quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Francisco Cavalcanti (1944-2014)

Morreu Chico Cavalcanti. Avô, cineasta, meu amigo. Um homem dedicado a trabalhar com cinema popular. Chicão era a personificação da sétima arte do povo para o povo. Sem conteúdo acadêmico. Sem intelectuais pra falar bem. Sem festival pra lhe dar prêmios. Francisco Cavalcanti iniciou sua carreira artística no circo e no rádio em Poá, na região metropolitana de São Paulo. Grande parte de sua obra foi produzida na rua do Triunfo, onde conseguiu dirigir seu primeiro filme com o produtor Nelson Teixeira Mendes. A produção foi complicada e Chico levou uns dois anos pra conseguir lançar o filme comercialmente. Quando a fita ficou pronta, muitos torceram o nariz e falaram mal do resultado final. Mas Chico não desistiu. Quem conheceu Cavalcanti sabe: ele era daqueles que subiria o monte Everest para fazer um longa-metragem. Sua paixão pelo cinema era algo indescritível. Francisco Cavalcanti tornou-se um prolífico realizador de filmes policiais populares. As tramas pareciam tiradas do jornal Notícias Populares. Os críticos pouco falaram das fitas de Chico. Mas ele prosseguiu a sua carreira e respeitava seu público. Tony Vieira e outros diretores também fizeram longas-metragens de temática policial. Mas nenhum deles conseguiu ter um traço tão característico como Chico que nunca tentou fazer algo rebuscado. Seu cinema era popular como ele próprio. Chico Cavalcanti era daqueles homens simples que gostavam de tomar cerveja nos botecos do centro. Tive o privilégio de compartilhar algumas tardes e alguns momentos ao lado dele. Me concedeu entrevistas diversas vezes e sempre foi uma pessoa muito acessível. O triste para mim é ver Chicão e outros amigos da Boca do Cinema partindo sem o devido reconhecimento. Esse é um país que elegeu sua elite cultural. Criaram uma borracha da memória. Certos artistas são lembrados sempre e outros muito pouco. Mas para nós que trabalhamos com a memória do cinema da Boca, Chicão sempre será lembrado como um realizador popular do qual eu admiro vários filmes como Ivone, a Rainha do Pecado, Almas Marginais (um dos grandes filmes policiais desse país), Noboku, Amor Imortal (filme espírita). Fora o cineasta, Chico era uma figura sensacional. Um homem na acepção da palavra: generoso, educado, pai querido, avô carinhoso. Uma perda irreparável.

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