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quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

VSP entrevista: Gilberto Nascimento: “O Republicanos vai continuar com seu projeto de ocupar todos os lugares. Eles se aliam a qualquer governo”

 

O repórter Gilberto Nascimento, autor do livro O Reino: a História de Edir Macedo e uma radiografia da Igreja Universal 

Fundada em 1980, a Igreja Universal do Reino de Deus é a maior denominação evangélica neopentecostal do Brasil. A legenda inovou no meio religioso ao ter seu próprio partido político: o Republicanos, que foi criado em 2003. Nas eleições municipais de 2020, a legenda perdeu nos dois principais colégios eleitorais brasileiros: São Paulo onde Celso Russomanno ficou em quarto lugar com 560.666 votos (10,50%) e Rio de Janeiro onde o bispo Marcelo Crivella ficou em segundo lugar com 913.700 votos (35,93%).

Apesar de perder nas duas maiores cidades do país, o Republicanos cresceu no interior do país e no número de municípios. O partido elegeu 211 prefeitos e 2601 vereadores. Um aumento significativo já que em 2016 o Republicanos tinha 106 prefeitos e 1624 vereadores. “Eles perderam a eleição nos principais centros mas se fortaleceram ao longo do país. Como a esquerda se envolveu em muitas denúncias a opção do eleitor foi a extrema direita”, analisa o jornalista Gilberto Nascimento.

Em 2020, o Republicanos venceu em uma capital do país: Vitória no Espírito Santo com o delegado Lorenzo Pazolini. O partido da IURD também venceu em grandes colégios eleitorais do estado de São Paulo como Campinas com o médico urologista Dario Saadi e Sorocaba com o ex-vendedor de automóveis Rodrigo Manga. “Eles perderam no Rio, perderam em São Paulo mas em geral tiveram avanços nas eleições de 2020. Isso falando em termos numéricos de prefeitos e vereadores por todo Brasil”, define Nascimento.

O veterano repórter Gilberto Nascimento conhece de perto o Republicanos e a Igreja Universal do Reino de Deus há décadas. Ele é autor do livro-reportagem O Reino- a História de Edir Macedo e uma radiografia da Igreja Universal pela Companhia das Letras. O livro esteve entre os cinco indicados ao prêmio Jabuti de melhor biografia, documentário e reportagem de 2020. Profissional experiente do meio jornalístico, Nascimento iniciou sua carreira nos anos 1980 no jornal semanal O São Paulo, órgão oficial da Arquidiocese de São Paulo.

A cobertura da política, religião e direitos humanos tornou-se algo presente na sua carreira. Ele também teve passagens pela Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, O Globo, revista Carta Capital, Correio Braziliense, piauí e TV Record. Mas seu nome talvez seja mais lembrado entre os colaboradores da revista IstoÉ, da editora Três. “Foram duas passagens. Fiquei de 1994 até 2001 e depois acabei voltando em 2004 por mais dois anos. No total foram nove anos e meio. Muita gente lembra da minha passagem por lá”, lembra ele rindo. Gilberto Nascimento concedeu uma entrevista exclusiva com o VSP sobre seu livro, a Igreja Universal do Reino de Deus, neopentecostalismo, política, religião e o resultado dos Republicanos nas Eleições 2020. Conversamos durante duas horas por telefone há duas semanas. Confira os melhores momentos.

 

VSP- Como surgiu a ideia da Igreja Universal do Reino de Deus ter um partido próprio?

Gilberto Nascimento- Nunca vi uma explicação definitiva sobre isso. Na verdade, o Edir Macedo escreveu um livro chamado Plano de Poder no começo da década de 2000. Então, ele já tinha um projeto, um plano de participação da política e de ocupação de espaço dentro da política. Isso foi crescendo dentro dele e da instituição com o tempo. Desde os primeiros tempos do Edir Macedo isso existia. Meu livro centra que existem têm pontos fundamentais para o crescimento da igreja: espalhar o maior número de templos possíveis, ocupar o espaço da mídia inicialmente com emissoras de rádio e tendo poder político. Como ele falava pro (ex-bispo) Ronaldo Didini: “Não basta ter dinheiro. Precisa ter poder político. Senão, não adianta nada”. Isso acontece desde os anos 1980 quando ele chegou a ser nomeado bispo e o Roberto Lopes que tinha sido um dos fundadores com ele se candidatou a deputado federal. Depois da Redemocratização, o número de candidatos foi aumentando tanto nas câmaras municipais, assembleias estaduais e câmara federal. Tudo isso foi crescendo ao longo dos anos.

Cada vez mais esse trabalho ia ganhando resultados se ampliando e seguindo um processo que praticamente eles ocuparam todo espaço dentro do PL (Partido Liberal). Aliás, a candidatura do Lula como presidente em 2002 tinha o José de Alencar como vice que era ligado a Universal. Embora o Alencar fosse católico, mas ele foi assumido como candidato a vice da Universal. Até o momento em que criaram um projeto de ter poder político em nível municipal, estadual e federal. Exatamente quando ele falou: “Vou montar o meu partido político”, eu não sei mas isso sempre esteve no radar. Se um dia eles conseguirão ter um presidente da República eu não sei. Mas talvez eles tenham um governador. Não é só ter uma legenda política...A busca de ampliar um projeto político sempre foi uma intenção.

 

VSP- Essa coisa deles estarem em vários países...Afinal em quantos países a IURD está?

GN- São 95 países. Eles dizem que chegam em 170 países. Mas no site deles eu encontrei com endereços próprios em 95. Se eles estivesse em 170 eles colocariam no próprio site.

 

VSP- O senhor tem ideia por que eles escolheram o nome de Republicanos? Trata-se de alguma referência explícita ao partido norte-americano?

GN- Olha...Eu não sei. Eu acho que eles escolheram porque é um nome bonito (risos). Midiático talvez. Agora eles são de fatos republicanos? Eles escolheram esse nome porque é bonito. O partido que o Bolsonaro se elegeu foi o PSL que é o Partido Social Liberal. Mas o governo dele ou ele, são sociais-liberais? O PSB que é Partido Socialista Brasileiro tem algum socialista lá dentro? Talvez tenha uma meia dúzia. Mas a maioria do partido seguramente não tem nada de socialista. Então, esses nomes na realidade não significam muita coisa.

 

Capa do livro "O Reino: A história de Edir Macedo e uma radiografia da Igreja Universal" de Gilberto Nascimento, publicado pela Companhia das Letras em 2019

VSP- A derrota do Crivella no Rio é uma grande perda para a IURD e para o Republicanos?

GN- Olha...Eu até já respondi isso outro dia para um outro colega jornalista que me telefonou perguntando se é uma derrota...Não deixa de ser. Mas eu acho que a Igreja Universal não tem muito problema perder a eleição no Rio. Amanhã eles estarão com o Eduardo Paes (prefeito eleito) de novo. Eles não sabem ser oposição. Eu vejo assim: onde está o poder eles estão juntos. É uma derrota, óbvio mas não vai haver dificuldade para eles passarem a pertencer a base. Mas a Igreja Universal é Bolsonaro hoje e se amanhã tiver outro eles estarão com esse outro.  Até hoje é a prática deles. Pra eles não muda nada também estar com outro no poder. A Universal demonizou o Lula e no dia seguinte que o Lula venceu ficaram do lado dele. Eles ficaram catorze anos ao lado do PT. Quando o (Michel) Temer assumiu, eles estiveram com o Temer. Eles estavam com o (Geraldo) Alckmin até na véspera do primeiro turno. Assim que o Bolsonaro estiver fracos eles vão pro candidato que aparecer. Pode ser de esquerda, direita, o que for. Eles (Igreja Universal do Reino de Deus) estiveram com todo mundo no poder, com todo mundo: direita, esquerda, centro...

 

VSP- Mesmo assim, o Republicanos cresceu em número de prefeituras, principalmente no estado de São Paulo em colégios eleitorais significativos como Campinas e Sorocaba. O que o senhor acha disso?

GN- Cresceram, dobraram no país inteiro. Eu vi alguns números contraditórios. Foram mais pra duzentos nessa faixa. Está crescendo...Porque eles perderam a eleição nos principais centros mas se fortaleceram ao longo do país. Como a esquerda se envolveu em muitas denúncias a opção do eleitor foi a extrema direita. E agora foi por partidos de centro...Qualquer desses partidos pela extrema direita não tinha uma linha ideológica bem definida. Na verdade, nessa eleição o que ficou claro foi o seguinte: o eleitor não quer a esquerda, nem o Bolsonaro que é de extrema direita. Existiu uma preferência por partidos de centro-direita.

 

VSP- Mas o senhor acredita que o Republicanos e a Igreja Universal do Reino de Deus possuem um projeto de poder?

GN- Está escrito nesse livro (Plano de Poder, escrito por Edir Macedo). Na verdade, ele fala propostas mais genéricas mas ele incentivava os fiéis a ter participação política, ocupar espaço na política. Sempre tiveram...

 

VSP- O senhor acha que dá para surgirem mais partidos políticos da mesma linha pentecostal? O senhor acha que o (missionário) R. R. Soares também tem projetos políticos?

GN- Não sei. O R. R. Soares é um cara mais contido....Não sei dizer mas acho que...Eu diria que a palavra exata é que ele não é tão ambicioso como o Edir Macedo. Mesmo os dois sendo parentes porque o Soares é casado com a irmã do Edir (Macedo). Acredito que o Soares sempre teve uma conduta mais...Sempre optou por menos atenção ao grande público. O R. R. Soares foi fiel ao trabalho dele, fixo naquele feudo. Ele nunca teve essa pretensão de ser o maior do mundo, ocupar todos os espaços. Não são todos os líderes (evangélicos) que tem essa pretensão. O Soares me parece que ele contém um pouco o suficiente para se manter. Então, não vejo e não dá para cada igreja evangélica ter um partido. Se cada igreja evangélica for ter um partido teremos mais de 180 partidos no Brasil (risos). A Igreja Universal conseguiu controlar um partido é um feito grande. Não é algo fácil.

 

VSP- E o Valdomiro (Santiago)?

GN- Ambicioso ele é...Mas acho que ele não tem mais espaço para crescer. Uma das razões foi que ele querer brigar com o Edir Macedo acabou prejudicando muito o trabalho dele.

 

VSP- Mas pode-se dizer que eles são concorrentes?

GN- Eles atuam mais ou menos numa mesma linha. São igrejas (Universal do Reino de Deus e Igreja Mundial do Poder de Deus) muito parecidas. Eu acho que o Valdomiro acabou se focando numa parcela muito pobre da população exatamente como a Universal se focou no início. Depois, a Universal acabou indo para a classe média fez eventos para empresários. Mas se pudesse o Valdomiro também tentaria. Não sei dizer se ele decidiu falar para pessoas mais pobres mas foi o que se mostrou mais viável para a denominação dele.

 

VSP- Os filhos do presidente Jair Bolsonaro estão filiados ao Republicanos. O senhor acredita que ele mesmo poderá se filiar a legenda?

GN- Eu acho que pro Edir Macedo e pra Universal é interessante ter os filhos do presidente no partido dele. A Universal e o Republicanos queriam demonstrar força e estão ligados umbilicalmente ao novo governo. Dentro do projeto político conservador eles acabaram se casando. Então, foi uma união interessante para eles. Acaba sendo uma grife ter o nome dos filhos do presidente lá dentro. Eles perderam no Rio, perderam em São Paulo mas em geral tiveram avanços nas eleições de 2020. Isso falando em termos numéricos por todo Brasil.

 

VSP- O que o senhor achou da atuação das igrejas evangélicas na Pandemia de Coronavírus?

GN- Olha, eu fiz uma longa matéria para a revista piauí sobre isso. Muitas igrejas evangélicas ficaram preocupadas porque perderam muita receita já que os fiéis não podiam ir. Esses fiéis ficaram apavorados e não indo eles não pagam o dízimo, as ofertas e as denominações ficam com dificuldades financeiras. Fiz algumas reportagens mostrando a dificuldade das igrejas pagarem os espaços alugados nas emissoras de televisão que são caríssimos...

 

VSP- Isso tem em quase todas as emissoras?

GN- Tirando a Globo e o SBT todas as emissoras comerciais abertas possuem programas religiosos ou evangélicos que são vendidos a diversas denominações. Isso não fica restrito a IURD. Já a Record é uma emissora própria (da Igreja Universal do Reino de Deus). Então, acaba sendo diferente.

 

VSP- O senhor define bem no livro que a Igreja Universal é uma denominação pentecostal de terceira onda. Por quê outras igrejas de primeira onda e mais tradicionais (como a Assembleia de Deus e a Congregação Cristã do Brasil) nunca tiveram partidos políticos?

GN- Olha...Eu acho que nunca eles tiveram condição. Até porque não é uma coisa tão fácil ou simples ter um partido político próprio. Até o Bolsonaro tentou o Aliança pelo Brasil e não conseguiu. Na legislação eleitoral existe uma série de requisitos que próprio Bolsonaro não conseguiu. E ele está há dois anos tentando formar um partido político.

A maior igreja evangélica do Brasil é a Assembleia de Deus. Não sei te dizer o número exato...Mas eles têm doze milhões de membros. Eu precisaria te pegar o número exato mas é mais ou menos isso. Se a Assembleia tem dez milhões, depois vem a Congregação (Cristã do Brasil) com quatro milhões e em terceiro lugar a Batista. A Universal é a quarta e a maior entre as neopentecostais. Mas entre as igrejas evangélicas ela é a quarta e a Assembleia está na frente com larga vantagem.

 

VSP- Os evangélicos são o grupo religioso que mais cresce no Brasil. Muito se discute se eles irão passar os católicos em 2040 ou 2050. O que o senhor acha que vai acontecer?

GN- Então...Existem diversas matérias na imprensa falando sobre isso e eu falo disso no meu livro também. Existe uma projeção feita pelo próprio IBGE daqui a dois anos ou pelo menos dentro de uma projeção que isso vai se consumar. Até o último Censo, cerca de 62% da população brasileira era católica e a previsão que isso mudasse e os católicos de ser menos de 50%. Mas esse último Censo é de 2010. Existem diversas, várias religiões crescendo no Brasil como as religiões afro-brasileiras, os judeus, muçulmanos, espíritas. A católica deixaria de ter 50% e em 2032 os evangélicos seriam a maioria. Então, no último Censo de 2010, os evangélicos são 22,2% da população. Mas isso foi a dez anos atrás. Então, a expectativa num primeiro momento é que em 2040 os evangélicos assumiriam a dianteira e depois já fizeram outra projeção para 2032. A estimativa do IBGE e dos próprios pesquisadores é que a população evangélica aumentará.

Dentro dos evangélicos, existem os protestantes tradicionais e as igrejas históricas. Isso compreende os luteranos, presbiterianos, batistas, metodistas. Depois os pentecostais mais tradicionais de primeira onda como a Assembleia de Deus, Congregação Cristã do Brasil, os de segunda onda como a Igreja do Evangelho Quadrangular, O Brasil para Cristo e finalmente as de terceira onda, as neopentecostais como a Igreja Universal do Reino de Deus, Igreja Internacional da Graça de Deus de R. R. Soares, Igreja Mundial do Poder de Deus do Valdomiro e muitas outras. Essas de terceira onda são as mais polêmicas, as que fazem mais barulho, as que tem mais avidez pelo dízimo, ofertas e recebem dezenas de críticas por isso. São um grupo que não dá pra falar em todos como uma coisa única.

 

VSP- Mas existem teólogos que acreditam que acreditam que a Universal chegou num teto. Que ela não tem mais como crescer...

GN- Isso também eu tenho ouvido de muita gente. Muitos defendem que a Universal chegou num teto e isso faz muito sentido. Um fato é que a não tem mais como a Universal se subdividir mais. A IURD já se subdividiu em muitos momentos históricos primeiro como grupo do R. R. Soares quando se formou a Igreja Internacional da Graça de Deus e depois com o Valdomiro com a Igreja Mundial do Poder de Deus.

 

VSP- E o que aconteceu com a Universal em Angola com essa subdivisão?

GN- O que está acontecendo na Universal em Angola é um fenômeno que aconteceu ao redor do mundo. Mesmo quando os missionários americanos trouxeram a batista, a presbiteriana no Brasil...Eles enfrentaram o mesmo problema. Tem a ver com o pensamento distinto com uma série de questões que são absorvidos pelos fiéis locais num primeiro momento pela população do país. Na medida que esse agrupamento vai crescendo ele vai adquirindo características próprias.

O missionário presbiteriano vem pro Brasil com um bom salário, uma boa situação até sair do país dele. Eles chegam numa região sem infraestrutura nenhuma e o pastor ás vezes vindo de fora com uma certa mordomia. Um exemplo: o cara chega com um salário generoso numa comunidade que ainda anda de cavalo, meio rural, de agricultura básica. Isso vai criando um problema. É o que de certa maneira aconteceu em Angola. Aqui no Brasil os batistas se dividiram em muitos grupos assim como a presbiteriana. Por exemplo, dentro da presbiteriana brasileira tem a Igreja Presbiteriana do Brasil, a Presbiteriana Unida, a Presbiteriana Independente. Dentro da Assembleia, existe dois grupos grandes e diferentes: Ministério Madureira e Ministério Belém. Também existem várias outras assembleias como a própria do Silas Malafaia: Assembleia de Deus Vitória em Cristo. Pelo que sei não existe impedimento nenhum se algum de nós ir no cartório e querer registrar um nome qualquer. Então, é muito complicado. Eu fiz uma matéria pra Piauí de uma denominação no litoral paulista que tinha criado uma fórmula de curar o Covid através de uma bebida com limão...Era uma subdivisão da Assembleia que eu nunca tinha ouvido falar.

 

VSP- O senhor falou do Silas (Malafaia). Como é o relacionamento dele com o Edir Macedo?

GN- Eles dividem espaço numa mesma área, num mesmo segmento. São líderes evangélicos conservadores que exercem uma liderança sobre um determinado público e disputam espaço. Mas em muitos momentos estão juntos. E em vários outros eles procuram se diferenciar porque está em jogo uma hegemonia pra ver quem tem mais poder, mais influência, quem é o maior líder. Eles dividem quem tem mais cacife, prestígio, em vários momentos juntos e separados. Existe uma disputa entre os dois mais isso é muito normal. Dentro de um mesmo grupo ou um mesmo partido político existe uma disputa entre dois líderes para ver quem tem uma hegemonia maior. Essa hegemonia existe pra ver quem tem maior disputa sobre quem vai ter mais recursos. Mas isso é bastante normal.

O Silas manda na igreja dele e queria ter uma influência da mesma maneira que o Macedo tem sobre os outros evangélicos neopentecostais. Mas até hoje ele não conseguiu. No apoio ao Bolsonaro os dois estiveram juntos. Já no apoio (a reeleição) do Crivella não havia uma coisa assumida ou explícita. Mas dava para entender...O Silas dava sinais que estava apoiando o Eduardo Paes. Ele não assumiu publicamente mas deu claros sinais que estava com o Paes. Ele e o Edir Macedo já brigaram muito...Mas acabam estando juntos em causas comuns. Mas a igreja do Macedo é muito maior...Mas existe a emergência, a necessidade de vários líderes, assumindo cargos de liderança. A igreja do Silas (Assembleia de Deus Vitória em Cristo) não se conhece muito sobre a denominação dele, não se conhece o tamanho da igreja dele mas parece pequena. O Silas é uma figura midiática mas a igreja dele não tem grande expressão. Não tem e não precisa ser mostrada. Nunca fiz uma matéria longa e nunca vi na mídia nunca de grande relevância sobre ela. Se tivesse algo grande e relevante já teria sido mostrada. Veja: o Censo de 2010 diz que a Universal tem 1,8 milhões de fiéis. Mas a própria IURD diz que tem sete milhões. O que a gente tem que diferenciar são os fiéis que vão sempre e as pessoas que vão na igreja mas não pertencem a nenhuma. Eu conheço muita gente que vai em várias denominações mas não são fixos em nenhum. É um público meio flutuante.

 

VSP- Pra gente tentar encerrar: na avaliação do senhor, qual será o futuro da IURD e do Republicanos?

GN- Olha, a gente tem que acompanhar e avaliar as consequências. No caso da derrota do (Marcelo) Crivella eu sinceramente não pensei muito...Eles são muito pragmáticos. Para os membros da Universal eles sempre fazem o que eles acham que deveriam fazer. Eles sempre vão fazer o que é mais vantajoso ou interessante. Mas o Republicanos vai continuar levando seu projeto de ocupar todos os lugares possíveis. Se perdeu a prefeitura vão tentar disputar o governo nas próximas eleições. Eu acho que eles vão tentar se compor com o novo governo. Eles sempre se aliam pra qualquer governo seja direita, centro, esquerda. Não vejo uma grande coisa...Não é uma derrota radical.

Não tem problema nenhum amanhã eles estarem com o Eduardo Paes publicamente. Mas com certeza eles irão apoiar os projetos do Paes em troca de possíveis benefícios. Pra mim posso me enganar mas não tenho nenhuma dúvida. Eles viviam criticando o PT e o Haddad mas eram base na Câmara Federal. Até véspera da eleição de São Paulo eles eram aliados do Bruno Covas: tinham secretaria e subprefeituras até um mês antes da eleição. Aí um mês antes eles saem começam a atacar prefeito de uma gestão que estavam fazendo parte até trinta dias atrás atacando o PSDB e o Bruno Covas. No dia seguinte da derrota eles anunciam apoio e viram governo de novo. Ninguém presta atenção nesse vai e vem. Pode ser que houve um debate direto entre o Eduardo Paes e o Crivella que foi um negócio meio pesado. Mas a derrota pro Republicanos não muda nada na minha avaliação.

A Igreja Universal vive um processo de transição de disputa interna de poder. Isso está acontecendo porque o Edir Macedo quer impor o genro (Renato Cardoso) como sucessor, herdeiro. Então, isso é muito questionado dentro da instituição e as pessoas inevitavelmente não param de pensar nisso. Uma série de decisões que eles vem tomando e somente mais adiante vamos saber como vai ser. Ele se preocupou bastante em garantir ao menos o poder acumulado da família ficar pro genro. Mas sobre o Republicanos: não será nenhuma surpresa que eles vão apoiar o Eduardo Paes amanhã. E mesmo senão anunciarem também vão apoiar. Se há algum poder eles estão junto. Foi o título de uma matéria que eles fizeram comigo. A lógica é essa.

 

VSP- Você falou que a Igreja Universal está em 95 países. Como foi a atuação, a recepção deles na Venezuela?

GN- Eles tiveram dificuldades. A IURD está na Venezuela mas sem expressão. Não tenho dados objetivos agora...Mas foi um dos países que eles mais tiveram problema lá. O Chávez chegou a confiscar um terreno onde eles pretendiam construir uma catedral lá onde o (ex-bispo) Alfredo Paulo na época atuou.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

VSP Nas Eleições 2020: Entrevista Exclusiva com Vera Chaia: “Boulos e o PSOL saíram vitoriosos porque aglutinaram setores da esquerda”

Estudiosa das eleições paulistas, a cientista política Vera Lúcia Michalany Chaia é professora titular dos cursos de bacharelado, mestrado e doutorado de Ciências Sociais da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo). A professora Vera também é autora dos livros A Liderança Política de Jânio Quadros 1947-1990 (Humanidades, 1992), até hoje a maior referência no estudo da trajetória política do ex-presidente Jânio Quadros (1917-1992) e Jornalismo e política: escândalos e relações de poder na Câmara Municipal de São Paulo (Hacker, 2004). Nesta breve entrevista, ela pondera os resultados das eleições municipais da cidade e elogia a candidatura de Guilherme Boulos do PSOL. “A formação de uma coalizão teria sido importante para fortalecer a candidatura do Boulos, com mais chance de disputar o segundo turno e mobilizar um eleitorado maior”.


VSP-O que mais despertou a atenção da senhora nas eleições de 2020?

Vera Chaia- As eleições municipais, na atual conjuntura foi muito diferente das eleições passadas. Os encontros presenciais foram minimizados, os comícios que envolviam centenas de participantes foram abolidos nesta fase da pandemia, devido a possibilidade de contaminação do coronavírus.

A maior parte dos atuais candidatos que disputam a prefeitura de São Paulo já são conhecidos dos eleitores: Bruno Covas (PSDB), atual prefeito; Celso Russomanno (Republicanos), jornalista da TV Record; Márcio França (PSB), ex-governador do estado de São Paulo; Guilherme Boulos (PSOL), que disputou as últimas eleições presidenciais; Jilmar Tatto (PT), ex-secretário de Transportes; Orlando Silva (PCdoB), deputado federal, Arthur do Val, o Mamãe Falei (Patriota) youtuber e deputado estadual, Andrea Matarazzo (PSD) e Joice Hasselmann (PSL), deputada federal e jornalista.


VSP- A senhora acredita que as eleições em São Paulo eram de mudança ou continuidade?

VC- Nas eleições em São Paulo tivemos candidatos que defendiam a mudança, como Guilherme Boulos, e candidatos que representavam a continuidade, como Bruno Covas. 



VSP- Apesar de derrotado nas urnas, Guilherme Boulos e o PSOL apareceram bastante. Boulos teve dois milhões de votos e o PSOL passou de dois para seis vereadores. Qual é a avaliação da senhora sobre Boulos e o PSOL?

VC- Embora não tenha ganho as eleições, considero que Boulos e o PSOL saíram vitoriosos, pois além de ter conseguido aglutinar em torno de sua candidatura setores de esquerda e setores progressistas, teve apoio das lideranças políticas mais representativas na atual conjuntura política, como Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Ciro Gomes (PDT), Flávio Dino (PCdoB) e Marina Silva (REDE). Destacamos também o crescimento da representação do PSOL nas Câmaras Legislativas por todo país.

 

VSP- O deputado Celso Russomanno candidatou-se pela terceira vez a um cargo executivo sem sucesso. Como será o futuro dele na avaliação da senhora?

VC- O deputado federal Celso Russomanno poderá se candidatar a cargos legislativos, mas não terá força política para concorrer de novo para eleições para cargos executivos. Também deve continuar atuando como jornalista na Rede Record.


VSP- O Partido dos Trabalhadores decidiu ter uma candidatura própria sem apoiar Boulos desde o primeiro turno. Na avaliação da senhora isso alterou o quadro?

VC- A formação de uma coalizão teria sido importante para fortalecer a candidatura do Boulos, com mais chance de disputar o segundo turno e mobilizar um eleitorado maior. Desde o início, era perceptível que o candidato do PT, o ex-secretário Jilmar Tatto, não tinha condições de vencer. 



VSP- A figura mais fleumática e recatada do Bruno Covas chamou atenção. Qual a avaliação que a senhora faz da candidatura dele?

VC- Bruno Covas além de defender a sua reeleição, representava a continuidade e passou uma imagem de político contido, pragmático, e sem emoção.


VSP- O Márcio França conseguiu a terceira posição. Apesar de filiado ao PSB, ele teve momentos mais próximos dos tucanos e outros dos petistas. A senhor acredita que ele é um candidato de centro? Qual será o futuro dele?

VC- Márcio França ainda deve disputar cargos executivos em outras eleições, pois possui um potencial de liderança política grande. Quando disputou as eleições para o governo de São Paulo, não contou com o apoio do PSOL, daí a resistência em apoiar Boulos no segundo turno das eleições municipais. Mesmo assim, parte do PSB e o próprio PDT que eram da coligação de França declararam apoio à candidatura do Boulos.

 

VSP- A senhora é a autora de uma obra de referência nas Ciências Sociais referente ao ex-presidente Jânio Quadros. A senhor vê algum político atual ser parecido com ele? Ou ter traços dele?

VC- O Jânio Quadros era autoritário, centralizador, crítico da democracia, fazia uso dos partidos políticos somente para disputar eleições, além de ter uma postura ambígua no seu comportamento político enquanto governante. Podemos encontrar traços no estilo de liderança de alguns políticos. Difícil precisar algum político. Jânio era único na sua postura e na sua atuação.



VSP-  Na opinião da senhora, quais eram os pontos mais fortes do Jânio que os políticos de hoje não tem mais?

VC- Jânio era muito bem informado e atuava com muita ironia e perspicácia. Ele tinha resposta para todas as situações.



VSP- Prever o futuro é difícil. Qual é a expectativa da senhora do futuro governo Covas e da atual legislatura da Câmara de Vereadores?

VC- Bruno Covas alcançou um voo próprio, se distanciando um pouco de João Doria. Deve contar com a maioria dos parlamentares da Câmara Municipal de São Paulo.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

VSP Nas Eleições 2020: Entrevista exclusiva com Rui Tavares Maluf: “Covas têm pontos fracos, mas um ponto que ele revela é a capacidade de articulação e negociação”

 

Experiente pesquisador das campanhas municipais de São Paulo, o cientista político Rui Tavares Maluf é professor das disciplinas de História Geral e Introdução à História do Brasil do curso de bacharelado em Sociologia e Política da FESPSP (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo). Maluf é referência no estudo das eleições municipais da Capital tendo este o objeto de estudo do professor de seu mestrado e doutorado defendidos na UNICAMP (Universidade Estadual de Campinas) e USP (Universidade de São Paulo), respectivamente. O professor é autor dos livros Prefeitos na Mira: análise política dos processos de afastamento dos prefeitos paulistas (Biruta, 2001) e Amadores, passageiros e profissionais (Biruta, 2011). Nesta breve e exclusiva entrevista ao VSP, ele reflete sobre as eleições de 2020 na cidade de São Paulo falando sobre a vitória de Bruno Covas e a renovação da Câmara de Vereadores.

 

VSP- Professor, o que mais chamou a atenção do senhor no pleito de 2020?

Rui Tavares Maluf - Fragmentação partidária intensa com micropartidos se tornando médios partidos e os maiores partidos ficando com percentuais menores seja nas prefeituras conquistadas como nas cadeiras das câmaras municipais. Isso só reforça meu entendimento de que as eleições municipais pouco levam em conta os partidos e que seria muito bom acabar com a exigência de que as organizações sejam as únicas intermediárias para se postular um mandato. 

 

VSP- O seu colega Aldo Fornazieri sempre fala em conjuntura. Na opinião do senhor, a eleição na cidade de São Paulo era de mudança ou continuidade?

RTM- O espírito da mudança foi basicamente na eleição anterior, de 2016, quando João Doria venceu no primeiro turno, feito inédito na capital desde que os dois turnos foram introduzidos, especialmente em se tratando de eleição para prefeito. Mas há sempre os dois elementos presentes (mudança e continuidade), particularmente na eleição para a câmara municipal. Exemplo: o eleitorado elegeu para a câmara dois trans gêneros que serão vereadores pela primeira vez, e trouxe Arnaldo Faria de Sá, ex-deputado federal que mesmo estreando na edilidade paulistana está longe de representar qualquer sentido de mudança. 

 

VSP- Qual é a sua avaliação da campanha do Bruno Covas. A postura dele mais quieta, recatada, tímida, fleumática chamou a atenção. Qual é a avaliação do senhor sobre ele?

RTM- Um político equilibrado enfrentando duas adversidades, uma de ordem pessoal, a luta contra o câncer, e outra pública, a pandemia. Um teste e tanto. Parte da timidez pode ser temperamento, mas parece também estratégia para conseguir superar momento muito difícil. Como prefeito teve momentos bons e outros ruins.

 

VSP- Um dos aspectos mais criticados da candidatura do Covas foi a escolha do vereador Ricardo Nunes como vice-prefeito do MDB. Qual é a avaliação do senhor sobre essa escolha?

RTM-Dentro do princípio de uma aliança com o MDB pensando não só na sustentação do governo na câmara municipal, mas também em alianças na Assembleia Legislativa, Congresso Nacional e também para 2022. Quando a biografia de Ricardo Nunes o tempo dirá se as questões contra ele levantadas se relacionarão ao eventual aproveitamento dele na administração Covas, ou não.

 

VSP-O quanto representa a vitória do Bruno Covas para futuras pretensões eleitorais do governador João Doria?

RTM-Seguramente a vitória de Covas é da maior importância, especialmente por ele já ter dito que só será candidato a qualquer cargo público em 2026.

 

VSP- Muita gente afirma que o Guilherme Boulos perdeu a eleição mas ganhou eleitorado. Qual a sua visão do papel dele nessa campanha?

RTM- Bem, é óbvio que o PSOL deseja ocupar o espaço da esquerda valendo-se da fragilidade do PT. De qualquer forma, chamo a atenção para o fato de que só a abstenção eleitoral no segundo turno venceu Boulos. A distância de Covas sobre Boulos foi muito grande. Eu já havia chamado a atenção para o fato de que quanto mais ele crescesse eleitoralmente, mais ele limitaria seu teto para além de um núcleo determinado. Isto porque grande parte do eleitorado refuta visões extremadas.

 

VSP- Dizem que o PT foi um dos derrotados dessa eleição. O senhor acredita que o PSOL veio para ocupar o espaço deles na cidade de São Paulo e na Grande São Paulo?

RTM- A resposta acima já responde a esta pergunta. Acrescento, no entanto, que se o conteúdo do PSOL (socialista) é muito parecido ao do PT, sua composição e forma de atuação parecem relativamente distintas.

 

VSP- O senhor é um pesquisador criterioso da Câmara de Vereadores de São Paulo e tem trabalhos de referência na área. Qual é a avaliação da casa legislativa em 2020?

RTM-Exatamente pela necessidade de apurar com rigor (o que já comecei a fazer para esta próxima legislatura) é que não tenho condições ainda de fazer afirmações mais contundentes. Como sempre, bons vereadores não conseguiram se reeleger, outros sim, maus vereadores foram reeleitos, outros não, e muita gente nova (em primeiríssimo mandato) também. No que isso vai dar, só mesmo com o início dos trabalhos a partir de fevereiro. 

 

VSP- Na Câmara legislativa, para citar um exemplo, veteranos como o ex-senador Eduardo Suplicy (PT) e o vereador Milton Leite (DEM) foram os mais votados. O senhor acredita que existiu uma renovação na Câmara de São Paulo?

RTM- Se por renovação entendermos vereadores em primeiro mandato, temos 19 (34,5%) eleitos em 15 de novembro, o que não é pouca coisa, mas também não quer dizer muita a priori. E temos vereadores como Arselino Roque Tatto (PT), eleito continuadamente desde 1988, indo, portanto, para seu 9º mandato. Porém, a nossa legislação eleitoral faz com que a maioria dos eleitores não consiga eleger qualquer um dos que comporá a câmara municipal.

 

VSP- Existiram algumas vitórias na Câmara Municipal que chamaram atenção do senhor?

RTM- Os dois trans gêneros sendo eleitos por forças políticas distintas (Érika e Thammy); uma força à esquerda e outra conservadora.

 

VSP- O candidato Arthur do Val, Mamãe Falei, do Patriota chamou atenção no primeiro turno e o MBL elegeu três vereadores na Câmara. O senhor acredita que o MBL deve crescer nesse espectro da direita e centro direita?

RTM- Bem, o espaço de uma direita democrática merece ser bem ocupado, e, acredito, que o MBL está se exercitando nesse sentido. Foi muito importante a demarcação de uma distância em relação ao descalabro desta direita “babona” representada pelo atual presidente Bolsonaro. Portanto, há condições de crescimento, mas os próximos dois anos serão um teste importante para sabermos.

 

VSP- Prever o futuro é uma tarefa ingrata e difícil. Qual é a expectativa do governo Covas e da atual legislatura da Câmara de Vereadores?

RTM- Covas pode ter pontos fracos, mas um ponto forte que ele revela desde o início de sua carreira política é a capacidade de articulação e negociação. Quanto a próxima legislatura, tenho expectativa moderada (o que não significa ser pessimista, mas realista), mas estou convencido que sua qualidade depende, também, do envolvimento da sociedade paulistana de forma geral.

sábado, 28 de novembro de 2020

VSP nas Eleições 2020: VSP virou a tabela: entrevista com Vera Lúcia, candidata a prefeita de São Paulo pelo PSTU

A professora Vera Lúcia Salgado, 53 anos, foi candidata do PSTU (Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado) a prefeitura de São Paulo em 2020. Ela recebeu 3.052 votos e ficou na décima segunda posição entre os concorrentes. Bastante solícita, a professora respondeu ao VSP por email.



VSP- Como surgiu a candidatura da senhora pelo PSTU?

Vera Lúcia- O PSTU me indicou junto com o professor Lucas e uma equipe de candidatos a vereador e vereadoras para apresentar um programa de emergência para combater a pandemia, o desemprego e outros males que afetam a população trabalhadora como genocídio da juventude negra.

 

VSP- Quais foram as maiores dificuldades da sua candidatura?

VL- As maiores dificuldades foram as regras eleitorais antidemocráticas, o poder econômico e a pandemia. Os grandes partidos votaram regras antidemocráticas para impedir a renovação e a mudança. Desta forma, o PSTU não tinha sequer um segundo na propaganda eleitoral gratuita para apresentar suas propostas para os trabalhadores e trabalhadoras. Além disso, as campanhas dos principais partidos são milionárias, basta ver a prestação de contas de cada candidato para constatar a desigualdade. Por fim, a pandemia dificultou muito a campanha presencial nas portas das fábricas e na periferia.

 

VSP- Quais continuam sendo os principais projetos do PSTU para a cidade de São Paulo?

VL- Os conselhos populares, sem dúvida. O PSTU aposta na auto-organização da classe trabalhadora e do povo pobre, sejam em comissões de fábrica, sindicatos, movimentos por moradia, comitês de autodefesa contra o genocídio da juventude negra, grupos de trabalhadoras pelos direitos das mulheres, associações de imigrantes, movimentos LGBTQI+, enfim, todas as formas de auto-organização independente da burguesia para lutar pelas reivindicações operárias e populares de emprego, salário, renda, moradia, saneamento básico, educação e saúde pública de qualidade, contra a opressão racista, machista, LGBTfóbica e xenófoba. A exploração e a opressão têm origem no capitalismo. Por isso, defendemos unir todos esses movimentos em conselhos populares para lutar para que os trabalhadores e trabalhadoras assumam o poder e possamos caminhar rumo ao socialismo.

 

VSP- Por que o PSTU não foi chamado a nenhum debate televisivo?

VL- A legislação eleitoral faculta às emissoras de TV o convite aos candidatos cujos partidos não têm representação no congresso nacional. Ou seja, as emissoras de TV podem convidar se quiserem. No entanto nossas propostas colidem com os interesses dos grandes patrocinadores, que são todos grandes empresas capitalistas, que não têm o interesse que as ideias da igualdade social e do socialismo cheguem até a classe trabalhadora. Por isso, as emissoras de TV não convidam.

 

VSP- Qual é a sua avaliação da candidatura do Guilherme Boulos? O PSTU deve dar apoio a ele no segundo turno?

VL-Infelizmente, o Boulos segue os mesmos caminhos de Lula rumo a um governo de conciliação de classes, um governo junto com os empresários. Por isso não defende a estatização do transporte coletivo de ônibus, única forma de pôr fim à máfia dos transportes. Por isso recua de propostas como o aumento do IPTU para os milionários; como a ampliação da rede de creches diretas para pôr fim à política de creches conveniadas, a começar por assumir imediatamente todas as creches municipais que estão sob administração privada (denominadas de CEIs indiretas); recua até mesmo da solidariedade ao povo palestino através das propostas da companha de Boicote, Desinvestimento e Sanções, o BDS.

O PSTU não concorda com o projeto político, com o programa ou a estratégia de Boulos. Mas vamos votar criticamente em Boulos, junto com a maioria da juventude e setores importantes da classe trabalhadora que veem em Boulos a possibilidade de derrotar o PSDB de Covas e Doria em São Paulo. Apesar de chamar o voto crítico em Boulos, não apoiaremos sua administração em caso de vitória.

 

VSP- Como a senhora avalia as medidas dos governos federal e estadual para o combate ao Coronavírus?

VL- Um desastre! Bolsonaro minimizou a pandemia e sabotou todas as medidas para contê-la. Já Doria e Covas fizeram uma quarentena meia boca baseada no fechamento do comércio e das escolas, na qual 70% da economia permaneceu em funcionamento. Além disso, não fizeram testagem em massa para definir as políticas mais adequadas de enfrentamento à pandemia. Por isso, a cidade de São Paulo está em terceiro no ranking mundial de mortes por coronavírus, atrás de Nova York e Cidade do México.

 

VSP- O PSTU é um partido ligado à luta dos professores. Qual a avaliação que a senhora faz da maneira que o PSDB conduz a educação do estado de São Paulo?

VL- Nota zero para o PSDB. Há anos que o PSDB trabalha para desmontar a educação pública do estado, com salas de aulas superlotadas, salários baixos que obrigam professores e professoras a buscarem outras formas de renda, e projetos pedagógicos orientados ao mercado e à produtividade capitalista que são a negação da educação pública.

 

VSP- Qual é a avaliação da senhora e do PSTU tiveram das eleições 2020?

VL- O Bolsonarismo e sua defesa da tortura, volta da Ditadura Militar, terraplanista, de negar a ciência, de sabotar o combate à pandemia e as campanhas de vacinação, além de racista, machista, lgbtfóbico, xenófobo, foi derrotado. No entanto, todos os que foram eleitos conspiram para jogar o peso da recessão econômica sobre as costas da classe trabalhadora e do povo pobre. A inflação, o desemprego em massa, programas de renda mínima insuficientes, o corte de gastos públicos na educação, na saúde, na moradia e a reforma fiscal são políticas para salvar o capitalismo e os capitalistas, mas que vão colocar a maioria da classe trabalhadora em situação de penúria. Por isso  nosso chamado à classe trabalhadora para se auto-organizar e lutas pelas reivindicações operárias e populares.

 

VSP- O que representa o segundo turno entre Guilherme Boulos e Bruno Covas?

VL- O Covas é o candidato do grande capital que está por trás de todas as políticas contra a classe trabalhadora e o povo pobre. Políticas como teto de gastos, as reformas trabalhista e da previdência, entre outras. Além disso, seu partido e seu vice estão envolvidos em vários casos de corrupção. Infelizmente, Boulos se propõe apenas a ser um gestor melhor que Covas sem qualquer aumento de impostos para os ricos, sem mexer na máfia dos transportes, do lixo ou na política de creches conveniadas. Temos que dizer a verdade. Sem tirar dinheiro dos ricos, não será possível atender às reivindicações operárias e populares de emprego, renda, moradia, saúde, educação e o fim do genocídio da juventude negra. Apesar disso, votaremos em Boulos junto com a juventude, setores da classe trabalhadora e movimentos populares que enxergam em Boulos a possibilidade de pôr fim à gestão desastrosa do PSDB.

 

VSP- Quais são os planos futuros da senhora e do PSTU?

VL- Temos pela frente uma grande crise econômica e social. Todos os governos vão trabalhar para defender as grandes empresas e o sistema capitalista internacional. Apostamos na auto-organização da classe trabalhadora e do povo pobre das cidades, no Brasil e no mundo. O PSTU vai investir nesse auto-organização operária e popular para defender os diretos dos trabalhadores e trabalhadoras para coloca-los no poder. Nosso modelo de socialismo não tem nada a ver com Venezuela, China ou Coréia do Norte que são ditaduras capitalistas. Defendemos o socialismo com base na democracia operária, com amplas liberdades democráticas para a classe trabalhadora discutir e decidir os destinos do país e do mundo. Eu continuarei vivendo em São Paulo e estarei integrada a este projeto de construção de uma alternativa revolucionária e socialista.

sexta-feira, 27 de novembro de 2020

VSP nas eleições 2020: VSP virou a tabela: entrevista com Antônio Carlos, candidato a prefeito de São Paulo pelo PCO

 

O professor de matemática Antônio Carlos Silva, 57 anos, foi candidato do PCO (Partido da Causa Operária) a prefeitura da cidade de São Paulo em 2020. Ele recebeu 630 votos e ficou na décima terceira posição entre os concorrentes. Extremamente gentil, Antônio Carlos conversou por telefone com o VSP na semana passada.

 

VSP- Como surgiu a candidatura do senhor pelo PCO?

Antônio Carlos- O PCO ao contrário da maioria dos outros partidos não é um partido de candidato. As pessoas filiadas pertencem a uma espécie de cooperativa. Nós somos um partido ao invés de candidatos do partido, temos candidatos militantes. Sou dirigente há vários anos e a candidatura é uma missão e defender suas ideias nas eleições. Não é uma postulação mas no trabalho que fazemos levando nossos valores e tributos. Não é um partido eleitoral, somos um partido revolucionário que nos reunimos muito além das eleições. Então, eu fui incumbido dessa missão de ser candidato e fui.

 

VSP- Quais foram as maiores dificuldades da sua candidatura?

AC- Olha, pra te ser sincero: essas eleições nós caracterizamos como as mais antidemocráticas das últimas décadas. Com base da reforma eleitoral de 2017, cerca de 1/3 dos partidos não tiveram propaganda ou qualquer espaço na rádio e na TV. Foi uma campanha completamente desleal porque foi muito curta 45 dias sem horário de televisão era mais ou menos impossível chegar numa parcela do eleitorado. Nesse sentido é uma ditadura. Essas eleições foram armadas para garantir a força das grandes marcas políticas.

 

VSP- Quais continuam sendo os principais projetos do PCO para a cidade de São Paulo?

AC- O PCO entrou na eleição pra denunciar a fraude das eleições que nenhum problema seria resolvido. Isso tem ver com a Pandemia, o desemprego, todos os problemas dos trabalhadores e dos mais humildes não iria ser nunca resolvido pelo voto. Mas o partido prossegue fazendo organização e mobilizando os eleitores. O resultado não muda nada. Não altera. Bem como reforça essa organização autônoma independente. O resultado dessa eleição foi uma vitória significativa da direita.

 

VSP- Mas dizem que os bolsonaristas foram os que mais perderam espaço nessas eleições. O senhor acredita que mesmo assim foi uma vitória da extrema direita?

AC- Não. Se a gente disser que o DEM...Os partidos que mais cresceram ao contrário do que a imprensa golpista fala foram o PSD, PP e DEM. São todos partidos herdeiros da Arena. Agora, se pro padrão deles a Arena é progressista...Falaram que os bolsonaristas tinham sido derrotados. Eu realmente não entendo dessa maneira. Mas se você for pensar essas legendas tinham 100 municípios e agora tem 400. Então, nossa avaliação é que esse balanço é completamente fantasioso. Até dentro da própria direita, os setores de centro-direita foram os que mais diminuíram: PSDB e MDB. Só quem cresceu efetivamente foi a direita. E também cresceu o setor da esquerda que a direita estabelecida não vê como perigo. Isso está impulsionando para ofuscar os setores verdadeiramente revolucionários. Dessa maneira, eles ofuscam partidos como o PCO e o próprio PT.

 

VSP- O senhor está falando que a candidatura do PSOL está sendo impulsionado pela direita?

AC- Sim. Isso é muito visível. O PSOL só ganhou quatro prefeituras e parece que eles são o maior partido do mundo, um fenômeno político. O Boulos foi levado nessa onda. Tenho mais de 40 anos de política garoto. Já vi muita eleição fraudulenta mas essa ganhou de todas. O fato do candidato do PT (Jilmar Tatto) ter nove por cento no resultado final e a melhor que a pesquisa dava eram seis por cento. Todo mundo sabe que na última hora da campanha que a maioria do eleitorado decide seu voto. Ele perdeu na reta final até com a declaração do Lula já ter falado que era considerável o apoio ao Boulos. Existiu uma manipulação para favorecer o Boulos. A quem interessa isso? O mesmo fenômeno foi feito no Rio de Janeiro. Onde fizeram que tinha que apoiar a Martha Rocha, ex-chefe de polícia como se ela tivesse alguma chance de chegar ao Segundo Turno. Mesmo assim, ela terminou empatada com a Benedita. Se desde o começo tivesse tido o mesmo apoio a Benedita poderia ter tido um resultado melhor.

 

VSP- E a Benedita tinha um forte apelo com o eleitorado evangélico?

AC- Exatamente. Ela era melhor eleitoralmente, muito mais perigosa para ir no segundo turno contra o (Eduardo) Paes. O PSOL retirou seu principal candidato que era o Freixo para apoiar o Paes. Isso já demonstra que o conluio era anterior. Como a gente sabe em política as coisas nunca acontecem por acaso. O PSOL está apoiando o DEM. E em política nada é por acaso.

 

VSP- Por quê o PCO não foi para nenhum debate televisivo?

AC- Vários motivos. A legislação punia os partidos sem nível de representação parlamentar. Nem mesmo nos debates que foram organizados de partidos sem representação popular o PCO sequer foi chamado. O PCO é um partido fora do regime político. Não fomos pra eleição para dizer que éramos ou seríamos eleitos. Nada disso. A eleição estava armada desde o começo.

 

VSP- Qual é a sua avaliação da candidatura do Guilherme Boulos? O PCO vai dar apoio a ele no segundo turno?

AC- Bom...Nós vamos fazer uma conferência nesse final de semana no sábado e domingo (da semana passada). Vamos fazer um balanço e decidir como será o segundo turno com os delegados de todo país. Mas nesse encontro a minha posição e a maioria do partido é não apoiar eles.

 

VSP- Por quê?

AC- O Guilherme Boulos é um elemento comprometido com uma espécie de frente ampla. A direita tem um plano Joe Biden pro Brasil que seja um candidato direitista para substituir o Bolsonaro. Ou senão fica o Bolsonaro mesmo. É o caso do Joe Biden que é responsável pelo golpe de Estado do Brasil e em outros países da América Latina como avanço. O Trump nunca invadiu nenhum país. O Biden comandou o avanço e o massacre dos povos do Iraque, Venezuela e Cuba. No entanto, ele é apresentado pela mídia e setores como de esquerda. Isso é uma piada. Agora querem pegar o Doria, o Luciano Hulk, o Sérgio Moro e colocar como alternativa democrática ao espantalho, ao fanfarrão do Bolsonaro. Mas que não consegue levar ao povo. Tudo que conseguiu fazer até agora foi uma Reforma da Previdência. A reforma do Temer quem aprovou foi o DEM, PSDB, MDB. Todos partidos que são tidos como partidos de centro.

 

VSP- Como o senhor avalia as medidas dos governos estaduais e federais para o Coronavírus?

AC- Um grande acordo para não fazer nada. O Bolsonaro diz que não vai fazer nada, mas não fazem nada. O estado de São Paulo fosse um país estaria entre os dez que mais morreram. O Bruno Covas é mostrado como uma pessoa comprometida, efetiva. São Paulo nem para testar. Mas temos exemplos de outros países que tiveram medidas efetivas como a Eslováquia, a China mesmo em um final de semana fez testes em quatro milhões de pessoas. Em São Paulo não aconteceu nada disso.

Os governos Covas e Doria contrataram menos trabalhadores da saúde dos que foram afastados por conta da saúde. Como eles não fazem como o Bolsonaro...Não falam besteira, a mídia não fica em cima. Mas eles são cínicos, ruins ou até mesmo piores que o próprio Bolsonaro. Porque o Bolsonaro levanta a repulsa. Mas o Covas se você pegar ele tem o recorde da abertura de covas mas ninguém discute isso. É uma situação totalmente absurda justamente na cidade mais rica do país. Até fecharem os hospitais de campanha para não atender a população. Tudo lamentável.

 

VSP- Pararam de divulgar os dados logo na semana do primeiro turno.

AC- Coincidência, né? Na semana anterior da eleição, o estado de São Paulo estava tendo problema de transmissão de dados e por coincidência o final de semana que sempre foi costumeira. Mas mesmo no domingo da eleição tivemos só 915 ou 921 motos mostrando inclusive que tudo é pura falsificação. Nós estamos vendo uma nova onda que já era realidade e os órgãos de imprensa estavam escondendo.

 

VSP- O PCO é ligado as lutas dos professores. Qual avaliação o senhor faz da maneira que o PSDB conduz a educação no Estado de São Paulo?

AC- Nós estamos num processo de retrocesso. A situação da Pandemia agravou com a paralisação política é completamente criminosa. Uma pressão pra discutir a volta das aulas e não tem nem que discutir isso. A própria prefeitura fez exames em 70% dos jovens sendo que nessa faixa etária eles podem transmitir mesmo não tendo sintomas. Um dos maiores problemas é a superlotação das salas de aula. Quantas salas de aula o governo construiu pro combate? Nenhuma. Outro problema é que boa parte dos alunos não tem acesso à Internet. São governos de mentira e fraude.

 

VSP- Qual avaliação o senhor e do PCO das eleições 2020?

AC- Resumindo: uma vitória da direita. E também da fraude e da manipulação. A direita conseguiu impor depois de cinco eleições nacionais quatro de direita e na última uma pra extrema direita. Mas nessas de 2020, setores da Arena e do MDB conseguiram se sair vitoriosos de um conjunto de manipulações e fraudes.

 

VSP- O que representa o segundo turno ser entre Guilherme Boulos e Bruno Covas?

AC- Um pouco mais do mesmo. Estão representados dois candidatos da frente ampla. O Covas do PSDB e o Boulos que esteve no início do ano com articulações com o PSDB, a Globo, Kassab, Moro. Eles querem construir um bloco de centro para quebrar a manipulação da direita e da esquerda. De certa maneira, a eleição de São Paulo contribuí do ponto de vista que eles conseguem mas a realidade é bem maior. Infelizmente, eles não vão conseguir deter a polarização real. Mas no terreno conseguiram segurar a barra. É tudo conversa pra boi dormir.

 

VSP- Quais são os planos futuros do senhor e do PCO?

AC- O partido cresceu e se fortaleceu nas eleições. Não do ponto de vista de votos porque não tínhamos nenhuma ilusão. Pra você ver como essas eleições são uma fraude: temos menos votos que filiados ao partido. Isso não nos abala e nós vamos fazer uma conferência dando prosseguimento ao partido que tem um jornal diário na Internet e um jornal impresso. Vamos continuar mobilizando os setores da esquerda combativa, todos os setores pressionando o fora Bolsonaro, todos golpistas e defendendo uma saída alternativa de esquerda. A única seria a candidatura do ex-presidente Lula, expressão de luta real porque é uma figura que canaliza essa tendência de lutar contra o aumento da fome e do desemprego para os trabalhadores. A eleição é bonita pra fingir que vai mudar alguma coisa. Mas a realidade é completamente diferente.