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segunda-feira, 8 de maio de 2023

Os primeiros tempos do NP VIII: Adeus aos mestres

Capítulo 8: Adeus aos mestres

 

Capa do Notícias Populares no mesmo dia em que o homem andou na lua

Por Celso de Campos Júnior, Denis Moreira, Giancarlo Lepiani e Mark Rene Lima

 

Embalado pelo ritmo do iê-iê-iê, o jornal era sucesso absoluto. Apesar da desconfiança inicial, Mellé não teve grandes problemas no relacionamento com Frias e Caldeira, que jamais interferiram nos projetos do romeno. A fórmula crime-esporte-sexo, aditivada com fofocas sobre os ídolos do povo, fazia com que em 1968 o jornal vendesse 145 mil exemplares em banca, maior venda avulsa no Estado de São Paulo. O sucesso atraiu até a atenção de Sílvio Santos, que, em seu programa de 21 de junho de 1968, na Rádio Nacional, derreteu-se em elogios ao jornal. “O melhor jornal de São Paulo é Notícias Populares, que tem a preciosa colaboração de Jean Mellé, um homem que vive exclusivamente para esse jornal. Está de parabéns Jean Mellé, parabéns a esse grande jornalista brasileiro, que parece ser brasileiro de origem estrangeira. Não o conheço pessoalmente, mas acompanho seu trabalho diariamente”, revelou o apresentador. Em time que está ganhando não se mexe: toda a equipe esmerou-se em manter o NP no topo, firmando-o como um importante canal de comunicação com as camadas populares.

 

Mesmo sem querer, o jornal chegou até a brilhar na televisão. Tudo porque os roteiristas de um programa de teatro da TV Tupi simplesmente copiavam os casos inventados pelo secretário de redação Nicolau Chaui e publicados em sua coluna no NP, “Histórias da Banda de Lá”. Fruto da fértil imaginação do jornalista, os contos retravam desde histórias de detetive e de assaltos cinematográficos até casos misteriosos e inverossímeis. Sem que Chaui soubesse, casos claramente transportados do jornal foram aparecendo na telinha. Leitores e amigos, então, começaram a pará-lo na rua e dizer: “Puxa, Nicolau, vi sua história na televisão ontem, parabéns”. Sem saber o que estava acontecendo, o secretário de redação, depois de uma enxurrada de cumprimentos, resolveu tirar a prova. Passou a assistir aos programas da Tupi, e as semelhanças ficaram evidentes. Entretanto, mesmo pressionado por sua mulher, Laura de Souza Chaui, Nicolau jamais foi a fundo para colocar os pingos nos is – para sorte dos roteiristas, que continuaram coletando farto material para o programa da Tupi. Os leitores do Notícias Populares, porém, não tinham dúvidas sobre a paternidade dos casos.


Dona Laura, aliás, foi peça importante para a solidificação de tão almejada aproximação com os leitores desejada por Mellé. Durante anos, foi a titular da coluna “Correio do Coração”, uma espécie de seção de encontros do periódico. Na verdade, a ideia do romeno fora inspirada no famoso consultório sentimental criado por João Apolinário para o Última Hora. Assinada por “Tia Helena”, a seção fazia um sucesso danado no concorrido caderno de variedades do UH. No Notícias Populares, o pseudônimo dera “Fernanda”, mas a aceitação era a mesma. Laura recebia uma montanha de cartas e foi responsável por realizar quase uma dezena de casamentos entre participantes. Invariavelmente, toda a redação era convidada – e comparecia em peso para filar as guloseimas típicas daquelas festanças: pão com molho de carne moída regado a tubaína. Estreitar mais os laços com o leitor, impossível.

 

Essa ligação imediata com o público acontecia ao mesmo tempo em que outras publicações penavam com a censura. Os militares tinham pouco a se queixar do Notícias Populares: depois do golpe, as reportagens de política podiam ser contadas nos dedos, perdendo disparado para a cobertura do cotidiano em São Paulo. Enquanto o Estadão publicava Camões e a Veja estampava figuras do diabo no lugar dos trechos censurados, o NP mantinha sem problemas sua linha editorial. Apesar das laudas escritas pelos jornalistas serem despejadas numa caixinha para leitura prévia, pouca coisa era proibida – afinal, mesmo para os poucos ponderados censores, era difícil enxergar tendências subversivas em reportagens sobre a vida dos artistas ou de futebol.

 

Somente na publicação de matérias relacionadas a crimes é que o NP tomava alguns cuidados. Dos memorandos com recomendações de militares que o Departamento de Interior, Correspondentes e Sucursais (Dics, espécie de percursos da Agência Folha) era obrigado a transmitir para os jornais da casa, aqueles que regulavam a divulgação de assaltos a banco ou as atividades que as organizações clandestinas tinham como alvo certo o NP. Assim, quando a equipe do Notícias Populares recebia cartas de Miranda Jordão ou Mario Pati, chefes do Dics, todos já sabia que Mellé teria que conter seu ímpeto – como se pode perceber pela transcrição de um desses memorandos, enviado por Pati às redações em 8 de janeiro de 1969.

 

DICS INFORMA

 

ATENÇÃO EDITORES

A presidência solicita a atenção dos editores, com referência à censura, consubstanciada nas informações anexas, prestadas pelo Gal. Silvio Correia, em conversa informal com o nosso repórter.

O sr. Frias lembra que somente podem ser publicados os fatos e nunca comentários sobre bombas, roube de armas e assaltos a bancos. Nada de sensacionalismo e alarde.

 

Menos de dois meses depois, em 10 de março, outra mensagem, agora assinada por Miranda Jordão, limitava o uso da denominação de um dos grupos que não saía das páginas do NP.

 

A Censura avisava aos editores que a expressão “Esquadrão da Morte” não pode figurar nas manchetes dos jornais, na primeira ou última páginas. No texto, pode-se usar aquela expressão. Enfim, resumindo: nos títulos, não. No texto, sim.

 

O Notícias Populares, entretanto, tirou de letra essa proibição. No lugar de “Esquadrão da Morte”, cunhou a expressão “Bando Maldito”. Válida, oportuna, sonora e funcional, como escreveria Ramão Gomes Portão.

 

Mais complicada era a perseguição que ocorria pelo grau de militância dos jornalistas. Um exemplo: Rui Falcão, repórter de esporte que décadas depois seria eleito deputado estadual e federal pelo Partido dos Trabalhadores (PT), foi procurado pelo Dops no Barão de Limeira. Enquanto os policiais subiam até a redação, Falcão descia pela Barão de Campinas. O caso ilustra que a insuportável pressão política da época afetava as pessoas que faziam o jornal, mas não o resultado final. Como não criticava a ditadura nem atacava o governo, o Notícias Populares atravessou os anos de chumbo sem grandes traumas.

 

Por todos esses motivos, o ambiente no NP era o melhor possível, tanto na redação como no trato com a empresa. Quando precisava de algum favor da gráfica, o jornal enviava como cortesia algumas garrafas de cachaça aos funcionários daquele setor, acordo informal que persistiria por mais duas décadas. Jamais um jornalista fora demitido durante a época de Jean Mellé, apesar do chefe ser um reconhecido pão-duro – especialmente quando o assunto era aumento de salário. É sabido que, em acessos de fúria, o romeno mandava os comandados embora. No entanto, poucas horas depois, reconsiderava a decisão, reclamando do “malcriado” funcionário. E se no dia seguinte o quase despedido fizesse uma boa matéria, o chefe não tinha problema em elogiá-lo, soltando um dos seus inconfundíveis bordões: “Você está um astro”.

 

A sólida estrutura que mantinha o Notícias Populares começou a sofrer os primeiros abalos no final da década. No segundo semestre de 1968, Jean Mellé foi internado no Hospital das Clínicas de São Paulo. Diagnóstico: câncer nos ossos. O afastamento em si não foi o grande problema – durante alguns meses, o romeno comandou o jornal do quarto do hospital. Um telefone instalado no local por determinação de Abreu Sodré, então governador de São Paulo e amigo pessoal do jornalista, permitia isso. Mesmo doente, Mellé continuava com a mesma disposição que mostrara desde que pisou pela primeira vez na arcaica redação da rua do Gasômetro, e o jornal não dava sinais de cansaço. Ao ser questionado se seu estado de saúde não poderia piorar caso continuasse comandando o NP, o chefe respondeu: “Amigo, um jornal se faz com homens, máquinas, cérebro e coração”.

 

Os verdadeiros problemas começaram quando o romeno voltou à redação: um desentendimento com Ramão Gomes Portão, melhor amigo de Mellé dentro e fora do jornal, quebrou a harmonia vigente na equipe. O motivo da discórdia jamais foi descoberto pelos jornalistas. Alguns acreditam que tudo aconteceu porque, ainda no período de internação do romeno no hospital, Ramão teria contrariado uma ordem do chefe e mudado a manchete de primeira página. Outros suspeitam de críticas e comentários maldosos tecidos pelo editor de polícia na ausência de Mellé. Muitos juram que tudo não passou de um mal-entendido, que acabou afastando os amigos até então inseparáveis. Seja como for, a situação entre os antigos companheiros tornou-se insustentável. E assim, na virada da década, Ramão Gomes Portão deixou o Notícias Populares.

 

A resposta para o mistério que resultou no afastamento de um dos principais nomes do alto escalão do NP pode estar em um recorte de jornal, que, três décadas após o imbróglio, ainda repousava nos armários esverdeados dos arquivos do jornal. Trata-se de um excerto de uma das colunas “Jean Mellé Informa”, datado de 7 de fevereiro de 1970. Ao contrário do resto do material arquivado, o texto não foi classificado: apenas recortado do jornal e deixado em uma das milhares de pastas do acervo. Escreveu Mellé:

 

Há gente que esquece. Esquece quem foi. Esquece de onde veio, de onde chegou. Esquece que lhe foi dado uma mão de ajuda no momento exato em que precisou. Esquece quem lhe ajudou. Esquece que teve todo apoio, confiança, sem que nada lhe foi exigido. Esquece a gente que sempre sentiu o ombro sólido da ajuda, da segurança. E chega a considerar, como passarinho que aprendeu a voar com a mãe, que doravante é o dono do céu. Com a boca fala coisas boas, as que lhe fizeram bem, mas seus atos são maldosos. É uma mistura de maldade, complexos, frustrações. E o homem de bem recebe os golpes nemerecidos. Nemerecidos, mas esperados, porque somente no céu existem anjos. Um Grande Amigo nos contou a história: alguém lhe comunicou que um determinado amigo criticou-o veementemente. É isto: devemos esperar o mal, daqueles que fizemos o bem.

 

A data do texto coincide com o período da saída de Ramão do jornal. Mas, apesar da mensagem parecer direta, em nenhum momento do texto surge o nome do ex-amigo e antigo editor de polícia. Talvez por isso seja esclarecedor o fato do recorte, hoje amarelado, ter sido cuidadosamente colocado dentro de uma pasta na gaveta da letra P. Mais precisamente, naquela identificada como sendo a de “Portão, Ramão Gomes”.

 

Independentemente dos problemas pessoais com o chefe, a redação sentiu a ausência de Ramão, que levou consigo sua coluna “Flagrantes” e as inesquecíveis histórias da Boca do Lixo. A proximidade geográfica com a zona boêmia da cidade, além da extensa cobertura dada aos seus acontecimentos, fazia com que o NP ostentasse, orgulhoso, o título de jornal oficial da Boca. Com a saída do editor de polícia, o periódico perdeu os épicos relatos da disputa pelo poder do quadrilátero do crime, protagonizados por Quinzinho – o lendário rei da Boca, amigo de fé e irmão camarada de alguns jornalistas do NP – pelo ousado desafiado Hiroito.

 

Órfã de Ramão e com o romeno abalado pelo câncer, a redação começou a temer por seu futuro – especialmente após a repentina saída de Nicolau Chaui, que aceitou um convite para trabalhar no rival Diário Popular. Nomes promissores como Percival de Souza, Tão Gomes Pinto e Sérgio Pompeu já estavam fora há um bom tempo. Para complicar ainda mais a situação, outro possível substituto de Mellé, Eugenio Gertel, abandonou o barco por um lugar na Imprensa Oficial do Estado. A redação estava acéfala, e sabia disso. Só restava torcer para que o pior não acontecesse.

 

Infelizmente, o pior veio em 5 de março de 1971, uma sexta-feira. Mellé já estava mal desde o fim de fevereiro; levado ao Hospital São Lucas, finalmente sucumbiu ao câncer às 10h30 da manhã. Para honrar a tradição judaica, o enterro, no Cemitério Israelita do Butantã, não foi realizado no sábado, e sim no domingo, 7 de março. Batedores da Polícia Militar desviaram o cortejo para que a equipe do Notícias Populares pudesse prestar a última homenagem ao seu idealizador. O carro que levava o corpo do romeno estacionou diante da sede do jornal, na Barão de Limeira, e os trabalhadores, amontados no térreo, pararam por um minuto em respeito ao chefe. No cemitério, políticos, esportistas, artistas, cônsules e até umbandistas dividiam espaço com os jornalistas. Na edição seguinte, todos os colunistas do NP fizeram questão de deixar registrada sua admiração pelo fundados do jornal em seus textos. A Federação Paulista de Futebol determinou que fosse respeitado um minuto de silêncio em todos os jogos disputados no Estado.

 

Mais tarde, Jean Mellé seria eternizado como nome de uma rua em Santo Amaro, na zona sul da capital paulista. Como a maioria dos paulistanos, os moradores da rua não faziam a menor ideia de quem era o dono daquele nome, estampado numa enferrujada placa azul do bairro. Muitos acreditavam ser de um ator da época áurea do cinema francês.

 

Publicado originalmente em JÚNIOR, Celso de Campos, MOREIRA, Denis, LEPIANI, Giancarlo, LIMA, Maik Rene. Nada mais que a verdade: a extraordinária história do jornal Notícias Populares. São Paulo: Carrenho Editorial, 2002.

segunda-feira, 1 de maio de 2023

Os primeiros tempos do NP VII: O calhambeque acelera na Barão de Limeira

 Capítulo 7: O calhambeque acelera na Barão de Limeira

 

Capa do "Notícias Populares" em 13 de fevereiro de 1968

Por Celso de Campos Júnior, Denis Moreira, Giancarlo Lepiani e Mark Rene Lima

 

Pouco tempo depois do jovem Roberto Carlos ter pisado pela primeira vez no palco da TV Record, em setembro de 1965, toda a cidade já estava contaminada pela febre da Jovem Guarda, movimento musical que influenciou o comportamento de toda uma geração nas décadas de 1960 e 1970. Protagonizada por Roberto (o Rei), Erasmo Carlos (o Tremendão) e Wanderléa (a Ternurinha), e contando com coadjuvantes do quilate de Jerry Adriani, Wanderley Cardoso, Ronnie Von e Rosemary, a Jovem Guarda passou como um furacão pela juventude brasileira, já agitada pela vibração de Elvis Presley e dos Beatles. Indiscutivelmente, o iê-iê-iê era a coqueluche da época. Como Mellé também queria que seu Notícias Populares fosse a maior brasa, a união era inevitável.


O início desse flerte aconteceu com os Beatles, reis indiscutíveis do ritmo das paradas mundiais. Democrático como sempre, o NP abrigava lado a lado em suas páginas de variedades um folhetim de Dostoievsky e as notícias sobre os batutas de Liverpool. Eles apareciam até quando não tinha nada a ver com o assunto: em fevereiro de 1965, uma foto de Ringo Starr e George Harrison fumando charutos ilustrava uma reportagem intitulada PLAY-BOYS DE SÃO PAULO PODEM USAR ATÉ BATOM E PÓ-DE-ARROZ: NÃO É CRIME.

 

O rei brasileiro apareceu pela primeira vez com destaque na capa um ano depois, em 1º de março de 1966: ROBERTO CARLOS EVITA QUEBRA-PAU CANTANDO. Tudo aconteceu em um show em Sorocaba, no interior paulista, quando o empresário que havia contratado o artista não quis entregar todo o dinheiro combinado pelo espetáculo. Roberto Carlos, então, cantou apenas duas músicas e saiu atrás do homem que o tungava em Cr$ 3 milhões. Entretanto, a impaciente plateia, que lotava o Ginásio de Esportes, ameaçou invadir os bastidores para ter o dinheiro de volta. Para acalmar os ânimos, o astro do iê-iê-iê brasileiro voltou ao palco, terminou o show e ainda saiu aclamado de Sorocaba.

 

No mês seguinte, o assunto cresceu – e o NP percebeu que a Jovem Guarda já conquistara a preferência da juventude paulistana. No início de abril, o jornal chegou a noticiar na capa que os Beatles estavam “condenados à degola em São Paulo” – as bilheterias do filme Help estavam caindo. Duas semanas depois, a Jovem Guarda tomava a manchete: IÊ-IÊ-IÊ ALARMA DEPUTADOS E DIVIDE ASSEMBLEIA. Tudo porque Roberto Carlos havia reunido 10 mil fãs no show que comemorava seu aniversário.

 

A coisa esquentou mesmo em 25 de abril de 1966, quando Ramão Gomes Portão soltou a seguinte manchete policial: ROBERTO CARLOS DEU 2 TIROS NOS AGRESSORES. O Rei do calhambeque discutiu cum uma pessoa na rua e disparou para cima, sem maiores consequências para sua carreira. Entretanto, o tino do romeno percebeu imediatamente o promissor filão da Jovem Guarda. Daí para frente, splish splash: choveram notícias e manchetes com o pessoal da turma. Como visto no caso dos tiros, a cobertura do assunto dava menor atenção à atuação artística da gangue, priorizando os escândalos pessoais de seus personagens. Namoros, brigas e drogas eram temas recorrentes na vida dos roqueiros e nas páginas do periódico. Em termo de transgressões, o caneco era de Erasmo Carlos – de acordo com o Notícias Populares, o Tremendão fora acusado de “transar com mocinhas” e havia tido problemas com a polícia. Também os coadjuvantes da época costumavam ser lembrados em saias-justas e confusões.

 

Além do sucesso de público, existe outro fator, implícito que justificava a frequente presença dos roqueiros brasileiros nas páginas do NP. O caráter despolitizado da turma de Jovem Guarda, mais preocupada em acelerar suas máquinas na Rua Augusta do que contestar os rumos que os militares começavam a ditar no País, atraía e muito o chefão Jean Mellé – um sabido entusiasta das Forças Armadas. Entre divulgar a rebeldia política de Geraldo Vandré, Chico Buarque e Edu Lobo, todos ligados à esquerda, ou a rebeldia adolescente de Roberto Erasmo e Ronnie Von, todos ligados somente à bateria de suas carangas, o editor nem hesitava.

 

Por mais que os outros tentassem podá-lo, Roberto Carlos era a flor do jardim do Notícias Populares. Grande destaque do cenário musical brasileiro, qualquer notícia que se relacionasse a ele tinha enorme repercussão na mídia; no NP, então, os rumores multiplicavam-se por dez. Culpa de Jean Mellé, que, astutamente, usava e abusava da imagem do Rei para vender jornal. A proximidade passou a ser tanta que o romeno até chegou a receber Roberto algumas vezes para jantar. “Hoje não ter cadávro pro primeira página. Liga Roberto Carlas. Qualquer coisa Roberto Carlas manchete”, costumava dizer.

 

Com tanto entusiasmo da parte do editor, não é difícil imaginar que, por várias vezes, o Notícias Populares exagerava na dose. Certa vez, pelos idos de 1968, o jornal estava sem manchete, e Mellé pediu ao repórter José Carlos Bardawil que telefonasse ao Rei para descolar alguma coisa. Ao falar com o diretor da TV Record, Paulinho de Carvalho, Bardawil ouviu uma resposta negativa: Roberto Carlos estava em Nova York. Não precisava, mas o diretor ainda acrescentou: “Estou ligando para lá e não consigo falar com ele”. Para Bardawil, a história estava enterrada. Bastou levar as informações para Mellé, porém, para perceber que não era bem assim. De primeira, o editor rebatou: “Mancheta, mancheta!” Era a deixa para que alguém pegasse papel e caneta e anotasse a manchete, que já estava em sua cabeça.

 

Ditou: “Desapareceu Roberto Carlas. Linha fina lá em cima: Paulinho de Carvalho do canal 7 não acha ‘brasa’ em Nova York”. Pouco adiantaram as ponderações de Bardawil, dizendo que a Record, amparada pela lei, iria exigir um desmedido, e que o jornal iria se desmoralizar com o episódio. “Não, deixa comigo, você não está jornalisto mais. O maior jornalisto do mundo é o Jean Mellé”. E assim, em 13 de fevereiro de 1968, o NP estampava na primeira página: DESAPARECEU ROBERTO CARLOS. Não demorou para uma multidão aparecer diante da sede do jornal, querendo entrar à força para obter mais informações sobre o sumiço do ídolo. A redação no aperto, tendo de inventar desculpas para os leitores desesperados, e Mellé não chegava. No fim da manhã, entra o romeno, saltitante: “Mais de 20 mil jornalos! Jean Mellé genial! Mas 18.900 jornalos. Jean Mellé gênio, gênio, gênio, genial!”.

 

No entanto, restava ao Aladim romeno a pendência com o diretor da Record, que já estava espumando atrás os responsáveis pela notícia. Tranquilo, Mellé escutava por telefone uma série de impropérios, sempre dizendo ao interlocutor: “Si, si, Paulinha, mas deixa Jean Mellé falar, Paulinha”. Na primeira oportunidade, o romeno em um tom quase angelical, explicou: “Eu estava aqui Paulinha, solitário em minha redaçon, quando comecei a pensar nos meus amigos do peita. Comecei a pensar Paulinha de Carvalho. Pobre Paulinha. Está três dias sem seu ídolo. Seu ídolo está em Nova York. Paulinha perdendo dinheira. E eu ficar com pena de Paulinha. Pobre Paulinha, ninguém fala de Paulinha, ninguém fala de TV Record. Aí eu pensei: porque não dar primeiro página de jornal que vender 110 mil exemplaros, maior tiragem de São Paulo, no banca? Por que não dar manchete para Paulinha? De graça, sem cobrar nada, gratuita”. Paulinho já amolecera, mas Mellé não parava. “Ah, ótimo, ótimo. Pois bem, então eu dei mancheta. Si, si, desmentido? Claro, mas o desmentido, deixa com Mellé. Mellé amiga sua”.

 

Desligado o telefone, de imediato, o romeno já tinha a manchete. ACHARAM ROBERTO CARLOS. Linha fina: “porque ‘brasinha’ deixou Waldorf Astoria em Nova York”. Nas páginas internas, o leitor, aliviado, iria descobrir que o Rei saíra do hotel sem avisar ninguém “para escapar dos repórteres e fotógrafos e para ter tranquilidade com sua noiva Cleonice”. No dia seguinte, 14 de fevereiro de 1968, o NP vendeu os mesmos 18 mil jornais a mais, e não sofreu consequência alguma. Mellé tinha de manter sua fama de mau.

 

E não parava por aí. Desde abril de 1967, o Notícias Populares trazia uma seção que prometia ser o “mais completo noticiário sobre o movimento da Jovem Guarda”. A coluna “Barra Limpa” era feita por profissionais que se mantinham em contato diário com expoentes da juventude. Dentre os incumbidos da missão estavam nomes como Hebe Camargo, Silvio di Nardo e Moisés Forner, que contavam com as dicas quentes de Meninão e Moracy do Val.

 

Antes mesmo desse fato, quando descobriu que a revista Capricho, dirigida a adolescentes vendia até 500 mil exemplares, Mellé adicionou mais ingrediente à sua receita de sucesso: as fotonovelas. A melhor delas veio em 1967. Sem pestanejar, bateu o martelo: “Chama Roberto Carlas. Quero falar com Roberto Carlas. Chama nossa fotógrafa, chefe dos fotógrafas. Amanhã começa fotonovela”. E assim foi. De 2 de fevereiro até 6 de junho, as páginas do NP traziam a fotonovela “A Caminho do Amor”, uma história de romance protagonizada pelo Rei e por Débora Duarte. Vendia muito, apesar da produção tosca – em certo capítulo, uma foto tinha como fundo uma Kombi do jornal, logotipo do NP e tudo. Outras fotonovelas foram protagonizadas por Erasmo Carlos, Martinha e Vanusa (“Paixão Desenfreada”), Ted Boy Marino, Agnaldo Rayol, Ronnie Von (“Amar é o Meu Tormento”), Wanderley Cardoso e Rosemary (“Diário de Elisa”). A chamada de capa na estreia dessa última não poderia ser mais atrativa: HOJE NO NOTÍCIAS POPULARES: WANDERLEY CARDOSO CASA COM ROSEMARY.

 

Evidentemente, a agenda lotada não permitia que os brasas da Jovem Guarda participassem de todas as produções. Mas não era problema. Sem nenhum remorso, o jornal apelava também para atores pouco fotogênicos, estrelas de fotonovelas que flutuavam entre o trágico, o cômico e o patético. Nessa categoria, merece registro a incrível trama de “Gilda”, publicada em 1966. O enredo era simples: uma jovem desiludida com a vida, pretendia atirar-se do viaduto do Chá. Apesar da precária produção, a história do nada glamouroso suicídio ficaria por semanas a fio nas páginas do NP.


Com certeza, Gilda não era a garota papo-firme que o Roberto falou.


Apesar de viver intensamente as aventuras da Jovem Guarda, o Notícias Populares acabaria lembrado nas décadas seguintes por um polêmico episódio que envolveu um legítimo representante da MPB engajada. Em 21 de outubro de 1967, Sérgio Ricardo apresentava-se no teatro Paramount, em São Paulo, durante o III Festival de Música Brasileira da TV Record. O polivalente cantor, compositor e cineasta paulista defendia Beto Bom de Bola, de sua autoria, quando parte de plateia começou a apupá-lo. Sérgio Ricardo ainda tentou continuar com a apresentação, mas as vaias tornaram-se frenéticas, e acabaram tirando o artista do sério. Após esbravejar contra o público – “vocês são uns animais!” -, o cantor espatifou seu violão no palco. Os destroços do instrumento foram atirados na audiência; ainda que não tenham provocado baixas nos espectadores, acabaram fazendo o apresentador Blota Jr. desclassificar a música.

 

Toda esse mise-en-scène aconteceu num sábado á noite; no domingo, alguns jornais, como Folha da Tarde, trouxeram o registro do fato, sem muito destaque. Foi somente na segunda-feira que os periódicos se debruçaram sobre o festival, vencido por Edu Lobo, Marília Medaglia e Quarteto Novo com a música Ponteio. Assim, o Notícias Populares de 23 de outubro de 1967 (nessa época, o jornal não circulava aos domingos), na capa de seu segundo caderno, trazia uma burocrática chamada: ACABOU O FESTIVAL COM VIOLÃO QUEBRADO E JOGADO AO PÚBLICO. Nas internas, o título não era mais criativo: FESTIVAL TERMINOU COM CANTOR JOGANDO SEU VIOLÃO NA PLATEIA. Esse também foi o tom dos principais veículos da grande imprensa paulistana. O mais espirituoso foi o Jornal da Tarde, que trouxe, ao lado da foto de Sérgio Ricardo destruindo o instrumento a chamada ESTA VIOLA NÃO DÁ MAIS SAMBA.

 

Décadas após o episódio, entretanto, não é difícil ouvir veteranos jornalistas e leitores dizendo que a manchete do NP nessa ocasião foi a famosa e genial VIOLADA EM PLENO AUDITÓRIO. Basta uma consulta à coleção do Notícias Populares do mês de outubro de 1967 para desmentir essa afirmação, que virou uma espécie de mito do jornalismo popular, ensinado pelas escolas de comunicação Brasil afora. Todas as pistas indicam que o NP apenas levou a fama pela genial manchete – que, garantem testemunhas, foi mesmo publicada em algum lugar. O próprio Sérgio Ricardo afirma que a manchete existiu, mas não tem certeza do veículo – os mais cotados, em sua opinião, eram o Notícias Populares e O Dia, do Rio de Janeiro (que também não apresenta o texto em sua coleção). Como o sucesso do jornal de Mellé levou à criação de várias publicações nanicas que imitavam o estilo do NP, a hipótese mais provável para a ocorrência dessa confusão é a de que a manchete tenha sido estampada na capa de um desses pequenos jornais, que não sobreviveu ao tempo ou à memória jornalística. E quem tem fama, deita na cama: a “violada”, ainda que involuntariamente, passou a agrupar o currículo do Notícias Populares.

 

Mas seria injusto dizer que o NP não deu atenção ao caso. Dia 24 de outubro, o editor dedicou sua “Jean Mellé Informa” para explicar PORQUE SÉRGIO RICARDO QUEBROU SEU VIOLÃO AO OUVIR APUPOS INJUSTOS. A tese do romeno era a de que as vaias não foram uma manifestação espontânea do público; assim como outras personalidades, Mellé atribuiu a bagunça a “torcidas organizadas” e a alguns “agressores” da liberdade.

 

Pouco depois, porém, a boa-vontade do chefe – que já não morria de amores por Sérgio Ricardo – foi para o espaço. Tudo porque o cantor afirmara que passaria a cantar apenas para “camponeses e operários”. Em sua coluna do dia 25, vendo no comentário um elogio a Moscou, Mellé não perdoou: “Se o compositor estava nervoso, não deveria usar a ameaça fácil hoje em dia para todo os descontentes do mundo ocidental”.


No dia 26 de outubro, todavia, tudo isso já estava esquecido. O Notícias Populares trazia uma notícia indiscutivelmente mais importante para a humanidade. Cientistas davam o alerta de uma das consequências da industrialização desenfreada, e o NP, sem perder tempo, avisava os homens: APROVEITE LOGO PORQUE AS LOURAS VÃO ACABAR!

O editor e jornalista Jean Mellé abraçando o cantor Roberto Carlos 

Publicado originalmente em JÚNIOR, Celso de Campos, MOREIRA, Denis, LEPIANI, Giancarlo, LIMA, Maik Rene. Nada mais que a verdade: a extraordinária história do jornal Notícias Populares. São Paulo: Carrenho Editorial, 2002.

segunda-feira, 24 de abril de 2023

Os primeiros tempos do NP VI: A voz do povo é a voz de Deus

Capítulo 6: A voz do povo é a voz de Deus

 

Carlos Caldeira Filho e sua tradicional indumentária

Octávio Frias Filho, em um raro momento de descanso

Por Celso de Campos Júnior, Denis Moreira, Giancarlo Lepiani e Mark Rene Lima

 

Em 1965, Octávio Frias de Oliveira e Carlos Caldeira Filho estavam apenas começando o que se tornaria um dos maiores impérios jornalísticos do Brasil. Haviam comprado as Folhas (que englobavam Folha da Manhã, Folha da Tarde e Folha da Noite) em 1962, pagando 1,5 bilhão de cruzeiros antigos ao advogado Nabantino Ramos. Empreendedor ambicioso, Ramos foi a personificação da imagem da Folha como empresa jornalística. Profissional, metódico e pragmático, o advogado implantou no negócio as primeiras normas industriais e manuais de redação. A estrutura empresarial, portanto, já estava montada. Á dupla Fri-Cal caberia apenas consolidar o empreendimento.

 

E não haveria muito problema para isso: os dois novos donos do jornal pareciam se completar. Caldeira Filho, de família tradicional santista, construíra seu patrimônio com negócios bem-sucedidos no ramo da construção civil. Muitas vezes preocupava-se mais com o Santos Futebol Clube – do qual era sócio atuante desde o final da década de 1920 – do que com sua própria saúde financeira. Fazia o estilo “caipirão”: raramente usava terno e gravata, preferindo combinar camisas e calças claras com sandálias e chinelos. “Vivo no calo, caramba”, costumava justificar. A aparência o aproximava mais de um fazendeiro nordestino de novela das 8 do que sócio de uma empresa jornalística séria. Como contraponto a essa figura, encaixava-se Frias de Oliveira, ex-funcionário público que fez dinheiro trabalhando em funções ligadas ao capital financeiro. Detalhista e disciplinado, passava longe do jeito folclórico do companheiro.

 

Talvez por isso mesmo que os dois formassem uma eficiente equipe. Caldeira, participando do corpo-a-corpo com os funcionários e jornalistas, era figurinha fácil nas redações. Mais acessível, protagonizou muitas situações inusitadas pelos corredores do edifício da Barão de Limeira. Em uma delas, dois funcionários do NP – um deles recém-contratado – conversavam no elevador. Sem se importar com a figura alvamente vestida ao seu lado, o novato exclamou: “Quer moleza, rapaz? Senta no pau do Caldeira!”.  Bem-humorado, o santista, com um sorridos, apenas apresentou-se ao autor da frase, e fez questão de descer do elevador abraçado ao envergonhado funcionário. Caldeira era o amigo dos jornalistas; Frias, o chefe. Sempre mais formal, assemelhava-se à figura do administrador, do burocrata.

 

Naquele ano de 1965, ainda na esteira do golpe, a parceria de sucesso entre os dois empresários no grupo Folha viabilizou algo considerado impossível apenas um ano antes. Em menos de dois meses, Frias e Caldeira colocaram sob o mesmo teto duas forças que brigavam em exércitos opostos no front brasileiro: o Notícias Populares e o Última Hora. A compra do jornal de Samuel Wainer aconteceu em agosto de 1965 – antes, portanto, do negócio envolvendo o NP. O UH estava afundando em dívidas – Wainer estava pagando os credores até com geladeiras e panelas. Sem o apoio da turma de Getúlio e Jango, estava fadado ao desaparecimento. A Folha, então, ficou com o título Última Hora, assumindo as dívidas trabalhistas e pagando a quantia restante no decorrer de cinco anos.

 

Do ponto de vista empresarial, os dois novos populares do grupo Folha estavam capengas, com prejuízos acumulados. Nas bancas, porém, tinham muito a oferecer, pois seguiam como nomes fortes na cabeça do leitor. Mais importante, serviriam à intenção da empresa de crescer e estar com um pé (ou dois) em todos os nichos do mercado – mesmo que isso significasse absorver os concorrentes apenas para manter seu domínio. O Última Hora acabou padecendo desse problema. Em uma mensagem publicada na primeira edição do jornal sob o comando da Folha, em 4 de setembro de 1965, Frias e Caldeira garantiam aos leitores que o jornal continuaria em expansão, “defendendo os legítimos interesses dos trabalhadores”. Nos anos seguintes, porém, o UH seria preterido em relação aos vizinhos de andar na Barão de Limeira, e acabaria em franca decadência. Durante esse tempo, o Notícias Populares trilharia um caminho de maior êxito – ainda que em uma estrada não menos sinuosa.

 

Tranquilizado com a perseguição oficializada aos comunistas, Jean Mellé pôde, enfim, tocar o jornal da maneira que pretendia. Teve de lidar com algumas baixas na equipe: um grupo de jornalistas aceitou convites para trabalhar no Jornal da Tarde, inovador vespertino criado pelo grupo Estado, que chegou às bancas em janeiro de 1966. A principal perda, porém, já havia sido superada ainda no tempo do Gasômetro. Cansado das discussões com o romeno, Narciso Kalili pediu o boné; em seu lugar, assumira o jornalista Nicolau Alberto Chaui. Então com 50 anos, Chaui, descendente de sírios, tinha sólida experiência em jornalismo popular. Ingressara na carreira em Catanduva, interior de São Paulo, e pouco tempo depois já trabalhava no tabloide A Hora, na capital paulista. Com o êxito do periódico, o jornalista recebeu um convite para trabalhar no Última Hora, onde ajudou a formar uma geração de jovens talentosos com seus conselhos e orientações.

 

Após a saída de Kalili, Mellé percebeu que a vaga de secretário de redação do NP parecia talhada para Chaui. O romeno sabia que precisava de um jornalista veterano e experiente, mas que estivesse disposto a encarar com a vontade de um novato o desafio de elevar a publicação a novos patamares. O ex-funcionário do UH aceitou a proposta e levou sua conhecida fama de “professor” para o NP. Hábil no contato com a redação, o jornalista, como Mellé havia previsto, foi a peça que fez a engrenagem do Notícias Populares deslanchar. Em Nicolau Chaui, o jornal encontraria um suporte firme para o crescimento que se verificou na segunda metade da década de 1960.

 

Assim, a única pressão que recaía sob a curvada coluna de Mellé – problema oriundo de trabalho forçado na Sibéria – era a de vender jornais, e essa ele sabia, desde os tempos do Momentul, administrar como ninguém. Em sua lista de prioridades, a publicação estava sempre na primeira posição, deixando para trás outros assuntos pessoais e profissionais. Não seria exagero dizer que sua dedicação no jornalismo era integral: passava a manhã inteira lendo todos os jornais em seu apartamento, na rua Conselheiro Brotero, e dedilhando – apenas com o indicador direito – as primeiras notas para sua coluna em uma Olivetti Lettera 22 verde. Após o almoço, saía para a redação e só voltava para casa tarde da noite, quando sua mulher, Giulietta, o esperava com seu prato preferido: macarrão com açúcar.

 

Nem nos raros momentos de descanso Mellé desviava o pensamento do jornal. As frequentes sessões no cine Olido e as paradas obrigatórias na casa de chá Cristal, na avenida São João, não eram completas enquanto o chefão do NP não entrasse nas bancas do centro de São Paulo para perguntar ao jornaleiro como estava a vendagem de sua publicação. Invariavelmente, em uma delas, colocava a mão no bolso e comprava um exemplar no periódico. “Sou o leitor número 1 do Notícias”, justificava-se para dona Giulietta, sempre inconformada com a atitude do marido.

 

Apenas quando o letreiro do cinema anunciava a exibição de Doutor Jivago, a obra-prima de David Lean baseada no romance de Boris Pasternak, o romeno se transformava. Parecia o único momento em que, para ele, não havia laudas, clichês ou rotativas – talvez por isso tenha arrastado a mulher quase uma dezena de vezes à sala de projeção. Ao apagar das luzes, Mellé parecia hipnotizado - não pelos olhos azuis de Julie Christie ou pelo portentoso bigode de Omar Sharif, e sim pelas paisagens geladas que lembravam a Sibéria, seu lar forçado durante dez anos. Não por coincidência, comprara o disco com a trilha sonora da película e transformara o Tema de Lara, de Maurice Jarre, na música oficial do trabalho em seu escritório. Para animá-lo, ou isso ou as peripécias do detetive Steve McGarrett, do seriado televisivo Havaí 5-0, seu favorito.

 

Enquanto isso, o Notícias Populares começava a ganhar as feições de um jornal popular, no sentido que no romeno o concebia: com ênfase na parte policial e esportiva, as preferências do povo. Isso sem contar, claro, as fotos de belas mulheres, sempre retratadas em poses sensuais, e matérias sobre sexo. Mellé, contudo, não se limitou a repetir fórmulas já batidas. Uma de suas grandes inovações era deixar a decisão da manchete que iria para as bancas com os contínuos, trabalhadores normalmente à margem de qualquer opinião jornalística. A ousada jogada, porém, revelou-se genial. Uma das principais peculiaridades do Notícias Populares era o fato de que seus jornalistas falavam, em geral, para classes a que não pertenciam – o que dificultava o acerto no uso da linguagem. A saída encontrada por Mellé dizimou toda e qualquer insegurança a respeito da eficácia de uma determinada mensagem para os leitores do jornal. Nada melhor do que usar essa amostragem para definir a manchete, principal atrativa para o público, determinante na hora da venda do produto em banca.

 

Inicialmente, a tarefa coube a um contínuo, o carioca Guilherme Soares, crioulo forte com quase 1,90 metro de altura. Seu apelido, Mug, fora dado por Ramão Gomes Portão em razão da semelhança física do funcionário com um bandido da época. Seu porte físico o fez acumular também a função de guarda-costas de Mellé. Aproveitando essa proximidade, o romeno começou a pedir a opinião de Mug para as manchetes que a redação escolhia. “O que acha, moço? O que você entende disso? Acha que vende”, perguntava Mellé. Em caso de afirmativa, o chefe costumava dizer vox Populi, vox Dei e mandava rodar a manchete.

 

Em um episódio de briga na Assembleia Legislativa, por exemplo, a redação optou pela manchete RIFIFI NA ASSEMBLEIA. Um filme francês em cartaz na época tinha o mesmo termo em seu título. Mellé leu a sugestão e sentenciou: “Não, o povo não entende isso. Isso é coisa de vocês”. Para provar sua tese chamou Mug. “O quer você entende, moo?”, indagou ao rapaz que fazia cara de espanto ao ler a frase, claramente sem entender o que estava escrito naquele pedaço de papel. Então Mellé explicou a história, e o rosto do contínuo se iluminou. “Ah, teve um quebra-pau na Assembleia”, exclamou. E assim foi para as rotativas.

 

Mug, todavia, não era o único conselheiro de Jean Mellé. Certo dia, a redação do Notícias Populares preparava-se para rodar uma manchete corriqueira, sobre um crime em São Paulo. Mellé entrou na gráfica e reparou que todos os funcionários estavam aglomerados para ler uma pequena nota sobre a suporta aparição de uma mula-sem-cabeça na capital. Parou as máquinas na hora e mudou a manchete. A nova capa estourou nas bancas. “Pova sabe, pova conhece”, justificava.

 

Outra aposta inovadora do romeno foi a cobertura incessante do dia-a-dia dos artistas, coisa que poucos veículos faziam na época. A lógica era simples: artista vendia jornal. Por isso, o NP usava e abusava de gente famosa em suas primeiras páginas, atraindo a atenção do povo. Além de alavancar as vendagens, esse chamariz rendia fama à publicação, que ficava conhecida nas mais diversas camadas sociais.

 

E a maior prova desse fenômeno jornalístico seria proporcionada, quem diria, por uma gangue de garotos cabeludos e garotas com minissaias coloridas.

 

Publicado originalmente em JÚNIOR, Celso de Campos, MOREIRA, Denis, LEPIANI, Giancarlo, LIMA, Maik Rene. Nada mais que a verdade: a extraordinária história do jornal Notícias Populares. São Paulo: Carrenho Editorial, 2002.

segunda-feira, 17 de abril de 2023

Os primeiros tempos do NP V: Metralha udenista conta a democracia

Capítulo 5: Metralha udenista contra a democracia

 

O deputado Herbert Levy discursando 

Por Celso de Campos Júnior, Denis Moreira, Giancarlo Lepiani e Mark Rene Lima

 

O deputado Herbert Levy sempre teve cadeira cativa no Notícias Populares – afinal, era o dono. Nos primeiros números, sempre estavam presentes notas sobre a agenda e os pronunciamentos do político. Somente Brigitte Bardot aparecia tanto no jornal – problemas familiares, viagens, maldições astecas, qualquer coisa era pretexto para estampar a musa maior de Jean Mellé nas páginas do NP. Em janeiro de 1964, auge do verão brasileiro, a atriz veio para o Brasil em uma temporada carioca e passou a ofuscar até a presença de Levy. Famosa pela aversão aos repórteres, Brigitte trancou-se no quarto do Copacabana Palace durante a visita. No dia seguinte, o Notícias Populares estampava na capa: BRIGITTE SEQUESTRADA. No mesmo mês, foi flagrada por um paparazzo praticando topless. A imagem de BB seminua na capa do NP deu origem a uma série de reportagens sobre a nova moda, chamada de “biquininho”. Enciumado, Jean Mellé desaprovou o topless de Brigitte. Na pele de Jackie Cassino, escreveu em sua coluna que considerava o modismo “de inteiro mau gosto”.


No mês seguinte, La Bardot foi colocada de lado e o espaço de Herbert Levy no jornal aumentou de proporção à tensão crescente na atmosfera política brasileira. Em 19 de fevereiro de 1964, tem início o bombardeio mais efusivo por parte do deputado udenista contra o governo, com a manchete LEVY: JANGO ATRASA O MÍNIMO PARA FAZER REVOLUÇÃO.

 

O retardamento da assinatura do decreto do novo salário mínimo faz parte de esquema da ‘guerra revolucionária’ que o presidente João Goulart promove no Brasil. A denúncia foi feita ontem pelo deputado Herbert Levy, no Aeroporto de Congonhas, quando embarcava para Brasília. Segundo o deputado Levy, o objetivo do sr. João Goulart seria o de dificultar as condições de vida do povo, para que este, desesperado, aceite qualquer solução.

 

Daí para frente, pobre Jango e companhia limitada. A metralhadora giratória udenista não economizava projéteis contra os governistas, atacando com mais frequência toda e qualquer medida que não a agradasse. Como, com o passar do tempo, as notícias políticas desagradavam mais e mais os conservadores, não é exagero dizer que o NP, no período de fevereiro a abril de 1964, virou uma espécie de tribuna da UDN. O golpe militar aproximava-se, e o jornal, como um soldado tomado pela flama candente do ardor cívico, passou encampar a ideologia da defesa da segurança nacional. Ironicamente, a equipe do jornal era composta por uma esmagadora maioria de simpatizantes da esquerda, que até tentava “sabotar” – como definiu Mauro Santayana – as notícias reacionárias. Mas as vozes do dono e do editor-chefe, obviamente, determinavam a última palavra. Mesmo assim, a oposição não chegaria a se transformar num grande conflito ideológico, mesmo porque era Mellé o responsável pelas notícias pro-UDN. De qualquer forma, o fatídico mês de março começava assim para o Notícias Populares:

 

LEVY: GOVERNO TEM INTERESSE EM SUBVERTER A ORDEM

O deputado federal Herbert Levy proferiu, sexta-feira última na Associação Comercial e Industrial de Campinas, palestre sobre o aniquilamento econômico e a ameaça à liberdade que se processa no país.

 

Nada mal para um jornal que não se prestaria a falar de política. Além desses ataques diretor, o NP também começou a publicar manchetes econômicas contra o governo, buscando minar o apoio popular a Jango – afinal, a parte mais sensível do corpo do trabalhador era o mesmo bolso. PÃO E LEITE MAIS CAROS E MAR DE LAMA NO AUMENTO DO ÔNIBUS foram as manchetes de 4 e 7 de março. A estratégia é de fazer qualquer general aplaudir de pé. Em épocas de turbulência e polarização, o povo tende a ficar ao lado que defende a estabilidade para o crescimento pacífico e saudável da família. O jornal também temperava o clima com ameaças vindas de fora, onde a Guerra Fria esquentava os ânimos. No dia 10, por exemplo, lia-se uma matéria com o seguinte título: OEA: CUBA FAZ AGITAÇÕES NO BRASIL. Para o NP, só um golpe salvava o país.

 

Aliás, de acordo com as páginas do jornal – reflexo, claro, da mentalidade da direita – o golpe, pasme, era a manutenção do governo de Jango, eleito democraticamente pelo povo. A sequência de manchetes catastróficas não deixa mentir: PANCADARIA ESTOURA DE NOVO EM MINAS: METRALHADORAS E TANQUES PARA GARANTIR JANGO, em 13 de março de 1964; GOULAR ENCAMPOU REFINARIAS, no dia 14; PANCADARIA EXPLODE DE NOVO EM MINAS, no dia 16. (Em três dias, duas manchetes traziam o termo “pancadaria”). No dia 17, METRALHA NA FACULDADE (relatando uma ação da polícia na Faculdade de Direito do Largo São Francisco). No dia 18, 400 DESPEJOS POR DIA: ALUGUÉIS (impasse na lei de regulamentação dos aluguéis). A situação era caótica.

 

Se alguém ainda tinha dúvida de que o NP era um jornal político, ela começou a se dissipar no mesmo dia 18, quando o jornal começou a fazer propaganda da Marcha da Família com Deus pela Liberdade. Evento importantíssimo no contexto da época, a marcha foi motivada por uma frase de João Goulart, ao comentar o fato de que as mulheres de Belo Horizonte, de terço, na mão, impediram um comício de Leonel Brizola: “Não é com rosários que se combatem as reformas”. O caudilho perdeu uma ótima oportunidade de ficar com a boca fechada. Pouco tempo depois, os conservadores convocaram a marcha para combater, agora nas palavras do NP, “a demagogia das reformas, que escondem o objetivo de um golpe contra as instituições democráticas do País preparada pelo chefe da Nação”. “A cidade vai parar”, torcia o jornal.

 

No dia seguinte, 19 de março, o primeiro de uma série memorável para a direta, a manchete estampava: POVO MOBILIZADO CONTRA O GOLPE: MARCA COM DEUS É HOJE! Em sua coluna, Jean Mellé abria espaço para as sempre ponderadas palavras do deputado Levy, que chamava o presidente da República de “fraude”. Pelos cálculos mais pessimistas, a marcha reuniu mais de 500 mil pessoas; nos mais otimistas, 800 mil. Ao lado de Herbert Levy, Cunha Bueno, Plínio Salgado e Adhemar de Barros, governador de São Paulo, a multidão protestou contra Jango e seus “asseclas”. O jornal não se conteve: SÃO PAULO DE PÉ DEFENDE A DEMOCRACIA, foi a manchete de 20 de março, que também trazia a declaração de – sim, ele de novo – Carlos Lacerda: SÃO PAULO SALVOU O BRASIL.

 

No dia 21, ainda colhendo os louros da vitória pela marcha contra o comunismo ateu de Jango e Brizola, o Notícias Populares manchetou: LACERDA E ADEMAR UNIDOS: DEFENDEREMOS DEMOCRACIA. Como toda a direita, o NP não dava moleza para o governo. No dia 25, para bater do outro lado, o econômico, volta à tona a questão dos aluguéis. ALUGUÉIS: JG ADIOU DECRETO, dizia a manchete, referindo-se à postergação da lei de tabelamento dos aluguéis, determinada pelo presidente, contrariando todas as expectativas. As manchetes do dia 27, REBELIÃO NA MARINHA, e do dia 31, MARINHA: BOTATOS AGRAVAM A CRISE, mostravam que a vitória antigovernista estava próxima.

 

Na redação do NP, o clima também fervia. Os jornalistas puderam presenciar, no final da tarde do último dia de março, o abraço aliviado de Luiz Fernando Levy e Jean Mellé, que desceram a escada comemorando por antecipação a vitória das Forças Armadas. Concomitantemente, eclodia o movimento revolucionário em Minas Gerais, com a saída das tropas comandadas pelo general Mourão Filho. O romeno colocou todos os repórteres na rua, deslocando-os para cobrir a movimentação política. Vital Battaglia, por exemplo, foi para o quartel do Ibirapuera acompanhar a movimentação das tropas locadas na capital paulista, já que havia a notícia que o Terceiro Exército poderia estar se dirigindo a São Paulo. Tudo o que encontrou, porém, foi um general que acompanhava a “revolução” com os ouvidos grudados me um rádio Spica, esperando notícias de fora.

 

Mesmo assim, na volta à redação, o jornalista fez um relato de mais de trinta laudas do dia D, e entregou o material ao chefe. Mellé não chegou nem ao fim da primeira página. “Não precisa Battaglia. Já ganhamos”, afirmou o romeno. As notícias quentes vinham mesmo da cúpula da UDN, e iam direto para a primeira página. Dia 1º de abril: AB: ESTAMOS COM MINAS. “Ademar de Barros, acentuando estar contra o golpe, afirmou ser necessário ‘dar fim à onda comunista que assola o Brasil’”. Dia 2, os donos do NP estavam em festa. Dia 3, em letras garrafais, a vitória definitiva: GOULART ABANDONOU O BRASIL! Ainda na capa, o jornal reproduzia novas declarações do governador paulista: ADEMAR: MANDAREMOS NAVIOS COM COMUNISTAS À URSS.

 

No mesmo dia, na página 3: LEGALIDADE INAUGUROU NOVA POLÍTICA. TRANQUILIDADE! Ao lado, a coluna principal de Jean Mellé tinha um título mais que sugestivo: “As Forças Armadas como fator importante na formação de uma real democracia nas américas”. Um dia depois, no tradicional espaço de Levy, a afirmação de que o novo presidente deveria ser um militar. “É a melhor homenagem que se poderia prestar ao Exército nacional, que garantiu a sobrevivência da democracia”, resume. Não há quase uma linha sobre o destino de Jango, só para o futuro que, sob um céu anil e com a bênção dos militares, se abria. AURO VISITOU ADEMAR E KRUEL: PAZ E DEMOCRACIA ASSEGURADAS.

 

A manchete do dia 11 é a pá de cal na tensão política e civil que o NP, apesar de na teoria pretender mostrar as mensagens otimistas da sociedade transmitiu por quase seis meses em suas páginas: CASTELO BRANCO PRESIDENTE! Com o novo líder, viria o tão esperado reforço na segurança nacional, como pode-se perceber pelas chamadas seguintes: SUBVERSÃO: VASCULHADOS TODOS OS FOCOS; CAÇA ÀS CÉLULAS COMUNISTAS. Agora, sim, o paraíso reinava no mundo do Notícias Populares. Seguem-se ainda os seguintes excertos:

 

MINISTRO DA GUERRA: REVOLUÇÃO RESPEITOU A CONSTITUIÇÃO (entrevista com o general Artur da Costa e Silva, p. 6, dia 11/4)

CASTELO BRANCO INICIA MARCA DA RECONSTRUÇÃO NACIONAL (p. 3, 13/4)

GOVERNO VAI CONGELAR PREÇOS EM TODO O BRASIL (p. 6, 13/6)

CASTELO BRANCO: ALIANÇA SÓ COM OS PAÍSES LIVRES (16/4)

CADEIA PARA QUEM ROUBAR O POVO (18/4)

 

Até mesmo Radu Henry – filho mais velho de Mellé que se tornara jornalista e bon vivant em Paris – contribuía com notícias da Europa. CASTELO BRANCO SERÁ PRESIDENTE COMO DE GAULLE: SALVARÁ BRASIL, escreveu em 11 de abril. Para tranquilizar ainda mais a população, o jornal batia na tecla do congelamento, publicando os 64 artigos de primeira necessidade cujos preços o governo decretara intocáveis (um desses produtos indispensáveis era o sanduíche de mortadela). O Notícias Populares também não se esquecia da ação da polícia. De acordo com o periódico, os guardas estavam fazendo a sua parte – não havendo, portanto, motivo para pânico. Pelas linhas do jornal, o governo parecia dar a alma pelo povo. CASAS PRÓPRIAS: 14 BILHÕES PARA OS PAULISTANOS era a manchete de 21 de abril. Tudo estava às mil maravilhas.

 

O NP seguiu nesse ritmo até a segunda metade de 1965, quando completaria dois anos de vida. Já acumulava prestígio no interior e na capital de São Paulo, com uma tiragem média variando entre 70 mil e 90 mil exemplares diários. Levantamento do Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (Ibope), publicado no final de 1964, revelava que o Notícias Populares registrara um aumento de 357% de sua venda avulsa nas bancas da capital no período de novembro de 1963 a agosto de 1964. No mesmo estudo, o Ibope acusava um decréscimo das vendas em bancas para os outros jornais: 30% para os matutinos e 21% para os vespertinos. O plano inicial de neutralizar a ação do Última Hora estava cumprido, como o próprio Mellé deixou escapar em sua coluna de 11 de outubro de 1965:

 

Foi perguntado a um ilustre homem político num programa de TV o que achava do jornal Notícias Populares. Respondeu que, até dois anos atrás, os trabalhadores, para ler as notícias e os assuntos que lhes interessavam, eram obrigados a procurá-los num órgão com tendências comunistas e anti-religioso. Também surgiu um jornal como eles queriam: informativo, completamente independente, escrito e apresentado no estilo existente em todos os países ocidentais, onde o leitor é ouvido e respeitado, sendo-lhe oferecido um tipo de jornal do qual gosta.


Como também o objetivo de auxiliar na derrubada do governo fora alcançado, a família Levy não tinha mais interesse me dar informação aos trabalhadores – nem que fosse para ter lucro com o jornal, que havia roubado quase metade dos leitores do UH. A futura candidatura de Carlos Lacerda para presidente, quer seria apoiada nas páginas do NP, havia sido posta de molho pela UDN.

 

Conclusão dos conservadores: era mais preciso manter um jornal como arma política. Além disso, apesar do crescimento, o vespertino de Jean Mellé deixou prejuízos consecutivos em seus dois primeiros anos de existência. A perda financeira em 1964 foi maior que o dobro do prejuízo do próprio ano de fundação. Era preciso uma retaguarda empresarial para dar sustentação ao jornal, e isso não era uma tarefa fácil de assumir. Uma carta aberta endereçada ao prefeito Faria Lima, publicada pelo Notícias Populares em maio de 1965, serve como um pequeno exemplo das dificuldades estruturais enfrentadas por seus profissionais. O texto rogava ao brigadeiro que agilizasse a instalação de um “PBX e maios dois números de telefone” na sede do Gasômetro. Parece incrível, mas o jornal só tinha uma linha telefônica:

 

Somente no setor das consultas sobre a Lei do Inquilinato, mais de 50 mil pessoas foram atendidas pelo nosso redator especializado, sendo a maior parte das informações dada por telefone; pelo único telefone que Notícias Populares possui, e assim mesmo, emprestado de outro jornal.

Estamos hoje sob a égide da revolução, pela qual Notícias Populares lutou com riscos e perigos para alguns de seus membros. Pedimos, pois, em nome dos 200 mil leitores de Notícias Populares, que se faça justiça agora.

 

O NP era um fenômeno de público, mas um desastre como empreendimento. Sem disposição para reverter isso, Herbert e Luiz Fernando Levy preferiram voltar a tocar apenas a Gazeta Mercantil.

 

Assim, em 22 de outubro de 1965, uma semana depois do segundo aniversário do jornal, o Notícias Populares foi vendido a Octávio Frias de Oliveira e Carlos Caldeira Filho – a dupla de empresários conhecida como Fri-Cal -, dirigentes da Empresa Folha da Manhã S.A. Ainda que contra a vontade de Jean Mellé, a família negociou o título, acertou a transferência dos jornalistas, e obteve a garantia de que o romeno seria mantido no cargo. O restante da empresa constituída dois anos e meio antes foi rebatizada de Editora São Bento – nome da fazenda de café da família e da rua que abrigava o escritório administrativo – e liquidada logo depois. Na semana seguinte ao negócio, a rua do Gasômetro ficou para trás. O NP instalou-se na alameda Barão de Limeira, no centro de São Paulo, onde encontraria a estrutura necessária para seguir crescendo. Ali, passada a fase de tribuna política, o jornal vivera uma nova história, ainda mais ao gosto dos fregueses.

 

Publicado originalmente em JÚNIOR, Celso de Campos, MOREIRA, Denis, LEPIANI, Giancarlo, LIMA, Maik Rene. Nada mais que a verdade: a extraordinária história do jornal Notícias Populares. São Paulo: Carrenho Editorial, 2002.

segunda-feira, 10 de abril de 2023

Os primeiros tempos do NP IV: Circo do romeno pega fogo

Capítulo 4: Circo do romeno pega fogo

Edição do Notícias Populares em 1964


Por Celso de Campos Júnior, Denis Moreira, Giancarlo Lepiani e Mark Rene Lima

 

Para quem já havia superado uma década em condições subumanas na Sibéria, não foi nada difícil driblar um empreendimento (mal) organizado pela burocracia. Em pouco tempo, Jean Mellé conseguiu tirar leite de pedra, transformando a precária estrutural do NP em uma organização respeitável para os padrões jornalísticos. Em uma época em que a boemia e o jornalismo dançavam de rosto colado, o romeno tinha uma visão da engenharia de um jornal que somente vinte ou trinta anos depois seria implantada pelos grandes veículos. Claro que muitos achavam que o chefe estava pirado quando dizia, por exemplo, que os jornais do futuro sairiam em três edições diárias, com quatro páginas no máximo, para reproduzir com mais agilidade as notícias do dia. Mellé só não contava com a Internet, que sepultou sua previsão de um jornal em papel com três edições. Mas não seria a rede de computadores exatamente a concretização dessa ideia em outro meio?

 

Independentemente disso, quando o romeno arregaçava as mangas, ninguém ousava contrariá-lo. Nem mesmo o dono, já que Mellé gozava de autonomia em todos os sentidos – o próprio Luiz Fernando Levy admite que suas reuniões com o jornalista serviam apenas para cumprir tabela, pois jamais ousara interferir nas decisões do veterano editor. A principal cobrança do chefe para a redação dizia respeito ao horário de fechamento. Normalmente, as páginas deveriam começar às 20 ou 21 horas, mas Mellé costumava antecipar o deadline (fechamento) para as 19 horas. O motivo? Atingir aquele trabalhador que voltava passa casa tarde da noite e não teria tempo, no dia seguinte, para parar em uma banca. De quebra, arrebanhava o público que se esbaldava nas boates do Centro até altas horas da madrugada. Na década de 1990, essa estratégia passaria a ser praxe no jornalismo – com direito a exagero de grandes veículos, que chegam a colocar a edição de domingo nas bancas no sábado à tarde.

 

Claro que Mellé também escorregava nessa pressa de fechar seu NP. Certa vez, Vital Battaglia, que finalizava a edição de esportes, foi abordado pelo romeno. “Jornalo fecha cedo hoje. Acho que não vai dar para esperar para fazer o jogo da noite”, disse o editor. “Bom, seu Mellé, se não der, tudo bem. A gente dá no segundo clichê”, respondeu Battaglia. A tréplica foi digna de Dadá Maravilha, o rei das pérolas futebolísticas. “No, acho que nem em segundo clichê, no compensa trocar. Será que no dá para colocar o resultado só do meio tempo do jogo?” Evidentemente, explicaram ao romeno que, nesse caso, seria melhor não colocar nada.

 

A verdade é que Mellé estava se acostumando novamente a ser chefe. E não só na redação. Não se sabe como, mas, ainda na fase inicial do Notícias Populares, o romeno havia convencido os Levy a desembolsar uma nota preta em uma nova frota de distribuição. Do sobrado do Gasômetro, certa vez, Mellé mostrou a um incrédulo Tão Gomes Pinto um comboio de lustrosos caminhões e caminhonetes Ford, que chegavam com pneus pretinhos e o reluzente logotipo do NP estampado nas portas. “Este estar segredo do jornalo: distrubuiçon”, disse ele. Para completar o esquema de entrega, os jornaleiros à moda antiga levavam o NP na boca da Boca, cobrindo os principais pontos da badalação noturna paulistana da época. Só as velhas rotativas, para variar, continuavam falhando na hora H. Experientes, porém, os funcionários já haviam descoberto como lidar com as máquinas nesses momentos: pauladas na lateral da engenhoca eram tiro e queda.

 

Na parte editorial, o jornal não precisava de trancos para engrenar. A equação esportes, polícia e cidades, reforçada por fotos de mulheres do Teatro Natal, na praça Júlio de Mesquita, era a garantia de resultados positivos nas bancas. Uma equipe de primeira linha, comandada com pulso firme pelo romeno, começava a tomar corpo no jornalismo paulistano. Nenhuma outra publicação, por exemplo, cobria as enchentes – pesadelo dos verões paulistanos já naqueles tempos – como o Notícias Populares. O banho que o NP dava nos concorrentes, contudo, não era fruto apenas do espírito jornalístico dos repórteres: os próprios funcionários do jornal eram vítimas das cheias, que transformavam a região do Brás em um verdadeiro mar urbano. Muitos só conseguiam chegar ao Gasômetro pegando carona em caminhões ou mesmo enfrentando as águas turvas. Por isso mesmo, não foram poucas as vezes em que jornalistas tiveram de trabalhar de cueca, enquanto calças e meias secavam no laboratório de fotografia – isso a despeito da presença feminina na redação, que contava com duas ou três funcionárias.

 

Mas as exclusivas não paravam por aí. Na editoria de esportes, o NP literalmente entrava em campo para chegar aonde à concorrência não chegava. Um de seus repórteres, João Carlos Guide, setorista do Palmeiras, havia conseguido enorme trânsito no clube, e cansou de trazer furos para a redação mostrando ângulos inéditos na reportagem esportiva. Não era difícil encontrar jogadores do alviverde visitando o prédio da rua do Gasômetro. Em retribuição, Guide era frequentemente requisitado para completar o time nos treinos do Palestra Itália. A relação não se abalou nem quando o repórter, autor de uma entrada mais estabanada no treino, contundiu o zagueiro Aldemar, tirando o jogador de um clássico contra o São Paulo.

 

A editoria de polícia, tocada pelo rechonchudo Ramão Gomes Portão, não ficava menos perto da notícia. Um dos fotógrafos do caderno, chamado Luiz Manoel, descendente de portugueses, entrava em qualquer beco antes da polícia para prender um bandido – não sem antes, claro, fazer o devido registro fotográfico da cena. Além da câmera, seu outro instrumento de trabalho era uma pistola automática 765, da qual não se separava nunca. (Aliás, a maioria dos repórteres policiais da época também não dispensava uma arma ao lado da caneta e do bloco).

 

Luiz Manuel, por sinal, foi o protagonista de uma das mais incríveis histórias do jornal na era do Gasômetro. Em uma noite de fechamento – já na espera pela troca de clichês -, o fotógrafo limpava o revólver de estimação em uma bancada da redação. Perto dele, J. B. Paladino, jornalista que cuidava da editoria internacional, insistia em provocar o lusitano. “Ô português, tenho mais medo dessa arma no chão do que na sua mão”, gargalhava. Paciente, Manuel continuava compenetrado em seus afazeres, apenas dando um recado: “Não me encha o saco, ora pois”. A noite adentrava, e as brincadeiras de Paladino, que estava sentado em uma das mesas da redação, prosseguiam. De repente, o fotógrafo levantou e deu um tiro no pé do engraçadinho. Ninguém ficou para ver: todos os jornalistas desceram a escada voando e foram se refugiar no hotel do outro lado da rua.

 

No corre-corre, também entraram os funcionários que trabalhavam na oficina, no térreo. A salvo na hospedaria, relataram aos companheiros que a bala atravessara o assoalho de madeira do primeiro andar e passara pela clicheria, alojando-se na mesa sobre a qual alguns trabalhadores jogavam crepe. Depois de quase meia hora escondidos, os jornalistas voltaram ao prédio, e encontraram Paladino imóvel, com a pele quase transparente: a bala havia atingido a costura de seu sapato. Já Luiz Manuel permanecia sentado, com as pernas para cima. Limpava calmamente a sua arma e, afinadíssimo, assobiava o Vira.

 

Evidentemente, casos como esse fugiam à rotina do Notícias Populares. Mas isso não significava que o clima da redação tivesse a harmonia de um mosteiro de monges beneditinos. Jean Mellé e Narciso Kalili, os dois primeiros homens na hierarquia editorial do NP, viviam uma relação de amor e ódio. Mais que um conflito pessoal, tratava-se de um confronto de escolas: de um lado, o romeno querendo mostrar a verdade nua e crua; de outro, o veterano jornalista brasileiro, sempre preocupado em manter a publicação com alto nível editorial, buscando erradicar todo e qualquer exagero popularesco.

 

Assim, bastava o horário do fechamento se aproximar para o tempo esquentar. Todas as noites, era a mesma coisa: a dupla subia e descia a escada do prédio aos berros, trocando ideias (poucas) e ameaças (muitas). Os insultos ecoavam por todo o prédio, desde o aquário de Mellé até o salão das rotativas. O pavio curto do chefão era conhecido por todos, mas ninguém se preocupava com essas ameaças – afinal, depois dos entreveros, Mellé voltava a derreter-se pelo colega. Além disso, a presença quase delegalesca de Ramão Gomes Portão intimidava a dupla. Quando a coisa parecia sem volta, o editor de polícia – advogado e criminalista de formação, muito inteligente e educado – colocava sua imensa barriga para apartar os brigões, e estava tudo resolvido.

 

Todavia, isso começou a mudar quando Mellé resolveu publicar a história de um triângulo amoroso envolvendo uma grande dama das altas-rodas paulistanas, Lygia Jordan. A reportagem de Percival de Souza citava nomes de todos os envolvidos, incluindo-se aí os vértices da trama, figurões da aristocracia bandeirante. Mesmo aconselhado por Kalili a deixar a história de lado – o veterano sabia que mexer com a alta sociedade era mergulhar em um vespeiro -, o romeno não se fez de rogado e soltou a matéria. A repercussão foi enorme: além de transformar-se em um verdadeiro escândalo social na época, a história rendeu dividendos ao NP, que praticamente dobrou sua tiragem na ocasião.

 

Mas Mellé pagaria caro pela ousadia. Certa noite, finalizando o expediente, o romeno estava prestes a entrar em seu prédio quando foi abordado por dois desconhecidos. Pelas costas, um deles segurou a vítima; rapidamente, o outro começou a desferir uma saraivada de golpes no editor do Notícias Populares, ao melhor estilo Éder Jofre. Mellé caiu junto com a sacola com garrafas de refrigerante que comprara pouco antes. De acordo com relatos de testemunhas, os agressores fugiram em um táxi da marca DKW, cor cerâmica. Antes de sair, deixaram lembranças de Claudino Caiano de Castro, um dos envolvidos no caso Lygia Jordan.

 

Anos depois, os responsáveis pela “congesta” foram pegos pela polícia e confirmaram o mandante da agressão. Os pugilistas Miguel Angel Miranda e Paulo da Silva confessaram ter recebido 100 mil cruzeiros de Caiado para aplicar a surra em Mellé, sob a justificativa que o jornalista estava criticando Lygia – que passara a ser mulher do figurão – no jornal que dirigia. A partir daí, a fera romena passou a andar armada: revólver calibre 38, cano longo

 

As discussões com Kalili continuaram, e a redação passou a temer pela segurança de ambos. Como ninguém se atrevia a desarmar Mellé, até mesmo os profissionais mais pacíficos passaram a carrega revólveres. Se houvesse detector de metais na entrada da redação, o jornal jamais chegaria às bancas naquela época. Claro que a situação incerta do país também contribuiu para o aumento do arsenal dentro do Notícias Populares. A polarização das forças políticas fazia com que, para muitos, sair às ruas fosse uma grande incógnita. Assim, também os jornalistas começaram a trabalhar com segurança própria – no caso de Mauro Santayana, um belo facão de 40 centímetros, cabo de prata, tratava de afugentar qualquer perigo. Arma nenhuma, porém, serviria como defesa do turbilhão que envolveria o Brasil um pouco mais tarde.

 

Publicado originalmente em JÚNIOR, Celso de Campos, MOREIRA, Denis, LEPIANI, Giancarlo, LIMA, Maik Rene. Nada mais que a verdade: a extraordinária história do jornal Notícias Populares. São Paulo: Carrenho Editorial, 2002.