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segunda-feira, 24 de abril de 2023

Os primeiros tempos do NP VI: A voz do povo é a voz de Deus

Capítulo 6: A voz do povo é a voz de Deus

 

Carlos Caldeira Filho e sua tradicional indumentária

Octávio Frias Filho, em um raro momento de descanso

Por Celso de Campos Júnior, Denis Moreira, Giancarlo Lepiani e Mark Rene Lima

 

Em 1965, Octávio Frias de Oliveira e Carlos Caldeira Filho estavam apenas começando o que se tornaria um dos maiores impérios jornalísticos do Brasil. Haviam comprado as Folhas (que englobavam Folha da Manhã, Folha da Tarde e Folha da Noite) em 1962, pagando 1,5 bilhão de cruzeiros antigos ao advogado Nabantino Ramos. Empreendedor ambicioso, Ramos foi a personificação da imagem da Folha como empresa jornalística. Profissional, metódico e pragmático, o advogado implantou no negócio as primeiras normas industriais e manuais de redação. A estrutura empresarial, portanto, já estava montada. Á dupla Fri-Cal caberia apenas consolidar o empreendimento.

 

E não haveria muito problema para isso: os dois novos donos do jornal pareciam se completar. Caldeira Filho, de família tradicional santista, construíra seu patrimônio com negócios bem-sucedidos no ramo da construção civil. Muitas vezes preocupava-se mais com o Santos Futebol Clube – do qual era sócio atuante desde o final da década de 1920 – do que com sua própria saúde financeira. Fazia o estilo “caipirão”: raramente usava terno e gravata, preferindo combinar camisas e calças claras com sandálias e chinelos. “Vivo no calo, caramba”, costumava justificar. A aparência o aproximava mais de um fazendeiro nordestino de novela das 8 do que sócio de uma empresa jornalística séria. Como contraponto a essa figura, encaixava-se Frias de Oliveira, ex-funcionário público que fez dinheiro trabalhando em funções ligadas ao capital financeiro. Detalhista e disciplinado, passava longe do jeito folclórico do companheiro.

 

Talvez por isso mesmo que os dois formassem uma eficiente equipe. Caldeira, participando do corpo-a-corpo com os funcionários e jornalistas, era figurinha fácil nas redações. Mais acessível, protagonizou muitas situações inusitadas pelos corredores do edifício da Barão de Limeira. Em uma delas, dois funcionários do NP – um deles recém-contratado – conversavam no elevador. Sem se importar com a figura alvamente vestida ao seu lado, o novato exclamou: “Quer moleza, rapaz? Senta no pau do Caldeira!”.  Bem-humorado, o santista, com um sorridos, apenas apresentou-se ao autor da frase, e fez questão de descer do elevador abraçado ao envergonhado funcionário. Caldeira era o amigo dos jornalistas; Frias, o chefe. Sempre mais formal, assemelhava-se à figura do administrador, do burocrata.

 

Naquele ano de 1965, ainda na esteira do golpe, a parceria de sucesso entre os dois empresários no grupo Folha viabilizou algo considerado impossível apenas um ano antes. Em menos de dois meses, Frias e Caldeira colocaram sob o mesmo teto duas forças que brigavam em exércitos opostos no front brasileiro: o Notícias Populares e o Última Hora. A compra do jornal de Samuel Wainer aconteceu em agosto de 1965 – antes, portanto, do negócio envolvendo o NP. O UH estava afundando em dívidas – Wainer estava pagando os credores até com geladeiras e panelas. Sem o apoio da turma de Getúlio e Jango, estava fadado ao desaparecimento. A Folha, então, ficou com o título Última Hora, assumindo as dívidas trabalhistas e pagando a quantia restante no decorrer de cinco anos.

 

Do ponto de vista empresarial, os dois novos populares do grupo Folha estavam capengas, com prejuízos acumulados. Nas bancas, porém, tinham muito a oferecer, pois seguiam como nomes fortes na cabeça do leitor. Mais importante, serviriam à intenção da empresa de crescer e estar com um pé (ou dois) em todos os nichos do mercado – mesmo que isso significasse absorver os concorrentes apenas para manter seu domínio. O Última Hora acabou padecendo desse problema. Em uma mensagem publicada na primeira edição do jornal sob o comando da Folha, em 4 de setembro de 1965, Frias e Caldeira garantiam aos leitores que o jornal continuaria em expansão, “defendendo os legítimos interesses dos trabalhadores”. Nos anos seguintes, porém, o UH seria preterido em relação aos vizinhos de andar na Barão de Limeira, e acabaria em franca decadência. Durante esse tempo, o Notícias Populares trilharia um caminho de maior êxito – ainda que em uma estrada não menos sinuosa.

 

Tranquilizado com a perseguição oficializada aos comunistas, Jean Mellé pôde, enfim, tocar o jornal da maneira que pretendia. Teve de lidar com algumas baixas na equipe: um grupo de jornalistas aceitou convites para trabalhar no Jornal da Tarde, inovador vespertino criado pelo grupo Estado, que chegou às bancas em janeiro de 1966. A principal perda, porém, já havia sido superada ainda no tempo do Gasômetro. Cansado das discussões com o romeno, Narciso Kalili pediu o boné; em seu lugar, assumira o jornalista Nicolau Alberto Chaui. Então com 50 anos, Chaui, descendente de sírios, tinha sólida experiência em jornalismo popular. Ingressara na carreira em Catanduva, interior de São Paulo, e pouco tempo depois já trabalhava no tabloide A Hora, na capital paulista. Com o êxito do periódico, o jornalista recebeu um convite para trabalhar no Última Hora, onde ajudou a formar uma geração de jovens talentosos com seus conselhos e orientações.

 

Após a saída de Kalili, Mellé percebeu que a vaga de secretário de redação do NP parecia talhada para Chaui. O romeno sabia que precisava de um jornalista veterano e experiente, mas que estivesse disposto a encarar com a vontade de um novato o desafio de elevar a publicação a novos patamares. O ex-funcionário do UH aceitou a proposta e levou sua conhecida fama de “professor” para o NP. Hábil no contato com a redação, o jornalista, como Mellé havia previsto, foi a peça que fez a engrenagem do Notícias Populares deslanchar. Em Nicolau Chaui, o jornal encontraria um suporte firme para o crescimento que se verificou na segunda metade da década de 1960.

 

Assim, a única pressão que recaía sob a curvada coluna de Mellé – problema oriundo de trabalho forçado na Sibéria – era a de vender jornais, e essa ele sabia, desde os tempos do Momentul, administrar como ninguém. Em sua lista de prioridades, a publicação estava sempre na primeira posição, deixando para trás outros assuntos pessoais e profissionais. Não seria exagero dizer que sua dedicação no jornalismo era integral: passava a manhã inteira lendo todos os jornais em seu apartamento, na rua Conselheiro Brotero, e dedilhando – apenas com o indicador direito – as primeiras notas para sua coluna em uma Olivetti Lettera 22 verde. Após o almoço, saía para a redação e só voltava para casa tarde da noite, quando sua mulher, Giulietta, o esperava com seu prato preferido: macarrão com açúcar.

 

Nem nos raros momentos de descanso Mellé desviava o pensamento do jornal. As frequentes sessões no cine Olido e as paradas obrigatórias na casa de chá Cristal, na avenida São João, não eram completas enquanto o chefão do NP não entrasse nas bancas do centro de São Paulo para perguntar ao jornaleiro como estava a vendagem de sua publicação. Invariavelmente, em uma delas, colocava a mão no bolso e comprava um exemplar no periódico. “Sou o leitor número 1 do Notícias”, justificava-se para dona Giulietta, sempre inconformada com a atitude do marido.

 

Apenas quando o letreiro do cinema anunciava a exibição de Doutor Jivago, a obra-prima de David Lean baseada no romance de Boris Pasternak, o romeno se transformava. Parecia o único momento em que, para ele, não havia laudas, clichês ou rotativas – talvez por isso tenha arrastado a mulher quase uma dezena de vezes à sala de projeção. Ao apagar das luzes, Mellé parecia hipnotizado - não pelos olhos azuis de Julie Christie ou pelo portentoso bigode de Omar Sharif, e sim pelas paisagens geladas que lembravam a Sibéria, seu lar forçado durante dez anos. Não por coincidência, comprara o disco com a trilha sonora da película e transformara o Tema de Lara, de Maurice Jarre, na música oficial do trabalho em seu escritório. Para animá-lo, ou isso ou as peripécias do detetive Steve McGarrett, do seriado televisivo Havaí 5-0, seu favorito.

 

Enquanto isso, o Notícias Populares começava a ganhar as feições de um jornal popular, no sentido que no romeno o concebia: com ênfase na parte policial e esportiva, as preferências do povo. Isso sem contar, claro, as fotos de belas mulheres, sempre retratadas em poses sensuais, e matérias sobre sexo. Mellé, contudo, não se limitou a repetir fórmulas já batidas. Uma de suas grandes inovações era deixar a decisão da manchete que iria para as bancas com os contínuos, trabalhadores normalmente à margem de qualquer opinião jornalística. A ousada jogada, porém, revelou-se genial. Uma das principais peculiaridades do Notícias Populares era o fato de que seus jornalistas falavam, em geral, para classes a que não pertenciam – o que dificultava o acerto no uso da linguagem. A saída encontrada por Mellé dizimou toda e qualquer insegurança a respeito da eficácia de uma determinada mensagem para os leitores do jornal. Nada melhor do que usar essa amostragem para definir a manchete, principal atrativa para o público, determinante na hora da venda do produto em banca.

 

Inicialmente, a tarefa coube a um contínuo, o carioca Guilherme Soares, crioulo forte com quase 1,90 metro de altura. Seu apelido, Mug, fora dado por Ramão Gomes Portão em razão da semelhança física do funcionário com um bandido da época. Seu porte físico o fez acumular também a função de guarda-costas de Mellé. Aproveitando essa proximidade, o romeno começou a pedir a opinião de Mug para as manchetes que a redação escolhia. “O que acha, moço? O que você entende disso? Acha que vende”, perguntava Mellé. Em caso de afirmativa, o chefe costumava dizer vox Populi, vox Dei e mandava rodar a manchete.

 

Em um episódio de briga na Assembleia Legislativa, por exemplo, a redação optou pela manchete RIFIFI NA ASSEMBLEIA. Um filme francês em cartaz na época tinha o mesmo termo em seu título. Mellé leu a sugestão e sentenciou: “Não, o povo não entende isso. Isso é coisa de vocês”. Para provar sua tese chamou Mug. “O quer você entende, moo?”, indagou ao rapaz que fazia cara de espanto ao ler a frase, claramente sem entender o que estava escrito naquele pedaço de papel. Então Mellé explicou a história, e o rosto do contínuo se iluminou. “Ah, teve um quebra-pau na Assembleia”, exclamou. E assim foi para as rotativas.

 

Mug, todavia, não era o único conselheiro de Jean Mellé. Certo dia, a redação do Notícias Populares preparava-se para rodar uma manchete corriqueira, sobre um crime em São Paulo. Mellé entrou na gráfica e reparou que todos os funcionários estavam aglomerados para ler uma pequena nota sobre a suporta aparição de uma mula-sem-cabeça na capital. Parou as máquinas na hora e mudou a manchete. A nova capa estourou nas bancas. “Pova sabe, pova conhece”, justificava.

 

Outra aposta inovadora do romeno foi a cobertura incessante do dia-a-dia dos artistas, coisa que poucos veículos faziam na época. A lógica era simples: artista vendia jornal. Por isso, o NP usava e abusava de gente famosa em suas primeiras páginas, atraindo a atenção do povo. Além de alavancar as vendagens, esse chamariz rendia fama à publicação, que ficava conhecida nas mais diversas camadas sociais.

 

E a maior prova desse fenômeno jornalístico seria proporcionada, quem diria, por uma gangue de garotos cabeludos e garotas com minissaias coloridas.

 

Publicado originalmente em JÚNIOR, Celso de Campos, MOREIRA, Denis, LEPIANI, Giancarlo, LIMA, Maik Rene. Nada mais que a verdade: a extraordinária história do jornal Notícias Populares. São Paulo: Carrenho Editorial, 2002.

segunda-feira, 17 de abril de 2023

Os primeiros tempos do NP V: Metralha udenista conta a democracia

Capítulo 5: Metralha udenista contra a democracia

 

O deputado Herbert Levy discursando 

Por Celso de Campos Júnior, Denis Moreira, Giancarlo Lepiani e Mark Rene Lima

 

O deputado Herbert Levy sempre teve cadeira cativa no Notícias Populares – afinal, era o dono. Nos primeiros números, sempre estavam presentes notas sobre a agenda e os pronunciamentos do político. Somente Brigitte Bardot aparecia tanto no jornal – problemas familiares, viagens, maldições astecas, qualquer coisa era pretexto para estampar a musa maior de Jean Mellé nas páginas do NP. Em janeiro de 1964, auge do verão brasileiro, a atriz veio para o Brasil em uma temporada carioca e passou a ofuscar até a presença de Levy. Famosa pela aversão aos repórteres, Brigitte trancou-se no quarto do Copacabana Palace durante a visita. No dia seguinte, o Notícias Populares estampava na capa: BRIGITTE SEQUESTRADA. No mesmo mês, foi flagrada por um paparazzo praticando topless. A imagem de BB seminua na capa do NP deu origem a uma série de reportagens sobre a nova moda, chamada de “biquininho”. Enciumado, Jean Mellé desaprovou o topless de Brigitte. Na pele de Jackie Cassino, escreveu em sua coluna que considerava o modismo “de inteiro mau gosto”.


No mês seguinte, La Bardot foi colocada de lado e o espaço de Herbert Levy no jornal aumentou de proporção à tensão crescente na atmosfera política brasileira. Em 19 de fevereiro de 1964, tem início o bombardeio mais efusivo por parte do deputado udenista contra o governo, com a manchete LEVY: JANGO ATRASA O MÍNIMO PARA FAZER REVOLUÇÃO.

 

O retardamento da assinatura do decreto do novo salário mínimo faz parte de esquema da ‘guerra revolucionária’ que o presidente João Goulart promove no Brasil. A denúncia foi feita ontem pelo deputado Herbert Levy, no Aeroporto de Congonhas, quando embarcava para Brasília. Segundo o deputado Levy, o objetivo do sr. João Goulart seria o de dificultar as condições de vida do povo, para que este, desesperado, aceite qualquer solução.

 

Daí para frente, pobre Jango e companhia limitada. A metralhadora giratória udenista não economizava projéteis contra os governistas, atacando com mais frequência toda e qualquer medida que não a agradasse. Como, com o passar do tempo, as notícias políticas desagradavam mais e mais os conservadores, não é exagero dizer que o NP, no período de fevereiro a abril de 1964, virou uma espécie de tribuna da UDN. O golpe militar aproximava-se, e o jornal, como um soldado tomado pela flama candente do ardor cívico, passou encampar a ideologia da defesa da segurança nacional. Ironicamente, a equipe do jornal era composta por uma esmagadora maioria de simpatizantes da esquerda, que até tentava “sabotar” – como definiu Mauro Santayana – as notícias reacionárias. Mas as vozes do dono e do editor-chefe, obviamente, determinavam a última palavra. Mesmo assim, a oposição não chegaria a se transformar num grande conflito ideológico, mesmo porque era Mellé o responsável pelas notícias pro-UDN. De qualquer forma, o fatídico mês de março começava assim para o Notícias Populares:

 

LEVY: GOVERNO TEM INTERESSE EM SUBVERTER A ORDEM

O deputado federal Herbert Levy proferiu, sexta-feira última na Associação Comercial e Industrial de Campinas, palestre sobre o aniquilamento econômico e a ameaça à liberdade que se processa no país.

 

Nada mal para um jornal que não se prestaria a falar de política. Além desses ataques diretor, o NP também começou a publicar manchetes econômicas contra o governo, buscando minar o apoio popular a Jango – afinal, a parte mais sensível do corpo do trabalhador era o mesmo bolso. PÃO E LEITE MAIS CAROS E MAR DE LAMA NO AUMENTO DO ÔNIBUS foram as manchetes de 4 e 7 de março. A estratégia é de fazer qualquer general aplaudir de pé. Em épocas de turbulência e polarização, o povo tende a ficar ao lado que defende a estabilidade para o crescimento pacífico e saudável da família. O jornal também temperava o clima com ameaças vindas de fora, onde a Guerra Fria esquentava os ânimos. No dia 10, por exemplo, lia-se uma matéria com o seguinte título: OEA: CUBA FAZ AGITAÇÕES NO BRASIL. Para o NP, só um golpe salvava o país.

 

Aliás, de acordo com as páginas do jornal – reflexo, claro, da mentalidade da direita – o golpe, pasme, era a manutenção do governo de Jango, eleito democraticamente pelo povo. A sequência de manchetes catastróficas não deixa mentir: PANCADARIA ESTOURA DE NOVO EM MINAS: METRALHADORAS E TANQUES PARA GARANTIR JANGO, em 13 de março de 1964; GOULAR ENCAMPOU REFINARIAS, no dia 14; PANCADARIA EXPLODE DE NOVO EM MINAS, no dia 16. (Em três dias, duas manchetes traziam o termo “pancadaria”). No dia 17, METRALHA NA FACULDADE (relatando uma ação da polícia na Faculdade de Direito do Largo São Francisco). No dia 18, 400 DESPEJOS POR DIA: ALUGUÉIS (impasse na lei de regulamentação dos aluguéis). A situação era caótica.

 

Se alguém ainda tinha dúvida de que o NP era um jornal político, ela começou a se dissipar no mesmo dia 18, quando o jornal começou a fazer propaganda da Marcha da Família com Deus pela Liberdade. Evento importantíssimo no contexto da época, a marcha foi motivada por uma frase de João Goulart, ao comentar o fato de que as mulheres de Belo Horizonte, de terço, na mão, impediram um comício de Leonel Brizola: “Não é com rosários que se combatem as reformas”. O caudilho perdeu uma ótima oportunidade de ficar com a boca fechada. Pouco tempo depois, os conservadores convocaram a marcha para combater, agora nas palavras do NP, “a demagogia das reformas, que escondem o objetivo de um golpe contra as instituições democráticas do País preparada pelo chefe da Nação”. “A cidade vai parar”, torcia o jornal.

 

No dia seguinte, 19 de março, o primeiro de uma série memorável para a direta, a manchete estampava: POVO MOBILIZADO CONTRA O GOLPE: MARCA COM DEUS É HOJE! Em sua coluna, Jean Mellé abria espaço para as sempre ponderadas palavras do deputado Levy, que chamava o presidente da República de “fraude”. Pelos cálculos mais pessimistas, a marcha reuniu mais de 500 mil pessoas; nos mais otimistas, 800 mil. Ao lado de Herbert Levy, Cunha Bueno, Plínio Salgado e Adhemar de Barros, governador de São Paulo, a multidão protestou contra Jango e seus “asseclas”. O jornal não se conteve: SÃO PAULO DE PÉ DEFENDE A DEMOCRACIA, foi a manchete de 20 de março, que também trazia a declaração de – sim, ele de novo – Carlos Lacerda: SÃO PAULO SALVOU O BRASIL.

 

No dia 21, ainda colhendo os louros da vitória pela marcha contra o comunismo ateu de Jango e Brizola, o Notícias Populares manchetou: LACERDA E ADEMAR UNIDOS: DEFENDEREMOS DEMOCRACIA. Como toda a direita, o NP não dava moleza para o governo. No dia 25, para bater do outro lado, o econômico, volta à tona a questão dos aluguéis. ALUGUÉIS: JG ADIOU DECRETO, dizia a manchete, referindo-se à postergação da lei de tabelamento dos aluguéis, determinada pelo presidente, contrariando todas as expectativas. As manchetes do dia 27, REBELIÃO NA MARINHA, e do dia 31, MARINHA: BOTATOS AGRAVAM A CRISE, mostravam que a vitória antigovernista estava próxima.

 

Na redação do NP, o clima também fervia. Os jornalistas puderam presenciar, no final da tarde do último dia de março, o abraço aliviado de Luiz Fernando Levy e Jean Mellé, que desceram a escada comemorando por antecipação a vitória das Forças Armadas. Concomitantemente, eclodia o movimento revolucionário em Minas Gerais, com a saída das tropas comandadas pelo general Mourão Filho. O romeno colocou todos os repórteres na rua, deslocando-os para cobrir a movimentação política. Vital Battaglia, por exemplo, foi para o quartel do Ibirapuera acompanhar a movimentação das tropas locadas na capital paulista, já que havia a notícia que o Terceiro Exército poderia estar se dirigindo a São Paulo. Tudo o que encontrou, porém, foi um general que acompanhava a “revolução” com os ouvidos grudados me um rádio Spica, esperando notícias de fora.

 

Mesmo assim, na volta à redação, o jornalista fez um relato de mais de trinta laudas do dia D, e entregou o material ao chefe. Mellé não chegou nem ao fim da primeira página. “Não precisa Battaglia. Já ganhamos”, afirmou o romeno. As notícias quentes vinham mesmo da cúpula da UDN, e iam direto para a primeira página. Dia 1º de abril: AB: ESTAMOS COM MINAS. “Ademar de Barros, acentuando estar contra o golpe, afirmou ser necessário ‘dar fim à onda comunista que assola o Brasil’”. Dia 2, os donos do NP estavam em festa. Dia 3, em letras garrafais, a vitória definitiva: GOULART ABANDONOU O BRASIL! Ainda na capa, o jornal reproduzia novas declarações do governador paulista: ADEMAR: MANDAREMOS NAVIOS COM COMUNISTAS À URSS.

 

No mesmo dia, na página 3: LEGALIDADE INAUGUROU NOVA POLÍTICA. TRANQUILIDADE! Ao lado, a coluna principal de Jean Mellé tinha um título mais que sugestivo: “As Forças Armadas como fator importante na formação de uma real democracia nas américas”. Um dia depois, no tradicional espaço de Levy, a afirmação de que o novo presidente deveria ser um militar. “É a melhor homenagem que se poderia prestar ao Exército nacional, que garantiu a sobrevivência da democracia”, resume. Não há quase uma linha sobre o destino de Jango, só para o futuro que, sob um céu anil e com a bênção dos militares, se abria. AURO VISITOU ADEMAR E KRUEL: PAZ E DEMOCRACIA ASSEGURADAS.

 

A manchete do dia 11 é a pá de cal na tensão política e civil que o NP, apesar de na teoria pretender mostrar as mensagens otimistas da sociedade transmitiu por quase seis meses em suas páginas: CASTELO BRANCO PRESIDENTE! Com o novo líder, viria o tão esperado reforço na segurança nacional, como pode-se perceber pelas chamadas seguintes: SUBVERSÃO: VASCULHADOS TODOS OS FOCOS; CAÇA ÀS CÉLULAS COMUNISTAS. Agora, sim, o paraíso reinava no mundo do Notícias Populares. Seguem-se ainda os seguintes excertos:

 

MINISTRO DA GUERRA: REVOLUÇÃO RESPEITOU A CONSTITUIÇÃO (entrevista com o general Artur da Costa e Silva, p. 6, dia 11/4)

CASTELO BRANCO INICIA MARCA DA RECONSTRUÇÃO NACIONAL (p. 3, 13/4)

GOVERNO VAI CONGELAR PREÇOS EM TODO O BRASIL (p. 6, 13/6)

CASTELO BRANCO: ALIANÇA SÓ COM OS PAÍSES LIVRES (16/4)

CADEIA PARA QUEM ROUBAR O POVO (18/4)

 

Até mesmo Radu Henry – filho mais velho de Mellé que se tornara jornalista e bon vivant em Paris – contribuía com notícias da Europa. CASTELO BRANCO SERÁ PRESIDENTE COMO DE GAULLE: SALVARÁ BRASIL, escreveu em 11 de abril. Para tranquilizar ainda mais a população, o jornal batia na tecla do congelamento, publicando os 64 artigos de primeira necessidade cujos preços o governo decretara intocáveis (um desses produtos indispensáveis era o sanduíche de mortadela). O Notícias Populares também não se esquecia da ação da polícia. De acordo com o periódico, os guardas estavam fazendo a sua parte – não havendo, portanto, motivo para pânico. Pelas linhas do jornal, o governo parecia dar a alma pelo povo. CASAS PRÓPRIAS: 14 BILHÕES PARA OS PAULISTANOS era a manchete de 21 de abril. Tudo estava às mil maravilhas.

 

O NP seguiu nesse ritmo até a segunda metade de 1965, quando completaria dois anos de vida. Já acumulava prestígio no interior e na capital de São Paulo, com uma tiragem média variando entre 70 mil e 90 mil exemplares diários. Levantamento do Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (Ibope), publicado no final de 1964, revelava que o Notícias Populares registrara um aumento de 357% de sua venda avulsa nas bancas da capital no período de novembro de 1963 a agosto de 1964. No mesmo estudo, o Ibope acusava um decréscimo das vendas em bancas para os outros jornais: 30% para os matutinos e 21% para os vespertinos. O plano inicial de neutralizar a ação do Última Hora estava cumprido, como o próprio Mellé deixou escapar em sua coluna de 11 de outubro de 1965:

 

Foi perguntado a um ilustre homem político num programa de TV o que achava do jornal Notícias Populares. Respondeu que, até dois anos atrás, os trabalhadores, para ler as notícias e os assuntos que lhes interessavam, eram obrigados a procurá-los num órgão com tendências comunistas e anti-religioso. Também surgiu um jornal como eles queriam: informativo, completamente independente, escrito e apresentado no estilo existente em todos os países ocidentais, onde o leitor é ouvido e respeitado, sendo-lhe oferecido um tipo de jornal do qual gosta.


Como também o objetivo de auxiliar na derrubada do governo fora alcançado, a família Levy não tinha mais interesse me dar informação aos trabalhadores – nem que fosse para ter lucro com o jornal, que havia roubado quase metade dos leitores do UH. A futura candidatura de Carlos Lacerda para presidente, quer seria apoiada nas páginas do NP, havia sido posta de molho pela UDN.

 

Conclusão dos conservadores: era mais preciso manter um jornal como arma política. Além disso, apesar do crescimento, o vespertino de Jean Mellé deixou prejuízos consecutivos em seus dois primeiros anos de existência. A perda financeira em 1964 foi maior que o dobro do prejuízo do próprio ano de fundação. Era preciso uma retaguarda empresarial para dar sustentação ao jornal, e isso não era uma tarefa fácil de assumir. Uma carta aberta endereçada ao prefeito Faria Lima, publicada pelo Notícias Populares em maio de 1965, serve como um pequeno exemplo das dificuldades estruturais enfrentadas por seus profissionais. O texto rogava ao brigadeiro que agilizasse a instalação de um “PBX e maios dois números de telefone” na sede do Gasômetro. Parece incrível, mas o jornal só tinha uma linha telefônica:

 

Somente no setor das consultas sobre a Lei do Inquilinato, mais de 50 mil pessoas foram atendidas pelo nosso redator especializado, sendo a maior parte das informações dada por telefone; pelo único telefone que Notícias Populares possui, e assim mesmo, emprestado de outro jornal.

Estamos hoje sob a égide da revolução, pela qual Notícias Populares lutou com riscos e perigos para alguns de seus membros. Pedimos, pois, em nome dos 200 mil leitores de Notícias Populares, que se faça justiça agora.

 

O NP era um fenômeno de público, mas um desastre como empreendimento. Sem disposição para reverter isso, Herbert e Luiz Fernando Levy preferiram voltar a tocar apenas a Gazeta Mercantil.

 

Assim, em 22 de outubro de 1965, uma semana depois do segundo aniversário do jornal, o Notícias Populares foi vendido a Octávio Frias de Oliveira e Carlos Caldeira Filho – a dupla de empresários conhecida como Fri-Cal -, dirigentes da Empresa Folha da Manhã S.A. Ainda que contra a vontade de Jean Mellé, a família negociou o título, acertou a transferência dos jornalistas, e obteve a garantia de que o romeno seria mantido no cargo. O restante da empresa constituída dois anos e meio antes foi rebatizada de Editora São Bento – nome da fazenda de café da família e da rua que abrigava o escritório administrativo – e liquidada logo depois. Na semana seguinte ao negócio, a rua do Gasômetro ficou para trás. O NP instalou-se na alameda Barão de Limeira, no centro de São Paulo, onde encontraria a estrutura necessária para seguir crescendo. Ali, passada a fase de tribuna política, o jornal vivera uma nova história, ainda mais ao gosto dos fregueses.

 

Publicado originalmente em JÚNIOR, Celso de Campos, MOREIRA, Denis, LEPIANI, Giancarlo, LIMA, Maik Rene. Nada mais que a verdade: a extraordinária história do jornal Notícias Populares. São Paulo: Carrenho Editorial, 2002.

segunda-feira, 10 de abril de 2023

Os primeiros tempos do NP IV: Circo do romeno pega fogo

Capítulo 4: Circo do romeno pega fogo

Edição do Notícias Populares em 1964


Por Celso de Campos Júnior, Denis Moreira, Giancarlo Lepiani e Mark Rene Lima

 

Para quem já havia superado uma década em condições subumanas na Sibéria, não foi nada difícil driblar um empreendimento (mal) organizado pela burocracia. Em pouco tempo, Jean Mellé conseguiu tirar leite de pedra, transformando a precária estrutural do NP em uma organização respeitável para os padrões jornalísticos. Em uma época em que a boemia e o jornalismo dançavam de rosto colado, o romeno tinha uma visão da engenharia de um jornal que somente vinte ou trinta anos depois seria implantada pelos grandes veículos. Claro que muitos achavam que o chefe estava pirado quando dizia, por exemplo, que os jornais do futuro sairiam em três edições diárias, com quatro páginas no máximo, para reproduzir com mais agilidade as notícias do dia. Mellé só não contava com a Internet, que sepultou sua previsão de um jornal em papel com três edições. Mas não seria a rede de computadores exatamente a concretização dessa ideia em outro meio?

 

Independentemente disso, quando o romeno arregaçava as mangas, ninguém ousava contrariá-lo. Nem mesmo o dono, já que Mellé gozava de autonomia em todos os sentidos – o próprio Luiz Fernando Levy admite que suas reuniões com o jornalista serviam apenas para cumprir tabela, pois jamais ousara interferir nas decisões do veterano editor. A principal cobrança do chefe para a redação dizia respeito ao horário de fechamento. Normalmente, as páginas deveriam começar às 20 ou 21 horas, mas Mellé costumava antecipar o deadline (fechamento) para as 19 horas. O motivo? Atingir aquele trabalhador que voltava passa casa tarde da noite e não teria tempo, no dia seguinte, para parar em uma banca. De quebra, arrebanhava o público que se esbaldava nas boates do Centro até altas horas da madrugada. Na década de 1990, essa estratégia passaria a ser praxe no jornalismo – com direito a exagero de grandes veículos, que chegam a colocar a edição de domingo nas bancas no sábado à tarde.

 

Claro que Mellé também escorregava nessa pressa de fechar seu NP. Certa vez, Vital Battaglia, que finalizava a edição de esportes, foi abordado pelo romeno. “Jornalo fecha cedo hoje. Acho que não vai dar para esperar para fazer o jogo da noite”, disse o editor. “Bom, seu Mellé, se não der, tudo bem. A gente dá no segundo clichê”, respondeu Battaglia. A tréplica foi digna de Dadá Maravilha, o rei das pérolas futebolísticas. “No, acho que nem em segundo clichê, no compensa trocar. Será que no dá para colocar o resultado só do meio tempo do jogo?” Evidentemente, explicaram ao romeno que, nesse caso, seria melhor não colocar nada.

 

A verdade é que Mellé estava se acostumando novamente a ser chefe. E não só na redação. Não se sabe como, mas, ainda na fase inicial do Notícias Populares, o romeno havia convencido os Levy a desembolsar uma nota preta em uma nova frota de distribuição. Do sobrado do Gasômetro, certa vez, Mellé mostrou a um incrédulo Tão Gomes Pinto um comboio de lustrosos caminhões e caminhonetes Ford, que chegavam com pneus pretinhos e o reluzente logotipo do NP estampado nas portas. “Este estar segredo do jornalo: distrubuiçon”, disse ele. Para completar o esquema de entrega, os jornaleiros à moda antiga levavam o NP na boca da Boca, cobrindo os principais pontos da badalação noturna paulistana da época. Só as velhas rotativas, para variar, continuavam falhando na hora H. Experientes, porém, os funcionários já haviam descoberto como lidar com as máquinas nesses momentos: pauladas na lateral da engenhoca eram tiro e queda.

 

Na parte editorial, o jornal não precisava de trancos para engrenar. A equação esportes, polícia e cidades, reforçada por fotos de mulheres do Teatro Natal, na praça Júlio de Mesquita, era a garantia de resultados positivos nas bancas. Uma equipe de primeira linha, comandada com pulso firme pelo romeno, começava a tomar corpo no jornalismo paulistano. Nenhuma outra publicação, por exemplo, cobria as enchentes – pesadelo dos verões paulistanos já naqueles tempos – como o Notícias Populares. O banho que o NP dava nos concorrentes, contudo, não era fruto apenas do espírito jornalístico dos repórteres: os próprios funcionários do jornal eram vítimas das cheias, que transformavam a região do Brás em um verdadeiro mar urbano. Muitos só conseguiam chegar ao Gasômetro pegando carona em caminhões ou mesmo enfrentando as águas turvas. Por isso mesmo, não foram poucas as vezes em que jornalistas tiveram de trabalhar de cueca, enquanto calças e meias secavam no laboratório de fotografia – isso a despeito da presença feminina na redação, que contava com duas ou três funcionárias.

 

Mas as exclusivas não paravam por aí. Na editoria de esportes, o NP literalmente entrava em campo para chegar aonde à concorrência não chegava. Um de seus repórteres, João Carlos Guide, setorista do Palmeiras, havia conseguido enorme trânsito no clube, e cansou de trazer furos para a redação mostrando ângulos inéditos na reportagem esportiva. Não era difícil encontrar jogadores do alviverde visitando o prédio da rua do Gasômetro. Em retribuição, Guide era frequentemente requisitado para completar o time nos treinos do Palestra Itália. A relação não se abalou nem quando o repórter, autor de uma entrada mais estabanada no treino, contundiu o zagueiro Aldemar, tirando o jogador de um clássico contra o São Paulo.

 

A editoria de polícia, tocada pelo rechonchudo Ramão Gomes Portão, não ficava menos perto da notícia. Um dos fotógrafos do caderno, chamado Luiz Manoel, descendente de portugueses, entrava em qualquer beco antes da polícia para prender um bandido – não sem antes, claro, fazer o devido registro fotográfico da cena. Além da câmera, seu outro instrumento de trabalho era uma pistola automática 765, da qual não se separava nunca. (Aliás, a maioria dos repórteres policiais da época também não dispensava uma arma ao lado da caneta e do bloco).

 

Luiz Manuel, por sinal, foi o protagonista de uma das mais incríveis histórias do jornal na era do Gasômetro. Em uma noite de fechamento – já na espera pela troca de clichês -, o fotógrafo limpava o revólver de estimação em uma bancada da redação. Perto dele, J. B. Paladino, jornalista que cuidava da editoria internacional, insistia em provocar o lusitano. “Ô português, tenho mais medo dessa arma no chão do que na sua mão”, gargalhava. Paciente, Manuel continuava compenetrado em seus afazeres, apenas dando um recado: “Não me encha o saco, ora pois”. A noite adentrava, e as brincadeiras de Paladino, que estava sentado em uma das mesas da redação, prosseguiam. De repente, o fotógrafo levantou e deu um tiro no pé do engraçadinho. Ninguém ficou para ver: todos os jornalistas desceram a escada voando e foram se refugiar no hotel do outro lado da rua.

 

No corre-corre, também entraram os funcionários que trabalhavam na oficina, no térreo. A salvo na hospedaria, relataram aos companheiros que a bala atravessara o assoalho de madeira do primeiro andar e passara pela clicheria, alojando-se na mesa sobre a qual alguns trabalhadores jogavam crepe. Depois de quase meia hora escondidos, os jornalistas voltaram ao prédio, e encontraram Paladino imóvel, com a pele quase transparente: a bala havia atingido a costura de seu sapato. Já Luiz Manuel permanecia sentado, com as pernas para cima. Limpava calmamente a sua arma e, afinadíssimo, assobiava o Vira.

 

Evidentemente, casos como esse fugiam à rotina do Notícias Populares. Mas isso não significava que o clima da redação tivesse a harmonia de um mosteiro de monges beneditinos. Jean Mellé e Narciso Kalili, os dois primeiros homens na hierarquia editorial do NP, viviam uma relação de amor e ódio. Mais que um conflito pessoal, tratava-se de um confronto de escolas: de um lado, o romeno querendo mostrar a verdade nua e crua; de outro, o veterano jornalista brasileiro, sempre preocupado em manter a publicação com alto nível editorial, buscando erradicar todo e qualquer exagero popularesco.

 

Assim, bastava o horário do fechamento se aproximar para o tempo esquentar. Todas as noites, era a mesma coisa: a dupla subia e descia a escada do prédio aos berros, trocando ideias (poucas) e ameaças (muitas). Os insultos ecoavam por todo o prédio, desde o aquário de Mellé até o salão das rotativas. O pavio curto do chefão era conhecido por todos, mas ninguém se preocupava com essas ameaças – afinal, depois dos entreveros, Mellé voltava a derreter-se pelo colega. Além disso, a presença quase delegalesca de Ramão Gomes Portão intimidava a dupla. Quando a coisa parecia sem volta, o editor de polícia – advogado e criminalista de formação, muito inteligente e educado – colocava sua imensa barriga para apartar os brigões, e estava tudo resolvido.

 

Todavia, isso começou a mudar quando Mellé resolveu publicar a história de um triângulo amoroso envolvendo uma grande dama das altas-rodas paulistanas, Lygia Jordan. A reportagem de Percival de Souza citava nomes de todos os envolvidos, incluindo-se aí os vértices da trama, figurões da aristocracia bandeirante. Mesmo aconselhado por Kalili a deixar a história de lado – o veterano sabia que mexer com a alta sociedade era mergulhar em um vespeiro -, o romeno não se fez de rogado e soltou a matéria. A repercussão foi enorme: além de transformar-se em um verdadeiro escândalo social na época, a história rendeu dividendos ao NP, que praticamente dobrou sua tiragem na ocasião.

 

Mas Mellé pagaria caro pela ousadia. Certa noite, finalizando o expediente, o romeno estava prestes a entrar em seu prédio quando foi abordado por dois desconhecidos. Pelas costas, um deles segurou a vítima; rapidamente, o outro começou a desferir uma saraivada de golpes no editor do Notícias Populares, ao melhor estilo Éder Jofre. Mellé caiu junto com a sacola com garrafas de refrigerante que comprara pouco antes. De acordo com relatos de testemunhas, os agressores fugiram em um táxi da marca DKW, cor cerâmica. Antes de sair, deixaram lembranças de Claudino Caiano de Castro, um dos envolvidos no caso Lygia Jordan.

 

Anos depois, os responsáveis pela “congesta” foram pegos pela polícia e confirmaram o mandante da agressão. Os pugilistas Miguel Angel Miranda e Paulo da Silva confessaram ter recebido 100 mil cruzeiros de Caiado para aplicar a surra em Mellé, sob a justificativa que o jornalista estava criticando Lygia – que passara a ser mulher do figurão – no jornal que dirigia. A partir daí, a fera romena passou a andar armada: revólver calibre 38, cano longo

 

As discussões com Kalili continuaram, e a redação passou a temer pela segurança de ambos. Como ninguém se atrevia a desarmar Mellé, até mesmo os profissionais mais pacíficos passaram a carrega revólveres. Se houvesse detector de metais na entrada da redação, o jornal jamais chegaria às bancas naquela época. Claro que a situação incerta do país também contribuiu para o aumento do arsenal dentro do Notícias Populares. A polarização das forças políticas fazia com que, para muitos, sair às ruas fosse uma grande incógnita. Assim, também os jornalistas começaram a trabalhar com segurança própria – no caso de Mauro Santayana, um belo facão de 40 centímetros, cabo de prata, tratava de afugentar qualquer perigo. Arma nenhuma, porém, serviria como defesa do turbilhão que envolveria o Brasil um pouco mais tarde.

 

Publicado originalmente em JÚNIOR, Celso de Campos, MOREIRA, Denis, LEPIANI, Giancarlo, LIMA, Maik Rene. Nada mais que a verdade: a extraordinária história do jornal Notícias Populares. São Paulo: Carrenho Editorial, 2002.

segunda-feira, 3 de abril de 2023

Os primeiros tempos do NP III: A sorte está lançada

Capítulo 3: A sorte está lançada

 

Primeira edição do Notícias Populares em 15 de outubro de 1963

Por Celso de Campos Júnior, Denis Moreira, Giancarlo Lepiani e Mark Rene Lima

 

No início de 1963, o plano de Levy começava a se concretizar. Em meio ao tiroteio generalizado, com radicalizações da direita e da esquerda, chegava Jean Mellé, trazendo debaixo do braço a proposta de um novo jornal popular nacional. Após consultar alguns conhecidos da colônia romena, especialmente o industrial Ludwig Poenaru, também expulso da Romênia pelos comunistas, Levy comprovou o êxito de Mellé no jornalismo popular em seu país. E, com o ameaçador alerta do jornalista romeno ainda tilintando nos ouvidos, Herbert ordenou a seu filho Luiz Fernando, então com 24 anos, dar prioridade total à nova publicação.

 

A ideia era contra-atacar o Última Hora na mesma moeda – ou seja, criar um veículo com os mesmos alicerces jornalísticos (sexo, crimes, esporte, sindicatos), mas orientado pela visão conservadora. A dupla não queria lucro algum com o periódico. O objetivo era um só: roubar o público do UH e evitar a penetração da mensagem populista nas classes trabalhadoras. Com o lançamento do novo jornal, os udenistas não visavam, pelo menos a princípio, a adesão das massas. A ideia era apenas impedir que o apoio pendesse para o terreno do adversário, buscando a desmobilização da população em torno dos temas políticos.

 

Mais que um produto informativo ou de entretenimento, a nova publicação deveria ser acima de tudo política – procurando, paradoxalmente, evitar trazer temas políticos em suas páginas. Sua meta era neutralizar a ação do Última Hora nas classes populares, utilizando uma aparente e falsa neutralidade. Não procuraria tentar formar opiniões – trabalho esse realizado à exaustão pelo concorrente -, e sim veicular notícias que restabelecessem a versão distorcida, segundo a ótica da direita, pelo periódico de Wainer. Na visão dos Levy, o povo deveria ter acesso a um jornal construtivo, que se contrapunha à visão negativa que o UH dava à situação política do país, criando confrontos entre empresários e os sindicalistas.

 

Assim, foi constituída, em 19 de abril de 1963, a Editora Notícias Populares S.A., com sede própria na rua do Gasômetro, no Brás, e escritório administrativo na rua São Bento, no Centro. No dia seguinte, o Diário Oficial do Estado anunciava a formação da empresa, com um capital de 130 mil cruzeiros. De acordo com o plano inicial, a maior parte do dinheiro levantado para lançar a empreitada seria fornecida por Herbert Levy e seus filhos. Empresários como José Ermírio de Moraes Filho, Luiz Pinto Thomaz e João Arruda também haviam se comprometido a contribuir por meio da compra de ações. A ajuda, porém, ficou apenas na promessa.

 

A Jean Mellé coube a tarefa de montar a equipe de jornalistas para dar sustentação à ideia. Nesse ponto, o romeno tratou de compensar a tosca organização administrativa cercando-se de nomes de peso – a maioria, como ele, migrada da redação do Última Hora, de onde haviam sido tirados com propostas de salário até três vezes maiores. O time contava com Narciso Kalili (secretário de redação); Ramão Gomes Portão (editor de polícia), Cícero Leonel (chefe de reportagem), Sílvio Sena (editor-chefe), Carlos Tavares, Sérgio Pompeu e Mauro Santayna (redatores); Dalmo Pessoa, Vital Battaglia, Rui Falcão, Adriano Neiva – o De Vaney -, Tão Gomes Pinto e Celso Brandão (esporte); Percival de Souza e José Carlos Bittencourt (geral).

 

Completavam o elenco correspondentes em Brasília, Rio de Janeiro, Santos e Paris – onde trabalharia o filho de Mellé, Radu Henry – e diamantes lapidados pelo romeno, como Álvaro Luiz Assumpção, o Meninão. Figura badalada da alta sociedade, Meninão foi encarregado de fazer coluna social para o Notícias Populares. Precursor de uma tendência que dominou os jornais brasileiros nos anos seguintes, o ex-playboy revolucionou o gênero, misturando notas quentes sobre política e economia no espaço reservado à cobertura da vida noturna, a seção “Em Dia com a Noite”.

 

Outros medalhões assinariam colunas no jornal, como Moracy do Val (que escreveria a seção “Show”, sobre variedades) e Cláudio Marques (“Caixa Alta”, com notas sobre política e sociedade). Por sorte, o principal cronista brasileiro, Nelson Rodrigues, já não escrevia mais para os concorrentes Última Hora, onde teve espaço cativo até 1961, ou Diário da Noite, em que gastou dez meses, até julho de 1962. O passe de Nelson era do Globo carioca, mas suas colunas não estavam sendo reproduzidas em São Paulo. Era mais uma excelente oportunidade de enobrecer o projeto de Jean Mellé. A partir de 1963, as páginas do Notícias Populares estariam mostrando “A Vida como Ela É...”.

 

Inicialmente, o romeno queria batizar a publicação de O Momento, homenagem à sua antiga cria. Como o nome já estava registrado por outra empresa jornalística, Mellé buscou um título forte, que ia direto ao assunto e chegou em Notícias Populares. Sugestão prontamente aceita, era hora de fazer a propaganda entre os empresários e a população. Pouco menos de um mês antes do lançamento, uma pequena nota encontrada numa coluna na Folha de S. Paulo entregava completamente o ouro que Levy e os colaboradores udenistas queriam esconder dos leitores. O texto, de 22 de agosto de 1963, diz o seguinte:

 

Jean Mellé, que vai ser o ‘cap’ editorial de Notícias Populares, esteve explicando a homens de livre empresa, num almoço em casa do deputado Herbert Levy, o que virá a ser o seu dinâmico vespertino anticomunista. Estou sabendo que os ‘bigs’ em torno da mesa já acertaram propaganda para o jornal durante um ano. Depois desse ano, só se o Notícias Populares tiveram realmente leitores e cada nada de dez ou quinze mil exemplares...

 

Compara-se esse trecho ao editorial trazido na capa da primeira edição de Notícias Populares, colocada nas bancas em 15 de outubro de 1963, uma terça-feira, com tiragem de cerca de 15 mil exemplares (a grafia original foi mantida):

 

UM JORNAL EM SUAS MÃOS

São Paulo, tem a partir de hoje, mais um jornal. Precisamente este, que V. agora manuseia com o mesmo sentido crítico com quer o povo forma e derruba governos. E é um jornal, acreditamos, feito ao seu gosto, destinado a resistir a este mesmo exame a que seus olhos e sua inteligência o submetem: pela sua feição gráfica, pelo seu conteúdo informativo. Tivemos, como ocorre em todo empreendimento, nossos momentos difíceis, noites de vigília, enquanto a rotativa desenrolava das bobinas sucessivas pre-estreias. Somos, os que se propõem a lhe oferecer um jornal de primeira qualidade, povo como V. Por isto, os números que rodamos antes e que não chegaram às suas mãos sofreram o mesmo crivo, sucessivamente, até que nos decidimos a pô-lo na rua, fazendo-o chegar a V. Examine-o, por dentro e por fora, como o fizemos antes. Ele é seu, agora, como antes já foi nosso: elaboramo-lo, pacientemente, a V.

Não procure, nestas páginas, intenções políticas. Isto o cansaria sem resultado. Outro intuito não há, senão o de dar a V. a visão cotidiana de São Paulo, do Brasil, do mundo em que vivemos. Um mundo nem sempre bom, mas cheio de mensagens otimistas: de pujança científica, de solidariedade entre os povos, de trabalho – por entre todas as dificuldades inerentes à própria essência de coisa viva. Um mundo belo, enfim, pois, quando mais se agrupam estas dificuldades, delas tira a humanidade suas páginas mais gloriosas. E esta é a luta, com esteios de fé e halos de esperança que traremos diariamente a V.

TODOS NÓS.

 

Ora, se o “povo forma e derruba governos”, por que o Notícias Populares não trataria dos assuntos políticos? Estava ali, já na primeira manchete: GREVE NAS ESCOLAS HOJE: PROFESSORES RECUSAM PROPOSTA. Seria essa uma das mensagens otimistas a que o editorial se referia? A contradição com a proposta veiculada pela apresentação do jornal era evidente no início da trajetória do Notícias Populares, que também passaria a ser conhecida pela sigla NP. A pomposa conversa do editorial, se passada pelo referido “sentido crítico do povo” não colava. Mas, como as elites sempre tiveram a certeza de que o povo não pensa, os comandantes do Notícias Populares apostaram nesse jogo de aparências.

 

A primeira página da primeira edição trazia ainda chamadas policiais e uma foto de Brigitte Bardot, a líder absoluta no ranking oficial dos colírios de Mellé, seguida pelas não menos famosas e desejadas Catherine Deneuve e Elizabeth Taylor. O preço de cada exemplar, 20 cruzeiros, também era uma exigência do romeno. Para ele, uma publicação como o NP deveria custar no mínio 50% menos que os concorrentes da grande imprensa – o Última Hora, o Diário Popular e a Folha de S. Paulo, por exemplo, custavam Cr$ 30 cada um. Suas convicções quase dogmáticas sobre fórmulas como essa convenciam qualquer um. A marca do romeno também se fazia textualmente presente no Notícias Populares: na página 3, ressurgia a coluna “Jean Mellé Informa”, com notas sobre política nacional e internacional – outra atração importada do Última Hora.

 

O noticiário era bem balanceado, com espaços parecidos para política, internacional, esporte e polícia. Havia ainda quadrinhos, horóscopo e turfe, além das numerosas colunas, que passariam a ser uma das marcas indeléveis do jornal. Além de sua tradicional “Jean Mellé Informa”, o chefão romeno alimentava a coluna “Mundo na Imprensa” com notas da Time americana e de outras publicações que costumava ler ainda na Europa, como Le Monde e L´Observateur, da França, e jornais russos. A partir de fevereiro de 1965, Mellé ainda iria assumir um espaço de fofocas na página de variedades. Com a saída de Cláudio Marques, o romeno se tornou também o titular da coluna “Caixa Alta”. Pouca gente, porém, ficou sabendo disso: a seção seria assinada sob o gracioso pseudônimo de Jackie Cassino.

 

A primeira sede do Notícias Populares, localizada em um sobrado na rua do Gasômetro, 425, retratava bem a primária organização empresarial de um periódico que estava, acima de tudo, a serviço da política. A redação ficava no primeiro andar: subindo as escadas, a sala de Mellé situava-se em um canto à direita, contraposta a um grande salão onde as máquinas de escrever estavam em prateleiras afixadas na parede – mesas, inicialmente, só para os editores. Para escrever uma matéria, o repórter apenas puxava uma cadeira e começava a dedilhar as Remington e Olivetti, concretizando o projeto de Levy e, principalmente de Mellé. A exemplo de seu antigo chefe Samuel Wainer, o romeno parecia ter encontrado sua razão de viver.

 

No térreo, ficavam as mambembes rotativas do jornal. Já bem capengas para a época, mal davam conta do serviço que necessitavam realizar – puro exemplo do tosco arranjo da Sociedade Anônima. A bem da verdade, elas eram as mesmas que antes imprimiam os 3 mil exemplares da então tímida Gazeta Mercantil. O folclore continuava: para o cargo de retocador de fotografia, foi recrutado um cantor de ópera, conhecido apenas como Paulo. Com os minguados recursos para sua gráfica, uma das grandes preocupações de Mellé nos primeiros anos do NP era a economia e a redução de custos: a ordem era reaproveitar ao máximo tudo que pudesse ser reaproveitado.

 

Exemplo claro dessa política verifica-se com os clichês, as placas de zinco usadas para a impressão tipográfica. Uma vez usados, podiam ser fundidos e reutilizados. O romeno, tão logo uma edição acabava de ser rodada, já saía como um louco atrás do clichê. A postura de Mellé era tão incisiva que a redação da época já sabia o que fazer antes mesmo de qualquer pedido do romeno. “Se você buscou clichêu, não aha/ Desce embaixa, desce ambaixa...” Os versos cantarolados pelos jornalistas foram compostos pela “Rita Pavone” da redação- este era o apelido do repórter Renato Lombardi, que se tornaria um dos principais especialistas em jornalismo policial no Brasil. A marchinha parodiava o sotaque do chefe e referia-se à sagrada tarefa de descer à gráfica para recuperas as placas metálicas.

 

O dialeto do veterano jornalista, aliás, merecia um capítulo à parte. Como já foi citado, o português de Mellé era uma salada romena – razão pela qual tudo o que escrevia era revisado e muitas vezes reescrito pelos jornalistas de maior confiança do chefão, como Sílvio Sena. O romeno aprendeu que o indicativo do gênero masculino era a letra “o”. Assim, qualquer jornalista homem virava jornalisto, artista era artisto e assim por diante. Por associação lógica com o termo tabagista, Mellé tratava os bêbados de pingagistos, e qualquer bandido, mesmo aquele que roubava galinhas na periferia de Diadema, era um gângstero. Uma vez, querendo escrever piscina, grafou bacilo d´água.

 

Essa difícil relação com o português pode ser bem dimensionada tomando-se por base um episódio ocorrido ainda no início do jornal. A grande notícia do dia era a de que a chuva inundara a cidade. Na manchete, espaço de três linhas com onze toques em caixa alta. A versão do romeno: ENCHENTE CATASTROFAL EM SP. Mesmo alertado pelos jornalistas do equívoco, Mellé não dava braço a torcer. “Não pode, seu Mellé, esse termo não existe. O certo é ‘enchente catastrófica’”, explicavam os colegas de redação. “Mas aí não dá o tamanha”, respondia o chefe. Resignado, o romeno cedeu aos apelos ortográficos e desistiu de seu simpático neologismo – não sem antes murmurar: “Esse língua portuguesa...”

 

Mesmo com todos os problemas nas semanas seguintes ao lançamento, o jornal alcançava uma tiragem razoável, estimada entre 20 e 30 mil exemplares. Nada, portanto, que entusiasmasse o romeno, que pretendia reeditar o NP o êxito de seu Momentul. Mas Mellé punha muita fé em seu próprio taco; com o faro aguçado, confidenciava que precisava de apenas um episódio de grande destaque para fazer as rotativas trabalharem até dizer chega. O que ele não sabia, entretanto, é que já na edição de 12 de novembro esse fato estava anunciado. Sob o título NP REVELA AS PREVISÕES PARA 1964, a adivinha Jeanne Laplace bradava que John Fitzgerald Kennedy, então presidente dos Estados Unidos, deixaria o poder. Outra vidente, Jacqueline Malley, previra “a eliminação de Kennedy das eleições de 1964, por motivos de saúde”.

 

Bem, quase certo. Dez dias depois, em 22 de novembro de 1963, em Dallas, Lee Harvey Oswald eliminou para sempre o admirado político ianque. Grande fã de JFK, Jean Mellé não desperdiçou a oportunidade. No dia seguinte, soltou uma manchete fiel a seu estilo, em letras garrafais: KENNEDY ASSASSINADO. Com uma biografia caprichada, o último discurso do presidente e a cobertura da prisão de Osvald, a edição estava esgotada. Em sua coluna, Mellé escreveu: “Assassinato de Kennedy modificará os destinos dos EUA e de todo o mundo”. Poderia ter escrito também que o fato modificaria a história do jornal: aquele era o marco que consolidava o Notícias Populares como um dos periódicos mais vendidos do país.

 

No dia seguinte à tragédia, o NP noticiava a repercussão do crime e a morte do assassino. Em 28 de novembro, o jornal entrou na discussão das teorias conspiratórias sobre o crime e publicou uma reconstituição do assassinato. De posse com um carro conversível emprestado por Meninão e de um rifle tcheco calibre 22, os repórteres Cícero Leonel, Wilson Santo e Walter Marcondes foram até um prédio da avenida Dom Pedro I, no Cambuci, zona sul paulistana. Simulando o cenário do crime em Dallas, fotografaram os momentos de agonia do presidente morto com a ajuda de um técnico de armas da Casa Ao Gaúcho.

 

No dia seguinte, 29 de novembro, o assunto já tinha pouco destaque nos outros jornais, mas o NP noticiava na manchete: JACQUELINE NO BRASIL. A viúva mais famosa do planeta não estava a caminho do país – a notícia era que João Goulart havia apenas convidado Jackie para substituir o marido na visita oficial que o presidente faria no início de 1964. Não importa: a edição foi um sucesso de vendas. O Notícias Populares já havia caído nas graças do trabalhador, e ganhava, assim, condições de cumprir seu papel para a UDN.

 

Publicado originalmente em JÚNIOR, Celso de Campos, MOREIRA, Denis, LEPIANI, Giancarlo, LIMA, Maik Rene. Nada mais que a verdade: a extraordinária história do jornal Notícias Populares. São Paulo: Carrenho Editorial, 2002.

segunda-feira, 27 de março de 2023

Os primeiros tempos do NP II: Do Inferno branco à rua do Gasômetro

 

Capítulo 2: Do inferno branco à rua do Gasômetro

 

Por Celso de Campos Júnior, Denis Moreira, Giancarlo Lepiani e Mark Rene Lima

 

O jornalista Jean Mellé com pose de estadista

A visão de cadáveres jogados ao mar e mulheres dando à luz no emporcalhado convés do Conte Biancamano era uma das lembranças menos traumáticas na vida do romeno Itic Mellé. Quando desembarcou na Baixada Santista, em 1959, pensava já ter comido sua cota do pão que o diabo amassou. Mas bastaram três anos no Brasil para começar a acreditar que o tinhoso estava lhe preparando uma nova fornada. Afinal, a empatia entre Jango e os comunistas ameaçava reabrir as mesmas feridas que, a todo custo, buscava cicatrizar em terras tropicais. Por isso, resolveu procurar o deputado Herbert Levy, outro que temia, embora por motivos diferentes, uma aproximação entre Brasil, União Soviética e China. Deu certo: Mellé serviu como a luva perfeita para as trêmulas mãos da elite conservadora, atormentada pela ameaça vermelha. Mais por sua própria história de vida do que por sua inegável capacidade profissional.

 

Itic Mellé nascera em 3 de junho de 1910, no seio de uma pobre família judia da cidade de Iasi, a 100 quilômetros dos Cárpatos. Mudou-se para a capital, Bucareste, logo após concluir seus estudos básicos. Pouco tempo depois, mudou seu prenome para Jean. Como desde cedo mostrava gosto pelo jornalismo, procurou o redator-chefe de um grande jornal da cidade e foi logo pedindo um emprego de repórter. Para sua sorte, o editor gostou da demonstração de ousadia juvenil e o admitiu em sua empresa. Paralelamente a isso, ingressara na faculdade de Direito, ampliando, assim, seu rol de amizades.

 

Bem relacionado no mundo político – especialmente no Palácio Real, onde imperava o rei Carol II - , Mellé viu sua popularidade crescer com o passar dos anos na sociedade romena. Maduro, resolveu montar seu próprio jornal, batizado de Momentul (O Momento) e subtitulado “Diário Popular de Informação”. Em menos de uma década, fez dele o periódico mais vendido do país, sempre usando e abusando de seu apurado e destemido senso crítico. Mal sabia ele, porém, que essa franqueza, tempos mais tarde, acabaria lhe custando caro. Muito caro.

 

No final de 1947, o exército soviético que já estava na Romênia desde março de 1944, cercou o Palácio Real de Bucareste, forçou a abdicação do rei Michael I e finalmente consolidou o controle sobre o país, declarando-o como mais uma república popular. O ataque era parte do plano do líder georgiano Iosif Vissarionovich Dzhugashvili – ou simplesmente Joseph Stálin – que pretendia vestir todo o globo com o manto comunista. Mellé considerava que os soviéticos já havia explorado demais os romenos – as regiões da Bessarábia, Hertza e a parte setentrional de Bukovina, por exemplo, tinham sido tomadas pelos stalinistas em 1940 -, e não se conformava com as falsas ajudas que os camaradas alardeavam em prol da Romênia. Algum tempo depois, o jornalista não resistiu e soltou o Momentul com a seguinte manchete: RUSSOS ROUBARAM O PÃO DO POVO. A fera vermelha fora cutucada com uma vara tão curta quanto o pavio de Mellé.

 

No dia seguinte, quando se preparava para entrar em sua Mercedes-Benz e rumar ao Momentul, o jornalista foi abordado por dois oficiais comunistas. Os homens o imobilizaram e aplicaram uma injeção de sedativo em suas costas. Quando acordou, Mellé já estava bem longe de sua terra. Havia sido posto em um trem e literalmente descarregado na congelante Sibéria, onde se juntou a outros milhares de presos políticos confinados em campos de trabalhos forçados nas minas de carvão. O inferno branco seria a casa de Mellé por dez longos anos.

 

Durante esse período, o romeno não foi um hóspede propriamente afável para os anfitriões russos. Sua rebeldia causou muita dor de cabeça aos carcereiros: várias insurreições foram por ele encabeçadas, o que o forçava a errar de um campo para outro, em constantes remoções. Claro que essas atitudes voltavam-se contra o próprio jornalista, que era obrigado a sofrer os pesados castigos dos stalinistas. Um deles era manter o prisioneiro nu em buracos cavados no gelo durante 24 ou até mesmo 48 horas. Mellé tornou-se habitué dessas masmorras, mas nem por isso aprendeu a lição. Os soviéticos também esmeravam-se na arte da tortura: inventaram uma espécie de cama onde o prisioneiro deitava-se de bruços com os pés e mãos amarrados, e o instrumento automaticamente se encarregava de fazer um U com o corpo do torturado – em alguns casos, a máquina era capaz de desenhar até mesmo em um O.

 

Alheios a tudo isso, a esposa romena de Mellé, Renne Marcovici, e seu filho pequeno, Radu Henry, receberam da Cruz Vermelha a informação de que Jean Mellé fora dado como morto. A família mudou-se então para a França, onde Renee começou uma nova vida, casando-se pela segunda vez. Apenas a mãe do jornalista, Fanny Huna, ainda acreditava no retorno do filho. Os anos foram passando, e os castigos, aumentando. Mellé, indomável, começou a usar um novo expediente para protestar contra sua situação: greves de fome. Contra isso, a única arma dos soviéticos era uma mangueira colocada goela abaixo dos rebeldes, que despejava caldo de repolho na tentativa de alimentá-los. Na maioria das vezes, todavia, o romeno vomitava o líquido.

 

Em 1958, debilitado ao extremo, ele completava dez anos na Sibéria e incríveis seis meses de greve de fome. Caso seguisse nessa toada, não duraria muito, e se juntaria às 20 milhões de vítimas do longo massacre conduzido pelo antigo líder russo. Para a sorte de Jean Mellé, Nikita Kruschev, o novo chefe soviético, cedeu aos apelos do então presidente americano, Dwight, Eisenhower, e libertou mais de 10 milhões de presos políticos que estavam confinados desde o governo de Stalin, terminado em 1953. O jornalista saiu em uma das primeiras levas e voou até a Áustria.

 

A tão esperada liberdade, contudo, ainda não iria chegar. Oficiais da Romênia – então comandada pelo líder comunista Gheorghe Gheorgiu – Dej – abordaram Mellé no desembarque e levaram-no para uma prisão em Bucareste. Quando finalmente pôs os pés na capital, provocou ataques de incredulidade: todos julgavam estar vendo o espectro do jornalista. Lá, ficou confinado mais um ano. Ao ser libertado, considerou que aquele já não era mais um lugar seguro para viver. Sabendo que sua mulher havia constituído nova família, partiu para Nápoles, na Itália, para dar início à segunda parte de sua vida.

 

A experiência siberiana, como não poderia deixar de ser, marcaria para sempre a vida de Mellé. O fantasma do sequestro jamais o abandonou. De Nápoles, o jornalista, temendo ser preso novamente, viajou para a cosmopolita e democrática Paris, onde tinha amigos e colegas que poderiam ajuda-lo a esquecer o passado. Não adiantou. O continente europeu já não oferecia a segurança da qual precisava para seguir em frente. Assim, voltou a Nápoles, mas apenas para descansar. Já havia decidido o próximo passo: embarcar para o Brasil, país onde seu irmão Victor estava estabelecido. A viagem foi marcada para 13 de julho de 1959.

 

Não se sabe ao certo se Mellé veio para a América Sul apenas para escapar temporariamente das insistentes lembranças da Sibéria ou se já tinha a ideia de mudar-se em definitivo para os trópicos. O fato é que daqui nunca mais saiu. Assim, dezesseis dias depois, em Santos, no litoral de São Paulo, o antes rico e famoso jornalista desembarcava no navio Conte Biancamano com uma pequena maleta na mão e 15 dólares no bolso. O irmão o esperava no porto; juntos, iriam dividir um apartamento na rua dos Gusmões, no coração da capital paulista.

 

Pouco tempo após sua chegada, durante um passeio na avenida São Luiz, o jornalista foi abordado por uma soturna voz. “Mellé”, bradou o homem misterioso. Um tremelique percorreu os quase dois metros do romeno, arrepiando cada fio de seus cabelos crespos. Tinha medo dos comunistas, era sabido, e naquele instante a ameaça voltava com força total. Atemorizado, virou-se e deparou com um rapaz que havia trabalhado na seção esportiva do Momentul, chamado Joseph Halfin. Mais tranquilo, lembrou-se de que Halfin, cerca de dez anos antes, havia pedido a ele que o demitisse do jornal, porque precisava do dinheiro da rescisão para tentar a sorte no Brasil. O chefe, mesmo sem entender muito a ideia, concordara. E assim estavam os dois, frente a frente, a mais de 10 mil quilômetros de Bucareste, debaixo da garoa que caía no centro de São Paulo.

 

Mellé ouviu a história do jovem, que estava trabalhando no Última Hora – posteriormente, Halfin se tornaria diretor da Air France. Levado pelo antigo repórter esportivo, o romeno foi apresentado a Samuel Wainer. Para muitos, era o encontro de três conterrâneos: segundo acusações levantadas por Carlos Lacerda em sua Tribuna da Imprensa, Wainer também nascera na Romênia (as insinuações jamais foram comprovadas). Independentemente disso, começava aí a segunda parte da carreira jornalística de Mellé. Encantado com o estilo moderno do Última Hora, aceitou o convite de Wainer e entregou-se de corpo e alma ao novo emprego.

 

Ali, o ex-editor do Momentul encontrava uma nova casa. Com a fama de ter sido amante de uma ex-miss Romênia e da atriz francesa Jeanne Moreau, um dos maiores símbolos sexuais da época – relações jamais confirmadas ou negadas pelo romeno -, tornou-se o principal colunista internacional do jornal. Publicava diariamente a colune “Jean Mellé Informa” com notas de bastidores do mundo da política. Além disso, ficava nas oficinas até alta madrugada, conversando com os operários e matando a saudade de ver os jornais saindo para as bancas, um hábito perdido havia mais de uma década.

 

Assim, ia ganhando a confiança de todos na redação, localizada, naquela época, próxima ao viaduto Santa Ifigênia. Passou a ser carinhosamente chamado de João de Melo, ou “o francês”, ao que Mellé, em seu português draculesco – mistura de romeno, alemão, inglês e francês – repetia, feliz:” “Eu sou françuso, hahaha”. Embora estivesse bem no jornal de Wainer, não esquecia dos tempos em que era o dono de sua própria publicação, e confidenciava a amigos seu grande sonho de voltar a ser o comandante de uma redação.

 

No final de 1962, a ideia já estava madura. A instabilidade política do País, na ótica de Mellé, obrigava-o a entrar em ação. O jornalista deixou o Última Hora – que, em sua opinião, pendia perigosamente para o lado comunista – para dedicar-se integralmente à elaboração de seu projeto de jornal popular, aos moldes do antigo Momentul. Foram alguns meses de preparação e outras tantas horas de lábia para convencer Levy da importância da publicação. Como um alarme, avisou: se nada mudasse em seis meses, os russos viriam buscar os liberais para coloca-los em calabouços na Sibéria.

 

Diante dessa sombria perspectiva, indicada com tamanho conhecimento de causa pelo romeno, não foi difícil para as partes chegarem a um acordo. Um brinde entre Jean Mellé e Herbert Levy, em 1963, selou o final do período de gestação do jornal. Sem olhar para trás, Mellé partia de mala e cuia para capitanear o Notícias Populares.

 

Não era à toa que Herbert Levy precisava de um comandante para seu periódico popular: para ele, esporte era polo aquático, tênis e natação. Paulistano da Vila Buarque, nascido em 2 de novembro de 1911, era o nono filho de dezena de herdeiros do britânico naturalizado brasileiro Alberto Eduardo Levy, professor e consul honorário da Grã-Bretanha em São Paulo durante quase duas décadas. Formado em Ciências Políticas e Sociais em 1937, pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo, tinha longa experiência em jornalismo: trabalhara no São Paulo Jornal, Diário da Noite e Diário Nacional. Como se não bastasse, também era crítico de ópera, fluente em cinco idiomas e havia feito dezenas de viagens internacionais.

 

Com a justificável fama de bom moço, foi, em sua juventude, campeão paulista e brasileiro de natação. Jogando como goleiro, venceu o campeonato paulista de polo aquático – só não defendeu a Seleção Brasileira nas Olimpíadas de Los Angeles, em 1932, por falta de horário na concorrida agenda. Em 1928, foi o primeiro nadador bandeirante a vencer a disputa de braçada clássica brasileira. Conquistou mais de cem medalhas, cuja maioria – incluindo oito de outo – doou à campanha “Ouro para o bem de São Paulo”, por ocasião da Revolução Constitucionalista de 1932. A participação de Herbert no levante, entretanto, ultrapassou e muito esse gesto benemérito.

 

Como voluntário, entrou para o Primeiro Batalhão da Milícia Civil Paulista em 9 de julho de 1932. Graças ao recuo das outras forças comprometidas com o movimento, no Rio Grande do Sul e em Minas Gerais, em pouco tempo já liderava o 2º Pelotão da Segunda Companhia do 6º Batalhão da Força Pública, como segundo-tenente. Ao final da revolução, estava no comando da Coluna Romão Gomes, na frente de Campinas, a essa altura com 5.800 homens – a última a render-se na batalha. Aos 20 anos, havia sido promovido a capitão com funções de general-de-brigada. Sem dúvida, fora um dos civis com maiores responsabilidades militares no combate.

 

Suas habilidades destacam-se no campo dos negócios. Havia criado com os irmãos o Boletim Comercial Levy (1929) e a Revista Financeira Levy (1933), que em 1934 se juntariam com a recém-adquirida Gazeta Mercantil Comercial e Industrial. Sob o título Gazeta Mercantil, anos mais tarde, a publicação se tornaria o principal veículo de informação econômica do País. Isso porque Herbert Levy, mais que qualquer outro jornalista, tinha grande experiência na prática: no ano de 1943, fundara, como auxílio do irmão Haroldo e do filho mais velho, Luiz Carlos, o Banco da América – em 1969, uma fusão com o Itaú daria lugar a uma nova instituição, o Banco Itaú-América S.A., da qual Herbert foi eleito presidente do conselho de administração. Também tinha fortes ligações com o capital agrícola.

 

Na vida pública desde 1927, o empresário participara do Partido Constitucionalista e da União Democrática Brasileira, ao lado de Antônio Carlos de Abreu Sodré, Armando Salles de Oliveira e Waldemar Martins Ferreira. (Além de mentor político de Levy, o professor Waldemar Ferreira se tornaria mais tarde também seu sogro, já que em 1934 Herbert se casou com Wally Martins Ferreira, filha do mestre.) Em 1945, presenciou o nascimento da União Democrática Nacional (UDN). No período de 1937 a 1945, aliás, Levy exerceu oposição ferrenha ao governo Getúlio Vargas – tendo sido preso seis vezes a primeira logo após a formatura na Escola de Sociologia e Política, no qual, como orador da turma, fez severas críticas ao Estado Novo.

 

Em 1947, ingressou na Câmara dos Deputados, de onde sairia apenas quarenta anos depois, após dez mandatos consecutivos. Um dos principais articuladores da candidatura do então governador de São Paulo, Jânio Quadros, à Presidência da República, em 1959, o parlamentar foi eleito presidente nacional da UDN em 1961, na convenção do Recife. Teve como principal tarefa justamente evitar o racha que ameaçou o partido com a ruptura entre Carlos Lacerda e Jânio Quadros, no mesmo ano. Após a renúncia de Jânio, Levy, apenas de ser conduzido inicialmente a UDN ao apoio do sistema parlamentarista, com Jango no poder, logo tornou-se líder da oposição ao governo do gaúcho. Como se vê, as credenciais do empresário são autoexplicativas. Queria distância da esquerda, assim como o diabo corre da cruz.

 

Publicado originalmente em JÚNIOR, Celso de Campos, MOREIRA, Denis, LEPIANI, Giancarlo, LIMA, Maik Rene. Nada mais que a verdade: a extraordinária história do jornal Notícias Populares. São Paulo: Carrenho Editorial, 2002.