e a secretária do Mário na época. Depois a gente ficou amigo. Com o Herval, ele era um homem muito bruto. Ele fez duas comigo. Um dia estava fazendo uma cena dentro d`água naquele canal nojento da Barra. A novela era Gente Fina (1990). No meio daquela lama, naquele nojo, e eu senti que ele estava se divertindo comigo boiando. Quando ele errou duas vezes, eu fui embora. Jamais faria isso se não percebesse que ele estava tirando onda com a minha cara. A outra foi quando cheguei com uma camiseta, ele olhou para ela e rasgou no meu peito. Porra, eu tomei um susto...

 

Por que a Globo te demitiu?

Contei pra Marluce (Dias, diretora-geral da Globo entre 1998 e 2002) que tinha acabado de contratar o (Francis Ford) Copolla para o filme. Ela estava criando a Globo Filmes na época. Tinha uma visão de que os atores da Globo não tinham que ir para a TV a cabo, porque iam disputar com a Globo, Uma visão distorcida de quem não era do ramo. A minha captação era fabulosa. E ela tinha um assessor poderoso que ficava na minha cola prometendo diversas coisas na Globo Filmes. Na verdade, ele estava chupando informações de mercado. Aí eles armaram para mim. Uma autora me chamou para fazer uma novela e eu disse que não gostaria porque já tinha aparecido muito no ano anterior. Me disseram que iriam me demitir porque eu não aceitava participar da novela. Aí aceitei um papelzinho em outra novela só para quebrar o contrato. Uma coisa que nunca vou esquecer é a Marluce ligando na minha casa para pechinchar a grana da minha rescisão. Um papelão, um vexame. Uma pessoa que lidava com milhões.

 

A multa era alta?

Era um dinheirinho. Equivalente a uns 600 mil reais. Logo em seguida eu contratei o Coppola e estruturei a empresa (a Zoetrope Brasil, filial da americana) muito rápido. Do dia que ela me demitiu, sete meses depois a filial da Zoetrope estava instalada com quadros, fibra óptica, tudo muito profissional. Eu já estava atendendo atendendo um monte de filmes nacionais. Eu tinha um pró-labore pequeno daquilo tudo e conseguia viver. Não tenho ambição de ser milionário. Prefiro gastar.

 

Como o Coppola entrou no projeto?

Só o roteiro é em parceria com o Coppola. Mas eles (a Zoetrope, produtora de Coppola) vieram com um orçamento de 47 milhões de dólares na época para a produção do longa, e eu fiquei muito assustado. Só tinha seis, que já era uma enorme quantia para cá. O governo ameaçou tirar meus 6 milhões de reais. Primeiro tentaram tirar o dinheiro, depois quiseram tirar o filme.

 

O Coppola veio ao Brasil mais para se divertir do que para fazer negócio?

Ele veio me conhecer, mas também tratar do meu filme. No último dia, antes dele ir embora, eu brinquei: “Olha, eu preciso te levar num banco”. Ele me olhou meio bravo, mas botou um terno e foi comigo até o banco. Mas ele estava como uma espécie de padrinho, abençoando nossos passos, olhando com carinho para tudo isso. Ele tinha paixão pelo Brasil. E aí, de repente, o brasileiro vem com grosseria para cima dele, dizendo que ele tinha me vendido equipamento usado, uma blasfêmia...

 

Qual foi a melhor coisa de ter ficado amigo do Coppola? Tomar vinhos dele?

Eu passei um Natal com a equipe dele. Gravei tudo o que ele me disse. Entre outras dicas, no começo, uma que eu não segui: “Você não pode produzir o filme que dirige, porque abre todas as concessões e perde muito. Vai todo mundo olhar para você achando que é um saco de dinheiro”. E aconteceu mesmo.

 

Quando você voltou para a TV Globo, em 2001, disse que estava cansado e precisava trabalhar. Foi isso mesmo?

Eles me compraram, me deram um dinheiro grande para fazer Estrela Guia e compraram o meu filme. E eu fui com essa condição para lá. Mas disse para eles que achava curioso eles terem me tirado das páginas policiais de O Globo para me colocar numa trama de príncipe e princesa, com tanta rapidez e na maior facilidade.

 

Você sentiu uma certa hostilidade na sua volta à Globo?

Vou te contar uma história. Uma vez eu fui para Brasília acompanhar a posse do ministro Arthur Virgílio. Levei comigo o Walmor Chagas e a Tônia Carrero. O Walmor virou para mim e disse: “Você está parecendo o Frank Sinatra, uma coisa meio mafiosa”. Porra, eu não tinha aquela grana, aquela voz. O ser humano tem um fetiche pelo crime. Achavam que eu tinha pegado milhões.

 

Foi uma derrota pra você voltar para a Globo?

Foi uma concessão. Uma derrota e uma vitória. Eu não tinha que ter voltado. Eles tinham que ter pago o filme e eu ter concluído. Até como uma maneira de eles corrigirem a imagem que o jornal deles fazia de mim. É muito estranho uma empresa que cuida de sua imagem te detonar em paralelo. Mesmo em nome da liberdade de imprensa. Quando eles quiseram promover a Giulia Gam, fizeram um Globo Repórter para ela. Mas eu tive uma compensação financeira e a compra do filme.

 

Qual é a tua relação com a TV Globo hoje?

A única relação que tinha com eles era entregar o filme. Adoraria voltar para lá, trabalhar, encontrar os amigos.

 

Seus próximos projetos no cinema vão tratar de surfe, protestantismo e UPP (Unidade de Polícia Pacificadora). São coisas que dizem respeito à sua vida?

UPP diz muito porque moro do lado da Rocinha, e sempre me preocupei como seria aquela favela sem líder. O líder estava preso, aqueles 200 homens, a guerra entre eles, as famílias deles, como é que eles estão...

 

Você já chegou a passar por algum aperto na favela?

Passei várias vezes bem no meio dos bandidos. E eles com armas gigantescas no meio da rua, parecia que eu estava em Beirute.

 

Você tinha medo?

Eles sempre me respeitaram, eles conhecem o meu personagem, o que é muito louco. Um dia entrei correndo na favela com o carro, estava meio desligado, e entrou um bandido na minha frente com a arma, batendo no capô do carro. E eu: “Caralho, morri!” Abri a janela rapidinho e, quando ele me viu, falou: “Oh, chefinho, o que é isso...”

 

Ele ia te assaltar e viu que era você?

Não, ele estava puto porque eu estava correndo muito rápido dentro da favela. Hoje em dia a coisa melhorou muito com a UPP, não tem mais aquela coisa dos caras no meio da rua, isso acabou. Não sei se eles estão pelos becos, mas na rua principal não estão mais.

 

A cocaína chegou a fazer parte da sua vida?

Nunca, jamais. Não há nada pior que uma ressaca de cocaína.

 

Mas você já teve as suas experiências?

Já. Mas nunca deixei isso tomar conta da minha vida. Nunca comprei...

 

Teve alguma droga, ilegal ou legal que chegou a te incomodar?

Uma vez eu tomei esse ecstasy, uma coisa horrorosa. Primeiro que ele tinha o tamanho de um Cebion. Segundo que começou a me dar uma tremedeira nas pernas, achei que fosse morrer mesmo naquele momento. Depois foi legal, mas acho que mais por causa do álcool que eu tinha tomado. Mas aquilo deu um revertério em mim que achei muito estranho, muito estranho.

 

Foi uma vez só?

Uma vez para nunca mais. E coisas como LSD, acidinho, balinha, essas eu nunca fiz.

 

Nos momentos mais difíceis, você não usou álcool e drogas para fugir dos problemas?

Nunca. Zero. Não me afoguei no álcool para curar as mágoas. Bebo meu drinque, meu vinhozinho.

 

Mas o que você fez para curar as mágoas?

Impublicável! (Risos.)

 

Publicado originalmente na revista “Playboy” em dezembro de 2015

quinta-feira, 30 de maio de 2019

Grandes entrevistas de PBY: Fernando Morais em 1994



Playboy entrevista Fernando Morais





Uma conversa franca com o autor de Chatô, o livro do ano, sobre sucesso, sexo, corrupção, Quércia – e, lógico, Cuba e Fidel



No último sábado de agosto, o jornalista Fernando Morais terminou de almoçar, acendeu um charuto e saiu a pé pela Praça Vilaboim, em São Paulo. Quase caiu de costas: ao olhar a banca de revistas onde geralmente se acotovelam alguns notáveis da vizinhança, como o presidente eleito Fernando Henrique Cardoso e a roqueira Rita Lee, viu o próprio rosto espalhado por todos os lados, em cartazes da banca e na capa da revista VEJA. Depois de ter escrito mais de uma vez a reportagem principal da grande publicação semanal do país, no período de 1976 a 1978, em que varou madrugadas como editor-assistente na redação, ele finalmente virava notícia maior que o fim da inflação, o começo da campanha eleitoral ou a última novela da Globo.



Fernando Morais pode ter se sentido ali ultrapassando a fronteira que separa as celebridades das pessoas comuns – aquelas que só viram famosas de brincadeira, quando um amigo traz da Espanha um pôster com o nosso nome em destaque num cartaz de tourada. Ele pode ter sentido algo assim, mas jamais saberemos. Embora bem falante e caloroso, o autor do fenômeno editorial do ano – a monumental biografia do jornalista e empresário Assis Chateaubriand (1892-1968), que em dois meses vendeu 100.000 exemplares – é um mestre na escola mineira de ilusionismo.



Quer ver? Fernando Morais está aqui, trabalhando numa reportagem para PLAYBOY ou para seu próximo livro. Mas amanhã pode ser candidato a prefeito ou a governador de São Paulo indicado por seu partido, o PMDB, pelo qual foi duas vezes deputado estadual, uma vez secretário da Cultura e outra vez secretário da Educação. Pode ser visto como um esquerdista ortodoxo, dos últimos agarrados ao paraíso ideológico tropical de Cuba. Mas, ao mesmo tempo, segue ligado à figura do, digamos assim, ultrapragmático Orestes Quércia – um político sobre o qual ninguém conseguiu comprovar qualquer acusação de desonestidade, mas que aparentemente também não consegue convencer muita gente de que é inocente. Aliás, nessa entrevista para PLAYBOY, curiosamente por três vezes o gravador apresentou problemas – e nessas três vezes Fernando Morais estava tendo de falar sobre questões delicadas como a origem do patrimônio de Quércia. “Deus existe!”, disse ele na primeira vez em que o gravador desligou sozinho, no meio de uma fita.



Mas, ao contrário do que possa imaginar, nada acontece por mágica na vida desse mineiro nascido há 48 anos em Mariana, cidade histórica ao lado de Ouro Preto. Aos 13 anos de idade, o futuro secretário de Educação de São Paulo levou bomba na escola, por incompatibilidade com os números. O pai, um bancário que chegaria à vice-presidência do Banco Real, obrigou o filho a trabalhar para pagar os próprios estudos. E foi assim, como contínuo na revista interna do então Banco da Lavoura de Belo Horizonte, que Fernando Morais começou simultaneamente duas carreiras: a de jornalista, ao substituir um repórter numa entrevista com uma miss; e a de grande conhecedor dos mistérios femininos, ao honrar seu primeiro salário uma noite de amor no 32, um rendez-vous aberto a todas as idades naquele final dos anos 1950.



“E a Bruna Lombardi?”, perguntamos a ele a certa altura da entrevista. “O que tem ela?”, devolveu, impassível, o hoje bem-casado (pela segunda vez) Fernando. E nós: “Uma pessoa que estava no lançamento de um livro de poesias da Bruna Lombardi, anos atrás, viu quando ela fez a seguinte dedicatória: ‘Fernando, quando você quiser’”. Impávido, ele jurou que não se lembrava disso, mas minutos depois, quando já falávamos de outra coisa, não aguentou de curiosidade: “Quem é que contou aquela história da dedicatória? Eu nunca falei dela para ninguém”.



Nosso entrevistado, que confessa ser um dos raros brasileiros que não conhecem a alegria de marcar um gol, pois jamais jogou uma única partida de futebol, percorreu no entanto como poucos algumas das passagens mais obscuras da vida nacional recente. Seu primeiro livro, Transamazônica, uma série de reportagens escritas em parceria com o jornalista Ricardo Gontijo, mostrou para o país os aspectos humanos e desumanos da inútil cicatriz aberta na selva durante o governo Médici, no começo dos anos 1970. E os direitos autorais já nessa estreia renderam a Fernando Morais sua primeira moto, uma Honda 450. O segundo livro, A Ilha, uma grande reportagem sobre a Cuba de Fidel Castro escrita audaciosamente no auge da repressão política no Brasil, rendeu mais: superou a marca dos 200.000 exemplares vendidos e deve tê-lo ajudado a se eleger deputado estadual pela primeira vez. Olga, a biografia da revolucionária alemã Olga Benário, mulher do líder comunista Luiz Carlos Prestes, entregue pela polícia política de Getúlio Vargas para morrer num campo de concentração nazista, repetiu o sucesso de A Ilha: não só bateu igualmente a marca de 200.000 livros vendidos no Brasil desde seu lançamento, em 1976, como ganhou versões nos Estados Unidos, na Europa e na Ásia, solidificando o nome de Fernando Morais também no mercado editorial internacional – somadas as edições estrangeiras de Olga e A Ilha, ele já vendeu quase 250.000 livros no exterior.



PLAYBOY, excepcionalmente, mandou uma pequena brigada de entrevistadores para conversas com Fernando Morais, de modo a ter visões distintas do fenômeno em que ele se transformou: participaram da entrevista o editor-contribuinte Guilherme Cunha Pinto, seu colega desde o final dos anos 1960, quando conviveram na redação do Jornal da Tarde de São Paulo; o editor especial Fernando Paiva, que o conheceu em 1978, na companha para deputado; e o editor Ricardo Castilho, que nunca havia falado com ele.



No total, foram nove horas de entrevistas realizadas num estúdio de 45 metros quadrados que Fernando Morais mantém no bairro de Pinheiros, em São Paulo – e que ele comprou com a indenização recebida pelo uso de passagens de Olga na novela Kananga do Japão, que a Rede Manchete exibiu pela primeira vez em 1989. Ali, cercado de fotos, edições estrangeiras de seus livros e dezenas de pastas com documentos que coletou nos sete anos, com largas interrupções, em que pesquisou a vida de Chateaubriand, Fernando Morais passou os seus dias de agosto de 1993 até o mês de julho passado, quando colocou o ponto final em Chatô. Dedilhando seu texto leve e claro num computador 486, ao ritmo de até quatro charutos cubanos fumados por dia, ele esculpiu um volume precioso de 745 páginas e 1,3 quilo, privando-se de muito de sua convivência com a mulher, Marina, e com a filha, Rita, de 14 anos, do primeiro casamento.



Algumas pessoas que queixam de que Chatô é um livro um pesado para ler na cama – mas só porque o braço pode cansar. No mais, é um relato cheio de histórias magníficas, cenas hilariantes e bastidores espantosos do poder que desfilou pelo Brasil ao longo desse século. Mal comparando, é como a entrevista que você vai ler agora: depois que se começa, é difícil parar no meio. Prepare-se para uma leitura agradável, interessante e divertida viagem em torno do personagem Fernando Morais e de outros personagens fascinantes que ele nos traz.



PLAYBOY- Você já fez seu primeiro milhão de dólares?



FERNANDO MORAIS- O que é isso? Bom...Se eu fiz, evaporou. Porque se for vender tudo o que tenho, incluindo esse estúdio aqui e a moto estacionada lá embaixo (uma Harley-Davidson Low Rider de 1300 cilindradas), não dá 30 000 dólares. Onde é que foi parar esse dinheiro? Não sei. Vai ver que eu fumei esse dinheiro, comprei motocicleta, charuto. Eu gosto de viajar...



PLAYBOY- Nem se somar o que está entrando e ainda vai entrar com o Chatô, não faz 1 milhão?



FERNANDO MORAIS- Não acredito. Mas espero que faça o mais breve possível...



PLAYBOY- Antigamente dizia-se que Jorge Amado era o único brasileiro que podia viver bem com os direitos autorais de literatura. Mas ele contou com apoio organizado, se considerarmos a máquina socialista internacional que editou, divulgou e distribuiu os livros dele lá fora...



FERNANDO- Não sei se foi assim. O Jorge Amado faz um tremendo sucesso nos Estados Unidos, por exemplo. Tanto que ele recebeu 500.000 dólares de royalties pelo Tocaia Grande, cinco anos atrás.



PLAYBOY- É um prêmio pelo mérito dele, que ninguém discute. Só estávamos lembrando um esquema que todo mundo sabe que houve nas décadas de 1940 e 1950, principalmente, quando o nome de Jorge Amado se internalizou. E você? Contou com alguma máquina, algum apoio desse tipo nos livros que editou no exterior?



FERNANDO- Ao contrário, eu tive a máquina contra mim. Tive um monumental problema com os comunistas ortodoxos de vários países quando lancei o Olga.



PLAYBOY- Por quê?



FERNANDO- Porque, entre outras coisas, eu revelo que a primeira pessoas para a contar para a polícia que o Luiz Carlos Prestes estava clandestino no Rio, com uma mulher chamada Olga, foi o Rodolfo Ghioldi, que era uma espécie de Prestes argentino, um mito na Argentina até a morte dele, em 1985. A polícia brasileira ainda não tinha ouvido falar no nome de Olga até esse momento. E o Ghioldi disse sem que tivesse tomado uma única porrada.



PLAYBOY- Por que ele teria feito isso?



FERNANDO- Porque ele era um ser humano, e os seres humanos são passíveis de misérias e de grandezas. Eu não sei, por exemplo, qual o seu grau de resistência sob pressão.



PLAYBOY- No dentista, nenhum (risos).



FERNANDO- Pois é, no dentista tem gente para quem basta mostrar o boticário. Então, eu fui a Buenos Aires exclusivamente para ir na casa do Ghioldi, e perguntar se ele tinha sido torturado, como tanta gente naquela época do Estado Novo. Se ele tivesse confessado sob tortura, eu queria incluir isso no livro. Mas ele disse que não, que não tinha sofrido nenhum tipo de violência, além da violência inerente...



PLAYBOY- Psicológica.



FERNANDO- Isso. Tive sorte de ainda conseguir entrevistar o Ghioldi, porque ele morreu poucos meses depois. Então, quando o livro foi lançado aqui, o secretário-geral do Partido Comunista argentino, Athos Fava, veio ao Brasil e me procurou perguntando se eu queria vender os direitos do livro para a editora do partido. Obviamente para não publicar. Tanto é que ele desistiu quando eu disse que vendia, mas o contrato tinha de prever um prazo para ele publicar – se não publicasse dentro daquele período, o contrato caducava. Desistiu, saiu correndo no mundo e conseguiu convencer os cubanos, por exemplo, a não editar o livro. O livro já estava pronto, traduzido e composto em Cuba.



PLAYBOY- E não foi mesmo publicado lá?



FERNANDO- Não foi publicado em Cuba, nem na Alemanha Oriental, na época. Só foi na Chin, espontaneamente. Os chineses publicam o que querem e não pagam direitos, porque a China não é signatária de acordos internacionais de direitos autorais. Eles consideram que qualquer obra realizada por um ser humano faz parte do patrimônio da humanidade.



PLAYBOY- E o autor não pode fazer nada.



FERNANDO- Eles disseram que, se eu quisesse, poderia publicar aqui no Brasil qualquer obra do presidente Mao Tsé-tung também sem pagar nada (risos). Que puta concorrência!



PLAYBOY- Foi só esse episódio no livro que irritou o pessoal linha-dura do socialismo ou teve mais?



FERNANDO- Tem a passagem dramática, trágica, de uma menina assassinada por ordem da direção do partido, na suposição de que fosse informante da polícia – a Elvira Apolônia, uma adolescente, que na minha opinião era completamente inocente, não sabia nada de comunismo, nada de nada. E ela é assassinada de uma maneira brutal: eles quebram o cadáver ao meio, partem o cadáver ao meio, partem o cadáver em dois pedaços, para enterrar no quintal de um sujeito chamado “Tampinha” e de um outro militante chamado “Abóbora”. Não dá para simplesmente atalhar um episódio desse, em nome de proteger o Partido Comunista. Mesmo escrevendo um livro sobre uma heroína socialista. Sabe? Não tem sentido. Depois que o livro saiu, eu discutia com dirigentes do PC e dizia: “Acho que para a história do PC é melhor contar isso do que esconder. Vocês não podem ficar eternamente cobrindo isso com uma pedra”. O (recém-eleito) senador pernambucano Roberto Freire, especialmente, já tinha na época uma visão mais aberta que os outros dirigentes comunistas, e chegou a dar um esporro no Athos Fava, quando ele voltou aqui pedindo para o Partidão me colocar na lista negra – entre outras coisas, o Roberto Freire lembrou que eu não era militante do partido. Muita gente ficou ressentida comigo, também, quando eu contei no Olga que o Prestes tinha ido para a cama com uma mulher, pela primeira vez, aos 37 anos de idade. Como se isso fosse algo que...



PLAYBOY- Um momento: isso foi verdade mesmo? (risos)



FERNANDO- Verdade.



PLAYBOY- E qual foi a reação do próprio Prestes, quando você publicou isso no livro?



FERNANDO- Bom, eu vou revelar uma coisa inacreditável: sabe quem me contou isso? Ele mesmo. Está gravado em fita, a fita está comigo. Ele me contou espontaneamente. No meio de um depoimento, ele me disse – eu não sei se vou reproduzir as palavras com absoluta fidelidade, mas se não for isso é muito parecido: “Como o senhor sabe, ela foi a minha primeira mulher”. E continuou o que estava dizendo. Falou isso de raspão, de passagem. Aquilo bateu em algum lugar da minha cabeça, eu fiz as contas e pensei: “Se ele nasceu em 1898, em 1935 tinha 37 anos. Porra, não pode ver”. Aí voltei e falei: “Capitão, só um momento. O senhor disse que ela foi sua primeira mulher oficial? A primeira mulher com quem o senhor viveu?”. Ele falou: “Não, foi minha primeira mulher. Eu nunca tinha estado com uma mulher antes”.



PLAYBOY- Chocante.



FERNANDO- Para um historiador acadêmico, uma informação como esse provavelmente não teria nenhuma importância. Porque isso não tem relevância para a História oficial – não é o fato de ter sido virgem até os 37 anos que faz Prestes caminhar para este ou para aquele lado. Mas ajuda a compor o retrato humano do personagem.



PLAYBOY- Esse é o ponto. Em Olga, e agora mais ainda no Chatô, a história parece viva, o leitor se envolve nas tramas. Por isso deve ficar muito mais na memória de que a história que se aprende na escola.



FERNANDO- Eu acho o seguinte: existem os bons e maus historiadores, assim como existem bons e maus jornalistas. Mas o que acontece é que o olho do jornalista sempre será diferente. Se você pegar todos os livros sobre Simón Bolívar publicados na América Latina, nenhum vai reproduzir a cena que o Gabriel García Márquez conta na abertura de O General em seu Labirinto, que é o Bolívar tendo uma crise de hemoptise (cuspindo sangue) dentro de uma banheira – um Bolívar frágil, moribundo, ao contrário do Bolívar de bronze, monumental, com todos muques dessa história oficial. Acho que aquele livro do Gabriel García Márquez é muito mais obra de um jornalista do que um literato, de um ficcionista, e eu acho que o olho do jornalista está muito mais interessado em revelar o personagem, com as grandezas e misérias do ser humano, do que escrever história sobre a estátua do personagem.



PLAYBOY- No Brasil isso vem de longe. Aqui, quando aboliram a escravidão, o Ruy Barbosa mandou queimar os arquivos para que se apagasse aquela página triste da nossa História. E ele era considerado o homem mais inteligente do Brasil.



FERNANDO- Foi, para tentar apagar a escravidão...



PLAYBOY- Quando você procura um personagem, existe uma preocupação com a ideologia dele? Tipo: depois de Olga, que era de esquerda, estava na hora de procurar um personagem de direita, como o Assis Chateaubriand?



FERNANDO- Não. Não obrigatoriamente. Muita gente se surpreendeu quando eu disse que estava fazendo o Chateaubriand: “Porra, mas como é que você faz um livro sobre Cuba, depois de uma revolucionária, e agora vai fazer um livro sobre um entreguista, um cara da Light e tal?”. Mas o que conta para mim é o personagem, a sua riqueza pessoal. Procuro alguém que exerça uma sedução sobre mim, portanto, eu pressuponho que vá exercer sobre o leitor. Tanto o Chatô quanto a Olga me encantaram muito apesar de serem dois personagens completamente opostos do ponto de vista ideológico e filosófico, porque por meio deles foi possível recontar um pouco da nossa História.



PLAYBOY- Você chegou a cobrir o velório do Chateaubriand como jornalista, não foi? Na época, já imaginou que poderia fazer um livro assim, mais tarde?



FERNANDO- Não, não. Eu trabalhava para o Jornal da Tarde e fui destacado para cobrir o funeral. O Chateaubriand ficou três dias exposto à visitação pública no prédio dos Diários Associados da Rua Sete de Abril, em São Paulo. Não lembro nem se escrevi a matéria, talvez tenha feito apenas um relatório para incluir alguma coisa no texto final da cobertura. Certamente quando eu vi morto ali aquele catatauzinho – porque ele era baixinho com menos de 1,60 metro -, jamais poderia imaginar que iria dedicar não sei quantos anos da minha vida a ele. Porque ele era um personagem do qual para nós, de esquerda, da nossa geração de jornalistas, só se ressaltava o lado obscuro, o lado negativo. Era o testa-de-ferro da Light, o defensor intransigente do capital estrangeiro, da internacionalização da economia brasileira. Um cara que sonhava com o Brasil á sombra das grandes metrópoles internacionais. E ele diz isso claramente: achava que o Brasil deveria eternamente produtor de matéria-prima, não deveria ser uma nação industrializada.



PLAYBOY- Antes de se decidir a fazer a biografia do Chateaubriand, você pensou em escrever um livro sobre o delegado Sérgio Paranhos Fleury, que comandou repressão política em São Paulo. Por que acabou não fazendo?



FERNANDO- Eu achei que o defunto estava muito fresco. Ele tinha morrido havia pouco tempo e as paixões de todos os lados ainda eram recentes, as feridas ainda estavam abertas. Eu tinha medo de ouvir o pessoal ligado à repressão, ou o pessoal que foi torturado por ele, e fazer um trabalho muito emocionado, desfigurando o personagem. Porque o risco da biografia é esse, não é? Você se deixar levar ou por quem é amigo ou por quem é inimigo do personagem. É preciso esquecer as palavras “bem” e “mal”, não pode ter preconceito de nenhuma natureza, senão o escritor está perdido. Eu passei esse tempo todo (sete anos, da pesquisa e apuração até o ponto final do livro) trabalhando no Chatô com um sinal vermelho aceso, permanentemente, para não me deixar cair na tentação de julgar o personagem. Você vai dizer que ele era um gângster? Mas como um gângster deixa um museu como esse na Avenida Paulista, o Masp? E não deixou para os filhos, nem para as empresas: deixou para todos nós, para a sociedade. Então você vai dizer que ele era um santo? Como é que um santo manda castrar, dar dois tiros no saco de um sujeito que cometei a imprudência de lhe cobrar uma dívida? O leitor é que tem que fazer o julgamento. Diante de um personagem assim, a respeito de quem não existe indiferença – as pessoas amam ou odeiam -, o escritor não pode se deixar levar pela emoção. Porque senão se arrebenta. Senão vai tirar da sepultura e pôr para andar ou o Chateaubriand dos inimigos ou o Chateaubriand dos puxa-sacos. É um cuidado necessário não só para escrever, mas também na hora de pesquisar.



PLAYBOY- Você tem paciência de pesquisar documentos ou prefere entrevistar pessoas?



FERNANDO- Eu adoro. Devo ter alguma coisa de historiador frustrado, adoro pesquisar. Tanto que, ao fazer o Chatô, um dos momentos mais emocionantes foi a localização da célebre Lei Teresoca. Todo mundo falava da lei, todo mundo. Mas ninguém se lembrava do número, lembravam mais ou menos da época, e eu não conseguia localizar de jeito nenhum.



PLAYBOY- Explique o que era a Lei Teresoca.



FERNANDO- O Chateaubriand tinha tido uma filha, que está viva, dona Teresa Chateaubriand Alkmin, com uma atriz argentina chamada Corita, uma mulher belíssima – aliás, em chegava a ser exatamente uma mulher, no sentido lato da palavra: tinha 14 anos quando o Chateaubriand casou com ela. Quando Corita tinha 15 anos, nasceu a Teresa, apelidada “Teresoca”. E aí a Corita se apaixona por outro homem, acontecem histórias rocambolescas, troca de tiros, sequestro, o diabo. Eles se separam e Chateaubriand quer ter o pátrio poder sobre a menina, mas não pode, porque não tinha sequer reconhecido a menina e o pátrio poder, pela lei, era da mãe. Então ele coage Getúlio Vargas a mudar o Código Civil Brasileiro, só para tomar a menina da mãe. Essa lei ficou conhecida nos meios jurídicos como Lei Teresoca, que na verdade foram duas leis feitas sob encomenda.



PLAYBOY- Feitas só para resolver um problema pessoal dele.



FERNANDO- Exatamente. Todo mundo que eu entrevistei falava na Lei Teresoca, e eu não achava a bendita lei. Chegou um momento em que comecei a pensar que era mitomania. Essas coisas de brasileiro: alguém inventa uma história, que vai sendo repetida e recontada e...



PLAYBOY- Vira verdade.



FERNANDO- Só que quando você vai puxar a ponta do barbante não tem história nenhuma. Na verdade, era muito difícil que acontecesse nesse caso, porque a própria filha, a Teresoca, tinha me contado. Mas eu não encontrava. Aí procurei um amigo meu, o advogado, que é um rato de arquivo, o Sérgio Ribeiro. Chorei as mágoas: “Porra, faz mais de um ano que estou atrás dessa lei”. Ele perguntou: “Em que período foi?”. Eu falei: “Parece que foi em 1942”. Ele riu e disse: “O Nelson Rodrigues é que tinha razão. Brasileiro vê tudo, só não consegue ver o óbvio”.



PLAYBOY- Diário Oficial?



FERNANDO- Diário Oficial. Ele foi no Diário Oficial da União e encontrou as duas Leis Teresocas. Estavam lá impressionadas. Era importante documentar esse episódio porque demonstra a força do personagem. Você mexer duas vezes no Código Civil por puro capricho...E olha que não estava lidando com um presidente banana, não era um Itamar Franco. Era o Getúlio Vargas, no auge do Estado Novo. Na época do Getúlio, metade da oposição estava no exílio e a outra metade estava na cadeia. Quando o Getúlio fez a Lei Teresoca, o Prestes estava preso e o Júlio de Mesquita Filho (diretor do jornal O Estado de S. Paulo) estava no exílio. Era um presidente poderosíssimo, inclusive já tinha tomado, confiscado um jornal do próprio Chateaubriand. Não era um cachorro morto que você chegasse lá e chutasse o rabo dele. Então, acho que isso também mostra, dá uma medida do poder que o Chateaubriand teve nas mãos, né?



PLAYBOY- Mas como é que ele fazia aquelas coisas? Juntava um monte de milionários num clube e avisava que eles tinham de colaborar com não sei quantos milhões, porque ele precisava arrecadar dinheiro para comprar aviões, ou para comprar um cólar de águas-marinhas para a rainha da Inglaterra, ou para comprar um quadro para o Masp? E os milionários davam?



FERNANDO- Davam. Morriam de medo do Chateaubriand, não só pelo poder que ele tinha, como pela forma como exercia esse poder, sem absolutamente nenhuma censura. Tinha pânico, e se pelavam, porque sabiam que podia acontecer com qualquer um deles algo semelhante ao que tinha ocorrido com o industrial José Ermírio de Moraes, por exemplo, aqui em São Paulo. Depois de trinta dias de uma campanha devastadora, Chateaubriand não tem mais o que fazer, então vai para a televisão no horário nobre, interrompe um teleteatro (espécie de novela da época, feita ao vivo) e diz o seguinte: “Esse sujeito roubou isso, roubou aquilo, roubou até o sobrenome, porque ele não é Moraes, ele é filho bastardo de um cangaceiro chamado Antônio Silvino (risos), que emprenhou a mãe dele, nasceu esse macaco pernambucano...” Agora, você imagina o Roberto Martinho interromper a novela Pátria Minha para falar do Brizola, para dizer que o Brizola é filho bastardo de não sei quem? (risos) É inimaginável  você pensar em qualquer um dos barões da comunicação de hoje exercendo o poder do jeito que o Chateaubriand exercia.



PLAYBOY- Fora as vezes em que acionava um jagunço e chegava ás vias de fato.



FERNANDO- Ele podia chegar de revólver, de caneta ou de microfone na mão. Por isso o medo que infligia – e não só nas pessoas físicas, não, mas pessoas jurídicas, nos governos também. O curioso é que, mesmo sem escrúpulos, o Chateaubriand conseguiu algumas coisas formidáveis, como dar praticamente toda a base para a aviação civil brasileira, a partir de uma iniciativa pessoal dele.



PLAYBOY- E você? Com que lado do personagem de identificou?



FERNANDO- Para falar a verdade, eu talvez só tenha me identificado com um traço do Chateaubriand: o fascínio que ele tinha pela reportagem. Ele sempre se considerou repórter. Mesmo quando já era um imperador, um megaempresário, quando já era senador, embaixador, ele se registrava em portaria de hotéis como repórter – nem jornalista: repórter. Quando se apresenta à rainha Elizabeth, levando as credenciais de embaixador, diz a ela que não está lá como diplomata, mas como repórter a serviço do presidente Juscelino Kubitscheck.



PLAYBOY- Não seria um pouco de gênero?



FERNANDO- Pode ser. Mas olhe a vida dele, para ver como isso tinha consistência. Nas redações, mais do que qualquer outra função, ele valorizava o repórter, o que explica a paixão que teve por Samuel Wainer – que depois se transformou em ódio doentio -, a paixão por David Nasser, Jean Manzon (jornalistas). O sucesso de O Cruzeiro o que é? É o sucesso da reportagem. Teve uma passagem que me chamou muito a atenção em 1930, quando o país fervilha, às vésperas da revolução: Chateaubriand arma aquela situação para fazer coincidir a chegada de dois navios no porto do Rio – um trazendo o corpo de João Pessoa (então governador da Paraíba), assassinado por razões passionais que os jornais de Chateaubriand conseguem transformar em políticas, e outro trazendo seu inimigo Júlio Prestes (na época, candidato à Presidência). A população está emocionadíssima com a morte, com a violência. Vai toda para as ruas.



PLAYBOY- Deve ter sido como a chegada do corpo de Ayrton Senna.



FERNANDO- Exatamente, uma comoção assim. O Chateaubriand não resiste e também vai à rua, só que como repórter, tomando depoimentos. Ele já era um grande empresário. Era como se o Roberto Marinho saísse fazendo entrevistas na rua durante o funeral do Senna. Em outra ocasião, o Chateubriant vai aos EUA como convidado do governo americano e, em vez de mandar artigos empolados, escreve contando quanto custa um bife em Nova York. Ou informa, escandalizado, que um sapato nos Estados Unidos está custando cinco vezes mais barato que o sapato que ele tinha comprado a Cine Guarany, em São Paulo – e que já tinha precisado de uma meia-sola. Ele era assim. Carregava sempre um toco de lápis no bolso do paletó, provavelmente para poder escrever em qualquer tipo de papel, a qualquer hora – era muito comum ele redigir artigo em guardanapo.



PLAYBOY- Chatô foi o livro que te deu mais prazer de escrever?



FERNANDO- Não se é o que me deu mais prazer, mas certamente é o personagem mais surpreendente em que eu já tropiquei – e olha que sou jornalista há mais de trinta anos e já entrevistei muita gente, de Fernando Collor a Yasser Arafat. Mas, prazer...Porque escrever é um sofrimento, entende? Outro dia eu vi uma entrevista da Rachel de Queiroz ao Jô Soares que reflete bem o que eu sinto. O Jô perguntou: “Rachel, você gosta de escrever?” E ela respondeu: “Não, Jô, eu detesto escrever”. Eu entendi muito bem o que ela estava querendo dizer. Escrever 735 páginas (total de páginas do Chatô) é um trabalho de estivador, é um trabalho braçal. E também um trabalho de relojoeiro, a ourivesaria do texto. Você publica um texto e ás vezes encontra uma palavra repetida, aquilo é uma punhalada no coração.



PLAYBOY- Dá trabalho escrever simples, não é? Porque escrever complicado é fácil, sai na hora.



FERNANDO- Assim como Washington Luiz dizia que governar é abrir estradas, o Machado de Assis dizia que escrever é cortar palavras. Quando eu sentei aqui para escrever o Chatô, fiz um livro de 3000 páginas. Mas fui capando, capando. Por sorte, eu sou casado com uma leitora impiedosa. A Marina, minha mulher, gostou muito do livro, me estimulou muito, mas não tinha nenhum constrangimento em apontar trechos que achava ruins, obscuros. Dou um exemplo de uma passagem que mudei a conselho dela. Depois de consultar neurologistas e de ouvir pessoas que conviviam com o Chateaubriand na fase em que já estava tetraplégico, deduzi que quando ele recebia uma mulher e mandava fechar a porta do quarto, eles deviam fazer sexo oral recíproco. E pus um travessão – “conhecido vulgarmente como 69”. Minha mulher leu aquilo e disse: “Isso está muito grosseiro. Isso salta. Tira isso. Quando você diz ‘sexo oral recíproco’ já está dizendo tudo. Não precisa reiterar”.



PLAYBOY- O Chateaubriand teve uma vida amorosa mais animada que a do Prestes, não é?



FERNANDO- Daria um livro, só com isso. Se bem que eu tive muita dificuldade para reconstituir esse lado, porque a maioria das mulheres se recusou a reconhecer que tinha tido um romance com ele. Houve um caso até mais eloquente, uma atriz que fui entrevistar com muito cuidado, com muito respeito – porque afinal não é um crime ela ter tido um romance com qualquer pessoa. Mas na hora em que ela percebeu aonde eu estava querendo chegar, disse assim: “Um momento, vamos deixar as coisas claras. Eu nunca tive nada com o Chateaubriand, além de relação profissional. A minha relação com ele não era nem um pouco diferente da relação que a Regina Duarte tem com o Roberto Marinho”.



PLAYBOY- Quem é ela?



FERNANDO- Não posso dizer.



PLAYBOY- Era do Teatro Brasileiro de Comédia?



FERNANDO- Não lembro.



PLAYBOY- Usa leite de aveia?



FERNANDO- Não sei, não lembro. Não posso falar, porque ela negou. Só que os filhos do Chateaubriand me contaram que várias vezes chegaram à casa do pai e encontraram essa senhora bonita, de baby-doll às 8 horas da manhã, saindo do quarto dele, depois de ter dormido na mesma cama que ele. Mulher nenhuma dormia com o Chateaubriand impunemente. Isso acabou não entrando, foi uma das histórias que cortei na hora de enxugar o livro.



PLAYBOY- Houve outras passagens desse tipo que você teve de cortar?



FERNANDO- Uma vez, ele estava de olho numa senhora hospedada no Copacabana Palace e, para impressiona-la, resolve promover uma revoada de vagalumes na calçada em frente ao hotel. Manda um grupo de empregados a Santa Teresa, no Espírito Santo, para conseguir com seu velho amigo (o naturalista) Alberto Ruschi milhares e milhares de vagalumes, levados em garrafões ao Rio. Á noite, conseguiu que o major McCrimmon, diretor da Light, desligasse as luzes da rua para que ele pudesse soltar os vagalumes que iluminaram a noite da amada. O produtor Luiz Carlos Barreto me disse que, se alguém filmar Chatô, esta cena tem de ser reincluída no livro só para justificar o título do filme: A Noite dos Vagalumes.



PLAYBOY- Dá para imaginar como acabou essa noite. É difícil encontrar mulher que resista a uma produção e uma imaginação dessas.



FERNANDO- O Chateaubriand fazia um sucesso inacreditável com as mulheres. Pode ser que fosse um pouco pelo poder, mas ele tinha um charme indiscutível. Era um homem inteligentíssimo, que discutia tudo e mergulhava fundo. Era, sem dúvida, um homem encantador. E tinha um apetite sexual fora do comum. Uma secretária dele em São Paulo me contou que não era raro o Chateaubriand chegar do Rio ou da Europa. De qualquer lugar do planeta, à noite no Aeroporto de Congonhas e telefonar avisando que estava indo para o apartamento da Rua Ana Cintra, por exemplo. Ele tinha dois apartamentos pequenos para encontros furtivos, embora fosse solteiro e desimpedido. Quando avisava que estava indo para um desses apartamentos, era sinal que estava com alguma mulher. Aí a secretária dizia: “Mas, dr. Assis, fulana de tal está aqui esperando o senhor”. E ele: “Fala para ele esperar, que eu vou aí daqui a pouco”. Uma hora depois ele de fato passava lá, ia até a redação ver o que teria o jornal no dia seguinte, levava a mulher para o outro apartamento e de novo cumpria suas obrigações cívicas (risos).



PLAYBOY- Mulheres solteiras, casadas...



FERNANDO- Ao mesmo tempo em que tinha um apetite sexual absolutamente incontrolável, era um homem com enorme dificuldade para lidar com uma instituição chamada família. Isso talvez explique a predileção especial de Chateaubriand por mulher casada. Porque mulher casada já está casada, não é? Não vai querer formar outra família. Não digo isso no livro, porque lá eu não faço interpretação nenhuma, mas fiquei pessoalmente com a impressão de que aconteceria isso.



PLAYBOY- Você reforçou várias vezes esse ponto de não interpretar os fatos em seus livros, mas talvez seja uma coisa que valha mais para Chatô e Olga. Relendo A Ilha, hoje, não lhe parece uma visão meio ingênua de Cuba?



FERNANDO- Eu não releio nada do que escrevo. Então nunca mais li A Ilha, mas não acho que seja ingênuo, acho que é um livro objetivo. Muita gente talvez o considere ingênuo, já me disseram até que A Ilha seria comparável ao Mundo da Paz, que o Jorge Amado fez em 1945 sobre a União Soviética, um livro apologético não sei se por encomenda ou não, feito quando ele era militante do Partido Comunista. Mas eu não concordo com isso, não. Se você se der ao trabalho de ler A Ilha, vai ver que nele falo da fila para conseguir comida, falo da falta de liberdade de imprensa. Claro que é um livro superado, datado, porque é um retrato de um país naquele momento, e isso já tem quase vinte anos. Agora, também não é um livro de alguém contra Cuba. Eu sou solidário com a revolução cubana por tudo o que eles fizeram, por tudo o que Cuba significou para várias gerações, no mundo inteiro.



PLAYBOY- Quantas vezes você esteve em Cuba?



FERNANDO- Umas vinte. A última vez foi há dois anos e meio, naquele polêmico Voo da Solidariedade. Eu já estava decidido a não participar da caravana, porque era um charter que saía numa sexta-feira e voltava na outra, e nesse meio tempo começaram as aulas em São Paulo, onde eu era Secretário de Educação. Havia um acúmulo aqui e não era legal o secretário estar fora. Mas a imprensa tratou aquele voo de uma forma tão preconceituosa que eu fui de pirraça, de raiva.



PLAYBOY- Fica difícil falar sobre Cuba, porque quando essa entrevista aqui for publicada, mesmo sendo dentro de poucos dias, a situação lá pode estar de cabeça para baixo. De um dia para o outro pode mudar tudo.



FERNANDO- Olha, a tendência natural das pessoas foi imaginar que, depois que caiu o murro, depois que a União Soviética acabou, iria acontecer com Cuba a mesma coisa que aconteceu com a Polônia, a Bulgária, a Tchecoslováquia e toda a Europa Ocidental. Mas não é bem assim, porque embora houvesse em comum entre esses países toda uma dependência econômica da União Soviética, eram realidades bem diferentes. A partilha da Europa foi uma espécie de Tratado de Tordesilhas entre as duas grandes potências que venceram a II Guerra Mundial, os Estados Unidos e a União Soviética. Então teve polonês ou tcheco que dormiu capitalista e acordou socialista, sem que nunca ninguém tivesse batido na porta da casa dele e perguntando se ele estava a fim, se ele concordava com aquilo. E isso foi na Europa Ocidental praticamente toda. Agora você pense em Cuba, pense no Vietnã também: por que o Vietnã não acabou com o regime socialista? Porque é uma situação, historicamente, muito parecida com a de Cuba: o socialismo foi fruto de uma revolução feita pela população de arma na mão. Isso é indiscutível, não precisa você ser a favor ou contra o regime para concordar – é uma conceituação histórica. Aquilo foi uma revolução feita pela população cubana de trabuco na mão.



PLAYBOY- Sim, mas em 1959.



FERNANDO- Em 1959, mas reiterando várias vezes essa vontade. Inclusive se você considerar uma coisa: em Cuba a maioridade se atinge aos 16 anos. Nessa idade, todo mundo, homem ou mulher, faz serviço militar, aprende a atirar e passa a ser depositário de uma arma de fogo. Então, o potencial de insurreição civil é incomum. Uma vez eu li numa revista britânica que os dois povos do mundo com maior e mais rápida capacidade de mobilização bélica de sua população eram Israel e Cuba. Se um dia tentarem fazer lá o que fizeram no Haiti...Agora, é claro que existem problemas gravíssimos em Cuba, dramáticos, mas não insolúveis. É evidente que eles próprios se deram conta de que precisam rever muitas coisas, que o mundo está mudando, a sociedade está mudando. Só que eles continuam com uma particularidade: estão a 150 quilômetros da maior potência bélica do planeta, que quer destruí-los, segundo as declarações reiteradas de sucessivos governos americanos. Falam do regime socialista – mas existe algo anacrônico do que bloqueio econômico? É isso que os Estados Unidos estão fazendo contra os cubanos.



PLAYBOY- Você não acha que as pessoas lá não aguentam mais? O povo se atirando ao mar naquelas boias...



FERNANDO- Eu pergunto o seguinte: se o Cid Moreira, hoje à noite, anunciar no Jornal Nacional que o governo americano está dando visto permanente, com direito a trabalhar, para todos os brasileiros que quiserem ir para lá – quantas pessoas você acha que saem daqui?



PLAYBOY- Bom, se você fizer essa pergunta em Governador Valadares...(risos).



FERNANDO- E mais: imagine que o seu país é aqui em São Paulo e os Estados Unidos ficam mais ou menos em Piracicaba, logo ali. Então, eu acho compreensível que uma pequena parcela...



PLAYBOY- Pequena parcela? O pessoal está lotando barcos, os atletas que saem para competir no exterior pedem asilo.



FERNANDO- Neste ano saíram 15.000 pessoas, muito menos que em 1980, quando 150 000 cubanos foram embora.



PLAYBOY- Mas se Cuba não tivesse Fidel Castro ainda vivo o regime já teria caído, você não acha?



FERNANDO- (Irritado) Se, se, se...É difícil dizer. Mas seguramente o peso do carisma dele, a relação da população com ele contribuem muito para a permanência do regime.



PLAYBOY- Já que vocês se conhecem há tantos anos, como é que o presidente Fidel Castro trata você, pessoalmente? Ele é uma pessoa fácil? Aliás, existe alguém que possa dizer assim para ele, como o Chateaubriand dizia para o presidente Getúlio Vargas: “Mas então, ditador, como vamos?”.



FERNANDO- Não.



PLAYBOY- De jeito nenhum?



FERNANDO- Não. Ele é uma pessoa muito austera, impõe muito respeito. Não tem disso, não. Apesar de ser um sujeito bem-humorado. Numa das primeiras conversas que eu tive com Fidel, ele perguntou o que eu tinha achado de Cuba. Eu falei que estava impressionado com a educação, com a saúde e com o fato de a revolução ter acabado com os bohyos. Ele disse: “Como? A revolução não acabou com os bohyos”.



PLAYBOY- O que é bohyo?



FERNANDO- É favela, barraco de favela. Eu disse: “Acabou, sim. Estou aqui há um mês e meio, rodei o país inteiro e não encontrei nem um único bohyo”. Ele falou: “Olha, sei lá, pode ser alguma inibição sua...Nós acabamos com um monte de coisa aqui, mas se um dia a revolução acabar com os bohyos o povo me derruba, acaba a revolução”. Aí um rapaz cubano que estava junto, meio sem jeito, me perguntou: “O que é que você está querendo falar?” Eu disse: “bohyo, caiapa”. Ele falou: “Não, isso é bohio. Bohyo é xoxota” (risos). Era tudo uma questão de pronúncia.



PLAYBOY- Nessa época, quando você foi para Cuba pela primeira vez, os passaportes brasileiros tinham esse carimbo: “Válido para todos os países, exceto Cuba”.



FERNANDO- Exatamente. Eu fiz questão que os cubanos carimbassem meu passaporte, apesar da advertência expressa. Eu não queria que parecesse que eu tinha ido lá clandestinamente.



PLAYBOY- Como é que você conseguiu ir para á?



FERNANDO- Eu estava pedindo um visto para os cubanos desde o início dos anos 1970, quando ainda trabalhava no Jornal da Tarde. Um dia, quando eu estava em Portugal fazendo uma reportagem já para a revista Visão, me avisaram que o visto tinha saído. Viajei no começo de 1975. A única exigência que fizeram foi que eu cortasse a barba, para que na volta não tivesse problemas com o pessoal mais linha-dura, que poderia achar provocação. Cortei em Buenos Aires, no caminho de volta.



PLAYBOY- E chegou a ser preso?



FERNANDO- Não, dessa vez, não. Acabei sendo preso numa outra volta de Cuba, em 1978, pelo dr. Romeu Tuma (então diretor da polícia política paulista, o Dops, hoje senador eleito pelo PL), com quem hoje tenho relações cordiais. Eu e minha mulher na época, a Rúbia, fomos presos no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, e o Chico Buarque e o (escritor)) Antônio Callado foram presos no Galeão, também com suas mulheres, a Marieta e a Ana. Estávamos voltando de um concurso da (entendida cultural) Casa das Américas, em que tínhamos sido jurados. O Chico e a Marieta ainda estavam trazendo um bebê, filho de um baterista, e foram presos pela Marinha, eles e a criança. Abriram a bagagem da gente. A única coisa perigosa que encontraram nas minhas malas foi charuto. Caixas e caixas de charuto que, aliás, apreenderam. Um dia ainda vou processar o Dops, processar o Estado de São Paulo por não devolver minhas caixas de charuto.



PLAYBOY- Que não custa barato, nem em Cuba.



FERNANDO- Que era meu pô! Independentemente do preço, paguei do meu bolso. O meu medo era que o Chico tinha feito show para os exilados que estavam em Cuba e eu tinha gravado o show com meu gravadorzinho. Uma coisa amadora: eu pus o gravador no palco só para ter o registro, e estava com a fita no bolso da calça. Por sorte não mexeram no meu bolso, porque isso poderia comprometer o Chico. Cantar para exilado naquela época, pô, isso era um delito. Especialmente exilados em Cuba, que eles consideravam mais perigosos do que o pessoal que estava exilado em Paris, porque supostamente estariam se preparando para a guerrilha.



PLAYBOY- E o pessoal de Paris se preparando para ser presidente da República (risos).



FERNANDO- É, era uma visão equivocada da repressão, porque muita gente que estava na luta armada se exilou em Paris, ou não? E em outros lugares, na Itália, em outros países da Europa.



PLAYBOY- Você sempre foi ligado em política, desde pequeno?



FERNANDO- Sempre. Com 12 anos de idade já distribuía santinho para o Tancredo Neves em Belo Horizonte, naquela eleição para governador que ele disputou com o Magalhães Pinto. Fiz campanha para um deputado que já morreu, Jorge Ferraz, que acabaria sendo dirigente do MDB – ele era meu vizinho e eu era amigo dos filhos deles, então eu ia junto pelo interior de Minas, pedindo voto, acompanhando comício. Sempre gostei de política e continuo gostando. Há pouco saí da campanha (presidencial) do (ex-governador de São Paulo Orestes) Quércia. Ajudei o Quércia modestamente, até porque primeiro eu ainda estava escrevendo o Chatô, depois estava lançando o livro, mas, enfim, estava lá na campanha. Fiquei com ele até o fim.



PLAYBOY- O que você quer dizer com “fim”?



FERNANDO- Fiquei com o Quércia até o dia das eleições. Muita gente caiu antes.



PLAYBOY- Quem, por exemplo? O governador Fleury?



FERNANDO- Não sei.



PLAYBOY- Foi o que saiu em vários jornais.



FERNANDO- Não sei. Eu fiquei. Passamos o dia da eleição reunidos no sitia da minha mulher perto de Campinas, as famílias e um grupo de amigos, e ele estava muito bem – já sabia, obviamente, que ia perder, mas estava bem-humorado, com o espírito muito alegre. Não falou em nenhum momento o que ia fazer dali para a frente, nem perguntei.



PLAYBOY- Você já perdeu muitas amizades por causa dessa sua ligação com Quércia, não é?



FERNANDO- Uma porrada.



PLAYBOY- Você não acha que pode estar levando a extremos o agradecimento por ter iniciado a vida pública ao lado dele, depois por ter sido secretário do governo dele...



FERNANDO- Não, espera aí. O que me aproxima do Quércia não é uma gratidão por ter sido secretário dele, nem é uma fidelidade à pessoa dele. É uma convicção der que ele tem mesmo um compromisso com os mais pobres, com a tigrada do Brasil, mesmo. Além disso, assim como o Brizola, o Quércia é um político que construiu toda a carreira dele nas urnas, nunca foi biônico, nunca se comprometeu com a ditadura, com a tortura, numa época em que muita gente que hoje posa de democrata, sabe, estava do lado de lá do rio. Eu mesmo vi, testemunhei nas greves do ABC, em 1979, muito antes de ele ser governador e eu ser secretário dele, o nosso carro cercado pelo DOI-Codi. Jogaram bomba de gás dentro e ele não permitiu que prendessem o (sindicalista) Alemãozinho – o mesmo Alemãozinho que não o apoiou agora, apoiou o Fernando Henrique...



PLAYBOY- Desde quando você conhece o Quércia?



FERNANDO- Eu já tinha feito uma reportagem com ele, em 1974, quando ele se elegeu senador. No ano seguinte teve um episódio que nos aproximou mais, justamente quando eu tinha voltado daquela minha primeira viagem a Cuba e estava escrevendo A Ilha. Não me prenderam no aeroporto mas, meses depois, numa sexta-feira, dois oficiais do DOI-Codi foram me procurar no meu emprego. Eu já não estava mais na Visão, estava na Editora Três, fazendo o jornal Aqui São Paulo com o Samuel Wainer. Ficava no 14º andar de um prédio na Avenida Paulista. Lembro que o Domingos Alzugaray e o Luiz Carta, donos da editora, ficaram enrolando os dois policiais lá, enquanto eu escapava pelas escadas. No dia seguinte, mataram o jornalista Vladimir Herzog, o Vlado, no DOI-Codi. O Quércia, já senador, foi ao enterro do Vlado, e agora não me lembro se foi o George Duque Estrada, se foi o Rodolfo Konder ou o Paulo Markun – um dos jornalistas que estavam presos e puderam ir escoltados ao velório, a pretexto de dar um abraço no Quércia cochichou no ouvido dele: “Tenta achar alguém da família do Fernando Morais e conta para ele que na hora do pau, da tortura, eles querem saber o que é que ele foi fazer em Cuba”. Então o Quércia se deu ao trabalho de procurar o Carlinhos Wagner, meu irmão, hoje falecido, para dar o recado.



PLAYBOY- Aí você fez o quê?



FERNANDO- Assim que escapei do prédio na Avenida Paulista eu sumi por alguns dias, junto com minha mulher na época, a Rúbia. Um amigo me emprestou uma garçonnière que tinha ao lado do La Licorne, uma boate famosa na Boca do Luxo da época. Não deixa de ser engraçado você ir a uma garçonnière com a própria mulher. Aliás, tinha uma coisa lá que me chamou muito a atenção: um garrafão de 3 litros daquele líquido para limpar lente de contato (risos). Devia ser alguma tara de alguns dos usuários da garçonnière, porque esse líquido você encontra em frascos minúsculos, você usa gotas. E tinha um garrafão daquilo. Devia ser alguma perversão que até hoje não consegui decifrar. Depois, como bom mineiro, fui me exilar em Minas Gerais, na cidade de Guaranésia, onde o avô da Rúbia era o coronel político. Não tinha nenhuma televisão lá, a gente ficou uns quinze dias sem notícia nenhuma, sem nada para fazer. O engraçado é que os parentes da Rúbia, os tios e as tias, viam a gente ali, nós completamente deslocados, em pleno meio do ano enfiados na cidadezinha, sem nada que justificasse a nossa presença – e não perguntavam nada, silenciosamente solidários conosco. Aquela coisa de mineiro. Guimarães Rosa: “Você viu jacaré na lagoa?” “Não, eu não vi. Mas também ninguém viu” (risos). Até que o deputado Airton Soares, que era o meu advogado, descobriu com um oficial da Justiça Militar que o meu nome tinha saído da lista de capturas. Além do que eu já estava mais tranquilo, depois que meu irmão me passou o recado do Quércia. O problema era só a viagem para Cuba. Resolvi voltar a São Paulo, depois de uma longa conversa com minha mulher, em que eu disse mais ou menos o seguinte: “Eu nunca dei um tiro, nunca assaltei um carrinho de picolé, não sou militante de nenhuma organização clandestina. Se a gente for embora, corre o risco de assumir uma culpa que não tem e a gente não sabe quando vai acabar essa ditadura...”.



PLAYBOY- Voltando então à questão do Quércia. Ele fez esse favor a você.



FERNANDO- Sabe, tem passagens da vida do Quércia...O primeiro pedido de CPI do Congresso para esclarecer o destino dos chamados “desaparecidos” foi ele que fez. A primeira emenda constitucional de uma Constituinte foi o Quércia que apresentou. Então, é um cara que tem uma história do lado do bem.



PLAYBOY- Se fosse escrever a biografia do Quércia, como é que você explicaria o patrimônio dele? Como é que alguém que não é rico entra na política, se dedica integralmente à política e fica rico?



FERNANDO- Deixa eu dizer uma coisa para você. Em 1978, o Quércia ainda não tinha sido governador, nem vice-governador. Não havia uma única denúncia a respeito dessas supostas irregularidades dele. Em 1978, então, eu era candidato a deputado estadual pela primeira vez e um dia precisava fazer um comício em Jales, a 600 quilômetros de São Paulo. Eu tinha uma Brasília velha, o fundo dela já estava soltando, não dava para pegar estrada com ela. Quando liguei para Jales e avise que não podia ir ao comício, me disseram para arrumar uma carona com o Quércia, que ele também estava indo ao comício. Telefonei ao Quércia e perguntei se ele poderia me dar uma carona. Ele respondeu que tudo bem, só que precisaria ir a Campinas, porque ele sairia de lá. Cheguei no apartamento dele e vi que era luxuoso – para os meus padrões, pelo menos, era um apartamento de gente rica. Achei que iríamos de Opala, mas fomos no avião dele, aliás, o próprio Quércia pilotando. Ele já tinha avião naquela época. Então, essa pergunta que você está fazendo eu já fiz para ele. E o Quércia me disse o seguinte: “Eu sou um homem de negócios desde os meus 18 anos. Eu compro e vendo terrenos, faço empreendimentos, faço incorporação.” Ele contou que quando tinha 14 anos comprava restos de tomates de um agricultor japonês perto da chácara do pai dele em Pedregulho, e ia vender em Franca, para ganhar dinheiro.



PLAYBOY- Mas ele ter avião em 1978 não prova muita coisa. A crítica a ele começa muito antes, quando ele foi prefeito de Campinas e justamente teria enriquecido fazendo incorporações, compra e venda de terrenos com o futuro Plano Diretor da cidade na cabeça.



FERNANDO- Eu vou dizer com toda a honestidade: se eu tivesse dúvida sobre a honorabilidade do Quércia, eu não teria feito a campanha dele. De maneira nenhuma. Agora, eu acho que a gente precisa tomar um cuidado muito grande, nós, jornalistas, para evitar os casos como o do (ex-ministro da Saúde) Alceni Guerra. O Alceni foi linchado, a reputação dele foi destruída, e ele foi absolvido de todas as acusações. Destruído, por uma campanha de imprensa. E não há mais nada, rigorosamente nada, contra ele.



PLAYBOY- Você investigou o passado do Quércia com o rigor com que pesquisou a vida do Chateaubriand?



FERNANDO- Sim...Não, evidente que não. Eu não fui em cartório ver, mas tenho convicção, pelo que sei, pelas informações que tenho, pelo que ele me disse e pelo que leio também. Porque não se provou nada contra ele.



PLAYBOY- Você acha que ele foi injustiçado na eleição para presidente?



FERNANDO- Não sei se ele foi injustiçado, se a expressão é essa. Acho que essas eleições tiveram um componente absolutamente atípico – acho que o próprio Fernando Henrique honestamente há de reconhecer que quem foi eleito foi o Plano Real, foi a moeda. Aqui entre nós, se dois anos atrás você falasse que o Fernando Henrique seria presidente da República, ninguém acreditava. Isso não significa um julgamento depreciativo da figura do Fernando Henrique, não, eu gosto muito dele, acho que ele tem uma biografia impecável. Seguramente é um dos intelectuais mais bem preparados do Brasil, embora tenha uma experiência política relativamente pequena. Mas a eleição dele foi atípica.



PLAYBOY- Você já foi duas vezes deputado e duas vezes secretário de Estado. O curioso é que, como jornalista, você nunca revelou nenhuma sede de poder dentro das relações. Nunca foi editor-chefe, diretor...



FERNANDO- Pelo contrário. Mas na política também. Eu sou uma pessoa sem o menor apetite pelo poder.



PLAYBOY- Mas ninguém chega a secretário de Estado sem ambições.



FERNANDO- O poder só me interessa na medida em que você pode usar aquilo como instrumento para realizar suas utopias. Exclusivamente. Não tenho vaidade pessoal, sabe? Bater continência, me chamar de excelência...Qual é? Sabe, a reverência do poder, o carro oficial...Para que carro oficial? Eu ia de moto para a secretaria, pô.



PLAYBOY- Secretário de Estado tem direito a guarda costas?



FERNANDO- Se quiser, tem. Na Secretaria da Cultura, durante o governo Quércia, eu acabei completamente, não fazia sentido. Ficou só um assistente militar que ás vezes resolvia problemas muito engraçados. A polícia prendia algum ator com maconha, então ligavam para mim: “Secretário, prenderam fulano de tal, que estava com fumo”. Aì eu ligava para esse assistente militar: “Olha, tem um probleminha aí e tal, relaxa o elemento” (risos). Na Secretaria da Educação, que eu assumi em 1990 no governo Fleury, eu tive de manter um esquema de segurança, por causa das passeatas, das discussões ás vezes ásperas com a militância da Apeoesp (a Associação dos Professores em São Paulo). Uma vez invadiram o meu gabinete e eu tive de dizer: “Aqui não, é meu lugar de trabalho, tem minhas coisas aqui”.



PLAYBOY- Como é sair do jornalismo e passar para o outro lado da trincheira? Quando você se elegeu deputado, por exemplo. A nossa imagem da Assembleia Legislativa é que aquilo lá é uma festa. Como é a sua visão, você que passou oito anos lá dentro?



FERNANDO- Foram dois mandatos diferentes. O primeiro, de 1978 a 1982, foi extremamente gratificante. Foi um mandato de oposição, exercido 90% fora da Assembleia, em porta de fábrica, em porta de cadeia. Em 1982, o PMDB ganhou a eleição em boa parte do Estado e os deputados do PMDB viraram despachantes de prefeitos. O prefeito precisa de uma verba da Secretaria da Educação para construir uma escola? O deputado vai lá e pressiona o secretariado. E eu não estava a fim de fazer isso, passar a vida em gabinete de secretario pedindo para ele cumprir a obrigação dele, que é construir escolas, delegacias, posto de saúde, não tem sentido um troço desses. E não deu outra. Acabou o segundo mandato e eu perdi a eleição para a Constituinte por não me ter sujeitado, como deputado estadual, a isso. E por falta de dinheiro também. Eu não ia tomar dinheiro de empreiteiro, chegar para ele e dizer: “Olha, o senhor me dá 1 milhão de dólares, que eu defendo seus interesses lá”.



PLAYBOY- Quanto custa em média uma eleição para deputado federal?



FERNANDO- Essa última, eu ouvi dizer aqui em São Paulo que teve candidato que gastou 20 milhões de dólares para se eleger.



PLAYBOY- Mas, com oito anos de Assembleia, você ganhou aposentadoria.



FERNANDO- Ganhei.



PLAYBOY- Quanto?



FERNANDO- É uma aposentadoria de 25% da parte fica dos vencimentos de um deputado. Dá uma bobagem...Uns 600 ou 700 dólares.



PLAYBOY- Essa aposentadoria precoce é uma das coisas que mais deixam a população indignada.



FERNANDO- Mas sabe que não tem como abrir mão? Eles depositam na sua conta, dá mais trabalho abrir mão do que receber. Todo mês você precisaria dar um cheque, depositar na conta da Secretaria da Fazenda...



PLAYBOY- Isso acabou em 1990 em São Paulo?



FERNANDO- Acabou, mas só dali para a frente. Quem já tinha, continuou com o direito adquirido. A lei que acabou com essa aposentadoria dos deputados foi apresentada pelo PT, mas sabe quem sancionou? O Quércia, que poderia ter vetado. Foi um dos últimos atos dele como governador.



PLAYBOY- Como secretário de Estado você ganhava quanto?



FERNANDO- Perto de 1 200 dólares.



PLAYBOY- Não acha pouco?



FERNANDO- Mas eu passei dois governos reclamando, do Quércia e do Fleury, que eu ganhava uma merda. Eles riam. Riam de mim, diziam que não podiam porque tinha a lei, o teto, isso e aquilo. Tinha gente nos dois governos com grana. No governo do Fleury, por exemplo, tinha um secretário, meu colega – inclusive meu advogado -, Manoel Alceu Alfonso Ferreira (ex-secretário de Justiça de São Paulo). O Manoel é milionário, todo mundo sabe. Então ele podia pegar aqueles 1 200 dólares ali e doar para uma instituição de caridade. Eu não. Eu precisava daquilo para pagar BNH, para pagar pensão da minha filha. Por casualidade, tinha dinheiro de direito autoral, mas acho isso uma hipocrisia, uma doença que vem de Brasília e vai até a prefeitura do município: o Estado sempre paga mal e muitas vezes fecha os olhos para o sujeito que rouba.



PLAYBOY- Algum esquema de corrupção bateu a sua porta?



FERNANDO- Nunca. Eles sabem em que porta bater. Ninguém nunca insinuou, nem milhões de dólares nem pequenos nem milhões de dólares nem pequenos favores. Nunca aconteceu de o sujeito dizer...Aliás, para não dizer que não teve nem pequenos favores, quando eu assumi a Secretaria da Educação me telefonou um amigo de infância de Belo Horizonte. A Secretaria de Educação de São Paulo, você sabe, é um negócio monstruoso – controla um orçamento de 2 bilhões e 700 milhões de dólares por ano. Mexe com montanhas de dinheiro, é um universo do tamanho da Dinamarca. Aí me ligou o amigo de infância de Belo Horizonte, que eu não via há muito tempo: “Aqui é fulano de tal”. Para falar a verdade, eu nem lembrava direito dele. “Olha, eu sou relações públicas de uma empreiteira mineira e estou te telefonando para dizer o seguinte: nós temos uma casa em Angra dos Reis, uma casa de veraneio, temos um jatinho e um helicóptero à sua disposição, quando você quiser”. Ele me convidou para passar um final de semana lá e respondi que não precisava, que minha mulher tem um sítio aqui em Campinas, aonde a gente vai sempre nos fins-de-semana. E ele: “Ah, você casou?”.



PLAYBOY- Aí ele perguntou qual é o número de anel de esmeraldas que ela usa (risos).



FERNANDO- Não, aí ele disse: “Tudo bem. Se você quiser ir sem a patroa, nós temos umas cunhadas lá e tal” (risos). Achei engraçada a expressão que ele usou. Acabei levando no bom humor e ele nunca mais ligou.



PLAYBOY- Comparando as duas experiências e olhando para a frente, você acha que tem mais futuro como político ou como escritor?



FERNANDO- O futuro a Deus pertence. Mas o que eu sei é que não tenho planos de disputar mais eleição.



PLAYBOY- Nenhuma?



FERNANDO- Eleição parlamentar, seguramente não. Não tenho dinheiro para isso – e, mesmo que tivesse, não poria nisso. Eleição majoritária é diferente: não só o partido banca, como você tem horário na TV para difundir sua candidatura.



PLAYBOY- Quando você fala isso, está pensando em candidatura para a prefeitura ou para o governo do Estado?



FERNANDO- Em nenhuma das duas. Eu não gostaria de disputar uma eleição, em princípio.



PLAYBOY- E o novo projeto de livro? Que personagens estão crescendo na sua cabeça?



FERNANDO- Tenho vários projetos, alguns novos, outros antigos. Um personagem que continua me interessando é um anarquista italiano chamado Oreste Ristori, que veio para o Brasil no começo do século junto com outros anarquistas que ajudaram a fundar o Partido Comunista aqui. Foi expulso do Brasil umas quatro ou cinco vezes, e sempre arrumava um jeito de voltar clandestino, até ser morto na Guerra Civil Espanhola. Eu descobri esse personagem em Milão, onde existe um arquivo histórico do movimento operário brasileiro, durante a pesquisa para o Olga. Tem a famosa história do padre Hosana, do Nordeste, que mata o bispo que tenta força-lo a deixar a mulher. Ele tinha um romance clandestino e o bispo vai fazendo pressão, ameaça excomunga-lo, retirar os votos. Ele mata o bispo a tiros. É uma história fascinante, dá uma peça de teatro.



PLAYBOY- Onde foi isso?



FERNANDO- Não sei se é Caruaru, Garanhuns... (Levanta-se para apanhar um recorte de jornal) Olha que maravilha: “Eu mataria o bispo de novo”.



PLAYBOY- Que outro personagem?



FERNANDO- Tem o general Setembrino de Carvalho, conhecido como “Mata Cachorro”, que era o general que as Forças Armadas destacavam para reprimir todos os movimentos sociais, desde o final do século passado até a Coluna Prestes. É uma figura muito interessante. Mas, sabe, não preciso partir obrigatoriamente de um personagem. Pode ser um episódio, um crime. Por exemplo, esse caso do menino que matou a família toda em São José dos Campos (SP), eu estou com a boca cheia d´água – com todo respeito à memória dos falecidos. É muito melhor que a história de A Sangue Frio. Se você põe o Truman Capote para contar esse crime aí, dá de dez no A Sangue Frio.



PLAYBOY- E a história do personagem Fernando Morais?



FERNANDO- Eu vivi em Mariana, cidade histórica mineira, profundamente religiosa, até meus 4 anos. Meu pai era bancário, gerente do Banco da Lavoura, e era ateu. Alguns dos meus oito irmãos minha mãe conseguiu batizar na surdina, mas a maioria não foi batizada, eu inclusive. Quando os meus dois irmãos mais velhos – o Carlinhos Wagner e a Gilda – chegaram na idade de ir para o colégio, meu pai não quis coloca-los no seminário nem no colégio de freiras. E foi a Belo Horizonte procurar um internato. Entre o que ele podia pagar e a qualidade que pretendia para a escola dos filhos, o meio-termo acabou determinando a escolha do Colégio Batista Brasileiro de Belo Horizonte. Naquela época as figuras mais importantes de Mariana eram o prefeito, o bispo, o delegado de polícia e o gerente do único banco da cidade. Quando o bispo dom Helvécio Gomes de Oliveira soube que o gerente do banco tinha feito, veio até nossa casa paramentado, vestido de bispo. E começou a dar um sermão no meu pai, de dedo em riste na cara dele. Disse que não permitia que o gerente do banco onde a Cúria depositava o dinheiro educasse suas crianças num colégio batista, num colégio protestante. Meu pai, primeiro educadamente, disse para ele que não admitia ser tratado daquela maneira, na casa dele, na frente da mulher dele, na frente dos filhos. E o bispo continuou muito agressivo, insultando meu pai, e aí não teve outra alternativa senão encher o bispo de porrada (risos).



PLAYBOY- Daí sua fascinação pelo padre de Caruaru!



FERNANDO- Acho que o meu pai tinha toda a razão. Só que o bispo baixou uma sentença de excomunhão vitanda, o que significa que só pode ser revertida por uma decisão do papa. E meu pai teve de sair de Mariana e foi para Belo Horizonte. O que, por essas ironias do destino, talvez tenha determinado nossa vida – meu pai chegou a vice-presidente do banco e eu estou aqui. Um pouco por essa casualidade, pela mão de Deus (risos).



Publicado originalmente na revista Playboy em dezembro de 1994