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sábado, 17 de julho de 2021

VSP comenta o cinema brasileiro atual: "Legalidade" (2019)

 Legalidade” ** (Brasil, 2019, ficção, direção: Zeca Brito)


Fazer filmes que falem sobre momentos da história brasileira é bastante importante. Este é um dos méritos deste Legalidade que parece ter sido rodado inteiramente no Rio Grande do Sul. A única realização que eu tinha visto do diretor Zeca Brito antes deste foi o documentário “A Vida Extra-Ordinária de Tarso de Castro” na Mostra Internacional de São Paulo em 2017. Um longa-metragem excepcional sobre um dos maiores jornalistas brasileiros de todos os tempos: Tarso de Castro (1941-1991), fundador do jornal O Pasquim. Vi na Cinesala em Pinheiros numa sessão num domingo à tarde e a sala praticamente vazia. Lembro que eu caí ás gargalhadas com o ator Paulo César Pereio dizendo que “não se lembrava muita coisa da vida porque tinha usado muitas drogas”. O mesmo Paulo César Pereio reaparece aqui numa ponta.

O longa-metragem Legalidade aborda o ano de 1961 quando o então governador gaúcho Leonel de Moura Brizola fez um movimento para assegurar seu o então vice-presidente João Goulart assumir a presidência. Dentro de fatos reais, o diretor tentou engatar um triângulo amoroso envolvendo uma agente americana que se passa por jornalista chamada Cecília (Cléo Pires) que tem envolvimento com dois irmãos. Um é o antropólogo Luiz Carlos (Fernando Alves Pinto) e outro o fotógrafo e jornalista Tonho (José Henrique Ligabue). Talvez o maior erro seja o filme não se afirmar nem no folhetim amoroso das partes e nem na importância histórica. Ficou perdido nas duas tramas. Um dos destaques é o ator Leonardo Machado que faz muito bem Brizola (até no jeito de falar a semelhança é impressionante) e infelizmente faleceu muito novo. Cléo Pires como agente da CIA ou algo do gênero acaba não convencendo. Legalidade ficou muito panfletário em certos momentos. Isso desequilibra o longa-metragem. Talvez se fosse um tempo menor a trama ficasse mais ágil. O cinema brasileiro deve retratar mais a nossa história e personagens. Essa coragem Legalidade possuí mas peca em alguns momentos chave. E isso compromete um pouco a trama embora tenha momentos parecidos com o clássico Casablanca de Michel Curtiz. Isso fica patente na cena final da despedida no aeroporto.



quinta-feira, 15 de julho de 2021

VSP comenta o cinema brasileiro atual: "O Amor de Dentro da Câmera" (2021)

 O Amor de Dentro da Câmera” **** (Brasil, 2021, documentário, direção: Jamille Fortunato e Lara Beck Belov), visto no Cine OP 2021

Este é um dos trabalhos mais afetivos e carinhosos que assisti nos últimos tempos. O Amor de Dentro da Câmera explora a trajetória de um casal notável da cinematografia nacional: a atriz Conceição Senna e o cineasta Orlando Senna. Ambos companheiros de vida por mais de 40 anos. De minha parte só conhecia parte da trajetória de Orlando como diretor de Iracema- Uma Transa Amazônica (1974) e pelos cargos que ocupou em órgãos institucionais. O veterano Orlando Senna também foi roteirista de diversos diretores e foi ligado ao núcleo original do Cinema Novo. Ele conta algumas histórias de sua trajetória quando ainda estudante secundário conheceu o Glauber Rocha em Salvador e também colaborou no Cinema de Invenção, o dito Cinema Marginal. Orlando Senna também possui uma ligação muito grande com Cuba onde foi um dos criadores e diretores da Escuela Internacional de Cine Y TV- San Antonio de Los Baños durante muitos anos. Essa universidade é tida como uma das melhores escolas de audiovisual do mundo. O Amor de Dentro da Câmera já vale por jogar novas luzes sobre Orlando Senna.

Mas quem rouba a cena e carrega o filme é a sua esposa: a atriz Conceição Senna. Ela é a própria alma da realização. Profissional dedicada, ela conta seus trabalhos e sua opção de não gostar de fazer televisão. “Só me chamam para fazer estereótipo de nordestina ou prostituta”, lamenta. Ela conta bastante da sua relação de décadas com Orlando: como iniciaram o namoro e o casamento que tiveram tendo o escritor Jorge Amado como padrinho. Conceição é uma figura muito pouco citada no cinema brasileiro. Ela também foi apresentadora de televisão em Cuba enquanto o esposo era um dos professores da Escuela Internacional de Cine. Bastante carismática, Conceição chama muito a atenção do espectador. Muito inteligente, ela reflete muito sobre sua vida, o cinema e os rumos do Brasil. Parece uma avó carinhosa ou uma professora que todos nós tivemos. O Amor de Dentro da Câmera é um documentário criativo e terno que nos faz conhecer mais sobre a vida desse casal notável que dedicou sua trajetória a sétima arte brasileira. Grande estreia das jovens diretoras Jamille Fortunato e Lara Beck Belov. É bom anotarmos os nomes delas porque com certeza as duas devem apresentar mais projetos num futuro breve.

quarta-feira, 14 de julho de 2021

VSP comenta o cinema brasileiro atual: “A Senhora Que Morreu no Trailer” (2020)

 A Senhora Que Morreu no Trailer” *** (Brasil, 2020, documentário, direção: Alberto Camarero e Alberto de Oliveira), visto no Cine OP 2021

Docudrama narrado como uma espécie de grande reportagem. A protagonista aqui é a atriz, cantora, faquireza e encantadora de serpentes Suzy King (1917-1985), encontrada morta num trailer na fronteira entre os Estados Unidos e México. King é realmente uma figura fascinante: nasceu no interior da Bahia, trabalhou com apresentações sensuais em São Paulo, Rio de Janeiro e no exterior utilizando múltiplos nomes e pseudônimos. King domava selvagens répteis que deu nomes como Cleópatra, Oséas Martins e Perón. Grande parte da narrativa são notícias antigas de jornais narradas enquanto a protagonista é interpretada por diferentes atrizes como Helena Ignez, Maura Ferreira, Zilda Mayo, entre outras. Todas muito bem dirigidas é bom ressaltar.

Os diretores pesquisaram intensamente a carreira e a vida de King tendo percorrido São Paulo, Rio de Janeiro e mesmo os Estados Unidos atrás de pessoas que conheceram essa inusitada personagem. No exterior, ela adotou o pseudônimo de Jacuí Japurá Sampaio Bailey e manteve um relacionamento com o norte-americano Bill Bailey. Este é outra figura enigmática: teve cinco casamentos sendo um adepto da contracultura e do naturalismo. Bailey montou uma casa em estrutura geodésica em formato de bola localizada em Tijuana antes de morrer. Os diretores estiveram na inusitada residência do ex-namorado da protagonista. Até hoje, muito pouco sabe-se sobre a morte da encantadora de serpentes que foi encontrada morta num trailer (como no título do filme) em 1985. A produção também foi no interior de Minas Gerais atrás do único filho de Suzy chamado Carlos que tornou-se andarilho de ruas. Trata-se de um documentário bastante completo e definitivo sobre a retratada com linguagem não acadêmica. O único ponto fraco é o excesso de informações que deixou A Senhora Que Morreu no Trailer um tanto longo. Se fosse dez ou vinte minutos menor poderia ser perfeito. Mesmo assim, a riqueza de informações e a dedicação dos realizadores é notável. Vale (muito) a sessão.



terça-feira, 13 de julho de 2021

VSP comenta o cinema brasileiro atual: "Entre Irmãs" (2017)

 Entre Irmãs” *** (Brasil, 2017, ficção, direção: Breno Silveira)

O cineasta Breno Silveira vem construindo um tipo de trabalho recorrente em sua obra cinematográfica. São filmes acadêmicos muito bem produzidos que muitas vezes desaguam para o melodrama. Este já é o quinto longa-metragem de sua filmografia como realizador: “Entre Irmãs”, lançado originalmente 2017 e lançado como minissérie no ano seguinte na TV Globo. Trata-se de um trabalho impecável quando falamos em padrões técnicos seja na direção de atores, fotografia, reconstituição de época, música e som. É um filme acadêmico de produção enxuta com um elenco estrelar. “Entre Irmãs” é baseado num romance da autora Frances de Pontes Peebles e reconta a trajetória de duas irmãs no Pernambuco dos anos 1930: Luzia (Nanda Costa) e Emília (Marjorie Estiano). As duas moram com a tia num sítio no agreste pernambucano até que precisam se separar. Luzia segue um bando de cangaceiros e Emília se casa chegando na alta sociedade recifense.

As duas histórias seguem paralelas muito diferentes mas de maneira melodramática. Na vida instável dentro do bando de cangaço, Luzia inicia um romance com o líder do grupo, o cangaceiro Carcará (Júlio Machado) e vai se tornando uma espécie de Maria Bonita do grupo. Já Emília casa-se com o jovem advogado Degas (Rômulo Estrela) que não tem grande paixão por ela. As duas estão submetidas a histórias problemáticas. As histórias desenvolvem-se de maneira eficaz. Um dos personagens que mais chama atenção é o sogro de Emília, o médico cientificista Doutor Duarte (Cláudio Jaborandy, excelente) que defende a frenologia, pseudociência que investiga o tamanho dos cérebros das pessoas. Essa foi uma linha de pensamento muito desenvolvida no mundo e principalmente no Brasil do Século XIX. Esse pensamento baseou muitas teorias racistas e preconceituosas elaboradas pelo médico italiano César Lombroso e defendida por inúmeros teóricos brasileiros como o médico Nina Rodrigues (1862-1906). A atriz Letícia Colin também tem uma participação marcante na película como uma mulher mais madura que Emília e amiga de infância de Degas.

Entre Irmãs é um tanto longo. São quase três horas do longa-metragem que conduz um melodrama ás vezes muito esquemático, meio novelão. Mas Breno Silveira sabe dirigir atores e vem tornando-se um realizador acadêmico com talento inegável. É um filme que atinge o grande público e demonstra a segurança de Silveira em saber contar uma história. O melodrama parece ser seu gênero preferido desde seu primeiro longa como diretor: Os 2 Filhos de Francisco (2005), filme baseado na história da dupla Zezé Di Camargo e Luciano que teve mais de 5 milhões de espectadores em seu lançamento.


sábado, 10 de julho de 2021

VSP comenta o cinema brasileiro atual: "Boca de Ouro" (2020)

Boca de Ouro” **** (Brasil, 2020, ficção, direção: Daniel Filho)

Este filme acaba nos trazendo uma importante reflexão sobre o cinema brasileiro. Daniel Filho é uma referência na história da televisão nacional, sendo responsável pela produção, direção e autoria de diversos programas dentro da TV Globo e fora dela. Sua relação com a obra do dramaturgo Nelson Rodrigues é bastante antiga. Ele esteve como ator na primeira versão cinematográfica de Boca de Ouro (1963), dirigido por Nelson Pereira dos Santos. E não fez um papel pequeno: ele foi o personagem Leleco contracenando com Jece Valadão que fazia o papel título. Também foi Daniel Filho responsável pela série A Vida Como Ela É, adaptações dos textos de jornal de Nelson Rodrigues.

É interessante notar que em toda a sua trajetória Daniel Filho não descarta ou foge do selo de “artesão”. Pode-se notar que ele passou pelo Cinema Novo. Estava lá como ator em papéis significativos em Os Cafajestes (1962) de Ruy Guerra ou o no próprio Boca de Ouro (1963) de Nelson. Mas invés de fugir do selo de artesão, o experiente diretor o assume. E assume com o talento e profissionalismo. Possuí uma direção de atores excepcional, com resultados acima da média. Tem-se Marcos Palmeira no papel-título. É muito difícil compará-lo com Jece Valadão da primeira versão. Mas pode-se dizer que ele não deixa nada a desejar. Malu Mader renasce muito bem como Guigui e mesmo Guilherme Fontes (antigo galã que sumiu após dirigir Chatô) reaparece bem como o marido Agenor. Agora, a atriz Lorena Comparato dá um show como a personagem Celeste. Parece que ela nasceu para representar Nelson Rodrigues: ora é a moça ingênua, comedida. Num segundo momento é a moça pecadora, em chamas de sensualidade. Realmente eu não conhecia essa atriz e pode-se dizer que seja uma das melhores dessa geração. Outra moça que desponta com muito talento é Fernanda Vasconcellos como Maria Luisa ora mais pura e num outro momento mais provocante. O brilhante Sílvio Guindane, um dos melhores profissionais dessa geração faz o jornalista sensacionalista também com inspiração. O próprio Daniel Filho faz uma pequena participação no final. Outras pequenas participações de atores experientes como Anselmo Vasconcelos e Léa Garcia não são a toa.

O filme passa-se em poucos ambientes. E ás vezes parece um pouco televisivo demais. Pode-se algumas vezes parecer um pouco teatral também. Mas uma produção baseada numa peça de teatro não tem que ser isso mesmo? Parece que sim. Um dos outros fatos que mais me chamaram a atenção é o constante suspense. Boca de Ouro não para um minuto de ter tensão. Ao final, o espectador não sabe se ele era mesmo o bandido sanguinário ou um pobre bicheiro que nasceu numa pia de gafieira. Tem muito Nelson Rodrigues nessa adaptação. A lição que fica de Daniel Filho tem que ser repassada aos jovens diretores que querem fazer um filme popular. O realizador com vasta experiência na televisão não foge do selo de artesão ou de fazer um filme com início, meio e fim. Não, ele assume sua condição de artesão profissional e dá conta do recado com notável excelência principalmente na direção do elenco. Pelo elenco ganha a cotação máxima. Lamento não ter visto no cinema e sim numa pequena tela. Daniel Filho como diretor de cinema tem uma carreira com altos e baixos. Não tem como defender A Partilha (2001) ou Se Eu Fosse Você (2006). Mas dá para dizer que entre seus melhores momentos estão O Casal (1975) e Tempos de Paz (2009), que com este Boca de Ouro (2020) ser seus trabalhos mais consistentes.

sexta-feira, 9 de julho de 2021

VSP comenta o cinema brasileiro atual: "Libelu- Abaixo a Ditadura" (2020)

Libelu- Abaixo a Ditadura” **** (Brasil, 2020, documentário, direção: Diógenes Muniz)

É impressionante como o gênero documentário vem ganhando espaço no cinema brasileiro. A Libelu (Liberdade e Luta) foi uma corrente trotkista surgida na USP (Universidade de São Paulo) em 1976. O longa-metragem acompanha o depoimento de ex-membros da tendência mais de trinta anos após suas participações no grupo. A militância participou intensamente dos acontecimentos políticos na Redemocratização entre 1975 e 1980. Entre os entrevistados estão pessoas conhecidas como o jornalista Reinaldo Azevedo (que na Libelu era da terceira divisão), o crítico gastronômico Josimar Melo, o professor José Arbex Filho, o comentarista Demétrio Magnoli, o jornalista Eugênio Bucci, o músico Cadão Volpato (da banda Fellini) e até o ex-ministro Antônio Palocci. As cenas de arquivo são preciosas. É notável a opção do diretor Diógenes Muniz por fazer um excelente documentário bastante informativo e não acadêmico. A opção em levar quase todos os entrevistados para um mesmo lugar é excepcional. O único entrevistado fora do espaço é Antônio Palocci que mesmo em prisão domiciliar deu depoimento ao documentário. A participação de Palocci é a cereja do bolo e a opção dele aparecer no final agrega muito valor ao trabalho. Excelente estreia de Diógenes Muniz e sua equipe. Criativo, informativo e até mesmo engraçado. Ganhou o Festival É Tudo Verdade do ano passado com autoridade e justiça. Espero que o diretor continue trazendo temas inovadores em seus próximos trabalhos.


quinta-feira, 8 de julho de 2021

VSP comenta o cinema brasileiro atual: "Eu, Pecador" (2017)


 Eu, Pecador” *** (Brasil, 2017, documentário, direção: Nelson Hoineff)

O cineasta Nelson Hoineff (1948-2019) era um diretor experiente de documentários quando fez este filme. Algumas vezes conseguiu resultados primorosos como em “Cauby” e algumas vezes errava a mão completamente. No entanto, este doc trata de um personagem muito controverso: o cantor Agnaldo Timóteo. Dono de um vozeirão, o polêmico artista foi um dos recordistas brasileiros de vendas de discos nos anos 1970. De origem humilde, o mineiro iniciou sua carreira como motorista da cantora Ângela Maria, uma das grandes cantoras brasileiras da Era de Ouro (1930-1945). Mas Eu, Pecador aborda muito pouco a carreira e trajetória do cantor. A opção de Hoineff foi centrar a narrativa na frustrada campanha de Timóteo para a vereança do Rio de Janeiro em 2016. Temos os bastidores da luta eleitoral: sua campanha, o corpo a corpo no centro da cidade, as idas aos subúrbios em busca dos eleitores. Os números musicais ajudam mas parece que o diretor só quis abordar as controversas opiniões do personagem central sobre política e sexo. A exploração de muitos vídeos antigos de diversos programas populares de televisão cansa um pouco. Ao final do filme temos uma frustração porque perdemos um grande personagem que merecia um tratamento melhor. Parece que Hoineff preferiu falar de questões mais dos bastidores do personagem e da sua vida pessoal. O filme acaba cansativo, se tivesse vinte ou quinze minutos ao menos teria um resultado melhor. Mesmo assim, Timóteo tem um carisma e tanta polêmica que vale a pena o ingresso. Os números musicais são excelentes. É impressionante como Timóteo consegue ganhar o palco mesmo sendo acompanhado por poucos músicos. Tem-se assim por bem ou por mal um documento valioso sobre a trajetória deste polêmico cantor brasileiro que morreu em abril deste ano de complicações da Covid-19. O diretor Nelson Hoineff morreu jovem e teve uma significativa contribuição na história da televisão brasileira com o programa Documento Especial da TV Manchete. Uma pena ele não ter deixado um livro de memórias ou algum registro sobre sua trajetória profissional.

quarta-feira, 7 de julho de 2021

VSP comenta o cinema brasileiro atual: "Leste Oeste" (2016)

Leste Oeste” ** e meio (Brasil, 2016, ficção, direção: Rodrigo Grotta)

Longa-metragem sobre automobilismo passado em Londrina. É interessante por tratar de uma cidade interiorana que tem pouco espaço no cinema brasileiro em geral. Tem uma trama até interessante por ser uma coisa meio grega: Ezequiel é um piloto de sucesso volta à cidade natal depois de dez ou quinze anos de ausência. Vai fazer a última corrida. Ele tem uma relação complicada com o pai, com Stella, uma moça que tem um affair antigo. Essa moça tem um filho de quinze anos (Pedro) que também quer ser piloto. Tem uma coisa da rádio e do cigarro porque quase todos os personagens fumam. Isso lembra os filmes americanos antigos. A trama parece meio tragédia grega: todo mundo é parente mas isso só vai ficando mais claro ao longo da trama. Uma boa trilha sonora. O resultado pode ser um tanto irregular, mas tem um excelente elenco principalmente por conta de Felipe Kannenberg (muito bem) e Simone Iliescu, uma das melhores atrizes dessa geração. O final também é apático. Quem sabe o diretor não acerta melhor no próximo longa-metragem. Tem talento para dirigir atores. Mas seria legal mais filmes feitos em cidades médias do interior brasileiro como Londrina. Um país grande como o Brasil merece ter produções em mais locais.


terça-feira, 6 de julho de 2021

VSP comenta o cinema brasileiro atual: "Açúcar" (2017)

Açúcar” ** (Brasil, 2017, ficção, direção: Renata Pinheiro e Sérgio Oliveira)

Pernambuco vem fazendo alguns dos mais interessantes filmes brasileiros dos últimos tempos. “Açúcar” é um filme ousado, criativo mas com linguagem difícil para o grande público. Uma senhora de engenho, Maria Betânia Wanderley (Maeve Jinkings, atriz muito talentosa) retoma a fazenda que pertence a sua família. Ela tem uma relação tensa com o pessoal do Centro Cultural Cabo Verde que são antigos funcionários de sua família. Betânia é uma mulher racista, retrógada e com a mente bem preconceituosa. Parece o eleitorado de um certo presidente. O filme ganha quando demonstra as manifestações das religiões afro-brasileiras. Tem lá seus momentos mas o filme está muito maniqueísta entre bonzinhos e mauzinhos, acaba se perdendo. O experimentalismo também não me agradou muito. Mas tem uma fotografia impecável e um bom trabalho de produção.