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sexta-feira, 8 de abril de 2022

Por Dentro do Cinema Novo, minha viagem por Paulo César Saraceni, capítulo 3: Filmando Arraial

Capítulo 3: Filmando Arraial

 



Por Paulo César Saraceni

 

Imagine quando entrarem as pistas de som, o diálogo, o ruído e a música! Vai ser melhor ainda nos outros filmes falados.

 

A sedução pela nuca de Silvinha e a lua mágica no Jardim de Alá, no final do filme, eram pedaços do cinema que eu queria percorrer. Cineasta é aquele que faz filme, foi o que descobri! Só fazendo é que a gente saberá se ele é bom ou não. Quando estava em fase de finalização de Caminhos, encontrei-me com Gláuber Rocha. Foi numa noite em que eu e Ana Letícia passávamos pelo Alcazar para encontrar Aluísio Magalhães e Albino Pinheiro. Ouvi os chamados meio debochados de dentro do bar, numa mesa de fundo, e vi Miguel Borges e Carlos Pérez que conversaram com um jovem desconheci. Fui até lá e me apresentaram a Gláuber Rocha, eu nunca tinha ouvido falar dele...Ele me disse que era cineasta baiano e me pediu meu telefone. Não gostei do Miguel e do Pérez, pois eles deviam estar fazendo fofocas com meu nome. Anos depois, Gláuber escreve, no seu genial livro Revolução do Cinema Novo, que Miguel e Pérez disseram que eu era um babaca que gostava de Fellini – até nem gosto tanto assim, o quente, para mim é Rossellini, mas gostar dos filmes de Fellini não é tanta babaquice assim.

 

Eles continuavam no mundo e ainda não tinha feito nenhum filme – babacas eram eles! Miguel Borges depois fez um ótimo curta sobre o café, Carlos Pérez parece que ajudou muito, mais tarde, Arraial do Cabo no Itamarari, onde faz carreira.


Dia seguinte Gláuber me telefonou e disse que queria ser meu amigo, que eu era o único que tinha feito um filme, tinha dado, como ele, o salto da teoria para a prática. Gostei, fui ao encontro de Gláuber, nos tornamos grandes amigos. Os dois filmes, o meu e o dele, usavam montando o negativo com o Sousa, que tinha uma moviola 16mm, numa vila ao lado da Líder em Botafogo. Começos juntos a frequentar o bar em frente à Líder, que era um botequim mas com ótimo chope, e trocamos muitas ideias e confidências. Eu via Gláuber todos os dias, e estava espantado e surpreendido. Baiano do sertão, meio Riobaldo, meio Diadorim, de Vitória da Conquista, e sabia tudo. Radical e violento na sua revolução, que era doce e brasileira. Protestante, contestava a sociedade e o regime com vigor, e bom caráter, Tinha ideias geniais. Um dia, logo depois de nos conhecermos, senti que Gláuber era genial. Quando ele voltou para a Bahia, me deu muitas saudades e muita raiva também, quando seu filme passou e foi gozado pelo pessoal. Cláudio Melo e Sousa disse que era avant-garde baiana. Eu achei ótimo o filme, era meio concretista, ou neoconcretista, nunca percebi a diferença. Sabia apenas que um movimento, o concretista, era paulista, o outro era carioca, mas era a mesma coisa, o de São Paulo tinha mais consistência e o do Rio mais bossa. Mas era a mesma coisa.

 

No Rio, Reinaldo Jardim organizava e dirigia o suplemento literário dominical do Jornal do Brasil com muito sucesso, transgressão e talento. Em São Paulo, o movimento concretista tinha os irmãos Campos e era mais literário, com as traduções de textos estrangeiros, da melhor poesia e seriedade. No Rio, Mário Pedrosa era crítico de artes plásticas, Ferreira Gullar também, logo, o movimento neoconcretista era melhor na escultura, pintura e gravura...Mas havia um grande poeta, Mário Faustino.

 

Pátio, além de revelar um diretor muito talentoso, revelava também uma atriz que iria fazer a cabeça de muitos jovens cineastas: Helena Inês. Naquele tempo, ela era noiva do diretor. Gláuber era jovem, contestador, anárquico e investia numa nova linguagem de mise-en-scène cinematográfica, baseada nas muitas festas religiosas do povo baiano. Quem não via era porque não queria mesmo ver. Já Caminhos teve boa acolhida, ou entre a geração mais velha, que tinha vivido o cinema mudo, ou aqueles como Lígia Clark, Jean Bouguit e Hélio Oiticica, que queriam o supermodernismo, o sentimento de realidade que não necessitasse de nenhum limite, como a moldura, ou a tela. Filme que rompesse a tela. Joaquim Pedro e Leon Hirszman não gostaram, mas acharam que demonstrava que fazer um filme não era assim bicho-de-sete-cabeças. Joaquim começou a pensar num filme de 35mm sobre Manuel Bandeira, que era, inclusive, seu padrinho, e um outro sobre Gilberto Freyre. Leon animou-se muito. Na ausência de Gláuber, eu andava mais com Joaquim e Leon, e já pensávamos num movimento de cinema.

 

Naquele tempo, a cultura do Rio aproveitava o alto astral de JK, com Brasília já uma realidade, a Bossa Nova em grande explosão de talento e o Suplemento Dominical do JB (SDJB) informando e revelando os movimentos. A gravura brasileira estava no seu maior brilho. Eu namorava a gravadora Ana Letícia, que trabalhava muito as suas gravuras, mas também abria o leque de informações para todos os gravadores. Havia muita correlação entre as artes.

 

Eu era amigo de Ghigia e Climene, Mele, Edson Machado, Tom Jobim, Sérgio Mendes, Maciel, todos os músicos do Beco das Garrafas, e também dos pintores e gravadores. Ana Letícia me apresentou a Goeldi e fiquei fascinado pelo mestre. Apresentou-me a Iberê Camargo, Milton da Costa, Newton Cavalcanti, Ferdy Carneiro e Fernando Campos, que me apresentou a Rogério Duarte.

 

Vivia-se na Zona Sul do Rio como se fosse a Montmartre no século passado.

 

Todos os domingos havia a festa de Maria Clara Machado, que morava com seu pai, o escritor Aníbal Machado, autor de João Ternura e do conto “A morte da porta-estandarte”, na praça Nossa Senhora da Paz. E nessas festas tinha gente de teatro, cinema, televisão, pintura, gravura, escultura, arquitetura, literatura, dança e música. Havia também jovens empresários. Nada melhor para espelhar esta formidável efervescência cultural dos fins dos anos 50.

 

Aluísio Magalhães deixara um pouco de lado a pintura e convocava os artistas plásticos para fazer uma “Bauhaus” no morro do Leme, na Ladeira Ary Barroso. Nesse ateliê, Aluísio e seus artistas iam mudando os gostos dos empresários. Tudo caminhava junto, unido, no desenho industrial do tempo de JK.

 

Foi nesse ambiente que conheci Mário Carneiro, nesse ambiente em que o MAM fazia exposições de pintura, do que havia de melhor em termos internacionais. Na Cinemateca, grandes filmes. Vinícius, Tom e João Gilberto encantavam. Até Palma de Ouro em Cannes para uma adaptação de uma peça de Vinícius, Orfeu do carnaval, de Marcel Camus, que ganharam graças á nova música brasileira. Enquanto isso, surgia o movimento dos grupos novos de teatro de São Paulo, que faziam e encenavam peças politicamente empenhadas na realidade socioeconômica do país.

 

Mário Carneiro é filho de Paulo Carneiro, cineasta e embaixador do Brasil na Unesco, e da dona Corina. Tinha uma irmã, Beatriz, a Titise, e, em 1959, morava em Copacabana. Era arquiteto, poeta, pintor, gravador e fazia filmes em 16mm. Vi os filmes de Mário Carneiro. A boneca me impressionou muito. Havia também as tomadas de sua namorada Sará num balanço de quintal de um sítio em Itaipava. Vi logo que estava diante de um cineasta com um raro talento de iluminador e enquadramento. Mário era boêmio e bebia bem. Conversamos muito sobre o Brasil, política, arte e cinema. Mário era de família – por parte de pai e de mãe – positivista. Paulo Carneiro fundara em Paris o Museu Augusto Comte. Mais uma vez, assim como com Paulo Emílio, os brasileiros sabiam mais do que os próprios franceses sobre sua vasta cultura. Combinamos fazer um filme sobre a obra de Goeldi. Mário, como era gravador, também amava Goeldi, e topou logo. Fiquei de armar a produção e telefonar. Ou irmos ao ateliê de Goeldi ver seu material e conversar com o mestre.

 

Ferdy Carneiro, pintor, cenógrafo e homem de cultura, era mineiro de Ubá. Ele e Ghigia foram convidados para decorar um clube em Ubá para a festa de carnaval. Ferdy convidou a mim e Albino Pinheiro, que sempre foi ligado à trupo de ex-alunos do Liceu Francês. Fizemos uma turma e alugamos uma lotação. Estávamos num porre que dava gosto. Já na viagem, vomitei em cima da própria mulher que eu estava paquerando. Muito lança-perfume rolando. Havia os amigos de Ferdy, o Gérson com sua mulher, o Toni que era italiano casado com brasileira e filhos. Amigas de Climene, mulher de Ghigia, o Jaquito Maidante, o Sérgio Cherques, Zé Rui Dutra. Éramos mais de vinte. Levei Cláudio Melo e Sousa, que estava com dor de corno de Sará, que namorava o Joaquim e o Mário Carneiro. Um poeta, um pintor e um cineasta, Sará estava com tudo e era professora de física e craque em matemática. Todos tinham curiosidade de saber a razão do seu sucesso, nesse tempo.


A família enorme de Ferdy era um bando de mineiros maravilhosos. Acolhedores, cordiais. Comia-se e bebia-se muito bem. Uma cachaça de primeira.

 

Num dia de porre homérico, acabamos no puteiro de Ubá, onde Cláudio Melo e Sousa virou a barata de Kafka no meio do salão e eu, depois de uma prise, pulei um muro enorme e acabei nos braços de uma mulher que achava que eu era o filho dela. Quando me livrei da mulher, já era aurora e as ruas estavam desertas...o Cláudio sentado no paralelepípedo, me esperando e cobrando que em Caminhos eu dizia que só se pode fazer amor com amor. “Porra, Cláudio, não me cobre nada, nem eu sei mais onde podem ir meu tesão ou minha imaginação, mas o certo é que o danado do lança...”

 

No baile, fizemos parte de um júri que escolheria a melhor fantasia. O porre era tão grande que escolhemos uma garota loura, que estava fantasiada de melindrosa igual a umas trinta garotas na festa e, além do mais, a escolhida era carioca em visita a Ubá. Entramos numa porrada monumental. Acabamos todo num xadrez, todos fantasiados a caráter. Presidiários.

 

Em Ubá, víamos a banda quer seria modelo para a Banda de Ipanema.

 

No Rio, uma surpresa: Gláuber chegara com sua noiva e atriz Helena Inês.

 

Muitas festas. Gláuber avançara na ideia do movimento, tinha marcado uma seção de Pátio e Caminhos para o movimento neoconcretista e o SDJB, na casa de Lígia Pape. Na noite marcada, todo mundo presente. Mário Pedrosa e sua filha Vera, linda e poeta, Lígia Clark, Jean Bouguit, Décio Vieira, Ferreira Gullar, Amílcar de Castro, Hélio Oiticica, Reinaldo Jardim. Durante a exibição, eu e Gláuber entornamos vários copos de gim puro sem gelo. No final, muita polêmica entre os dois grupos formados: um preferia Pátio; o outro, Caminhos.


Reinaldo Jardim gostou dos filmes e da seção, com a polêmica que causou, e nos convidou para lançar o movimento no SDJB, fazendo um manifesto. Gláuber tinha escrito antes um belíssimo artigo sobre Visconti. Seu texto era forte e continha uma violência revolucionária que não encontrava em ninguém no grupo, mas ele achou que deveríamos falar com Miguel Borges para redigir o Manifesto. Esperamos o texto de Miguel com muita ansiedade. A reunião seria na Alcazar, muito frequentado por nós naquele ano de 1959.

 

Joaquim Pedro estava afastado, preparando com muito cuidado seu filme de estreia. Marco Faria, apesar de preparar O maquinista, compareceu e participou, Leon Hirszman também, além do Saulo, o Mário Jacques e o Carlos Pérez.

 

Eu estava preocupado, queríamos fazer um manifesto que rompesse com tudo que estava acontecendo no Brasil em matéria de cinema. Queríamos um manifesto comum a todos, mas achava que não estávamos preparados para isso. Havia discordância política e estética. Mas eu queria esse manifesto, achava que o cinema brasileiro precisava dele. Eu e Gláuber já tínhamos feito os nossos filmes, o pessoal da revista Metropolitano, Cacá Diegues e David Neves, que moravam na rua da Matriz, em Botafogo, e estudavam na PUC, com Fernando Duarte e Paulo Perdigão, também tinham feito um filme, Domingo. Joaquim Pedro estava se preparando para filmar, e Marco Faria também. Tínhamos uma página prometida no suplemento cultural de maior sucesso no Brasil. Não dava para esperar mais, íamos tentar.

 

Somos poucos agora, mas, lançado o manifesto, muita gente vai estar dentro do movimento, o Mário Carneiro, o Fernando Campos, o Rogério Duarte, o pessoal de São Paulo, sei lá, o Brasil inteiro – eu pensava.

 

Onze horas da noite estávamos no Alcazar, esperando o texto de Miguel Borges. Havia um ar de coisa histórica. Miguel Borges começou:

 

- Não queremos mais cinema-literatura. Não queremos mais cinema-escultura. Não queremos mais cinema-música. Não queremos mais cinema-dança. Não queremos mais cinema-teatro. Queremos cinema-cinema.

 

Aí, eu pulei – todos estávamos espantados com um começo de manifesto que pretendia reinaugurar o cinema brasileiro. Aquilo era ridículo.

 

- Vamos ouvir o fim do Manifesto – gritavam.

 

- Não quero ouvir mais nada – eu disse. – Isto é manifesto dos anos 20, do cinema mudo. Pretensioso, nem Eisenstein assinaria. Ridículo. Parece o filho pedindo para o pai: quero uma bola. Não uma bola de futebol, não uma bola de basquetebol, não uma bola de vôlei, não uma bola de polo aquático, não uma bola de tênis, não uma bola de bilhar, não uma bola de pingue-pongue. Quero uma bola-bola!

 

Aí, o pau comeu, todo mundo falava ao mesmo tempo. Gritávamos. Miguel não quis ler mais o manifesto. Virou piada. Ficou conhecido como o Manifesto Bola-Bola. O movimento nasceu em 1959 com um manifesto frustrado.

 

Gláuber Rocha, escrevendo para a revista Senhor, disse que o específico filme era mulher e encerrou o assunto do cinema mudo.


Miguel fez seu pequeno filme mudo sobre o café, que era vigoroso e revelava um diretor de cinema. Esqueceu o “cinema-cinema”. Fez cinema.

 

Joaquim Pedro fez seus filmes O poeta do Castelo e O mestre de Apicucos. Assisti ás primeiras filmagens sobre Manuel Bandeira e quase morri de rir. Filmavam no Beco do Castelo, onde morava o poeta, glória maior da nossa poesia. Ali perto da Maison de France e da Faculdade de Filosofia. Joaquim tratava o poeta com o maior cuidado e carinho. Manuel Bandeira estava idoso e tossia muito. Na sua infância e adolescência, tinha sido tuberculoso, o que deve ter deixado marcas no seu corpo frágil. Joaquim, usando seu assistente de direção, Domingos de Oliveira, como dublê de Bandeira, ensaiou bastante. Câmera pronta. Manuel Bandeira devia aparecer em quadro, saindo do prédio onde morava, e caminhar. A câmera fazia panorâmica e acompanhava-o até o bar, onde todas as manhãs ele comprava leite e pão.

 

Começa a rodar. Joaquim grita câmera, ação! Manuel começa a aparecer e caminhar, panorâmica, aí aparece um fio que entra no enquadramento. O câmera grita olha o fio! Joaquim: corta! E vai pedir mil desculpas ao Bandeira. A equipe amarra bem o fio, mas por três vezes o fio se solta e Joaquim tem que cortar. Joaquim estava uma fera com a equipe e sem jeito com o Bandeira que, compreensivo, ria. Outros ensaios sem o Bandeira. O fio amaradíssimo, tudo certo. Vamos filmar. Câmera, ação! Manuel Bandeira aparece e caminha, panorâmica, cuidado com o fio, olha o fio, tudo bem. Aí, no fundo do quadro, aparece um cara de bigode. Olha um cara de bigode! Joaquim corta e dá um esporro no cara de bigode, pedindo para ficar atrás da câmera. O cara ficou, ouvindo, risonho, os ensaios sem o Bandeira. Câmera, ação, panorâmica, cuidado com o fio e corta. O campo todo estava policiado, tudo pronto. Chamam Manuel Bandeira para o seu lugar. Vamos filmar.

 

Joaquim diz câmera, o cara de bigode repete câmera. Ação, o do bigode, ação, Bandeira caminhando, Joaquim panorâmica, o cara de bigode panorâmica, Joaquim cuidado com o fio, olha o fio, o cara de bigode repete, cuidado com o fio, olha o fio, tudo certo, o cara, tudo certo. Manuel Bandeira entra finalmente no bar e compra seu leite e pão. Mas o cara de bigode não gostou, ou ficou nervoso com o tempo morto, com a pausa longa e o silêncio, e gritou corta, a câmera parou. Joaquim gritou:

 

- Quem disse corta?

 

A equipe toda:

 

- Foi esse cara de bigode aí.

 

Todos correram atrás do cara, que fugia como louco. Convidei Joaquim para tomar uns tragos. Ele se acalmou, já estava rindo. Voltou a filmar, aquele grande filme em 35mm, e já com uma maestria que iria torna-lo entre nós o de maior sentido de comunicação. O poeta do castelo é um filme carinhoso, pelo personagem e pelo ator, amoroso, um grande começo de uma lindíssima obra. Já O mestre de Apicucos é menos bom. Mas por causa de Gilberto Freyre. Quincas não deu sorte com o autor de Casa-grande & senzala...

 

O maquinista, de Marcos Faria, traz à lembrança Pietro Germi, mas Marcos conhecia bem o trabalho na Central, trabalhava lá e botava para fora seus fantasmas cinematográficos.

 

Agora tínhamos sete filmes: o do Gláuber, o meu, o do Joaquim, o do Cacá, o do Marcos Faria, o do Miguel Borges e A boneca, do Mário Carneiro.

 

Mas nenhuma possibilidade de lançar o Manifesto. Gláuber e Cláudio Melo e Sousa ficaram usando a página de cinema, aberta para todos.

 

Gláuber voltou para a Bahia e eu me senti meio perdido. Minha situação sentimental estava muito confusa. Li no Correio da Manhã que a embaixada e o consulado italianos estavam oferecendo bolsas de estudo para o Centro Sperimentale de Cinema em Roma, eu estava sem dinheiro nenhum e morando novamente com meus pais, no Zacatecas, em Laranjeiras, a embaixada italiana era na esquina da Pereira da Silva com rua das Laranjeiras, a sessenta metros de casa, passei lá e me informaram que eu precisava, além de currículo e do filme, de cartas de apresentação de intelectuais conhecidos. Saí mostrando o Caminhos e pedindo as cartas. Foram seis ótimas cartas: Otávio de Faria, José Sanz, Aníbal Machado, Adolfo Celi, Cirilo Júnior e Pascoal Carlos Magno. Cartas muito elogiosas e simpáticas, que guardo até hoje. Ganhei a bolsa.

 

Eu estava cansado de lavar latas de filme para mostrar aos amigos e aos críticos, e mal sabia que isto seria uma constante na minha vida e na vida do cineasta em geral. As latas de 35mm pesariam muito mais.

 

Eu tinha resolvido viajar. O Brasil estava fervendo, estouravam talentos em cada esquina, mas ainda não havia oportunidade de trabalho no cinema, e eu achava que ia demorar. Estava enganado. José Sanz, que estava namorando Anabelle, linda garota franco-brasileira, (...) , uns 35 menos que ele, me disse que fez a carta para minha bolsa contrariado, porque eu tinha era que ficar no Brasil e lançar o manifesto logo, que seus dois filhos e Anabelle e suas amigas só pensavam em cinema. Em fazer cinema. Até que ele tinha razão, mas achei que faltavam uns dois anos ainda para o cinema ficar bom. Vou viajar. Conhecer a Europa, Paris, Itália, ver filmes bons, aprender. Quando voltar, acho que serei mais útil.

 

Sanz promovia junto com Muniz Viana grandes mostras de cinema e era  verdade que todo mundo estava se ligando em cinema, como arte de qualidade cultural.

 

Mas, naquele tempo, além de Ana Letícia, que continuava na minha vida, um amor platônico, havia as recaídas com Liliane e agora aparecia Silvinha Maconha. Eu era careta naquele tempo, mas me amarrei com Silvinha, uma jovem muito avançada. Tinha conhecido também Elze, uma menina enorme e linda, (...) que depois seria Colassanti e perturbaria a cidade. Não, não dava, eu tinha que viajar. Comecei as despedidas.

 

Mas Sanz era um sujeito infernal. Conhecia cinema demais, e gostava loucamente de cinema brasileiro. Conhecia Humberto Mauro, mas os cineastas que amava eram Mário Peixoto e Lúcio Cardoso. Ele achava que Lúcio era melhor cineasta do que romancista, ou poeta, ou teatrólogo, ou pintor, ou desenhista, tudo genial, mas o melhor mesmo era o cineasta que ele trazia na alma. Mas não queria nem botar calça cumprida, ficava sempre de bermuda, nos bares, aí não dava.

 

Sanz se informava e sintonizava com o mundo todo, lendo todas as revistas importantes e escrevendo e recebendo cartas. Ninguém pegava Sanz numa mentira – apesar da sua fama de mentiroso. Ele tirava dos bolsos de Gide ou de Orson Welles pedindo sugestões para montagens de seus filmes. Ficou famosa a história de Paulo Mendes Campos, grande poeta, contava sobre uma madrugada de porre. Estavam ele, Rubem Braga e Sanz. Deu fome e eles foram ao Lamas; Paulo e Rubem pediram sardinhas portuguesas. Sanz pulou: - Portuguesas? Eu só como sardinhas norueguesas. Porra, Sanz, norueguesas, onde vamos encontrar?, perguntaram. Sanz respondeu que tinha um armário cheio delas no seu quarto. Paulo e Rubem ficaram putos, suspenderam o pedido e levaram Sanz para sua casa à força, para desmascará-lo de vez. Apesar dos protestos de Sanz, dizendo que a Luísa, sua mulher (Luísa Barreto Leite), atriz de teatro e diretora, estava dormindo. Mas Rubem insistiu e Paulo foi levando Sanz pelos braços, até seu quarto. Entraram silenciosamente para não acordar Luísa, e viram Sanz abrir um armário cheio de sardinhas norueguesas.

 

Despeço-me da mesa de Otávio de Faria. Despeço-me de Marcos e Alair e seus amigos, de Guerrerinho, Liliane e seus amigos, de Ana Letícia e de Goeldi. Despeço-me do ateliê de Aluísio Magalhães, com Ghigia, Fernando Campos, Ferdy, Rogério Duarte, Goebels, de Miele e Bossa Nova, dos novos concretistas. Vou partir.

 

Tinha conseguido uma passagem do Lloyd, ia de navio, não tinha dinheiro nenhum para avião. Carlos Couto, que era esgrimista do Fluminense e cineasta e que também fez o Centro Sperimentale de Roma, meu deu uma carta de recomendação para uma senhora que morava na via Rasella, zona central de Roma, e que alugava quartos para estudantes estrangeiros.

 

Estava numa mesa com Marcos Konder e Liginha de Moraes, quando chegou o poeta e antropólogo, amigo de Marcos, Geraldo Markam, que acabara de fazer uma pesquisa em Arraial do Cabo e dizia que eu tinha que filmar aquela pesquisa – com tanto entusiasmo, que me convenceu a conhecer Arraial. Eu disse que estava de viagem, mas ele falou a noite toda de Arraial.

 

Não consegui dormir à noite, de tanto pensar nisso. Telefonei para ele, que marcou um encontro com Maria José, a assessora de dona Heloísa Alberto Torres, diretora do Museu Nacional, que morava na rua Paissandu, em Laranjeiras. Dona Heloísa também morava num prédio grande da rua das palmeirais, a mais bonita do Rio, que vai da praia do Flamengo até a Farani, onde está o prédio branco do Palácio Guanabara. Maria José era muito inteligente e adorou a ideia de filmar em Arraial, comprou a ideia e foi falar com dona Heloísa.

 

Falei com Joaquim Pedro, que continuava na Saga Filmes, a produtora de O poeta de Castelo e O mestre de Apicucos. Gérson Tavares tinha saído, mas Sérgio Montagna continuava e era sócio do Joaquim. Contei-lhe a história do Arrial do Cabo, e ele me disse que produziria o filme caso saísse a tal verba do Museu Nacional. Falei com Mário Carneiro convidando-o a fotografar o filme. Mário disse que nunca tinha visto uma câmera 35. Eu disse: “Não faz mal, você treina na Saga, com Joaquim”. “Não falo com ele” – respondeu Mário. “Então você treina em Arraial”. Mário me perguntou se eu conhecia Arraial, respondi-lhe que não. Ele também não conhecia. Tem tempo, vamos ficar uns tempos com o equipamento e conhecendo o lugar, os habitantes e os peixes, não confio muito nesses antropólogos. O Geraldo Markan queria fazer um filme à Panther Panchali, um filme hindu de Satyayit Ray, muito bom, mas que não tinha nada a ver com o que eu queria fazer, e fiquei a fim de jogar o Markam para córner.

 

Se dona Heloísa estava animada com a ideia do filme, ficou ainda mais quando falei de Joaquim Pedro e Mário Carneiro. Dona Heloísa era amiga e admiradora de doutor Rodrigo de Melo Franco, pai de Joaquim, diretor do Patrimônio Histórico, e de Paulo Carneiro, pai de Mário. A verba que tinha era pouca – para cinema, quase nada -, mas podíamos ficar numa casa do Museu Nacional, na praia dos Anjos, em Arraial. Com o equipamento de Joaquim e Montanha. Os 300 mil vão ser para filme virgem, laboratório, comida, bebida, ninguém ganha nada, só despesas com transporte, telefone etc.

 

Sérgio Montagna dirigiu aquele dinheiro com mão de ferro. Nenhum contrato. Era tudo na palavra, vale o combinado. O Museu do Índio produziu Arraial do Cabo.

 

Dona Heloísa e Maria José queriam um documentário que fosse em 35mm e para ganhar prêmios em festivais internacionais.

 

Eu e o Mário começamos a ir a Arraial. Íamos de ônibus, e uma vez o ônibus enguiçou na estrada e fomos andando na escuridão até encontrar um bar, onde tomamos muito conhaque Dreher e conhecemos um motorista de caminhão genial, que nos deu uma carona até lá. O caminhão também enguiçava, mas ele ia amarrando com barbantes as peças do motor e seguida caminho, sempre alegre. Eu observava tudo, e a realidade de Arraial e dos momentos que vivíamos conduziram o filme. Tinha aprendido com Leon Hirszman tudo sobre a montagem intelectual e de atração de Eisenstein, pretendia usar, pois se tratava de um filme curto para concentrar todas estas pesquisas e a realidade que eu sentia em Arraial. O filme deveria ter 20 ou 25 minutos no máximo, senão o dinheiro não daria para tudo.

 

O motorista os contou que, quando tinha doze anos e estudava, fez um discurso para o presidente Getúlio Vargas. Ele ainda se lembrava do discurso e o repetia, feliz para a gente.

 

Em Arraial e na casa do Museu, que era pequena, mas bem em frente à praia dos Anjos, a principal de Arraial e cenário principal do Arraial do Cabo, passamos três meses de estudo, prazer e criação.

 

Ficamos um mês vivendo a vida dos pescadores do lugar. Checando as pesquisas feitas, fazendo as nossas, o que significava ficar amigo da comunidade, saber os problemas de cada um, saber como tinha sido Arraial sem a fábrica da Álcalis, e como era agora, com ela. Como era o relacionamento deles com os operários, em sua maioria nordestinos. O mar, a pesa, cada vez mais perigosa. O leilão, com a venda dos peixes. O comércio. As mulheres dos pescadores, seus cantos, suas vidas.

 

Acordávamos antes das 4:00h e saíamos para pescar com os pescadores. Ficávamos horas esperando o sinal do guia, que nos avisava da chegada dos peixes. Jogávamos muito futebol na areia da praia. Mário era um bom goleiro e Sérgio Montagna um beque da roça. Eu estava em grande forma, corria o tempo todo, jogava bem e os pescadores gostavam. Fazia boas tabelinhas com o Paulo, um pescador negro que estava sempre rindo com seus dentes maravilhosos. Eu ria muito com o Aníbal, uma fúria jogando. Depois caía n´água e nadava como nos tempos de Fluminense. Montanha tentava me acompanhar, mas não conseguia. Ficamos muito amigos dos pescadores e suas famílias. O amor e a confiança entre nós fazia com que a ideia do filme viesse naturalmente. A espera era o leitmotiv e eu deitava e rolava sobre o tema rosseliniano da espera.

 

O tempo morto, os planos sequenciais e longos. Até o aviso do guia, aí mudava tudo. Era uma correria, subindo nos barcos rapidamente, remando com força, jogando as redes, não podíamos perder um segundo. E aí é que eu pensava na montagem rápida intelectual, e de atração, para contar tudo que observávamos desta pescaria e da vida de Arraial em 25 minutos.

 

Eram barcos pequenos, com sete pescadores cada. Chamavam campanha. E Montanha ficou com vontade de comprar um barco, o leilão era animado e desconfiado. Os compradores chegavam de caminhão, na hora exata, e conseguiam comprar os peixes sempre a um preço menor do que os pescadores queriam e necessitavam. Os peixes estavam ali, onde as mulheres os salgavam e cantavam músicas antigas e tristes. Suas vozes estridentes produziam um som que penetrava em nossas almas. Depois contavam histórias de Arraial. Eu lamentava não ter um bom gravador. Reclamava do Montnaha e da Saga por não ter um Nagra, que um suíço, um tal de Kudelski, tinha inventado: pequeno, do tamanho de uma malinha, com microfones-gravata que captam o menor ruído. Afinal, cinema é imagem e som. Impuro, como o povo brasileiro, que é bem misturado. Namorávamos as professorinhas e sabíamos do grau de ensino de Arraial e do trabalho artesanal das donas-de-casa. Éramos o pessoal do Museu, gente de casa, podíamos entrar e sair em qualquer lugar. Íamos a igreja aos domingos com a comunidade. Fazíamos parte dela. Dona Heloísa Alberto Torres aprovava. Io te dó uma casa a te, tu me dá uma casa a mé. Foi em Arraial que tive a sensação amorosa tão importante mais tarde, quando filmei Anchieta, José do Brasil. Cheguei a chamar de troca amorosa – o cinema da afetividade.

 

De noite, a gente ia para o boteco do Juca e bebíamos cachaça com os pescadores e operários da Álcalis, lentamente, conversando. Não ficávamos bêbados nem tínhamos ressaca. O dia começava com o sol.

 

As filmagens correram tranquilas, com naturalidade, da mesma forma como vivíamos e conversávamos. Eu e Mário ficamos muito amigos. Mário era um grande artista e ficava imaginando como captar aqueles brancos sobre brancos de Arraial num filme em preto e branco. A realidade física, tonal e humana de Arraial era a nossa mestra.

 

Quando nos dávamos folga, íamos ao mafuá. Mário sempre foi um grande jogador, tinha prazer imenso e uma sabedoria exemplar. Tinha mais intuição. Ganhei muito dinheiro no Jockey Club, jogando no primeiro palpite de Mário. Depois ele mudava, jogavam num outro cavalo e perdia. Num sábado, fomos até o mafuá e joguei três vezes na roleta enorme e em pé, na letra A. Deu três vezes o A de Ana Letícia, e ganhei um bom dinheiro. Compramos um bom uísque, foi legal. Na sexta-feira viemos ao Rio ver o copião na Líder, para comemorar, íamos também ao Bolero, cabaré na avenida Atlântica, de frente ao mar. Mário morava perto na rua Itanhangá. Sua família, nessa época, estava viajando, e levávamos umas dançarinas do Bolero para lá. Mário pagava com gravuras. Uma delas podia ter tido uma galeria só de gravuras de Mário Carneiro. Estaria rica.

 

Voltávamos para Arraial loucos para ver os amigos, pescar, comer peixe com arroz e abóbora, que era o que os pescadores comiam todos os dias. E filmar. Mário tinha um punho fortíssimo. Se na câmera fixa ele desenhava, nos planos a mão ele era gestual e seguro. Uma pincelada de mestre. Eu notava que, quando ele dirigia, os pescadores ficavam petrificados. Pareciam estátuas. Viviam em liberdade e a Fábrica de Álcalis queria dirigir suas vidas. Eles não aceitavam, reagiam e se tornavam pedra de sal.

 

Eu era juscelinista, admirava o ser cordial e democrata que era JK, o ser humano político progressista e desenvolvimentista, o homem moderno e sua capacidade de realizar sonhos, sempre criando junto com os artistas. Admirava o alto-astral que JK passava para os outros numa sociedade aberta e voltada para o futuro. Mas o problema social continuava na mesma. Os bolsões de miseráveis aumentando. Contudo, Brasília era uma ideia e uma realização geniais. Juntava o Brasil. E a industrialização era fundamental para o crescimento moderno. Integração com as outras nações, tudo ok. Mas era crucial que não se perpetuasse essa disparidade de rendas, a diferença entre ricos e pobres, as acumulações de riqueza e de miséria, o que acabou ocorrendo, sem que fosse culpa dele. Eu não queria ser contra a Álcalis, mas era. Os operários e os pescadores só se encontravam nos botequins, depois de três pingas, no mínimo.

 

Em Arraial, eu tinha 26 anos, estava em forma, nadava e jogava futebol na areia todos os dias. Certa vez, eu e Mário fomos convidados para participar de um jogo no campo local entre Cabo Frio e Arraial do Cabo. Há seis anos o Arraial não ganhava do time de Cabo Frio. Mário no gol e eu na meia-esquerda, como gostava de jogar. Primeiro tempo, 3 a 0 para o Arraial. Mário estava bem no gol, fazendo defesas arrojadas, e eu corria o campo todo, me sentindo bem. Fiz um gol, driblando pela área e colocando a bola no canto, deslocando o goleiro. Dei ainda dois passes para os outros gols. A torcida do Arraial gritava: “Bola para o louro!” E eu amaciava a bola, botava no chão, fazia correr de primeira. Mário quebrou os óculos e teve que sair. Não foi bom sinal. No segundo tempo, na primeira bola que corri para apanhar fiquei tonto, me saía um vento pelas orelhas, eu não conseguia ver a bola. Mortinho, parei de correr. Resultado final, Cabo Frio 4 a 3. A torcida gritava: “Não dá bola para a loura, não!”.

 

Mas, filmando, ficava elétrico. Sérgio Montagna, que sofria de úlcera, teve que voltar para o Rio por causa de uma crise. Joaquim Pedro viria para substitui-lo na produção. Problema sério, porque Mário e Joaquim não se falavam por causa de Sará.

 

Somente o botequim do Juca podia me salvar. Tomamos os três um porre de cachaça e cerveja que ficou histórico em Arraial do Cabo. Faltamos ao compromisso que tínhamos com o prefeito de Cabo Frio, com o Coronel, presidente da Álcalis. Corremos nus pelas ruas de Arraial, vomitamos os ossos e as almas. Mas, Mário Carneiro e Joaquim Pedro fizeram as pazes para sempre. Foram sempre dois grandes amigos. Geraldo Markam aproveitou para se vingar da minha grossura, quando o expulsei das filmagens, e fez a maior fofoca. Mas a população entendeu perfeitamente. E dona Heloísa continuou apostando em nós.

 

Joaquim se adaptou rapidamente à nossa vida de filmagem em Arraial. Gostou tanto que mais tarde, quando se casou com Sará, por correspondência, comprou a casa do Museu, na praia dos Anjos.

 

Uma vez que viemos ao Rio para ver o copião, encontro um telegrama do Banco de Santo Spirito, de Roma, me informando que o dinheiro de minha bolsa já tinha sido depositado. Porra, eu duro, aqui no Brasil e o governo italiano me dando dinheiro, sendo que para pegá-lo, eu teria que viajar e gastar o dobro. Eu já tinha ido à praça Mauá ver o meu navio da Lloyd partir.

 

A despedida de todos os amigos de Arraial foi uma festa deliciosa. Como sempre – como será depois dos meus filmes e dos meus amores terminados -, eu custo a voltar. Voltei a Arraial quinze anos depois. Não reconheci a cidade, e a cidade não me reconheceu. Sofri muito por isso. A paixão tinha acabado.

 

Como a verba era pouca, fomos montar o filme no Cinelab, um laboratório em São Cristóvão. O Cinelab era grande, tinha quatro andares e moviolas, talvez duas ou três. Mas estava vazio. Só tinha a gente. No primeiro dia de montagem, cheguei atrasado. Tinha ido com meu pai ao Lloyd e a um amigo dele tentar trocar a minha passagem. Consegui, e o navio sairia do Rio nos primeiros dias de março, eu teria um mês para montagem e acabamento do filme, mixagem, etc. Quando cheguei ao Cinelab, Mário e Montanha estavam limpando o material, mas eu, inexperiente, armei o maior escândalo – que ninguém ia montar o meu filme sem a minha presença, que isto é sacanagem. Fui tão grosso com os dois, que eles chegaram a ir embora putos comigo. Aí eu, sozinho na moviola, chorei muito e telefonei correndo para que eles viessem montar o filme. Montamos exatamente num mês. Duração de 24 minutos, que Montanha achou longa.

 

Eu tinha pensado em colocar no filme as músicas que ouvíamos nos alto-falantes das ruas der Arraial. Eram músicas de Lindomar Castilho, Jackson do Pandeiro, como aquela do fim do filme, chamada Aurora, no bar do Juca. Mas Mário me mostrou os exercícios para violão de Villa-Lobos, os choros de Villa-Lobos, e como eram lindos! Mário Carneiro fez a banda sonora de Arraial. Perfeita. Convidei Cláudio Melo e Sousa para fazer o texto e achei que o triângulo em volta de Sará ficaria perfeito. Chamei Ítalo Rossi, um ator que admiro muito e que não tem voz de narrador, nem é impostada.

 

Recebi um ultimato do Bando de Santo Spirito. Eu tinha que partir. Mas mesmo assim ainda perdi o navio quando ele saiu do Rio. Eu sabia que ele ia ficar durante o carnaval em Vitória. Eu tomaria o ônibus da rodoviária da praça Mauá e o navio em Vitória.

 

Acabamos a montagem no prazo previsto e primeiro vi na moviola, depois em banda dupla. Ali estava o filme realizado. Mil furos acima de Caminhos. Havia uma integração do cinema silencioso com o cinema falado. Pouca narração, e ela não explicava, as falas corriam livres como a imagem. Gostei. Achei que o filme ia dar samba. Mário, além de grande iluminador e câmera, era também um genial montador. Fiquei contente também de ter sacado, logo ao conhece-lo, o cineasta que ele era. E depois era meu amigo, meu querido amigo. Arraial do Cabo inaugurava, para o Cinema Novo, a relação revolucionária da quebra de hierarquia entre o diretor e a equipe. O diretor de cinema no Brasil deve fazer parte da equipe. Deve ser amigo dos seus colaboradores, numa relação afetiva.

 

Eu teria que partir, Mário mixaria o filme como se fosse eu. O filme também era dele.

 

Fomos comemorar o fim da montagem no baile pré-carnavalesco do Pierrot, que a escritora Eneida dava todos os anos na boate Black Horse. Para variar, tomamos um porre. Eu e Mário nos abraçamos muito, estávamos felizes. As mulheres estavam lindas. No salão, o valoroso Albino Pinheiro. Eu estava em casa e ia partir para a Europa. Umas prises de lança, novamente, vão me tirar do sério, como daquela vez que cheguei em casa, no Zacatecas, e o porteiro me ofereceu uma caixa de lodo metálico, ele queria vender, mas eu respondi: “No mês de junho? Que faço com tantas lanças?” Mas ele estava a perigo, com dívidas, e eu com dinheiro. Comprei e guardei bem guardado na gaveta do armário do meu quarto. Mas, quem disse que eu dormia? Rolava de um lado para outro da cama e...nada. Falava para mim mesmo: Umazinha só, depois eu durmo. Algum tempo depois batem na minha porta, eu escondo tudo e arrumo um pouco o quarto, abro a porta, era meu pai Guilherme. “O que houve? Parece um vendaval, e que cheiro é esse?” Fiquei com a cabeça enterrada no travesseiro, sem saber o que fazer. Meu pai, pelo perfume, percebeu logo e começou a falar comigo: “O que, em junho? E em casa, sozinho, o que você tem? Está te faltando alguma coisa? Você está culpado de alguma coisa?” Foi terrível. No outro dia, com aquelas lanças, fiquei com medo de me tornar um Heleno de Freitas. Distribuí tudo no Lamas.

 

Na Black Horse, foi uma crise de megalomania. Havia uma mulher linda e enorme ao lado de um cara que era um armário, de tão forte. Brigão e conhecido. Pode ter sido o Sérgio Petterzoni, famoso pelas brigas que aprontava. Tomei a prise e tirei a mulher para dançar. Tomei uma cotovelada no olho que quase me deixou cego.

 

Em casa, vi que minha mãe e minha irmã estavam cheia de preocupação pela minha viagem. Mamãe chegava a chorar. Meu pai estava orgulhoso. Sérgio, animado e paternalista. Norma me pedia várias coisas, que eu deveria trazes para casa na volta.

 

Mário tinha me preparado para a viagem. Ele, Titise e dona Corina me emprestaram vários casacos para o frio. Ensinaram-me como me portar numa mesa em Paris, etc. Era a primeira viagem que eu fazia ao exterior, eu estava nervoso.

 

Albino Pinheiro estava namorando Maria Elisa Costa, filha do doutor Lúcio Costa. Numa festa de despedida que Maria Elisa deu, conheci e comecei a namorar Helena, a filha mais nova de doutor Lúcio. Na festa, estavam também as duas irmãs Pinto. Marília, namorada de Mário, e sua linda irmã Maria Lúcia. Havia também Adail. Um time de garotas da melhor qualidade, em qualquer sentido. “O que é que vou fazer em Roma?”, eu pensava. “O verão está perfeito, mar azul, a praia apinhada de garotas belíssimas. O carnaval é daqui a uma semana...”

 

Helena era uma doçura, pensei que ela fosse virar uma grande escritora.

 

Mas quem virou escritora foi a atriz Maria Lúcia.

 

Eu estava apaixonado pelos livros de Clarice Lispector e os geniais Crônica da casa assassinada, do Lúcio e Grande sertão: veredas, definitivo, romance de Guimarães Rosa. Clarice, Lúcio e Rosa enaltecem qualquer país, e ainda tem Otávio de Faria, Cornélio Pena, Jorge Amado, Zé Lins do Rego, Graciliano Ramos, Machado de Assis, Lima Barreto, Euclides da Cunha, Nélson Rodrigues, Portinari, Goeldi, Iberê Camargo, Tarsila do Amaral, Oswald e Mário de Andrade, Djanira, Pancetti, Volpi, Oscar Niemeyer, Sérgio Bernardes, Drummond, Manuel Bandeira, Marcos Konder Reis, Mário Faustino, Paulo Mendes Campos, Jorge de Lima, Lúcio Costa e os milhares de jovens com muito tesão, sem falar de Villa-Lobos, Cartola, Tom Jobim, Aleijadinho e Ceschiatti etc. Vou-me embora, me preparar para voltar rápido e lançar esse movimento com Gláuber, Mário, Joaquim e Leon, botar o cinema brasileiro no lugar que ele merece. Afinal, Villa-Lobos fez música para um filme de Humberto Mauro, nós é que somos ignorantes de cultura do país. Vamos revolucionar e reverter isso.

 

Levo cartas. Uma de Lelena Cardoso, para a triz Lea Massari, que esteve no Brasil e ficou muito amigo dela e de suas amigas. E outras, dos amigos de Murilo Mendes. Malas prontas, tudo pronto para partir.

 

Uma ótima reunião com Mário e Cláudio Melo e Sousa. Joaquim estava preparando outro filme, Couro de gato; a Saga e Joaquim não paravam. Genial.

 

Não gostei de ter aceitado a co-direção com Mário Carneiro. Na verdade, eu fui diretor e autor do filme. Mário montou, fotografou, fez praticamente a banda musical e iria mixar o filme. Mas Mário naquele momento era eu. O diretor de cinema de autor é a mente e a mão oculta do filme e não aparece, não está visível em nada que se passa na tela, mas é tudo no filme. Mário acreditava no cinema-catedral, criação coletiva. Eu acredito na equipe, mas sem o maestro nada existe, não é arte, não é cinema. Até na indústria de Hollywood, onde 90% dos diretores são medíocres e empregados das majors. Eles são respeitados, porque os produtores sabem que os outros 10% de autores-diretores fazem o cinema revelar-se.

 

Não gostei, mas não podia entristecer um irmão como Mário. Ele achava que Arraial era dele também. E era, como era de Joaquim e de Montanha. O filme é de todos os que participam, mas quem tem a varinha mágica é o diretor/autor.

 

Não pude ficar contra o Mário e exigi que meu nome ficasse em segundo lugar. Não sei por que exigi isso. Foi por não querer brigar com ele. Durante anos, até Mário Carneiro fazer o seu filme, o genial Gordos e magros, nós iríamos brigar por isso, mas nada que sujasse ou empanasse a nossa grande amizade e amor.

 

Cheguei na rodoviária da praça Mauá cheio de malas grandes. Levava roupas para os dois anos que deveria ficar na Europa. Minha mãe exagerou. Eu não pretendia ficar tanto tempo. Um ano, talvez. Foi um custo colocar as malas no ônibus. Era véspera de carnaval, e o ônibus estava cheio. Como eu havia perdido o navio no Rio, iria toma-lo em Vitória, no Espírito Santo. Passaria o carnaval em Vitória. Na despedida, uma grande honra. O idealizador de Brasília, dias depois da inauguração da nova capital, foi ao meu embarque, acompanhando sua filha Helena. Doutor Lúcio Costa me disse que não era vantagem ir de Lloyd para a Europa, ele também já tinha ido, mas ir de ônibus era uma façanha e tanto. Rimos muito. Ana Letícia também foi a despedida e não gostou dos meus beijos com Helena.

 

Mário, querido, me escreva, acabe logo esta mixagem e mande uma coisa. Não vejo a hora de ver o filme. Vou tentar vende-lo e pagar dona Heloísa.

 

Norma chorava como manteiga derretida. Papai e mamãe estavam firmes. Sérgio feliz. Sérgio iria se aproximar demais de mim com esta viagem, através das cartas que nos escrevíamos sempre. O que era difícil nas conversas mudaria nas cartas.

 

E Sérgio adorava escrever cartas, a nossa comunicação ficou perfeita. Eu nunca o tinha visto tão empenhado e prestativo. Sérgio quebrou mil galhos, meus e de meus amigos. Voltou a ser aquele irmão da minha infância que me introduziu no samba e na política.

 

O ônibus partiu, eu estava agora sozinho, na escuridão daquele ônibus cheio, não tinha dormido muito, com a correria da despedida e do acabamento do Arraial, mas não conseguia dormir; pensava: felizmente não houve nada com meu olho, minha vista voltava a estar perfeita, as duas, e mesmo na semi-escuridão daquele ônibus – eu estava no banco de trás, por causa da longa despedida e das muitas malas que trazia – eu podia perceber, na terceira fila, uma garota interessante. Não era de se desprezar. Pela primeira vez eu vou ficar sozinho mesmo, num país onde não conheço ninguém, não manjo a língua. Ouvi, na minha infância, as tias e avós conversarem, devia ter prestado mais atenção, ou estudado um pouco. Sem dinheiro, contando com o dinheiro da bolsa...O curso já tinha começado em novembro, e se não tivesse mais dinheiro? Loucura, esta minha viagem. O Brasil fervendo e eu indo para o frio europeu...se bem que lá, em abril e maio, é primavera e a Itália deve estar linda. Passando pela Bahia, vou procurar Gláuber, Rogério Duarte. O navio deve ficar algum tempo em Salvador. Vou conhecer a Bahia, já é muito! Conhecer Salvador! Até que seria melhor passar o carnaval em Salvador. Vamos lá, seja o que Deus quiser. E Arraial? O filme tá bom, gostei. Para mim, fui eu que fiz o filme. Porque percebi, fazendo Arraial, que o diretor é essa mão oculta de Deus naquele momento específico. Tem o poder para criar, não para usá-lo arbitrária ou autoritariamente para se mostrar ou se afirmar (o que deve ser o caso de muita gente por aí), mas o diretor está ali, para dizer alguma coisa, passar uma emoção. É como disse: Faulkner: ele não pediu para ser o escolhido, mas foi, agora tem que botar o demônio desse sonho para fora, o cinema é a mais complexa das artes, é difícil realizar-se num filme, tem muita realidade e problemas de todo tipo. Se não fosse difícil, Lúcio e Guimarães Rosa – que é um John Ford mineiro – estariam fazendo cinema.

 

Mas o diretor-autor, para manifestar-se, tem que se tornar uma entidade, um orixá, ou um caboclo, ou até mesmo uma pomba-gira, e baixar na cabeça de cada elemento do elenco e da equipe. Todos têm que ser ele, manifesto, mas oculto, quanto mais oculto melhor. Falconetti não era Dreyer se queimando na fogueira, no Joana d´Arc? Sternberg não diz que Marlene Dietrich é ele? Deve dar muita insegurança no diretor que inicia e queer aparecer de qualquer maneira, isso é péssimo. Foi bom eu ter sido ator e diretor em Caminhos, deu para sentir essas coisas. Mas, o diretor deve star presente sempre, não foi bom deixar o Mário Carneiro sozinho. Tomara que ele mixe logo...Fiquei meditando, até a garota da terceira fila se levantar e ficar de pé, perto de mim, olhando a paisagem daquela noite escura. Não se via nada, e ela estava ali, olhando. Levantei-me também. Quando chegamos a Vitória, estávamos misturados com as malas, saturados de beijos e apertões.

 

Vitória era simpática naquele momento. Alguns blocos de sujos passavam com uma batucada imitando a do Rio. Despedi-me de Isaura chamando-a de Isaurinha Garcia. E tomei um táxi com mil malas, em direção ao porto de Vitória.

 

Instalei-me na cabine, malas pesadas e já detestadas, colocadas a salvo naquele espaço exíguo. Numa outra cabine, dois rapazes de Niterói. Um era baixinho, magro, moreno, sério e tocava mal violino, ia tentar uma bolsa. O outro era branco azedo, malandrinho e espertinho, ia se virar também para arranjar uma bolsa. Estavam indo ainda mais no escuro do que eu. O navio se chamava Paraguai. Passei o carnaval nos puteiros de Vitória. Vida de marinheiro é assim: mar, muito mar...chegou em terra, puteiro. Borel. Rendez-vous, lugar de perdição. Quero ouvir Lupicínio Rodrigues. E as putas tinham. Foi lindo. Depois chegou a tripulação do navio grego. Marinheiro grego, reis dos mares e dos portos. São conterrâneos de Ulisses, Circe e Onassis. Não é brincadeira. Mudaram os discos. Sai Lamartine Babo e entra Papadópolis, e caí na dança grega, todos de braços dados, como Anthony Quinn no filme de Jules Dassin, com Melina Mercouri. Me deram muita bebida, me deram lança e me deram pó. Fiquei à vontade e dancei na língua deles. As mulheres que nos recebiam escolhiam os homens. Fui bem escolhido e passei uma grande noite. Durante uma prise, gritei Beila Genauer. Dia seguinte, indo para a Bahia, eu queria saber o porquê do grito de Beila Genauer.

 

Beila era atriz de Pedro Mico, do Callado, dirigido por Paulo Francis, sendo eu o assistente. Beila era sedutora, tentadora, sensual, mas não era a puta que Callado pedia. Francis tentou tudo e acabou se apaixonando por ela. Mas Beila não ficava puta. Ela é ótima atriz, mas Francis tinha pudor. Estava apaixonado por ela, logo ela não podia ser uma puta. Eu teria feito dela uma puta, como no bordel de Vitória, onde vi como uma puta como Beila deveria ser.


Então lembrei-me do texto do Joaquim sobre Arraial, sensacional. Era uma apresentação, mas ao mesmo tempo uma crítica linda do filme. Ele devia estar sempre presente nos cinemas quando fosse exibido Arraial. Diz tudo:

 

Arraial do Cabo

Realização: Mário Carneiro e Paulo Saraceni.

Produtores: Sérgio Montagna, Joaquim Pedro e Geraldo Markan.

Letreiros sobre gravuras de Oswaldo Goeldi.

Texto de Cláudio Melo e Sousa, dito por Ítalo Rossi

Apresentação da Saga Filmes.

Arraial do Cabo é um pequeno povoado que fica próximo de Cabo Frio, no litoral fluminense.

Umas casinhas pequenas pintadas de branco e reduzidas à forma das necessidades domiciliares mais essenciais, o arraial se estende nas direções várias do aconchego e da economia praiana, dispondo-se longamente sobre um terreno de dunas e areia geral que uma vegetação rasteira sustenta contra o vento, erguendo-lhe a face áspera de suas folhas.

O povo, também, mostra no rosto as marcas desse assédio. A areia muito branca espalha agressivamente a luz crua do sol. As sombras são poucas e sempre a claridade ou o vento carregado de areia úmida andam a manter os olhos semicerrados, os músculos do rosto contraídos, a pele salgada, imperceptivelmente ferida. No Arraial do Cabo o traçado das rugas se espalha enganoso sobre o rosto duro do povo, disfarça-lhe a energia com os desenhos de uma velhice prematura.

Essa gente viveu sempre do mar e guarda as tradições de uma sociedade bastante primitiva de pescadores. Há alguns anos começaram ali, bem próximo do centro demográfico do arraial, a construção de um enorme estabelecimento industrial, a Fábrica Nacional de Álcalis. Verifica-se assim o súbito advento da era industrial em uma sociedade aferrada à simplicidade de uma economia e de costumes antiquíssimos, desenvolvidos num longo e natural processo de fixação ao litoral, e preservada de maiores influências exteriores.

O Museu Nacional, então dirigido por Heloísa Alberto Torres, aproveitando essa extraordinária oportunidade, planificou e empreendeu imediatamente um vasto trabalho de pesquisa científica em Arraial do Cabo, acompanhando e medindo os resultados de uma experiência inédita no domínio das ciências sociais e humanas. Nela existiam, entretanto, outros elementos importantes que escapavam ao interesse profissional dos cientistas. Foi por meio deles que Mário Carneiro e Paulo Saraceni, no filme que será agora exibido, conseguiram revelar uma outra realidade essencial na transformação de Arraial.

Os pescadores e os operários, a cidadezinha e a fábrica são os elementos de um conflito. Armados em montagem de contraponto, que governa tanto a sucessão das imagens como a trilha sonora, eles a princípio se opõe, para se fundirem depois, despondo-se gradativamente dos aspectos de oposição e revelando, nesse mesmo andamento, a sua identidade fundamental, afinal declarada na cena do bar. Esse esquema geral de construção é bastante flexível para permitir um desenvolvimento desigual dos elementos básicos, construindo-se a maior parte do filme sobre o tema da pesca, justamente aquele de maior potencialidade plástica e dramática, de mais interesse como objeto de documentação.

 

Quincas viu e gostou, mas ele é diferente do Gláuber, que é caloroso. Quincas é discreto, sutil. Comuna também, mas mantém a classe. Gosto cada vez mais dele. É grande cineasta, se ele quiser pode fazer um filme comercial que bata recorde de bilheteria, sem perder um fotograma de dignidade e criação. É duro com ele mesmo, talvez por herança de doutor Rodrigo, mas como dona Graciema, a mãe, é muito sensível, ele é complicado. Nas reuniões, coloca um pensamento perfeito, toda as opiniões de cada um, todo mundo de acordo. Quando volta a palavra para ele, já não quer mais, mudou de opinião. Mas tem um pensamento articulado e claro, quando expõe uma ideia, ou quando escreve, ou quando filma. Todo mundo entende.

 

Gosto também do Leon. Judeu e comunista. Com que classe ele conduz sua linha dialética e marxista! E gosta de música popular do morro. É da Zona Norte do Rio. Superinteligente, estudioso e preparado. O problema é ele não entrar na onda stalinista. Mas, não, Leon sabe o que Stalin fez com Maiakovski e Eisenstein. Assistiu Ivan, o Terrível. Está encantado com o teatro revolucionário de São Paulo no Arena. Lá está o meu amigo Gianfrancesco Guarnieri, então deve ser bom.

 

Os candidatos para presidente devem ser Lott e Jânio Quadros. Vai ser duro Lott ganhar. Acho que não vou votar. Vou ficar no estrangeiro, não sei em quem votar. Fico neutro e esperando pela volta de JK.

 

Publicado originalmente em SARACENI, Paulo César. Por dentro do Cinema Novo: minha viagem. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993.

segunda-feira, 12 de agosto de 2019

Grandes entrevistas de PBY: Jece Valadão em 2007


Playboy entrevista Jece Valadão

                  
Uma conversa franca com aquele que foi o ator mais cafajeste do Brasil sobre aventuras com mulheres casadas, surubas com o presidente João Figueiredo e como ele broxou com Norma Bengell

Jece Valadão estava animado. Em casa, um apartamento simples no centro de São Paulo, vestia camisa e calças sociais, tinha os cabelos penteados para trás e escondia os pés descalços na mesa da sala. Era o dia de sua primeira bateria de entrevistas para PLAYBOY e ele se sentia prestigiado. Nos últimos dez anos, Valadão, dono de um currículo em que constam 107 filmes, estrela do Cinema Novo e da Chanchada, andava um tanto esquecido. Só recentemente voltara a ocupar páginas de jornais e revistas graças ao papel principal no seriado Filhos do Carnaval, da HBO (série indicada ao Emmy Internacional), e às filmagens do longa Encarnação do Demônio, de José Mojica Marins, o Zé do Caixão. Também procurava patrocínio para o filme O Dia do Juízo Final – a história do apóstolo Paulo de Tarso – e esperava a estreia no cinema de Cinco Frações de Uma Quase História, em que interpretou um juiz corrupto. Mas o que mexia com a vaidade de Jece Valadão era uma homenagem que acabara de receber do Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio de Janeiro, com a exibição de alguns dos principais filmes de sua carreira.

Jece estava sumido desde que se convertera à religião evangélica e aposentara o papel que o consagrou: do cafajeste. Passou a última década dando seu depoimento evangélico em templos Brasil afora, contando sobre a visão de Deus que o fez largar vícios e dedicar-se à pregação de palavra. Foram dez anos afastados dos holofotes – segundo ele, tempo necessário que se tornasse um evangélico convicto e não caísse nas inúmeras tentações do meio artístico. Pai de nove filhos – cinco dos quais reconhecidos -, casou-se pela sexta vez com uma amiga de culto, Vera Valadão, de 45 anos. No dia e que recebeu PLAYBOY pela primeira vez, Jece falou sobre suas dificuldades. Contou que, certa vez, teve de pedir 20 reais emprestados a um amigo. Explicou que, nesse período, sua fonte de renda foi a venda de CDs e DVDs com seus “testemunhos de fé”. Mas estava confiante de que o tempo das vacas magras havia passado. “Assinei um contrato com a Rede Record de três anos. Você sabe o que é isso para um homem de 76 anos?” Jece Valadão estava certo de que viveria muito mais do que o suficiente para honrar seu contrato com a emissora. E gabava-se de sua saúde de ferro. “Eu não tenho nada no pulmão, nem problemas respiratórios. Só tenho uma diabete controlada. Passei 65 anos comendo errado, fazia tudo que desse na telha”.

Filho de pais camponeses, Jece descobriu o talento para a sétima arte ainda criança, em Cachoeiro do Itapemirim, no Espírito Santo. Ganhava pedaços de rolos de filmes de um amigo que trabalhava no cinema da cidade, colava-os e, com a ajuda de uma caixa e uma lâmpada, fazia projeções para os meninos da vizinhança. Começou sua vida profissional como locutor de rádio, mas sabia que o seu futuro estava na telona. Mudou-se para o Rio de Janeiro e, na primeira vez em que pediu emprego na Atlântida, ouviu de um de seus mais importantes diretores, Watson Macedo, que não era bonito o suficiente para o ofício de ator. “Aquilo acabou comigo”, contou. Mas conseguiria um papel de figurante no filme Também Somos Irmãos e, por uma artimanha do destino, despertou profunda atração física no diretor José Carlos Burle. Deveria apenas entregar um chope ao personagem vivido por Jorge Dória, mas terminou contracenando com Grande Otelo.

Jece Valadão adorou aquele ambiente – “via aquelas luzes e sentia-me em Hollywood” – e passou a frequentar congressos e seminários de cinema do Rio de Janeiro. Num deles, conheceu o diretor Nelson Pereira dos Santos e com ele filmou Rio 40 Graus, Os Cafajestes (1962), de Ruy Guerra. Contou que bateu em mulher, desvirginou púberes, andou com revólver sem porte de arma, virou incontornáveis garrafas de whisky, foi amigo do peito de um membro do Esquadrão da Morte, cheirou cocaína. Naquela ocasião, folheou, com assumida curiosidade as edições de PLAYBOY de Mariana Felício, Flávia Alessandra e dos Aviões da Varig, que recebeu de presente da repórter Adriana Negreiros. Sugeriu à esposa, evangélica, que escolhesse um lugar no guia de motéis encartado na edição de julho de PLAYBOY, para que os dois passassem uma noite. Riu, com jeito de criança levada, quando ela lhe passou um pito pela proposta indecorosa.

Nada sugeria que o vivaz Jece Valadão estaria morto poucos dias depois dali. Quando ele foi internado com insuficiência respiratória, no dia 20 de novembro último, a edição de dezembro de PLAYBOY já estava na gráfica. As sete horas de conversa com o ator, previstas para serem publicadas nesta edição, já haviam sido transcritas e editadas. Poucos dias antes de ir para o hospital, ele havia pedido à repórter que o sabatinou que enviasse para sua casa a edição de outubro, com a entrevista do ator Daniel Filho, seu colega em Os Cafajestes. Confessou que estava curioso para ler o que sairia publicado a seu respeito. “Por favor, seja boazinha comigo”, pediu. Jece Valadão morreu às 17h20 do dia 27 de novembro de 2006. Esta foi sua última entrevista.

PLAYBOY- Você havia dito que não faria o novo filme do Zé do Caixão, Encarnação do Demônio, porque batia de frente com o que você pensava. Mas resolveu aceitar o papel. O que mudou?

JECE- Eu mudei algumas coisas no diálogo que vão justificar a minha participação. O meu personagem é um coronel da polícia que persegue o Zé do Caixão. Não é bem um vilão. Eu represento a Justiça. Eu acrescentei um diálogo em que meu personagem fala: “Sou católico apostólico romano e meus santos me salvam”. A sala dele é lotada de santos. No final do filme ele morre e diz: “Meus santinhos não resolveram meu problema”. Ou seja, ele mostra que a idolatria não leva a nada.

PLAYBOY- O título do filme com referência ao demônio não te incomodou?

JECE- Eu tenho acesso direto ao Espírito Santo e ele me disse: “Meu filho, seja qual for a tua decisão, o filme será feito. Então, melhor que seja feito com a sua voz destoante”. Também consultei meu pastor. Além do mais, estão me pagando muito bem.

PLAYBOY- Do que você é proibido?

JECE- Não sou proibido de fumar nem de beber. Se eu quiser beber um whisky agora, eu bebo e nenhum produtor me proíbe. Mas não faço porque tenho consciência de que faz mal para o meu corpo. Não bebo, não fumo e não cheiro pó, por convicção.

PLAYBOY- Mas houve um tempo em que você fazia isso tudo.

JECE- Eu bebia uma garrafa de whisky numa sentada. Só com gelo. Whisky bom, escocês. E não ficava de porre. Fumava quatro maços de cigarro por dia. A única coisa que não pratiquei foi o consumo de drogas.

PLAYBOY- Nem por curiosidade?

JECE- Só uma vez, no Rio de Janeiro, na casa de uma milionária. Toda semana ela dava festa. Ela tinha uma mesma de mármore preta no meio da sala e preparava as carreiras de cocaína para os convidados. Eles pegavam notas de dólar e cheiravam aquele negócio. O único que não cheirava era eu. E ela não aceitava. Mas ela encheu tanto o meu saco que eu falei: “Vou lá”. Cheguei, cheirei aquele negócio de uma vez. Sabe o que aconteceu? Sentei no sofá e dormi a festa inteira. Eu preferia o whisky.

PLAYBOY- Muita gente que vira evangélica renega o que fez. Você não se furta a falar sobre suas aventuras do passado. Por quê?

JECE- Meu passado é um livro aberto, como é que eu vou negar?

PLAYBOY- Então vamos falar dele. Você já se envolveu em muitas brigas?

JECE- Várias vezes. Eu vivi muito perigosamente. Eu arriscava a vida praticamente toda noite. Eu e um amigo saíamos para as boates, no Rio, e nosso prazer era tomar a mulher dos gringos. Sentávamos numa mesa, pedíamos whisky, começávamos a beber e ver quem era bonita. Não importava quem estivesse ao lado da mulher, a gente começava uma paquera. Mandava o maître falar com ela, levava recadinho. E na maioria das vezes tomava a mulher do cara. Isso é arriscar a vida. Se você pega um cara invocado, ele puxa o revólver.

PLAYBOY- Já aconteceu?

JECE- Uma vez, numa boate, a mulher de um cara começou a dar bola pra mim. Começou a dançar na minha frente, fazendo charme. E o sujeito se invocou. Esse era brasileiro. Estava no meio de pileque e veio falar comigo. Eu falei: “Não me enche o saco”.  E dei um empurrão, ele caiu sentado. Na hora de ir embora, o cara veio me provocar. Eu já estava com alguns whiskies na cuca. Ele disse: “Você não foi homem comigo e eu quero desfazer esse negócio aqui agora”. Falei: “Não vou fazer nada com você. Vou mijar no teu pé”. E mijei. Molhei a calça, o sapato. Mas o negócio foi tão agressivo que o cara ficou parado, virou estátua. Meu amigo já estava com o carro ligado, saímos morrendo de rir.

PLAYBOY- E a agressão ficou por isso mesmo?

JECE- Que nada. O cara me conhecia. Passaram-se uns três dias e toda noite passávamos na Fiorentina, que era um restaurante do Leme (bairro da zona sul do Rio de Janeiro) que ficava aberto a noite inteira e era frequentado por artistas. Um dia eu vou chegando e o maître corre. “Seu Jece, tem um cara aí com um revólver desse tamanho querendo te matar”. Olhei o cara e reconheci. Ele estava sozinho numa mesa. Fui lá, sentei de frente pra ele e disse: “Você veio me matar? Então que mate logo, ou eu te dou umas bolachas e te faço engolir o revólver. Agora, se veio conversar, estou disposto a pedir desculpas pelo que fiz. Eu sei que errei, mas você folgou demais”. Aí o cara começou a chorar, coitado. Eu tripudiava com as pessoas, tinha uma falha de caráter muito grande. Andava armado com uma pistola de 13 tiros, engatilhada, sempre.

PLAYBOY- Você tinha porte de arma?

JECE- Nada. Dirigi a vida inteira sem carteira. Tirei quando vim morar em São Paulo, em 85. Eu tinha motorista, mas quando ele faltava eu dirigia e fui pego várias vezes. O guarda reconhecia e me liberava.

PLAYBOY- Chegou a usar a arma?

JECE- Nunca dei um tiro. Mas tinha uma arma sempre dentro do carro. Vim para São Paulo com essa pistola 765. Eu estava casado e a mulher enchia meu saco para eu vender. Vendi e uma semana depois saí do escritório e parei num sinal. Aí vem um cara com um revólver 22. Eu tinha um Rolex Presidente. Tirei o relógio e dei na mão daquele débil mental. Saiu andando para vender por 50 reais. Se eu tivesse com a arma ali, não tenha dúvidas de que eu o matava, pelas costas. O ódio era grande.

PLAYBOY- Na série Os Filhos do Carnaval, você interpreta um bicheiro. Qual era a sua relação com Castor de Andrade, o bicheiro mais famoso do Brasil?

JECE- Eu era muito amigo dele. Ele era duas pessoas distintas. Uma era o bicheiro de Bangu, dono da escola de samba. E era outro em Copacabana. Eu era amigo do Castor de Copacabana. Ele foi meu sócio no filme Os Cafajestes. Teve um filme que eu fiz em que precisava de armas. Era uma época difícil de conseguir armamento, por causa da Ditadura. Não consegui no Exército, fui no Castor e ele me abriu o arsenal dele. Me emprestou todas as armas e eu fiz o filme.

PLAYBOY- Que tipo de arma?

JECE- Fuzil, metralhadora, revólver 38 e mais alguns de 13 tiros. O Castor de Andrade tinha um arsenal. Mas ele era uma pessoa dócil. Uma dama.

PLAYBOY- Vocês chegaram a aprontar muito juntos?

JECE- Não. Eu aprontei muito com o Mariel Mariscot (policial membro do Esquadrão da Morte). Fiz um filme com ele, Eu Matei Lúcio Flávio (1979). Ele estava na prisão, eu ia lá, ele me contava a história dele e eu anotava. Depois fiz o argumento do filme.

PLAYBOY- O que vocês fizeram?

JECE- Teve uma vez em que eu estava fazendo o filme, e o Mariel falou: “Ô Jece! Qualquer dia desses eu vou te levar para um extermínio. Aí você vai ver como é, para fazer direito no cinema. Porque um extermínio de verdade, não tem nada a ver com o que você faz no cinema não, viu?”. Eu querendo bancar o machão, disse: “Tá bom, na hora que você me chamar, eu estou lá”. Três ou quatro dias depois ele me telefona: “Hoje vai ter execução lá no aterro do Flamengo. Vamos marcar em tal lugar na Cinelândia 9 horas da noite”. Eu falei: “Tá bom”.

PLAYBOY- E foi?

JECE- Eu desliguei o telefone e falei: “O quê? Assistir a uma morte? Mas não há condições de eu ir”. E obviamente não fui. No dia seguinte li no jornal: pegaram um cara, levaram para o aterro do Flamengo, amordaçaram, degolaram com o cordão, atiraram na cabeça. Era um bandido. A imprensa descobriu que ele estava hospedado num hotel no centro da cidade e foi lá. E o porteiro do hotel disse: “Ontem vieram aqui três caras e saíram com ele”. Agora imagina se eu tivesse ido? O porteiro ia dizer: “O Jeca Valadão esteve aqui”. E no dia seguinte o Mariel me liga: “Pô, rapaz, você não foi”. Eu inventei que o meu filho ficou doente. Ele disse: “Então na próxima eu te chamo, hein?”. Eu falei para a secretária: “Se o Mariel ligar, eu não estou”. Porque o Mariel era apaixonado por mim. Sabe paixão?

PLAYBOY- Paixão?

JECE- É, paixão no bom sentido. Se você olhasse atravessado pra mim, ele provocava você para brigar. Então eu tinha que ter um cuidado tremendo com ele. Atrito normal do dia-a-dia, ele já queria matar. Porque ele matou mais de 80. Ele contou. Depois que mata o primeiro vai embora, né?

PLAYBOY- O Mariel chegou a te meter em alguma confusão?

JECE- Quase. Um dia ele fugiu da penitenciária e de repente eu estou em casa – a polícia inteira procurando por ele – e recebo um cartão. Abro o envelope, é um cartão de Brasília, com um anjo em cima de uma catedral, no ar, e ele escreveu: “Amigo Jece, foi assim que eu fugi daquela m(*)”. E mandou para o meu endereço. Quando ele telefonou para mim, eu falei: “Mariel, pelo amor de Deus, não manda nada pra o meu endereço. Você está sendo procurado pela polícia do Brasil inteiro”. Pegar uma cana porque o Mariel mandou um cartão pra mim? Porque ele casou com a atriz Darlene Glória, tem um filho com ela e fui em quem apresentei os dois. Eu sabia que o caminho dele não tinha volta. Mas era uma dama. Era delicado. Se o cara o conhecesse direito, achava até que ele era veado. Era de uma gentileza, aquelas pessoas boas, sabe? Mas um matador. Impressionante.

PLAYBOY- Comenta-se que você deu o golpe do baú ao se casar com a Dulce Rodrigues (irmã do dramaturgo Nelson Rodrigues). Casou-se por interesse?

JECE- Eu me casei com a Dulce Rodrigues porque fui conhecer o apartamento em que ela morava e fiquei entusiasmado. Aquilo não era uma apartamento, era um palácio. Para você ter uma ideia, o imóvel foi comprado da Embaixada da Itália. Eu tentei dar o golpe do baú, mas o baú estava furado. Comecei a trabalhar feito um louco. A Dulce era uma mulher maravilhosa, apaixonada por mim. Depois que eu a deixei e casei com a Vera Gimenez, ela ia receber pensão e gastava tudo em maquiagem e roupas para me ver. Eu nem aparecia, mandava a secretária pegar. Maldade mesmo.

PLAYBOY- Sua relação com a Vera Gimenez foi tumultuada e depois da separação ela te acusou de não pagar a pensão do filho. Você não pagava?

JECE- Vera Gimenez foi minha quarta mulher e nós temos um filho, o ator Marco Antônio, que está virando celebridade como o Urubu, de Malhação. Foi um casamento muito atritado, neurótico, as duas personalidades se batiam. Foram 13 anos de guerra. E não entrava na minha cabeça que eu tivesse que pagar pensão alimentícia para o Marco Antonio porque ela estava casada com outro. Mas todo mês ela me ligava, cobrando, e eu pagava. Eu tinha horror a São Paulo e vim morar aqui para me ver livre dela. Eu não suportaria cruzar com ela.

PLAYBOY- Ela costuma dizer que você só é evangélico para os outros.

JECE- Ela disse isso várias vezes. Mas não tem a menor importância. Logo que eu me converti, eu senti vontade de pregar a palavra para a Vera. Um dia ela falou: “Eu não admito um Deus que manda Abraão matar seu filho”. Todo mundo pensa que ela é evangélica, mas ela é umbandista. Tenho pena, porque ela precisa da palavra. Já teve câncer no seio. Deus já deu vários avisos. O marido dela, com quem ela se casou depois de mim, morreu de Aids. A Vera fica preocupada, na expectativa de ter o vírus incubado. Agora teve câncer nos ossos.

PLAYBOY- Umbanda é coisa do diabo?

JECE- Não tenho a menor dúvida. Quando eu era ateu, tive oportunidade de frequentar um centro espírita de umbanda. E como eu era Jece Valadão, a mãe-de-santo me ungiu como Exu Rei. Aí eu fingia que recebia o Exu para comer a auxiliar de mãe-de-santo que era muito bonita.

PLAYBOY- E comeu?

JECE- Comi. O terreiro parava porque eu ia receber o Exu Rei. Vê se pode um negócio desses. Eu sou ator e dizia um monte de coisas desconexas. O que eu falava era lei para eles. Com isso, eu me credenciei tanto diante dessa mãe-de-santo auxiliar que ela acabou se entregando para mim.

PLAYBOY- É de supor que sua fama de cafajeste também exercesse fascínio sobre os homossexuais.

JECE- Demais. Quando eu me casei com a Dulce, recebi um abaixo-assinado com mais de 200 assinaturas de bichas do Rio. De protesto. Porque casando ficava mais difícil conseguir ter um caso comigo. O sonho das bichas era me levar para a cama. Mas tenho orgulho de dizer que nunca tive uma relação homossexual. 

PLAYBOY- Os gays te agarravam?

JECE- Agarravam, mas eu impunha respeito. Várias vezes eu tive que dar uns tabefes em uns. Uma vez eu estava no Canecão, fui ao banheiro e entraram três bichas. Queriam me agarrar à força. Eu suei, saí de lá todo amassado, distribuindo bolachas nos caras. Ainda bem que chegaram dois amigos e botamos as bichas para correr. Quase saíram de lá nus.

PLAYBOY- Existe uma história de que o ator Burt Lancaster (astro do filme A Um Passo da Eternidade) deu em cima de você. É verdade?

JECE- Depois de Os Cafajestes, eu fui pra Itália, e a Norma Bengell estava lá, filmando na Sicília. Me encontrei com ela num hotel onde estava também, o elenco de O Leopardo com Alain Delon e do Burt Lancaster. E o Burt começou a dar em cima da Norma, saía muito com ela. A Norma resolveu me apresentar pra ele. Fomos jantar juntos, os três. Começamos a tomar vinho, eu não falava uma palavra de inglês e a Norma fazia a tradução. E eu ali cabreiro. De repente, ele botou a mão na minha perna., Eu pensei que fosse uma coisa natural, mas ele começou a apertar e subir a mão. Aí eu olhei para a Norma e disse para ela traduzir a seguinte frase: “Ou tira a mão do meu pau ou eu vou estourar esta garrafa na sua cabeça”. A mão do cara era enorme. Cobria a minha perna inteira. A Norma ficou apavorada e falou com ele. E ele: “Ok, I´m sorry”. Não sei se ele era bicha ou não, mas teve uma recaída. E não estava querendo me comer, não! Queria dar para mim.

PLAYBOY- Você participou de todas as modalidades sexuais?

JECE- Menos homossexualismo. O resto tudo eu topei. Não é que não gostava, eu ia no embalo. Participei de várias surubas, inclusive com o Daniel Filho, o Herval Rossano (diretor de TV), todo mundo junto. Bacanal mesmo.

PLAYBOY- Qual foi o máximo de pessoas que vocês colocaram numa suruba?

JECE- Teve uma vez, na casa do Daniel Filho – os pais dele foram para a Argentina e ele ficou morando sozinho num apartamento grande, no Leblon, em que tinham uns quatro homens e umas oito mulheres.

PLAYBOY- Como foi sua primeira vez?

JECE- Foi uma experiência ótima, com uma prima mais velha. Eu tinha 13 anos. Gostei, mas não quis mais e eu fiquei na pior. Com 14 anos, eu não aguentei, fui na zona e conheci a Amelinha. Tinha idade para ser minha avó. Eu entrava por trás da casa, pulava a cerca e entrava pela janela do quarto. E foi ela que me formou sexualmente.

PLAYBOY- Você foi amante de mulheres casadas?

JECE- Várias vezes.

PLAYBOY- Houve uma que quis transar com você vestido de bicheiro, não?

JECE- Eu estava fazendo o Boca de Ouro (1963) no cinema, filmando com dentadura, prótese de outo, aquela roupa branca, sapato bicolor. Um dia eu estou no estúdio, chega uma grã-fina com uma Mercedes do ano, me chama e fala: “Entra aí”.

PLAYBOY- Era bonita?

JECE- Linda. Ela falou: “Vai lá dentro e volta com toda indumentária do Boca de Ouro”. Ela tinha visto uma reportagem numa revista sobre o filme com uma foto minha caracterizado como Boca de Ouro. Botei a prótese, peguei a roupa, gravata, entrei no carro e fomos embora. Subimos a mata da Tijuca e lá em cima tinha um banco de cimento armado. Ela possuiu o Boca de Ouro. Ela mesma tirou a minha calça e me botou deitado no banco de cimento, uma escuridão tremenda. Daqui a pouco comecei a me coçar, estava cheio de formigas. Eu não senti na hora, naquele entusiasmo. Eu batia assim no peito e saíam cachos de formigas. Eu saí todo empolado. Foi a relação sexual mais difícil que eu tive em minha vida.

PLAYBOY- Quando surgiu a Aids, você teve medo de estar contaminado?

JECE- Ela surgiu mais tarde. Nunca transei com camisinha. Quando eu casava, sempre tinha a casa de uma amante teuda e manteuda e uma garçonnierè para as terceiras, um pequeno apartamento alugado em Copacabana para atender às demandas. Porque naquela época não tinha motel. Mas eram sempre mulheres conhecidas e eu não tinha preocupação. Mas quando surgiu a Aids eu estava mais seletivo. Mas tive sorte. Nunca peguei doença venérea.

PLAYBOY- Você já disse que as mulheres dão com uma facilidade impressionante para cafajestes. Com quantas mulheres você já transou?

JECE- Não tenho ideia, é muita mulher. Eu passei dois anos solteiro e era questão de honra: uma mulher por dia. Era aluguel de apartamento em Ipanema, todo transado. Transado para transar (risos). A mulher entrava lá e tinha que dar. Não tinha jeito. Eu transava e dava o dinheiro do táxi para ela ir embora. E era sempre mulher boa. Porque eu frequentava os lugares e estava com tudo – dinheiro, fama, sucesso. Mulher está sempre sobrando em determinadas circunstâncias.

PLAYBOY- Antes do filme Os Cafajestes havia um grupo chamado “Clube dos Cafajestes”, do qual você fazia parte, além de Carlos Niemeyer (cineasta), Baby Pignatary (playboy) Carlos Imperial (produtor musical). O que vocês faziam?

JECE- Era uma reunião para conversar, contar vantagem, dizer quem comeu quem. Uma vez fomos convidados para participar do Baile do Galo, em Recife. O governador era o Miguel Arraes. Fomos eu, Carlos Niemeyer e Mariozinho de Oliveira, que era outro playboy. E mais um cara casado com a miss Bangu, muito bonita, que viria a ser a mãe do ator Felipe Camargo. Cada um foi com uma mulher bonita.         Éramos oito convidados do governo. Quando chegamos lá, os playboys de Recife ficaram a fim de mulher as mulheres da gente. E elas sabiam que se dessem para eles iam ficar porrada até dizer chega. Mas os caras darem em cima a gente não podia proibir. Enquanto os caras cantavam as nossas mulheres, a gente comia as mulheres deles.

PLAYBOY- Você já transou com alguma feminista?

JECE- Não, elas eram muito feias. Eu dizia: “Vocês são feministas porque têm bigode, usam essas roupas”. Elas babavam de ódio. Eu dizia que mulher comigo tinha direito a três frases: “Pra dentro, criança”, “Sim senhor, meu marido” e “Xô, galinha”. Elas me chamavam de ignorante.

PLAYBOY- Durante o regime militar, você teve uma rápida incursão no comunismo. Por que caiu fora?

JECE- Eu sempre fui capitalista. Mas o Nelson Pereira dos Santos me encheu tanto o saco que eu fui fazer o curso Stálin. Marcaram o dia. Nove horas da noite, no centro do Rio, lugar escuro. Comunismo era proibido. Nove horas eu estou lá com a minha malinha. Aí para o carro e me empurram para dentro. Quando sentei no banco de trás, me vendaram os olhos. O carro começou a rodar. Disseram: “Aqui você não se chama Jece Valadão, aqui você se chama Rogério. Teu nome de guerra”. Rodou. Abriram a porta, me botaram dentro de casa e tiraram a venda. Eu não sabia onde estava. Janelas vendadas. Ficamos 15 dias ali, uma cozinhava, outro lavava. Vinham três professores por dia dar aulas, aquela lavagem cerebral.

PLAYBOY- Qual foi o resultado disso?

JECE- Saí de lá querendo metralhar tudo quanto era capitalista. A primeira coisa que fiz foi ir para a Câmara de Vereadores distribuir prospectos. Fui preso na hora. Fiquei comunista meia hora. Me levaram para a delegacia. Não apareceu um p (*) dum comunista lá para me salvar. O delegado viu que era um inocente útil e nem me fichou. Fiquei preso umas três horas. Tomei ódio por comunista.

PLAYBOY- Você foi acusado pelos comunistas de ser de direita?

JECE- Não, apesar de ser amigo do João Figueiredo (presidente do Brasil de 1979 a 1985). Ele era meu amigo antes da Revolução de 64. Fomos colegas de academia do Gracie, de jiu-jitsu. O Figueiredo era chefe do SNI (Serviço Nacional de Informação), e como eu tinha problemas de censura com meus filmes, ia muito a Brasília. Um dia, eu salto no aeroporto de Brasília e quando estou pegando minha bagagem entra um oficial do Exército e diz: “Você é o Jece? Pois está preso”. Me botaram dentro dum carro, me levaram para o Palácio do Planalto e me jogaram dentro do gabinete do Figueiredo. Ele vem lá de dentro e diz: “Você não vem aqui, então eu mando te prender”. Na ante-sala estavam ministros, deputados, todos esperando para falar com ele. E passamos três horas contando piada.

PLAYBOY- Figueiredo era cafajeste?

JECE- Era sim. Ele participou de várias surubas comigo.

PLAYBOY- Você participou de várias surubas com o presidente Figueiredo?

JECE- Sim. O grau de intimidade entre homens é medido nessa hora, entende? É quando participa de várias coisas junto. Mas foi antes de ele virar presidente da República. Quando ele virou presidente, pensei: estou feito. Mas quem disse que eu conseguia falar com ele? Não deixavam, com ciúmes. Na época do SNI, a censura pensava três vezes antes de cortar um filme meu porque eu era amigo do chefe. Usei muito isso.

PLAYBOY- É verdade que você broxou com a atriz Norma Bengell, uma das mulheres mais desejadas da época?

JECE- Quando eu fui produzir Os Cafajestes, chamei o Ruy Guerra e o Miguel Torres para escrever o filme. E falei: “Quero a Norma Bengell”. O Ruy Guerra não queria, porque ela era uma vedete. Eu disse que preferia tirar o diretor a ficar sem a Norma e ele teve que aceitar.

PLAYBOY- Você queria a atriz Norma Bengell no filme...

JECE- Para comê-la. Mas quebrei a cara. Ela dava para o mundo inteiro, menos para mim. O Ruy Guerra se apaixonou por ela e quebrou a cara também. A Norma tinha horror ao Ruy. Depois de passar o dia filmando naquelas dunas escaldantes, ele chegava ao hotel e não tomava banho, deitava na cama com areia e tudo. Até que um dia eu e a Norma estávamos hospedados numa casa em Jacarepaguá, para fazer outro filme, quando ela me agarrou por trás e disse: “Hoje eu vou dar para você”. O impacto foi tão grande que meu pau encolheu. Quanto mais esforço eu fazia, pior as coisas ficavam. Fiquei desesperado, queria me matar.

PLAYBOY- Ela espalhou a história?

JECE- Espalhou e eu também. O que eu posso fazer? Não consegui. Norma Bengell foi uma das poucas mulheres que trabalharam comigo e com quem não tive um caso.

PLAYBOY- O filme Rio 40 Graus, do qual você participou, enfrentou problemas com a censura. Como vocês resolveram isso?

JECE- Fizemos acordo com o Juscelino Kubitscheck, que estava em campanha presidencial. A gente fazia a campanha e, se ele fosse eleito, liberaria o filme. Meu papel era pegar um bonde e percorrer um trecho de 500 metros, fazendo discurso. Eu dizia que o JK era a solução, que ele tinha maioria no Congresso. Ele foi eleito e cumpriu a promessa. E o JK também era um cafajeste. Sentava, tirava o sapato, coçava o pé. Era um mulherengo.

PLAYBOY- Para fazer Rio 40 Graus, você e o resto da equipe hospedaram-se num apartamento no Rio. Viveram muitas aventuras nessa época?

JECE- Éramos seis pessoas nesse apartamento. A produção tinha uma Kombi velha caindo aos pedaços, uma máquina do cinema mudo, uns refletores velhos. A gente cozinhava e limpava. Fazia uma espécie de rodízio. E eu era assistente de direção, o ator principal da fita e encarregado de sair à noite para arranjar namorada. Ela ia na nossa casa, ficava com pena da gente e fazia macarrão. Porque quem cozinhava era o Nelson, quando não tinha mulher, ou o Hélio Silva, diretor de fotografia, mas os dois cozinhavam muito mal.

PLAYBOY- Com que frequência ia à rua?

JECE- Quando a coisa apertava eu tinha que sair. Tinha uma mulher no apartamento de frente, totalmente louca, e ficava me namorando pela janela. Descobrimos com o porteiro que ele era amante de um dono de supermercado. Ela tinha uma bebê de uns seis meses, filha do dono do armazém. Aí comecei a dar mais bola. Fui lá. A mulher era uma ninfomaníaca. Ela me arranhava. Eu saía de lá e parecia que vinha da guerra. Era sadomasoquista. Eu tinha que bater nela, aquelas loucuras. No dia seguinte, mandava uma cesta básica para a gente, com biscoito, doce, uma maravilha. A equipe não queria outra vida (risos).

PLAYBOY- E quando acabava a ceia?

JECE- Eu tinha que para o sacrifício outra vez. E a mulher se apaixonou de tal maneira que começou a ficar violenta demais. A vizinhança toda sabia do caso, era uma verdadeira tragédia. Eu me escondia de todas as maneiras possíveis. Teve uma vez que eu não queria ir de jeito nenhum e ela pegou a filhinha pela perna, pendurou na janela e disse: “Jece! Se você não vier agora, eu jogo a minha filha lá embaixo”. Estávamos no sétimo andar. Olha a situação. Para salvar a criança eu fui lá. Mas exigi três cestas. Aí o filme ficou pronto e vem a censura e proíbe (risos).

PLAYBOY- Como você, que lidou com tamanha falta de infra-estrutura para fazer cinema, se sentiu na primeira vez que foi ao Projac, o centro de produções da Globo?

JECE- Levei um susto. Você entra na ante-sala e tem uma mesa enorme com todas as bebidas, doces, salgados. E aí entra no estúdio e é aquele negócio maravilhoso, mulheres lindas, de biquíni. É o poder, a bonança. Se você não estiver muito preparado, leva um baque tremendo. Por isso, durante nove anos e meio, Deus não permitiu que eu colocasse o pé no meio artístico. Toda vez que eu marcava para conhecer o Projac, acontecia alguma coisa e eu não podia ir.

PLAYBOY- Por quê?

JECE- Ele estava me preparando, porque se eu conhecesse o Projac e continuasse no meio artístico com o pouco conhecimento da palavra que tinha, eu teria voltado para o mundo. A tentação é muito grande. Até que nove anos e meio depois eu estava orando aqui nessa sala, Deus chegou para mim e falou: “Agora você já pode voltar ao seu meio”. Eu estava sólido na rocha. No dia seguinte a produção de um programa da Globo me telefona para fazer um personagem em Você Decide.

PLAYBOY- Nesses dez anos, qual foi a sua fonte de renda?

JECE- A oferta que o pastor me dava quando eu ia à igreja e o material que eu vendia – CDs e DVDs com o meu testemunho. Era o dinheiro certinho. Uma vez um pastor deixou comigo um cheque pré-datado de 500 reais, para um evento. Quando cheguei lá, encontrei uma igreja paupérrima, na periferia de São Paulo, com pessoas pobres. Pensei: “Puxa, ainda bem que esse pastor me deu o cheque”. Aí o Espírito disse: “Devolve, Jece, porque ele precisa mais do que você”. Devolvi. E já tinha gasto esse dinheiro, para mim era dinheiro que não se acabava mais. Eu estava no osso. Três dias depois veio outra igreja que me deu 3 mil reais. Compensou tudo. Mas era tudo ali, justinho. Um dia eu tive que pedir 20 reais emprestados a um amigo.

PLAYBOY- Você ganhou muito dinheiro na sua carreira?

JECE- Muito. Houve uma época no Rio em que eu tinha uma produtora de cinema e outra de comerciais. Eu fazia todos os comerciais da Caixa Econômica Federal. Ganhei muito dinheiro com cinema. Construí um estúdio que ficou alugado para a Globo durante quatro anos. Mas da mesma maneira que eu ganhava eu gastava. Eu tinha casa em Cabo Frio, casa em Búzios, apartamento no Leblon, em Ipanema, no Quitandinha...Nunca me preocupei com dinheiro, ganhava e gastava.

PLAYBOY- O que aconteceu com todo esse patrimônio?

JECE- Fui separando e dando para a mulher. Foram cinco separações. Quando me separei da Vera Gimenez, era a época do Rock in Rio e não tinha quarto vago em hotel algum da cidade. Saí de casa só com uma mala e o meu carro. Tive que entrar numa boate, Hippopotamus, tirei uma senhora de uns 60 anos para dançar e levei para o motel, só para ter onde dormir. Tomei uns whiskies e tive que comparecer. Era o sonho dela.

PLAYBOY- Fora o dinheiro que você gastava na vida noturna...

JECE- Ás vezes eu estava invocado, chegava a uma boate do Rio de Janeiro e dizia: “Fecha a porta, agora não entra mais ninguém e não sai mais ninguém. É tudo por minha conta”. Aí fazia o que eu queria. Eu nunca liguei para dinheiro.

PLAYBOY- Hoje, qual é a sua situação financeira?

JECE- Eu não tenho situação financeira, não estou rico. Tenho carro, esse apartamento que comprei porque a dona me deu até 2008 para pagar. Pago às prestações dos carros do meu filho e da minha enteada. Eu tenho uma despesa mensal de 10 mil reais – mulher jovem, filhos na faculdade. Tivemos várias dificuldades financeiras. Mas nunca faltou comida na nossa mesa. Nunca faltou o que vestir. Logo que eu me converti, paguei uma viagem para Grécia, Israel e Egito para um grupo de umas 20 pessoas. Gastei tudo que me restava.

PLAYBOY- Antes de se converter, qual sua opinião sobre evangélicos?

JECE- Tinha horror. Crente para mim era aquele que morava longe, se vestia mal, ganhava pouco e era feio. Isso até eu romper com o mundo. Fui corajoso. Rompi com a televisão e o teatro. O cara que tinha uma vida como a minha não larga por qualquer coisa.

PLAYBOY- Você acha que foi perdoado pelo seu passado?

JECE- A partir do momento em que você abre seu coração, tudo o que fez no passado é jogado no lixo. Eu fui preparado para pregar a palavra de Deus no meio artístico. Aí você me pergunta: por que não convenceu o Tarcísio Meira a se converter? O Tony Ramos? Eu falei para eles o que aconteceu comigo. Agora, quem vai convence-los não sou eu. Eu sou apenas um instrumento de Deus.

PLAYBOY- Qual é seu sentimento em relação a tudo que aprontou na vida?

JECE- Não tinha constrangimento, porque vivi intensamente. Eu repudio o que fiz, mas não adianta apagar. Não me arrependo, fiz tudo. Mas não faria novamente.

Publicado originalmente na revista Playboy em janeiro de 2007