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segunda-feira, 8 de maio de 2023

Os primeiros tempos do NP VIII: Adeus aos mestres

Capítulo 8: Adeus aos mestres

 

Capa do Notícias Populares no mesmo dia em que o homem andou na lua

Por Celso de Campos Júnior, Denis Moreira, Giancarlo Lepiani e Mark Rene Lima

 

Embalado pelo ritmo do iê-iê-iê, o jornal era sucesso absoluto. Apesar da desconfiança inicial, Mellé não teve grandes problemas no relacionamento com Frias e Caldeira, que jamais interferiram nos projetos do romeno. A fórmula crime-esporte-sexo, aditivada com fofocas sobre os ídolos do povo, fazia com que em 1968 o jornal vendesse 145 mil exemplares em banca, maior venda avulsa no Estado de São Paulo. O sucesso atraiu até a atenção de Sílvio Santos, que, em seu programa de 21 de junho de 1968, na Rádio Nacional, derreteu-se em elogios ao jornal. “O melhor jornal de São Paulo é Notícias Populares, que tem a preciosa colaboração de Jean Mellé, um homem que vive exclusivamente para esse jornal. Está de parabéns Jean Mellé, parabéns a esse grande jornalista brasileiro, que parece ser brasileiro de origem estrangeira. Não o conheço pessoalmente, mas acompanho seu trabalho diariamente”, revelou o apresentador. Em time que está ganhando não se mexe: toda a equipe esmerou-se em manter o NP no topo, firmando-o como um importante canal de comunicação com as camadas populares.

 

Mesmo sem querer, o jornal chegou até a brilhar na televisão. Tudo porque os roteiristas de um programa de teatro da TV Tupi simplesmente copiavam os casos inventados pelo secretário de redação Nicolau Chaui e publicados em sua coluna no NP, “Histórias da Banda de Lá”. Fruto da fértil imaginação do jornalista, os contos retravam desde histórias de detetive e de assaltos cinematográficos até casos misteriosos e inverossímeis. Sem que Chaui soubesse, casos claramente transportados do jornal foram aparecendo na telinha. Leitores e amigos, então, começaram a pará-lo na rua e dizer: “Puxa, Nicolau, vi sua história na televisão ontem, parabéns”. Sem saber o que estava acontecendo, o secretário de redação, depois de uma enxurrada de cumprimentos, resolveu tirar a prova. Passou a assistir aos programas da Tupi, e as semelhanças ficaram evidentes. Entretanto, mesmo pressionado por sua mulher, Laura de Souza Chaui, Nicolau jamais foi a fundo para colocar os pingos nos is – para sorte dos roteiristas, que continuaram coletando farto material para o programa da Tupi. Os leitores do Notícias Populares, porém, não tinham dúvidas sobre a paternidade dos casos.


Dona Laura, aliás, foi peça importante para a solidificação de tão almejada aproximação com os leitores desejada por Mellé. Durante anos, foi a titular da coluna “Correio do Coração”, uma espécie de seção de encontros do periódico. Na verdade, a ideia do romeno fora inspirada no famoso consultório sentimental criado por João Apolinário para o Última Hora. Assinada por “Tia Helena”, a seção fazia um sucesso danado no concorrido caderno de variedades do UH. No Notícias Populares, o pseudônimo dera “Fernanda”, mas a aceitação era a mesma. Laura recebia uma montanha de cartas e foi responsável por realizar quase uma dezena de casamentos entre participantes. Invariavelmente, toda a redação era convidada – e comparecia em peso para filar as guloseimas típicas daquelas festanças: pão com molho de carne moída regado a tubaína. Estreitar mais os laços com o leitor, impossível.

 

Essa ligação imediata com o público acontecia ao mesmo tempo em que outras publicações penavam com a censura. Os militares tinham pouco a se queixar do Notícias Populares: depois do golpe, as reportagens de política podiam ser contadas nos dedos, perdendo disparado para a cobertura do cotidiano em São Paulo. Enquanto o Estadão publicava Camões e a Veja estampava figuras do diabo no lugar dos trechos censurados, o NP mantinha sem problemas sua linha editorial. Apesar das laudas escritas pelos jornalistas serem despejadas numa caixinha para leitura prévia, pouca coisa era proibida – afinal, mesmo para os poucos ponderados censores, era difícil enxergar tendências subversivas em reportagens sobre a vida dos artistas ou de futebol.

 

Somente na publicação de matérias relacionadas a crimes é que o NP tomava alguns cuidados. Dos memorandos com recomendações de militares que o Departamento de Interior, Correspondentes e Sucursais (Dics, espécie de percursos da Agência Folha) era obrigado a transmitir para os jornais da casa, aqueles que regulavam a divulgação de assaltos a banco ou as atividades que as organizações clandestinas tinham como alvo certo o NP. Assim, quando a equipe do Notícias Populares recebia cartas de Miranda Jordão ou Mario Pati, chefes do Dics, todos já sabia que Mellé teria que conter seu ímpeto – como se pode perceber pela transcrição de um desses memorandos, enviado por Pati às redações em 8 de janeiro de 1969.

 

DICS INFORMA

 

ATENÇÃO EDITORES

A presidência solicita a atenção dos editores, com referência à censura, consubstanciada nas informações anexas, prestadas pelo Gal. Silvio Correia, em conversa informal com o nosso repórter.

O sr. Frias lembra que somente podem ser publicados os fatos e nunca comentários sobre bombas, roube de armas e assaltos a bancos. Nada de sensacionalismo e alarde.

 

Menos de dois meses depois, em 10 de março, outra mensagem, agora assinada por Miranda Jordão, limitava o uso da denominação de um dos grupos que não saía das páginas do NP.

 

A Censura avisava aos editores que a expressão “Esquadrão da Morte” não pode figurar nas manchetes dos jornais, na primeira ou última páginas. No texto, pode-se usar aquela expressão. Enfim, resumindo: nos títulos, não. No texto, sim.

 

O Notícias Populares, entretanto, tirou de letra essa proibição. No lugar de “Esquadrão da Morte”, cunhou a expressão “Bando Maldito”. Válida, oportuna, sonora e funcional, como escreveria Ramão Gomes Portão.

 

Mais complicada era a perseguição que ocorria pelo grau de militância dos jornalistas. Um exemplo: Rui Falcão, repórter de esporte que décadas depois seria eleito deputado estadual e federal pelo Partido dos Trabalhadores (PT), foi procurado pelo Dops no Barão de Limeira. Enquanto os policiais subiam até a redação, Falcão descia pela Barão de Campinas. O caso ilustra que a insuportável pressão política da época afetava as pessoas que faziam o jornal, mas não o resultado final. Como não criticava a ditadura nem atacava o governo, o Notícias Populares atravessou os anos de chumbo sem grandes traumas.

 

Por todos esses motivos, o ambiente no NP era o melhor possível, tanto na redação como no trato com a empresa. Quando precisava de algum favor da gráfica, o jornal enviava como cortesia algumas garrafas de cachaça aos funcionários daquele setor, acordo informal que persistiria por mais duas décadas. Jamais um jornalista fora demitido durante a época de Jean Mellé, apesar do chefe ser um reconhecido pão-duro – especialmente quando o assunto era aumento de salário. É sabido que, em acessos de fúria, o romeno mandava os comandados embora. No entanto, poucas horas depois, reconsiderava a decisão, reclamando do “malcriado” funcionário. E se no dia seguinte o quase despedido fizesse uma boa matéria, o chefe não tinha problema em elogiá-lo, soltando um dos seus inconfundíveis bordões: “Você está um astro”.

 

A sólida estrutura que mantinha o Notícias Populares começou a sofrer os primeiros abalos no final da década. No segundo semestre de 1968, Jean Mellé foi internado no Hospital das Clínicas de São Paulo. Diagnóstico: câncer nos ossos. O afastamento em si não foi o grande problema – durante alguns meses, o romeno comandou o jornal do quarto do hospital. Um telefone instalado no local por determinação de Abreu Sodré, então governador de São Paulo e amigo pessoal do jornalista, permitia isso. Mesmo doente, Mellé continuava com a mesma disposição que mostrara desde que pisou pela primeira vez na arcaica redação da rua do Gasômetro, e o jornal não dava sinais de cansaço. Ao ser questionado se seu estado de saúde não poderia piorar caso continuasse comandando o NP, o chefe respondeu: “Amigo, um jornal se faz com homens, máquinas, cérebro e coração”.

 

Os verdadeiros problemas começaram quando o romeno voltou à redação: um desentendimento com Ramão Gomes Portão, melhor amigo de Mellé dentro e fora do jornal, quebrou a harmonia vigente na equipe. O motivo da discórdia jamais foi descoberto pelos jornalistas. Alguns acreditam que tudo aconteceu porque, ainda no período de internação do romeno no hospital, Ramão teria contrariado uma ordem do chefe e mudado a manchete de primeira página. Outros suspeitam de críticas e comentários maldosos tecidos pelo editor de polícia na ausência de Mellé. Muitos juram que tudo não passou de um mal-entendido, que acabou afastando os amigos até então inseparáveis. Seja como for, a situação entre os antigos companheiros tornou-se insustentável. E assim, na virada da década, Ramão Gomes Portão deixou o Notícias Populares.

 

A resposta para o mistério que resultou no afastamento de um dos principais nomes do alto escalão do NP pode estar em um recorte de jornal, que, três décadas após o imbróglio, ainda repousava nos armários esverdeados dos arquivos do jornal. Trata-se de um excerto de uma das colunas “Jean Mellé Informa”, datado de 7 de fevereiro de 1970. Ao contrário do resto do material arquivado, o texto não foi classificado: apenas recortado do jornal e deixado em uma das milhares de pastas do acervo. Escreveu Mellé:

 

Há gente que esquece. Esquece quem foi. Esquece de onde veio, de onde chegou. Esquece que lhe foi dado uma mão de ajuda no momento exato em que precisou. Esquece quem lhe ajudou. Esquece que teve todo apoio, confiança, sem que nada lhe foi exigido. Esquece a gente que sempre sentiu o ombro sólido da ajuda, da segurança. E chega a considerar, como passarinho que aprendeu a voar com a mãe, que doravante é o dono do céu. Com a boca fala coisas boas, as que lhe fizeram bem, mas seus atos são maldosos. É uma mistura de maldade, complexos, frustrações. E o homem de bem recebe os golpes nemerecidos. Nemerecidos, mas esperados, porque somente no céu existem anjos. Um Grande Amigo nos contou a história: alguém lhe comunicou que um determinado amigo criticou-o veementemente. É isto: devemos esperar o mal, daqueles que fizemos o bem.

 

A data do texto coincide com o período da saída de Ramão do jornal. Mas, apesar da mensagem parecer direta, em nenhum momento do texto surge o nome do ex-amigo e antigo editor de polícia. Talvez por isso seja esclarecedor o fato do recorte, hoje amarelado, ter sido cuidadosamente colocado dentro de uma pasta na gaveta da letra P. Mais precisamente, naquela identificada como sendo a de “Portão, Ramão Gomes”.

 

Independentemente dos problemas pessoais com o chefe, a redação sentiu a ausência de Ramão, que levou consigo sua coluna “Flagrantes” e as inesquecíveis histórias da Boca do Lixo. A proximidade geográfica com a zona boêmia da cidade, além da extensa cobertura dada aos seus acontecimentos, fazia com que o NP ostentasse, orgulhoso, o título de jornal oficial da Boca. Com a saída do editor de polícia, o periódico perdeu os épicos relatos da disputa pelo poder do quadrilátero do crime, protagonizados por Quinzinho – o lendário rei da Boca, amigo de fé e irmão camarada de alguns jornalistas do NP – pelo ousado desafiado Hiroito.

 

Órfã de Ramão e com o romeno abalado pelo câncer, a redação começou a temer por seu futuro – especialmente após a repentina saída de Nicolau Chaui, que aceitou um convite para trabalhar no rival Diário Popular. Nomes promissores como Percival de Souza, Tão Gomes Pinto e Sérgio Pompeu já estavam fora há um bom tempo. Para complicar ainda mais a situação, outro possível substituto de Mellé, Eugenio Gertel, abandonou o barco por um lugar na Imprensa Oficial do Estado. A redação estava acéfala, e sabia disso. Só restava torcer para que o pior não acontecesse.

 

Infelizmente, o pior veio em 5 de março de 1971, uma sexta-feira. Mellé já estava mal desde o fim de fevereiro; levado ao Hospital São Lucas, finalmente sucumbiu ao câncer às 10h30 da manhã. Para honrar a tradição judaica, o enterro, no Cemitério Israelita do Butantã, não foi realizado no sábado, e sim no domingo, 7 de março. Batedores da Polícia Militar desviaram o cortejo para que a equipe do Notícias Populares pudesse prestar a última homenagem ao seu idealizador. O carro que levava o corpo do romeno estacionou diante da sede do jornal, na Barão de Limeira, e os trabalhadores, amontados no térreo, pararam por um minuto em respeito ao chefe. No cemitério, políticos, esportistas, artistas, cônsules e até umbandistas dividiam espaço com os jornalistas. Na edição seguinte, todos os colunistas do NP fizeram questão de deixar registrada sua admiração pelo fundados do jornal em seus textos. A Federação Paulista de Futebol determinou que fosse respeitado um minuto de silêncio em todos os jogos disputados no Estado.

 

Mais tarde, Jean Mellé seria eternizado como nome de uma rua em Santo Amaro, na zona sul da capital paulista. Como a maioria dos paulistanos, os moradores da rua não faziam a menor ideia de quem era o dono daquele nome, estampado numa enferrujada placa azul do bairro. Muitos acreditavam ser de um ator da época áurea do cinema francês.

 

Publicado originalmente em JÚNIOR, Celso de Campos, MOREIRA, Denis, LEPIANI, Giancarlo, LIMA, Maik Rene. Nada mais que a verdade: a extraordinária história do jornal Notícias Populares. São Paulo: Carrenho Editorial, 2002.

sexta-feira, 16 de julho de 2021

VSP comenta o cinema brasileiro atual: “Operação Camanducaia" (2020)

 Operação Camanducaia” **** (Brasil, 2020, documentário, direção: Tiago Rezende de Toledo), visto no Cine OP 2021

Este curioso documentário concentra-se num único episódio da Ditadura Militar. Mas que ilustra grande parte do pensamento das autoridades do período. Talvez esse seja um dos méritos do diretor Tiago Rezende de Toledo: optar por um único fato não tentando contar toda a história do período. O realizador reconta a chamada “Operação Camanducaia”, no qual a Polícia de São Paulo abandonou 93 menores entre crianças e adolescentes infratores na cidade de Camanducaia, interior de Minas Gerais. O episódio gerou grande comoção na imprensa da época. A produção foi até Camanducaia para saber como os antigos moradores locais lembram desse fato. Também valeram os depoimentos de pessoas que conheceram de perto o momento como o jornalista Paulo Markun que cobriu o fato pela Folha de S. Paulo e o padre Júlio Lancelotti, da Pastoral de Rua da Arquidiocese de São Paulo. Mas o mais revelador são os depoimentos de quatro sobreviventes que sofreram a violência deste episódio. É um documentário sem inovações de linguagem mas muito original e com uma linguagem direta. Nada é abreviado. A violência dos quais os menores da época passaram é registrada sem meias palavras. A força dos depoimentos dos violentados vale a sessão. Mas o diretor também entrevistou pessoas ligadas ao regime da época. O governador Laudo Natel foi um dos entrevistados que disse não se lembrar da Operação Camanducaia. Um delegado da época não quis dar entrevista e contar a sua parte. Esse esforço de construir a história pelos mais diferentes personagens foi uma opção correta do diretor Tiago Rezende de Toledo. Esperamos mais trabalhos deste novato realizador. O cinema brasileiro precisa de mais realizações como essa.

sexta-feira, 9 de julho de 2021

VSP comenta o cinema brasileiro atual: "Libelu- Abaixo a Ditadura" (2020)

Libelu- Abaixo a Ditadura” **** (Brasil, 2020, documentário, direção: Diógenes Muniz)

É impressionante como o gênero documentário vem ganhando espaço no cinema brasileiro. A Libelu (Liberdade e Luta) foi uma corrente trotkista surgida na USP (Universidade de São Paulo) em 1976. O longa-metragem acompanha o depoimento de ex-membros da tendência mais de trinta anos após suas participações no grupo. A militância participou intensamente dos acontecimentos políticos na Redemocratização entre 1975 e 1980. Entre os entrevistados estão pessoas conhecidas como o jornalista Reinaldo Azevedo (que na Libelu era da terceira divisão), o crítico gastronômico Josimar Melo, o professor José Arbex Filho, o comentarista Demétrio Magnoli, o jornalista Eugênio Bucci, o músico Cadão Volpato (da banda Fellini) e até o ex-ministro Antônio Palocci. As cenas de arquivo são preciosas. É notável a opção do diretor Diógenes Muniz por fazer um excelente documentário bastante informativo e não acadêmico. A opção em levar quase todos os entrevistados para um mesmo lugar é excepcional. O único entrevistado fora do espaço é Antônio Palocci que mesmo em prisão domiciliar deu depoimento ao documentário. A participação de Palocci é a cereja do bolo e a opção dele aparecer no final agrega muito valor ao trabalho. Excelente estreia de Diógenes Muniz e sua equipe. Criativo, informativo e até mesmo engraçado. Ganhou o Festival É Tudo Verdade do ano passado com autoridade e justiça. Espero que o diretor continue trazendo temas inovadores em seus próximos trabalhos.


segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

Vidas dilaceradas

 

Vidas dilaceradas

 

Dois técnicos da Boca do Lixo e a Ditadura Militar

 

Por Matheus Trunk



Rua Tutóia, bairro do Paraíso. Toda vez que o avô Virgílio Roveda passa por esse endereço ele sente um estranho desconforto. Sua voz fica baixa e ele pode chegar a tremer. Aos 74 anos, o baixinho, bigodudo e falastrão Roveda foi um dos técnicos mais atuantes do cinema paulista entre as décadas de 1970 e 1980. Trabalhou em mais de 60 longas-metragens nas mais variadas funções desde eletricista, assistente de câmera, diretor de fotografia e até produtor. Seu apelido na área cinematográfica é Gaúcho. Esse cognome foi dado pelo ator e cineasta José Mojica Marins, o Zé do Caixão ainda nos anos 1960. Os dois atuavam profissionalmente numa região do centro de São Paulo conhecida como Boca do Lixo.

 

“Eu vim da minha terra natal (Vacaria, Rio Grande do Sul) e trouxe uma faca de presente pro Mojica. Mas ele ficou com medo e saiu correndo. Daí começaram a me chamar de Gaúcho, Gauchinho e fixou”, relembra rindo. Mesmo veterano, Roveda ainda busca novas oportunidades na sétima arte. Fotografa alguns trabalhos, mas sente dificuldade em se atualizar no atual momento do cinema brasileiro e da cultura nacional. Ele não tem encontrado muitas oportunidades. “Existem muitos preconceitos. Seja pela idade, pela gente ter militado na Boca ou mesmo porque esse negócio de editais é complicado”, diz ele com um sorriso amarelo e sem muito otimismo. Roveda é avô de três crianças: Mariana de nove anos, Murilo e da menorzinha Maria Luiza. Seus netos não sabem. Mas Gaúcho sobreviveu a um dos momentos mais difíceis da sua vida na rua Tutóia. Mesmo assim, ele continua correndo atrás de seus projetos profissionais e da vida pessoal. “Eu não gosto de falar disso. Não gosto mesmo”, fala ele tentando mudar de assunto. “Toda vez que aparece algo sobre isso na televisão, ele começa a passar mal. Tem vezes em que ele está dormindo e se movimenta todo, começa a suar”, conta Norma Guirado Roveda, esposa de Gaúcho há mais de quarenta anos.

 

O episódio que marcou Gaúcho aconteceu no segundo semestre de 1973. Mas ele conseguiu vencer o problema e seguir em frente. Já seu ex-sócio e amigo de todas as horas o montador Roberto Leme, o Robertinho (1942-2004) não teve a mesma sorte. “O Roberto foi o melhor amigo que tive dentro da profissão. Nós nos conhecemos no primeiro filme que fizemos juntos: O Diabo de Vila Velha, em 1965. Fomos de trem juntos da estação da Luz para Ponta Grossa (interior do Paraná) onde foi filmado essa produção. Ficamos amigos dali até eu segurar o caixão no velório dele”.

 

O magricela e boa-pinta Roberto Leme iniciou sua carreira no cinema naquele início da década de 1960. Tinha se formado como padre num seminário onde estudou filosofia e teologia. Mas não chegou a exercer o sacerdócio. “A irmã dele me contou que esse foi o primeiro baque dele. O Roberto foi dispensado porque achavam que ele não tinha vocação para ser padre. Isso o deixou profundamente chateado”, lembra Dalete Cunha, também montadora e viúva de Roberto. Ela ficou conhecida no meio da Boca paulista pelo apelido de Baixinha.

 

Mas Robertinho também tinha vocação musical. Ele estudou piano durante dez anos e conheceu canto gregoriano no seminário. “Eu não sabia que ele tinha tanta habilidade com piano. Só descobri isso na nossa lua de mel que foi num navio. Ele deu vários recitais chamando a atenção de todos. Aquelas músicas sobre o personagem do Zé do Caixão quem compôs foi o Roberto, mas nunca deram crédito ou pagaram algum direito musical”, rememora Dalete Cunha.

 

A paixão pela música levou Roberto para a carreira cinematográfica. Seu desejo inicial era ser ator. Mas acabou destacando-se na Boca por outra atividade profissional: a finalização, a montagem. “Dizíamos que a sala de montagem funcionava como sala dos milagres”, diz Gaúcho rindo. “A gente dizia que o Roberto não era um montador, mas sim um relojoeiro. Porque ele era extremamente concentrado e caprichoso no que fazia”, relembra o amigo. Os fatos comprovam isso. Roberto montou mais de 40 longas-metragens paulistas. “Ele era o melhor daquela geração de montadores”, opina Dalete Cunha.

 

Roberto Leme tornou-se um dos técnicos mais requisitados do cinema de São Paulo. Ele trabalhou diversas vezes com a produtora Cinedistri do produtor Osvaldo Massaini (1920-1994). “O seu Osvaldo não gostava de filme erótico. Para ele o cinema tinha que ser grande produção com bom acabamento e que conseguisse crítica e público”, me assegurou há anos atrás o assistente de câmera e eletricista Miro Reis. Com a erotização do cinema, Osvaldo Massaini conseguiu fazer algumas verdadeiras superproduções para a época: Independência ou Morte (1972) de Carlos Coimbra e O Marginal (1974) de Carlos Manga. Os dois tiveram participação direta de Roberto. “A verdade é que ele montou o Independência. Ele foi enviado para fazer essa montagem no Rio de Janeiro”, assegura Dalete que trabalhou ao lado do marido diversas vezes. Apesar dessa versão, Roberto aparece como assistente de montagem na ficha técnica da produção.



O Marginal foi um filme policial protagonizado por Tarcísio Meira e Vera Gimenez que conseguiu ser um sucesso de crítica e público. O argumento e roteiro foram assinados pelos dramaturgos Dias Gomes e Lauro César Muniz. A trilha sonora pela dupla de compositores Roberto e Erasmo Carlos. Já Roberto Leme foi o montador e editor desta produção. Os efeitos especiais ficaram sob a responsabilidade do norte-americano Edward Drohan que veio para o Brasil especialmente para participar do filme. “Pra você ter ideia o Sílvio de Abreu que depois dirigiu novelas na TV Globo era assistente de direção. Ele ficava no meu pé o tempo inteiro para fazer as explosões, os tiros, tudo. Mas o gringo (Drohan) sabia das coisas. Não ficamos devendo em nada o cinema americano. Seu Osvaldo (produtor) gostou tanto que me chamou dentro do carro dele para me cumprimentar”, relembra o assistente de câmera e eletricista Miro Reis. Ele auxiliou nos efeitos especiais.

 

Robertinho também montou duas produções do ator e produtor Amácio Mazzaropi: O Grande Xerife (1972) e Portugal...Minha Saudade (1973). “O Mazza era o único da época que trabalhava com o som direto. Mas ele só contratava os melhores técnicos”, garante Gaúcho que foi assistente de câmera em nove filmes do produtor. Dalete lembra-se que uma vez ela e Roberto encontraram-se por acaso com Mazzaropi na Praia Grande, litoral sul de São Paulo. “O engraçado é que na vida real o Mazzaropi era uma pessoa muito séria. Andava de terno, cabelo engomado com gel, carro de chofer. Foi muito simpático conosco e gostava do Robertinho”.

 

A carreira do montador poderia ter ido mais longe. Mas tudo mudou naquele segundo semestre de 1973. Nem Gaúcho nem Roberto tinham militância política ou eram de alguma organização contrária a Ditadura. Muito pelo contrário. Gaúcho e Roberto eram operários do cinema. Não tinham ideais políticos. Os dois moravam num apartamento alugado na rua Helena Zerrener, 104, Baixada do Glicério, centro de São Paulo. A região sempre foi habitada por uma classe média baixa. Historicamente, os cortiços foram comuns no bairro. O problema é que eles alugaram o apartamento de um jovem estudante de economia chamado Pedro Camargo.

 

“O Roberto tinha estudado na infância com esse rapaz. Então, um dia eles se encontraram na rua por acaso e o Pedro chamou os dois para morarem lá. Isso porque o Roberto contou que ele e o Gaúcho moravam nos estúdios de filmagem do Zé do Caixão. Dormiam dentro do caixão inclusive”, explica Dalete. Pedro estudava na USP (Universidade de São Paulo) e era suspeito de ter lutado contra a Ditadura Militar. Logo, todas as pessoas próximas a eles eram suspeitos de serem “subversivos” ou “terroristas”. Gaúcho e Roberto sabiam que essa possibilidade existia.

 

Mas a confirmação acabou acontecendo. Da pior maneira possível. Os dois amigos foram capturados por duas viaturas policiais. Foram encapuzados e levados inicialmente para as dependências do antigo DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) localizado no largo General Osório, centro de São Paulo. Depois foram para o DOI-CODI, órgão de repressão localizado na rua Tutóia. Foi lá que ficaram presos. Gaúcho acredita que foram durante duas semanas. Dalete afirma que foi uma semana. “Eles perderam completamente a noção de tempo lá dentro. Isso fazia parte da tortura mental que fizeram com eles”.

 

As lembranças são as piores possíveis. “É um pavor total. Você não tinha noção de nada: tempo, futuro. Você só ouve gritos, gemidos. É terrível”. Nos interrogatórios, davam um pedaço de papel e uma caneta. A ideia era que os dois dessem nomes de pessoas que estivessem colaborando com movimentos comunistas ou esquerdistas. Mas Roveda afirma que não conhecia ninguém que estivesse engajado na luta política. “Eu ia colocar o nome de quem? Mazzaropi? Mojica? David Cardoso?”. Os interrogatórios diários eram acompanhados de tortura física (socos, pontapés, golpes, palmatória, cadeira do dragão) e morais (simulação de execução, ofensas de baixo calão, ameaça de torturas de familiares). “Aquilo que fizeram com eles foi brutal”, explica Dalete Cunha de maneira emocionada.

 

Roberto e Dalete eram noivos quando aconteceu a prisão. O montador foi detido com uma aliança com o nome da amada cravada no anel. “Os militares queriam saber quem era aquela Dalete da aliança. As torturas aumentaram e mesmo assim ele não revelou. O Roberto manteve-se firme”, relembra emocionada. Na época da prisão, os dois foram tidos como desaparecidos. Dalete foi atrás ao irmão de Roberto chamado Benedito que era despachante e eles passaram a correr pelos distritos policiais da cidade atrás dos dois. “Nós chegamos a ir no IML (Instituto Médico Legal) para abrir as gavetas atrás dos corpos deles”. A viúva afirma que a aliança e vários pertences dos dois amigos foram apreendidos pelas “autoridades” militares.

 

Dalete lembra que Gaúcho e Roberto foram soltos num domingo. “Eles estavam física e emocionalmente arrasados, destruídos. Acabaram indo pra casa dos meus pais onde ficaram meses dormindo em colchonetes. Não deixamos eles voltarem para o apartamento de jeito nenhum”. Roveda diz que a readaptação para a vida diária não foi nada fácil. “Você sempre fica suspeitando, olhando para os cantos. Com medo de te pegarem de novo, de viver aquilo tudo de novo. É terrível”.

 

Os nomes de Roberto Leme e Virgílio Roveda estão nos arquivos do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social). O boletim informa que os dois estiveram prestando depoimento no órgão entre os dias 3 e 4 de outubro de 1973 por terem ligações com Pedro de Camargo (vulgo “Fábio” Ou “Joel”). Existem diversos Pedro de Camargo citados nas fichas do DOPS.

 

Mas o único Pedro de Camargo que tem os codinomes Fábio e Joel tem uma ficha bem extensa. Segundo os documentos, ele nasceu em 9 de setembro de 1945 na cidade de Cerquilho, interior de São Paulo. O órgão informa que ele usava seis codinomes: “Fábio”, “Joel”, “Ângelo”, “Bruno”, “Magrela” e “Álvaro”. Em 27 de outubro de 1969, Pedro foi indiciado pela Lei de Segurança Nacional por “atividades subversivas terroristas da organização auto denominada ALIANÇA LIBERTADORA NACIONAL- ALN”. Em 1970, ele foi novamente indiciado três vezes tendo inclusive a prisão preventiva decretada. Ele acabou preso em 4 de novembro de 1973. No ano seguinte foi indiciado e condenado a quinze meses de reclusão por ter passagens por organizações militantes como VAR-Palmares e MR-8. Segundo o inquérito: “Em janeiro de 1973, voltou ao Chile de lá trazendo 250 mil dólares que lhe foram entregues pelo MR-8 chileno para financiar a subversão no Brasil. Dirigiu reunião do partido na Praia Grande, no carnaval do mesmo ano”.  Em 19 de dezembro de 1974 ele foi colocado em liberdade e dois anos depois julgado e condenado pelo Conselho Permanente de Justiça da 3º auditoria da 2º CJM em 1976. Ficou preso por dois anos e seis meses. O mandato foi cumprido e foi colocado em liberdade em 10 de abril de 1978.

 

Já Gaúcho e Roberto se tornaram sócios em 1974. Os dois fundaram a produtora Prodsul Cinema e Audiovisuais, empresa destinada a prestação de serviços dentro da especialização de seus sócios. Gaúcho atuava como assistente de câmera e diretor de fotografia e Robertinho como montador. O escritório da Prodsul era sediado num dos andares da rua do Triunfo, 173, na Boca paulista. Os dois chegaram a ser donos de uma sala de cinema chamada Cine São Paulo na cidade de Dourado, interior de São Paulo. Ambos também produziram dois longas-metragens (O Sexo e As Pipas de José Vedovato e A Opção: Rosas da Estrada de Ozualdo Candeias). Dalete e Roberto se casaram no civil e no religioso numa quinta-feira, dia 5 de dezembro de 1974, na paróquia de Santa Ifigênia, centro de São Paulo. “Foi um momento inesquecível. Casamos pertinho da Boca para os amigos irem direto dos bares para a cerimônia. Enchemos a igreja de gente do cinema”, lembra Dalete. Na ocasião, Gaúcho foi padrinho, fez as fotos da cerimônia e gravou o filme.

 

As sessões de tortura deixaram danos irreversíveis tanto em Gaúcho como em Roberto. O diretor de fotografia sulista sofre de uma deficiência no ouvido até hoje. Já o montador Roberto Leme sofreu alucinações e ficou com mania de perseguição. “O Robertinho virou outra pessoa. Ficou violento. Mudou a personalidade dele completamente”, garante Dalete emocionada. Tanto que o próprio casamento dos dois foi abreviado e acabaram se separando alguns anos depois. Roberto não tinha hábitos etílicos. Após o episódio da prisão começou a beber e atrasar-se para compromissos pessoais e profissionais. “Ele tornou-se alcoólatra. O Roberto bebia pinga pura. Tivemos duas filhas e aquilo foi me enchendo. Ele ficava muito desequilibrado e passou a ser um risco para as meninas”.

 

O montador chegou a se atrasar inclusive para o casamento de Gaúcho e Norma em 1979. Acabou perdendo a chance de ser padrinho. “A Dalete acabou atrasando para o casamento e os tios da Norma substituíram eles”, lembra Roveda rindo. Já Dalete Cunha conta outra versão. Ela garante que a culpa do atraso não foi dela. “O Roberto foi buscar uma câmera para gravar o casamento. Mas ele passou num boteco com um pessoal e atrasou tudo. Ele já não estava bem de cabeça”.

 

Compositor, maestro, poliglota, seminarista, montador cinematográfico. Roberto Leme acabou encerrando sua vida sendo porteiro de um prédio. “O Roberto poderia ter sido muito mais. Tudo acabou sendo sequela daquele triste episódio. Destruíram sua saúde, seus sonhos, sua família e sua vida”, lembra Dalete. Passados quase 47 anos da prisão dos dois, tanto Roberto como Gaúcho nunca receberam nenhuma indenização. Dalete entrou com um pedido num escritório de advocacia especializado em Direitos Humanos. “A advogada que cuida do caso afirma que os processos foram abertos. Mas até agora não obtivemos nenhuma resposta. Já fazem três anos que entregamos os documentos que nos pediram. Mas com esse governo infame que infelizmente está aí não tenho esperança de que aconteça alguma coisa”, lamenta Dalete.

 

Especializado em Direitos Humanos, o advogado Pablo Biondi é o encarregado do caso. Mas ele não tem grandes esperanças. “Infelizmente, os processos estão parados já que a Comissão de Anistia está trabalhando num ritmo decrescente. Aliás, sob o atual governo esse quadro se agravou muito. Sem nenhuma novidade ainda”.




Publicado originalmente no site de direitos humanos A Ponte: www.ponte.org.br