segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

Conheça a fantástica história de Anita Ramos, a primeira mulher crítica de cinema de São Paulo nos anos 1930

Anita Ramos, uma pioneira da crítica paulista


Por Maria do Carmo Fernandes

Na década de 30, quando o cinema sonoro ensaiava os seus primeiros passos e os primeiros cômicos do cinema mudo, á exceção de Charles Chaplin, começavam a entrar em decadência, a jovem Anita Ramos chegava em São Paulo, disposta a ser jornalista. Em uma época em que era raro uma mulher conseguir projetar-se na profissão, Anita foi além de sua meta inicial: tornou-se crítica de cinema. Por seu pioneirismo, a Associação Paulista de Críticos de Arte – APCA – decidiu homenageá-la, conferindo-lhe o grande prêmio da crítica. Anita Ramos recebeu com surpresa a notícia. Pensava que já havia sido esquecida. Há muito abandonou a carreira para se dedicar ao marido, o jornalista Oswaldo Moles, falecido em 1967. De lá para cá, nunca mais escreveu nem se preocupou em guardar seus trabalhos, dos quais só conserva uma vaga lembrança.



Quando Anita chegou em São Paulo, em 1935, surpreendeu-se com a efervescência da cidade. A cidade de Franca era pacata e até “monótona”, segundo ela, razão pela qual decidiu morar na Capital. Aqui existia a possibilidade de tornar-se jornalista e, aproveitando a mudança da irmã para cá, resolveu tentar a carreira. Enquanto sua irmã fazia o curso de educação, ela se aventurava pela redação dos jornais em busca de trabalho. Na época, o Correio Paulistano havia sido reaberto, depois dos acontecimentos de 1930, quando vários jornais da situação foram invadidos, depredados e incendiados. E para lá Anita foi, com uma condição: “A senhora fica em experiência por 20 dias, se servir, fica; se não, rua”, sentenciou o redator-chefe, Machado Florence. A incumbência que lhe deu foi de fazer a página feminina, que na época somente era publicada em O Jornal do Rio de Janeiro. “Era a primeira página de um jornal paulista dedicada à mulher e eu só tinha como referência O Jornal. Nova, sem experiência jornalística, fui fazendo por minha conta em risco”, conta Anita. Além da página, fazia o “espelho”, espaço pago pelos exibidores interessados em divulgar os filmes em cartaz nos cinemas. E ela lembra que percorria a rua Aurora e a rua do Triunfo, em busca de anúncios, sobre os quais tinha uma comissão. Daí para a crítica foi um passo. Muito observadora e com “uma memória excelente”, sempre dava destaque para o melhor trabalho, ressaltava detalhes importantes do filme, despercebidos pelo público, falava do enredo e comentava as melhores atuações. “Eu não tinha um método de análise, era muito intuitiva. Dificilmente errava quando dizia que um filme seria premiado”, relembra Anita.

Anita Ramos se considera tímida e frequentou pouco o ambiente artístico. Raros foram os contatos com os críticos e artistas: conheceu os exibidores. Apesar disso, acompanhou a ascensão do império hollywoodiano naquele tempo, os filmes de Joseph von Sternberg, as comédias refinadas de Ernest Lubitsch, os filmes da depressão norte-americana de Frank Capra eram projetados nas telas dos principais cinemas da cidade. Greta Garbo e Marlene Dietrich já eram estrelas famosas. Gary Cooper, Clark Gable, faziam o público delirar. No Brasil, o cinema ainda engatinhava e por isso Anita se concentrava mais em críticas de filmes estrangeiros. Humberto Mauro era o maior cineasta e a Cinédia, com suas comédias musicais e chanchadas, descobria Grande Othelo.

O compositor, escritor, jornalista, radialista e roteirista Oswaldo Moles (1913-1967), marido de Anita autografando seu livro em 1963. Foto retirada do blog Baú do Maga
Com a mudança da direção do Correio Paulistano, Anita foi despedida. A nova direção trouxe um novo quadro de redatores para o jornal. Ela não desanimou e, por intermédio de um amigo, foi para o Diário da Noite. Cansada da instabilidade, foi trabalhar no DIP – Departamento de Imprensa e Propaganda -, já na década de 40. “O DIP era visto com maus olhos pelos intelectuais, mas lá eu era funcionária do governo e tinha estabilidade. Além do mais, o ambiente era ótimo, haviam pessoas de alto gabarito, como o poeta Péricles Pimentel, o historiador Hernani Silva Bruno, dos quais eu fiquei muito amiga”. Já no final do Estado Novo, o DIP foi fechado. A gota d’água foi a entrevista do líder político José Américo de Almeida ao Correio Paulistano. Com o fechamento do órgão, Anita foi transferida para a Secretaria da Fazenda. Lá, recortava e selecionava artigos  de jornais, mas o serviço era “extremamente monótono”. Desiludida com a profissão, resolve se dedicar ao casamento e estimular a carreira do marido. Uma decisão que foi definitiva e encerrou por completo o sonho de ser jornalista.


Anita Ramos em sua juventude
Atualmente mora num sobrado no Alto de Pinheiros, rodeado de muitas plantas e flores, com suas duas irmãs, Ruth e Sara. Dos ídolos do passado, admira principalmente Clark Gable, James Stuart e Rita Hayworth. Os diretores que mais a marcaram foram Cecil B. de Mille, David Griffith e Billy Wilder. Dos diretores de hoje tem especial admiração por Cacá Diegues, Ruy Guerra e Bruno Barreto. Na literatura considera Monteiro Lobato como um dos melhores escritores brasileiros: “’Urupês’ é magnífico”. Ainda no DIP, ajudou-o a trazer o JB, jornal que pertencia a Lobato e circulava no interior. “Ele era um grande amigo, muito espirituoso e talentoso. Era também ótimo pintor”. Retém-se por momento para relembrar São Paulo do passado: “Eu morava em uma pensão na avenida São Luís e ia muito ao cinema, quase sempre sozinha. Voltava muitas vezes á meia-noite e nunca me passou pela cabeça ser assaltada. No máximo, o que acontecia era ouvir gracejos”. E concluí: “Naquele tempo, a vida da gente era mais despreocupada”. Apesar das mudanças ocorridas na cidade, não pretende sair de São Paulo: “Se eu voltasse, por exemplo, para a minha cidade, eu não teria a variedade de opções que encontro aqui”.

Anita Ramos nunca frequentou uma universidade. Autodidata, aprendeu com os livros que leu: “Sempre li muito”. Possui uma cultura geral, um vasto mosaico, pouco profundo. Suas observações são geralmente vagas e amenas, são se preocupando em precisar datas da época em que trabalhou. Não conta sua idade. “A idade não importa, só lhe dou uma pista: tenho entre 70 e 80 anos”. Hoje, vai pouco ao cinema e na televisão assiste a filmes raramente: “Não gosto de filme dublado. Assisto mais ás novelas e aos noticiários”. Suas maiores paixões são os livros e a música. Simples, confessa que gosta muito de rezar e cultivar flores.

Publicado originalmente no “O Estado de São Paulo” em 30 de janeiro de 1983.


Anita Ramos foi casada com o compositor, escritor, jornalista, radialista e roteirista Oswaldo Moles (1913-1967). Ele recebeu uma homenagem numa pequena rua no bairro da Vila Leopoldina, zona Oeste de São Paulo. Foto de Matheus Trunk

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