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sexta-feira, 16 de julho de 2021

VSP comenta o cinema brasileiro atual: “Operação Camanducaia" (2020)

 Operação Camanducaia” **** (Brasil, 2020, documentário, direção: Tiago Rezende de Toledo), visto no Cine OP 2021

Este curioso documentário concentra-se num único episódio da Ditadura Militar. Mas que ilustra grande parte do pensamento das autoridades do período. Talvez esse seja um dos méritos do diretor Tiago Rezende de Toledo: optar por um único fato não tentando contar toda a história do período. O realizador reconta a chamada “Operação Camanducaia”, no qual a Polícia de São Paulo abandonou 93 menores entre crianças e adolescentes infratores na cidade de Camanducaia, interior de Minas Gerais. O episódio gerou grande comoção na imprensa da época. A produção foi até Camanducaia para saber como os antigos moradores locais lembram desse fato. Também valeram os depoimentos de pessoas que conheceram de perto o momento como o jornalista Paulo Markun que cobriu o fato pela Folha de S. Paulo e o padre Júlio Lancelotti, da Pastoral de Rua da Arquidiocese de São Paulo. Mas o mais revelador são os depoimentos de quatro sobreviventes que sofreram a violência deste episódio. É um documentário sem inovações de linguagem mas muito original e com uma linguagem direta. Nada é abreviado. A violência dos quais os menores da época passaram é registrada sem meias palavras. A força dos depoimentos dos violentados vale a sessão. Mas o diretor também entrevistou pessoas ligadas ao regime da época. O governador Laudo Natel foi um dos entrevistados que disse não se lembrar da Operação Camanducaia. Um delegado da época não quis dar entrevista e contar a sua parte. Esse esforço de construir a história pelos mais diferentes personagens foi uma opção correta do diretor Tiago Rezende de Toledo. Esperamos mais trabalhos deste novato realizador. O cinema brasileiro precisa de mais realizações como essa.

quinta-feira, 15 de julho de 2021

VSP comenta o cinema brasileiro atual: "O Amor de Dentro da Câmera" (2021)

 O Amor de Dentro da Câmera” **** (Brasil, 2021, documentário, direção: Jamille Fortunato e Lara Beck Belov), visto no Cine OP 2021

Este é um dos trabalhos mais afetivos e carinhosos que assisti nos últimos tempos. O Amor de Dentro da Câmera explora a trajetória de um casal notável da cinematografia nacional: a atriz Conceição Senna e o cineasta Orlando Senna. Ambos companheiros de vida por mais de 40 anos. De minha parte só conhecia parte da trajetória de Orlando como diretor de Iracema- Uma Transa Amazônica (1974) e pelos cargos que ocupou em órgãos institucionais. O veterano Orlando Senna também foi roteirista de diversos diretores e foi ligado ao núcleo original do Cinema Novo. Ele conta algumas histórias de sua trajetória quando ainda estudante secundário conheceu o Glauber Rocha em Salvador e também colaborou no Cinema de Invenção, o dito Cinema Marginal. Orlando Senna também possui uma ligação muito grande com Cuba onde foi um dos criadores e diretores da Escuela Internacional de Cine Y TV- San Antonio de Los Baños durante muitos anos. Essa universidade é tida como uma das melhores escolas de audiovisual do mundo. O Amor de Dentro da Câmera já vale por jogar novas luzes sobre Orlando Senna.

Mas quem rouba a cena e carrega o filme é a sua esposa: a atriz Conceição Senna. Ela é a própria alma da realização. Profissional dedicada, ela conta seus trabalhos e sua opção de não gostar de fazer televisão. “Só me chamam para fazer estereótipo de nordestina ou prostituta”, lamenta. Ela conta bastante da sua relação de décadas com Orlando: como iniciaram o namoro e o casamento que tiveram tendo o escritor Jorge Amado como padrinho. Conceição é uma figura muito pouco citada no cinema brasileiro. Ela também foi apresentadora de televisão em Cuba enquanto o esposo era um dos professores da Escuela Internacional de Cine. Bastante carismática, Conceição chama muito a atenção do espectador. Muito inteligente, ela reflete muito sobre sua vida, o cinema e os rumos do Brasil. Parece uma avó carinhosa ou uma professora que todos nós tivemos. O Amor de Dentro da Câmera é um documentário criativo e terno que nos faz conhecer mais sobre a vida desse casal notável que dedicou sua trajetória a sétima arte brasileira. Grande estreia das jovens diretoras Jamille Fortunato e Lara Beck Belov. É bom anotarmos os nomes delas porque com certeza as duas devem apresentar mais projetos num futuro breve.

sexta-feira, 9 de julho de 2021

VSP comenta o cinema brasileiro atual: "Libelu- Abaixo a Ditadura" (2020)

Libelu- Abaixo a Ditadura” **** (Brasil, 2020, documentário, direção: Diógenes Muniz)

É impressionante como o gênero documentário vem ganhando espaço no cinema brasileiro. A Libelu (Liberdade e Luta) foi uma corrente trotkista surgida na USP (Universidade de São Paulo) em 1976. O longa-metragem acompanha o depoimento de ex-membros da tendência mais de trinta anos após suas participações no grupo. A militância participou intensamente dos acontecimentos políticos na Redemocratização entre 1975 e 1980. Entre os entrevistados estão pessoas conhecidas como o jornalista Reinaldo Azevedo (que na Libelu era da terceira divisão), o crítico gastronômico Josimar Melo, o professor José Arbex Filho, o comentarista Demétrio Magnoli, o jornalista Eugênio Bucci, o músico Cadão Volpato (da banda Fellini) e até o ex-ministro Antônio Palocci. As cenas de arquivo são preciosas. É notável a opção do diretor Diógenes Muniz por fazer um excelente documentário bastante informativo e não acadêmico. A opção em levar quase todos os entrevistados para um mesmo lugar é excepcional. O único entrevistado fora do espaço é Antônio Palocci que mesmo em prisão domiciliar deu depoimento ao documentário. A participação de Palocci é a cereja do bolo e a opção dele aparecer no final agrega muito valor ao trabalho. Excelente estreia de Diógenes Muniz e sua equipe. Criativo, informativo e até mesmo engraçado. Ganhou o Festival É Tudo Verdade do ano passado com autoridade e justiça. Espero que o diretor continue trazendo temas inovadores em seus próximos trabalhos.


segunda-feira, 25 de novembro de 2019

VSP Entrevista: Marcelo Santiago, diretor de “Barretão”


"Barretão" de Marcelo Santiago. Foto: Divulgação
O cineasta, diretor de fotografia e principalmente produtor Luiz Carlos Barreto está presente no cinema brasileiro há mais de cinco décadas. Ele esteve por trás da produção de mais de 50 longas-metragens nacionais com a esposa Lucy Barreto e é pai dos dois diretores Bruno e Fábio Barreto. Mas a trajetória profissional de Barretão não se iniciou no cinema e sim no jornalismo. Ele foi fotógrafo da legendária revista O Cruzeiro do magnata das comunicações Assis Chateubriand e colecionou diversas histórias da imprensa. Depois emigrou para o movimento do Cinema Novo sendo fotógrafo e participando da produção do clássico Vidas Secas (1963) de Nelson Pereira dos Santos. A história da vida pessoal e profissional deste veterano do cinema brasileiro está no documentário de longa-metragem Barretão do cineasta Marcelo Santiago. O filme passou na última edição da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e deve ganhar os cinemas em breve. VSP conversou com o diretor Marcelo Santiago.



Violão, Sardinha e Pão- Como surgiu a ideia de fazer o documentário Barretão?


Marcelo Santiago- Trabalho com o Luiz Carlos Barreto há muitos anos. Comecei minha carreira profissional como assistente de direção de O Quatrilho (Fábio Barreto, 1995). Mas antes de pensar em trabalhar em cinema (venho do teatro), eu já admirava como cinéfilo as produções do Luiz Carlos. Assistia a todas no cinema. Ou seja, é uma admiração de longa data. Quando o conheci, logo nos primeiros anos de convivência, ali no início dos anos 2000, eu e o André Saddy (produtor do Barretão) já falávamos sobre o quão importante seria fazer um documentário sobre ele. 


VSP- Um dos méritos do filme é tratar de duas faces do Luiz Carlos Barreto. Não apenas do produtor de cinema, mas do fotógrafo do O Cruzeiro. Vocês pensaram em fazer algo maior referente somente a parte dele como fotógrafo?


Nossa ideia sempre foi fazer um documentário que mostrasse a trajetória completa do Barreto, apresentando as viradas profissionais que ele teve ao longo da carreira. Acho que o filme mostra bem como aconteceram essas viradas e como se deu a passagem da fotografia jornalística para a fotografia do cinema e daí para a produção cinematográfica. 



VSP- Acredito que ele deva ter como fotógrafo testemunhado verdadeiros momentos históricos do Brasil. Ele nunca chegou a pensar em fazer alguma exposição ou livro?


O Barreto tem um acervo fotográfico fascinante e incrivelmente extenso. A história política, social e artística do Brasil dos anos 1950 e 1960 pode ser contada através dessas fotos. Ele já publicou um livro de fotografias pela Objetiva, chamado Passagem: A Memória Visual de Luiz Carlos Barreto, que foi acompanhado de uma exposição fotográfica no lançamento, em 2001. 

                                                                   
VSP- Desde o início vocês não pensaram em ter mais entrevistados? Não pensaram em entrevistar a Lucy Barreto, Carlos Diegues, Bruno Barreto? Mais gente?


A ideia sempre foi a de ter a história contada na primeira pessoa. O Barreto participou diretamente de todas as passagens narradas no filme, seja como testemunha, presenciando os fatos, seja como protagonista desses fatos. Não há nada mais potente que a história contada por quem a viveu diretamente. E nunca tivemos a intenção de fazer um filme tributo, embora, é claro, o caráter de homenagem esteja presente. Além disso, o Luiz Carlos é um grande contador de histórias, narra os fatos com raro sabor. O filme procura aproveitar isso ao máximo.


VSP- Que importância o Geneton Moraes Netto teve para o filme? Sou admirador dele desde o início na profissão e ele morreu muito novo. Fale um pouco sobre ele.


O Geneton criou o roteiro do filme junto comigo. Ele descrevia o Barreto como sendo o único brasileiro vivo que teria uma história para contar sobre cada presidente brasileiro desde Getúlio Vargas, vivida pessoalmente. Geneton era apaixonado pelo cinema e pelo personagem Barretão. Fico feliz que ele tenha conseguido ver o primeiro corte do filme antes de partir.

VSP- A trajetória do Luiz Carlos Barreto dentro do cinema brasileiro é muito rica primeiro como fotógrafo e depois como produtor. Como você define ele dentro do movimento Cinema Novo?


O Cinema Novo era um grupo de cineastas que pensava a atividade cinematográfica coletivamente. Um grupo forte, coeso, que conseguiu fazer  filmes com total liberdade criativa mesmo durante o período da Ditadura Militar brasileira dos anos 1960 e 1970. O Barreto trabalhava junto com o grupo, não somente para seus projetos pessoais. Essa é uma característica que ele traz até hoje. Está sempre trabalhando pelos interesses do cinema brasileiro, não somente para as suas próprias produções.


VSP- No filme existem muitas imagens de arquivo e algumas muito raras. Inclusive tem trechos de uma espécie de documentário francês em que aparece toda a turma do Cinema Novo e com o cineasta paulista Walter Hugo Khouri. Foi muito difícil achar esse tipo de imagens?

Não foi exatamente difícil, porque contamos com a parceria de vários amigos que indicaram certas fontes. Porém, foi absurdamente trabalhoso. A pesquisa e licenciamento de imagens foi a etapa mais longa da produção. Fizemos uma busca em âmbito mundial. Essas imagens que você cita são de um documentário de Pierre Kast sobre o Cinema Novo. Quem nos falou primeiro delas foi o documentarista Joel Pizzini, nosso grande amigo.


VSP- O Barretão é um personagem muito rico seja como fotógrafo e mesmo como produtor. Muito material ficou de fora? Vocês não acharam que podiam fazer uma minissérie ou coisa assim?


Sempre pensamos num longa-metragem. A história de uma vida dedicada à fotografia e ao cinema, condensada em 85 minutos (que é a duração do filme), tem um efeito arrebatador. Nesse sentido, o longa é mais potente que uma narrativa dividida em episódios. É claro que muita coisa ficou de fora. Só a entrevista principal, conduzida pelo Geneton, tem 8 horas de duração. 

 
VSP- Luiz Carlos Barreto é um personagem polêmico do cinema brasileiro. Qual a repercussão esperada pelo filme?


Quanto a isso, tenho apenas uma frase a dizer: Barretão, ame-o ou veja-o!

VSP- É público que o Fábio Barreto teve um acidente e estando afastado da vida cinematográfica por isso. Imagino que é um assunto muito familiar e delicadíssimo. Vocês não quiseram abordar o assunto?


O assunto foi abordado, sim, mas não coube no filme. É realmente uma questão delicada, dolorosa (embora o Luiz Carlos a encare com muita serenidade) e não poderia ser tratada superficialmente. Então teríamos que fazer uma espécie de pausa na narrativa para abordar o assunto. Preferimos manter o Fabio como personagem ativo e participante da história do cinema brasileiro. O filme, inclusive, é dedicado a ele.


VSP- Na sua opinião, quais foram suas principais dificuldades na elaboração de Barretão?

A principal dificuldade foi a montagem do filme. Nosso objetivo era contar a história do Brasil e do cinema dos anos 1950 até hoje, tendo, é claro, o Barreto como protagonista. A seleção e o encadeamento dos relatos do Barreto para construir essa narrativa, onde os assuntos pessoais se confundem e se misturam com os coletivos, tomou cerca de quatro anos de nossas vidas, envolveu três montadores, um consultor de montagem (Eduardo Escorel) e seis pesquisadores de imagens de arquivo.


VSP- Quais as maiores dificuldades de se fazer cinema no Brasil hoje?


A maior dificuldade é o gargalo da exibição, ainda mais porque no momento não temos a cota de tela que deveria ter sido estabelecida pelo governo no final do ano passado. A concorrência com os filmes estrangeiros é desleal. Os filmes brasileiros têm pouco espaço para encontrar seu público.


VSP- O que você acha do atual momento do documentário cinema brasileiro?

O momento é excelente em termos de produção. Nunca se filmou tanto. Mas falta espaço, tanto nas salas de cinema, quanto nas TVs e plataformas.

VSP- Na sua opinião, qual é o futuro do cinema brasileiro com uma política tão predatória para a produção nacional?


Não dá para prever muita coisa, levando-se em conta que o atual governo parece que ainda não entendeu a importância não só cultural, mas econômica, da atividade cinematográfica. O cinema sofreu um baque muito grande com o esvaziamento da Ancine, comparável ao que sofremos quando o Collor extinguiu a Embrafilme em 1990. Mas temos que acreditar que a normalidade institucional será retomada e aí será a hora de aprimorar a atuação da Ancine.
 

Luiz Carlos Barreto está no cinema brasileiro desde a década de 1960. Foto: Divulgação

segunda-feira, 11 de novembro de 2019

VSP Entrevista: Rafael Spaca, diretor do "Trapalhadas Sem Fim"

 
Renato Aragão e Rafael Spaca, diretor do "Trapalhadas Sem Fim". Acervo pessoal
Dedé, Didi, Mussum e Zacarias. O quarteto de humoristas do grupo Trapalhões são verdadeiros ícones do cinema e da televisão brasileira. Donos de um sucesso absoluto em mais de 25 longas-metragens juntos ao longo de várias décadas. Nunca existiu um grupo de humor com tanto êxito comercial e artístico no Brasil como eles. Pensando nisso, o radialista, escritor, produtor cultural e cineasta paulista Rafael Spaca realizou o documentário de longa-metragem Trapalhadas Sem Fim. O trabalho promete contar em detalhes toda a trajetória profissional do quarteto. Spaca afirma que está em negociação com emissoras de televisão e com o Netflix. Ainda não sabe se o filme será dividido em uma minissérie ou onde será exibido. O documentário não recebeu depoimentos dos dois integrantes vivos da trupe: Dedé Santana e Renato Aragão. Mesmo assim, o doc contou com depoimentos de famosos como Angélica, Ary Toledo, Caetano Veloso, Regina Duarte, Sérgio Mallandro e Tony Ramos,   



Mas garante ter um material único sobre Os Trapalhões. “É, até agora, o documentário mais amplo a respeito do quarteto. Duvido que o próprio Renato Aragão faça um tão abrangente, tão plural, como esse”, afirmou ele em exclusividade ao VSP.



Violão, Sardinha e Pão- Como e quando você começou a acompanhar os Trapalhões?


Rafael Spaca- Desde criança. Sempre fui fã do quarteto. Costumo dizer que eles foram os heróis da minha infância.


VSP- E como começou a pesquisar? A ideia inicial era somente o livro?



Sentia muita falta de uma bibliografia de referência a respeito deles. Tinham poucos livros. Incomodado com isso, resolvi agir e passei a pesquisá-los. Eles se tornaram meu objeto de estudo e ainda pretendo desenvolver um mestrado a respeito deles. A ideia inicial era a pesquisa científica/acadêmica.  Antes veio o convite de editoras para publicar a pesquisa. Saiu o Cinema dos Trapalhões, por quem fez e por quem viu (Editora Laços, 2016) e em seguida As HQs dos Trapalhões (Editora Estronho, 2017).


VSP- Em uma das suas últimas entrevistas você afirmou que ninguém lê livro no Brasil. Isso é um tanto traumático para quem escreve livros como eu e você. Como você percebeu isso? Esperava mais sucesso do livro?


Os livros fizeram sucesso. Foram elogiados, noticiados e tiveram excelente vendagem (um deles esgotou). Porém, é uma triste realidade. Somos um país iletrado e que cultua a ignorância. Não dá para maioria viver disso no país.

Renato Aragão tornou-se um dos grandes empreendedores do humor brasileiro. Foto: Acervo pessoal


VSP- Para o livro o primeiro contato com o Renato Aragão foi tranquilo? Por que essa relação mudou?


Demorei quatro anos para conseguir entrevistá-lo. Minha sorte é que uma pessoa próxima a ele driblou a Lilian Aragão e eu consegui a entrevista. Ele me recebeu muito bem, comi a melhor torta de frango da minha vida, ele me elogiou e elogiou minha entrevista. Anos depois, quando Renato Aragão lançou sua biografia, tive a honra de ter dois depoimentos dentro do livro e meus dois livros são citados como fontes bibliográficas. O que mudou? Talvez ele mudou...


VSP- Dentro da filmografia dos Trapalhões quais títulos você mais destaca ou mais gosta?


Gosto de absolutamente tudo até 1988. Em todos esses filmes têm, pelo menos, algum aspecto/perspectiva que vale assistir.


VSP- Qual é o maior sucesso de público deles de cinema?



Os Trapalhões nas Minas do Rei Salomão, com quase 6 milhões de espectadores. Isso oficialmente, em uma época pouco confiável de aferição, havia muita falcatrua na contagem e, dizem, esse filme poderia ter rendido muito mais.


VSP- Como era a relação dos Trapalhões com a crítica? Isso parece ser um pouco traumático para o Renato Aragão. Você acha que a crítica era um tanto preconceituosa?


Ele sempre reclamou da crítica e personalizava essa crítica para o lado pessoal muitas vezes. Ele afirmava que a crítica não suportava a ver um migrante fazer sucesso e isso deixava a crítica enraivecida. Com a fala do Carlos Drummond de Andrade, de que assistia aos Trapalhões, o cenário melhorou para o grupo. Recebeu uma espécie de chancela de um dos maiores poetas do país. Aí a 
 intelligentsia veio atrás.


VSP- O Renato Aragão é um personagem nacionalmente conhecido e polêmico. Nas suas pesquisas você descobriu novos fatos sobre a trajetória dele? A ideia que ele explorava os demais é verdadeira?


Não é exploração. Era uma relação disfuncional de mais-valia. Vamos dizer que os outros três não eram tão reconhecidos como todos nós imaginávamos.

VSP- Você acredita que os quatro conseguiam render somente juntos?


Disso eu não tenho dúvida. O fato concreto é que durante a separação, em 1983, Renato Aragão lança O Trapalhão na Arca de Noé e Dedé, Mussum e Zacarias lançam Atrapalhando a Suate. O público se dividiu e a bilheteria dos dois filmes ficou aquém. Na televisão, reprises. Eles tentaram fazer algo separados, mas não funcionou.


VSP- Como surgiu a ideia do documentário?


A Sara Silveira, produtora do (cineasta) Carlos Reichenbach, deu a ideia. Falou justamente do alcance maior que a pesquisa teria. E, realmente, é impressionante a diferença. Nossa educação hoje é audiovisual, não é mais escrita. 


VSP- O documentário é muito diferente do livro?


Ele traz informações novas, mas entendo-o como complementar às minhas pesquisas anteriores. 


VSP- Existem histórias novas sobre o grupo no documentário que não estão em outros lugares?


Todos os mitos e folclores a respeito do grupo serão elucidados. É, até agora, o documentário mais amplo a respeito do quarteto. Duvido que o próprio Renato Aragão faça um tão abrangente, tão plural, como esse.


VSP- Por que o Renato Aragão se incomodou com o seu projeto? Você acredita que ele tem uma espécie de vaidade parecida com o Roberto Carlos que proibiu a biografia dele?


Essas histórias se assemelham em alguns aspectos, mas hoje há uma proteção maior ao biógrafo, à liberdade de imprensa. Aquele episódio, apesar de triste, ajudou a abrir caminhos para todos nós, pesquisadores, jornalistas e produtores de conteúdo. Nesse aspecto, Paulo César de Araújo é uma espécie de mártir. 


VSP- Você tem medo de que ele tente tirar o doc do mercado como o Roberto fez com o “Roberto Carlos em Detalhes” do Paulo César de Araújo?


Acho improvável que logre êxito. Pode até querer, pode até tentar, mas não creio que consiga.


VSP- Os Trapalhões têm fãs em todo Brasil. O que eles podem esperar do documentário?  


Surpresa!!!!

Segue o trailer:
 


terça-feira, 22 de outubro de 2019

VSP Entrevista: Ricardo Favilla



O documentário de longa-metragem A Turma do Pererê.doc conta a trajetória do primeiro gibi colorido de um só autor brasileiro. Publicado pela primeira vez em 1959, os personagens Pererê, Tininim, Galileu e sua trupe fizeram sucesso com adultos e crianças naquele final dos anos 1950 e início dos 1960. As histórias eram publicadas nas páginas de O Cruzeiro, revista semanal editada pela Diários Associados. O criador de todas as aventuras da Turma do Pererê é o cartunista, chargista, escritor, desenhista, humorista e workhaloic assumido Ziraldo Alves Pinto. Um dos maiores nomes dos gibis e das histórias em quadrinho do Brasil, Ziraldo inspirou-se nas histórias de Monteiro Lobato e na sua própria infância passada no interior de Minas Gerais para criar esses personagens. Aos 87 anos, Ziraldo segue ativo e publicando mais trabalhos. O cineasta carioca Ricardo Favilla teve o mérito de pegar a história de parte da obra de Ziraldo e fazer um interessante documentário. Um verdadeiro documento histórico que remete a trajetória da Turma do Pererê, de Ziraldo, das histórias em quadrinho e da própria imprensa brasileira das últimas décadas. O VSP conversou com exclusividade com o diretor Ricardo Favilla.

Violão, Sardinha e Pão- Como surgiu a ideia do documentário?

Ricardo Favilla- A ideia na verdade surgiu da cabeça de um fã convicto do Ziraldo, o Tarcísio Vidigal, produtor dos dois filmes de ficção do Menino Maluquinho com quem eu já havia trabalhado. Ele desejava fazer a muito tempo alguma coisa sobre este icônico personagem os quadrinhos brasileiros: o Pererê. O Tarcísio fez uma extensa pesquisa, que resultou numa exposição itinerante congregando tudo que existia em torno desta publicação ao longo de décadas. Um primeiro roteiro para o documentário foi feito, mas a abordagem não o satisfez, como o Tarcísio sabia que eu  também  era um grande curtidor e interessado em HQs  me convidou para retrabalhar este roteiro, e acho que dei conta do recado. Depois fui convidado para dirigir o filme e isso foi um grande prazer.


VSP- Você era leitor da Turma do Pererê?

Não, na época do lançamento e da duração da primeira fase, a mais famosa, da revista do Pererê eu era um bebe de colo.  Meu contato com a obra do Ziraldo se deu mais tarde através de outra extraordinária criação deste genial artista chamada  Jeremias, o Bom. Essa obra era voltada mais para adultos e apesar de eu ser muito criança e não entender a maioria das piadas, me fascinou pelos traços e  pela ousadia de ocupar as paginas de uma maneira que nenhuma outra publicação de desenhos fazia naquele tempo.  Eu era leitor das revistas convencionais voltadas para o público infantil da época como Tom e Jerry, Personagens da Disney e Super Heróis publicados pela Ebal e Bloch editoras. Ziraldo me levou a buscar um novo mundo de desenhistas, o americano Robert Crumb e outros do chamado "udigrudi" americano, os europeus de linha clara, Hergê, Goscynni, o italiano Hugo Pratt e depois me deparei com os mestres desenhistas da francesa Metal Hurlant. Nesta época, um pouco precocemente, comecei a acompanhar a semanal publicação satírica e política O Pasquim, muito por causa de Ziraldo, Henfil, Jaguar e outros cartunistas e ilustradores brasileiros que lá estreavam. Foi ali que travei contato pela primeira vez com a Turma do Pererê, revisitada em preto e branco nas paginas do que Ziraldo chamava o suplemento Infantil Subversivo do nanico tabloide.

VSP- Quais foram suas principais dificuldades?
 
A primeira foi filtrar a enorme  quantidade de material. Existam muitas informações acerca da trajetória do Ziraldo, que tem uma vasta produção gráfica e uma atuação constante como personalidade midiática e multimídia. Concentrei-me na trajetória do personagem e  da revista, que obviamente esta entrelaçada com do próprio Ziraldo, nas suas diversas fases, partindo das condições políticas e econômicas que alavancaram a sua Gênese como primeira revista colorida em quadrinhos de um só autor brasileiro. Os personagens fizeram sucesso e crescimento em meio á luta pela nacionalização do Quadrinho Brasileiro, na qual Ziraldo era uma das pontas de Lança, juntamente com Mauricio de Sousa, e assim nasce uma profunda e duradoura amizade entre ambos. A revista sofre uma abrupta interrupção  por ocasião do golpe militar de 1964. A partir daí tentativas são feitas por Ziraldo para atualizá-la, debaixo da cerrada vigilância da censura da Ditadura no período do O Pasquim. Há  depois uma breve passagem pela  Editora Abril, que economicamente não dá certo e finalmente  acontece a redescoberta da Turma do  Pererê  pelas publicações educacionais, quando esta criação é reconhecida como sendo a pioneira a tratar de temas de ecologia, meio ambiente e da valorização da cultura brasileira. O segundo desafio foi de como construir uma narrativa atrativa que desse conta da riqueza dos  percalços desta trajetória e ao mesmo tempo valorizar visualmente a arte gráfica de Ziraldo. Também tivemos o objetivo de revelar o talento e os segredos que fazem dele um autêntico contador de historias, que como ninguém, consegue se comunicar tão facilmente com os públicos de todas as idades. A terceira foi encontrar testemunhos e análises capazes de dissecar os personagens nas suas formas gráficas e personalidades. A solução para tudo isso foi  juntar um verdadeiro time de entrevistados de primeira linha, com expertises variadas como: Laerte, Mauricio de Sousa, Mig, Otta, Álvaro de Moya, Gonçalo Junior, entre outros.

Ziraldo quando criou A Turma do Pererê. Foto: Divulgação

VSP- Ziraldo é o criador destes e de vários personagens. Você acha que ele merecia mais documentários?

Sim, existem varias facetas nas artes e habilidades de Ziraldo como quadrinista, cartunista, escritor, jornalista, ativista político, artista gráfico entre outras. Diversos de seus personagens e os processos de criação dele valeriam a feitura de diferentes documentários.  De suas criações ficcionais, tanto adultas quanto das  infantis extrairíamos mais filmes e mais series,  tanto com atores em  live action" quanto em animação. 


VSP- Qual é o maior mérito do Ziraldo com o público infantil?

Acho que é a sua comunicabilidade, sua simplicidade ao narrar historias que tocam e atraem esse publico infantil. Ziraldo intuitivamente compreende o que os move e o que  impulsiona sua curiosidade pueril.  Seu humor satírico e a abordagem nas suas historias de acontecimentos e fatos cotidianos que estão constantemente ao redor das crianças. E essas são percebidas claramente  por estas,  mesmo que sejam rotuladas como temas  para serem refletidos apenas por  “adultos”, são uma das chaves de sua facilidade de fazê-las mergulhar no seu universo e se simpatizarem por seus personagens. Além, é claro, da beleza dos seus traços econômicos, o sentido de movimento e a utilização de diversos elementos gráficos marcantes, tais como as cores fortes, as onomatopeias impactantes e as angulações e disposições espaciais das suas narrativas. 

Foto: Divulgação
VSP- Pelo seu documentário percebemos uma diferença do lado empreendedor do Maurício de Souza e do Ziraldo. Como é isso?

Ambos são, cada um a seu modo, grandes criadores de personagens empáticos ao mundo infanto-juvenil.  Acho que um é o espelho do outro, Mauricio admira a genialidade do artista gráfico completo que é Ziraldo e este admira o espírito empreendedor e organizado de Mauricio que o levou a criar um império editorial e multiplicar e sustentar suas criações. Ziraldo é um workaholic que gosta de ter controle sobre todo seu processo criativo, um obsessivo pela sua perfeição. Mauricio delega mais e trafega melhor pelos aspectos econômicos de seus produtos, é mais focado num universo onde se sente mais a vontade, voltado quase que exclusivamente para crianças e adolescentes. Já o Ziraldo é atraído por uma gama enorme de atividades e das possibilidades de exercitar seus talentos em áreas diversas e voltadas para públicos de diferentes faixas de idade. 


VSP- Você acredita que o Amigo da Onça do Péricles também podia dar um documentário?

Eu acho que sim, e sei pessoalmente bem disso. O Amigo da Onça foi um dos  personagens mais conhecidos, idolatrado e amado do Brasil durante  algumas décadas do século XX. Seu criador Péricles, compositor, poeta e desenhista de talento, depressivo,  se suicidou, e segundo reza a lenda, por ter sido ultrapassado em fama por seu personagem e não ser reconhecido como o autor do mesmo. Apesar da morte de Péricles, O Amigo da Onça continuou a ser desenhado por vários artistas e ainda manteve seu sucesso nas paginas da revista O Cruzeiro durante muitos anos. Depois, lentamente esse personagem foi desaparecendo e hoje ser apenas uma pálida lembrança de tempos “antigos”. Os motivos para o estrondoso sucesso nos anos 1950 e 1960 e o que levou ao esvaecimento deste personagem a partir da década seguinte é para muitos um mistério que valeria uma investigação fílmica.   Eu já tive o desejo de fazer este projeto, mas acabei fazendo um roteiro com o quadrinista Ofeliano, para um filme, a partir de uma curta história em quadrinhos deste, mas por diversos fatores acabei não filmando.  Anos depois repassei este roteiro para um amigo cineasta, o Terêncio Porto,  que realizou o belo curta-metragem  A Ultima do Amigo da Onça, do qual fui também co-produtor. O curta é uma ficção que trata do tema da relação destrutiva entre criador e sua criatura. Você encontra no youtube (https://www.youtube.com/watch?v=TYfC75hX7Q0)  veja e divirta-se.


VSP- Quais são as maiores dificuldades de se fazer cinema no Brasil hoje?

Basicamente as mesmas de sempre desde que comecei a trabalhar com audiovisual ao sair do curso de cinema da UFF (Universidade Federal Fluminense) nos anos 1980.  Primeiro, conseguir recursos para desenvolver um bom projeto, com tempo para pesquisa e maturação das ideias visando criar um argumento robusto que leve a um roteiro consistente. O segundo é levantar financiamento para produzir um filme de maneira confortável compatibilizando custo e conteúdo, isto é um processo no Brasil muito demorado, burocrático e sujeito aos humores dos gestores do audiovisual. São basicamente pessoas do governo e seus órgãos públicos de fomento e controle.  Terceiro: uma vez pronto o filme precisa ultrapassar um gargalo de distribuição e colocação no exíguo  mercado de exibição brasileiro, então mais uma vez há a necessidade de se levantar um bom capital para os gastos relativos ao lançamento.  Resumindo: a questão principal são as poucas fontes de financiamento, escassas para o volume de novos projetos e cineastas que surgem a cada dia.  O desenvolvimento das novas tecnologias e meios de difusão digital aumentaram o espectro da visibilidade, mas a produção ainda é muito dependente das poucas fontes de recursos financeiros existentes.


VSP- O que você acha do atual momento do documentário brasileiro?

Acho que por uma questão de serem filmes com seus custos menores e mais viáveis que dos filmes de ficção, o documentário se tornou uma alternativa de produção rápida. Assim acho que ao longo das duas ultimas décadas este gênero ganhou um impulso enorme, sua riqueza de temáticas e a possibilidade dos realizadores se arriscarem mais na linguagem narrativa atraiu uma enorme gama de novos autores, através dos meios digitais modernos o documentário encontrou mais e mais canais de difusão e acolhida, tornando-se uma categoria muito atraente e consumida pelos espectadores, com muitos canais dedicados a este segmento de produção. Mas nos cinemas tradicionais, apesar do grande numero de títulos lançados, continua como um gênero de nicho, com poucos espaços comerciais de visibilidade. Mostras, Festivais e cineclubes ainda são sua principal base de difusão.


VSP- Na sua opinião, qual é o futuro do cinema brasileiro com uma política tão predatória a produção nacional?

Independentemente do que esta acontecendo neste momento no Brasil, o cinema brasileiro continua sua inexorável marcha, como eu disse antes: mais e mais cineastas aparecem a cada dia, pois o digital esta aí e veio para ficar. No nosso cotidiano estamos conteúdos diversos e novos o tempo todo. Assim o audiovisual brasileiro em todas as suas vertentes persiste, e o cinema é a principal e mais nobre delas. Não importa o quanto governos e governantes tentem bloquear, cercear ou direcionar a produção, Ela, de um jeito ou de outro escorre pelos lados, por baixo e por cima, ultrapassa tudo. Esta produção é resiliente, se esquiva, se dissimula. Já passamos por épocas terríveis neste país. Desde as censuras atuantes nas Ditaduras que conhecemos por décadas no Brasil, da destruição das estruturas de fomento e regulação na era “Collor”, talvez o momento mais terrível para a nossa produção cinematográfica, mas que a estimulou e a fez renascer em um outro modelo, que ajudou a fazer crescer os campos de produção de imagens que alcançamos no inicio deste século. Agora, temos nossa cinematografia outra vez sob ataque de forças obscurantistas. Mas apesar das baixas nas taxas de produção e dos entraves colocados no caminho, continuaremos como realizadores a criar, a fazer, a sonhar e ocuparemos sempre todos os espaços possíveis. Sempre descobriremos ou inventaremos locais e momentos para exibir nossas imagens. É impossível segurar o tempo e devir do futuro e este é cada vez mais audiovisual, O cinema brasileiro persistira e vai sempre mostrar sua criatividade e diversidade.  

Segue o trailer: