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terça-feira, 22 de novembro de 2022

Mojica early years, parte XIV: 1976-1979: Delírios de Um Anormal

            Capítulo 15: 1976-1979: Delírios de Um Anormal

 

Por André Barcinski e Ivan Finotti


No início de 1976, Mojica procurou o produtor Alfredo Cohen implorando por um emprego. Sua situação nunca estivera tão crítica: além de não ter um tostão furado no bolso, ainda corria risco de perder sua parte em A Estranha Hospedaria dos Prazeres, já que Nelson Teixeira Mendes, de quem havia alugado câmera e luzes para fazer o filme, ameaçava entrar com um processo na Justiça caso não recebesse logo pelo aluguel. Mojica assinou com Cohen um contrato para a produção de Inferno Carnal, uma adaptação de um antigo roteiro de Rubens Lucchetti. Antes, porém, topou dirigir mais uma pornochanchada para Augusto de Cervantes, Como Consolar Viúvas.

Augusto estava passando por uma fazer muito difícil. Poucos meses antes, sua companheira por vinte anos, Nilza de Lima, morrera de um câncer no útero. Agora a filha de Nilza – e sua atual namorada, Georgina Duarte – fora diagnosticada com a mesma doença. Foi a própria Georgina quem escreveu o roteiro de Como Consolar Viúvas, uma comédia erótica sobre um espertalhão que tenta enganar três viúvas ricas. Augusto, sabendo que ela não teria muito tempo de vida, pediu a Mojica que apresasse as filmagens.

Mojica rodou o filme em dezesseis dias. Com o roteiro que dispunha, não conseguiria fazer uma fita decente, mesmo que tivesse dezesseis anos. As piadas eram das mais tacanhas – já uma brincadeira recorrente com um personagem que cultiva mandiocas – e os atores também não ajudavam. A única curiosidade de Como Consolar Viúvas é o local onde foi filmado: Georgina queria um apartamento com uma cama ampla para filmar as cenas de sexo. Sua filha Ana Nilsen (atriz de D´Gajão Mata Para Vingar) sugeriu usar o apartamento de seu namorado, o cantor Peri Ribeiro, que havia herdade de sua mãe, a grande cantora Dalva de Oliveira, vários móveis antigos, incluindo uma linda cama colonial. Todas as cenas eróticas foram filmadas na cama que pertencera à romântica Dalva de Oliveira.

Mojica ainda tentou dar um toque pessoal ao filme, adicionando algumas cenas sobrenaturais, como uma em que um sujeito é atacado por um vibrador voador, mas o resultado não foi dos mais empolgantes. Envergonhado, ele decidiu novamente assinar com o pseudônimo de J. Avelar. Goergina pelo menos pôde ver sei filme concluído. Morreu seis meses depois.

Assim que terminou Como Consolar Viúvas, Mojica iniciou as filmagens de Inferno Carnal. A verba para o filme foi conseguida novamente na base da “vaquinha” entre alunos, e completada por um adiamento do distribuidor Alfredo Cohen. A produção era tão pobre que o almoço da equipe foi o queijo provolone que havia sobrado da festa no Viola de Ouro, cinco meses antes.

No filme, Mojica interpreta o cientista George de Medeiros, um gênio da química que se dedica à descoberta da fórmula de um ácido poderosíssimo. Enquanto ele passa as noites trancado no laboratório, sua mulher, Raquel (Luely Figueiró), diverte-se com o amante, Oliver (Osvaldo de Souza). Juntos, eles planejam matar o cientista e ficar com sua fortuna. Numa noite de tempestade, Raquel entra no laboratório do marido, joga o ácido em seu rosto e foge com Oliver, acreditando ter matado George. Só que George sobrevive e começar a planejar sua diabólica vingança. A história fora escrita por Rubens Lucchetti como um episódio do programa O Estranho Mundo de Zé do Caixão, chamado “A Lei do Talião”, exibido em agosto de 1969 na TV Tupi, com José Parisi no papel do cientista e Irene Ravache interpretando a esposa.

Com Inferno Carnal, Mojica provou mais uma vez ser incapaz de criar um ambiente de alta burguesia convincente. Seu personagem é um milionário, mas anda numa Brasília velha, guiada por um motorista vestido de trocador de ônibus; seu “laboratório” não passa de meia dúzia e tubos de ensaios cheios de suco de uva, e o tal ácido poderoso fica guardado num vidro de maionese destampado. Para completar, George, o cientista, usa um jaleco com o nome de Oliver, amante de sua mulher (a gafe foi resultado de um erro dos dubladores, que trocaram os nomes dos personagens).

Mojica filmou às pressas. Estão tão desinteressado pelo filme que perdeu a seu assistente Marcelo Motta para dirigir algumas sequencias. Na terça-feira, 20 de julho, quando trabalhava na dublagem de Inferno Carnal, recebeu a notícia de que Nelson Teixeira Mandes havia perdido na Justiça a penhora de seus bens. Imediatamente ligou para Mendes, tentando, como já fizera diversas vezes, adiar o pagamento. Pediu que ele esperasse pelo menos até o lançamento de A Estranha Hospedaria, quando então teria dinheiro para quitar sua dúvida. Mas Mendes recusou. Disse que estava farto de desculpas e prometeu confiscar todos os bens de Mojica.

- O único bem que eu tenho é o Biribinha! – respondeu Mojica, referindo-se a uma velha perua DKW que havia comprado em sociedade com o técnico Luizinho de Oliveira. – Se quiser, pode confiscar!

Assim que desligou o telefone, Mojica empalideceu. Nilce perguntou o que havia acontecido. Ele respondeu que não estava se sentindo bem e que precisava descansar. Naquela noite nem bebeu, o que era um péssimo sinal. Acordou na manhã seguinte com uma forte dor no peito. Seu assistente Satã levou-o para a Clínica de Doenças Internas, no Ipiranga, onde os médicos fizeram um eletrocardiograma e descobriram quer ele havia sofrido um enfarte. Teria de ficar internado.

Na verdade, era só uma questão de tempo até que Mojica viesse a sofrer algum problema sério de saúde: ele fumava quatro maços de cigarro por dia, bebia como um peixe e alimentava-se basicamente de torresmo frio e linguiça calabresa boiando no óleo. Na sua cabeça, no entanto, logo despontou um único culpado para seu infortúnio: a “máfia do cinema”. Mojica teve a ideia de usar o enfarte para angarias simpatia e denunciar a tal “máfia” que, na verdade, era composta apenas por seus credores. Ele convocou a imprensa para fotografá-lo deitado na cama da clínica, cercado de médicos, e deu várias entrevistas nas quais dizia ter sofrido uma parada cardíaca que o deixara clinicamente morto por quatro minutos (“Agora que eu já vi a morte de perto, poderei fazer filmes de terror muito melhores!”). Também revelou, sem especificar nomes, que a “máfia do cinema” estaria tentando matá-lo.

- Na primeira noite que passei aqui na clínica, uma mulher veio ao meu quarto de madrugada e desligou meu tubo de oxigênio. Se não fosse por um discípulo meu que estava de guarda, eu estaria morto!

Mojica queria aproveitar ao máximo a situação. Durante sua internação, ele começou a rodar um documentário sobre sua própria vida, chamado O Diabólico Reino de Zé do Caixão. A ideia de fazer o filme já existia há anos, mas o momento agora parecia ser ideal, já que seus alunos e a imprensa estavam sensibilizados pelos episódios do enfarte e não hesitaram em ajudá-lo. Nilce e o faz-tudo Luizinho de Oliveira sugeriram a Mojica reencenar o episódio de sua internação, para incluir no documentário. Poucos dias depois, Mojica, usando o equipamento alugado por Alfredo Cohen para Inferno Carnal, dirigia a cena de sua chegada à clínica. Ele apareceu deitado na cama, sem camisa e desfalecido, enquanto os médicos tentaram reanimá-lo com pancadas no coração. Sua mãe, Carmen, observa angustiada, ao lado de Nilce e Satã.

Uma semana depois, Nilce pediu outro favor a Quintavalle: queria fazer uma entrevista dentro da clínica. O médico ficou temeroso de que o movimento pudesse perturbar os outros pacientes, mas Nilce garantiu que seriam poucos repórteres. No dia marcado, vieram mais de vinte jornalistas, além de fotógrafos e cinegrafistas. A clínica parecia o Maracanã em dia de decisão.

Para aproveitar a presença dos jornalistas e fazer publicidade do novo filme, Mojica mandou decorar o quarto com fotos de Inferno Carnal. Ele chamou seus credores de “abutres que se alimentam da carcaça do cinema nacional” e pediu ajuda ao povo para sair da penúria em que se encontrava. A súplica tocou fundo no coração de seus alunos, que imediatamente iniciaram a campanha “Ouro para o Mestre”, doando alianças, relógios e correntinhas de ouro para pagar a conta da clínica.

Mojica passou quase vinte dias internado. Já havia melhorado bastante e poderia receber alta a qualquer momento. Mas Nilce, percebendo que a sexta-feira seguinte cairia no dia 13 de agosto, teve uma brilhante ideia: implorou ao dr. Quintavalle para deixar Mojica internado por mais alguns dias. Depois ligou para os jornais e anunciou que Zé do Caixão receberia alta na sexta-feira, 13 de agosto, exatamente às 13h13.

No dia marcado, seus alunos fizeram uma grande festa na porta da clínica. Todos os jornais e emissoras de TV cobriram o evento. Mojica saiu amparado por dois assistentes, com ar de abatido. Abraçou seus discípulos, choravam e gritavam “Longa vida ao mestre!” e “Os abutres do cinema nunca irão nos derrotar!”. Com lágrimas nos olhos, ele agradeceu o apoio de seus alunos: “Sei que muitos de vocês chegaram até a empenhar seus dentes de ouro na Caixa Econômica. Eu nunca vou esquecer isso!”.

Mojica deu entrevistas aos jornais, identificado os supostos membros da tal “máfia do cinema”: primeiro acusou o produtor Antônio Polo Galante (Trilogia de Terror) de ter dado um calote em seus alunos, que teriam atuado como figurantes num filme, sem receber nenhum tostão. Depois, disse ter sido ludibriado por Nelson Teixeira Mendes numa transação de aluguel de equipamentos. Reservou farpas também para outro produtor, Renato Grecchi, a quem acusou de ter embolsado dinheiro a mais na venda de filmes seus como O Estranho Mundo de Zé do Caixão. Mojica não poupou ninguém: disse estar decepcionado com a falta de profissionalismo das atrizes Marizeth Baumgarten (A Estranha Hospedaria dos Prazeres) e Helena Ramos (Inferno Carnal), que teria se comportado de maneira arrogante no set de filmagens, chegando sempre atrasadas e ainda exigindo aumento de salário. E finalizou: “Outras estrelinhas sem responsabilidade e senso profissional que me sinto na obrigação de denunciar são Arlete Moreira, Sônia Suega, Aldine Müller, Sônia Garcia, Denise Ongarelli e Dirce Moraes”. Curiosamente, ele trabalharia com Arlete Moreira um ano depois, no filme Estupro.

Nelson Teixeira Mendes ficou furioso ao ler as reportagens e pediu direito de resposta. Disse que Mojica não passava de um alcoólatra e charlatão, que enganava seus alunos com falsas promessas de sucesso no cinema. Acusou-o de desonesto e de ter sumido por meses depois de receber dinheiro para dirigir o faroeste Papa Defunto, o Pistoleiro (Mendes acabou contratando o diretor Mimo Valdi para terminar o filme).

No fim das contas, depois de todos os artigos de jornal e de tantas denúncias sobre mafiosos que só existiam na sua imaginação, Mojica continuava sem dinheiro para saldar a dívida com Mendes. Alfredo Cohen veio em seu socorro e saldou a dívida com Mende em troca de um percentual maior na bilheteria de Inferno Carnal. Com um cheque, Cohen aniquilou toda a “máfia do cinema”.

 

Em meio a essa agitação toda, Nilce vivia um grande drama pessoal: estava grávida de Mojica. Ele não queria que Rosita e Maria descobrissem, e tampouco contava com a ajuda de Dona Carmen, que ainda a culpava pelo fracasso do casamento do filho. Resolveu esconder a gravidez de Carmen, apesar de morarem juntas no pequeno sobrado da Moóca. Nilce passou a sair às cinco da manhã e ficava o dia inteiro no estúdio. Só voltava às onze da noite, quando Mojica já estava dormindo.

No dia 5 de janeiro de 1977, exatos doze anos depois de seu primeiro encontro com Mojica, Nilce deu luz à uma menina, Nilcemar, logo apelidada de Nilcinha. Assim que saiu da maternidade, ela levou a filha para a casa dos pais, no Brás, Maria soube do nascimento da criança e, desconfiada de que o filho era de Mojica, foi correndo tirar satisfação. Chegou na porta da casa e tocou a campainha. Ninguém atendeu. Furiosa, começou a esmurrar e chutar a porta como uma louca. Uma vizinha saiu, assustada: “Não faça isso, dona, a moça aí acabou de ter um neném e precisa de descanso!”. Maria respondeu: “Pois eu vim mesmo para estrangular mãe e filha!”.

Depois desse episódio, Nilce mudou-se para um sobrado no Alto da Moóca, alugado por Mojica. Pela primeira vez na vida, tinha casa só sua. Assim que se recuperou do parto, voltou a frequentar o estúdio. Quando saía para trabalhar, deixava a filha com a irmã, Rosa Feo. Às vezes, quem cuidava da menina era Fátima Senna Porto, uma jovem de 19 anos, recém-chegada à escolinha. Nilce gostava de Fátima, menina esforçada e muito prestativa. Mojica também curtia a nova discípula, mas por outras razões: era uma morenaça de encher os olhos. Logo estaria de caso com Fátima.

Com mais uma namorada, a situação de Mojica passou a ser a seguinte: continuava morando com Maria e os três filhos no Brás, mas quase não parava em casa. Passava os dias com Nilce no estúdio e as noites com Fátima em algum boteco. De vez em quando, ainda arrumava um tempinho para visitar Rosita. Tudo isso, enquanto acertava o lançamento de vários filmes e tentava levantar dinheiro para novos projetos. Em fevereiro de 1977, ele tinha nada menos de quatro fitas simultaneamente em cartaz em São Paulo: A Estranha Hospedaria dos Prazeres, Como Consolar Viúvas, Mulheres do Sexo Violento (co-dirigido por Francisco Cavalcanti) e Exorcismo Negro, que estava sendo repisado dois anos depois de seu lançamento. Em maio, estreou também Inferno Carnal. Logo depois, ele foi contratado pela atriz Rosângela Maldonado para ajudá-la na direção da comédia erótica A Mulher que Põe a Pomba no Ar.

Mojica estava ansioso para terminar logo o filme com Rosângela e poder se dedicar a seu próximo projeto, Delírios de um Anormal, que marcaria a volta de Zé do Caixão às telas. Pela primeira vez desde Exorcismo Negro, tinha esperanças de fazer um bom filme. Seria seu retorno ao terror, depois de experiências malsucedidas com pornochanchadas, comédias e filmes de suspense. Rubens Lucchetti havia escrito um ótimo roteiro, sobre um psiquiatra (Jorge Peres) que é atormentado por alucinações com Zé do Caixão.

Assim como a maioria dos filmes que havia rodado durante os anos 70, Delírios de um Anormal foi financiado na base da coleta entre alunos. Mojica sabia que não teria muito dinheiro para fazer o filme, por isso decidiu utilizar diversas cenas que havia criado para outras fitas, fazendo uma colagem com as melhores imagens de seus grandes clássicos. Muitas dessas sequencias ainda eram inéditas para o público, pois haviam sido cortadas pelos censores dez anos antes. Mojica acreditava que a Censura, bem menos severa em 1979 do que no fim dos anos 60, liberasse o novo filme sem reclamar.

Mais de 90% das cenas de alucinação de Delírios de um Anormal foram tiradas de Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver, O Estranho Mundo de Zé do Caixão e Exorcismo Negro. A maior ousadia de Mojica, no entanto, foi incluir diversas sequencias de Ritual dos Sádicos, filme que continuava interditado. Nenhum dos censores percebeu o truque.

Em Delírios, Lucchetti novamente colocou Mojica interpretando dois papéis: o dele próprio e o de Zé do Caixão. O cineasta José Mojica Marins é chamado pelos amigos do psiquiatra delirante para ajudá-lo a curar sua obsessão pelo personagem. É curioso – e ao mesmo tempo triste – notar a preocupação de Mojica em mostrar-se sempre como um diretor de sucesso e fortuna: ele aparece sentado na confortável sala de sua mansão (na verdade a casa de um bicheiro, seu amigo), fumando um cachimbo e tomando um bom scotch. Depois, passeia pelo jardim e observa os empregados divertindo-se na piscina. Um amigo comenta: “Poxa, Mojica, você dá tantas regalias a seus funcionários!”.

Enquanto no filme os funcionários de Mojica tomavam banho de piscina, na vida real os infelizes comiam o pão que o diabo amassou: o diretor de produção Giulio Aurichio, o assistente de câmera Luizinho Oliveira e o ator principal do filme, Jorge Peres, foram encarregados de conseguir vários morcegos para uma cena. Alguém sugeriu que eles tentassem embaixo de uma ponte na Via Anchieta, no caminho de Santos. Munidos de lanternas, gaiolas e uma rede de pesca, os três rumaram para o local.

Realmente não faltava morcego na Anchieta. Eram milhares. Luizinho, Giulio e Jorge pegaram a rede e começaram a caçá-los como se estivessem pescando no ar: quando os bichos voavam, dando rasantes em suas cabeças, eles arremessavam a rede e os capturavam em pleno voo. Mas os morcegos morriam esmagados assim que a rede batia no chão. Luizinho teve a ideia de esticar a malha em frente a um buraco, por onde saíam os pequenos vampiros. A tática deu resultado e logo eles pegaram mais de cinquenta. Puseram os bichos nas gaiolas, cobriram com um pano preto e voltaram ao estúdio.

Durante a viagem de volta, morreram trinta morcegos. No estúdio, os outros também começaram a bater as botas, um atrás do outro. Quando chegou a hora de filmar, só haviam sobrado cinco. Assim que o fotógrafo Giorgio Attili ligou os holofotes para iluminar a cena, ouviu-se o crespilhar das asas dos morcegos, torrando sob as luzes fortes. Morreram queimados.

- Incompetentes! – gritou Mojica, possesso. – Não conseguem nem achar um morcego que preste!

A turma teve de improvisar, amarrando fios de náilon nas patas dos morcegos. O resultado não foi dos melhores: em vez de voar, os vampirinhos aparecem saltitando pelo cenário, como se fossem ioiôs.

Outra cena que demandou muito esforço foi a do “túnel de nádegas”: Mojica havia pedido ao carpinteiro e eletricista Rafael Bastos que construísse um túnel de madeira com vários buracos no teto. A ideia era botar moças sentadas em cima da estrutura, com as nádegas nos buracos. De dentro do túnel, veria-se apenas um monte de nádegas, que seriam maquiadas e pintadas com olhos e bocas. Como as moças não podiam se mexer, sob risco de arruinar a maquiagem, as coitadas tinham de ficar por horas enlatadas no túnel, num desconforto terrível.

 

A decisão de reciclar cenas antigas para compor as alucinações em Delírios de um Anormal foi vista como uma grande trambicagem por vários produtores e fãs. De um ponto de vista puramente estético, no entanto, o filme é uma maravilha: a montagem de Nilce é preciosa e a seleção de cenas não poderia ser melhor.

Para atrair a atenção da imprensa, Mojica começou a espalhar que Delírios era uma colagem de todas as cenas cortadas pela Censura, o que não era verdade (muitas sequencias já haviam sido exibidas nos cinemas). Inventou também uma tremenda cascata, dizendo que havia usado no filme um novo processo cinematográfico, recém-descoberto nos Estados Unidos, chamado “para-audiovisual”. Segundo ele, o processo causava delírios e alucinações nos próprios espectadores. Para provar, mandou seus alunos simular chiliques e desmaios dentro dos cinemas. Ninguém acreditou. Quando o filme estreou, Mojica bolou outra atração, o “estande humano”: diversos alunos foram para a porta dos cinemas, fantasiados de monstros, e reencenaram sequencias do filme. O estande foi um sucesso e rendeu diversas reportagens.

Todo esse esforço promocional, no entanto, não livrou o filme de críticas negativas. No jornal Última Hora, Jean-Claude Bernardet reclamou – com razão – que o uso de imagens antigas e o excesso de cenas de alucinação prejudicavam o andamento da fita:

 

Delírios de um Anormal apresenta-se como uma antologia ou museu de filmes anteriores de Mojica, a totalidade, ou quase, das alucinações do “anormal” são fragmentos de outros filmes, o que dá um tom particular a este novo filme. Primeiro porque Zé do Caixão fica mudando constantemente de caro: as sobrancelhas, a barba, as unhas de Mojica, a cara mais ou menos gorda se modificam a cada sequência, uma variação sobre si próprio. E também porque as sequencias de inferno, tortura, sadismo, isoladas dos enredos para os quais foram concebidas, tornam-se estáticas. O filme não anda. Os pesadelos se multiplicam, mas em cada um deles repetem-se incansavelmente. O tempo parou. O que sobra são efeitos visuais, cenografia, bichinhos etc. Algumas dessas imagens são fortes, outras ridículas, como as desse inferno povoado de chacretes infernais de véus roxos. Aqui, o inferno está entre o fantástico show da vida e Chacrinha.

 

O crítico de O Globo, Ely Azeredo, viu no uso de cenas antigas um protesto de Mojica contra Censura:

 

Delírios de Um Anormal é menos (ou mais) que um filme. É um desabafo, um protesto, um festival. A rigor, não deveria receber cotação. Dez anos depois de proibição (que persiste) de Ritual dos Sádicos, o criador de Zé do Caixão, José Mojica Marins – que sofreu cortes desde o início de sua filmografia de terror, iniciada em meados da década de 60 – resolveu promover à sua maneira uma celebração do obscurantismo oficial. Aproveitando certo relaxamento dos rigores censórios, realizou Delírios apoiado no fato de que nada se perde, tudo se transforma (...) Para os críticos e cineastas aficionados de Zé do Caixão e de seu criador, Delírios deve valer por uma orgia de prazeres cinematográficos (...) Quem não conhece outros filmes de Mojica e entrar na sala que exibe Delírios deve ficar perplexo e/ou desertar sem demora. O que a Censura, em outras oportunidades, condenou como excesso, torna-se efetivamente excessivo nesse festival de cortes resgatados. As alucinações (além de repetitivas, redundantes) têm em comum uma poluição sonora e visual difícil de suportar (...) Mojica presenteia os aficionados com visões infernais temperadas com insólitas aparições de nus e de muros decorados com muitos traseiros e seios. Um gênio incompreendido? Há quem responda afirmativamente.

 

Delírios de Um Anormal levaria mais de um ano para ser lançado. Nesse meio-tempo, Mojica prosseguiu as filmagens do documentário O Diabólico Reino de Zé do Caixão, e co-dirigiu outro filme de Rosângela Maldonado, A Deusa de Mármore – Escrava do Diabo, uma história mística sobre uma mulher de 2 mil anos de idade – interpretada pela própria Rosângela – que se conserva bonita e jovem sacrificando homens para Satã.

Foi durante esta filmagem que ele fez amizade com o produtor Wilson Garcia, dono de uma grande loja de autopeças no centro de São Paulo. Garcia tinha bastante dinheiro e gostava de cinema. Quando Mojica lhe falou da ideia que tinha para um novo filme, Estupro, ele ficou imediatamente interessado. O projeto tinha tudo para ser um sucesso: alguns meses antes, Mojica havia sido apresentado a Elza Leonetti do Amaral, uma quarentona bonita e elegante, conhecida em todo o país como a “milionária assassina”. Fazia dois anos que ela havia matado a tiros seu amante, o ricaço Roberto Lee. Elza alegou legítima defesa e foi condenada a dois anos de prisão domiciliar. Depois surgiram indícios que ela havia forjado o suicídio de seu primeiro marido, o milionário Anésio Augusto do Amaral Filho, de quem havia herdado não só o sobrenome, mas também todo o dinheiro. Mojica sugeriu a Elza fazer um filme inspirado em sua vida, sobre uma mulher que, traída e maltratada pelo marido, resolve se vingar. Ela adorou a ideia se dispôs a bancar parte da produção. Mojica foi além e prometeu inclusive usá-la como atriz. Já podia até ver as manchetes: “Filme reúne Milionária Assassina e Zé do Caixão”.

Wilson Garcia farejou ouro na jogada e topou entrar de sócio. O orçamento ficou em 1 milhão de cruzeiros. Combinaram que Garcia pagaria metade e Mojica e Elza dividiam a outra parte. Só que Mojica não tinha onde cair morto. Seu plano era pegar a grande de Garcia, começar a rodar Estupro e depois usar o dinheiro da bilheteria de O Diabólico Reino de Zé do Caixão e Inferno Carnal para finalizá-lo. Isto é, se conseguisse lançar os dois filmes. Outra hipótese seria convencer atores e técnicos a trabalhar de graça. Ele teve uma ideia: reuniu seus amigos e sugeriu rodar um filme-relâmpago, bancado por cotar, na qual ele atuaria e dirigiria sem ganhar nada. A bilheteria seria toda dos alunos. Em troca, o pessoal se comprometeria a trabalhar de graça em Estupro. A turma concordou e poucas semanas depois já estava rodando Mundo, Mercado do Lixo – Manchete de Jornal.

Mojica anunciou o filme como sua homenagem aos jornalistas. Ele interpreta um repórter que recebe de seu editor a missão de encontrar uma manchete em menos de 24 horas, sob risco de perder seu emprego. O intrépido homem de imprensa pega seu bloquinho e sai pela cidade em busca de uma notícia, mas dá um azar tremendo e sempre perde os acontecimentos por questão de minutos.  É só ele ir embora de um lugar que logo acontece alguma tragédia ou crime. Enquanto ele está na rua procurando uma manchete, o editor vai até sua casa e estupra sua mulher (bela homenagem aos jornalistas!). No final, o personagem de Mojica mata o editor e acaba virando a própria manchete do dia.

As filmagens levaram apenas três semanas. Mojica filmou numa correria louca, improvisando a maioria das cenas. Seu filho Crounel, então com 15 anos, foi assistente de direção, continuísta e escreveu vários diálogos, além de fazer uma ponta. Para Crounel, foi um curso intensivo de cinema “mojicano”, uma chance de sentir na pele a dureza de filmar sob condições tão precárias. No roteiro, havia uma cena passada numa favela. A equipe de Mojica chegou ao local e não havia favela alguma.

- Ué pai, cadê a favela? – perguntou Crounel.

- Que favela? Não tem favela, tem um bar! – disse Mojica, apontando para um botequim.

- Mas pai, no roteiro não tem bar, tem favela!

- Não tem, porque você não escreveu ainda! Começa logo, que a gente vai filmar já!

Crounel ficava louco com o esculacho do pai. Ele era um rapaz caprichoso e metódico, que se orgulhava de suas boas notas na escola e de seu conhecimento de teatro e cinema. Passara meses estudando o método de Stanislavsky, e agora tinha de aprender, em questão de minutos, o método “caixotesco” de cinema de improviso. Como todos os outros discípulos de Mojica, Crounel aprendeu rápido: Mundo, Mercado do Lixo foi rodado, montado e dublado em menos de dois meses. Só estrearia, no entanto, mais de um ano depois, com o título mudado para Mundo, Mercado do Sexo, para tentar faturar em cima da onda de pornochanchada.

 

A equipe nem teve tempo de descansar: mal terminaram Mundo, já iniciaram as filmagens de Estupro, outra história passada nos círculos do “soçaite” paulistano. Mojica bolou um enredo envolvendo uma moça pobre que se vinga do milionário que violentara sua irmã. Ele próprio interpreta o vilão, comendador Vitório Palestrina, um ricaço italiano, cafajeste ao extremo, que se satisfaz humilhando suas amantes e gabando-se de suas conquistas sexuais.

Palestrina violenta uma jovem, Sílvia (Nádia Destro) e, numa cena grotesca, arrancha um dos mamilos da moça a dentadas. Orgulhoso de sua façanha, o tarado exibe o mamilo para os amigos, como se fosse um troféu de caça. Em seguida, é apresentado a uma linda moça, Verônica (Arlete Moreira), mas ela não parece atraída por seu charme irresistível. Louco de paixão e desejo, Palestrina faz de tudo para conquistar a rapariga, sem saber que na verdade ela é irmã da menina que ele seduzira. Elza Leonetti interpreta uma advogada que acusa o comendador de ter violentado Sílvia.

Os grã-finos de Estupro andam de terno quadriculado e tomam uísque em copo de requeijão; o comendador, para impressionar Verônica, leva-a para um banho de mar em Santos, e em seguida convida seus amigos para um jantar chique – numa churrascaria da Praça da República! Os diálogos são pretensamente rebuscados e soam ridículos. Durante uma aula na USP (a personagem de Verônica é estudante de medicina) um dos alunos pergunta: “Professor, o soro glicosado 5% pode ser injetado na veia?”. O professor rebate com outra pérola: “O coração é dividido em duas aurículas e dois ‘ventríloquos’”. A trilha sonora do filme beira o surreal: Mojica usou – sem pagar um centavo – músicas de Pink Floyd e Paul McCartney. Cada vez que seu personagem aparece, ouve-se o tema de A Ponte do Rio Kwai.

Ninguém gostou do filme. os críticos malharam e a Censura exigiu a mudança do título para algo mais “ameno”: Perversão. Na revista Isto É, Rubens Ewald Filho escreveu:

 

Difícil é aceitar que Mojica seja um milionário, principalmente italiano, como é seu personagem, o comendador Vitório, com sua casa povoada de grã-finos da Boca do Lixo, vestindo terninhos da Ducal e comendo salgadinhos em bandejas de papelão. A ideia que Mojica e seus colegas cineastas da Boca fazem dos ricos merece um estudo sociológico. Segundo eles, os ricos são todos imbecis sem profissão, que dizem frases em português escorreito, formulando ideias dignas de uma novela de rádio, e com uma única ideia na cabeça: de faturar as vadias que se passam por mulheres da sociedade (...) O triste é que José Mojica Marins, nos seus primeiros filmes (Á Meia-Noite Levarei Sua Alma e Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver) tinha um certo charme do malfeito. Era como um pintor primitivo que levaram para a escola a fim de aprender a pintar. Disseram-lhe que era gênio e ele acreditou. Hoje já sabe fazer fotografias de cartão-postal e dar declarações intelectualizadas. Mas é apenas um borra-botas igual a tantos outros.

 

Quando finalizou Perversão, Mojica estava exausto. Entre 1976 e 1978, ele dirigira ou co-dirigira nada menos de oito filmes: Como Consolar Viúvas, Inferno Carnal, A Mulher que Põe a Pomba no Ar, Deusa de Mármore, Delírios de Um Anormal, Mundo, Mercado do Sexo, Estupro (Perversão) e o documentário O Diabólico Reino de Zé do Caixão. Nenhum desses se comparava, em termos de inventividade e força, aos filmes que fizera nos anos 60. Apesar de sua produção prolífica, Mojica continuava numa dureza de dar pena. Ele não recebia percentual sobre a bilheteria de alguns filmes, e o desempenho das fitas nas quais tinha parte – Inferno Carnal, Delírios de um Anormal e Perversão – não ficou nem peto do que esperava.

Quanto a O Diabólico Reino de Zé do Caixão, Mojica deu um azar tremendo: na véspera de começar a dublagem, seu continuísta Ronaldo Rocha dos Santos desapareceu, levando os blocos de anotação com todos os diálogos. Não era costumeiro fazer documentários com som dublado, mas Mojica nunca havia aprendido a usar som direto e ainda utilizava o antiquado método de copiar à mão as falas, para depois reproduzi-las em estúdio. Com o sumiço do continuísta, ele agora tinha horas de cenas filmadas e não sabia o que os personagens estavam falando. A solução foi inventar uma esquisita narração em off, na qual ele simplesmente comentava as cenas que eram mostradas.

 

Nessa época, Mojica havia transferido sua escolinha para um prédio na rua Barão de Jaguara, na Moóca. Estava tão duro que costumava ir a pé até o centro para economizar o dinheiro do ônibus. Um dia, Crounel teve uma ideia louca: queria fazer uma discoteca no estúdio. O Brasil vivia a febre de Os Embalos de Sábado à Noite e da novela Dancin´Days, e a juventude da Moóca só queria saber de calças boca-de-sino e camisas de náilon. Mojica, que não tinha nada a perder mesmo, permitiu.

A primeira festa foi um desastre: uma caixa de som caiu na cabeça de um sujeito que estava dançando e o pessoal, assustado, se mandou. Crounel não desistiu. Na semana seguinte, alugou um som potente, decorou o estúdio com desenhos de caveiras e batizou o lugar de Discoteca do Caixão. O público gostou da novidade. Em menos de um mês, a discoteca transformou-se no maior programa da moçada da Moóca. Às sextas e sábados, o point da galera era o “Caixão”. A polícia também aprovou:

- Seu Mojica, muito legal essa discoteca que o senhor montou. Antes, a gente tinha que policiar a Moóca inteira, agora é só aqui, porque os maus elementos estão todos reunidos!

A discoteca sustentou o estúdio por seis meses, até que os vizinhos, fartos do movimento e barulho, reclamaram na delegacia e exigiram seu fechamento.

Em julho, Mojica foi convidado para exibir Delírios de um Anormal e o faroeste A Sina do Aventureiro numa mostra de filmes de horror que seria realizada paralelamente ao Festival de Brasília. Era a primeira vez que participava de um festival no Brasil. Apesar de a mostra ter sido batizada de Horror Nacional, o único diretor efetivamente dedicado ao gênero era ele. Os outros filmes eram de cineastas ligados ao cinema “udigrudi”, como Rogério Sganzerla (O Abismu, Sem Essa Aranha e Anjo), Júlio Bressane (Agonia e Rei do Baralho) e Elizeu Visconti (Os Monstros de Babaloo).

Essa mostra paralela, dominada pelo chamado cinema alternativo, ou marginal, fez um contraponto interessante à mostra oficial, marcada por fitas de diretores do establishment embrafílmico como Cacá Diegues (Chuvas de Verão), Ruy Guerra (A Queda), Walter Lima Júnior (A Lira do Delírio) e Arnaldo Jabor (Tudo Bem). Mojica foi o grande destaque do festival: não só exibiu dois filmes, como ainda atuava em O Abismo, de Sganzerla, e era tema de um curta-metragem do cineasta Ivan Cardoso, O Universo de Mojica Marins. Deu dezenas de entrevista e passou tardes bebendo uísque na piscina do Hotel Nacional, em companhia do diretor de TV Walter Clark.

Quando voltou a São Paulo, Mojica recebeu um, convite para participar do Festival de Cinema Fantástico de Sitges, na Espanha, que se realizaria em outubro. Ele já havia sido convidado em anos anteriores, mas sua desorganização e problemas com a liberação dos filmes na Censura haviam atrapalhado seus planos. Desta vez, estava decidido a ir. Para divulgar sua viagem, organizou uma festa em comemoração aos quinze anos do caixão que o acompanhava desde as filmagens de Á Meia-Noite Levarei Sua Alma. Vários amigos e admiradores compareceram, como Rubens Lucchetti, o físico nuclear Mário Schemberg e Almeida Salles, presidente da Cinemateca Brasileira.

Mojica rebocou para a Espanha uma verdadeira comitiva: além dele e do assistente Satã, viajaram o produtor de Estupro, Wilson Garcia, sua mulher, Aparecida e o jornalista e cineasta Jairo Ferreira, que cobriu o evento para a Folha de S. Paulo. A viagem não foi tão excitante quanto a visita a Paris, quatro anos antes. Em vez de exibir seus velhos clássicos, Mojica teimou de levar três produções recentes – Estupro, Delírios de um Anormal e Mundo, Mercado do Sexo – que decepcionaram o público. Os jurados, para não o deixar voltar de mãos vazias, resolveram lhe conceder uma menção honrosa pelo conjunto de sua obra e por “grandes serviços prestados ao cinema de horror”.

 

Publicado originalmente em BARCINSKI, André & FINOTTI, Ivan. Maldito: a vida e o cinema de José Mojica Marins, o Zé do Caixão. São Paulo: Editora 34, 1998.

terça-feira, 15 de novembro de 2022

Mojica early years, parte XIII: 1974-1975: Zé do Caixão enfrenta “O Exorcista” – O Diabo é Nosso!

        Capítulo 14: 1974-1975: Zé do Caixão enfrenta “O Exorcista” – O Diabo é Nosso!


         Por André Barcinski e Ivan Finotti


        


 


Mojica voltou da França com a bola cheia. Assim que suas fotos ao lado de Christopher Lee começaram a aparecer nos jornais brasileiros, a imprensa local, que o havia ignorado solenemente pelos últimos quatro anos, publicou diversas reportagens sobre seu sucesso no exterior. Aproveitando a boa fase, ele transferiu sua escola para um prédio de três andares na avenida Celso Garcia, no Brás, e batizou o lugar de Caixolândia.

O produtor Aníbal Massaini Neto, filho do famoso Osvaldo Massaini, ficou impressionado com a repercussão dos prêmios de Mojica na Europa e decidiu convidá-lo para dirigir um filme. Naquela época, o mundo inteiro estava surpreso com o sucesso de O Exorcista, o filme de William Friedkin baseado no livro de William Peter Blatty. Massaini teve a ideia de filmar uma espécie de versão brasileira de O Exorcista e lançá-la simultaneamente ao filme americano, cuja estreia no Brasil estava marcada para novembro de 1974.

Massaini deu uma cópia do livro para Mojica e pediu que ele botasse uma história envolvendo possessão demoníaca (Mojica, preguiçoso, mandou Nilce ler o livro e contar as melhores partes). O produtor garantiu uma verba de 150 mil dólares – três vezes mais do que qualquer outro filme de Mojica – e lhe prometeu um bom salário, além de 15% sobre o lucro líquido do filme. Mojica procurou Rubens Lucchetti e pediu que escrevesse o roteiro.

- Rubens, o Massaini vai bancar tudo, pode inventar o que quiser! Exagera mesmo, põe uma mansão, um castelo!

Assim como já fizera em Ritual dos Sádicos, Mojica queria misturar ficção e realidade, explorando sua própria fama. Ele sugeriu a Lucchetti uma história no qual ele próprio, José Mojica Marins, enfrentasse sua criatura, Zé do Caixão. Lucchetti gostou da ideia e escreveu Exorcismo Negro.

Massaini contratou uma equipe de profissionais gabaritados para trabalhar na fita, incluindo o fotógrafo Antônio Meliande e o assistente de câmera Jorge Pfister Jr. O elenco teria Jofre Soares, Georgia Gomide, Walter Stuart, Wanda Kosmo e iniciantes como Alcione Mazzeo e Marcelo Picchi. O assistente de produção seria o novato André Klotzel, que anos mais tarde dirigiria o premiado A Marvada Carne. Da equipe de Mojica, apenas Marcelo Motta foi aproveitado, como assistente de direção. Adriano Stuart (filho do ator Walter Stuart) trabalhou como diretor-assistente, além de atuar no filme. Ele acabaria recebendo crédito como roteirista, o que deixou Lucchetti extremamente magoado. Stuart era o homem de confiança de Massaini e ficou responsável por garantir um mínimo de ordem no set de filmagens. Massaini respeitava Mojica, mas temia que ele cometesse algumas das barbaridades de filmes passados, como obrigar os atores a mexer com cobras e aranhas caranguejeiras.

 

Nas primeiras cenas de Exorcismo Negro, Mojica aparece recebendo a imprensa para falar de seu recente sucesso na Europa. Ele revela estar sofrendo um bloqueio criativo e diz que aceitou o convite de um amigo, Álvaro (Walter Stuart), para passar o Natal em sua casa der campo, onde pretende relaxar e pensar em seu próximo filme.

Os fãs de Mojica certamente estranharam ao vê-lo interpretando a si próprio, com ares de intelectual. Na casa de campo, Mojica e Álvaro jogam xadrez, fumam cachimbos e discutem temas como parapsicologia e as obras de Conan Doyle (um dos autores prediletos de Lucchetti).

Mojica logo percebe que alguma coisa não está certa na casa: cadeiras andam sozinhas pelos corredores, tridentes aparecem no espelho do quarto e livros viam das estantes, como que impulsionados por uma força invisível. Logo depois, o cachorrinho da família aparece morto no jardim. A coisa fica ainda mais esquisita quando a família de Álvaro começa a ficar possuída por espíritos malignos. A primeira vítima é seu pai, Júlio (Jofre Soares). Ele sofre uma espécie de delírio, durante o qual ataca Mojica. Depois, é a vez de Wilma (Ariane Arantes), filha mais velha de Álvaro.

O que Mojica não sabe é que a mulher de Álvaro, Lúcia (Georgia Gomide), havia feito, vinte anos antes, um pacto com uma bruxa (Wanda Kosmo) para ter uma filha. A bruxa deu à Lúcia uma filha – Wilma – com a promessa de que a criança, depois de adulta, se casaria com Eugênio (Adriano Stuart), que na verdade é filho de Satã. Quando Wilma anuncia seu casamento com Carlos (Marcelo Picchi), a bruxa se revolta e convoca Zé do Caixão para cobrar a dívida e consumar o matrimônio infernal. Zé celebra uma missa negra para ratificar a união de Wilma e Eugênio, e ordena o sacrifício da filha mais nova de Álvaro, a pequena Betinha (interpretada por Merisol, filha de Mojica). Mas Mojica descobre os planos de Zé do Caixão e tenta evitar o casamento. Criador e criatura acabam finalmente se encontrando:

- Fiz de tudo para evitar esse encontro – diz Zé do Caixão.

Mojica acha que está sofrendo uma alucinação. Zé pergunta:

- Por acaso não acredita no que faz?

Depois, para provar seus poderes, Zé manda seus assistentes iniciarem uma bárbara sessão de tortura, arrancando línguas de penitentes, decepando dedos e chicoteando mulheres indefesas. Mojica se borra de medo. Segurando um crucifixo, ele pede ajuda a Deus:

- Eu acredito em Deus Pai! Em nome do nosso Senhor Jesus Cristo, ordeno que abandonem esses corpos!

Comparado aos outros filmes de Mojica, Exorcismo Negro teve uma filmagem tranquila. Um dos poucos problemas enfrentados pela equipe foi uma alergia braba que atacou os olhos do ator Jofre Soares, causada pelas lentes de contato vermelhas que ele teve de usar na cena em que estava possuído. Depois que Jofre colocou as lentes, não conseguiu mais tirá-las. Seu rosto começou a inchar e a equipe teve que levá-lo às pressas para um hospital.

O episódio mais grave, no entanto, foi um acidente de trânsito em que provocou ferimentos em Mojica e em três outros membros de sua equipe. Na segunda-feira, 25 de junho, Mojica, o assistente Marcello Motta, o guarda-costas Satã e o motorista João Rosa foram a um restaurante japonês na Liberdade, depois da filmagem. Tomaram saquê à vontade e saíram do lugar num porre de dar pena. João estava tão chumbado, que caiu numa escadaria e torceu o braço. Decidiram levá-lo para o pronto-socorro. Como Mojica não sabia dirigir e Motta estava num estado deplorável, Satã – que nem carteira de habilitação tinha – assumiu o volante da kombi de João. Três quarteirões depois, ele avançou um sinal na rua Tamandaré, na Liberdade e bateu de frente com um Karmann-Ghia que vinha em sentido contrário. A kombi capotou duas vezes e foi parar em cima da calçada. Por sorte, ninguém se machucou seriamente. Uma ambulância veio e levou todo mundo. Mojica, com medo de que a história acabasse nos jornais, pirulitou-se da chegada da polícia, enquanto João, Satã e Marcelo Motta tiveram de passar a noite inteira no Distrito, dando explicações para o delegado.

Exorcismo Negro ficou pronto em setembro, dentro do prazo previsto. Mas a Censura atrasou a liberação e Massaini não conseguiu lançá-lo junto com O Exorcista, como pretendia. Mesmo assim, Mojica decidiu aproveitar a onda em cima do filme americano para obter publicidade para sua fita.

O lançamento de O Exorcista estava sendo aguardado como o grande acontecimento cinematográfico do ano no Brasil. No dia da estreia do filme, 11 de novembro de 1974, as filas começaram a se formar quatro horas antes da primeira sessão. No Rio, às nove da manhã, já havia uma multidão em frente ao Cine Roxy, em Copacabana. Houve empurra-empurra e as vidraças do cinema acabaram estilhaçadas, ferindo duas pessoas. Em São Paulo, a polícia teve de ser chamada para controlar as filas.

Mojica não poderia perder uma chance dessas: no fim de semana de estreia de O Exorcista, ele fantasiou-se de Zé do Caixão e improvisou um comício na porta do Cinema Ipiranga, no centro de São Paulo. Empunhando cartazes de Exorcismo Negro e cercado por alguns de seus assistentes, Zé conclamava o povo a esquecer o exorcista gringo e prestigiar o similar nacional:

- Por que vocês estão interessados nesse demônio americano? – gritava. – Lá nos Estados Unidos ninguém sabe nada do diabo! Quem sabe de diabo é brasileiro! O diabo é nosso!

O slogan acabou colando. Os jornais adoraram a história e mandaram repórteres cobrir o protesto. A cena era extraordinária: Zé do Caixão correndo a quilométrica fila do cinema, implorando aos espectadores para que desistissem de ver o filme americano:

- Esse demônio americano não é de nada! Diabo por diabo, o brasileiro é muito melhor! Vocês nunca prestigiaram os meus filmes, mas pagam para ver o diabo gringo! É o fim do mundo!

Mojica deu entrevista aos jornais malhando O Exorcista: “Vê se pode, um diabo que faz levitação, arrasta móveis, racha teto de cimento armado, e depois não consegue se libertar de duas correiazinhas de couro? Onde já se viu isso?”. Depois, explicou as vantagens do diabo nacional: “O diabo brasileiro só entra num lugar para cometer uma série de maldades, tentando conseguir mais gente para seu lado. Já o estrangeiro, mata sua vítima sem nenhum objetivo. O nosso visa o espírito; o estrangeiro a matéria”.

O protesto rendeu dezenas de reportagens sobre Exorcismo Negro, mas não parece prejudicado a bilheteria de O Exorcista. Numa lista publicada pela Embrafilme em 1984, O Exorcista apareceria como o quinto filme mais assistido no Brasil, com 8 milhões de espectadores, atrás apenas de Tubarão (13 milhões), Dona Flor e Seus Dois Maridos (10,7 milhões), Inferno na Torre (10,3 milhões) e E.T. – O Extraterreste (8,1 milhões).

 

Exorcismo Negro estreou no dia 23 de dezembro, em doze cinemas de São Paulo. A produção “sofisticada” do filme confundiu os críticos. Se antes eles malhavam o primitivismo das fitas de Mojica, agora reclamavam que Zé do Caixão estava refinado demais. No Jornal da Tarde, Luciano Ramos escreveu:

 

Tudo indica que o diretor de Á Meia-Noite Levarei Sua Alma busca o refinamento. Acabou-se o charme dos cenários de papelão e graça do barbudo de capa preta, saltitando entre sepulturas de um cemitério do interior. Agora Mojica cuida mais da linguagem cinematográfica e contrata atores profissionais (...) Moderadíssimo, quase não mostra mulheres nuas com aranhas e cobras.

 

Leon Cakoff, escrevendo no Diário da Noite, também reclamou da sofisticação do filme:

 

O requinte primitivo que envolvia o personagem Zé do Caixão, criado por José Mojica Marins, acabou por enquadrar-se às exigências de uma produção Cinedistri (empresa de Massaini). Tem até um solar de fachada quase igual aos castelos medievais presentes na maioria dos filmes de horror europeus. Para o ator, o seu personagem é que se internacionaliza. Para o espectador mais atento, novos sintomas da aculturação que já faz algum tempo vem corroendo aspectos relevantes da cultura nacional.

 

Apesar das críticas mornas, o filme estava atraindo um bom público, e acabou ficando três semanas em exibição no Art-Palácio. Para atrair mais atenção, Mojica promoveu um coquetel de lançamento dentro do cemitério da Consolação, com a presença de toda a imprensa paulistana. Em seguida, organizou uma de suas jogadas promocionais mais astutas e ambiciosas: mandou que seus alunos, fingindo-se de espectadores, simulassem transes hipnóticos durante as sessões de Exorcismo Negro. Um de seus assistentes ligou para os jornais, identificando-se como gerente de um cinema e avisando que um “fenômeno paranormal nunca visto” estava acontecendo durante as sessões do filme. Os jornais mandaram repórteres para conferir a história. Os alunos de Mojica, quando percebiam a presença de jornalistas, começavam a gritar e a pular nas poltronas, como se estivessem possuídos. Outros fingiam desmaios e ataques histéricos. A performance deu tão certo que Mojica decidiu mandar um ônibus cheio de alunos para Curitiba, na semana de lançamento do filme na cidade. Vários acabaram no xadrez, depois que o gerente chamou a polícia para reclamar da bagunça.

Quando Exorcismo Negro estreou no Rio de Janeiro, em 27 de janeiro de 1975, os críticos cariocas reagiram da mesma forma que seus colegas paulistas. Onézio Paiva, do Última Hora, acertou na mosca:

 

Os cuidados da produção dispensados por Aníbal Massaini Neto não se revelaram tão eficientes quanto era de se esperar. E por um motivo bem simples: primitivo, rústico e intuitivo, Mojica parece mais à vontade e criativo quando trabalha em condições precárias – principalmente se não dispõe de recursos para realizar sequer uma cenografia de médio nível artístico, pois, paradoxoalmente que seja, ele respira melhor num meio de escassez, de pobreza e de ignorância – elementos que lhe permitem traduzir, conscientemente ou não, certos aspectos da miséria brasileira. O ambiente limpo, falsamente tranquilo e reluzente da alta classe média não é, positivamente, seu terreno ideal.

 

O crítico de O Globo, Fernando Ferreira, gostou do filme, embora concordasse que Mojica não parecia muito à vontade interpretando um intelectual:

 

Esta é a primeira fita de José Mojica Marins na qual o argumentista-diretor-produtor-ator teve a seu alcance condições amplamente favoráveis ao nível da produção. Sob esse aspecto, é o mais satisfatório dos filmes desse realizador ao mesmo tempo supervalorizado e incompreendido (...)

Resta saber até que ponto a espontaneidade da inventiva de José Mojica Marins, patente nos seus filmes mais expressivos, como Á Meia-Noite Levarei Sua Alma e O Estranho Mundo de Zé do Caixão, não se acanhou neste esquema de cinema desenvolvido. Parece claro que isso se deu. Mojica Marins dissertando eruditamente sobre parapsicologia, sobre Conan Doyle e Sherlock Holmes, sua criatura, absorvido em leituras e apontamentos, jogando xadrez em sala grã-fina e bebendo do melhor Passport, enquanto fenômenos de possessão vão acontecendo na casa onde descansa, são coisas que soam falso e inconsistente (...)

A melhor sequência do filme é a missa negra oficiada por Zé, finalmente em cena depois de muitas promessas. Aí Mojica Marins vai ao encontro do melhor de suas possibilidades: a história em quadrinhos, o grand Guignol, a efervescência temática de mitos populares, o tradicional filme de horror e a delirante imaginação do realizador brotam, afinal, incontidos, num show de circo e mafuá – aqui com certo requinte de luxo – que tem realmente algo a acrescentar à singular carreira do cineasta.

 

Exorcismo Negro ficou em exibição na cidade de São Paulo por quase dois meses, depois foi lançado no interior do Estado e em outras capitais. Em março, Mojica estava promovendo o lançamento do filme em Belo Horizonte, quando ocorreu um evento bizarro que lhe trouxe ainda mais publicidade. Um grupo de trinta alunos estava na cidade de Americana, noroeste de São Paulo, rodando um filme de terror em Super-8 chamado Materialização. A fita seria uma espécie e “prova final” do curso de cinema de Mojica (ele encorajava seus discípulos a fazer seus próprios filmes, para ganhar experiência).

Na madrugada de segunda-feira, 22 de março, o padre João Rodrigues foi acordado em sua casa por alguns vizinhos, que diziam ter visto “moças nuas andando pelo cemitério da cidade”. Intrigado, ele foi ao local e percebeu que havia uma movimentação intensa dentro do cemitério. O sacerdote entrou no cemitério e ficou estarrecido com o que viu: rapazes seminus corriam pelas catacumbas; outros cansavam e dançavam, enquanto moças de calcinha e sutiã rebolavam entre as sepulturas. Não se conteve:

- Isso é uma profanação de um lugar sagrado! Saiam daqui, seus miseráveis!

Um dos alunos tentou argumentar, dizendo que também era cristão, mas que no momento estava apenas trabalhando.

- Você chama isso de trabalho? Até os pagãos do Império Romano respeitavam as catacumbas! Ordeno que vocês vão embora!

Quando percebeu que suas ordens não seriam cumpridas, o padre apelou para o pessoal que observava a cena de cima do muro:

- E vocês, filhos de Deus? Vão ficar aí parados enquanto esses maconheiros pisam nos seus semelhantes? Vamos acabar com isso! Quem for cristão que me acompanhe!

A multidão não resistiu ao apelo e invadiu o cemitério, botando os atores para correr. Os cristãos de Americana destruíram todo o equipamento e surraram uma dúzia de alunos, que correram para se abrigar na casa do zelador do cemitério. A massa enfurecida começou a apedrejar o prédio e tentou arrombar a porta. A polícia chegou poucos minutos depois e evitou o linchamento. Mesmo assim, dois alunos – inclusive uma moça – levaram pedradas e tiveram que ser hospitalizados.

Na delegacia, o padre não se conformava: “Quando vi aqueles rapazes de cor e enormes cabeleiras correndo sobre as sepulturas, não resisti!”. Mojica voltou correndo a São Paulo e deu várias entrevistas lamentando o incidente e reclamando dos “enormes prejuízos” que sofrera. Duas semanas depois foi a Americana, onde reuniu a imprensa local e agradeceu ao povo americanense pela “recepção hospitaleira”. A cidade retribuiu com um processo por violação e profanação do cemitério, que acabou não dando em nada.

Com tanta publicidade gratuita, Exorcismo Negro rendeu um bom dinheiro. Mojica saiu da pindaíba absoluta em que se encontrava e alugou um pequeno sobrado de dois quartos na Moóca, para onde foram sua mãe e Nilce. Depois de passar quatro anos dormindo no sofá da casa de Carmen, Nilce finalmente teria um quarto só seu.

Apesar de morarem juntas por tanto tempo, Nilce e Carmen não se davam. Carmen ainda a via como uma intrusa, e a acusava de ter atrapalhado o casamento do filho, o que era uma tremenda injustiça, uma vez que Mojica, quando conheceu Nilce, já nem morava mais com a esposa Rosita, mas com a amante, Maria.

Nilce sofria o diabo com as outras mulheres de Mojica: durante as filmagens de Exorcismo Negro, Maria foi diversas vezes ao estúdio acompanhando a filha Merisol, que atuava no filme. Chegou a ameaçar Nilce de morte caso descobrisse que ela tinha alguma coisa com Mojica. Poucos dias depois, foi Rosita quem invadiu o estúdio e atacou Nilce com um cinto. O irônico é que quem trabalhava para sustentar Rosita e Maria era, no final das contas, a própria Nilce. Ela não tinha salário, férias ou hora de dormir; trabalhava feito um cavalo e dependia de Mojica para tudo. Quando confrontada por Maria ou Rosita, Nilce negava o romance com Mojica, mas na verdade os dois estavam cada vez mais ligados. O relacionamento de Mojica e Maria havia esfriado. E Rosita nem entrava mais na equação: Mojica só ia à sua casa para visitar o filho.

 

(...)

 

Nilce sabia que tinha condições de ganhar a vida montando filmes ou comerciais de TV. Afinal, já era conhecida nos meios de cinema como uma montadora de talento. Há dez anos vinha observando atentamente o trabalho de vários montadores e aprendendo os segredos da profissão, tendo inclusive ajudado Luiz Elias e Roberto Leme na montagem de vários filmes. Mojica se desesperou. Implorou para que ela não o abandonasse e prometeu torná-la sócia em uma nova produtora. Semanas depois, fundou a Produções Cinematográficas Zé do Caixão, e anunciou a filmagem de A Estranha Hospedaria dos Prazeres.

Como sempre fazia às vésperas de filmar, Mojica tratou de armar algum evento para atrair a atenção da imprensa. Seu objetivo era divulgar seu mais novo projeto e, quem sabe, conseguir investidores para o filme. A primeira ideia que lhe veio à cabeça foi organizar uma passeata em defesa do cinema nacional. Mudou de ideia assim que viu a manchete do jornal Notícias Populares de domingo, 11 de maio de 1975: “Nasceu o Diabo em São Paulo”.

No dia anterior, o repórter policial Waldemar de Paula estava de plantão na redação do NP quando soube de um boato que se espalhava pela cidade. Dizia-se que um bebê com pelo e chifres havia nascido em um hospital da periferia. Waldemar ligou para algumas maternidades, mas não conseguiu confirmar a história. Mesmo assim, escreveu um artigo, no qual batizou a criança de “Bebê-Diabo”. Na segunda-feira de manhã, o editor Ebrahim Ramadan e o secretário de redação, José Luiz Proença, receberam um telefonema do responsável pela distribuição do jornal, informando que a edição havia esgotado:

- Todo mundo está querendo saber mais sobre esse Bebê-Diabo!

Não se falava em outra coisa na cidade: em pontos de ônibus, botequins, escolas, salões de cabelereiros, escritórios, o assunto do dia era o Bebê-Diabo. O telefone do jornal não parou de tocar. Eram leitores jurando de pés juntos ter visto o tal filho do capeta. Um repórter do NP descobriu um hospital em São Bernardo do Campo, onde os médicos e funcionários garantiam ter presenciado o nascimento de uma criança deformada e peluda. Só que ninguém sabia onde estava a criança. No dia seguinte, o jornal alardeou: “Bebê-Diabo Desaparece!”.

Aí a coisa pegou fogo: leitores começaram a ir ao jornal em bandos, contando histórias mais mirabolantes. Uns diziam ter visto o bebê andando por Osasco; outros juravam terem sido perseguidos pela criatura em São Bernardo do Campo. Um desenhista do jornal fez um retrato falado do demônio, baseado na descrição de um leitor. Às dez da manhã, a edição de terça-feira já estava esgotada. Naquela mesma tarde, chegaram à redação os resultados da pesquisa de venda nas 2 mil bancas de São Paulo. O encalhe da edição de domingo havia sido de exatos oito exemplares, e estes só não foram vendidos porque estavam destroçados e ilegíveis pelo excesso de manuseio. A chefia do jornal imediatamente aumentou a tiragem de 70 mil para 150 mil. O sucesso foi tão grande, que o Notícias Populares deu nada menos de 28 reportagens consecutivas sobre o Bebê-Diabo.

Mojica, que dois anos antes já havia exorcizado o Vampiro de Osasco para o NP, telefonou para o editor Ebrahim Ramadan pedindo para entrar na cobertura do Bebê-Diabo. Depois inventou uma tremenda cascata, dizendo que havia recebido informações de que o tal filho do demo estaria em Salvador.

- Vou mandar meus dois assistentes mais corajosos, Satã e Marcello Motta, para a Bahia, atrás do Bebê-Diabo!

O jornal deu ampla cobertura à caçada de Mojica: uma chamada de primeira página dizia: “Zé do Caixão vai caçar Bebê-Diabo no Nordeste”. Dois dias depois, outra reportagem informava que os emissários de Mojica haviam, de fato, feito contato com o pequeno Lucífer. Segundo o artigo, Satã e Marcelo Motta teriam encontrado o capetinha na cidade de Qui-Papa, no interior da Bahia. Motta declarou ao jornal: “Existe uma lenda no Nordeste segundo a qual, há muitos anos, quando Satanás andava por lá carregando seu filho – o Bebê-Diabo – no colo, deixou-o no meio do sertão para procurar água. O demônio largou seu filho lá, por vários dias, sem água. Quando voltou, o bebê havia encontrado água por conta própria e, apontando para o solo, falou ao Papai-Diabo, indicando a água: ‘Qui-papa, qui-papa...’. Daí batizaram a cidade com esse nome!”.

A cara-de-pau de Mojica e sua trupe era impressionante: Satã e Marcelo Motta não tiveram nem a preocupação de se esconder por um dia ou dois para simular a tal viagem à Bahia; Satã passou aqueles dias enchendo a cara num bar da Moóca, enquanto Motta havia começado a dirigir A Estranha Hospedaria dos Prazeres.

 

Mojica deixou Motta dirigir o filme. Estava exausto de tanto trabalho e ainda não havia resolvido sua situação com Nilce. Além do mais, Motta, que o acompanhava desde 1969, há muito vinha pedindo a chance de dirigir. Como não conseguiu nenhum produtor disposto a bancar a produção, Mojica recorreu ao velho sistema de cotas para fazer A Estranha Hospedaria dos Prazeres. Mais de cem alunos se cotizaram e bancara o filme.

A equipe foi formada basicamente por alunos. Os únicos profissionais seriam Mojica, Nilce e o fotógrafo Giorgio Attili. Todos os outros eram novatos: Marcelo Motta (diretor), Jorge Perez Ortega (diretor de produção), Giulio Aurichio e Airton Lopes (assistentes de produção), José Geraldo (assistente de câmera), Rafael Bastos da Silva (eletricista-chefe), Luiz Antônio de Oliveira (eletricista), Ivo Casimiro da Silva (contra-regra), Creusa Maria (maquiadora), Laurentin Antonescu (técnico em efeitos especiais) e Ronaldo Rocha (continuísta).

A história do filme se passa numa única noite de tempestade, em uma misteriosa hospedaria. Mojica – usando um engraçado chapéu-coco – interpreta o gerente do estabelecimento. Vários tipos começam a chegar – um casal de noivos, um grupo de industriais, uma gangue de motoqueiros hippies, uma adúltera com seu amante – e cada um vai para seu quarto. Durante a noite acontecem brigas, crimes, orgias e toda sorte de acidentes, muitos deles apenas imaginados pelos hóspedes. Quando amanhece o dia, descobre-se que a hospedaria na verdade é um cemitério, e que o personagem de Mojica é a própria morte.

A pobreza da produção é evidente: para economizar, Mojica usou diálogos e músicas de outros filmes. Numa cena em que os motoqueiros hippies fazem um bacanal na hospedaria, ele usou o mantra “Todo mundo nu, oba! Peladinho, peladão, oba!”, gravado cinco anos antes para Finis Hominis. A inexperiência dos alunos obrigou-o a refazer diversas cenas por causa de gafes banais como erros de continuidade e imagens fora de foco.

Os efeitos especiais também deram muito trabalho: havia uma cena em que o personagem de Mojica matava alguns ratinhos brancos apenas com a força de seu olhar. O eletricista-chefe Rafael Bastos da Silva montou um chiqueirinho de areia em cima de uma placa de metal ligada a fios elétricos, para eletrocutar os ratos, Luiz Antônio de Oliveira, o Luizinho, espécie de faz-tudo da equipe, ficou no interruptor, pronto para dar a descarga fatal. Ele deveria esperar que Mojica olhasse para os ratinhos e só então ligar a corrente elétrica. Mas estava tão nervoso que, assim que gritaram “câmera” ele ligou a tomada e os ratos caíram duros.

Luizinho era mais um desses abnegados que largou tudo para trabalhar com Mojica. Ele ganhava a vida como taxista em São Paulo, quando resolveu tentar a sorte no cinema. Acabou trabalhando como técnico e fotógrafo em uma dúzia de filmes. Era tão pobre, que passou dois anos morando no estúdio e dormindo dentro do caixão de Mojica. Em noites frias, botava um pauzinho segurando a tampa do esquife, para poder respirar.

A filmagem de A Estranha Hospedaria dos Prazeres terminou em agosto. Faltou dinheiro para completar a dublagem, o que forçou Mojica a vender uma parte do filme para Alfredo Cohen, dono da distribuidora Brasil Cinematográfica. O dinheiro de Cohen foi usado também para refilmar algumas cenas que haviam sido prejudicadas pela inexperiência do diretor Marcello Motta.

Em dezembro, estava marcada a festa de formatura de uma turma de alunos de Mojica. Todo ano ele organizava essas festas, nas quais distribuía diplomas aos melhores atores de sua classe e faturava um troco com bingos e rifas. Sua atuação financeira até que não era das piores: ainda tinha parte do salário de Exorcismo Negro e recebia todo mês seu 15% da bilheteria do filme, que continuava em cartaz e cidades do interior. Ainda tinha A Estranha Hospedaria dos Prazeres no forno, com lançamento previsto para o início de 1976.

Foi aí que Mário Lima veio com outra de suas ideias brilhantes (a primeira foi a compra da perua C-14): ele sugeriu fazer a formatura na Viola de Ouro, outro gigantesco salão no Ipiranga, e convenceu Mojica a investir suas economias na compra de bebidas e salgadinhos para vender na festa. Mário contratou trinta garçons, comprou toalhas de renda branca e alugou jogos de talheres e pratos finíssimos. Depois, foi a um armazém e alugou comida para abastecer um exército: 100 quilos de queijo provolone, 50 quilos de azeitonas, 30 latas de picles, além de jarras de tremoços e batatinhas em conserva. Trouxa ainda caixas e mais caixas de champanhe e dezenas de engradados de cerveja e refrigerante.

A festa foi um sucesso de público: mais de duas mil pessoas compareceram. O problema é que ninguém tinha dinheiro para o jantar. Só tomaram cerveja, e bem pouca. O champanhe ninguém quis. No fim da noite, sobraram 92 quilos de provolone e 45 quilos de azeitonas. Era tanta comida que Nilce teve de pedir a vários bares da região para guardas as jarras de picles em suas geladeiras. Os prejuízos foram imensos: Mojica foi obrigado a procurar o produtor Aníbal Massaini e vender seus 15% de Exorcismo Negro para pagar o rombo. Ficou novamente na sarjeta. Passou os meses seguintes comendo queijo provolone com azeitona.

 

Publicado originalmente em BARCINSKI, André & FINOTTI, Ivan. Maldito: a vida e o cinema de José Mojica Marins, o Zé do Caixão. São Paulo: Editora 34, 1998.

terça-feira, 8 de novembro de 2022

Mojica early years, parte XII: 1970-1974: Tempos Difíceis

          Capítulo 13: Tempos Difíceis

 

Por André Barcinski e Ivan Finotti

 

Mojica entrou na década de 70 à beira da miséria absoluta. Enquanto aguardava o lançamento de Ritual dos Sádicos, sobreviveu vendendo o encalhe de seus gibis. Nas horas de maior aperto, apelava para trambiques indecentes, vendendo assinaturas falsas da revista em quadrinhos.

Não tinha dinheiro sequer para botar comida na mesa dos filhos. Sua esposa, Rosita, ainda tinha a sorte de morar com os pais, o que a possibilitava cuidar bem do filho Derian. Já Maria estava tendo muitas dificuldades para criar Crounel, Mariliz e Merisol. Sabendo da situação crítica de Mojica, ela foi à luta: armou um grupinho de teatro infantil e passou a fazer apresentações em escolas, igrejas e associações comunitárias. Até Crounel trabalhava como ator (sua estreia foi aos 7 anos, no papel de Dunga, um dos anões da Branca de Neve). O teatrinho sustentou Maria e as três crianças por vários anos.

A fase difícil de Mojica coincidiu com a desagregação e sua antiga equipe de colaboradores. A essa altura, muitos de seus velhos companheiros de cinema, como Gaúcho, Jean Garrett e Salvador do Amaral, já haviam se tornado profissionais experientes, e passaram a procurar trabalho com outros cineastas. No lugar dos antigos companheiros surgiram alguns jovens ambiciosos e esforçados, mas também vários desocupados e aproveitadores. O estúdio virou uma verdadeira meca para todo tipo deserdado pela vida. Eram miseráveis, retirantes e batedores de carteira que chegavam ao estúdio atrás de emprego e acabavam morando por lá mesmo e vivendo às custas de Mojica. A tropa era da pesada: um dos alunos, Osvaldo Amorim, foi preso após roubar um posto de gasolina e matar o vigia a pauladas. Outra aluna, Luzia, tentou botar fogo no prédio, depois que Nilce a expulsou. Certa noite, um hippie chamado “Baratão”, figurante de Ritual dos Sádicos, roubou parte da coleção de gibis antigos de Mojica. Este nem pôde dar queixa na polícia, já que ninguém sabia o nome verdadeiro de Baratão.

De todos os membros da trupe, nenhum tinha uma história tão triste quanto Andréa Bryan, atriz de Ritual dos Sádicos. Quando começou a trabalhar com Mojica, Andréa morava com o seu pai, um cafetão, que tentou prostitui-la. Ela fugiu de casa e acabou se metendo com um escrivão de polícia, sujeito corrupto e violento. Andréa resolveu adotar o bebê de uma prostituta e avisou ao policial que pretendia arrumar uma casinha e um emprego decente. Inconformado, o sujeito tomou-lhe o filho e deu a criança para outra amante. Andréa desapareceu e passou a viver na rua. Só foi vista vários anos depois, vagando pela Boca do Lixo, desdentada e inchada pela bebida.

 

Mojica apostava no sucesso de Ritual dos Sádicos para recuperar suas finanças. Em junho de 1970, ele acertou o lançamento com a produtora Multifilmes e submeteu a fita à Censura Federal. Junto, foi um texto do roteirista Rubens Lucchetti, classificando Ritual de “um libelo contra o vício e a corrupção da juventude”.

Seis censores assistiram ao filme. Cinco o liberaram. Apenas um, Paulo Leite de Lacerda, votou por sua interdição, qualificando-o de “um documento indesejável, asqueroso, imoral e pornográfico, constituindo um flagrante atentando aos bons costumes e à moral”. O censor Constâncio Montebello, que sequer fora chamado para julgar o filme, indignou-se com os pareceres positivos de seus colegas e escreveu uma carta à chefia da Censura, dizendo que a fita merecia ser interditada. A chefia acatou seu pedido e proibiu Ritual dos Sádicos.

A Multifilmes contra-atacou e pediu à Censura uma reavaliação. Ritual dos Sádicos foi novamente examinado no início de outubro, e mais uma vez interditado. Longe de considerá-lo um “libelo contra o vício”, como havia dito Lucchetti, os censores viram em Ritual uma descarada apologia às drogas. O censor Antônio de Pádua Carvalho Alves, da segunda comissão examinadora, escreveu:

 

Propondo-se analisar o problema da toxicomania, o filme, em auto-identificação pretensamente científica, é uma sucessão de fatos e situações, as mais diversas, cuja tônica principal e constante é a amostragem de, além da prática do vício, de bacanais, orgias, rituais sadomasoquistas, taras, anormalidades, morbidez, deformações personalísticas dos mais variados calibres, enfim, uma gama infindável de aspectos que caracterizam a total degenerescência humana, não conduzidos para um desfecho que possa ser considerado positivo ou de utilidade (...) As mensagens negativas, pelo seu grande número e proporções gigantescas, permanecerão nitidamente, causando impacto vigoroso na mente de receptor.

 

O censor Osmar Fialho concordou:

 

A irrealidade do filme é manifesta e seu objetivo de apelo às manifestações sexuais anormais é evidente. A divulgação do vício e dos seus efeitos alucinatórios, exultantes e excitantes resultam em mensagens de incitamento experimental, muito mais do que de prevenção. O filme não apresenta atenuantes, bem efeitos neutralizadores. O mínimo que se pode sugerir para um espetáculo tão imoral e degradante é a completa INTERDIÇÃO. (O grifo é do censor.)_

 

A Multifilmes continuou batalhando por mais dois anos para liberar o filme. Um de seus sócios, Jair Carlos de Oliveira, escreveu cartas aflitas ao Departamento de Polícia Federal, citando o terrível prejuízo que a interdição estava causando à sua empresa. Oliveira chegou á humilhação de anexar às cartas várias cópias de contas não-pagas e promissórias vencidas, para demonstrar a situação crítica da firma. A briga durou até maio de 1972, quando o chefe do Serviço de Censura de Diversões Públicas, Rogério Nunes, confirmou, em definitivo, a proibição de Ritual dos Sádicos.

A interdição do filme foi um acontecimento crucial na carreira de Mojica: desde meados de 1970, quando a Censura proibiu Ritual dos Sádicos pela primeira vez, os produtores da Boca do Lixo começaram a se afastar dele. Tinha medo de financiar uma fita e depois vê-la apodrecer numa estante da Polícia Federal. Sem verba para novos filmes, Mojica começou a aceitar qualquer trabalho, e seus filmes caíram muito em qualidade. Foi um baque da qual ele jamais viria a se recuperar.

 

Na segunda-feira, 27 de julho de 1970, Nilce estava no estúdio da rua Oscar Horta, na Moóca, quando foi abordada por dois detetives da polícia. Estavam procurando por Mojica. Quando ouviram de Nilce que ele não estava, os dois detetives agradeceram e saíram. Da janela, ela viu os dois entrando numa padaria que ficava em frente ao estúdio.

Assim que os detetives saíram da padaria, Nilce correu até lá e perguntou à dona o que os policiais queriam. Ficou sabendo que haviam perguntado por Mojica. Nesse mesmo instante, três rapazes do bairro entraram na padaria, assustados: “Aconteceu alguma coisa por aqui? Tem polícia no quarteirão todo!”. Nilce foi até a calçada e levou um susto: uma dúzia de policiais patrulhava a rua.

Ela ficou em pânico: o que queriam com Mojica? Pensou logo no pior: e se achassem que ele era subversivo? Lembrou das histórias macabras que corriam sobre os porões do DOI-CODI, histórias de torturas e perseguições. Mojica nunca se metera em política, mas agora, com a proibição de Ritual dos Sádicos, bem que poderia ter se tornado um alvo.

Alheio a tudo isso, Mojica estava no Hospital São Camilo, em Santana, visitando seu pai, que havia sido internado por causa de um edema pulmonar. Nilce sabia que ele não demoraria a voltar, já que havia prometido encontrar a mãe, dona Carmen, no estúdio. Ela precisava encontrá-lo antes dos policiais. Nilce lembro que Mojica, quando vinha de táxi para a Moóca, costumava vir pela Radial Leste e entrar na rua Barão de Jaguara. Ela foi para a esquina da rua da Moóca com a Barão da Jaguara, tentar intercepta-lo antes que ele chegasse ao estúdio. Deu azar: justamente neste dia, Mojica resolveu economizar no táxi e, em vez de entrar na Barão, saltou na própria Radial e foi a pé até o estúdio. Mal chegou, foi cercado por quinze policiais:

- Vamos dar uma volta?

Nilce, que esperava angustiada na esquina, resolveu, depois de quase duas horas, ligar para a padaria. Foi informada de que os policiais haviam levado a Mojica. Para onde, ninguém sabia. Ela voltou correndo ao estúdio e encontrou dona Carmen aos prantos: “Levaram meu José! Levaram meu bebê!”. Nilce pediu ajuda à Andréa Bryan, que namorava o tal escrivão de policial. O sujeito telefonou para algumas delegacias e não demorou a descobrir o paradeiro de Mojica: o 1º Distrito, na Praça da Sé. No Distrito, informaram que a acusação contra ele não tinha nada a ver com subversão. Mojica estava preso por estelionato.

Algumas horas antes, Sydnei Antônio Francheschini, um feirante de Pirituba, prestara queixa contra Mojica. Sydnei dizia ter comprado cotados do filme O Dia, a Hora e as Armas, que deveria ter sido dirigido por Mojica, mas que nunca fora realizado. O feirante procurou a produtora do filme, a Superfilmes, mas o escritório da firma estava trancada. Sua segunda parada foi no Instituto Nacional do Cinema, onde ficou sabendo que a Superfilmes nem sequer tinha registro de funcionamento. Furioso, correu à delegacia e denunciou Mojica. Os policiais, excitados com a perspectiva de prender uma celebridade, não hesitaram em armar um esquema de guerra para capturar Zé do Caixão.

Mas Mojica era inocente. Ele havia desligado do projeto depois que os produtores demoraram a iniciar as filmagens. O que ele não sabia é que a Superfilmes continuava a usar seu nome para vender cotas do filme. Os donos chegaram a prometer aos cotistas sorteios de geladeiras e televisores, que seriam entregues pessoalmente por Zé do Caixão.

Além da acusação de estelionato, a polícia o culpava por um crime muito mais grave: corrupção de menores. Novamente ele entrara de gaiato na história: dias antes, um de seus alunos fora preso por manter um romance com uma menina de 15 anos, foragida de casa. Pressionado pela polícia, o aluno acusou Mojica de manter conhecia meninas menores de idade presas em um hotel vagabundo próximo ao estúdio. O dono do hotel foi chamado à delegacia, mas disse que só Mojica da TV e que nunca o havia visto em seu hotel.

Apesar da falta de provas, os policiais armaram um circo: não só obrigaram Mojica a passar uma noite no xadrez como, na manhã seguinte, chamaram todos os jornais e redes de televisão para cobrir sua prisão. Um programa policiaresco da TV Excelsior entrevistou os detetives que o haviam prendido, tratando-os como heróis nacionais. O apresentador do programa colocou uma cadeira vazia no cenário, representando Mojica, e passou meia hora acusando-o de estelionatário e corruptor de menores.

Na manhã de terça-feira, o 1º Distrito ficou apinhado de repórteres. Mojica foi levado para uma pequena sala, onde seria entrevistado. Em vez de se abater, decidiu tirar proveito da situação: primeiro explicou aos jornalistas a trapalhada em que se metera por causa da Superfilmes, e depois aproveitou para fazer publicidade de seu novo filme, Finis Hominis. Mojica não reclamou da polícia e nem se fez de vítima. Disse que sua noite no xadrez fora muito proveitosa, pois tiveram a chance de conversas com “elementos criminosos” que certamente serviriam de tema para futuros filmes. Solícito e bem-humorado, atendeu a todos os pedidos dos fotógrafos e cinegrafistas, poisando com suas longas unhas sobre a papelada do inquérito que a polícia abrira contra ele. Acabou saindo como o vencedor da história: no dia seguinte, todos os jornais o inocentavam das acusações e ainda traziam ampla cobertura sobre Finis. Mais uma vez ele conseguira transformar um episódio possivelmente danoso à sua carreira em uma sessão de publicidade gratuita.

Depois da prisão de Mojica, Nilce foi morar com os pais dele, Antônio e Carmen. Antônio precisava de cuidados médicos e Mojica propôs a Nilce que se mudasse para lá. Nilce gostou da ideia. Afinal, estava morando há dois anos numa pensão, desde que Mojica a convencera a sair da casa dos pais com a promessa de que logo morariam juntos (promessa que ele levaria treze anos para cumprir).

Antônio e Carmen pouco sabiam sobre a vida pessoal de seu filho: desconheciam seu romance com Nilce e tampouco sabiam dos três filhos que ele tinha com Maria. Para eles, o único neto era Derian, filho de Rosita. Quando visitava os pais, Mojica tratava Nilce como uma aluna qualquer, para não levantar suspeitas. Ela ficava furiosa, mas ele dizia que só agia assim para não irritar sua mãe, que não aprovara sua separação de Rosita.

No fim de 1970, no entanto, a farsa de Mojica desmoronou. Tudo por culpa da diretora da escola de seu filho Crounel, que exigira a certidão de nascimento para efetuar sua matrícula. Até então, nenhum dos três filhos de Mojica e Maria – Crounel, Mariliz e Merisol – havia sido registrado. Legamente, as crianças não existiam. Mojica ficou num dilema: ou deixava Maria registrar as crianças sem incluir nas certidões, o que o impossibilitaria de batizar os filhos com seu sobrenome, ou contava tudo a Rosita e Nilce e acabava logo com a farsa.

Novamente ele optou por uma solução meia-bomba: decidiu contar a verdade para Nilce, mas não para Rosita. Se Rosita descobrisse que ele tinha filhos com outra mulher, poderia impedi-lo de ver seu filho Derian. Já Nilce era a mais ingênua e submissa das suas mulheres. Mojica inclusive tinha esperanças de que ela o ajudaria a encontrar uma solução para o caso.

O primeiro passo era abrir o jogo com Nilce. E Mojica tinha uma tática infalível para lidar com namoradas ciumentas em situações delicadas como essa: em vez de assumir a culpa e pedir perdão, ele se fingia de irritado e xingava a namorada sem nenhum motivo aparente, como se ela é que tivesse feito algo de errado. Com a moça ainda abalada por seu inesperado acesso de fúria, ele contava a verdade, com a maior cara-de-pau do mundo. Dessa vez, não foi diferente. Numa manhã de sábado, ao encontrar Nilce no estúdio, ele já saiu gritando:

- Sua cretina! Miserável! Safada!

Nilce, sem entender nada, tentou acalmá-lo:

- O que foi que eu fiz, José?

- O que você fez? E precisa perguntar, porra? Eu confiei em você e é assim que você me paga? Eu não mereço isso!

Mojica continuou esbravejando por vários minutos, que para Nilce pareceram horas. Ela já estava em lágrimas, tentando descobrir o que o enfurecera daquela maneira, quando ele soltou a bomba:

- É por isso que eu saio com outras mulheres! E quer saber o que mais? Eu tenho filhos com outras mulheres! Tenho dezessete filhos! Só com uma mulher eu tenho doze!

Essa era outra tática de Mojica: depois de humilhar bastante a namorada, ele soltava alguma mentira tão absurda que qualquer coisa que confessasse depois seria café pequeno em comparação.

- O que, José, doze filhos?

- É, doze filhos!

Nesta altura Nilce já estava totalmente dominada. Ela era muito jovem, 24 anos apenas, e completamente apaixonada por Mojica. Nilce sabia que ele tinha casos com outras mulheres, mas preferia suportar a humilhação de ser traída a imaginar sua vida sem ele. Ela se recompôs do choque, enxugou as lágrimas e abraçou-o carinhosamente, como que se desculpando. Implorou para que ele a perdoasse e perguntou se não poderia ajudá-lo de alguma forma. Mojica falou então dos três filhos que tinha com Maria (a tal “prima” de que Nilce ouvia falar há anos) e do problema que estava tendo com os registros de nascimento das crianças.

Conversaram por mais de uma hora, tentando encontrar uma solução para o problema. Nilce era uma pessoa extremamente sensata e pragmática, o oposto de Mojica. Ela sugeriu contar tudo para Rosita e arcar com as consequências. Ele nem queria pensar na hipótese. Nilce perdeu a calma:

- José, se você não quer assumir o seu erro, por que não pede para o seu pai assumir a paternidade das crianças? Assim elas podem se chamar Marins!

Era apenas uma brincadeira, um desabafo de uma mulher obviamente magoada com a situação. Mas, para Mojica, a ideia até que não pareceu tão ruim...

Animado, ele correu para a casa dos pais e contou tudo sobre os três netos que eles não conheciam. Antônio e Carmen ficaram estarrecidos. Choque maior levaram quando Mojica pediu ao pai que aceitasse pôr seu nome no registro das crianças. Antônio recusou-se a participar de um trambique tão absurdo. Mas Mojica insistiu; disse que seria a única forma de batizar os filmes com sobrenome. O amor paterno acabou falando mais alto, e novamente Antônio e Carmen vieram em socorro do filho.

No dia seguinte, Mojica apresentou Maria a seus pais. Ironia das ironias: dez anos antes, ela interpretaria a esposa de Antônio no filme Meu Destino em Tuas Mãos. Agora, teria três filhos com ele – ainda que só no papel.

Foram todos juntos ao cartório. Carmen nem parecia abalada com a perspectiva de ver o marido assumir a paternidade dos filhos de outra mulher. Antônio estava doente do pulmão e teve que ser amparado para entrar no táxi. Ele assinou a papelada e tornou-se, aos 64 anos, pai de três crianças que nunca havia visto. E Mojica virou irmão dos próprios filhos! Até hoje, as certidões de nascimento de Crounel, Mariliz e Merisol trazem o nome de Antônio como pai.

O cambalacho foi providencial: poucas semanas depois, Rosita, que já muito desconfiava de Mojica, seguiu-o até a casa de Maria. Bateu na porta e o pequeno Crounel atendeu. Rosita entrou na casa, furiosa. Flagrou Mojica e Maria sentados lado a lado no sofá da sala.

- Seu vagabundo! Quem é essa mulher?

Ele não hesitou:

- É a amante do meu pai!

- Amante do teu pai? Tá achando que eu sou idiota?

Mojica prontamente mostrou os registros com o nome de Antônio.

- Tá vendo? O velho teve três filhos com a Maria aqui. Eu não gosto nem de falar, porque o pessoal do bairro pode descobrir e vai pegar mal pra minha mãe!

Rosita não foi a única enganada pelos registros falsos: durante vários anos, os próprios filhos de Mojica e Maria – Crounel, Mariliz e Merisol – acreditaram que o nome verdadeiro de seu pai não era José, mas Antônio André Marins. Maria dizia que José era apenas seu nome artístico. Foi só quando Crounel completou 14 anos que ela lhe contou a verdade.

As cabeças das crianças deviam dar voltar com toda a confusão: elas não sabiam que tinham um irmão – Derian – mas não o conheciam. Também sabiam que seu pai tinha outra mulher, mas achavam que sua mãe, Maria, era a esposa “oficial” e não a amante. Às vezes, ouviam falar de uma namorada – Nilce – que frequentava o estúdio. Por vários anos, Crounel achou que Nilce e Rosita eram a mesma pessoa.

Apesar de sua vida conturbada e das bebedeiras, Mojica se dava bem com os filhos e fazia de todo para demonstrar carinho. Como seus horários de trabalho eram incompatíveis com os da criançada – levantava-se ao meio-dia ficava no estúdio até duas da manhã – ele sempre acordava os filhos quando chegava em casa, de madrugada, para contar como havia sido seu dia. Nunca deixava de trazer uma pizza ou alguma lembrancinha.

A vida da família era uma dureza: Mojica, Maria e as três crianças moravam num quarto e sala na rua Coronel Albino Bairão, no Brás. O casal dormia no quarto e as duas meninas dividiam um beliche na copa. Crounel dormia no corredor. Embora nunca tenham passado fome, as crianças comiam mal. Adoravam ir a Santo André visitar a avó materna, porque tinham chance de provar guloseimas como sorvete e Coca-Cola, artigos raros em casa.

As brigas entre Mojica e Maria eram assunto no bairro todo. Ambos eram atores, e suas discussões atingiam níveis de dramaticidade impressionantes. Maria chorava e ameaçava se jogar pela janela; Mojica chegou a deixar duas ou três cartas de suicídio: “Já que não me querem mais, vou sair agora para me matar. Adeus”. Maria saía atrás dele, preocupada, e encontrava-o trabalhando no estúdio, como se nada tivesse acontecido.

As crianças também sofriam um bocado na escola. Crounel foi apelidado de “Zé da Caixinha”. Seus coleguinhas de classe sempre perguntavam se ele gostava de comer morcego no lanche. Um dia, tentaram forçá-lo a engolir uma minhoca:

- Ué, o seu pai não faz isso? Por que você também não pode fazer?

Muitos pais de alunos recusavam-se a deixar seus filhos brincar na casa dos Marins. Alguns chegaram a pedir à direção da escola que proibisse Mojica de participar das reuniões de pais (desnecessário, já que ele nunca compareceu).

 

Durante o ano de 1970, a saúde de Antônio Marins piorou muito. O edema pulmonar havia formado uma enorme mancha roxa em suas costas. Antônio respirava com dificuldade e tinha terríveis acessos de tosse. Os médicos lhe deram poucos meses de vida. No dia 5 de janeiro de 1971, Mojica e Nilce estavam na Odil Fono Brasil trabalhando na dublagem de Finis Hominis, quando alguém telefonou do hospital avisando que Antônio havia morrido.

No velório, Carmen, aos prantos, beijava o rosto do marido e gritava: “Eu te perdoo! Eu te perdoo!”. Ela o amava demais, apesar da infidelidade que tivera que suportar ao longo de 38 anos de casamento. Mojica ficou abaladíssimo com a morte do pai. Começou a beber muito depois disso. Pela primeira vez na vida, parecia desinteressado por cinema. Passou duas semanas inteiras bebendo todo dia, até cair.

Mojica levou pelo menos três meses para conseguir voltar à rotina. Aos poucos, foi diminuindo as bebedeiras e começou a concentrar-se novamente em seus projetos. No fim de maio, foi ao Paraná filmar o bangue-bangue D´Gajão Mata Para Vingar, história de um cigano que sai em busca de vingança depois que os capatazes de um coronel chacinam sua tribo. O produtor Augusto Pereira – que nessa época já havia mudado seu nome para Augusto Cervantes, em homenagem ao grande escritor espanhol – havia iniciado as filmagens meses antes, com outro diretor. Só não sabia que o sujeito bebia como uma esponja. Quando revelaram os negativos, não havia cena que prestasse. Preocupado, Augusto resolveu chamar Mojica para apagar o incêndio. O problema é que a verba para D´Gajão, que já era pouca, ficara reduzida a quase nada depois da filmagem mal-sucedida com o diretor pinguço. Augusto e sua companheira, Nilza de Lima, haviam desembolsado uma fábula com o aluguel de equipamento e transporte de toda a equipe. Sobrara apenas um terço do orçamento, e só mesmo Mojica conseguiria fazer um filme com tão pouco dinheiro.

Sua primeira providência foi conseguir atores quer trabalhassem de graça. O papel principal, o do cigano D´Gajão, ficou com o advogado de Mojica e aluna da Apolo, Walter Portela. Já Nilza de Lima persuadiu sua neta, Ana Nilson, a interpretar a cigana Nadja. Ana Nilsen aceitou o papel mis por amor à avó do que por vocação artística. Ela estudava medicina e não tinha experiência alguma em cinema. Estava insegura e temerosa de que acabaria estragando o filme. Nilza tranquilizou-a: “Não se preocupe, Aninha, que o Mojica dá um jeito. Ele trabalha com aquele bando de pés-rapados e não vai conseguir fazer de você uma atriz?”.

Ana Nilsen não sabia no que estava se metendo: era uma moça mimada, frágil, acostumada a passeios por jardins e lanches em sorveterias, e agora teria que galopar em cavalos selvagens e rolar por ribanceiras pedregosas. Seu martírio começou cedo: logo no primeiro dia, havia uma cena em que ela tinha que descer um morro a cavalo, galopando velozmente ao lado de dezenas de outros ciganos. Augusto contratou um peão para ensiná-la a montar. “Não tem mistério”, disse o peão, “é só segurar firme nas rédeas e puxar quando quiser parar”. Os atores levaram seus cavalos para trás do morro e ficaram esperando o sinal de Mojica. O sinal foi dado e eles vieram galopando. Depois que os cavalos passaram pela câmera, Mojica gritou “corta”. Todos os cavalos pararam, menos o de Ana Nilsen, que continuou galopando por mais dois quilômetros, com a donzela no lombo. A equipe, boquiaberta, viu o cavalo sumir no horizonte, enquanto Ana gritava por socorro.

No dia seguinte, havia uma cena ainda mais complicada, na qual Nadja era resgata por D´Gajão. Ana Nilsen precisaria saltar de uma cerca e cair em cima de um cavalo, que viria correndo em pleno galope, montado pelo ator Walter Portela. Ela ensaiou a cena pela primeira vez e se esborrachou no chão. O cavalo era muito alto. Na segunda tentativa, novo tombo. Na terceira vez, seu pé ficou preso no escribo e ela quase foi arrastada pelo animal. Ana estava moída, coberta de poeira e a ponto de mandar todos para o inferno.

Augusto chamou Mojica e o fotógrafo Edward Freund para uma reunião de emergência. Precisavam encontrar uma maneira de filmar a cena. Não seria fácil: o cavalo era um puro-sangue branco com manchas pretas, enorme, e a cerca era baixa demais. Ou aumentava-se a cerca ou diminuía-se o cavalo. Foi aí que Mojica viu um pangaré branco pastando nas imediações. Mandou selar o animal e disse que usariam aquele cavalo. Freund respondeu que não seria possível, pois haviam rodado a cena anterior com o puro-sangue e a continuidade ficaria prejudicada. Além do mais, o puro-sangue tinha manchas pretas pelo corpo, enquanto o pangaré era todo branco.

Mojica não se abalou: mandou um assistente trazer uma lata de graxa e um rolo de gaze, e começou a pintar as manchas no pangaré, que ficou parecendo um dálmata. Rodaram a cena com o cavalo-dálmata mesmo. O resultado foi hilariante: Walter Portela vem galopando num cavalo grande e garboso; em seguida, há um corte e, subitamente, o animal encolhe meio metro. Quando Ana Nilsen pula em cima do velho pangaré, o coitado sai arfando, como se estivesse prestes a sofrer um ataque do coração.

As filmagens de D´Gajão Volta Para Vingar terminaram em junho. Três meses depois, a Censura liberou Finis Hominis, com quatro cortes (dois na cena do velório, um no ritual hippie e outro na sequência em que Terezinha Sodré é flagrada com o amante na cama). Enquanto qualquer outro diretor ficaria furioso vendo sua obra mutilada em quatro partes, Mojica comemorou: há cinco anos um filme seu não recebia tão poucos cortes. O lançamento de Finis foi marcado para dezembro. Até lá, ele se dedicaria a seu projeto mais ambicioso: Os Sapos.

 

No domingo, 31 de outubro de 1971, os moradores de Marília abriram os jornais e deram de cara com esta manchete aterrorizante:

 

BILHÕES DE SAPOS INVADEM MARÍLIA

 

Mojica era o culpado. Dias antes, ele havia procurado o prefeito da cidade, Barretto Prado, pedindo apoio à Os Sapos, um filme catástrofe sobre uma invasão de batráquios assassinos. “Meu filme será uma mistura de Os Pássaros com O Planeta dos Macacos”, prometeu.

O roteiro de Os Sapos misturava mensagens ecológicas e parapsicologia, numa história das mais excêntricas: tudo começava numa indústria que preparava carne de rã para restaurantes chiques. Os sapos – aparentemente imbuídos de consciência de classe – se revoltam com a chacina de seus semelhantes e atacam a cidade. “Eles chegam de trem, de carro e até de avião”, explicou Mojica, sério. A única esperança de salvação para os humanos é o professor Backer – personagem que seria interpretado pelo próprio Mojica – um cientista de poderes paranormais que consegue se comunicar telepaticamente com o líder dos batráquios, um sapão dourado e voador.

Mojica pediu ao prefeito que construísse viveiros para abrigar os 10 mil sapos que seriam usados na filmagem. Em troca, garantiu que o filme seria uma grande oportunidade de divulgação turística para Marília: “Nós mostraremos os prédios e praças mais lindos de Marília sendo atacados pelos sapos”, explicou. “Estrou planejando uma grande cena em que os sapos invadem o prédio do Paço. Tenho certeza de que turistas de todo o Brasil vão querer conhecer esta bela cidade depois que o filme for lançado!”.

Havia também, segundo afirmou Mojica ao jornal Diário da Noite, uma razão filantrópica por trás do filme: depois de terminada a filmagem, os sapos seriam enviados para a cidade de Altinho, em Pernambuco, que estava sofrendo um devastador ataque de gafanhotos. “Os sapos, embora repelentes, são animais muito úteis. Se não fosse pelos sapos, o ser humano nem existiria. Nós, seres humanos, poderíamos aprender muito com eles. Eu, inclusive, estou procurando telepatas e espíritas que possam me ajudar a me comunicar com os anfíbios”. Mojica encerrou a entrevista com uma declaração que se arrependeria amargamente: “Peço à população que ajude o cinema nacional, enviando para o meu estúdio na Moóca todos os sapos que encontrarem”.

A população se sensibilizou: no dia seguinte, mais de cinquenta sapos foram entregues no estúdio. Fãs foram pessoalmente levar suas contribuições anfíbias e cumprimentar Zé do Caixão. Em poucos dias, Mojica havia juntado mais de duzentos sapos num caixote. Era um coaxar infernal. Poucos meses depois, Os Sapos estreou em São Paulo. Não o filme de Mojica, mas uma produção americana, dirigida por George McCowan e estrelada por Ray Milland. Mojica desistiu do projeto e mandou um assistente jogar os sapos no Tietê.

 

No início de 1972, Mojica conheceu Francisco Cavalcanti, um veterano ator de rádio que ficara famoso no circo interpretando o palhaço Goiabada. Cavalcanti comandava outra escola de atores e propôs uma sociedade num filme que não estava conseguindo terminar. Dois anos antes, ele iniciara as filmagens de Glória dos Canalhas, um filme policial estrelado por Carlos Gonzaga, um cantor romântico que fazia um tremendo sucesso nas rádios populares com a balada “Diana”, versão do hit de Paul Anka. A produção parou por alguns meses por falta de verba. Quando o dinheiro finalmente saiu, Gonzaga havia se tornado crente e não queria mais saber de cinema.

Cavalcanti procurou Mojica e sugeriu uma coprodução: Mojica ajudaria na direção do filme e interpretaria o vilão. Em troca, ficaria com 30% da bilheteria. Os dois juntariam também os alunos de suas escolinhas, formando uma super-escola e garantindo dezenas de figurantes para o filme. Mojica aceitou a oferta, e a nova escola foi batizada de Ribalta Filmes. Somando os alunos dos dois cursos, a Ribalta tinha agora mais de trezentos membros pagantes. Os novos sócios começaram a expandir suas atividades: além de dar aulas de interpretação, contrataram professores para ensinar caratê, balé, canto, judô e até futebol.

Mojica teve a ideia de oferecer também aulas de luta-livre, e saiu atrás de um professor. Ele sondou alguns amigos que andavam metidos em espetáculos de tele-catch, muito populares na época, e eles indicaram Satã, um jovem lutador que despontava como um dos melhores da cidade. Mojica ficou entusiasmado:

- Com um nome desses, deve ser bom mesmo!

Assim que bateu o olho em Satã, Mojica sabia que precisaria usá-lo em algum filme. Era o ator perfeito para uma fita de terror: 1,90 metro de altura, forte como um touro e dono de um rosto amedrontador. Satã – ou Melquíades França Neto – era mineiro de Mateus Leme, filho de mãe branca e pai preto, e nascera com os olhos esticados de um mongol. Não havia no mundo ninguém mais adequado para interpretar Gengis Khan.

Aos 21 anos, Melquíades saíra de Minas e fora para São Paulo trabalhar em obra. Estava carregando cimento no centro da cidade, quando foi avistado por Hélio Silva, dono de uma academia de luta-livre. Impressionado com o porte físico do rapaz, Silva convidou-o para se juntar à sua caravana, que fazia lutas pelo interior. Melquíades recebeu o apelido de Satã e poucos meses depois já estava se engalfinhando nos ringues com feras como Ted Boy Marinho, Fantomas e Tigre Paraguaio.

Mojica acabou contratando-o como seu guarda-costas. Melquíades ficou empolgado: em Mateus Leme, costumava reunir-se com seus amigos num boteco, toda sexta-feira, para assistir na TV ao programa de Zé do Caixão. Ficavam tão assustados com as histórias macabras de Mojica que voltavam para casa juntos, com medo das sombras. Satã escreveu para os amigos contando a novidade. Só pediu ao pessoal não comentar sobre seu apelido: se sua mãe, uma católica fervorosa, soubesse que ele havia sido batizado com o nome do senhor das trevas, com certeza viria para São Paulo busca-lo no tapa.

 

A sociedade entre Mojica e Francisco Cavalcanti durou apenas oito meses. A escola de atores não progrediu e Glória dos Canalhas seguia a passo de tartaruga. O filme acabaria sendo lançado três anos depois, com o nome de Mulheres do Sexo Violento (título imposto pelo produtor Nelson Teixeira Mendes, apesar de a fita não ter muitas mulheres e muito menos “sexo violento”). A única curiosidade desta obra esquecível é a participação, como ator, de um retirante paraibano que depois faria sucesso nacional em filmes como O Homem Que Virou Suco e A Hora da Estrela: José Dumont.

Nesse meio-tempo, Mojica envolveu-se em dois filmes que não foram sequer terminados: a pornochanchada Pega no Meu Ganso, produzida por seu amigo – e companheiro de copo – Fred Scarlatti, e Boni, o Homem Virgem, de George Michel Serkeis, uma bizarra fita de terror psicológico e erotismo. Sentindo que não estava tendo muita sorte com cinema, Mojica tentou faturar um trocando encenando peças de terror em teatros do subúrbio, dando aulas de teatro na praia de Santos e vendendo gibis em festas. Nada deu certo. Sem condições de pagar o aluguel do estúdio da Moóca, foi forçado a transferir sua escolinha para uma sala na rua Visconde de Parnaíba, no Belém.

Mojica tinha vários filmes na gaveta, mas não conseguia realizá-los por falta de produtor. Chegou a discutir com vários produtores o filme A Encarnação do Demônio, a continuação da saga de Zé do Caixão, mas todos continuavam assustados com a proibição de Ritual dos Sádicos, e não queriam se arriscar. A única saída, na cabeça de Mojica, seria continuar bolando alguns eventos bizarros para manter seu nome na mídia e tentar atrair o interesse de algum investidor.

Em junho de 1973, o jornal Notícias Populares publicou uma série de reportagens sobre um boato que andava circulando pela cidade: dizia-se que um vampiro andava à solta em Osasco, na Grande São Paulo. A lenda surgiu depois que foram encontrados alguns cachorros mortos, com buracos nos pescoços. O NP batizou o monstro de “Vampiro de Osasco” e dedicou-lhe várias reportagens. Farejando uma boa oportunidade, Mojica procurou o repórter Nelson Delbino e combinou uma excursão a Osasco, onde faria um “desafio ao vampiro”.

Na sexta-feira, 22 de junho de 1973, depois de tomar cachaça adoidado num bar da Boca do Lixo, Mojica e seu séquito saíram em carreata até Osasco. Já era noite quando chegaram à cidade. No cemitério, o vigia bronqueou: não iria deixar ninguém entrar. Onde já se viu, visitar o cemitério numa hora daquelas? Acabou levando uns tabefes de Satã e mudou de idade. A turma invadiu o cemitério e fez dezenas de fotos. Dois dias depois, o NP publicava ampla reportagem sobre o exorcismo, na qual Mojica declarava: “O Vampiro de Osasco não existe! O único Drácula brasileiro sou eu, e eu não sou doido de beber sangue; bebo vinho, e do bom!”.

A performance não lhe rendeu grande coisa. O único que veio em seu auxílio foi seu velho conhecido, Augusto de Cervantes. Augusto convidou-o para dirigir uma pornochanchada, A Virgem e o Machão, história de um conquistador que vai a uma cidade do interior e vira a grande coqueluche das mulheres locais. O roteiro havia sido escrito por Georgina Duarte, filha da companheira de Augusto, Nilza de Lima. Ninguém desconfiava, mas Augusto estava vivendo um romance secreto com Georgina. Depois de dezessete anos com Nilza, ele a havia trocado pela filha.

As filmagens aconteceram em São Paulo e Ilhabela, no litoral paulista. Mojica procurou rodar o filme o mais rápido possível. O roteiro, como tantos outros da época da pornochanchada, limitava-se a uma sequência de cenas eróticas intercaladas por uma história das mais fracas, com diálogos sem graça e piadas de duplo sentido. Mojica sabia que esses filmes de encomenda acabariam manchando sua reputação, tanto que exigiu assinar a direção com o pseudônimo de J. Avellar.

Quando A Virgem e o Machão estreou, um ano depois, o crítico do Jornal da Tarde, Telmo Martino foi impiedoso:

 

Os filmes de outros países falam de 2001 e 2020. Mas o cinema brasileiro é o único que já está produzindo e estreando filmes para as próximas plateias do prometido planeta dos macacos. A Virgem e O Machão é uma dessas produções simiescas que tornam a venda de pipocas e balas nos cinemas que os exibem um comércio anacrônico. Só o consumo de bananas seria capaz de dar à plateia um prazer coerente com o humor que o filme escolheu. A única defesa que esse filme brasileiro pode usar para sua inclusão na atualidade é dizer que pertence ao cinema fantástico. Afinal de contas, mesmo vendo é impossível acreditar no que suas cenas mostram.

 

O ano de 1973 foi um dos mais difíceis e frustrantes da carreira de Mojica. Seu maior ganha-pão foi como jurado do programa de Raul Gil. Não que o salário fosse lá grande coisa, mas ele ganhava um dinheirinho vendendo os brindes que recebia dos patrocinadores, como ferros de passar e vitrolas. Nas horas de maior aperto, chegou a aceitar propinas de alguns calouros para não os desclassificar.

O curioso é que muitos nessa época o tomavam por milionário, por causa de um episódio ocorrido numa gincana do programa Cidade contra Cidade, apresentado por Sílvio Santos: um grupo de idosos recebeu a tarefa de descobrir onde morava Zé do Caixão. Acabaram encontrando, num quarteirão chique do Morumbi, uma horrorosa casa em forma de caixão. Mojica, só para ajudar os velhinhos, disse que morava mesmo naquela casa. Logo a cidade inteira estava comentando sobre a “mansão do Caixão”; não passava um dia sem que alguém importunasse o morador perguntando por Mojica.

Enquanto isso, ele continuava duro e infeliz. Já estava há quase três anos sem fazer um filme que pudesse ser considerado genuinamente seu, desde Finis Hominis. E a perspectiva não era das melhores: a Embrafilme  fechava cada vez mais seu círculo de apaniguados e a Censura continuava a persegui-lo. A implicância dos censores ficou evidente quando Mojica solicitou a renovação do certificado de liberação de Á Meia Noite Levarei Sua Alma. O filme havia passado pela Censura em 1964 e fora liberado para maiores de 18 anos. A renovação do certificado era uma simples formalidade burocrática. Os censores Antônio Gomes Ferreira e Maria Luiza Cavalcante, no entanto, decidiram interditar o filme, justificando sua decisão com um parecer risível e cheio de erros de português, no qual consideravam “um paradoxo” o fato de o filme chocar “até mesmo a sensibilidade censória”:

 

É inconcebível que ainda permitam películas tão negativas e afrontosas ao bom senso e decoro social. É de uma perversidade inominável, cujo único fim é ferir, humilhar, destruir o que há de humano em cada espectador. Num verdadeiro paradoxo, esta película fere até mesmo a sensibilidade censória, por se vê (sic) obrigada a tolerar chantagens semelhantes, num embuste à realidade artística da sétima arte (...) Finalmente, é um filme indigno de uma tela nacional.

 

Mojica tinha agora dois filmes interditados, Ritual dos Sádicos e Á Meia Noite Levarei Sua Alma, além de outros completamente retalhados pela Censura, como O Estranho Mundo de Zé do Caixão e Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver, os quatro filmes em que aparecia o personagem Zé do Caixão – Á Meia Noite, O Estranho Mundo e Ritual dos Sádicos – totalizavam 359 minutos de duração. Destes, mais de 200 minutos estavam censurados.

Em dezembro, Mojica finalmente recebeu uma boa notícia: O Estranho Mundo de Zé do Caixão havia sido premiado no Festival Internacional do Cinema Fantástico e de Horror em Sitges, na Espanha, um dos mais importantes do mundo, no gênero. Foi uma surpresa, já que ele nem sabia que a fita estava concorrendo. Um ano antes, Augusto de Cervantes havia enviado uma cópia do filme à Espanha, tentando conseguir algum distribuidor interessado. Os espanhóis gostaram tanto que resolveram incluí-lo no festival.

Até então, nenhum de seus filmes havia sido distribuído fora do Brasil. Sua fama, no entanto, começava a se espalhar, graças a uma rede informal de correspondência entre fãs e também a pequenos artigos publicados em revistas e jornais. O roteirista Rubens Francisco Lucchetti se correspondia com vários jornalistas europeus, como o português Vasco Granja e o espanhol Luis Gasca, e ajudou a divulgar o nome de Mojica na Europa. Lucchetti também escreveu um longo artigo sobre Zé do Caixão para a revista norte-americana Cinema-TV-Digest.

O primeiro contato dos europeus com os filmes de Mojica acontecera em 1971, durante o Festival de Cannes. Naquele ano, a Embrafilme organizou uma mostra de vinte filmes brasileiros e decidiu incluir Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver (outros filmes programados: Memória de Helena, de David Neves, Pindorama de Arnaldo Jabor, e A Grande Cidade, de Cacá Diegues).

Entre 1971 e 1973, artigos sobre Mojica foram publicados na Itália, Espanha, Portugal e México. As prestigiadas revistas francesas Midi-Minuit Fantastique e L´Ecran Fantastique dedicaram-lhe amplas reportagens. Alain Scholockoff, editor do L´Ecran Fantastique, empolgou-se tanto com os filmes de Mojica que resolveu convidá-lo para a 3º Convenção de Cinema Fantástico, que se realizaria em Paris, em abril de 1974.

Schlockoff programou a exibição de dois filmes, Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver e O Estranho Mundo de Zé do Caixão. Mojica descobriu que Ritual dos Sádicos, embora proibido para exibição no Brasil, havia recebido da Censura o selo de “livre para exportação”. Ele avisou à direção do festival que poderia levar uma cópia. Seria a primeira exibição pública de Ritual, quatro anos após ter sido rodado. O festival chegou a anunciar a exibição do filme, mas a cópia ficou retida pela Censura e nunca saiu do país.

Mojica embarcou para Paris em 5 de abril, acompanhado por seu amigo Cleber de Hollanda. Cleber trabalhava há anos com distribuição e produção de filmes, e Mojica havia pedido que ele fosse à França para negociar com os produtores que estariam no festival (no fim das contas, nenhum acordo foi firmado durante a viagem). Mojica foi muito bem-sucedido no festival e tratado como celebridade.

O momento mais emocionante para Mojica, no entanto, foi o encontro com o outro convidado de honra do festival, o ator britânico Christopher Lee, um dos mais famosos “Drácula” do cinema. Lee e Mojica posaram para fotos juntos e participaram de um debate. Mojica disse aos jornalistas que gostaria de convidar Lee para atuar em seu próximo filme. O britânico, gentil, sorriu sem graça e respondeu que admirava seu trabalho e que adoraria trabalhar com ele – na verdade, nunca ouvira falar de Mojica até aquele dia.

No encerramento do festival, Mojica ganhou o troféu L´Ecran Fantastique pelo conjunto de sua obra. Enquanto a imprensa especializada em filmes de terror o tratava como um astro, os jornais “normais” não conseguiam entender o seu apelo: o Le Monde disse que, se o festival quisesse dar um prêmio ao melhor humorista, Mojica deveria ser coroado. Já o repórter do Le Figaro ficou impressionadíssimo quando Mojica contou das inúmeras mortes ocorrias com atores e técnicos durante suas filmagens. Algum tempo depois, o jornal publicaria um artigo dizendo que o diretor matava seus atores e, mesmo assim, “continuava a andar impunemente pelas ruas de São Paulo”.

 

Publicado originalmente em BARCINSKI, André & FINOTTI, Ivan. Maldito: a vida e o cinema de José Mojica Marins, o Zé do Caixão. São Paulo: Editora 34, 1998.