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quarta-feira, 19 de julho de 2023

Histórias de Heleno de Freitas, parte III de III: Cidade maravilhosa

 Histórias de Heleno de Freitas, parte III: Cidade maravilhosa

 

Capítulo III: 1933-1935 Cidade maravilhosa

 

Por Marcos Eduardo Neves

Heleno de Freitas parecia o galã Rodolfo Valentino: gomalina nos cabelos e vestido com bom gosto


            O Rio de Janeiro que encontraram respirava política. Havia três anos, a cidade presenciara a revolução que impediu o eleito Júlio Prestes de tomar posse na presidência da República. Em voga desde 1894, a “politica do café-com-leite” que alternava no poder os partidos republicanos paulista e mineiro, provocara a reação de Rio Grande do Sul, Paraíba e até Minas Gerais na indicação do sucessor de Washington Luís. Estava formada a Aliança Liberal, que, após a morte de João Pessoa, caminhou em marcha resoluta rumo ao Distrito Federal. Para tomar o poder e deixar o país nas mãos do líder Getúlio Vargas, agora chefe do governo provisório.

 

            A linha dura tomava conta do mundo. Se nos Estados Unidos Franklin Roosevelt colocava em prática o “New Deal”, seu plano para superar a severa crise econômica provocada pela quebra de bolsa de Nova York, ocorrida em 1929, poucos repararam o teor de outras notícias que estamparam regularmente os jornais. Em Portugal, Salazar criara o seu “Estado Novo”. Meses depois o Japão abandonava a Liga das Nações. Na Alemanha, Adolf Hitler, seu chanceler, assumia o papel de Führer com o Partido Nazista no poder. Desejando vingar as heranças malditas do pós-guerra, como a cruel recessão, Hitler defendia a superioridade da raça ariana para, ao negar as instituições básica da democracia liberal, incitar uma luta pelo expansionismo na Europa. Ganhava a população usando sem freios os meios de comunicação e transformando comícios em verdadeiros espetáculos. Já na Itália, cada vez mais áspero e desumano era o governo de Mussolini. Volta e meia as manchetes dos principais periódicos do Distrito Federal, como o Jornal do Brasil, o Correio da Manhã, o Diário de Notícias, A Noite e o Diário Carioca, omitiam tais informações. As modernidades tecnológicas eram bem mais modestas. Havia muitas dificuldades para se comunicar a longa distância.

 

 

Mas o Rio, em si, era um caldeirão de novidades. Dona Miquita, Heleno e Vera Maria, que só a conheciam por fotos, logo constaram que a cidade era maior, bem maior do que imaginavam. Milhares de automóveis, motocicletas e caminhões faziam de suas ruas uma autêntica sinfonia de buzinas. Proliferavam ônibus de dois andares, os “chopes-duplos”, que viajavam do Centro ao Pavilhão Mourisco, em Botafogo. Eram da Light, estofados e confortáveis. Os táxis, geralmente pretos, cobravam por quilometragem e não por hora. Nas calçadas, inúmeros reclames com letras garrafais, expostos nos muros, eram lidos por homens de bigode, sem pressa, mas determinados, e por mulheres elegantes, que desfilavam seus perfumes e colônias, atraindo a atenção do sexo oposto. Quase todo mundo usava chapéu. Um dos locais de maior concentração de chapéus era o boêmio Café Nice, na avenida Rio Branco. Como também era bastante concorrida a Galeria Cruzeiro, a metros dali. O Centro era o coração do Rio. A alma eram suas músicas.

 

As escolas de samba ainda engatinhavam, mas seus desfiles já eram bem-vistos pela elite e classe média. O carnaval de rua houvera sido movido pelo som de “Linda morena”, de Lamartine Babo, e “O teu cabelo não nega”, de Lamartine e os irmãos Valença. Naquele 1933, Francisco Mignone escrevia seu bailado afro-brasileiro, “Maracatu do Chico-Rei”, mas havia muito que não a clássica, e sim a negra, a música que se tornava a melhor expressão da essência nacional.

 

A música invadia as casas pelo rádio, que vivia fase de expansão desde que o governo liberava a veiculação de comerciais. O aparelho era obrigatório nos lares; acalentava o povo por misturar música erudita com popular em meios a programas de variedades. Num deles, a Rádio Cajuti, “o rei da voz” Francisco Alves lançou o cantor Orlando Silva – que se revelaria seu principal rival artístico.

 

A beleza da capital federal tocava os estrangeiros, que prometiam voltar e cumpriam. Fiéis admiradores da praia, da vida noturna, do charme e glamour das pessoas, os turistas vinham despreocupados, apenas para curtir, curtir e gastar. Quem tinha bala na agulha assinava a ficha de entrada no suntuoso Copacabana Palace. Local que Heleno muito ainda iria frequentar. Na mocidade. Pois, aos 13 anos, ao desembarcar as malas, o que mais fez foi conferir o que havia de melhor nos cinemas.

 

Coincidência assegurar-se, logo de cara, que Hollywood combinava com o Brasil. Ginger Rogers e Fred Astaire, por exemplo, pela primeira vez dançavam juntos em Voando para o Rio, uma expressiva homenagem ao país. Pouco antes – Heleno não pôde contemplar -, sua musa, a linda Greta Garbo, estrelava Grand Hotel, da Metro Goldwyn-Mayer, junto a John Barrymore. Quanto aos filmes nacionais, uma voz já conhecida nas rádios, Carmen Miranda, a mais brasileira das portuguesas, começava a se impor, tornando-se figura marcante e assídua nos telões.

 

Dona Miquita acertou em se mudar. No Distrito Federal as escolas superiores formavam os bacharéis que construíam a elite política do país. Meio caminho andado, já que seus filhos eram aplicados na escola, loucos por livros. Naqueles idos, florescia a inteligência brasileira, sendo publicados marcos como Casagrande & senzala, de Gilberto Freyre, e Evolução política do Brasil, de Caio Prado Júnior. Por viverem em ambiente no qual se lia muito e se conversava profundamente sobre quaisquer assuntos, ampliava Heleno e seus irmãos suas aptidões verbais e intelectuais.

 

 

A cidade fez bem aos Freitas. A liberdade de circulação e a circulação de ideias eram melhores. A família se instalou no Posto 6, na rua Conselheiro Lafaiette, 29, 3º andar, apartamento 7. Copacabana podia parecer provinciana, seus moradores levavam uma vida simples e tranquila, mas sua beleza era tão valorosa que já havia apartamentos de aluguel por temporada, destinados a estrangeiros e turistas que vinham ao Rio passar o verão na praia. Ou, a exemplo dos Freitas, se estabelecer.

 

Curioso, Heleno percorria os cantos de Copacabana. E de Botafogo. Pois, enquanto tomava conhecimento dos prazeres da capital, a cidade se vestia de preto e branco com o bicampeonato do Botafogo Football Club. Heleno se apaixonou pela festa que fez sua torcida no estádio de General Severiano – festa essa que só findaria em 1935, com o até hoje tetracampeonato dentro de campo de uma agremiação na cidade. Como disse anos mais tarde João Saldanha, “nada como um time campeão para conquistar um coração de um garoto”.

 

Mas não era apenas por causa do famoso futebol carioca que Heleno ansiava todo dia sair de casa. Amor à primeira vista sentiu também pela praia, onde repousava o corpo na areia para contemplar o sol ou catar tatuí. Areia branca, céu azul, mar limpo e sol forte, de que mais precisava?

 

De mulheres. Afinal, fora matriculado no rígido São Bento, próximo à praça Mauá, famoso pela segregação dos sexos. A primeira atividade física de Heleno no Rio foi a azaração dos footings pela avenida Atlântida.

 

Os footings eram caminhadas sem compromisso por entre o Lido e o Posto 5. Como se fosse o único point de uma cidade do interior, era ali o melhor local para as moças se exibirem, enquanto os homens paqueravam ou discutiam política ou futebol. As cariocas mais modernas e elegantes, que na areia trajavam maiôs compridos e comportados, nas caminhadas desfilavam diversas tonalidades de azul e vermelho em vestidos com enfeites de renda, faixas de cetim, golas jabot e lanços de crepe georgette. Estilo que exigia um corpo frágil, esguio e delicado. Envoltas de leque, luvas, lenços e poderosos chapéus, abusavam de sensualidade quanto conduziam à boca, com classe, seus cigarros Bungalow ou Magnólia.

 

Heleno gostava de andar de bicicleta sem destino por Copacabana. Sua mãe só pedia uma coisa: que não fosse a Ipanema. O bairro vizinho sofria com o descaso das autoridades. As ruas eram esburacadas e a praia mais parecia um imenso matagal. Além da falta de policiamento, era precário seu saneamento. Embora muitos já decantassem o Arpoador como local ideal da cidade para banhos de mar.

 

Ainda que julgasse belíssimo o mar, mergulhar não era a praia do mineiro Heleno. Ao contrário dos meninos de sua idade, jamais ousou pegar jacaré. Antes do advento do surge, os garotos se esbaldavam entrando nas ondas de peito, sem tábua. Como não sabia nadar, Heleno somente os contemplava, não encarava. Habitué da praia da moda, a em frente ao Posto 6, em breve transformaria, metros à esquerda, o corpo mirrado num de atleta. Em outro esporte.

 

Apesar da profissionalização do futebol, ocorrida em janeiro, as páginas esportivas de destaque nos jornais endereçavam-se ao turfe. Heleno pouco se apetecia com equinos, mas era apaixonado, louco por carros. Marcos presença no Grande Prêmio do Rio de Automobilismo, no circuito da Gávea. Em 8 de outubro de 1933, 35 pilotos, alguns internacionais, como o alemão Hans Stuck, atraíram uma multidão, aglomerada nas calçadas. Manuel de Teffé, francês radicado no Brasil, venceu a prova com um Alfa-Romeo de seis cilindros. Heleno suspirou e disse para si mesmo que ainda teria um carrão importado.

 

Enquanto não podia dirigir, deslumbrado ficava com a excelência dos cinemas. Não perdia um filme no Rian. Arrependimento? Talvez ter assistido ao polêmico Match da Morte – a íntegra dos 13 assaltos da luta entre Primo Carnera e Ernie Schaaf, na qual o segundo, um jovem boxeador, perdeu a vida trabalhando. Em seu bom coração não havia espaço para tragédias.

 

Os outros esportes eram interessantes, mas a paixão do jovem era mesmo o futebol, já bastante popular na cidade. Depois de décadas como esporte amador e elitista, praticado por filhos de boa família, a profissionalização prometia embates ainda melhores nos grandes estádios. Se, anteriormente, alguns atletas pobres recebiam gorjetas de sócios ricos para representarem seus clubes – o famoso amadorismo marrom -, daquele ano em diante a certeza era de que os melhores jogariam, independentemente de credo ou classe social. Sendo ainda pagos para isso.

 

Mas Heleno não era assíduo em estádios. Quando não estava na classe, ainda em Copacabana, mais precisamente no Posto 4, assistindo às partidas dirigidas por Antônio Ferreira Franco de Oliveira, o Neném Prancha. Admirava cada jogada, sentado no paredão da avenida Atlântida – como era chamado o calçadão, que as pessoas precisavam pular para pisar os pés descalços na areia fofa. Na época, o futebol de praia ateava fogo na paixão dos cariocas. O paredão vivia cheio onde tinha jogo. Heleno via aquelas rixas disputadas com andor, truncadas, se estremecia de raiva quando zagueiros desesperados distribuíam pontapés para intimidar atacantes habilidosos. Ficava louco para entrar. O problema é que era tímido demais para se enturmar com desconhecidos.

 

Figura que se tornaria folclórica no futebol brasileiro, aos 27 anos o humilde Neném Prancha ainda era um obscuro jogador do Carioca que fazia sucesso na praia pela forma diferente de comandar seus meninos. Fluminense de Resende, filho de um biscateiro e uma doméstica, chegara ao Rio em 1917, adotado por uma família que morava na rua Constante Ramos, em Copacabana. No pedaço de praia ali em frente, fundou, com um jogo de camisas e duas bolas de borracha, seu primeiro time, o Posto 4 Futebol Clube. Alegria de muitos garotos.

 

Parrudo, alto e pesando oitenta quilos, seu corpo forte escondia um mulato solitário, feio e introvertido, para muitos tido como assexuado. Nada disso. Como muitos treinadores de praia daquele tempo, Neném Prancha satisfazia suas necessidades hormonais com algumas crianças sem talento que tinham como maior desejo integrar uma equipe de futebol.

 

Este e, principalmente, os que pareciam ter melhor futuro nos campos, Neném agradava pagando refrigerantes, oferecendo sorvetes, tentando se tornar uma espécie de guarda-costas dos meninos. Pelas mãos e pés enormes – 23 centímetros e sapatos 44, respectivamente – recebeu o apelido de Prancha. Quanto á boca, era uma metralhadora de pérolas.

 

Com uma boina na cabeça para espantar o sol, Neném gesticulava sem parar, dava autênticos sermões nos intervalos, embora sempre falasse mansamente, com carinho e ternura. Não se banhava no mar, mas, se necessário mandava os indisciplinados darem um mergulho de cinco minutos, “para refrescar a cuca”. Com o tempo, teria problemas de vista. Mesmo assim, preferiu não enxergar bem a usar óculos. Afinal, não precisava. Sentia craque pelo cheiro.

 

 

Heleno se enfeitiçou pelo uniforme do time de Neném Prancha – camisa preta e branca como a do Botafogo, mas de listras horizontais, e short preto. Do paredão o guri apreciava o fino trato que o astro Pirica aplicava na pelota. E se identificava com o espírito alegre do centroavante João Alves Jobim Saldanha, um rebelde de 17 anos prestes a se filiar ao Partidão, que, se tinha pouca intimidade com a bola, estava sempre pronto para encarar qualquer encrenca.

 

Os principais rivais do Posto 4 FC eram o Lá Vai Bola, o Atlântico, o Cruzeiro e o Huracán. Mais tarde, duelos memoráveis seriam travados em campeonatos organizados com times como o Posto 3 Atlético Clube, o Ouro Preto, o Escrete Guanabara, o 103 FC – nome que remetia à linha dos ônibus mais modernos do Distrito Federal -, o Copacabana, o Americano e o 11 Garotos. Quem organizava o 11 Garotos era Catulino Veloso. Respeitado mas ruim de bola, Catulino foi na verdade quem pronunciou a famosa frase, atribuída anos mais tarde a Neném Prancha: “Arrecua os arfe previtá catástre”. Neném não falava assim – pelo contrário, era até filósofo. Catulino, sim, era capaz de confundir seus próprios jogadores: “Centra alto rasteiro! Centra alto rasteiro!”.

 

Heleno não via a hora de penetrar este universo. Um dia o instinto foi mais forte e ele tomou coragem para ir até Prancha implorar uma chance.

 

- Não fiz fé no menino – confessaria Neném. – Sempre o via acompanhando o jogo da calçada, a distância. Fiquei surpreso quando ele apareceu de calção pedindo para jogar. Tão compenetrado, e de repente parecia um demônio atormentado por mil deuses a correr endiabrado pela areia.

 

Como eternizou o escritor Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta, de quem, Heleno se tornaria amigo, na crônica “O Ídolo”:

 

(...) Um dia nós saímos rua abaixo. De calção bem curtinho, toalha no pescoço, íamos para a praia, como fazíamos todas as tardes, jogar futebol na areia.

            Aos poucos iam chegando todos; uns pulavam o paredão e vinham bater bola, outros ficavam lá por cima mesmo, de conversa, esperando os retardatários. Quando não faltava mais ninguém, começava a distribuição de camisas.

            Aproximei-me de um grupo, já metido no seu “uniforme”, quando alguém segurou-me pelo braço para apresentar o novo jogador. Era um garoto magro, moreno, de cabelos muito lisos. Veio com um andar gingante, apertou-me a mão com um sorriso e, logo em seguida, o jogo começava.

Nada de pontapés sem bola, nem trancos, nem nada. Tudo correndo normal, a gente gritando os nomes uns dos outros, pedindo ou mandando passes, alegres e divertidos, que não havia nada mais alegre e divertido do que jogar futebol na areia (...)

Mas naquele dia foi diferente. Sem ninguém compreender por que, o jogador novo, de repente, saiu dando murros no ar, esbravejando cheio de ódio, a dizer que não era palhaço, que quebrava a cara do primeiro que lhe fizesse um foul.

Quando o jogo acabou, na rua acima, de volta para casa, alguém me disse, comentando a briga: “Aquele camarada é maluco”.

 

 

Em 1934, Vargas assumiu, oficialmente, a presidência da República. O uso político das rádios se revelaria um traço marcante de sua gestão. Não havia como fugir. Getúlio percebia que a comunicação era o melhor canal para propagar sua política às camadas mais pobres da população.

 

Precoce, Heleno não só se informava pelas emissoras como folheava os jornais do dia, assim como a revista Beira-Mar, uma espécie de “porta-voz” da Zona Sul carioca. Defronte às bancas, parava à cata de boas-novas. Que ás vezes não eram boas, como a eliminação da Seleção Brasileira na Copa da Itália, em plena primeira fase. Que às vezes eram trágicas, como o triste fim de Ernesto Nazareth.

 

Foi terrível para o menino saber que o compositor, um gênio da música brasileira, morreu afogado na represa da Colônia Juliano Moreira, em Jacarepaguá, tentando fugir do hospício. Cabisbaixo, Heleno descobriu que a vida podia ser cruel. Não com ele, mas com outros.

 

Para ele o mundo era euforia. Desde que entrou, não saiu mais do time de Neném Prancha. Na verdade, pela tenra idade, do segundo time. Jogando de zagueiro, Heleno se dava em cada disputa, cada lance contra os atacantes adversários. Tinha de fazer o melhor, afinal, no gol estava um topetudo, gorducho e amedrontado Sérgio Porto. Um guri de apenas 11 anos que tremia só de pensar na bola se aproximando.

 

Além de Porto, figuravam no time o jovem Sandro Moreyra, um ponta-direita preguiçoso para correr – jogava na parte dura da areia, próximo ao mar. Faria Lima era, na ponta esquerda, o inverso: cheio de fôlego. Neném também gostava de pontas abertos e ofensivos como Roberto Silveira, muitas vezes escalado. Gildo Borges era um atacante diferenciado. Sem dúvidas, o que mais arriscava a gol. E o que menos acertava o alvo. O meia Neves era o craque da equipe.

 

Quanto a Heleno, cujo temperamento inconstante despertava a curiosidade dos “torcedores” do Posto 4, Neném bem que tentava aconselhar:

 

- Não adiante reclamar da marcação do juiz, Heleno! Só vais conseguir ser expulso. Jamais um juiz voltou nem voltará atrás de uma decisão por obra de estrilos de um jogador! Joga teu jogo e deixa o juiz apitar, menino!

 

Assim pregava, mas em questão de minutos Heleno era novamente posto para fora pelo árbitro. Neném preferia assumir a culpa. Acreditava que poderia, com sua experiência, lapidar aquele diamante bruto. O guri valia o esforço, sabia tudo, parecia conhecer de outras vidas os segredos da areia. Sem falar em sua devoção à equipe. Mesmo quando caía doente na cama, conseguia encontrar estímulo para defender o Posto 4 uma ou duas horas depois. Com um gorro a conter-lhe os lisos cabelos, pernas finas e cara de mau, o comprido e bonito Heleno levou seu time ao triunfo na primeira liga formada pelos clubes de Copacabana. Vocação de craque, seu futebol começou a ser reconhecido no bairro.

 

Contagiado pelo grupo com que frequentava a praia, em abril de 1935 Heleno se inscreveu como sócio do Botafogo. Em pouco, começaria a fazer história pelo clube.

 

Publicado originalmente em NEVES, Marcos Eduardo. Nunca houve um homem como Heleno. Rio de Janeiro: Ediouro, 2006.

terça-feira, 18 de julho de 2023

Histórias de Heleno de Freitas, parte II de III: Rebelde sem causa

Heleno de Freitas e João Saldanha. Ambos bastante jovens

 Capítulo II: 1920-1933 Rebelde Sem Causa

 

Por Marcos Eduardo Neves

 

Heleno nasceu em berço esplêndido, numa tradicional família de São João Nepomuceno, município inserido na mesorregião da Zona da Mata mineira, e que faz parte da microrregião de Juiz de Fora. A cidade, cuja população é estimada em 25 mil pessoas, localiza-se a 322 quilômetros da capital do estado, Belo Horizonte. Da cidade do Rio de Janeiro distancia-se 247 quilômetros.

 

Com parcos 408 metros quadrados, a mineira São João Nepomuceno não passava de uma bucólica cidade entre montanhas e carros de boi, com ruas, vielas e calçadas de pedras rombudas, que somente aos domingos se mexia, graças ao movimento da roça que vinha para a missa. Conhecida como cidade garbosa, da moda e da alegria, terra de belíssimas cachoeiras, trilhas, rios, matas, ainda hoje é possível admirar fazendas, ricos casarões coloniais, alegria e receptividade em sua gente. E um patrimônio histórico que remete aos tempos dos barões do café.

 

Em 1920, Oscar de Freitas não era barão, mas um próspero negociante de café. E não só de café. A Casa Americana, propriedade sua, refinava também açúcar. Os Freitas, que sempre ocuparam cargos importantes e de destaque na Velha República, tinham negócios espalhados, como roupas, armarinhos, ferragens, louças, chapéus, calçados, papéis e tintas. Oscar era sócio de seu irmão Lincoln, o mais abastado da família, e de Gomes de Freitas, que se desdobrava para acumular, com os negócios a gerência da agência da Caixa Econômica local. Uma de suas irmãs Maria de Freitas, casou-se com o advogado Francisco Zágari, e outra, Ida com Carlos Pinheiro, que exercia cargo de destaque no Banco do Brasil. O outro irmão, Euclides, era médico. Enfim, entre os Freitas nunca se aventaria a hipótese de que fossem gerar para o mundo um jogador de futebol.

 

Natural de Pombal, Oscar era casado com uma moça de Cataguases, mas criada em Ouro Preto, chamada Maria Rita de Freitas. Perdendo a bela silhueta com o passar dos anos, não perdia o respeito na cidade. Chamada por todos de Dona Miquita, orgulhava-se por ser uma das primeiras professoras do Grupo Escola Coronel José Braz, onde seus filhos cursariam primário.

 

Embora se completasse um quinto de século XX, não só São João Nepomuceno como todo o país parecia ter se estagnado no anterior. Poucas eram as mudanças permitidas por aquele rodízio, aparentemente eterno, entre presidentes ora de Minas ora de São Paulo. Naquele começo de ano, Epitácio Pessoa dirigia a nação de pouco mais de trinta milhões de pessoas. As finanças não iam mal; permitiam até despesas de vulto. Enquanto as duas paixões nacionais- o futebol e o Carnaval – floresciam.

 

Em âmbito mundial, sem sequer imaginar que se tornaria uma marca milionária, aos 30 anos a inglesa Agatha Christie explodia com “O misterioso caso de Styler”. E se sua literatura seira sucesso no Brasil, o que dizer do esporte nacional, que traduzia cada vez mais a autoconfiança do povo? Na metade do ano, quando pela primeira vez participaram de uma Olimpíada, os brasileiros conquistaram, nos Jogos de Antuérpia, na Bélgica, suas três primeiras medalhas. Todas na prova de tiro. Inclusive uma de ouro.

 

Antes disso, porém, as emoções do Carnaval. Se o Rio foi contagiado pelas primeiras marchinhas, São João Nepomuceno não deixou por menos. A cidade se dividiu entre os bailes dos clubes Democráticos e Trombeteiros do Momo, além dos blocos e cordões de rua, que, em meio a palmas e vivas dado em profusão, atraíram centenas de visitantes dos municípios vizinhos.

 

Todavia, numa das noites carnavalescas, o clima em uma das casas da rua do Totó estava longe de ser festivo. Enquanto Dona Miquita dava à luz um novo rebento, na chácara da família, aos vinte minutos do dia 12 de fevereiro, os Freitas passaram maus bocados para salvar filho e mão. Tamanha a aflição que Dona Miquita, mulher de muita fé, fez até uma promessa: dar ao filho, ou filha, nome de santo, caso sobrevivesse. Como era devota de Santa Helena, por nascer homem, decidiu, seria Heleno. Heleno de Freitas. Nada melhor que um nome abençoado para protege-lo ao longo da vida.

 

Cresceria o pequeno Heleno ao lado dos cinco irmãos, Rômulo, Marina, Heraldo, Oscar e Vera Maria – os gêmeos Lúcio e José Lúcio morreram ainda crianças.

 

Marina era a mais velha. Gordinha, cabelos pretos que escorriam até os ombros, revelava desde pequena, ninando bonecas no colo, traços da dona de casa cuidadosa e amorosa que seria. Ajudaria muito a mãe a cuidar dos irmãos. Como Rômulo, seu primeiro, e que lhe deu muito trabalho. Lindo semblante, bem moreno, cabelos em forma de onda e olhos azuis que, quando molhados, tendiam ao verde, se nunca gostou de brincar de bola, assim que crescer passou a se gabar do seu indiscutível sucesso com as mulheres. Antes de se formar, no Rio de Janeiro, em direito, Rômulo chamava a atenção por sua beleza e simpatia. Quando bem-sucedido, trabalhando no departamento jurídico do SESC, casou-se e teve herdeiros, sem jamais deixar de aventurar-se na boemia do então Distrito Federal.

 

Segundo homem a nascer, desde pequeno Heraldo apresentava-se como o de melhor gênio. Sorridente, cativava as pessoas com um olhar. Cresceu sempre amigo, alegre e comunicativo. Nas peladas era dos primeiros a ser escolhido. Muitos o aconselhavam a seguir carreira de jogador de futebol, mas, com problemas sucessivos no joelho, teve de abandonar a bola. Mesmo assim, seria diretor do Mangueira Futebol Clube, um dos melhores clubes da região. Magro, 1,78 metro, olhos negros como os cabelos, também se formaria em direito no Rio, mas para voltar e trabalhar em sua terra.

 

Oscar seria outro a desistir do futebol, apesar do dom. Quatro anos mais velho que Heleno, foi a criança mais pacata, tranquila, da casa. Sossegado, para não dizer fechado, só se rebelava quando, jovem, o chamavam de Oscarito – personagem que fazia sucesso em peças e filmes. Com olhos claros, cabelos lisos e 72 quilos satisfatoriamente distribuídos por 1,75 metro, formar-se-ia na Faculdade de Odontologia, na Urca, montando em seguida um consultório na avenida Nossa Senhora de Copacabana, esquina com Joaquim Nabuco. Determinado a construir família e apaixonado, firmaria matrimônio com Irene Ramos, dando-lhe como o maior presente o sobrenome Freitas.

 

Sobrenome que herdara de nascença Vera Maria, a caçula. Morena alta, de cabelos lisos, pele branca, aparência europeia, simpática e com tendência para engordar, tinha uma beleza quer lhe valia o corpo sempre inconstante. Adulta, ao ser desposada Vera Maria não trocou os deveres de funcionária pública – trabalhava no IBGE, também na Urca – pelas tarefas do lar.

 

Antes de Vera, dando uma pequena volta na história, naquele segundo mês de 1920, veio ao mundo Heleno. Dentre todos, quem possuía os olhos mais brilhantes, cheios de vida. Ao mesmo tempo, disparado, o mais tímido, mais introvertido. E paradoxalmente, o mais exaltado, como assegura sua prima Ema Zágari, filha de Maria de Freitas:

 

- Ele defendia os mais jovens, aprontava a maior confusão, se irritando com o que não achava certo. Desde pequeno foi assim.

 

 

Todos os irmãos eram muito queridos na cidade. Apontados como os mais bonitos e bem cuidados da região, foram sempre tratados a pão-de-ló pelo pai e pela mãe, cada vez mais gorda, bochechuda, olhos carregados. Apesar da idade, Dona Miquita não se descuidava de apresentar-se sempre bem-vestida. Colecionava turbantes, mas não era de ostentar. Dona de um sorriso sincero, sua alegria de viver começava e acabava dentro de casa, onde passava horas contando historias para os pimpolhos, e onde, com o passar dos anos, acolhia com educação e delicadeza os amiguinhos que seus meninos diariamente convidavam.

 

Não achava Dona Miquita que carinho demais podia atrapalhar a formação dos rebentos. Quanto a Heleno, por exemplo, o mimo era tanto que a matriarca o queria sempre limpinho, arrumadinho, engomadinho. Heleno pouco brincava no chão, como qualquer guri, fosse de bola de gude ou pião, temendo se sujar. Seu negócio era pique e corda de pular. Aos 6 anos começou a demonstrar notável interesse pela leitura. Ficava horas se entretendo com livros e coleções, sozinho, encantado.

 

Criança desconfiada, ansiosa, o pequeno Heleno temia cometer atos ridículos. Perturbava-se, por exemplo, quando um brinquedo se quebrava. Era como se tudo estivesse perdido. Ficava agitado, impaciente. Mas era um mundo de felicidade e confiança quando se mostrava capaz de desempenhar sozinho qualquer tarefa solicitada, principalmente se o êxito viesse acompanhado dos honestos elogios dos adultos amigos de seu pai. Os de fora o tinham como muito agradável. Arrebatando-os com deliciosas gargalhadas, seu caharme joveil conquistava qualquer um.

 

No café-da-manhã, porém, irritava-se no copo de leite enxergasse vestígios de nata. Criado com regalias e fartura, os pais prometiam qualquer coisa que lhe interrompesse o pranto desconsolado. Seu Oscar era bastante amoroso – instituía a disciplina, não o castigo, enquanto sua mãe apoiava-lhe as tendências. Na profissão que optasse, daria a maior força. Desde que escolhesse entre ser médico ou advogado.

 

O problema é que, entre os irmãos, Heleno sempre foi o mais vidrado em futebol. Durante sua infância o esporte bretão tornou-se sucesso popular no país. Embora pretendesse seguir o roteiro dos irmãos, formando-se no Rio, Heleno não desgrudava da redonda. Na cidade, havia um escalvado improvisado de campo, desmarcado por quatro escadas, onde, entre pedras e buracos, chutou sua primeira bola, feita com meias de mulher, que perdia depressa a forma, ainda mais com todos a lutarem por ela ao mesmo tempo. Ás vezes, podia ser encontrado ali, até porque gostava de pesar lambari num córrego próximo. Juntava o útil ao agradável.

 

Tinha muito intimidade com a pelota tanto em campos duros quanto nos de terra batida. Não tardou a treinar no Mangueira, sendo dirigido pelo mano Heraldo, um dos atletas do time de cima. O clube era o principal da região; o maior rival do Botafogo e Operário locais. Aos 7 anos, atuando entre os mais velhos, Heleno já cavava seu espaço. Da reserva ao infantil, rapidamente se tornou titular. Ao contrário do que pregaria mais tarde o “Príncipe Etíope” Didi, para Heleno treino não era treino, era jogo – e de vida ou morte.

 

Disputava cada lance como se estivesse numa guerra; vencer era uma questão de honra. Invariavelmente arrumava encrenca. Uma vez Heraldo decidiu expulsá-lo, para repreendê-lo, impor limite. Altivo, gênio forte, Heleno recusou-se a sair. Para reforçar sua autoridade, Heraldo o arrastou pelo campo do meio à lateral e, como irmão ainda resistia, dirigiu o restante do treino a segurá-lo com o pé sobre seu pescoço.

 

O infantil do Mangueira logo se transformou na mais temida equipe da região. Por contar com Heleno. Segundo seu vizinho Renê Mendonça, o jogador se enfezava com tudo, embora não guardasse rancor:

 

- Vi Heleno no começo de carreira, jogando pelo Mangueira. Jogava o fino, de half-esquerdo, half-direito, onde fosse. Mas a qualquer momento podia se tornar intolerável. Que foi que deu na sua telha, Heleno? Se quer respondia. Num piscar de olhos, transformava-se no sujeito mais desagradável do mundo.

 

Companheiro de Heleno no Grupo Escolar, a melhor escola pública da região, Renê sentia que o guri tinha um quê de especial. Além de compor músicas e jogar muita bola, era quem melhor se apresentava na sala de aula e na igreja – a mãe sempre tentou encaminhá-lo, tanto que Heleno confessava e comungava -, apesar de, algumas vezes, zangar-se por qualquer contrariedade.

 

Como na hora das refeições. Heleno dava bastante trabalho à Dona Miquita, pois agora seu feijão não podia ter casca, o arroz não podia estar molhado e o bife, como ele, sempre fino e sem gordura. E nada, nada de cebola. Tinha alergia e nojo.

 

Apesar das idiossincrasias, sempre foi o mais querido da mãe e aquele em quem o pai depositava as maiores esperanças. O velho Oscar queria que se tornasse um doutor, de anel e diploma, ou general como Floriano Peixoto, valente e patriota. Heleno pensava da mesma forma. Jogar bola era bastante divertido, mas ser advogado era seu grande sonho.

 

 

Por volta dos oito anos, em casa, com a sala repleta de visitas – os velhos e sisudos amigos do pai - , Heleno erguia atrevidamente sua voz infantil às alturas defendendo tese. Falava, com olhar de indignação, das futuras condenações inexoráveis que aplicaria aos mais tórridos criminosos. Fossem eles ricos e tentasse suborna-lo, dizia:

 

- Eu lhes cuspiria as ventas e as condenações seriam perpétuas!

 

Nessa parte foi interrompido pelo pastor Clementino, presente à reunião. Procurando acalmar seu espírito conflitante, o religioso só lhe fez crescer a raiva. Ao denunciar o feio pecado de escarrar a face de um irmão...

 

- Considerar criminoso meu irmão – replicou, na hora, Heleno. – Ah, isso, nunca!

 

Disse-lhe isso e botou as mãos nos bolsos. Lançou em torno e notou que os velhos senhores, amigos do pai, sorriam a bastar daquilo que o sacerdote fora obrigado a escutar.

 

- Se todos os advogados tivessem a mentalidade do pastor Clementino – discursava Heleno -, não repelindo subornos nem cuspindo no rosto de quem os propusera, os pobres e oprimidos teriam de clamar pela justiça divina, porque clamar pela justiça da erra é que não podiam, ou, se clamassem, não arranjariam nem para o café -concluiu, insolente.

 

Palavras tais, argumentos expostos por um menino que beirava os 9 anos, causaram impacto. Aqueles respeitáveis fidalgos foram a seu encontro, apertaram-lhe a mão e teceram elogios à sua personalidade. Heleno chegou a ser comparado a Cícero.

 

- Não, talvez ne Cícero fosse tão eloquente na sua idade – comentou, amável, um velhinho.

 

O elogio motivou Heleno a permanecer insensível perante o pastor. Quando deixou a sala, vangloriado pelos aplausos que recebera, um turbilhão de imagens tomou-lhe a mente. Viu-se crescido, advogado famoso. Projetou um futuro de sucesso e glória.

 

 

Da infância Heleno não esquecia da primeira vez que entrou em um circo. Nada o maravilhara mais que o trapezista – e sua coragem dar o salto da morte. Os ouros personagens do espetáculo se apresentaram a seus olhos como “míseros fósforos apagados”, diria anos mais tarde. Quando o anfiteatro se despediu da cidade, foi tomado por cólera. Até matutar uma solução que lhe aplacasse a ira. A ideia luminosa: inaugurar com os irmãos e alguns amigos um novo picadeiro. Em casa.

 

Com a permissão dos pais, chegava o dia da estreia. A garotada toda da região se juntou para ver o acontecimento. Seu lar, um formigueiro humano. Ninguém faltou. Lá estavam, novamente, o pastor Clementino e sua senhora, e, principalmente, Margarida, a filha de seu professor no primário.

 

Embora menina, Margarida se enquadrava perfeitamente no tipo “mulher fatal”. Lançava olhares ora doces ora vampirescos. Namorava três ao mesmo tempo. Certa tarde, numa tentativa desesperada e inútil, Heleno foi procura-la, com sua autoridade de futuro advogado, para conduzi-la ao “caminho do bem”. Traduzindo: foi rogar que deixasse em paz aqueles três corações sofredores, três meninos que não tinham mais vontade de estudar, muito menos de aparecer em campo para defender as cores do Mangueira.

 

Primeiramente, Margarida riu do pobre coitado. Depois o percebeu melhor; começou a se insinuar. Recitou que jogava tanto, fazia composições tão bonitas, dançava tão bem nos bailes do Democráticos...Falava tudo sorrindo, meio envergonhada, soltando olhares cálidos, inquietantes. Acabou conquistando-. Tornou Heleno sua quarta e mais bela vítima.

           

Quanto ao circo, as exibições foram abertas com Heleno no papel principal. O primeiro número do espetáculo era, justamente, o salto da morte – por ele desastrosamente encerrado. De tão mal executado, quase morreu de verdade. Quebrou a cabeça, machucou a clavícula, teve de tomar 123 pontos na coxa e, como o corte da perna infeccionou, passou um mês de cama. Em compensação, todo dia Margarida visitava-o, como se fosse enfermeira. Quando ele gemia, ela o beijava. Talvez intuindo a tal lei de Skinner – estímulo/resposta -, Heleno passou a gemer sempre.

 

A alegria terminou com a morte prematura do pai, aos 46 anos, em 11 de novembro de 1931. Oscar foi levado por uma pneumonia que, à época, era praticamente fatal, devido à falta de antibióticos. A família pôs luto por quase meio ano:

 

- Nem brincamos carnaval três meses depois – conta Ema Zàgari.

 

O medo de seus impulsos agressivos, combinados com o conhecimento da morte como algo real, próximo, causou em Heleno insônia, madrugadas mal dormidas. Chegaria a trocar o dia pela noite. Pelo menos, lia bastante durante as horas de vigília.

 

O forte golpe da perda do marido fez que Dona Maria Rita agisse. Após dois anos vivendo em Barbacena, onde Heleno cursou a primeira e segunda séries do Ginásio Mineiro, a matrona mudou radicalmente o destino dos Freitas. Com Rômulo a cantar e decantar as vantagens do Rio de Janeiro, vendeu, em junho de 1933, a casa e os negócios da família para que toda a prole tentasse a sorte na capital federal.

 

Publicado originalmente em NEVES, Marcos Eduardo. Nunca houve um homem como Heleno. Rio de Janeiro: Ediouro, 2006.

 

segunda-feira, 17 de julho de 2023

Histórias de Heleno de Freitas, parte I de III: Gilda!

 

Capítulo I: 1947- Gilda!

 


Por Marcos Eduardo Neves

 

Adentrou o gramado o Fluminense, perfilando-se defronte às sociais. Seus atletas foram aplaudidos com frenesi. O Botafogo, ao fim do trote, tomou a tradicional chuva de vaias. Fazia parte do espetáculo.

 

Heleno de Freitas, o ídolo da massa alvinegra, batia bola para se aquecer. A aristocrática social de Álvaro Chaves, não o perdoava, xingando-o sem cessar sempre que por lá pisava os pés. Afinal, jogara na base tricolor, era um “traidor”. O centroavante, titular da seleção brasileira, seguia tranquilamente se exercitando. E com um quê de narcisismo. Bem ou mal, adorava ser reconhecido.

 

Quando o Botafogo saía da casa para enfrentar times pequenos, os zagueiros o cutucavam:

 

- Lá vem o “viadinho” de Copacabana.

 

Tudo porque deixava o vestiário com as pernas brilhando da massagem de aquecimento, encharcadas de óleo. E um penteado à base de gomalina que, aliado à beleza física, dava-lhe um ar de Rodolfo Valentino de chuteiras. Era uma vedete.

 

Ao dar o pontapé inicial, rolando para Otávio, Heleno escutou um grito diferente:

 

- Gilda!

 

Reconheceu a voz – era um amigo seu, tricolor, do “Clube dos Cafajestes” -, sorriu, aceitou o desafio.

 

Começava o jogo.

 

Aquele berro despertou a argúcia da torcida pó-de-arroz, a do Fluminense, assim chamada com desdém pelas massas rivais por causa de seu perfil aristocrático. Gilda remetia à personagem de Rita Hayworth no filme homônimo de Charles Vidor, que estreara cinco dias antes na cidade. Não havia apelido melhor. Gilda era uma linda, glamourosa e temperamental mulher. Capaz de derrubar homens cantando e jogando suas luvas para eles. Atributos que se encaixavam, exceto pelas luvas e melodias, com Heleno de Freitas de forma perfeita. Não tardou em virar coro da multidão.

 

- Gilda! Gilda! Gilda! – os torcedores do time da casa já começavam a incomodar. Heleno não podia pegar na bola que escutava a saudação. Começava a ser travada uma espécie de guerra psicológica, que, embora tentasse disfarçar, o desestabilizava emocionalmente.

 

Corajoso, impetuoso, Heleno seguia lutando, louco para fazer um gol. Quando errava um chute, não escapava da gozação:

 

- Gilda! Gilda! Gilda! – a massa se divertida, aliviava o espírito.

 

Sujo, no empurra-empurra da área, nos escanteios, segurava os colhões de adversários, artimanha que aprendera com os argentinos:

 

- Gilda ! Gilda! Gilda !

 

Num lance, atracou-se com o meia Orlando Pingo de Ouro:

 

- Gilda! Gilda! Gilda!

 

Assim que o juiz Mario Vianna virou as costas para os dois, Orlando deu uma cotovelada em Heleno. Insaciável, o goleador alvinegro se vingou sem medir consequências. Com força diabólica, arrancou o cordão do pescoço dele.

 

- Gilda! Gilda! Gilda!

 

A torcida teimava em não se calar. Nas arquibancadas e sociais, uma festa só. Ainda mais com o resultado, nitidamente, dando certo. Ainda que o Botafogo estivesse vencendo, Heleno estava a um passo da insalubridade. Maliciosos, o teste psicológico perduraria por todo o segundo tempo.

 

Heleno se martirizava a cada “Gilda!”. As provações miravam-lhe mais e mais os nervos já desgastados. E não era só “Gilda!”. Marchinha de carnaval da época, o público esgoelava-se cantando “Helena, Helena, vem me consolar!”, música de Antonio Almeida. O centroavante reagia. Ou correndo até a lateral do campo para ensaiar passos de Carnaval, ou distribuindo “bananas” para as arquibancadas.

 

- Escandalosa! – berrava um ou outro. Mas “Gilda! Gilda! Gilda!” era o som que tomava conta do ambiente. E de seu espírito atormentado.

 

O ídolo reagiria de forma agressiva. Agressiva e pornográfica. Sabendo que a alta burguesia das Laranjeiras concentrava nas cadeiras várias senhoras de família, Heleno fez que ia mostrar a genitália para as sociais.

 

- Uh! Cafajeste! – respondiam. E tacavam veneno, em perfeita sincronia: - Gilda! Gilda! Gilda!

 

“Houve um instante em que a torcida tricolor gritou com toas as suas forças: ‘Gilda! Gilda!’. Heleno olhou o placar, meditou, e só depois de concluir a jogada colocou o indicador e o médio em V, como que antecipando a conquista do segundo gol. E teve sorte, porque Teixeirinha fez o segundo”.

 

O Botafogo ganhou de 2 X 1. O outro gol foi assinalado por Geninho. Ironizando os tricolores – fez sinais de que espalhava pó-de-arroz pelo rosto -, Heleno de Freitas, a melhor figura em campo, saiu de campo nos ombros da torcida.

 

Duas semanas depois, o astro viveu o mais memorável dia de sua carreira. Na última partida do turno, 12 de outubro de 1947, o estádio da rua General Severiano ficou pequeno para Botafogo e América. Foi um jogo fantástico. Incansável, destemido, Heleno fez dois belos gols. Era um virtuose da pelota. Na metade do segundo tempo o Glorioso se acomodou, permitindo que o time rubro crescesse e surpreendentemente, empatasse. O pior estava por vir. O goleiro Ary Nogueira César tomou uma bolada na cabeça e desmaiou. Como o médico não conseguiu reanimá-lo, teve de deixar o campo. O zagueiro Gérson dos Santos passou a tomar conta das traves. Qualquer chute a gol era um golpe de emoção nos corações botafoguenses.

 

Com a igualdade no marcador, Heleno teve uma crise de nervos. Friamente, buscou a bola nas redes e a levou ao meio, mas o que se viu no restante do jogo foi um atacante alucinado. Gesticulava sem parar, incitava os companheiros, xingava Deus e o mundo. Revoltado, o treinador Ondino Vieira chegou perto dele numa jogada colada à linha e gritou:

 

- Continue assim que eu vou te responsabilizar pelo placar!

 

Heleno retribuiu com um olhar cheio de ódio. De repente, começou a fazer misérias em campo. Numa investida, sozinho com a bola dominada, quase marcou seu terceiro. Aproximava-se o final do jogo e os zagueiros americanos não desgrudavam do artilheiro.

 

“Mas veio uma bola alta na área e Heleno saiu do chão como um bailarino clássico, leve, macio, fácil, como se tivesse asas...Ninguém pôde impedir que ele mandasse a bola de cabeça para um companheiro, que a devolveu alta. Na corrida, um salto de Heleno e cabeçada magistral no canto. Então, houve outro milagre e o goleiro Osni voou, e com a ponta dos dedos, pôs a corner. Aí só faltavam agarrar Heleno e amarrá-lo.

 

“Devia faltar um ou dois minutos. Heleno fingiu desinteresse no corner e saiu da área para amarrar as chuteiras. Todos os zagueiros se preocupavam então com Nílton, half forte e alto, bom cabeceador. Todos pularam sobre Nílton, que deixou a bola passar. Heleno entrou na área como um tufão e a bola foi limpinha para ele. Osni subiu de braços abertos, mas Heleno, lá no alto, deu com a testa na esfera e a mandou ao chão, bem no cantinho atrás dele. Nem sei como pôde fazer isso”, escreveu, estupefato, o presidente da Federação Metropolitana de Futebol – e sobrinho de Getúlio – Vargas Neto, colunista do Jornal dos Sports.

 

Narrando a partida pela Rádio Globo, Luiz Mendes se recorda que, depois de seu terceiro gol no jogo, Heleno deu um pique até Ondino e vociferou:

 

- Agora, seu gringo filho-da-puta, quero ver você me responsabilizar!

 

O árbitro apitou o fim da batalha. Botafogo 3 X 2. Imediatamente os companheiros e Alvinegro o carregaram em triunfo. Era normal que torcedores, enlouquecidos, invadissem o campo e suspendessem seus heróis nos ombros. Mas os próprios jogadores, era um fato novo. Uma prova de que era mesmo diferente. De que nunca houve um homem como Heleno.

 

Publicado originalmente em NEVES, Marcos Eduardo. Nunca houve um homem como Heleno. Rio de Janeiro: Ediouro, 2006.

sexta-feira, 8 de abril de 2022

Por Dentro do Cinema Novo, minha viagem por Paulo César Saraceni, capítulo 3: Filmando Arraial

Capítulo 3: Filmando Arraial

 



Por Paulo César Saraceni

 

Imagine quando entrarem as pistas de som, o diálogo, o ruído e a música! Vai ser melhor ainda nos outros filmes falados.

 

A sedução pela nuca de Silvinha e a lua mágica no Jardim de Alá, no final do filme, eram pedaços do cinema que eu queria percorrer. Cineasta é aquele que faz filme, foi o que descobri! Só fazendo é que a gente saberá se ele é bom ou não. Quando estava em fase de finalização de Caminhos, encontrei-me com Gláuber Rocha. Foi numa noite em que eu e Ana Letícia passávamos pelo Alcazar para encontrar Aluísio Magalhães e Albino Pinheiro. Ouvi os chamados meio debochados de dentro do bar, numa mesa de fundo, e vi Miguel Borges e Carlos Pérez que conversaram com um jovem desconheci. Fui até lá e me apresentaram a Gláuber Rocha, eu nunca tinha ouvido falar dele...Ele me disse que era cineasta baiano e me pediu meu telefone. Não gostei do Miguel e do Pérez, pois eles deviam estar fazendo fofocas com meu nome. Anos depois, Gláuber escreve, no seu genial livro Revolução do Cinema Novo, que Miguel e Pérez disseram que eu era um babaca que gostava de Fellini – até nem gosto tanto assim, o quente, para mim é Rossellini, mas gostar dos filmes de Fellini não é tanta babaquice assim.

 

Eles continuavam no mundo e ainda não tinha feito nenhum filme – babacas eram eles! Miguel Borges depois fez um ótimo curta sobre o café, Carlos Pérez parece que ajudou muito, mais tarde, Arraial do Cabo no Itamarari, onde faz carreira.


Dia seguinte Gláuber me telefonou e disse que queria ser meu amigo, que eu era o único que tinha feito um filme, tinha dado, como ele, o salto da teoria para a prática. Gostei, fui ao encontro de Gláuber, nos tornamos grandes amigos. Os dois filmes, o meu e o dele, usavam montando o negativo com o Sousa, que tinha uma moviola 16mm, numa vila ao lado da Líder em Botafogo. Começos juntos a frequentar o bar em frente à Líder, que era um botequim mas com ótimo chope, e trocamos muitas ideias e confidências. Eu via Gláuber todos os dias, e estava espantado e surpreendido. Baiano do sertão, meio Riobaldo, meio Diadorim, de Vitória da Conquista, e sabia tudo. Radical e violento na sua revolução, que era doce e brasileira. Protestante, contestava a sociedade e o regime com vigor, e bom caráter, Tinha ideias geniais. Um dia, logo depois de nos conhecermos, senti que Gláuber era genial. Quando ele voltou para a Bahia, me deu muitas saudades e muita raiva também, quando seu filme passou e foi gozado pelo pessoal. Cláudio Melo e Sousa disse que era avant-garde baiana. Eu achei ótimo o filme, era meio concretista, ou neoconcretista, nunca percebi a diferença. Sabia apenas que um movimento, o concretista, era paulista, o outro era carioca, mas era a mesma coisa, o de São Paulo tinha mais consistência e o do Rio mais bossa. Mas era a mesma coisa.

 

No Rio, Reinaldo Jardim organizava e dirigia o suplemento literário dominical do Jornal do Brasil com muito sucesso, transgressão e talento. Em São Paulo, o movimento concretista tinha os irmãos Campos e era mais literário, com as traduções de textos estrangeiros, da melhor poesia e seriedade. No Rio, Mário Pedrosa era crítico de artes plásticas, Ferreira Gullar também, logo, o movimento neoconcretista era melhor na escultura, pintura e gravura...Mas havia um grande poeta, Mário Faustino.

 

Pátio, além de revelar um diretor muito talentoso, revelava também uma atriz que iria fazer a cabeça de muitos jovens cineastas: Helena Inês. Naquele tempo, ela era noiva do diretor. Gláuber era jovem, contestador, anárquico e investia numa nova linguagem de mise-en-scène cinematográfica, baseada nas muitas festas religiosas do povo baiano. Quem não via era porque não queria mesmo ver. Já Caminhos teve boa acolhida, ou entre a geração mais velha, que tinha vivido o cinema mudo, ou aqueles como Lígia Clark, Jean Bouguit e Hélio Oiticica, que queriam o supermodernismo, o sentimento de realidade que não necessitasse de nenhum limite, como a moldura, ou a tela. Filme que rompesse a tela. Joaquim Pedro e Leon Hirszman não gostaram, mas acharam que demonstrava que fazer um filme não era assim bicho-de-sete-cabeças. Joaquim começou a pensar num filme de 35mm sobre Manuel Bandeira, que era, inclusive, seu padrinho, e um outro sobre Gilberto Freyre. Leon animou-se muito. Na ausência de Gláuber, eu andava mais com Joaquim e Leon, e já pensávamos num movimento de cinema.

 

Naquele tempo, a cultura do Rio aproveitava o alto astral de JK, com Brasília já uma realidade, a Bossa Nova em grande explosão de talento e o Suplemento Dominical do JB (SDJB) informando e revelando os movimentos. A gravura brasileira estava no seu maior brilho. Eu namorava a gravadora Ana Letícia, que trabalhava muito as suas gravuras, mas também abria o leque de informações para todos os gravadores. Havia muita correlação entre as artes.

 

Eu era amigo de Ghigia e Climene, Mele, Edson Machado, Tom Jobim, Sérgio Mendes, Maciel, todos os músicos do Beco das Garrafas, e também dos pintores e gravadores. Ana Letícia me apresentou a Goeldi e fiquei fascinado pelo mestre. Apresentou-me a Iberê Camargo, Milton da Costa, Newton Cavalcanti, Ferdy Carneiro e Fernando Campos, que me apresentou a Rogério Duarte.

 

Vivia-se na Zona Sul do Rio como se fosse a Montmartre no século passado.

 

Todos os domingos havia a festa de Maria Clara Machado, que morava com seu pai, o escritor Aníbal Machado, autor de João Ternura e do conto “A morte da porta-estandarte”, na praça Nossa Senhora da Paz. E nessas festas tinha gente de teatro, cinema, televisão, pintura, gravura, escultura, arquitetura, literatura, dança e música. Havia também jovens empresários. Nada melhor para espelhar esta formidável efervescência cultural dos fins dos anos 50.

 

Aluísio Magalhães deixara um pouco de lado a pintura e convocava os artistas plásticos para fazer uma “Bauhaus” no morro do Leme, na Ladeira Ary Barroso. Nesse ateliê, Aluísio e seus artistas iam mudando os gostos dos empresários. Tudo caminhava junto, unido, no desenho industrial do tempo de JK.

 

Foi nesse ambiente que conheci Mário Carneiro, nesse ambiente em que o MAM fazia exposições de pintura, do que havia de melhor em termos internacionais. Na Cinemateca, grandes filmes. Vinícius, Tom e João Gilberto encantavam. Até Palma de Ouro em Cannes para uma adaptação de uma peça de Vinícius, Orfeu do carnaval, de Marcel Camus, que ganharam graças á nova música brasileira. Enquanto isso, surgia o movimento dos grupos novos de teatro de São Paulo, que faziam e encenavam peças politicamente empenhadas na realidade socioeconômica do país.

 

Mário Carneiro é filho de Paulo Carneiro, cineasta e embaixador do Brasil na Unesco, e da dona Corina. Tinha uma irmã, Beatriz, a Titise, e, em 1959, morava em Copacabana. Era arquiteto, poeta, pintor, gravador e fazia filmes em 16mm. Vi os filmes de Mário Carneiro. A boneca me impressionou muito. Havia também as tomadas de sua namorada Sará num balanço de quintal de um sítio em Itaipava. Vi logo que estava diante de um cineasta com um raro talento de iluminador e enquadramento. Mário era boêmio e bebia bem. Conversamos muito sobre o Brasil, política, arte e cinema. Mário era de família – por parte de pai e de mãe – positivista. Paulo Carneiro fundara em Paris o Museu Augusto Comte. Mais uma vez, assim como com Paulo Emílio, os brasileiros sabiam mais do que os próprios franceses sobre sua vasta cultura. Combinamos fazer um filme sobre a obra de Goeldi. Mário, como era gravador, também amava Goeldi, e topou logo. Fiquei de armar a produção e telefonar. Ou irmos ao ateliê de Goeldi ver seu material e conversar com o mestre.

 

Ferdy Carneiro, pintor, cenógrafo e homem de cultura, era mineiro de Ubá. Ele e Ghigia foram convidados para decorar um clube em Ubá para a festa de carnaval. Ferdy convidou a mim e Albino Pinheiro, que sempre foi ligado à trupo de ex-alunos do Liceu Francês. Fizemos uma turma e alugamos uma lotação. Estávamos num porre que dava gosto. Já na viagem, vomitei em cima da própria mulher que eu estava paquerando. Muito lança-perfume rolando. Havia os amigos de Ferdy, o Gérson com sua mulher, o Toni que era italiano casado com brasileira e filhos. Amigas de Climene, mulher de Ghigia, o Jaquito Maidante, o Sérgio Cherques, Zé Rui Dutra. Éramos mais de vinte. Levei Cláudio Melo e Sousa, que estava com dor de corno de Sará, que namorava o Joaquim e o Mário Carneiro. Um poeta, um pintor e um cineasta, Sará estava com tudo e era professora de física e craque em matemática. Todos tinham curiosidade de saber a razão do seu sucesso, nesse tempo.


A família enorme de Ferdy era um bando de mineiros maravilhosos. Acolhedores, cordiais. Comia-se e bebia-se muito bem. Uma cachaça de primeira.

 

Num dia de porre homérico, acabamos no puteiro de Ubá, onde Cláudio Melo e Sousa virou a barata de Kafka no meio do salão e eu, depois de uma prise, pulei um muro enorme e acabei nos braços de uma mulher que achava que eu era o filho dela. Quando me livrei da mulher, já era aurora e as ruas estavam desertas...o Cláudio sentado no paralelepípedo, me esperando e cobrando que em Caminhos eu dizia que só se pode fazer amor com amor. “Porra, Cláudio, não me cobre nada, nem eu sei mais onde podem ir meu tesão ou minha imaginação, mas o certo é que o danado do lança...”

 

No baile, fizemos parte de um júri que escolheria a melhor fantasia. O porre era tão grande que escolhemos uma garota loura, que estava fantasiada de melindrosa igual a umas trinta garotas na festa e, além do mais, a escolhida era carioca em visita a Ubá. Entramos numa porrada monumental. Acabamos todo num xadrez, todos fantasiados a caráter. Presidiários.

 

Em Ubá, víamos a banda quer seria modelo para a Banda de Ipanema.

 

No Rio, uma surpresa: Gláuber chegara com sua noiva e atriz Helena Inês.

 

Muitas festas. Gláuber avançara na ideia do movimento, tinha marcado uma seção de Pátio e Caminhos para o movimento neoconcretista e o SDJB, na casa de Lígia Pape. Na noite marcada, todo mundo presente. Mário Pedrosa e sua filha Vera, linda e poeta, Lígia Clark, Jean Bouguit, Décio Vieira, Ferreira Gullar, Amílcar de Castro, Hélio Oiticica, Reinaldo Jardim. Durante a exibição, eu e Gláuber entornamos vários copos de gim puro sem gelo. No final, muita polêmica entre os dois grupos formados: um preferia Pátio; o outro, Caminhos.


Reinaldo Jardim gostou dos filmes e da seção, com a polêmica que causou, e nos convidou para lançar o movimento no SDJB, fazendo um manifesto. Gláuber tinha escrito antes um belíssimo artigo sobre Visconti. Seu texto era forte e continha uma violência revolucionária que não encontrava em ninguém no grupo, mas ele achou que deveríamos falar com Miguel Borges para redigir o Manifesto. Esperamos o texto de Miguel com muita ansiedade. A reunião seria na Alcazar, muito frequentado por nós naquele ano de 1959.

 

Joaquim Pedro estava afastado, preparando com muito cuidado seu filme de estreia. Marco Faria, apesar de preparar O maquinista, compareceu e participou, Leon Hirszman também, além do Saulo, o Mário Jacques e o Carlos Pérez.

 

Eu estava preocupado, queríamos fazer um manifesto que rompesse com tudo que estava acontecendo no Brasil em matéria de cinema. Queríamos um manifesto comum a todos, mas achava que não estávamos preparados para isso. Havia discordância política e estética. Mas eu queria esse manifesto, achava que o cinema brasileiro precisava dele. Eu e Gláuber já tínhamos feito os nossos filmes, o pessoal da revista Metropolitano, Cacá Diegues e David Neves, que moravam na rua da Matriz, em Botafogo, e estudavam na PUC, com Fernando Duarte e Paulo Perdigão, também tinham feito um filme, Domingo. Joaquim Pedro estava se preparando para filmar, e Marco Faria também. Tínhamos uma página prometida no suplemento cultural de maior sucesso no Brasil. Não dava para esperar mais, íamos tentar.

 

Somos poucos agora, mas, lançado o manifesto, muita gente vai estar dentro do movimento, o Mário Carneiro, o Fernando Campos, o Rogério Duarte, o pessoal de São Paulo, sei lá, o Brasil inteiro – eu pensava.

 

Onze horas da noite estávamos no Alcazar, esperando o texto de Miguel Borges. Havia um ar de coisa histórica. Miguel Borges começou:

 

- Não queremos mais cinema-literatura. Não queremos mais cinema-escultura. Não queremos mais cinema-música. Não queremos mais cinema-dança. Não queremos mais cinema-teatro. Queremos cinema-cinema.

 

Aí, eu pulei – todos estávamos espantados com um começo de manifesto que pretendia reinaugurar o cinema brasileiro. Aquilo era ridículo.

 

- Vamos ouvir o fim do Manifesto – gritavam.

 

- Não quero ouvir mais nada – eu disse. – Isto é manifesto dos anos 20, do cinema mudo. Pretensioso, nem Eisenstein assinaria. Ridículo. Parece o filho pedindo para o pai: quero uma bola. Não uma bola de futebol, não uma bola de basquetebol, não uma bola de vôlei, não uma bola de polo aquático, não uma bola de tênis, não uma bola de bilhar, não uma bola de pingue-pongue. Quero uma bola-bola!

 

Aí, o pau comeu, todo mundo falava ao mesmo tempo. Gritávamos. Miguel não quis ler mais o manifesto. Virou piada. Ficou conhecido como o Manifesto Bola-Bola. O movimento nasceu em 1959 com um manifesto frustrado.

 

Gláuber Rocha, escrevendo para a revista Senhor, disse que o específico filme era mulher e encerrou o assunto do cinema mudo.


Miguel fez seu pequeno filme mudo sobre o café, que era vigoroso e revelava um diretor de cinema. Esqueceu o “cinema-cinema”. Fez cinema.

 

Joaquim Pedro fez seus filmes O poeta do Castelo e O mestre de Apicucos. Assisti ás primeiras filmagens sobre Manuel Bandeira e quase morri de rir. Filmavam no Beco do Castelo, onde morava o poeta, glória maior da nossa poesia. Ali perto da Maison de France e da Faculdade de Filosofia. Joaquim tratava o poeta com o maior cuidado e carinho. Manuel Bandeira estava idoso e tossia muito. Na sua infância e adolescência, tinha sido tuberculoso, o que deve ter deixado marcas no seu corpo frágil. Joaquim, usando seu assistente de direção, Domingos de Oliveira, como dublê de Bandeira, ensaiou bastante. Câmera pronta. Manuel Bandeira devia aparecer em quadro, saindo do prédio onde morava, e caminhar. A câmera fazia panorâmica e acompanhava-o até o bar, onde todas as manhãs ele comprava leite e pão.

 

Começa a rodar. Joaquim grita câmera, ação! Manuel começa a aparecer e caminhar, panorâmica, aí aparece um fio que entra no enquadramento. O câmera grita olha o fio! Joaquim: corta! E vai pedir mil desculpas ao Bandeira. A equipe amarra bem o fio, mas por três vezes o fio se solta e Joaquim tem que cortar. Joaquim estava uma fera com a equipe e sem jeito com o Bandeira que, compreensivo, ria. Outros ensaios sem o Bandeira. O fio amaradíssimo, tudo certo. Vamos filmar. Câmera, ação! Manuel Bandeira aparece e caminha, panorâmica, cuidado com o fio, olha o fio, tudo bem. Aí, no fundo do quadro, aparece um cara de bigode. Olha um cara de bigode! Joaquim corta e dá um esporro no cara de bigode, pedindo para ficar atrás da câmera. O cara ficou, ouvindo, risonho, os ensaios sem o Bandeira. Câmera, ação, panorâmica, cuidado com o fio e corta. O campo todo estava policiado, tudo pronto. Chamam Manuel Bandeira para o seu lugar. Vamos filmar.

 

Joaquim diz câmera, o cara de bigode repete câmera. Ação, o do bigode, ação, Bandeira caminhando, Joaquim panorâmica, o cara de bigode panorâmica, Joaquim cuidado com o fio, olha o fio, o cara de bigode repete, cuidado com o fio, olha o fio, tudo certo, o cara, tudo certo. Manuel Bandeira entra finalmente no bar e compra seu leite e pão. Mas o cara de bigode não gostou, ou ficou nervoso com o tempo morto, com a pausa longa e o silêncio, e gritou corta, a câmera parou. Joaquim gritou:

 

- Quem disse corta?

 

A equipe toda:

 

- Foi esse cara de bigode aí.

 

Todos correram atrás do cara, que fugia como louco. Convidei Joaquim para tomar uns tragos. Ele se acalmou, já estava rindo. Voltou a filmar, aquele grande filme em 35mm, e já com uma maestria que iria torna-lo entre nós o de maior sentido de comunicação. O poeta do castelo é um filme carinhoso, pelo personagem e pelo ator, amoroso, um grande começo de uma lindíssima obra. Já O mestre de Apicucos é menos bom. Mas por causa de Gilberto Freyre. Quincas não deu sorte com o autor de Casa-grande & senzala...

 

O maquinista, de Marcos Faria, traz à lembrança Pietro Germi, mas Marcos conhecia bem o trabalho na Central, trabalhava lá e botava para fora seus fantasmas cinematográficos.

 

Agora tínhamos sete filmes: o do Gláuber, o meu, o do Joaquim, o do Cacá, o do Marcos Faria, o do Miguel Borges e A boneca, do Mário Carneiro.

 

Mas nenhuma possibilidade de lançar o Manifesto. Gláuber e Cláudio Melo e Sousa ficaram usando a página de cinema, aberta para todos.

 

Gláuber voltou para a Bahia e eu me senti meio perdido. Minha situação sentimental estava muito confusa. Li no Correio da Manhã que a embaixada e o consulado italianos estavam oferecendo bolsas de estudo para o Centro Sperimentale de Cinema em Roma, eu estava sem dinheiro nenhum e morando novamente com meus pais, no Zacatecas, em Laranjeiras, a embaixada italiana era na esquina da Pereira da Silva com rua das Laranjeiras, a sessenta metros de casa, passei lá e me informaram que eu precisava, além de currículo e do filme, de cartas de apresentação de intelectuais conhecidos. Saí mostrando o Caminhos e pedindo as cartas. Foram seis ótimas cartas: Otávio de Faria, José Sanz, Aníbal Machado, Adolfo Celi, Cirilo Júnior e Pascoal Carlos Magno. Cartas muito elogiosas e simpáticas, que guardo até hoje. Ganhei a bolsa.

 

Eu estava cansado de lavar latas de filme para mostrar aos amigos e aos críticos, e mal sabia que isto seria uma constante na minha vida e na vida do cineasta em geral. As latas de 35mm pesariam muito mais.

 

Eu tinha resolvido viajar. O Brasil estava fervendo, estouravam talentos em cada esquina, mas ainda não havia oportunidade de trabalho no cinema, e eu achava que ia demorar. Estava enganado. José Sanz, que estava namorando Anabelle, linda garota franco-brasileira, (...) , uns 35 menos que ele, me disse que fez a carta para minha bolsa contrariado, porque eu tinha era que ficar no Brasil e lançar o manifesto logo, que seus dois filhos e Anabelle e suas amigas só pensavam em cinema. Em fazer cinema. Até que ele tinha razão, mas achei que faltavam uns dois anos ainda para o cinema ficar bom. Vou viajar. Conhecer a Europa, Paris, Itália, ver filmes bons, aprender. Quando voltar, acho que serei mais útil.

 

Sanz promovia junto com Muniz Viana grandes mostras de cinema e era  verdade que todo mundo estava se ligando em cinema, como arte de qualidade cultural.

 

Mas, naquele tempo, além de Ana Letícia, que continuava na minha vida, um amor platônico, havia as recaídas com Liliane e agora aparecia Silvinha Maconha. Eu era careta naquele tempo, mas me amarrei com Silvinha, uma jovem muito avançada. Tinha conhecido também Elze, uma menina enorme e linda, (...) que depois seria Colassanti e perturbaria a cidade. Não, não dava, eu tinha que viajar. Comecei as despedidas.

 

Mas Sanz era um sujeito infernal. Conhecia cinema demais, e gostava loucamente de cinema brasileiro. Conhecia Humberto Mauro, mas os cineastas que amava eram Mário Peixoto e Lúcio Cardoso. Ele achava que Lúcio era melhor cineasta do que romancista, ou poeta, ou teatrólogo, ou pintor, ou desenhista, tudo genial, mas o melhor mesmo era o cineasta que ele trazia na alma. Mas não queria nem botar calça cumprida, ficava sempre de bermuda, nos bares, aí não dava.

 

Sanz se informava e sintonizava com o mundo todo, lendo todas as revistas importantes e escrevendo e recebendo cartas. Ninguém pegava Sanz numa mentira – apesar da sua fama de mentiroso. Ele tirava dos bolsos de Gide ou de Orson Welles pedindo sugestões para montagens de seus filmes. Ficou famosa a história de Paulo Mendes Campos, grande poeta, contava sobre uma madrugada de porre. Estavam ele, Rubem Braga e Sanz. Deu fome e eles foram ao Lamas; Paulo e Rubem pediram sardinhas portuguesas. Sanz pulou: - Portuguesas? Eu só como sardinhas norueguesas. Porra, Sanz, norueguesas, onde vamos encontrar?, perguntaram. Sanz respondeu que tinha um armário cheio delas no seu quarto. Paulo e Rubem ficaram putos, suspenderam o pedido e levaram Sanz para sua casa à força, para desmascará-lo de vez. Apesar dos protestos de Sanz, dizendo que a Luísa, sua mulher (Luísa Barreto Leite), atriz de teatro e diretora, estava dormindo. Mas Rubem insistiu e Paulo foi levando Sanz pelos braços, até seu quarto. Entraram silenciosamente para não acordar Luísa, e viram Sanz abrir um armário cheio de sardinhas norueguesas.

 

Despeço-me da mesa de Otávio de Faria. Despeço-me de Marcos e Alair e seus amigos, de Guerrerinho, Liliane e seus amigos, de Ana Letícia e de Goeldi. Despeço-me do ateliê de Aluísio Magalhães, com Ghigia, Fernando Campos, Ferdy, Rogério Duarte, Goebels, de Miele e Bossa Nova, dos novos concretistas. Vou partir.

 

Tinha conseguido uma passagem do Lloyd, ia de navio, não tinha dinheiro nenhum para avião. Carlos Couto, que era esgrimista do Fluminense e cineasta e que também fez o Centro Sperimentale de Roma, meu deu uma carta de recomendação para uma senhora que morava na via Rasella, zona central de Roma, e que alugava quartos para estudantes estrangeiros.

 

Estava numa mesa com Marcos Konder e Liginha de Moraes, quando chegou o poeta e antropólogo, amigo de Marcos, Geraldo Markam, que acabara de fazer uma pesquisa em Arraial do Cabo e dizia que eu tinha que filmar aquela pesquisa – com tanto entusiasmo, que me convenceu a conhecer Arraial. Eu disse que estava de viagem, mas ele falou a noite toda de Arraial.

 

Não consegui dormir à noite, de tanto pensar nisso. Telefonei para ele, que marcou um encontro com Maria José, a assessora de dona Heloísa Alberto Torres, diretora do Museu Nacional, que morava na rua Paissandu, em Laranjeiras. Dona Heloísa também morava num prédio grande da rua das palmeirais, a mais bonita do Rio, que vai da praia do Flamengo até a Farani, onde está o prédio branco do Palácio Guanabara. Maria José era muito inteligente e adorou a ideia de filmar em Arraial, comprou a ideia e foi falar com dona Heloísa.

 

Falei com Joaquim Pedro, que continuava na Saga Filmes, a produtora de O poeta de Castelo e O mestre de Apicucos. Gérson Tavares tinha saído, mas Sérgio Montagna continuava e era sócio do Joaquim. Contei-lhe a história do Arrial do Cabo, e ele me disse que produziria o filme caso saísse a tal verba do Museu Nacional. Falei com Mário Carneiro convidando-o a fotografar o filme. Mário disse que nunca tinha visto uma câmera 35. Eu disse: “Não faz mal, você treina na Saga, com Joaquim”. “Não falo com ele” – respondeu Mário. “Então você treina em Arraial”. Mário me perguntou se eu conhecia Arraial, respondi-lhe que não. Ele também não conhecia. Tem tempo, vamos ficar uns tempos com o equipamento e conhecendo o lugar, os habitantes e os peixes, não confio muito nesses antropólogos. O Geraldo Markan queria fazer um filme à Panther Panchali, um filme hindu de Satyayit Ray, muito bom, mas que não tinha nada a ver com o que eu queria fazer, e fiquei a fim de jogar o Markam para córner.

 

Se dona Heloísa estava animada com a ideia do filme, ficou ainda mais quando falei de Joaquim Pedro e Mário Carneiro. Dona Heloísa era amiga e admiradora de doutor Rodrigo de Melo Franco, pai de Joaquim, diretor do Patrimônio Histórico, e de Paulo Carneiro, pai de Mário. A verba que tinha era pouca – para cinema, quase nada -, mas podíamos ficar numa casa do Museu Nacional, na praia dos Anjos, em Arraial. Com o equipamento de Joaquim e Montanha. Os 300 mil vão ser para filme virgem, laboratório, comida, bebida, ninguém ganha nada, só despesas com transporte, telefone etc.

 

Sérgio Montagna dirigiu aquele dinheiro com mão de ferro. Nenhum contrato. Era tudo na palavra, vale o combinado. O Museu do Índio produziu Arraial do Cabo.

 

Dona Heloísa e Maria José queriam um documentário que fosse em 35mm e para ganhar prêmios em festivais internacionais.

 

Eu e o Mário começamos a ir a Arraial. Íamos de ônibus, e uma vez o ônibus enguiçou na estrada e fomos andando na escuridão até encontrar um bar, onde tomamos muito conhaque Dreher e conhecemos um motorista de caminhão genial, que nos deu uma carona até lá. O caminhão também enguiçava, mas ele ia amarrando com barbantes as peças do motor e seguida caminho, sempre alegre. Eu observava tudo, e a realidade de Arraial e dos momentos que vivíamos conduziram o filme. Tinha aprendido com Leon Hirszman tudo sobre a montagem intelectual e de atração de Eisenstein, pretendia usar, pois se tratava de um filme curto para concentrar todas estas pesquisas e a realidade que eu sentia em Arraial. O filme deveria ter 20 ou 25 minutos no máximo, senão o dinheiro não daria para tudo.

 

O motorista os contou que, quando tinha doze anos e estudava, fez um discurso para o presidente Getúlio Vargas. Ele ainda se lembrava do discurso e o repetia, feliz para a gente.

 

Em Arraial e na casa do Museu, que era pequena, mas bem em frente à praia dos Anjos, a principal de Arraial e cenário principal do Arraial do Cabo, passamos três meses de estudo, prazer e criação.

 

Ficamos um mês vivendo a vida dos pescadores do lugar. Checando as pesquisas feitas, fazendo as nossas, o que significava ficar amigo da comunidade, saber os problemas de cada um, saber como tinha sido Arraial sem a fábrica da Álcalis, e como era agora, com ela. Como era o relacionamento deles com os operários, em sua maioria nordestinos. O mar, a pesa, cada vez mais perigosa. O leilão, com a venda dos peixes. O comércio. As mulheres dos pescadores, seus cantos, suas vidas.

 

Acordávamos antes das 4:00h e saíamos para pescar com os pescadores. Ficávamos horas esperando o sinal do guia, que nos avisava da chegada dos peixes. Jogávamos muito futebol na areia da praia. Mário era um bom goleiro e Sérgio Montagna um beque da roça. Eu estava em grande forma, corria o tempo todo, jogava bem e os pescadores gostavam. Fazia boas tabelinhas com o Paulo, um pescador negro que estava sempre rindo com seus dentes maravilhosos. Eu ria muito com o Aníbal, uma fúria jogando. Depois caía n´água e nadava como nos tempos de Fluminense. Montanha tentava me acompanhar, mas não conseguia. Ficamos muito amigos dos pescadores e suas famílias. O amor e a confiança entre nós fazia com que a ideia do filme viesse naturalmente. A espera era o leitmotiv e eu deitava e rolava sobre o tema rosseliniano da espera.

 

O tempo morto, os planos sequenciais e longos. Até o aviso do guia, aí mudava tudo. Era uma correria, subindo nos barcos rapidamente, remando com força, jogando as redes, não podíamos perder um segundo. E aí é que eu pensava na montagem rápida intelectual, e de atração, para contar tudo que observávamos desta pescaria e da vida de Arraial em 25 minutos.

 

Eram barcos pequenos, com sete pescadores cada. Chamavam campanha. E Montanha ficou com vontade de comprar um barco, o leilão era animado e desconfiado. Os compradores chegavam de caminhão, na hora exata, e conseguiam comprar os peixes sempre a um preço menor do que os pescadores queriam e necessitavam. Os peixes estavam ali, onde as mulheres os salgavam e cantavam músicas antigas e tristes. Suas vozes estridentes produziam um som que penetrava em nossas almas. Depois contavam histórias de Arraial. Eu lamentava não ter um bom gravador. Reclamava do Montnaha e da Saga por não ter um Nagra, que um suíço, um tal de Kudelski, tinha inventado: pequeno, do tamanho de uma malinha, com microfones-gravata que captam o menor ruído. Afinal, cinema é imagem e som. Impuro, como o povo brasileiro, que é bem misturado. Namorávamos as professorinhas e sabíamos do grau de ensino de Arraial e do trabalho artesanal das donas-de-casa. Éramos o pessoal do Museu, gente de casa, podíamos entrar e sair em qualquer lugar. Íamos a igreja aos domingos com a comunidade. Fazíamos parte dela. Dona Heloísa Alberto Torres aprovava. Io te dó uma casa a te, tu me dá uma casa a mé. Foi em Arraial que tive a sensação amorosa tão importante mais tarde, quando filmei Anchieta, José do Brasil. Cheguei a chamar de troca amorosa – o cinema da afetividade.

 

De noite, a gente ia para o boteco do Juca e bebíamos cachaça com os pescadores e operários da Álcalis, lentamente, conversando. Não ficávamos bêbados nem tínhamos ressaca. O dia começava com o sol.

 

As filmagens correram tranquilas, com naturalidade, da mesma forma como vivíamos e conversávamos. Eu e Mário ficamos muito amigos. Mário era um grande artista e ficava imaginando como captar aqueles brancos sobre brancos de Arraial num filme em preto e branco. A realidade física, tonal e humana de Arraial era a nossa mestra.

 

Quando nos dávamos folga, íamos ao mafuá. Mário sempre foi um grande jogador, tinha prazer imenso e uma sabedoria exemplar. Tinha mais intuição. Ganhei muito dinheiro no Jockey Club, jogando no primeiro palpite de Mário. Depois ele mudava, jogavam num outro cavalo e perdia. Num sábado, fomos até o mafuá e joguei três vezes na roleta enorme e em pé, na letra A. Deu três vezes o A de Ana Letícia, e ganhei um bom dinheiro. Compramos um bom uísque, foi legal. Na sexta-feira viemos ao Rio ver o copião na Líder, para comemorar, íamos também ao Bolero, cabaré na avenida Atlântica, de frente ao mar. Mário morava perto na rua Itanhangá. Sua família, nessa época, estava viajando, e levávamos umas dançarinas do Bolero para lá. Mário pagava com gravuras. Uma delas podia ter tido uma galeria só de gravuras de Mário Carneiro. Estaria rica.

 

Voltávamos para Arraial loucos para ver os amigos, pescar, comer peixe com arroz e abóbora, que era o que os pescadores comiam todos os dias. E filmar. Mário tinha um punho fortíssimo. Se na câmera fixa ele desenhava, nos planos a mão ele era gestual e seguro. Uma pincelada de mestre. Eu notava que, quando ele dirigia, os pescadores ficavam petrificados. Pareciam estátuas. Viviam em liberdade e a Fábrica de Álcalis queria dirigir suas vidas. Eles não aceitavam, reagiam e se tornavam pedra de sal.

 

Eu era juscelinista, admirava o ser cordial e democrata que era JK, o ser humano político progressista e desenvolvimentista, o homem moderno e sua capacidade de realizar sonhos, sempre criando junto com os artistas. Admirava o alto-astral que JK passava para os outros numa sociedade aberta e voltada para o futuro. Mas o problema social continuava na mesma. Os bolsões de miseráveis aumentando. Contudo, Brasília era uma ideia e uma realização geniais. Juntava o Brasil. E a industrialização era fundamental para o crescimento moderno. Integração com as outras nações, tudo ok. Mas era crucial que não se perpetuasse essa disparidade de rendas, a diferença entre ricos e pobres, as acumulações de riqueza e de miséria, o que acabou ocorrendo, sem que fosse culpa dele. Eu não queria ser contra a Álcalis, mas era. Os operários e os pescadores só se encontravam nos botequins, depois de três pingas, no mínimo.

 

Em Arraial, eu tinha 26 anos, estava em forma, nadava e jogava futebol na areia todos os dias. Certa vez, eu e Mário fomos convidados para participar de um jogo no campo local entre Cabo Frio e Arraial do Cabo. Há seis anos o Arraial não ganhava do time de Cabo Frio. Mário no gol e eu na meia-esquerda, como gostava de jogar. Primeiro tempo, 3 a 0 para o Arraial. Mário estava bem no gol, fazendo defesas arrojadas, e eu corria o campo todo, me sentindo bem. Fiz um gol, driblando pela área e colocando a bola no canto, deslocando o goleiro. Dei ainda dois passes para os outros gols. A torcida do Arraial gritava: “Bola para o louro!” E eu amaciava a bola, botava no chão, fazia correr de primeira. Mário quebrou os óculos e teve que sair. Não foi bom sinal. No segundo tempo, na primeira bola que corri para apanhar fiquei tonto, me saía um vento pelas orelhas, eu não conseguia ver a bola. Mortinho, parei de correr. Resultado final, Cabo Frio 4 a 3. A torcida gritava: “Não dá bola para a loura, não!”.

 

Mas, filmando, ficava elétrico. Sérgio Montagna, que sofria de úlcera, teve que voltar para o Rio por causa de uma crise. Joaquim Pedro viria para substitui-lo na produção. Problema sério, porque Mário e Joaquim não se falavam por causa de Sará.

 

Somente o botequim do Juca podia me salvar. Tomamos os três um porre de cachaça e cerveja que ficou histórico em Arraial do Cabo. Faltamos ao compromisso que tínhamos com o prefeito de Cabo Frio, com o Coronel, presidente da Álcalis. Corremos nus pelas ruas de Arraial, vomitamos os ossos e as almas. Mas, Mário Carneiro e Joaquim Pedro fizeram as pazes para sempre. Foram sempre dois grandes amigos. Geraldo Markam aproveitou para se vingar da minha grossura, quando o expulsei das filmagens, e fez a maior fofoca. Mas a população entendeu perfeitamente. E dona Heloísa continuou apostando em nós.

 

Joaquim se adaptou rapidamente à nossa vida de filmagem em Arraial. Gostou tanto que mais tarde, quando se casou com Sará, por correspondência, comprou a casa do Museu, na praia dos Anjos.

 

Uma vez que viemos ao Rio para ver o copião, encontro um telegrama do Banco de Santo Spirito, de Roma, me informando que o dinheiro de minha bolsa já tinha sido depositado. Porra, eu duro, aqui no Brasil e o governo italiano me dando dinheiro, sendo que para pegá-lo, eu teria que viajar e gastar o dobro. Eu já tinha ido à praça Mauá ver o meu navio da Lloyd partir.

 

A despedida de todos os amigos de Arraial foi uma festa deliciosa. Como sempre – como será depois dos meus filmes e dos meus amores terminados -, eu custo a voltar. Voltei a Arraial quinze anos depois. Não reconheci a cidade, e a cidade não me reconheceu. Sofri muito por isso. A paixão tinha acabado.

 

Como a verba era pouca, fomos montar o filme no Cinelab, um laboratório em São Cristóvão. O Cinelab era grande, tinha quatro andares e moviolas, talvez duas ou três. Mas estava vazio. Só tinha a gente. No primeiro dia de montagem, cheguei atrasado. Tinha ido com meu pai ao Lloyd e a um amigo dele tentar trocar a minha passagem. Consegui, e o navio sairia do Rio nos primeiros dias de março, eu teria um mês para montagem e acabamento do filme, mixagem, etc. Quando cheguei ao Cinelab, Mário e Montanha estavam limpando o material, mas eu, inexperiente, armei o maior escândalo – que ninguém ia montar o meu filme sem a minha presença, que isto é sacanagem. Fui tão grosso com os dois, que eles chegaram a ir embora putos comigo. Aí eu, sozinho na moviola, chorei muito e telefonei correndo para que eles viessem montar o filme. Montamos exatamente num mês. Duração de 24 minutos, que Montanha achou longa.

 

Eu tinha pensado em colocar no filme as músicas que ouvíamos nos alto-falantes das ruas der Arraial. Eram músicas de Lindomar Castilho, Jackson do Pandeiro, como aquela do fim do filme, chamada Aurora, no bar do Juca. Mas Mário me mostrou os exercícios para violão de Villa-Lobos, os choros de Villa-Lobos, e como eram lindos! Mário Carneiro fez a banda sonora de Arraial. Perfeita. Convidei Cláudio Melo e Sousa para fazer o texto e achei que o triângulo em volta de Sará ficaria perfeito. Chamei Ítalo Rossi, um ator que admiro muito e que não tem voz de narrador, nem é impostada.

 

Recebi um ultimato do Bando de Santo Spirito. Eu tinha que partir. Mas mesmo assim ainda perdi o navio quando ele saiu do Rio. Eu sabia que ele ia ficar durante o carnaval em Vitória. Eu tomaria o ônibus da rodoviária da praça Mauá e o navio em Vitória.

 

Acabamos a montagem no prazo previsto e primeiro vi na moviola, depois em banda dupla. Ali estava o filme realizado. Mil furos acima de Caminhos. Havia uma integração do cinema silencioso com o cinema falado. Pouca narração, e ela não explicava, as falas corriam livres como a imagem. Gostei. Achei que o filme ia dar samba. Mário, além de grande iluminador e câmera, era também um genial montador. Fiquei contente também de ter sacado, logo ao conhece-lo, o cineasta que ele era. E depois era meu amigo, meu querido amigo. Arraial do Cabo inaugurava, para o Cinema Novo, a relação revolucionária da quebra de hierarquia entre o diretor e a equipe. O diretor de cinema no Brasil deve fazer parte da equipe. Deve ser amigo dos seus colaboradores, numa relação afetiva.

 

Eu teria que partir, Mário mixaria o filme como se fosse eu. O filme também era dele.

 

Fomos comemorar o fim da montagem no baile pré-carnavalesco do Pierrot, que a escritora Eneida dava todos os anos na boate Black Horse. Para variar, tomamos um porre. Eu e Mário nos abraçamos muito, estávamos felizes. As mulheres estavam lindas. No salão, o valoroso Albino Pinheiro. Eu estava em casa e ia partir para a Europa. Umas prises de lança, novamente, vão me tirar do sério, como daquela vez que cheguei em casa, no Zacatecas, e o porteiro me ofereceu uma caixa de lodo metálico, ele queria vender, mas eu respondi: “No mês de junho? Que faço com tantas lanças?” Mas ele estava a perigo, com dívidas, e eu com dinheiro. Comprei e guardei bem guardado na gaveta do armário do meu quarto. Mas, quem disse que eu dormia? Rolava de um lado para outro da cama e...nada. Falava para mim mesmo: Umazinha só, depois eu durmo. Algum tempo depois batem na minha porta, eu escondo tudo e arrumo um pouco o quarto, abro a porta, era meu pai Guilherme. “O que houve? Parece um vendaval, e que cheiro é esse?” Fiquei com a cabeça enterrada no travesseiro, sem saber o que fazer. Meu pai, pelo perfume, percebeu logo e começou a falar comigo: “O que, em junho? E em casa, sozinho, o que você tem? Está te faltando alguma coisa? Você está culpado de alguma coisa?” Foi terrível. No outro dia, com aquelas lanças, fiquei com medo de me tornar um Heleno de Freitas. Distribuí tudo no Lamas.

 

Na Black Horse, foi uma crise de megalomania. Havia uma mulher linda e enorme ao lado de um cara que era um armário, de tão forte. Brigão e conhecido. Pode ter sido o Sérgio Petterzoni, famoso pelas brigas que aprontava. Tomei a prise e tirei a mulher para dançar. Tomei uma cotovelada no olho que quase me deixou cego.

 

Em casa, vi que minha mãe e minha irmã estavam cheia de preocupação pela minha viagem. Mamãe chegava a chorar. Meu pai estava orgulhoso. Sérgio, animado e paternalista. Norma me pedia várias coisas, que eu deveria trazes para casa na volta.

 

Mário tinha me preparado para a viagem. Ele, Titise e dona Corina me emprestaram vários casacos para o frio. Ensinaram-me como me portar numa mesa em Paris, etc. Era a primeira viagem que eu fazia ao exterior, eu estava nervoso.

 

Albino Pinheiro estava namorando Maria Elisa Costa, filha do doutor Lúcio Costa. Numa festa de despedida que Maria Elisa deu, conheci e comecei a namorar Helena, a filha mais nova de doutor Lúcio. Na festa, estavam também as duas irmãs Pinto. Marília, namorada de Mário, e sua linda irmã Maria Lúcia. Havia também Adail. Um time de garotas da melhor qualidade, em qualquer sentido. “O que é que vou fazer em Roma?”, eu pensava. “O verão está perfeito, mar azul, a praia apinhada de garotas belíssimas. O carnaval é daqui a uma semana...”

 

Helena era uma doçura, pensei que ela fosse virar uma grande escritora.

 

Mas quem virou escritora foi a atriz Maria Lúcia.

 

Eu estava apaixonado pelos livros de Clarice Lispector e os geniais Crônica da casa assassinada, do Lúcio e Grande sertão: veredas, definitivo, romance de Guimarães Rosa. Clarice, Lúcio e Rosa enaltecem qualquer país, e ainda tem Otávio de Faria, Cornélio Pena, Jorge Amado, Zé Lins do Rego, Graciliano Ramos, Machado de Assis, Lima Barreto, Euclides da Cunha, Nélson Rodrigues, Portinari, Goeldi, Iberê Camargo, Tarsila do Amaral, Oswald e Mário de Andrade, Djanira, Pancetti, Volpi, Oscar Niemeyer, Sérgio Bernardes, Drummond, Manuel Bandeira, Marcos Konder Reis, Mário Faustino, Paulo Mendes Campos, Jorge de Lima, Lúcio Costa e os milhares de jovens com muito tesão, sem falar de Villa-Lobos, Cartola, Tom Jobim, Aleijadinho e Ceschiatti etc. Vou-me embora, me preparar para voltar rápido e lançar esse movimento com Gláuber, Mário, Joaquim e Leon, botar o cinema brasileiro no lugar que ele merece. Afinal, Villa-Lobos fez música para um filme de Humberto Mauro, nós é que somos ignorantes de cultura do país. Vamos revolucionar e reverter isso.

 

Levo cartas. Uma de Lelena Cardoso, para a triz Lea Massari, que esteve no Brasil e ficou muito amigo dela e de suas amigas. E outras, dos amigos de Murilo Mendes. Malas prontas, tudo pronto para partir.

 

Uma ótima reunião com Mário e Cláudio Melo e Sousa. Joaquim estava preparando outro filme, Couro de gato; a Saga e Joaquim não paravam. Genial.

 

Não gostei de ter aceitado a co-direção com Mário Carneiro. Na verdade, eu fui diretor e autor do filme. Mário montou, fotografou, fez praticamente a banda musical e iria mixar o filme. Mas Mário naquele momento era eu. O diretor de cinema de autor é a mente e a mão oculta do filme e não aparece, não está visível em nada que se passa na tela, mas é tudo no filme. Mário acreditava no cinema-catedral, criação coletiva. Eu acredito na equipe, mas sem o maestro nada existe, não é arte, não é cinema. Até na indústria de Hollywood, onde 90% dos diretores são medíocres e empregados das majors. Eles são respeitados, porque os produtores sabem que os outros 10% de autores-diretores fazem o cinema revelar-se.

 

Não gostei, mas não podia entristecer um irmão como Mário. Ele achava que Arraial era dele também. E era, como era de Joaquim e de Montanha. O filme é de todos os que participam, mas quem tem a varinha mágica é o diretor/autor.

 

Não pude ficar contra o Mário e exigi que meu nome ficasse em segundo lugar. Não sei por que exigi isso. Foi por não querer brigar com ele. Durante anos, até Mário Carneiro fazer o seu filme, o genial Gordos e magros, nós iríamos brigar por isso, mas nada que sujasse ou empanasse a nossa grande amizade e amor.

 

Cheguei na rodoviária da praça Mauá cheio de malas grandes. Levava roupas para os dois anos que deveria ficar na Europa. Minha mãe exagerou. Eu não pretendia ficar tanto tempo. Um ano, talvez. Foi um custo colocar as malas no ônibus. Era véspera de carnaval, e o ônibus estava cheio. Como eu havia perdido o navio no Rio, iria toma-lo em Vitória, no Espírito Santo. Passaria o carnaval em Vitória. Na despedida, uma grande honra. O idealizador de Brasília, dias depois da inauguração da nova capital, foi ao meu embarque, acompanhando sua filha Helena. Doutor Lúcio Costa me disse que não era vantagem ir de Lloyd para a Europa, ele também já tinha ido, mas ir de ônibus era uma façanha e tanto. Rimos muito. Ana Letícia também foi a despedida e não gostou dos meus beijos com Helena.

 

Mário, querido, me escreva, acabe logo esta mixagem e mande uma coisa. Não vejo a hora de ver o filme. Vou tentar vende-lo e pagar dona Heloísa.

 

Norma chorava como manteiga derretida. Papai e mamãe estavam firmes. Sérgio feliz. Sérgio iria se aproximar demais de mim com esta viagem, através das cartas que nos escrevíamos sempre. O que era difícil nas conversas mudaria nas cartas.

 

E Sérgio adorava escrever cartas, a nossa comunicação ficou perfeita. Eu nunca o tinha visto tão empenhado e prestativo. Sérgio quebrou mil galhos, meus e de meus amigos. Voltou a ser aquele irmão da minha infância que me introduziu no samba e na política.

 

O ônibus partiu, eu estava agora sozinho, na escuridão daquele ônibus cheio, não tinha dormido muito, com a correria da despedida e do acabamento do Arraial, mas não conseguia dormir; pensava: felizmente não houve nada com meu olho, minha vista voltava a estar perfeita, as duas, e mesmo na semi-escuridão daquele ônibus – eu estava no banco de trás, por causa da longa despedida e das muitas malas que trazia – eu podia perceber, na terceira fila, uma garota interessante. Não era de se desprezar. Pela primeira vez eu vou ficar sozinho mesmo, num país onde não conheço ninguém, não manjo a língua. Ouvi, na minha infância, as tias e avós conversarem, devia ter prestado mais atenção, ou estudado um pouco. Sem dinheiro, contando com o dinheiro da bolsa...O curso já tinha começado em novembro, e se não tivesse mais dinheiro? Loucura, esta minha viagem. O Brasil fervendo e eu indo para o frio europeu...se bem que lá, em abril e maio, é primavera e a Itália deve estar linda. Passando pela Bahia, vou procurar Gláuber, Rogério Duarte. O navio deve ficar algum tempo em Salvador. Vou conhecer a Bahia, já é muito! Conhecer Salvador! Até que seria melhor passar o carnaval em Salvador. Vamos lá, seja o que Deus quiser. E Arraial? O filme tá bom, gostei. Para mim, fui eu que fiz o filme. Porque percebi, fazendo Arraial, que o diretor é essa mão oculta de Deus naquele momento específico. Tem o poder para criar, não para usá-lo arbitrária ou autoritariamente para se mostrar ou se afirmar (o que deve ser o caso de muita gente por aí), mas o diretor está ali, para dizer alguma coisa, passar uma emoção. É como disse: Faulkner: ele não pediu para ser o escolhido, mas foi, agora tem que botar o demônio desse sonho para fora, o cinema é a mais complexa das artes, é difícil realizar-se num filme, tem muita realidade e problemas de todo tipo. Se não fosse difícil, Lúcio e Guimarães Rosa – que é um John Ford mineiro – estariam fazendo cinema.

 

Mas o diretor-autor, para manifestar-se, tem que se tornar uma entidade, um orixá, ou um caboclo, ou até mesmo uma pomba-gira, e baixar na cabeça de cada elemento do elenco e da equipe. Todos têm que ser ele, manifesto, mas oculto, quanto mais oculto melhor. Falconetti não era Dreyer se queimando na fogueira, no Joana d´Arc? Sternberg não diz que Marlene Dietrich é ele? Deve dar muita insegurança no diretor que inicia e queer aparecer de qualquer maneira, isso é péssimo. Foi bom eu ter sido ator e diretor em Caminhos, deu para sentir essas coisas. Mas, o diretor deve star presente sempre, não foi bom deixar o Mário Carneiro sozinho. Tomara que ele mixe logo...Fiquei meditando, até a garota da terceira fila se levantar e ficar de pé, perto de mim, olhando a paisagem daquela noite escura. Não se via nada, e ela estava ali, olhando. Levantei-me também. Quando chegamos a Vitória, estávamos misturados com as malas, saturados de beijos e apertões.

 

Vitória era simpática naquele momento. Alguns blocos de sujos passavam com uma batucada imitando a do Rio. Despedi-me de Isaura chamando-a de Isaurinha Garcia. E tomei um táxi com mil malas, em direção ao porto de Vitória.

 

Instalei-me na cabine, malas pesadas e já detestadas, colocadas a salvo naquele espaço exíguo. Numa outra cabine, dois rapazes de Niterói. Um era baixinho, magro, moreno, sério e tocava mal violino, ia tentar uma bolsa. O outro era branco azedo, malandrinho e espertinho, ia se virar também para arranjar uma bolsa. Estavam indo ainda mais no escuro do que eu. O navio se chamava Paraguai. Passei o carnaval nos puteiros de Vitória. Vida de marinheiro é assim: mar, muito mar...chegou em terra, puteiro. Borel. Rendez-vous, lugar de perdição. Quero ouvir Lupicínio Rodrigues. E as putas tinham. Foi lindo. Depois chegou a tripulação do navio grego. Marinheiro grego, reis dos mares e dos portos. São conterrâneos de Ulisses, Circe e Onassis. Não é brincadeira. Mudaram os discos. Sai Lamartine Babo e entra Papadópolis, e caí na dança grega, todos de braços dados, como Anthony Quinn no filme de Jules Dassin, com Melina Mercouri. Me deram muita bebida, me deram lança e me deram pó. Fiquei à vontade e dancei na língua deles. As mulheres que nos recebiam escolhiam os homens. Fui bem escolhido e passei uma grande noite. Durante uma prise, gritei Beila Genauer. Dia seguinte, indo para a Bahia, eu queria saber o porquê do grito de Beila Genauer.

 

Beila era atriz de Pedro Mico, do Callado, dirigido por Paulo Francis, sendo eu o assistente. Beila era sedutora, tentadora, sensual, mas não era a puta que Callado pedia. Francis tentou tudo e acabou se apaixonando por ela. Mas Beila não ficava puta. Ela é ótima atriz, mas Francis tinha pudor. Estava apaixonado por ela, logo ela não podia ser uma puta. Eu teria feito dela uma puta, como no bordel de Vitória, onde vi como uma puta como Beila deveria ser.


Então lembrei-me do texto do Joaquim sobre Arraial, sensacional. Era uma apresentação, mas ao mesmo tempo uma crítica linda do filme. Ele devia estar sempre presente nos cinemas quando fosse exibido Arraial. Diz tudo:

 

Arraial do Cabo

Realização: Mário Carneiro e Paulo Saraceni.

Produtores: Sérgio Montagna, Joaquim Pedro e Geraldo Markan.

Letreiros sobre gravuras de Oswaldo Goeldi.

Texto de Cláudio Melo e Sousa, dito por Ítalo Rossi

Apresentação da Saga Filmes.

Arraial do Cabo é um pequeno povoado que fica próximo de Cabo Frio, no litoral fluminense.

Umas casinhas pequenas pintadas de branco e reduzidas à forma das necessidades domiciliares mais essenciais, o arraial se estende nas direções várias do aconchego e da economia praiana, dispondo-se longamente sobre um terreno de dunas e areia geral que uma vegetação rasteira sustenta contra o vento, erguendo-lhe a face áspera de suas folhas.

O povo, também, mostra no rosto as marcas desse assédio. A areia muito branca espalha agressivamente a luz crua do sol. As sombras são poucas e sempre a claridade ou o vento carregado de areia úmida andam a manter os olhos semicerrados, os músculos do rosto contraídos, a pele salgada, imperceptivelmente ferida. No Arraial do Cabo o traçado das rugas se espalha enganoso sobre o rosto duro do povo, disfarça-lhe a energia com os desenhos de uma velhice prematura.

Essa gente viveu sempre do mar e guarda as tradições de uma sociedade bastante primitiva de pescadores. Há alguns anos começaram ali, bem próximo do centro demográfico do arraial, a construção de um enorme estabelecimento industrial, a Fábrica Nacional de Álcalis. Verifica-se assim o súbito advento da era industrial em uma sociedade aferrada à simplicidade de uma economia e de costumes antiquíssimos, desenvolvidos num longo e natural processo de fixação ao litoral, e preservada de maiores influências exteriores.

O Museu Nacional, então dirigido por Heloísa Alberto Torres, aproveitando essa extraordinária oportunidade, planificou e empreendeu imediatamente um vasto trabalho de pesquisa científica em Arraial do Cabo, acompanhando e medindo os resultados de uma experiência inédita no domínio das ciências sociais e humanas. Nela existiam, entretanto, outros elementos importantes que escapavam ao interesse profissional dos cientistas. Foi por meio deles que Mário Carneiro e Paulo Saraceni, no filme que será agora exibido, conseguiram revelar uma outra realidade essencial na transformação de Arraial.

Os pescadores e os operários, a cidadezinha e a fábrica são os elementos de um conflito. Armados em montagem de contraponto, que governa tanto a sucessão das imagens como a trilha sonora, eles a princípio se opõe, para se fundirem depois, despondo-se gradativamente dos aspectos de oposição e revelando, nesse mesmo andamento, a sua identidade fundamental, afinal declarada na cena do bar. Esse esquema geral de construção é bastante flexível para permitir um desenvolvimento desigual dos elementos básicos, construindo-se a maior parte do filme sobre o tema da pesca, justamente aquele de maior potencialidade plástica e dramática, de mais interesse como objeto de documentação.

 

Quincas viu e gostou, mas ele é diferente do Gláuber, que é caloroso. Quincas é discreto, sutil. Comuna também, mas mantém a classe. Gosto cada vez mais dele. É grande cineasta, se ele quiser pode fazer um filme comercial que bata recorde de bilheteria, sem perder um fotograma de dignidade e criação. É duro com ele mesmo, talvez por herança de doutor Rodrigo, mas como dona Graciema, a mãe, é muito sensível, ele é complicado. Nas reuniões, coloca um pensamento perfeito, toda as opiniões de cada um, todo mundo de acordo. Quando volta a palavra para ele, já não quer mais, mudou de opinião. Mas tem um pensamento articulado e claro, quando expõe uma ideia, ou quando escreve, ou quando filma. Todo mundo entende.

 

Gosto também do Leon. Judeu e comunista. Com que classe ele conduz sua linha dialética e marxista! E gosta de música popular do morro. É da Zona Norte do Rio. Superinteligente, estudioso e preparado. O problema é ele não entrar na onda stalinista. Mas, não, Leon sabe o que Stalin fez com Maiakovski e Eisenstein. Assistiu Ivan, o Terrível. Está encantado com o teatro revolucionário de São Paulo no Arena. Lá está o meu amigo Gianfrancesco Guarnieri, então deve ser bom.

 

Os candidatos para presidente devem ser Lott e Jânio Quadros. Vai ser duro Lott ganhar. Acho que não vou votar. Vou ficar no estrangeiro, não sei em quem votar. Fico neutro e esperando pela volta de JK.

 

Publicado originalmente em SARACENI, Paulo César. Por dentro do Cinema Novo: minha viagem. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993.