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segunda-feira, 12 de agosto de 2019

Grandes entrevistas de PBY: Jece Valadão em 2007


Playboy entrevista Jece Valadão

                  
Uma conversa franca com aquele que foi o ator mais cafajeste do Brasil sobre aventuras com mulheres casadas, surubas com o presidente João Figueiredo e como ele broxou com Norma Bengell

Jece Valadão estava animado. Em casa, um apartamento simples no centro de São Paulo, vestia camisa e calças sociais, tinha os cabelos penteados para trás e escondia os pés descalços na mesa da sala. Era o dia de sua primeira bateria de entrevistas para PLAYBOY e ele se sentia prestigiado. Nos últimos dez anos, Valadão, dono de um currículo em que constam 107 filmes, estrela do Cinema Novo e da Chanchada, andava um tanto esquecido. Só recentemente voltara a ocupar páginas de jornais e revistas graças ao papel principal no seriado Filhos do Carnaval, da HBO (série indicada ao Emmy Internacional), e às filmagens do longa Encarnação do Demônio, de José Mojica Marins, o Zé do Caixão. Também procurava patrocínio para o filme O Dia do Juízo Final – a história do apóstolo Paulo de Tarso – e esperava a estreia no cinema de Cinco Frações de Uma Quase História, em que interpretou um juiz corrupto. Mas o que mexia com a vaidade de Jece Valadão era uma homenagem que acabara de receber do Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio de Janeiro, com a exibição de alguns dos principais filmes de sua carreira.

Jece estava sumido desde que se convertera à religião evangélica e aposentara o papel que o consagrou: do cafajeste. Passou a última década dando seu depoimento evangélico em templos Brasil afora, contando sobre a visão de Deus que o fez largar vícios e dedicar-se à pregação de palavra. Foram dez anos afastados dos holofotes – segundo ele, tempo necessário que se tornasse um evangélico convicto e não caísse nas inúmeras tentações do meio artístico. Pai de nove filhos – cinco dos quais reconhecidos -, casou-se pela sexta vez com uma amiga de culto, Vera Valadão, de 45 anos. No dia e que recebeu PLAYBOY pela primeira vez, Jece falou sobre suas dificuldades. Contou que, certa vez, teve de pedir 20 reais emprestados a um amigo. Explicou que, nesse período, sua fonte de renda foi a venda de CDs e DVDs com seus “testemunhos de fé”. Mas estava confiante de que o tempo das vacas magras havia passado. “Assinei um contrato com a Rede Record de três anos. Você sabe o que é isso para um homem de 76 anos?” Jece Valadão estava certo de que viveria muito mais do que o suficiente para honrar seu contrato com a emissora. E gabava-se de sua saúde de ferro. “Eu não tenho nada no pulmão, nem problemas respiratórios. Só tenho uma diabete controlada. Passei 65 anos comendo errado, fazia tudo que desse na telha”.

Filho de pais camponeses, Jece descobriu o talento para a sétima arte ainda criança, em Cachoeiro do Itapemirim, no Espírito Santo. Ganhava pedaços de rolos de filmes de um amigo que trabalhava no cinema da cidade, colava-os e, com a ajuda de uma caixa e uma lâmpada, fazia projeções para os meninos da vizinhança. Começou sua vida profissional como locutor de rádio, mas sabia que o seu futuro estava na telona. Mudou-se para o Rio de Janeiro e, na primeira vez em que pediu emprego na Atlântida, ouviu de um de seus mais importantes diretores, Watson Macedo, que não era bonito o suficiente para o ofício de ator. “Aquilo acabou comigo”, contou. Mas conseguiria um papel de figurante no filme Também Somos Irmãos e, por uma artimanha do destino, despertou profunda atração física no diretor José Carlos Burle. Deveria apenas entregar um chope ao personagem vivido por Jorge Dória, mas terminou contracenando com Grande Otelo.

Jece Valadão adorou aquele ambiente – “via aquelas luzes e sentia-me em Hollywood” – e passou a frequentar congressos e seminários de cinema do Rio de Janeiro. Num deles, conheceu o diretor Nelson Pereira dos Santos e com ele filmou Rio 40 Graus, Os Cafajestes (1962), de Ruy Guerra. Contou que bateu em mulher, desvirginou púberes, andou com revólver sem porte de arma, virou incontornáveis garrafas de whisky, foi amigo do peito de um membro do Esquadrão da Morte, cheirou cocaína. Naquela ocasião, folheou, com assumida curiosidade as edições de PLAYBOY de Mariana Felício, Flávia Alessandra e dos Aviões da Varig, que recebeu de presente da repórter Adriana Negreiros. Sugeriu à esposa, evangélica, que escolhesse um lugar no guia de motéis encartado na edição de julho de PLAYBOY, para que os dois passassem uma noite. Riu, com jeito de criança levada, quando ela lhe passou um pito pela proposta indecorosa.

Nada sugeria que o vivaz Jece Valadão estaria morto poucos dias depois dali. Quando ele foi internado com insuficiência respiratória, no dia 20 de novembro último, a edição de dezembro de PLAYBOY já estava na gráfica. As sete horas de conversa com o ator, previstas para serem publicadas nesta edição, já haviam sido transcritas e editadas. Poucos dias antes de ir para o hospital, ele havia pedido à repórter que o sabatinou que enviasse para sua casa a edição de outubro, com a entrevista do ator Daniel Filho, seu colega em Os Cafajestes. Confessou que estava curioso para ler o que sairia publicado a seu respeito. “Por favor, seja boazinha comigo”, pediu. Jece Valadão morreu às 17h20 do dia 27 de novembro de 2006. Esta foi sua última entrevista.

PLAYBOY- Você havia dito que não faria o novo filme do Zé do Caixão, Encarnação do Demônio, porque batia de frente com o que você pensava. Mas resolveu aceitar o papel. O que mudou?

JECE- Eu mudei algumas coisas no diálogo que vão justificar a minha participação. O meu personagem é um coronel da polícia que persegue o Zé do Caixão. Não é bem um vilão. Eu represento a Justiça. Eu acrescentei um diálogo em que meu personagem fala: “Sou católico apostólico romano e meus santos me salvam”. A sala dele é lotada de santos. No final do filme ele morre e diz: “Meus santinhos não resolveram meu problema”. Ou seja, ele mostra que a idolatria não leva a nada.

PLAYBOY- O título do filme com referência ao demônio não te incomodou?

JECE- Eu tenho acesso direto ao Espírito Santo e ele me disse: “Meu filho, seja qual for a tua decisão, o filme será feito. Então, melhor que seja feito com a sua voz destoante”. Também consultei meu pastor. Além do mais, estão me pagando muito bem.

PLAYBOY- Do que você é proibido?

JECE- Não sou proibido de fumar nem de beber. Se eu quiser beber um whisky agora, eu bebo e nenhum produtor me proíbe. Mas não faço porque tenho consciência de que faz mal para o meu corpo. Não bebo, não fumo e não cheiro pó, por convicção.

PLAYBOY- Mas houve um tempo em que você fazia isso tudo.

JECE- Eu bebia uma garrafa de whisky numa sentada. Só com gelo. Whisky bom, escocês. E não ficava de porre. Fumava quatro maços de cigarro por dia. A única coisa que não pratiquei foi o consumo de drogas.

PLAYBOY- Nem por curiosidade?

JECE- Só uma vez, no Rio de Janeiro, na casa de uma milionária. Toda semana ela dava festa. Ela tinha uma mesma de mármore preta no meio da sala e preparava as carreiras de cocaína para os convidados. Eles pegavam notas de dólar e cheiravam aquele negócio. O único que não cheirava era eu. E ela não aceitava. Mas ela encheu tanto o meu saco que eu falei: “Vou lá”. Cheguei, cheirei aquele negócio de uma vez. Sabe o que aconteceu? Sentei no sofá e dormi a festa inteira. Eu preferia o whisky.

PLAYBOY- Muita gente que vira evangélica renega o que fez. Você não se furta a falar sobre suas aventuras do passado. Por quê?

JECE- Meu passado é um livro aberto, como é que eu vou negar?

PLAYBOY- Então vamos falar dele. Você já se envolveu em muitas brigas?

JECE- Várias vezes. Eu vivi muito perigosamente. Eu arriscava a vida praticamente toda noite. Eu e um amigo saíamos para as boates, no Rio, e nosso prazer era tomar a mulher dos gringos. Sentávamos numa mesa, pedíamos whisky, começávamos a beber e ver quem era bonita. Não importava quem estivesse ao lado da mulher, a gente começava uma paquera. Mandava o maître falar com ela, levava recadinho. E na maioria das vezes tomava a mulher do cara. Isso é arriscar a vida. Se você pega um cara invocado, ele puxa o revólver.

PLAYBOY- Já aconteceu?

JECE- Uma vez, numa boate, a mulher de um cara começou a dar bola pra mim. Começou a dançar na minha frente, fazendo charme. E o sujeito se invocou. Esse era brasileiro. Estava no meio de pileque e veio falar comigo. Eu falei: “Não me enche o saco”.  E dei um empurrão, ele caiu sentado. Na hora de ir embora, o cara veio me provocar. Eu já estava com alguns whiskies na cuca. Ele disse: “Você não foi homem comigo e eu quero desfazer esse negócio aqui agora”. Falei: “Não vou fazer nada com você. Vou mijar no teu pé”. E mijei. Molhei a calça, o sapato. Mas o negócio foi tão agressivo que o cara ficou parado, virou estátua. Meu amigo já estava com o carro ligado, saímos morrendo de rir.

PLAYBOY- E a agressão ficou por isso mesmo?

JECE- Que nada. O cara me conhecia. Passaram-se uns três dias e toda noite passávamos na Fiorentina, que era um restaurante do Leme (bairro da zona sul do Rio de Janeiro) que ficava aberto a noite inteira e era frequentado por artistas. Um dia eu vou chegando e o maître corre. “Seu Jece, tem um cara aí com um revólver desse tamanho querendo te matar”. Olhei o cara e reconheci. Ele estava sozinho numa mesa. Fui lá, sentei de frente pra ele e disse: “Você veio me matar? Então que mate logo, ou eu te dou umas bolachas e te faço engolir o revólver. Agora, se veio conversar, estou disposto a pedir desculpas pelo que fiz. Eu sei que errei, mas você folgou demais”. Aí o cara começou a chorar, coitado. Eu tripudiava com as pessoas, tinha uma falha de caráter muito grande. Andava armado com uma pistola de 13 tiros, engatilhada, sempre.

PLAYBOY- Você tinha porte de arma?

JECE- Nada. Dirigi a vida inteira sem carteira. Tirei quando vim morar em São Paulo, em 85. Eu tinha motorista, mas quando ele faltava eu dirigia e fui pego várias vezes. O guarda reconhecia e me liberava.

PLAYBOY- Chegou a usar a arma?

JECE- Nunca dei um tiro. Mas tinha uma arma sempre dentro do carro. Vim para São Paulo com essa pistola 765. Eu estava casado e a mulher enchia meu saco para eu vender. Vendi e uma semana depois saí do escritório e parei num sinal. Aí vem um cara com um revólver 22. Eu tinha um Rolex Presidente. Tirei o relógio e dei na mão daquele débil mental. Saiu andando para vender por 50 reais. Se eu tivesse com a arma ali, não tenha dúvidas de que eu o matava, pelas costas. O ódio era grande.

PLAYBOY- Na série Os Filhos do Carnaval, você interpreta um bicheiro. Qual era a sua relação com Castor de Andrade, o bicheiro mais famoso do Brasil?

JECE- Eu era muito amigo dele. Ele era duas pessoas distintas. Uma era o bicheiro de Bangu, dono da escola de samba. E era outro em Copacabana. Eu era amigo do Castor de Copacabana. Ele foi meu sócio no filme Os Cafajestes. Teve um filme que eu fiz em que precisava de armas. Era uma época difícil de conseguir armamento, por causa da Ditadura. Não consegui no Exército, fui no Castor e ele me abriu o arsenal dele. Me emprestou todas as armas e eu fiz o filme.

PLAYBOY- Que tipo de arma?

JECE- Fuzil, metralhadora, revólver 38 e mais alguns de 13 tiros. O Castor de Andrade tinha um arsenal. Mas ele era uma pessoa dócil. Uma dama.

PLAYBOY- Vocês chegaram a aprontar muito juntos?

JECE- Não. Eu aprontei muito com o Mariel Mariscot (policial membro do Esquadrão da Morte). Fiz um filme com ele, Eu Matei Lúcio Flávio (1979). Ele estava na prisão, eu ia lá, ele me contava a história dele e eu anotava. Depois fiz o argumento do filme.

PLAYBOY- O que vocês fizeram?

JECE- Teve uma vez em que eu estava fazendo o filme, e o Mariel falou: “Ô Jece! Qualquer dia desses eu vou te levar para um extermínio. Aí você vai ver como é, para fazer direito no cinema. Porque um extermínio de verdade, não tem nada a ver com o que você faz no cinema não, viu?”. Eu querendo bancar o machão, disse: “Tá bom, na hora que você me chamar, eu estou lá”. Três ou quatro dias depois ele me telefona: “Hoje vai ter execução lá no aterro do Flamengo. Vamos marcar em tal lugar na Cinelândia 9 horas da noite”. Eu falei: “Tá bom”.

PLAYBOY- E foi?

JECE- Eu desliguei o telefone e falei: “O quê? Assistir a uma morte? Mas não há condições de eu ir”. E obviamente não fui. No dia seguinte li no jornal: pegaram um cara, levaram para o aterro do Flamengo, amordaçaram, degolaram com o cordão, atiraram na cabeça. Era um bandido. A imprensa descobriu que ele estava hospedado num hotel no centro da cidade e foi lá. E o porteiro do hotel disse: “Ontem vieram aqui três caras e saíram com ele”. Agora imagina se eu tivesse ido? O porteiro ia dizer: “O Jeca Valadão esteve aqui”. E no dia seguinte o Mariel me liga: “Pô, rapaz, você não foi”. Eu inventei que o meu filho ficou doente. Ele disse: “Então na próxima eu te chamo, hein?”. Eu falei para a secretária: “Se o Mariel ligar, eu não estou”. Porque o Mariel era apaixonado por mim. Sabe paixão?

PLAYBOY- Paixão?

JECE- É, paixão no bom sentido. Se você olhasse atravessado pra mim, ele provocava você para brigar. Então eu tinha que ter um cuidado tremendo com ele. Atrito normal do dia-a-dia, ele já queria matar. Porque ele matou mais de 80. Ele contou. Depois que mata o primeiro vai embora, né?

PLAYBOY- O Mariel chegou a te meter em alguma confusão?

JECE- Quase. Um dia ele fugiu da penitenciária e de repente eu estou em casa – a polícia inteira procurando por ele – e recebo um cartão. Abro o envelope, é um cartão de Brasília, com um anjo em cima de uma catedral, no ar, e ele escreveu: “Amigo Jece, foi assim que eu fugi daquela m(*)”. E mandou para o meu endereço. Quando ele telefonou para mim, eu falei: “Mariel, pelo amor de Deus, não manda nada pra o meu endereço. Você está sendo procurado pela polícia do Brasil inteiro”. Pegar uma cana porque o Mariel mandou um cartão pra mim? Porque ele casou com a atriz Darlene Glória, tem um filho com ela e fui em quem apresentei os dois. Eu sabia que o caminho dele não tinha volta. Mas era uma dama. Era delicado. Se o cara o conhecesse direito, achava até que ele era veado. Era de uma gentileza, aquelas pessoas boas, sabe? Mas um matador. Impressionante.

PLAYBOY- Comenta-se que você deu o golpe do baú ao se casar com a Dulce Rodrigues (irmã do dramaturgo Nelson Rodrigues). Casou-se por interesse?

JECE- Eu me casei com a Dulce Rodrigues porque fui conhecer o apartamento em que ela morava e fiquei entusiasmado. Aquilo não era uma apartamento, era um palácio. Para você ter uma ideia, o imóvel foi comprado da Embaixada da Itália. Eu tentei dar o golpe do baú, mas o baú estava furado. Comecei a trabalhar feito um louco. A Dulce era uma mulher maravilhosa, apaixonada por mim. Depois que eu a deixei e casei com a Vera Gimenez, ela ia receber pensão e gastava tudo em maquiagem e roupas para me ver. Eu nem aparecia, mandava a secretária pegar. Maldade mesmo.

PLAYBOY- Sua relação com a Vera Gimenez foi tumultuada e depois da separação ela te acusou de não pagar a pensão do filho. Você não pagava?

JECE- Vera Gimenez foi minha quarta mulher e nós temos um filho, o ator Marco Antônio, que está virando celebridade como o Urubu, de Malhação. Foi um casamento muito atritado, neurótico, as duas personalidades se batiam. Foram 13 anos de guerra. E não entrava na minha cabeça que eu tivesse que pagar pensão alimentícia para o Marco Antonio porque ela estava casada com outro. Mas todo mês ela me ligava, cobrando, e eu pagava. Eu tinha horror a São Paulo e vim morar aqui para me ver livre dela. Eu não suportaria cruzar com ela.

PLAYBOY- Ela costuma dizer que você só é evangélico para os outros.

JECE- Ela disse isso várias vezes. Mas não tem a menor importância. Logo que eu me converti, eu senti vontade de pregar a palavra para a Vera. Um dia ela falou: “Eu não admito um Deus que manda Abraão matar seu filho”. Todo mundo pensa que ela é evangélica, mas ela é umbandista. Tenho pena, porque ela precisa da palavra. Já teve câncer no seio. Deus já deu vários avisos. O marido dela, com quem ela se casou depois de mim, morreu de Aids. A Vera fica preocupada, na expectativa de ter o vírus incubado. Agora teve câncer nos ossos.

PLAYBOY- Umbanda é coisa do diabo?

JECE- Não tenho a menor dúvida. Quando eu era ateu, tive oportunidade de frequentar um centro espírita de umbanda. E como eu era Jece Valadão, a mãe-de-santo me ungiu como Exu Rei. Aí eu fingia que recebia o Exu para comer a auxiliar de mãe-de-santo que era muito bonita.

PLAYBOY- E comeu?

JECE- Comi. O terreiro parava porque eu ia receber o Exu Rei. Vê se pode um negócio desses. Eu sou ator e dizia um monte de coisas desconexas. O que eu falava era lei para eles. Com isso, eu me credenciei tanto diante dessa mãe-de-santo auxiliar que ela acabou se entregando para mim.

PLAYBOY- É de supor que sua fama de cafajeste também exercesse fascínio sobre os homossexuais.

JECE- Demais. Quando eu me casei com a Dulce, recebi um abaixo-assinado com mais de 200 assinaturas de bichas do Rio. De protesto. Porque casando ficava mais difícil conseguir ter um caso comigo. O sonho das bichas era me levar para a cama. Mas tenho orgulho de dizer que nunca tive uma relação homossexual. 

PLAYBOY- Os gays te agarravam?

JECE- Agarravam, mas eu impunha respeito. Várias vezes eu tive que dar uns tabefes em uns. Uma vez eu estava no Canecão, fui ao banheiro e entraram três bichas. Queriam me agarrar à força. Eu suei, saí de lá todo amassado, distribuindo bolachas nos caras. Ainda bem que chegaram dois amigos e botamos as bichas para correr. Quase saíram de lá nus.

PLAYBOY- Existe uma história de que o ator Burt Lancaster (astro do filme A Um Passo da Eternidade) deu em cima de você. É verdade?

JECE- Depois de Os Cafajestes, eu fui pra Itália, e a Norma Bengell estava lá, filmando na Sicília. Me encontrei com ela num hotel onde estava também, o elenco de O Leopardo com Alain Delon e do Burt Lancaster. E o Burt começou a dar em cima da Norma, saía muito com ela. A Norma resolveu me apresentar pra ele. Fomos jantar juntos, os três. Começamos a tomar vinho, eu não falava uma palavra de inglês e a Norma fazia a tradução. E eu ali cabreiro. De repente, ele botou a mão na minha perna., Eu pensei que fosse uma coisa natural, mas ele começou a apertar e subir a mão. Aí eu olhei para a Norma e disse para ela traduzir a seguinte frase: “Ou tira a mão do meu pau ou eu vou estourar esta garrafa na sua cabeça”. A mão do cara era enorme. Cobria a minha perna inteira. A Norma ficou apavorada e falou com ele. E ele: “Ok, I´m sorry”. Não sei se ele era bicha ou não, mas teve uma recaída. E não estava querendo me comer, não! Queria dar para mim.

PLAYBOY- Você participou de todas as modalidades sexuais?

JECE- Menos homossexualismo. O resto tudo eu topei. Não é que não gostava, eu ia no embalo. Participei de várias surubas, inclusive com o Daniel Filho, o Herval Rossano (diretor de TV), todo mundo junto. Bacanal mesmo.

PLAYBOY- Qual foi o máximo de pessoas que vocês colocaram numa suruba?

JECE- Teve uma vez, na casa do Daniel Filho – os pais dele foram para a Argentina e ele ficou morando sozinho num apartamento grande, no Leblon, em que tinham uns quatro homens e umas oito mulheres.

PLAYBOY- Como foi sua primeira vez?

JECE- Foi uma experiência ótima, com uma prima mais velha. Eu tinha 13 anos. Gostei, mas não quis mais e eu fiquei na pior. Com 14 anos, eu não aguentei, fui na zona e conheci a Amelinha. Tinha idade para ser minha avó. Eu entrava por trás da casa, pulava a cerca e entrava pela janela do quarto. E foi ela que me formou sexualmente.

PLAYBOY- Você foi amante de mulheres casadas?

JECE- Várias vezes.

PLAYBOY- Houve uma que quis transar com você vestido de bicheiro, não?

JECE- Eu estava fazendo o Boca de Ouro (1963) no cinema, filmando com dentadura, prótese de outo, aquela roupa branca, sapato bicolor. Um dia eu estou no estúdio, chega uma grã-fina com uma Mercedes do ano, me chama e fala: “Entra aí”.

PLAYBOY- Era bonita?

JECE- Linda. Ela falou: “Vai lá dentro e volta com toda indumentária do Boca de Ouro”. Ela tinha visto uma reportagem numa revista sobre o filme com uma foto minha caracterizado como Boca de Ouro. Botei a prótese, peguei a roupa, gravata, entrei no carro e fomos embora. Subimos a mata da Tijuca e lá em cima tinha um banco de cimento armado. Ela possuiu o Boca de Ouro. Ela mesma tirou a minha calça e me botou deitado no banco de cimento, uma escuridão tremenda. Daqui a pouco comecei a me coçar, estava cheio de formigas. Eu não senti na hora, naquele entusiasmo. Eu batia assim no peito e saíam cachos de formigas. Eu saí todo empolado. Foi a relação sexual mais difícil que eu tive em minha vida.

PLAYBOY- Quando surgiu a Aids, você teve medo de estar contaminado?

JECE- Ela surgiu mais tarde. Nunca transei com camisinha. Quando eu casava, sempre tinha a casa de uma amante teuda e manteuda e uma garçonnierè para as terceiras, um pequeno apartamento alugado em Copacabana para atender às demandas. Porque naquela época não tinha motel. Mas eram sempre mulheres conhecidas e eu não tinha preocupação. Mas quando surgiu a Aids eu estava mais seletivo. Mas tive sorte. Nunca peguei doença venérea.

PLAYBOY- Você já disse que as mulheres dão com uma facilidade impressionante para cafajestes. Com quantas mulheres você já transou?

JECE- Não tenho ideia, é muita mulher. Eu passei dois anos solteiro e era questão de honra: uma mulher por dia. Era aluguel de apartamento em Ipanema, todo transado. Transado para transar (risos). A mulher entrava lá e tinha que dar. Não tinha jeito. Eu transava e dava o dinheiro do táxi para ela ir embora. E era sempre mulher boa. Porque eu frequentava os lugares e estava com tudo – dinheiro, fama, sucesso. Mulher está sempre sobrando em determinadas circunstâncias.

PLAYBOY- Antes do filme Os Cafajestes havia um grupo chamado “Clube dos Cafajestes”, do qual você fazia parte, além de Carlos Niemeyer (cineasta), Baby Pignatary (playboy) Carlos Imperial (produtor musical). O que vocês faziam?

JECE- Era uma reunião para conversar, contar vantagem, dizer quem comeu quem. Uma vez fomos convidados para participar do Baile do Galo, em Recife. O governador era o Miguel Arraes. Fomos eu, Carlos Niemeyer e Mariozinho de Oliveira, que era outro playboy. E mais um cara casado com a miss Bangu, muito bonita, que viria a ser a mãe do ator Felipe Camargo. Cada um foi com uma mulher bonita.         Éramos oito convidados do governo. Quando chegamos lá, os playboys de Recife ficaram a fim de mulher as mulheres da gente. E elas sabiam que se dessem para eles iam ficar porrada até dizer chega. Mas os caras darem em cima a gente não podia proibir. Enquanto os caras cantavam as nossas mulheres, a gente comia as mulheres deles.

PLAYBOY- Você já transou com alguma feminista?

JECE- Não, elas eram muito feias. Eu dizia: “Vocês são feministas porque têm bigode, usam essas roupas”. Elas babavam de ódio. Eu dizia que mulher comigo tinha direito a três frases: “Pra dentro, criança”, “Sim senhor, meu marido” e “Xô, galinha”. Elas me chamavam de ignorante.

PLAYBOY- Durante o regime militar, você teve uma rápida incursão no comunismo. Por que caiu fora?

JECE- Eu sempre fui capitalista. Mas o Nelson Pereira dos Santos me encheu tanto o saco que eu fui fazer o curso Stálin. Marcaram o dia. Nove horas da noite, no centro do Rio, lugar escuro. Comunismo era proibido. Nove horas eu estou lá com a minha malinha. Aí para o carro e me empurram para dentro. Quando sentei no banco de trás, me vendaram os olhos. O carro começou a rodar. Disseram: “Aqui você não se chama Jece Valadão, aqui você se chama Rogério. Teu nome de guerra”. Rodou. Abriram a porta, me botaram dentro de casa e tiraram a venda. Eu não sabia onde estava. Janelas vendadas. Ficamos 15 dias ali, uma cozinhava, outro lavava. Vinham três professores por dia dar aulas, aquela lavagem cerebral.

PLAYBOY- Qual foi o resultado disso?

JECE- Saí de lá querendo metralhar tudo quanto era capitalista. A primeira coisa que fiz foi ir para a Câmara de Vereadores distribuir prospectos. Fui preso na hora. Fiquei comunista meia hora. Me levaram para a delegacia. Não apareceu um p (*) dum comunista lá para me salvar. O delegado viu que era um inocente útil e nem me fichou. Fiquei preso umas três horas. Tomei ódio por comunista.

PLAYBOY- Você foi acusado pelos comunistas de ser de direita?

JECE- Não, apesar de ser amigo do João Figueiredo (presidente do Brasil de 1979 a 1985). Ele era meu amigo antes da Revolução de 64. Fomos colegas de academia do Gracie, de jiu-jitsu. O Figueiredo era chefe do SNI (Serviço Nacional de Informação), e como eu tinha problemas de censura com meus filmes, ia muito a Brasília. Um dia, eu salto no aeroporto de Brasília e quando estou pegando minha bagagem entra um oficial do Exército e diz: “Você é o Jece? Pois está preso”. Me botaram dentro dum carro, me levaram para o Palácio do Planalto e me jogaram dentro do gabinete do Figueiredo. Ele vem lá de dentro e diz: “Você não vem aqui, então eu mando te prender”. Na ante-sala estavam ministros, deputados, todos esperando para falar com ele. E passamos três horas contando piada.

PLAYBOY- Figueiredo era cafajeste?

JECE- Era sim. Ele participou de várias surubas comigo.

PLAYBOY- Você participou de várias surubas com o presidente Figueiredo?

JECE- Sim. O grau de intimidade entre homens é medido nessa hora, entende? É quando participa de várias coisas junto. Mas foi antes de ele virar presidente da República. Quando ele virou presidente, pensei: estou feito. Mas quem disse que eu conseguia falar com ele? Não deixavam, com ciúmes. Na época do SNI, a censura pensava três vezes antes de cortar um filme meu porque eu era amigo do chefe. Usei muito isso.

PLAYBOY- É verdade que você broxou com a atriz Norma Bengell, uma das mulheres mais desejadas da época?

JECE- Quando eu fui produzir Os Cafajestes, chamei o Ruy Guerra e o Miguel Torres para escrever o filme. E falei: “Quero a Norma Bengell”. O Ruy Guerra não queria, porque ela era uma vedete. Eu disse que preferia tirar o diretor a ficar sem a Norma e ele teve que aceitar.

PLAYBOY- Você queria a atriz Norma Bengell no filme...

JECE- Para comê-la. Mas quebrei a cara. Ela dava para o mundo inteiro, menos para mim. O Ruy Guerra se apaixonou por ela e quebrou a cara também. A Norma tinha horror ao Ruy. Depois de passar o dia filmando naquelas dunas escaldantes, ele chegava ao hotel e não tomava banho, deitava na cama com areia e tudo. Até que um dia eu e a Norma estávamos hospedados numa casa em Jacarepaguá, para fazer outro filme, quando ela me agarrou por trás e disse: “Hoje eu vou dar para você”. O impacto foi tão grande que meu pau encolheu. Quanto mais esforço eu fazia, pior as coisas ficavam. Fiquei desesperado, queria me matar.

PLAYBOY- Ela espalhou a história?

JECE- Espalhou e eu também. O que eu posso fazer? Não consegui. Norma Bengell foi uma das poucas mulheres que trabalharam comigo e com quem não tive um caso.

PLAYBOY- O filme Rio 40 Graus, do qual você participou, enfrentou problemas com a censura. Como vocês resolveram isso?

JECE- Fizemos acordo com o Juscelino Kubitscheck, que estava em campanha presidencial. A gente fazia a campanha e, se ele fosse eleito, liberaria o filme. Meu papel era pegar um bonde e percorrer um trecho de 500 metros, fazendo discurso. Eu dizia que o JK era a solução, que ele tinha maioria no Congresso. Ele foi eleito e cumpriu a promessa. E o JK também era um cafajeste. Sentava, tirava o sapato, coçava o pé. Era um mulherengo.

PLAYBOY- Para fazer Rio 40 Graus, você e o resto da equipe hospedaram-se num apartamento no Rio. Viveram muitas aventuras nessa época?

JECE- Éramos seis pessoas nesse apartamento. A produção tinha uma Kombi velha caindo aos pedaços, uma máquina do cinema mudo, uns refletores velhos. A gente cozinhava e limpava. Fazia uma espécie de rodízio. E eu era assistente de direção, o ator principal da fita e encarregado de sair à noite para arranjar namorada. Ela ia na nossa casa, ficava com pena da gente e fazia macarrão. Porque quem cozinhava era o Nelson, quando não tinha mulher, ou o Hélio Silva, diretor de fotografia, mas os dois cozinhavam muito mal.

PLAYBOY- Com que frequência ia à rua?

JECE- Quando a coisa apertava eu tinha que sair. Tinha uma mulher no apartamento de frente, totalmente louca, e ficava me namorando pela janela. Descobrimos com o porteiro que ele era amante de um dono de supermercado. Ela tinha uma bebê de uns seis meses, filha do dono do armazém. Aí comecei a dar mais bola. Fui lá. A mulher era uma ninfomaníaca. Ela me arranhava. Eu saía de lá e parecia que vinha da guerra. Era sadomasoquista. Eu tinha que bater nela, aquelas loucuras. No dia seguinte, mandava uma cesta básica para a gente, com biscoito, doce, uma maravilha. A equipe não queria outra vida (risos).

PLAYBOY- E quando acabava a ceia?

JECE- Eu tinha que para o sacrifício outra vez. E a mulher se apaixonou de tal maneira que começou a ficar violenta demais. A vizinhança toda sabia do caso, era uma verdadeira tragédia. Eu me escondia de todas as maneiras possíveis. Teve uma vez que eu não queria ir de jeito nenhum e ela pegou a filhinha pela perna, pendurou na janela e disse: “Jece! Se você não vier agora, eu jogo a minha filha lá embaixo”. Estávamos no sétimo andar. Olha a situação. Para salvar a criança eu fui lá. Mas exigi três cestas. Aí o filme ficou pronto e vem a censura e proíbe (risos).

PLAYBOY- Como você, que lidou com tamanha falta de infra-estrutura para fazer cinema, se sentiu na primeira vez que foi ao Projac, o centro de produções da Globo?

JECE- Levei um susto. Você entra na ante-sala e tem uma mesa enorme com todas as bebidas, doces, salgados. E aí entra no estúdio e é aquele negócio maravilhoso, mulheres lindas, de biquíni. É o poder, a bonança. Se você não estiver muito preparado, leva um baque tremendo. Por isso, durante nove anos e meio, Deus não permitiu que eu colocasse o pé no meio artístico. Toda vez que eu marcava para conhecer o Projac, acontecia alguma coisa e eu não podia ir.

PLAYBOY- Por quê?

JECE- Ele estava me preparando, porque se eu conhecesse o Projac e continuasse no meio artístico com o pouco conhecimento da palavra que tinha, eu teria voltado para o mundo. A tentação é muito grande. Até que nove anos e meio depois eu estava orando aqui nessa sala, Deus chegou para mim e falou: “Agora você já pode voltar ao seu meio”. Eu estava sólido na rocha. No dia seguinte a produção de um programa da Globo me telefona para fazer um personagem em Você Decide.

PLAYBOY- Nesses dez anos, qual foi a sua fonte de renda?

JECE- A oferta que o pastor me dava quando eu ia à igreja e o material que eu vendia – CDs e DVDs com o meu testemunho. Era o dinheiro certinho. Uma vez um pastor deixou comigo um cheque pré-datado de 500 reais, para um evento. Quando cheguei lá, encontrei uma igreja paupérrima, na periferia de São Paulo, com pessoas pobres. Pensei: “Puxa, ainda bem que esse pastor me deu o cheque”. Aí o Espírito disse: “Devolve, Jece, porque ele precisa mais do que você”. Devolvi. E já tinha gasto esse dinheiro, para mim era dinheiro que não se acabava mais. Eu estava no osso. Três dias depois veio outra igreja que me deu 3 mil reais. Compensou tudo. Mas era tudo ali, justinho. Um dia eu tive que pedir 20 reais emprestados a um amigo.

PLAYBOY- Você ganhou muito dinheiro na sua carreira?

JECE- Muito. Houve uma época no Rio em que eu tinha uma produtora de cinema e outra de comerciais. Eu fazia todos os comerciais da Caixa Econômica Federal. Ganhei muito dinheiro com cinema. Construí um estúdio que ficou alugado para a Globo durante quatro anos. Mas da mesma maneira que eu ganhava eu gastava. Eu tinha casa em Cabo Frio, casa em Búzios, apartamento no Leblon, em Ipanema, no Quitandinha...Nunca me preocupei com dinheiro, ganhava e gastava.

PLAYBOY- O que aconteceu com todo esse patrimônio?

JECE- Fui separando e dando para a mulher. Foram cinco separações. Quando me separei da Vera Gimenez, era a época do Rock in Rio e não tinha quarto vago em hotel algum da cidade. Saí de casa só com uma mala e o meu carro. Tive que entrar numa boate, Hippopotamus, tirei uma senhora de uns 60 anos para dançar e levei para o motel, só para ter onde dormir. Tomei uns whiskies e tive que comparecer. Era o sonho dela.

PLAYBOY- Fora o dinheiro que você gastava na vida noturna...

JECE- Ás vezes eu estava invocado, chegava a uma boate do Rio de Janeiro e dizia: “Fecha a porta, agora não entra mais ninguém e não sai mais ninguém. É tudo por minha conta”. Aí fazia o que eu queria. Eu nunca liguei para dinheiro.

PLAYBOY- Hoje, qual é a sua situação financeira?

JECE- Eu não tenho situação financeira, não estou rico. Tenho carro, esse apartamento que comprei porque a dona me deu até 2008 para pagar. Pago às prestações dos carros do meu filho e da minha enteada. Eu tenho uma despesa mensal de 10 mil reais – mulher jovem, filhos na faculdade. Tivemos várias dificuldades financeiras. Mas nunca faltou comida na nossa mesa. Nunca faltou o que vestir. Logo que eu me converti, paguei uma viagem para Grécia, Israel e Egito para um grupo de umas 20 pessoas. Gastei tudo que me restava.

PLAYBOY- Antes de se converter, qual sua opinião sobre evangélicos?

JECE- Tinha horror. Crente para mim era aquele que morava longe, se vestia mal, ganhava pouco e era feio. Isso até eu romper com o mundo. Fui corajoso. Rompi com a televisão e o teatro. O cara que tinha uma vida como a minha não larga por qualquer coisa.

PLAYBOY- Você acha que foi perdoado pelo seu passado?

JECE- A partir do momento em que você abre seu coração, tudo o que fez no passado é jogado no lixo. Eu fui preparado para pregar a palavra de Deus no meio artístico. Aí você me pergunta: por que não convenceu o Tarcísio Meira a se converter? O Tony Ramos? Eu falei para eles o que aconteceu comigo. Agora, quem vai convence-los não sou eu. Eu sou apenas um instrumento de Deus.

PLAYBOY- Qual é seu sentimento em relação a tudo que aprontou na vida?

JECE- Não tinha constrangimento, porque vivi intensamente. Eu repudio o que fiz, mas não adianta apagar. Não me arrependo, fiz tudo. Mas não faria novamente.

Publicado originalmente na revista Playboy em janeiro de 2007

segunda-feira, 5 de março de 2018

VSP entrevista: Braz Chediak, parte 2

Braz Chediak trabalhando em uma nova produção
A proximidade com Plínio Marcos, o autor mais proibido do Brasil. As adaptações cinematográficas da obra de Nelson Rodrigues. O trabalho com produtores como Herbert Richers e Carlos Imperial. A convivência com a Boca do Lixo em São Paulo e o Beco da Fome no Rio de Janeiro. A distância do pessoal do Cinema Novo e das pessoas que faziam um cinema comercial. O cineasta Braz Chediak foi privilegiado em testemunhar diversos momentos da vida cultural brasileira das décadas de 1960 e 1980. Ele conta que foi chamado para ser assistente de direção em Terra em Transe de Glauber Rocha. Mas não aceitou. Chediak também lembra de certos momentos com uma espécie de desgosto. “Comecei essa produção sem roteiro, sem planejamento”.

Nessa segunda parte ele comenta os longas-metragens que dirigiu: lembra as dificuldades de alguns trabalhos e os motivos que o leva a considerar Navalha na Carne seu melhor filme. “Tivemos uma série de inovações, trabalhei com um fotógrafo fantástico que era o Hélio Silva. Os atores eram muito bons”. O realizador também analisa o atual momento do cinema brasileiro e diz que não espera voltar a trabalhar na área. “Quando eu deixei o cinema eu deixei por um motivo. Porque antes existiam estúdios e eu era o diretor”. Ele termina dizendo que não se considera um agente cultural injustiçado.

Mas você não foi íntimo do Lívio Bruni?

Não. Ele gostava muito do Navalha na Carne que eu dirigi, por isso tivemos uma boa relação. O (Leonel) Brizola (governador do Rio de Janeiro) deu a ele uma comenda, comendador Lívio Bruni. Ele, ás vezes, ia á Fiorentina, onde conversávamos...Morava no Copacabana Palace.

Como o Mário Reis...

Mário Reis também morava lá.

Jorginho Guinle que você citou antes...

Esse era um dos donos (risos).

O senhor falou um pouco desse pessoal antigo...o Lima Barreto. O Cangaceiro foi um filme importante na sua formação do senhor?

Sim.

E o senhor encontrou ele já em estado de penúria...

Foi. Conheci o Lima na Boca do Lixo. Fiquei muito chateado quando ele procurou a Embrafilme para fazer um longa-metragem em esperanto. Eu nunca trabalhei com a Embrafilme, nunca fui financiado por órgão nenhum do governo. Por princípio mesmo...E eles estavam tipo assim ridicularizando o Lima Barreto. Ridicularizando e enfim...O Lima era um homem de muito talento, O Cangaceiro foi importantíssimo para o cinema brasileiro. A Rachel de Queiroz falava muito bem do Lima, gostava muito dele. Mas tentaram acabar com ele, assim como O Limite do Mário Peixoto. O próprio Glauber escreveu um artigo, não sei se você chegou a ler, falando do “mito Limite”. Não, não é mito.

Eles achavam que o Limite não existia? Não tinha esse papo?

Sim. Mas sabiam que existia, não sei o Glauber que era intelectualmente muito honesto. O Lima Barreto...Muitos cineastas não o perdoaram pelo filme ter feito o sucesso que fez. Falavam que o Lima Barreto foi influenciado pelo cinema japonês. Mas o Glauber também foi e Deus e o Diabo é uma obra-prima.

Sim. Pelo faroeste, John Ford...

Sim. Então, o João Ubaldo (Ribeiro, escritor) dizia...Mas não sei se é verdade porque escritor tem imaginação muito generosa (risos). O João Ubaldo dizia que quando foi visitar o Glauber no hospital, ele já quase morrendo. O Glauber falou para ele: “Cinema é John Ford”. Até pensei em perguntar isso pro João Ubaldo mas ele morreu também (risos).

Já que estamos falando do pessoal do Cinema Novo. E o David Neves? O senhor teve alguma aproximação com ele?

Achava ele muito simpático, um cara bastante legal...Não cheguei a ver os filmes dele. Mas como pessoa era um cara bom. O Leon (Hirzman) era muito bom também.

O senhor falou um pouco desse pessoal do Cinema Novo. E essa história em que você quase foi assistente do Terra em Transe?

O Glauber (Rocha) me chamou. Mas na época eu já trabalhava em estúdio e trabalhar num filme dele não me ajudaria porque o filme é o Glauber, entendeu? Eu tinha mais autonomia trabalhando em estúdio com diretores com os quais eu poderia perguntar: “Por quê você colocou essa lente? Por quê você fez isso?”. Eles explicavam e o Glauber era diferente nesse sentido. A mente do Glauber era de uma rapidez, uma inteligência fora do comum. Seria interessante até como experiência. Mas eu achava que aprenderia mais trabalhando com um diretor mais didático.

Acadêmico vamos dizer...

Isto, acadêmico. Vou te contar uma história do Mário de Andrade. Um dia um jovem levou pra ele umas poesias revolucionárias, o Mário de Andrade leu e falou: “Muito bom, agora trás um soneto para eu ver”. O cara assustou-se: “Mas o senhor é um demolidor de sonetos. O senhor esteve na Semana de Arte Moderna. O senhor me pede um soneto, uma coisa acadêmica?”. “Sim. Pra você destruir uma poesia clássica, primeiro você tem que saber fazê-la. Então, trás um soneto pra eu ver se você sabe e depois você destrói”. Então, eu pensava isso de alguma maneira. O Glauber era maravilhoso, mas como amigo e cineasta, gostava de ver os filmes dele. Terra em Transe é um belo filme, Deus e o Diabo é um belo trabalho.

Gosta de Barravento?

O Barravento eu não vi. Aliás, eu vi o Barravento, mas não me recordo porque na época...Apesar de ser o Glauber e o (Luiz) Paulino que dirigiram, o Nelson Pereira (dos Santos) que montou. Eu me recordo de cenas esparsas, como um todo não me cativou não.

O senhor não gosta dos outros filmes?

O Dragão da Maldade já não acho que seja grande coisa...Cabeças Cortadas  me cansou, não vi todo. Mas o Glauber tinha coisas... Eu passei por ele uma noite no Leblon, quando voltava para casa. Pensei: “Vou parar o carro e vou ver se ele quer alguma carona”. Estava com uma amiga do meu lado e o Glauber estava discursando sozinho na frente do Cine Leblon. Aí eu nem parei: “Sei lá o que está acontecendo. Não vai dar certo”.

Depois o senhor se aproxima do Jece (Valadão, produtor). Isso foi uma coisa que te prejudicou com esse pessoal mais engajado?

Não. Na realidade eu era um garoto do interior, nasci em Três Corações. Meu pai era operário, sete filhos. Então, eu era um menino muito pobre. Pra você ter ideia eu não fui criado só pelo meu pai e pela minha mãe. Fui criado por várias pessoas: morei na casa do meu avô, depois fui pro Rio, criança ainda, morando na casa de um tio. Depois fui pra Três Pontas. Quando tinha quinze anos voltei pra Três Corações e aí morei com os meus pais. E eu não tinha dinheiro, não tinha nada. Então, eu não seria nunca aceito nessa turma do (colégio) Santo Inácio porque eram todos de posse, muito ricos. Basta dizer que o bar deles era o Antonio´s, você nunca viu ninguém do Cinema Novo na Fiorentina, que era um restaurante mais popular.

O Antonio´s era mais elitizado?

Sim. Tanto que o Nelson Rodrigues citava muito: “A esquerda do Antonio´s”. O Antonio´s era da esquerda festiva. Eles frequentavam lá, era outra coisa. Eram turmas opostas. Como os personagens do Bonde Chamado Desejo. Então, eram mundos opostos.

O Saraceni também?

Nunca tive muita intimidade com ele não. Nunca fui íntimo do Saraceni.

O senhor acha que eles tinham preconceito?

Alguns. Outros eram legais como o Leon (Hirzoman), o David Neves, o Nelson Pereira (dos Santos)...Mas para os preconceituosos eu dizia, de cara, que eles tinham uma cultura de axilas, pois andavam sempre com um livro embaixo do braço. Até na praia. Faziam tipo. Então, eu levava na gozação e eles ficavam com raiva. Sinceramente, eu não levava a sério essas coisas.

Mas eu não sabia dessa divisão do Antonio´s com a Fiorentina. Achei que todo mundo do cinema frequentava.

Sim. Mas o Nelson Rodrigues cita o Antonio´s. A Fiorentina não passa na pena do Nelson. Naquela época, o Rio tinha três bares: os atores frequentavam o Gôndola, na Sá Ferreira; diretores de cinema de estúdio e atores mais descompromissados iam à Fiorentina;  Cinema Novo e música iam Antonio´s. Tem uma célebre cena do Manolo, o dono do Antonio´s. Ele colocava as fotos dos fregueses ilustres na parede. Um dia pôs uma foto do Chico Buarque. No outro, uma foto do Boni e o Chico ficou chateado, mandou que ele tirasse...Deu um rolo... Hoje são amigos. Mas naquele tempo existia uma divisão forte.

Você chegou a conhecer o Rogério Sganzerla?

Conheci muito o Sganzerla. Éramos colegas. Gosto...  O Bandido da Luz Vermelha, revi há poucos dias, é uma obra-prima.

Mas e os filmes posteriores?

Não sei. Pelo seguinte: é muito difícil para o cineasta. Até pensei uma vez que era defeito meu, falei: “Caramba. É um problema meu. Não estou vendo muitos filmes”. Aí vi uma entrevista do Fellini. Ele dizia a mesma coisa, que ele não via filmes. Depois vi uma do Ruy Guerra dizendo: “Faz muito tempo que não vou ao cinema”. Lembrei do Aurélio (Teixeira)...E compreendi. É o mesmo que você trabalhar num banco e na hora de folga você ir ao banco. Então, eu ia ver poucos filmes, dos caras que eu gostava. Por exemplo: Kurosawa, Fellini. Já de alguns diretores tidos como cult como Alan Resnais e Antonioni eu achava muito cansativos.



Detalhes da fantástica biblioteca de Braz Chediak
Vamos dizer assim...O senhor não era um grande cinéfilo?

Não. Fui cinéfilo dos meus catorze aos vinte anos. Nessa época eu assistia todos os dias um filme. Sábado e domingo assistia dois. Então, via tudo. Depois eu passei a dar mais importância a rever. Isso eu acho melhor. Como eu estava te dizendo: eu não assistia todos esses filmes. Fui ver O Bandido da Luz Vermelha do Sganzerla e achei ótimo, fantástico. O Sganzerla...Gostava dele, uma pessoa, um cara legal. Tem um fato até bastante interessante. Eu estava fazendo um filme, montando, eu gostava muito de montar até como treinamento. Pedia para montar trailer. Ninguém gostava de montar trailer. Aí eu chegava pro cara: “Está montando? Deixa eu montar pra você?”. Eu montava bem. Gostava de fazer esse tipo de coisa. Então, eu estava na sala do Herbert (Richers, produtor) e chegou o Sganzerla: “Caramba, o meu filme não deu metragem. Você não tem alguma cena do seu filme sobrando?”. Falei: “Sganzerla estou com uns trechos de um documentário”. “Dá pra eu ver?”. “Dá. Pega a moviola lá e vê lá”. Ele olhou: “Esse pedaço aqui você dá pra eu colocar no meu filme”. “Leva”. Então, ele fazia aqueles filmes dele. E ficavam geniais. Mas eu não acompanhava. Não assisti tudo. O Glauber vi os dois...Não. Primeiro vi Barravento que eu não me recordo e depois vi Deus e o Diabo. Eu já tinha lido o roteiro três vezes quando o título era Deus e o Diabo Na Terra fdo Arame Farpado. Vi Terra em Transe, O Dragão da Maldade. Aí o outro O Cabeças Cortadas.

Do Sganzerla o senhor só viu esse então?

Só.

Os filmes posteriores da Belair. O senhor não chegou a ver?

Não.

Ele trabalhando junto com o Bressane...

Desse não vi os filmes. Na realidade eu era amigo de todo mundo, não tive inimizades no cinema. Nunca fui de cultivar inimigos. Agora até pra preservar certas amizades é bom não ver o filme.  Entendeu? Senão...você vai fazer uma análise. O cara te pergunta: “Você viu o meu filme? O que você achou?”. Eu acho muito indelicado (rindo). Nunca perguntei pra ninguém: “O que você achou?”. Até porque eu sou muito crítico inclusive com os meus filmes. Meu filho me disse outro dia: “Pai: teu filme passou no CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil)”. Ele estava no Rio e acabou vendo: “Aí eu fui ver”. Eu disse pra ele: “Por quê você foi ver? Esse filme é uma porcaria caramba”. Era o Banana Mecânica.  Ele me disse: “Deixa de rigidez, vi o filme e o pessoal ri pra caramba. É uma comédia maravilhosa”. Elogiou e eu falei: “Pô que mau gosto. É ruim”. Ele falou: “Não pai. Reveja”. “Não. Não vou rever nada”. Interessante...Há uns dois, três meses  me ligaram de Boston. Passaram meus filmes lá, creio que numa universidade. Uma coisa de cinema. E o sujeito lá me convidou. Deve ser um diretor de cinemateca, não sei. Ele me convidou para dar uma palestra sobre os meus filmes. Eu tinha até marcado com o cara: “Vou, mas tem um problema. Eu não falo inglês”. Ele falou: “Não tem problema. Nós temos tradução instantânea”. Aí um dos caras de Boston...esqueci o nome dele. Ele me falou: “Assisti um filme seu: o Banana Mecânica. Cara que loucura. O senhor não toparia escrever isso adaptado pra Hollywood? O senhor ficaria aqui em Boston e nós adaptaríamos pra Hollywood?”. Eu falei: “Não. Não quero não” (risos). Ainda bem que eu não fui dar a palestra. Não fui. Além de ser muito cansativo, uma viagem muito longa.

Acho que tem até Belo Horizonte...

Não. Eu teria de ir até São Paulo. Mas de São Paulo até Boston são doze horas de avião. E depois de sessenta anos, eu tenho 76, você não deve ficar muito tempo sentado...Mais do que oito horas. Pode te dar um negócio chamado trombose.

É o que aquele ator da Globo teve o Marcos Paulo...

Foi?

Sim. Ele foi pra Manaus participar de um festival, ficou muito tempo sentado e acabou morrendo.

Pois é. Aí eu pensei bem...Grande Othelo, tanta gente que eu vi morrer em viagem assim que falei: “Não”. Se fosse pra ficar um tempo, fazer algo mais interessante. Mas ir até lá, dar uma palestra, ficar três dias e voltar? É muito cansativo, não dá.

E o senhor gosta do Banana Mecânica?

Não. Não gosto.

O senhor sabe que é cult hoje? Aquele trecho do Imperial com o (Pedrinho) Aguinaga...

Pedrinho Aguinaga? Pois é, engraçado isso. O público ri muito.

Carlos Imperial em cena de Banana Mecânica de Braz Chediak

O filme foi chamado de pornochanchada?

É um negócio interessante que até o nome pornochanchada veio de um movimento...Dos críticos brasileiros daquela época. Hoje mudou, hoje é uma juventude com outro pensamento. Mas na minha época eles eram contra o cinema nacional. Muitos críticos batiam nos filmes brasileiros que davam bilheteria: “Esse é comercial”. Isso é uma maneira que Hollywood encontrou para destruir o quinto maior mercado do mundo que é o Brasil. Eu dei uma entrevista falando isso e citei o Harry Stone: “É um absurdo ter um embaixador de Hollywood no Brasil como se nós fossemos uma república bananeira em que o presidente da República negocia com um representante de Hollywood”. Me lembro que a Censura proibiu um filme americano: Calígula. Exigiu cortes. Eu sou contra a Censura: não tem que proibir nada. No dia seguinte o Ronald Reagan e o Harry Stone tiraram uma fotografia que foi publicada na primeira página de todos os jornais. Aí a Censura liberou o filme. Isso é uma ameaça. Fiz uma declaração dura. Então, a crítica inteira ficou contra mim (rindo).

Como o senhor avalia a crítica aos seus filmes? Teve muita coisa positiva?

Não. Eu acho que não foi legal. Sempre sofri uma espécie de preconceito. Mesmo o Navalha na Carne que foi o que teve a melhor crítica...Teve um crítico chamado José Lino Gruenwald que fez uma excelente crítica. Mas teve uma crítica dizendo que o silêncio no filme enfraquecia o texto. Isto, antes do New York Times dizer que “são trinta minutos de profundo e belo silêncio”. Enfim...vários disseram que eu enfraqueci a peça. Meu Deus, ontem eu vi aqui na Internet uma entrevista do Plínio Marcos. Começa com o apresentador perguntando: “Como você vem sendo tratado pelo cinema nacional?”. Aí ele cita: “Poxa, não tenho do que reclamar. O Braz Chediak”. Ele fala meu nome completo: “O Braz Chediak fez um trabalho do caralho com o Navalha na Carne. O que aqueles atores fazem é um milagre”. Sabe? Ele rasga elogios e fala a mesma coisa do Dois Perdidos: “Eu me sinto honrado dele ter feito esse filme”. Isso o Plínio falando...Aí de outros filmes ele está contra, fala mal das adaptações.

Dos produtores qual foi o melhor com quem o senhor trabalhou? E qual foi o pior?

Olha...O melhor produtor foi o Herbert Richers. E foi um dos meus piores trabalhos, mas não por causa dele. Como eu tinha falado antes: o Herbert era excelente produtor, mas ele tinha um pequeno defeito: trabalhava com datas e cometi um erro. Fiz o filme sem roteiro. E sem roteiro você não vai a lugar nenhum, você não tem rota. Eu lembro que chamei o (ator) Nelson Xavier para ser meu assistente.  Ele chegava para mim: “Chediak, amanhã o que é que a gente filma?”. “Não sei. Vamos escrever uma cena”. Escrevia uma cena ali, na hora. Então, não pode dar boa coisa. Você não pode fazer isso: o roteiro é a base de um bom produto final. Você tendo um roteiro já tem 50% de chance de fazer um bom filme. E eu comecei essa produção sem roteiro. Foi o único filme em que eu não escolhi atores, não fui eu. Deixei o Herbert escolher: “Chediak: qual é o elenco?”. “Você que sabe”.

Foi no O Grande Desbum?

Não. Foi o Confissões do Frei Abóbora.

E você fez sem roteiro...

Fiz sem roteiro, o Herbert...

Mas é baseado num romance...

Zé Mauro (Vasconcelos, escritor).

Sim.

Mas o romance do Zé Mauro...Eu o piorei. Na realidade eu estava precisando de grana. Minha mulher estava grávida. E aí o Herbert (Richers, produtor) me chamou, eu fui, quando li o livro e falei: “Caramba. Eu não vou fazer bem”. Eu já tinha feito Meu Pé de Laranja Lima. Gostava muito do Zé Mauro, uma pessoa doce, um homem delicado, simples. Pensei: “Vou estragar o livro dele. Não é meu gênero”. Nessa época, eu morava na (rua) Nascimento e Silva, era o ponto mais chique do Rio de Janeiro. Eu morava na Nascimento e Silva, 102, num apartamento de cobertura. Mulher grávida e eu duro. Falei: “Deus do céu. O que é que eu vou fazer?”. Quando eu saí de manhã pra ir ao estúdio, estava uma placa assim: “Apartamentos. Vende-se”. Fui lá e perguntei o preço: “Dois quartos, sala, dois banheiros, dependência de empregada”. Aí eles falaram: “É tanto!”. Não me recordo quanto era, não tinha noção de dinheiro. Aí fui pro estúdio. O Herbert: “Pensou Chediak?”. “Pensei”. “E aí?”. “O problema agora é grana”. “Quanto você quer?”. “Tanto!”.

Era o valor...

Do apartamento. Ele falou: “Está OK. Passa lá na secretária e fala pra ela fazer o contrato”. Poxa...Eu não queria fazer (o filme), queria que ele risse da minha cara.

Entendi. Você achou que ele ia...

Rir na minha cara. Aí eu falei: “Meu Deus e agora?”. Fiquei confuso: “Meu Deus do céu. Estou liquidado. Mas não vou voltar atrás, dei minha palavra”.  E filmei sem roteiro, sem planejamento...

O senhor não ligou muito pro filme?

Não. Nem um pouco.

O senhor se arrepende um pouco de algumas atitudes?

Não arrependo. Foi uma experiência...Mas eu poderia ter feito um trabalho bom.

O senhor acha que poderia ter feito um trabalho melhor?

Poderia. Se eu chegasse pro produtor, dissesse: “Herbert eu tenho que fazer um roteiro. Vamos começar daqui a seis meses não agora”.

E foi bem de bilheteria esse filme?

Olha, não fracassou mas não foi um sucesso...

Mas se pagou?

Se pagou. Tinha um elenco bom, Norma Bengell, Tarcísio Meira...Grandes atores.

E ele era um cara tranquilo de trabalhar? Um cara legal?

Era, era. Eu nunca peguei ator complicado.

E qual foi o pior produtor com quem o senhor trabalhou?

Eu mesmo (risos).

No Desbum isso?

Todos os filmes que eu produzi. No Brasil, o diretor não deve produzir. Entendeu? Porque você fica pensando na direção e ao mesmo tempo tem que arrumar grana, se preocupar com a produção. Não fui bem quando tentei abraçar as duas coisas.

Como era aquele ambiente do Beco da Fome? Sempre produzindo?

O Beco da Fome era na Cinelândia. Porque tinha vários becos...Tinha o Beco da Fome na Prado Júnior, frequentado por prostitutas e onde os artistas comiam de madrugada, por ser barato e não fechar. Na realidade, a Cinelândia não era um lugar de produção. Sobreviveu até quando se formou o sindicato. O pessoal desempregado fica ali e aí chegava algum empresário: “Preciso de um trapezista, três anões, um cantor de bolero”. Alguns levantavam e iam fazer seus trabalhos. Dava problema porque o cara estava desempregado. Dava problema porque muitas vezes o cara dizia que era trapezista e não era (risos). Tinha dado umas piruetas e achava que era. Nisso, caia...Dava muito problema. Quando o sindicato se tornou mais forte o Beco da Fome acabou. Na realidade, o Beco da Fome que era perto do Hotel Serrador...

Na Álvaro Alvim.

Na Álvaro Alvim. Era chamado também de Beco dos Aflitos. Era um negócio de desempregados. O cinema não acontecia ali. Pertinho, na rua Senador Dantas tinha o escritório do Jarbas (Barbosa, produtor). Do lado de cá tinha o edifício onde ficava o escritório da Atlântida do (Luiz) Severiano (Ribeiro). Eram os escritórios, mas não os estúdios. O povo que ia muito lá não era de cinema. De cinema quem ia muito lá era o Wilson Grey...

Um pessoal antigo?

Sim, mas ia mais gente de circo e de música. Interessante, na minha época aqui no interior o chique era ir ao clube de terno e gravata e tinha uma orquestra chamada Cassino de Sevilha. O Paulo Thiago escreveu um livro chamado Cassino de Sevilha, muito bom. Talvez a infância dele tenha se passado numa cidade como a minha. Pelo menos aqui em Três Corações era chique e o pessoal ia. Eu não frequentava, não fazia o meu gênero esse negócio de baile social. Então, quando cheguei lá para fazer parte daquele universo é que eu vi que o Cassino de Sevilha não era uma orquestra única. Era uma espécie de grife. O cara chegava lá no Beco dos Aflitos: “Atenção. Apresentação do Cassino de Sevilha lá em Pernambuco. Precisamos de um trompetista, um baterista e um cantor com sotaque espanhol”. As pessoas se apresentavam. Ensaiavam e faziam, faziam bem, tinha experiência. Então, eram várias orquestras formadas por grupos, como ainda hoje existe...

E nem era tudo isso...

Eram músicos de qualidade, muito bons, que ganhavam um cachê honestamente, mas não era fixos.

Mas e a Boca do Lixo. O senhor chegou a frequentar?

Fui poucas vezes na rua do Triunfo. Poucas vezes...Me lembro que fui no escritório do (Antônio Polo) Galante (produtor). Eu não saia muito, não sabia andar em São Paulo. Fui ao Massaini, tomei muito uísque com o Massaini E muito chope no bar do Léo.

Mas uma vez e outra...

Sim. Não foi uma constante, eu morava no Rio. Só ia quando lançava um filme em São Paulo.

O senhor achava ali um polo importante de produção?

Claro. Acho que foi importante e ainda continua sendo dentro do cinema brasileiro. Porque é uma coisa interessante...É como o Glauber Rocha disse numa entrevista: “Nós não temos que pensar só nos artistas. Nós temos que pensar como se fosse uma frente de batalha contra o cinema americano”. Aí ele falava bem pra caramba e eu achava isso. Achava que eram pessoas que estavam batalhando, gente de muito talento. Obviamente que tinham produções estritamente pornográficas. Depois nós fomos ver quem combatia os filmes pornográficos...Com o advento do DVD passou a locar os filmes pornôs.

As pessoas que combatiam?

Sim. Eram os puristas, eles iam ver na casa deles, com distintas esposas. Está entendendo?

O senhor trabalhou com o Carlos Imperial somente no Banana Mecânica?

Foi no Banana. Ele como ator e produtor.

Como vocês se conheceram?

Todo mundo conhecia o Imperial. Ele que me chamou para dirigir. Eu tinha feito um filme que ele gostou muito e me convidou para dirigir. A princípio eu não queria, achava o Imperial meio exótico (risos). Mas era um homem inteligente, tinha uma visão danada do sucesso. Aquele negócio da Viúva Virgem...Foi ele que fez o lançamento. Foi um grande sucesso. Colocou nos jornais um anúncio: “Viúva jovem procura”. E não falou nada, ninguém sabia de nada. O Drummond escreveu uma crônica sobre isso. Nosso querido poeta, Carlos Drummond de Andrade...

O Imperial era muito divertido. Ele tinha um escritório na (rua) Sá Ferreira. Morei em dois endereços na Sá Ferreira por isso eu sempre cito essa vizinhança toda: o Hélio Block, Jorge Dória, Fernando Pereira, Jesus, Sindoval, Luiz Rosemberg, éramos todos jovens que sonhávamos em fazer cinema. Mas estou me afastando do assunto... O escritório do Imperial ficava na Sá Ferreira, 44. Ele morava ali também. No quarto dele, mandou pintar as paredes de preto, pregar um compensado na janela também pintado de preto.  Era pra não entrar a claridade porque ele dormia até meio-dia com o ar refrigerado (risos). E ali era o estúdio também. Ele tinha uma página na Última Hora chamada na Corte do Imperial e tinha foto das lebres do Imperial. Me lembro que a primeira vez que eu fui lá estava a Regina Duarte lá que era a namoradinha do Brasil e o Francisco Cuoco jovenzinho tirando fotos para uma revista. O Imperial fazia uma página do jornal que vendia muito. Naquela época ainda pertencia ao (jornalista) Samuel Wainer. Ele me chamou e relutei um pouco, pensando que ele ia interferir.  Mas como era profissional e não vivia de outra coisa que não fosse arte, cinema especificamente, acabei topando. Topei fazer mas também foi um filme que teve um pecado no roteiro.

O roteiro era ruim?

Não existia. Íamos escrevendo enquanto filmávamos.

Mas o Imperial deu um argumento para o senhor?

Não. Ele falou: “Eu quero fazer um personagem assim, assim”. Tudo bem. “Então vamos lá”. Nos cercamos de gente bonita no elenco: Rose de Primo, Kate Lyra...

Já era esposa do Carlinhos Lyra?

Sim. Daí o sobrenome Lyra. Ela era americana. Kate Lyra. Enfim...

Pedrinho Aguinaga...

Pedrinho Aguinaga. Na época ele fazia propaganda de um cigarro chamado Charm, era considerado “o homem mais bonito do Brasil”. Então, até mesmo os papéis pequenos...Tinha um personagem menor chamei a Nélia Paula que tinha sido vedete. Zezé Motta que foi indicada pelo Nelson Xavier, ótima atriz, mas acabou ficando com um papel menor.

Sim. O filme era centrado no Imperial tirando sarro.

Pois é. Fizemos e o filme foi um sucesso. Interessante...

Mas o título veio do senhor ou dele?

Dele. Ia ser lançado ou foi lançado o Laranja Mecânica. Aí ele aproveitou o embalo da publicidade. Ele tinha essa coisa de visualizar o sucesso. Hoje seria um grande nome no Marketing.

E você chegou a conviver com o Imperial? Tem alguma história com ele?

Sim. Éramos pessoas bem diferentes. Ele era muito amplo, generoso com tudo e eu era uma pessoa mais na minha. O Imperial era muito engraçado. Por exemplo...Um dia ele me liga de manhã: “Chediak preciso falar com você urgente”. “O que é Imperial?”. “Não, dá um pulo aqui em casa”. Ele dizia que morava na Barra (da Tijuca, bairro do Rio). Pensei: “Poxa vou lá. Ele pode não estar bem”. Cheguei e começamos a conversar. Horas conversando. Lá pelas tantas eu disse: “Imperial até agora você não disse qual o motivo de eu ter sido chamado. Já estamos aqui há três horas”. “Chediak, é o seguinte: eu gosto de chamar determinadas pessoas para desenvolver minha inteligência” (risos). “Pô, você me chamou pra conversar?”. Poxa, ele tinha umas tiradas, era muito engraçado. Na hora do almoço, queixou-se: “Estou num regime alimentar”. Realmente, ele havia engordado...E tinha permutas com os restaurantes porque fazia uma página inteira num jornal muito vendido. Isso fazia ele começar as crônicas assim: “Estava almoçando no restaurante tal”. Tinha um restaurante na Barra muito bom chamado Tarantela. Aí ele me convidou para ir com ele a Tarantela, eu e a filha dele, a Maria Luiza. A Maria Luiza era júri do Flávio Cavalcanti.  Chegamos ao restaurante e o Imperial: “Chediak vou te dar uma sugestão você pede esse prato aqui”. Para filha a mesma coisa: “Luiza vou te dar uma sugestão, você pede esse outro...”. “Eu, como estou de regime, vou pedir uma salada de palmito e uma Coca-Cola”. Ele não bebia, não fumava, mas tomava litros de Coca-Cola. Enquanto esperava, eu tomei um chope. No segundo, ele olhou para mim: “Chediak você está bebendo muito”. “Mas eu não estou de regime, cara”. Vieram os pratos. O que ele me indicou era uma bandeja enorme. Ele falou: “Pô, invejo vocês. Eu estou de regime. Só vou fazer uma boquinha...”. Pegou metade do meu e metade da Maria Luiza (risos). E comeu quase tudo (risos). Eu falei: “Imperial, você tem certeza que está de regime?”. “Estou falando para você. Não posso comer”. O Imperial cativava, era uma figura. Agora, veja só: foi ele quem lançou o Roberto Carlos e muita gente boa da música brasileira.

E ele pagou o senhor certinho na produtora dele?

Tudo. Absolutamente honesto.

Ele gostava de ser polêmico? Inventar coisas...

Ele fazia tudo estudado. O pai dele era banqueiro. A mãe dele era uma senhora com uma distinção imensa. O pai tinha uma educação...Todo mundo educadíssimo. Depois morreu a tia e deixou uma herança fantástica para ele. Ele fazia isso...Inscreveu-se no desfile do Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Cada um com uma fantasia (risos). O Clóvis Bornay, que era outra figura fantástica, o Evandro...Aquelas peças de desfile, o pavão não sei das quantas a cascata de estrelas. O cara anunciava: “Clóvis Bornay no pavão de esmeraldas”. O Imperial candidatou-se e a fantasia dele chamava-se “libélula deslumbrada”. No desfile...Ele entra de fralda com uma asa de borboleta e desmunhecando (risos). Pô...Metade do povo vaiando, outra metade gritando. Tiraram ele...

Mas ele queria isso mesmo...

É...Foi uma gritaria. Tiraram ele do desfile. Aí ele queria processar, tudo para chamar a atenção: “Vou processar o Teatro Municipal. Desrespeitaram minha fantasia de libélula” (risos). Publicaram as fotos em todos os jornais. Ele era inteligente, genial. Um anarquista.

Pegava mau no meio intelectual o senhor ter uma aproximação com ele? Ter trabalhado com o Carlos Imperial?

Na realidade eu não ligava. Porque quando descobri que aquilo era um mito... Era o showbizz. O vale tudo. Na frente das câmeras, na imprensa, o pessoal falava, brigava. Na intimidade todo mundo tomava um uísque junto.

Emiliano Queiroz, Jece Valadão e Glauce Rocha em Navalha na Carne de Braz Chediak
Dos seus filmes como diretor. Qual o senhor prefere?

Acho que o Navalha. Há pouco tempo vi uma reportagem na Internet dizendo que o Navalha na Carne foi quem inventou o steady-cam. Porque não tem cortes, é o tempo todo aquele tipo de luz que foi usado pelos alemães no tempo do Murnau. A gente veio e adaptou aquilo para a América Latina. Depois, o Scorsese usou esse tipo de iluminação nos filmes dele também, a iluminação refletida. Tivemos uma série de inovações, trabalhei com um fotógrafo fantástico que era o Hélio Silva. Os atores eram muito bons...

Os três...

A Glauce (Rocha), o Jece (Valadão), o Emiliano (Queiroz) e o Ricardo que faz o menino do bar. Ele foi morto ou suicidou-se. Ou suicidaram ele em seguida.

A Glauce era excelente atriz, mas não era uma musa como a Leila Diniz. Foi por isso que o senhor escolheu ela?

Ela não era uma musa. A Glauce era como a Jeanne Moreau. Ela tinha um charme, uma força. Assim como as mulheres gregas. As gregas não são assim tão bonitas. Você já notou isso?

Não.

Elas não são. Agora, de repente você olha assim e ela se torna muito bonita porque ela era muito forte. Se você pensar bem a Glauce se parece com o Jean-Paul Belmondo, ela mesmo dizia isso. Mas ela não era feia. Ela não tinha uma beleza comum. Mas era uma mulher maravilhosa e uma atriz incrível. Vi Electra com ela, que coisa fantástica. A Glauce era genial.

Como foi o convívio com o Plínio (Marcos, dramaturgo)? Vocês se deram bem?

Sim. Nos demos muito bem. Quando ia a São Paulo sempre almoçava na casa dele. Ele era casado com a Walderez (de Barros, atriz). Sempre ia lá... Quando ele vinha ao Rio a primeira coisa que fazia era me telefonar. Ia para casa...

Vocês tinham mais ou menos a mesma idade?

Sim. Até fisicamente a gente era parecido. Me dei muito bem com ele. Aliás, ele até queria que eu dirigisse Abajur Lilás, mas eu falei: “Plínio eles vão prender nós dois”. Ele chegou até a sugerir um elenco: “Chediak você coloca o Ziembinski para fazer a velha dona do bordel”. O Ziembinski fazia um personagem na televisão que era uma velha numa novela chamada O Rebu. “Põe ele pra dona do bordel”. O Ziembinski era genial: ator maravilhoso, diretor maravilhoso. Eu falei: “O problema não é esse. O problema é que a peça está proibida e vai dar errado”. O que era a peça? Uma sessão de tortura de uma mulher que roubou um abajur. “Eles vão ligar a tortura militar, pô. Vai dar problema e eu já estou com problema. Você já é um problema”.

Sim. Ele era o autor mais visado, mais censurado.

Sim, muito censurado. Eu disse: “A Censura já me chamou a Brasília. Não vamos nos enrascar mais. Caramba. Não vamos fugir da raia, mas não vamos provocar”. Mas foi uma relação boa. Eu sempre tive uma relação boa com o Plínio. Com o Nelson (Rodrigues) também. Foi uma relação maravilhosa.

Mas acho que o Nelson foi mais intensa porque vocês tiveram uma relação mais intensa.

Eu convivi com a família toda. Fui muito próximo do Nelsinho (Rodrigues), do Joffre (Rodrigues). Quando eu fui pra Itália estudar o Joffre foi lá pra Roma: “Vamos alugar um apartamento”. “Não dá Joffre, não tenho grana!”. Dona Elza, a esposa do Nelson...Uma pessoa maravilhosa. Ela se preocupava muito comigo, se eu estava me alimentando direito. Sabe essas coisas de mãe? Nessa época que eu conheci, eu era rapazinho e o Joffre também. Eles moravam na rua Agostinho Menezes na Tijuca. Dona Elza fazia uma salada de feijão fradinho deliciosa. Eu ia lá para comer. Domingo não abria o restaurante Calabouço, eu ia comer lá e a dona Elza me fez uma proposta incrível: “Chediak você vai estudar Direito”. “Mas dona Elza eu não vou estudar Direito”. “Não. Você vai. Porque você indo o Joffre vai”. “Mas eu não tenho como pagar uma faculdade”. Eu tinha passado no vestibular e bem...Tinha passado na Cândido Mendes. “Você faz o seguinte: eu vou pagar a sua faculdade. Você come aqui em casa e eu te dou uma mesada. Você vai estudar pro Joffre estudar” (risos). “Dona Elza: a senhora vai me desculpar. O Joffre estuda sozinho”. O Nelsinho usava calça curta. E eu ia lá visitar o Nelson na redação do Correio da Manhã.  Muitas vezes ele tomava doze, doze comprimidos de Melhoral.

Ele tomava doze comprimidos de uma vez?

Doze de uma vez. Ele abria a boca e ficava com eles lá na garganta e depois os engolia com uma xícara de café. Por isso ele tinha úlcera. A úlcera era até um personagem das crônicas dele. Hoje a gente sabe que aquilo é um horror para quem tem úlcera.

Então ele piorava com isso...

Sim. Mas não se sabia na época...

Ele não bebia álcool?

Não.

Mas fumava, né?

Muito (rindo). Lembro....Era engraçado. Quando foi proibido de fumar, a gente ia sair, ele entrava no elevador e a primeira coisa que fazia: “Com licença” e tirava o cigarro do nosso bolso. Aí tirava o filtro...Nós combinamos inclusive, eu, Joffre, Nelsinho: “Ninguém leva o cigarro no bolso. Nós vamos ficar sem fumar”. Porque eu fumava muito, era tabagista mesmo, três maços por dia: “Não vamos levar cigarro pra onde o Nelson estiver”. Mas ele fumava demais e foi tuberculoso.

Mas era da geração. Naquela geração as pessoas fumavam demais...

Muito. Ás vezes, ele dizia: “A vida só não me deu bola de cachorro louco”. Você sabe o que é bola de cachorro louco?

Não.

Bola de cachorro louco é uma bola de carne em que colocam veneno para o cachorro comer e morrer. Ele usou “cachorro louco” para reforçar a frase. Porque um cachorro louco não come nem bebe principalmente água. Por isso chamam hidrofobia. Não bebe.    
Lucélia Santos em Bonitinha, Mas Ordinária de Braz Chediak
Dos filmes baseados no Nelson qual o seu preferido?

O Bonitinha foi um sucesso de público absoluto. No Brasil não foi bem de crítica...Aqui só um jornalista gostou do filme que foi o Xico Sá. Ele falou bem da cena da curra, uma das cenas mais eróticas que já tinha visto. Teve um jornal na Itália que disse que foi a cena mais erótica do cinema mundial, a cena da curra da Lucélia (Santos). Na época a crítica esculhambou. Uma grande revista de nível nacional fez uma matéria, gastou páginas só para falar mal. E olha que o crítico era diretor de cinema. Mas foi um sucesso estupendo.

Dos três foi o maior sucesso?

Sim. Depois quando nós fizemos o Perdoa-me Por Me Traíres aconteceu a mesma coisa. O mesmo crítico pediu para ver antes do lançamento, mas não deixei: “Não. Mas se não for antes de todo mundo não sai na minha coluna”. Eu falei: “Dane-se”. Aí depois ele ligou lá pra casa do Nelson: “Foi o melhor filme que já vi de Nelson Rodrigues, podia ter saído”. Pois é. Depois que passou o filme fica muito fácil.

Eu vi o Perdoa-me a muito tempo. Mas o elenco do Bonitinha é muito bom. Tem a Miriam Muniz inclusive...O Wilker. O senhor se deu bem com todo mundo?

Todo mundo meu amigo. O Wilker a gente praticamente começou junto.

O Milton Morais está bem também...

Ótimo. O Milton era fantástico. Um monstro...Carlos Kroeber.

Carlos Kroeber está ótimo.

Mineiro ele também. É de Belo Horizonte. O Perdoa-me é um grande papel da Vera Fischer. Tenho um amigo escritor que se encontrou com a Vera e comentou com ela: “Foi a melhor coisa que eu vi de trabalho seu como atriz”. Ela está realmente no nível de Ingrid Bergman, no tempo certo de interpretação. Perfeita.

E ela era uma pessoa difícil?

Não, não. Pelo contrário: a Vera era de uma família humilde, uma mulher muito bonita e muito inteligente. Só para você ter uma ideia eu tenho por princípio, quando eu estou filmando, sentar na mesma mesa da equipe. Porque cinema tem isso: restaurante para os atores e diretor, quentinhas para os técnicos. Eu falava: “Não. Eu vou comer a mesma coisa que o eletricista come”. Sentava com o pessoal. No primeiro dia de filmagens com a Vera, a produção falou: “Vera: vocês vão almoçar no restaurante tal e vamos trazer as quentinhas pra equipe”. Falei com a produção: “Eu como aqui com a equipe. Pode trazer uma pra mim também”. Sentei na três tabelas e a Vera na mesma hora: “Não, não. Vou comer aqui com eles. Nada de restaurante”. Sabe? Ela era de uma...A Lucélia (Santos) a mesma coisa.

A Lucélia foi uma atriz tranquila?

Demais. Nós fomos filmar lá em São João del Rey o Álbum de Família. A Secretaria de Cultura de lá tem uma casa com vários apartamentos pequenos, com banheiros, para quando apresentarem peças de fora os atores ficarem. E eles nos ofereceram. Nós nos hospedamos todos lá. Eu chamei a produção: “A Lucélia, você coloca no hotel”. Ele foi para o melhor hotel da cidade. Aí, lá pelas oito horas da noite ela chega no alojamento: “Poxa estou triste”. “Triste por quê? O que está acontecendo?”. “Todo mundo aqui conversando e eu sozinha lá no hotel. Eu não vou voltar para lá não. Vou ficar aqui”. “Mas Lucélia aqui a condição é meio precária”. “Não tem importância. Tem algum colchão sobrando?”. Aí ela falou com o Rubens Correia e o Marcos Alvisi: “Não tem um canto no apartamento de vocês?”. Eles: “Um canto tem”. Ela: “Põe um colchão no chão”. Puseram um colchão no chão e durante todo tempo de filmagem ela ficou lá. Arrumava o colchão dela de manhã e não tinha essa frescura. Nada isso. Ela nunca teve. Maravilhosa profissional.

O senhor trabalhou com a Darlene Glória em que filme?

Os Viciados. Quando eu trabalhei com ela, a Darlene ainda não tinha explodido. Ela explodiu no filme do (Arnaldo) Jabor (Toda Nudez Será Castigada). Quando a conheci ela era uma moça que, praticamente, morava na Magnus Filmes porque era muito solitária. Á noite ela fazia uma peça chamada Pais Abstratos. Era ela, Jorge Dória e Glauce (Rocha). Ela tinha vindo lá de Cachoeiro do Itapemirim.

Ela e o Jece eram amigos?

Sim. O Jece era o dono da Magnus. Eles eram amigos. Muito boa de trabalhar, era bonita, ótima atriz. A Darlene veio no lançamento da minha biografia aqui em Varginha. Tinha um festival de cinema e foram lançar meu livro lá. Ela e a Lucélia (Santos) vieram. Eu e a Lucélia nos falamos sempre. Com a Darlene é raro...Mas com a Lucélia fui a São Paulo ver a peça A Falecida, do Nelson Rodrigues, ela fazendo a Zulmira, direção do Marco Antônio Braz. Fui lá, assisti, muito boa a peça. Saímos juntos e fomos jantar. Eu, ela, meu filho, minha nora.

O que o senhor acha do cinema brasileiro atual? O senhor acompanha?

Não. Tempos atrás um diretor, Marcelo Laffitte, me mandou um filme...Não conheço ele pessoalmente. Mas ele me mandou, Elvis e Madona...

Com a Simone Spoladore?

Isso. Assisti. Achei ótimo, essa moça (Simone Spoladore) é maravilhosa. Vi um outro infantil que achei fantástico. Achei tão bom que quando assisti entrei no Facebook, achei o diretor, Tony Vanzollini e dei os parabéns a ele. Ele me agradeceu de uma maneira muito agradável: “Que bom. Por causa disso que a gente continua”. Chama-se Eu e o Meu Guarda-Chuva. Muito bonito o filme. Os atores bons e o diretor...Achei a direção dele ótima. Tem aquele cara que não é ator, mas está bem no filme, um cantor que é um tipo engraçado faz um cara meio burocrático, meio kafkiano, o Arnaldo Antunes. Ficou ótimo.

O senhor ainda tem muitos projetos em cinema? Não tem vontade nenhuma de voltar?

Não. Quando deixei o cinema eu tive motivo. Antes existiam estúdios e eu era o diretor. Então, o estúdio me ligava: “Chediak: a gente está querendo fazer um filme assim esse ano”. Eu escrevia ou adaptava uma peça...Isso acabou. O diretor tem que pegar uma pastinha, sentar ali na empresa e ficar esperando porque precisa de patrocínio...Esse papel eu não sei fazer. Já houve alguns projetos que me chamaram, mas a ideia ás vezes não me cativou e ás vezes o pessoal que me procurou não me cativo. Por exemplo, me chamaram para fazer um filme sobre o ET de Varginha (risos). Não aceitei. Primeiro porque o cara chegou na minha casa eram duas da manhã. Isso não é horário pra chamar ninguém para dirigir filme. Depois ele queria ser o ator principal. Eu olhava a cara dele...Me garanto como diretor mas não senti empatia. Falei: “Não quero”.

O Joffre chegou a fazer um filme baseado no Nelson com a Simone Spoladore alguns anos atrás: O Vestido de Noiva. O senhor chegou a ver? O que achou do filme?

Pois é...O Joffre falou que o filme era genial, etc. Eu não vi. Até porque o Joffre não admitia crítica, ficava brabo e triste. Então eu decidi não ver. Quando fui ao Rio, ele e a Marta, esposa dele me convidaram mas eu não pude ver. Até porque acho a Marília Pêra maravilhosa, acho ela a melhor atriz brasileira. Acho Pixote o melhor trabalho dele em cinema, entende? Ela dá um show. Ah, meu filho, Yassir Chediak, faz uma ponta ou figuração, sei lá, no filme.

O senhor se considera um diretor injustiçado?

Honestamente? Eu não me preocupo com essa coisa. De vez em quando vejo pela Internet comentários que me esculhambam. Mas a maioria, a grande maioria me elogia. Principalmente os jovens.

Os jovens de hoje são mais tolerantes, estudam mais...Ficaram cansados com o mau humor dos críticos velhos. Interessante...Essa semana mesmo eu estava vendo um diálogo. Um cara estava falando do Dois Perdidos. Esqueci quem montou...Estavam falando sobre montagem, aí surgiu o assunto do filme. Uma atriz, uma jovem atriz falou: “Eu vi a versão do Braz Chediak. É espetacular”. A outra: “Não gostei”. Vejo muito esse tipo de comentário em relação ás refilmagens tanto do Navalha como do Bonitinha, Mas Ordinária. Até brinco: “Estão refazendo os meus filmes porque acham muito ruins ou porque querem me prestar uma homenagem”. Mas não vi nenhuma refilmagem. Até fui convidado pra fazer uma, o Boca de Ouro, mas não aceitei: acho que um clássico não se refilma.