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terça-feira, 30 de janeiro de 2024

Playboy entrevista Marcelo Rezende (dezembro de 2014)

Playboy entrevista Marcelo Rezende (dezembro de 2014)

 


Uma conversa franca com o apresentador do Cidade Alerta, da Record, sobre sua infância pobre, a juventude hippie, a carreira na televisão, jornalismo policial, drogas, mulheres, viagra e o dia em que perdeu o emprego por causa de uma transa

 

A BMW modelo Z4 freia na cancela do luxuoso condomínio em São Paulo. Dentro do carro, o apresentador Marcelo Rezende acena após mais um dia de trabalho na Rede Record. Um taxista acena de volta e diz que ele deveria ser presidente do Brasil. Com posições políticas fortes, Rezende caiu nas graças da audiência vespertina quando voltou a apresentar o programa Cidade Alerta, em 2012, limpando a imagem de “o cara antipático e truculento da TV”, e quebrando o ritmo de suas pautas violentas com tiradas irônicas. A vice-liderança no horário e os 11 pontos de média no Ibope corroboram a mudança. “Encontrei um paliativo. Eu brinco, me divirto, coloco apelido nos repórteres. Transformei meu telejornal num programa com entretenimento”, explica.

 

Ao entrar na casa de três andares, inaugurada há pouco mais de dois anos, volta de seu quarto de bermuda, chinelo e camiseta – não há fotógrafos ou assessores o rodeando. Enquanto conversa, prepara uma vasilha com purê de mandioca como guarnição para um de seus pratos favoritos: bife à milanesa. Apesar de andar diariamente pelo condomínio, sabe que está acima do peso. Antes de devorar o jantar, abre um dos vinhos premiados de sua rica adega climatizada com mais de uma centena de rótulos – paixão que vem desde os anos 1980. Descontraído, fala por mais de três horas sobre a dicotomia polícia e bandido, paixões, polêmicas e o que gosta de fazer no tempo livre.

 

Um dia antes, entretanto, Marcelo estava elétrico. Era uma manhã de segunda-feira e, em poucas horas, ele entraria ao vivo para apresentar seu programa de mais de três horas de duração diária. Pai de cinco filhos com cinco mulheres diferentes, o apresentador recebeu o jornalista Marco Bezzi em um dos camarins da Rede Record, no bairro da Barra Funda, zona oeste de São Paulo. Cercado por um fotógrafo e uma assessora da emissora, na ocasião mediu mais as palavras. Falou exclusivamente de sua vida antes da televisão. Contou que nasceu em 1953, num cortiço do Rio de Janeiro, filho do bancário Iaures e da auxiliar administrativa Aurea. Aos 6 anos de idade, foi levado pelo pai para estudar na Escola Granja, onde ele trabalhava, e que depois seria parte da Funabem (Fundação Nacional do Bem-Estar do Menor). No semi-internato, Marcelo aprendeu a beber, a cometer pequenos delitos, e conheceu de perto o mundo da bandidagem. Decidiu virar hippie e se mudar para Bahia aos 16 anos. Seus pais imaginavam que seu futuro estaria ligado à marginalidade. E não é que eles acertaram?

 

Antes de se perpetuar no jornalismo investigativo, mergulhou no mundo do futebol. Seu primeiro emprego foi aos 17 anos, como repórter do carioca Jornal dos Sports – isso sem nunca ter cursado uma faculdade. Depois, passou pelo também carioca O Globo, onde ficou próximo de seu ídolo Nelson Rodrigues, e depois foi para a revista PLACAR, onde teve o jornalista Juca Kfouri como chefe. Em 1988, saltou para a TV. Em mais de 40 anos de carreira, passou por Globo, SBT, Bandeirantes, RedeTV! e Record. Reportagens como a do escândalo da Favela Naval e a do falso integrante do PCC no programa do Gugu o consagraram. Contou muitas dessas histórias no livro Corta Pra Mim (Ed. Planeta), lançado em 2013 e frequente nas listas de mais vendidos do país. Em duas sessões e mais de seis horas de conversa, se emocionou algumas vezes quando falou da família. E se inflamou na mesma intensidade quando comentou as críticas a seu programa. Corta pra ele.

 

Você já foi taxado de reacionário e de ser contra os direitos humanos. Como recebe essas críticas?

As comissões de direitos humanos são fundamentais para o país, especialmente em momentos de exceção, mas me perdoe, hoje em dia existem comissões de direitos humanos que só servem para amparar vagabundos. Você precisa ter comissão de direitos humanos para todos. Nesses anos de jornalismo investigativo, vi famílias sendo dizimadas, vi chacinas, vi sequestros, vi todo tipo de barbaridade, mas nunca vi uma família vítima de um crime receber uma visita da comissão de direitos humanos. E desafio qualquer um a me mostrar uma imagem. Temos inúmeros exemplos de filhas sequestradas, levadas para cativeiros, abusadas sexualmente, ameaçadas de morte, quando não assassinadas... E aí o cara é preso e tem a favor dele a comissão de direitos humanos. Isso aí é uma esculhambação que chega a fazer a gente ficar incrédulo.

 

O jornalismo que você faz não alimenta a criminalidade?

Imagine uma pessoa que se formou em jornalismo e saiu para cobrir a Sasha, a Xuxa e do cãozinho “Xuxo”. E eu sou o sensacionalista? Alguns estereótipos que são criados por falta de criatividade. O Cidade Alerta reflete o que é a realidade brasileira. Se eu morasse na Finlândia, ia falar da pesca do salmão; se morasse na Noruega, da pesca do bacalhau. No Brasil, o povo está pescando tiro. Se fizéssemos como o avestruz, que esconde a cabeça, estaríamos numa situação ainda pior.

 

Mas as atrocidades da polícia não deveriam ter o mesmo espaço nesses programas?

E têm. Um policial, quando extrapola, é um bandido. Não é que a gente tem mais medo da polícia do que do bandido, é que a gente não sabe mais quem é quem. O governo, em todos os níveis, deveria ter mecanismos muito mais rigorosos de fiscalização. Hoje todo mundo quer ter emprego público. O sujeito não tem a menor afinidade com a profissão e quer virar juiz ou policial.

 

Sua proximidade com a polícia não distorce os relatos do programa?

Tive uns três, quatro amigos na polícia, mas no momento em que eles atuavam eu me distanciava da pauta. Hoje não tenho relação nenhuma, tenho alguns conhecidos. Polícia para mim é fonte, ponto. Não tenho amigo diretor de polícia, secretário de segurança, ministro da Justiça. Tenho um distanciamento ético. Nos meus 17 primeiros anos cobri esporte. Na minha frente passaram Pelé, Falcão, Rivellino, Zico, Sócrates, Júnior, e por aí vai. Fiz alguns bons conhecidos, mas não fiz nenhum amigo. Se fosse amigo, não poderia analisar uma partida, por mais isento que fosse.

 

Por falar em isenção, como é ter como chefe o bispo Edir Macedo?

Vou te dar um exemplo: o Edir Macedo é radicalmente contra a pena de morte. Numa reunião com os diretores, ele disse: “O Marcelo é a favor da pena de morte, e ele está errado”. Sabe o que aconteceu? Nada. Ele nunca me proibiu de falar sobre o assunto. Tanto na Globo quanto na Record, eu sempre tive liberdade para falar o que bem entendesse.

 

Ser a favor da pena de morte é algo recente na sua biografia, não?

Eu era completamente contra a pena de morte. Acreditava que o Estado não poderia ser assassino do assassino. Mas hoje sou a favor em alguns casos, como nos de violência sexual contra criança e mulher. Para isso não existe recuperação. Pode perguntar para o maior estudioso do tema, o (psiquiatra forense) Guido Palomba, se ele já viu alguma vez um maníaco sexual se recuperar. Se ele disser que sim, pago a você o dinheiro que quiser.

 

Mas o Estado não deveria dar educação antes de julgar?

Boa parte dessas pessoas nasce com o chip com defeito. Por isso também sou a favor de baixarmos a idade penal. Pega, por exemplo, o caso que aconteceu no Morumbi, quando uns moleques entraram numa casa e depois de roubar colocaram fogo num casal de velhos para se divertir. Eles eram menores de idade. Eu tenho que sustentar esses caras? Na Fenem (como era conhecida até 2006 a fundação Casa), os caras botam fogo no diretor.

 

Você frequentou a Febem quando criança. Como foi essa experiência?

Meu pai era funcionário de um banco que faliu logo que nasci. A vida era dura porque ele não ganha nada e minha mãe ganhava muito pouco. Quando completei três anos, meus pais adotaram meu irmão. A maré era difícil, então fomos morar num cortiço na Tijuca. A casa era minúscula, não tinha banheiro, não tinha nada. Havia uma cama, um berço e um fogãozinho de querosene. E meu pai era gordo, tinha 1,80 metro e mais de 160 quilos. As coisas melhoraram um pouco quando eu fiz seis anos. Meu pai arrumou um emprego de inspetor de alunos no serviço de assistência ao menor na Escola da Granja, que depois veio a ser parte da Funabem. Eu não era um interno, mas meu meio social era aquele. Os garotos chegavam com mais idade, não tinham pai e eram infratores. Sempre digo que bandido eu conheço desde berço, ninguém precisa me apresentar.


Você tinha amigos que eram criminosos? Tinha contato direto com o crime?

Na década de 1950, mataram uma mulher em Copacabana chamada Aída Curi (o crime aconteceu em 1958). Uns caras levaram a garota para cima de um prédio para comê-la, deu alguma confusão e jogaram a mulher lá de cima. Um deles era um menor de idade chamado Cássio Murilo. Ele tinha uns 16 anos. Pois o Cássio Murilo foi parar no meu colégio, virou meu amigo de pipa, de correria. Minha mãe entrou em pânico. Um tempo depois, ele foi para o Exército e matou um oficial. Outro escândalo. E, de repente, apareceu em casa para fazer uma visita. Minha mãe quase morreu do coração. Estou contando para você perceber a facilidade que eu tenho para entender esse negócio de crime, entender o que é a mente assassina.

 

Você se metia em brigas?

Nunca fui muito de briga, sempre resolvi as coisas do meu jeito. Mas tem hora que não dá para segurar. Havia um garoto que chamávamos de Pai do Circo, porque uma vez estava numa cidade do interior, foi ver o circo sem pagar e os funcionários deram uma surra nele. Na noite seguinte, ele voltou, tacou gasolina na lona e meteu fogo com todo mundo dentro. Ele foi para o colégio, e era folgado. Uma vez foi roubar minhas bolas de gude e a porrada comeu. A escola estava trocando a cerca por uma de arrame farpado. Caímos e rolamos pelo arame, saímos esfolados. Cheguei em casa muito arrebentado. Mas isso criou em mim uma coisa curiosa. Eu sabia que tinha de resolver meus problemas. E eu resolvia do meu jeito.

 

Vocês apanhavam muito?

Aparecia gente machucada toda hora. Os inspetores batiam muito. Lembro de uma briga que um menino maior bateu num menor. Fui me meter e levei uma porrada, meu olho ficou igual ao de um desenho animado, daqueles que pulam para fora. Minha avó falou que ia botar gelo, mas antes perguntou o que eu tinha feito com o cara. Eu disse: “Nada”. Ela falou: “Então não botar gelo porra nenhuma! Vai lá e dá-lhe uma porrada”. Peguei um pedaço de pau e dei na cabeça do cara. Quase matei o sujeito. Era simples assim. Era divertido.

 

Foi nessa época que você aprendeu a beber?

Comecei com 10 anos. Na escola faziam um negócio chamado Maria Louca (uma aguardente típica das prisões brasileiras). Sempre gostei de beber, e nesse colégio tinha de tudo. Na época, não existiam cocaína, LSD, essas coisas. Mas existia a maconha.

 

E sexo, quando começou?

Perdi a virgindade numa zona do Rio de Janeiro, onde hoje é a Cidade Nova, aos 14 anos. Fui levado por uns amigos. Pra você ver, gostei tanto que, anos depois, aluguei um apartamento no mesmo lugar da zona.

 

Alguns anos depois, você decidiu dar uma guinada total na sua vida e virou hippie. Por que tomou essa decisão tão drástica?

Levava uma vida agitada, saía muito, então decidi aos 16 anos morar em Mar Grande, na Ilha de Itaparica (na Bahia). Comprei um saco do Exército, botei minhas coisas e fui encontrar uns amigos da Tijuca, que eram uns outros delinquentes. (Risos). Meu cabelo vinha até o ombro.

 

Quantas pessoas ficavam na sua comunidade?

Umas 12. Vendíamos brincos, colares, pulseiras. Como eu não tinha jeito para trabalho manual, ia vender com um cara de apelido Tigrão. Sempre fui muito falante, e conseguia vender bem.

 

Todo mundo comia todo mundo?

Umas duas garotas da região namoravam uns quatro rapazes. Mas não era por mal. A vida era assim.

 

E com relação às drogas, você experimentou tudo?

 

Eu gostava de beber, bebia todos os dias. Mas sempre tive cisma com drogas. Rolava muito LSD, muita maconha e haxixe. Cocaína aparecia de vez em quando. Mas não era a minha onda.

 

O que mais vocês faziam para passar o tempo?

Escutávamos muita música: Pink Floyd, Jethru Tull, LedZepellin, Alice Cooper, Emerson, Lake & Palmer e Novos Baianos. A gente se divertia. Mas então eu cismei que não queria mais ficar lá. Fui morar numa casa que um amigo meu tinha feito em Ponta Negra, no Rio de Janeiro. Fiquei alguns meses, arranjei uma namorada bem novinha, virgem ainda, e decidi ficar lá. Virei pescador. Mas quando fiz 17 anos tive um estalo e decidi voltar a estudar.

 

Estudar jornalismo?

Não fui tentar recuperar o tempo perdido. Voltei para o colégio, mas precisava fazer uma prova de reavaliação. Quem aplicou o teste foi um professor de mecânica que vinha da Segunda Guerra Mundial, um almirante que morava numa casa de esquina na minha rua e tinha um carro preto que era o xodó da vida dele. Mas o filho da puta não queria que ninguém passasse. Eu peguei a prova, olhei, dobrei e entreguei a folha em branco. Não deixei barato, estava muito puto. Eu e uns amigos da Tijuca decidimos roubar o carro e dar um sumiço nele. Fui no colégio no dia seguinte só para ver a cara dele.

 

E como foi parar no jornalismo?

Aos 17 anos, fui conversar com um primo que trabalhava como copidesque (responsável pela revisão e checagem de texto) no Jornal dos Sports. Pensei em arranjar um emprego de office boy, mas até limpando privada estava bom. Cheguei na redação e, de repente, passou um homem com uma lista enorme e uma máquina Olivetti de escrever. Vi aquele homem de uns 40 anos parado, batendo na máquina antiga, e decidi ajudá-lo. No outro dia, meu primo me ligou e perguntou se eu queria trabalhar no jornal. “Aquele cara que você ajudou é diretor geral, e quer que você venha trabalhar como repórter”. No dia seguinte, comecei ganhando cem cruzeiros. Mas não me emendei. Um tempo depois, conheci duas garotas e fomos eu e um amigo para um apartamento em Copacabana. Passamos o domingo todo fodendo. Na segunda eu ia fazer minha primeira viagem como repórter para entrevistar o (técnico) Tim. Mas o problema é que a garota era mais gostosa que o Tim, e eu fiquei com a mulher. Me mandaram embora.

 

Como você conseguiu um emprego no jornal O Globo depois disso?

Decidi mudar de vida. Consegui um emprego como radioescuta da Rádio Globo e logo depois virei repórter de esportes amadores no jornal. Fiz 21 anos e fui convidado para ser copidesque de O Globo, que na época era tipo uma entidade. Nesse período, parei tudo. Parei de beber, de sair... Não a zero, óbvio, mas reduzi 50%. Nem minha família entendia. Mudei da água para o vinho. Lia o que vinha pela frente.

 

E como foi que você conheceu o Nelson Rodrigues?

Eu estou lá trabalhando de copidesque, nisso senta um cara na minha frente. Quase desmaio. Era o Nelson Rodrigues! Já tinha lido todos os livros dele, era apaixonado por aquela coisa dramática e conservadora ao mesmo tempo, tinha um verdadeiro amor pelo que ele escrevia. Ele senta na minha frente e diz assim: “Garoto da sua idade tem nojo de chupar boceta”. Eu olhei e disse: “Mas faz tempo que você não vê uma, né?” Ficamos amigos. Era muito engraçado, ele não enxergava, então íamos para os jogos de futebol juntos e ele ficava me perguntando do jogo, e eu respondia na maior inocência. No jornal tem um monte de crônica que ele fala de mim, me botou o apelido de Marcelinho. Aí ele começa a crônica assim: “Este Marcelinho é uma besta, ele vai ao futebol e não consegue enxergar o que está vendo”. Era ele que não via porra nenhuma! Era um jogo que só existia na cabeça dele, o Sobrenatural de Almeida. E assim foi até ele morrer.

 

Você também foi colega do João Saldanha, não foi?

Eu e o João viajávamos sempre juntos, e também frequentávamos a praia no mesmo lugar, entre o Arpoador e Ipanema, um lugar chamado Castelinho, que não existe mais. Ali iam os caras antigos do futebol, Carlinhos Niemeyer, do Canal 100, Sandro Moreira, colunista importante da época, e jogadores da velha guarda... Eu era o único novo. Aquilo estreitou nossa amizade. Nas viagens, ele dizia: “Anda, porra! Você escreve demais!”, porque ele queria me levar para museus, para conhecer as coisas. Eu respondia: “No dia em que eu for o João Saldanha, vou escrever 30 linhas. Você pode, eu não posso...” (com a voz embargada.) Quando ele morreu, eu escrevi umas 20 páginas sobre ele para PLAYBOY (na verdade, 11 páginas em outubro de 1990). Era um livro que ele me pediu para escrever sobre a vida dele. Eu tomei o depoimento, parei pela metade, e nesse momento, quando ele morreu, fui tentar escrever. Mas não conseguia, começava a chorar. Era um sofrimento. Aí o Juca (Kfouri), que cuidava da PLAYBOY, me ligou pedindo a história do João. Eu disse: “O que tenho está gravado, mas não vou escrever. Posso te entregar o que já está mais ou menos escrito, mas o resto é muito sofrimento”. E o Juca publicou.

 

O Saldanha era um sujeito bem irritado, não?

O João era na dele, mas quando invocava... Certa vez, nós fomos ao Chile acompanhar um jogo do Brasil, isso no início dos anos 1980, época do (ditador Augusto) Pinochet, com toque de recolher que, se não me engano, começava às 7 da noite. Aí o João resolveu sair para beber. “Mas, João, daqui a pouco tem toque de recolher!” E ele: “mas que toque de recolher o cacete! Esquece isso”. Esquece isso? Era uma ditadura sanguinária, porra! Como é que eu ia esquecer isso? Mas acabei indo com ele. Aquela porrada de gente falando mal do Pinochet, e eu só pensando: “Eu vou me foder, eu vou me foder...” Naquela altura, ele já não bebia muito, porque um pulmão era um queijo suíço e o outro não existia mais de tanto que ele fumou. Mesmo assim fomos embora do bar só de manhã. Voltando, na terceira rua apareceu uma porrada de cara armada, aqueles tambores de lata pegando fogo para mostrar que era uma barreira policial. “E agora, senhor João Aves Jobim Saldanha, que porra nós vamos fazer da vida?” Veio um cara e ele dizendo que era “periodista brasileiro”, começou a conversar com o cara. Veio então o tenente que comandava sei lá que porra, e ele: “Sou jornalista, está aqui minha credencial, vim cobrir a seleção brasileira e não sabia de nada”. Isso com a cara mais inocente do mundo. E não é que o filho da puta fez com que a polícia fosse nos escoltando até o hotel?

 

Depois que você virou repórter policial, esse medo de morrer virou algo comum?

Já fiquei no meio de vários tiroteios na minha vida. Fiquei em tiroteio na Rocinha, no Borel, na Mangueira. É óbvio que você pode morrer, mas precisa ter calma e, mais do que isso, não dar chance ao azar. Muitas vezes, você já está tão envolvido que não presta mais atenção, mas eu sempre preste. Tem esse livro que todo mundo gosta de ler. A Arte da Guerra (tratado militar escrito durante o século 4 antes de Cristo pelo chinês Sun Tzu), que diz que a melhor defesa é o ataque. É mentira. A melhor defesa e o melhor ataque são você esperar a fragilidade do outro. Se você sair correndo em cima do seu adversário, pode ser surpreendido. Ao mesmo tempo, se você ficar acovardado, cede uma série de espaços. Eu sempre tentei refletir, mesmo na hora em que estava em meio a um tiroteio. Sempre tentei entender para onde eu ia, em vez de ficar correndo igual um desgraçado sem saber o caminho. Eu aprendi um negócio com o Armando Nogueira (jornalista morto em 2010) que é sensacional. Serviu para a minha vida inteira. Eu tinha entrado na Rede Globo e rolou uma baita enchente no Rio. Fui recrutado, mesmo sendo do esporte. Estava todo mundo correndo, o armando Nogueira me segurou pelo braço e perguntou: “Está correndo por quê?” Eu respondi que estava correndo como todo mundo pelo meu trabalho. Ele disse sabiamente: “Esquece. Esse povo está correndo sem saber o que quer. Isso é mais encenação do que verdade. Vai devagar que você vai fazer a mesma coisa com mais tempo e ainda vai oxigenar melhor o cérebro”. Levei isso para o resto da minha vida.

 

Você acha que o Tim Lopes deu chance para o azar?

Uma questão importante para mim é a seguinte: a minha cara, as pessoas conhecem; a do produtor não deve conhecer jamais. O Tim ganhou um prêmio com aquela matéria da feira das drogas, feita no mesmo ambiente em que ele depois foi gravar o funk que leiloava garotas. Quando o Tim ganhou o prêmio, foi receber. E ele recebeu num Jornal Nacional, que naquela altura dava uma audiência da porra. E depois ainda voltou no lugar, porque na real não tinha dado certo na primeira vez. Aí não teve jeito. Quando ele estava no bar esperando o contato, deu azar, um dos caras que tinha caído na feira das drogas o reconheceu. Quando eu entrava num negócio perigoso desse jeito, eu entrava para dar certo na primeira vez, não tinha a segunda. A segunda eu deixava para daqui a um ano, porque é muito arriscado.

 

Você já deu tiro em alguém?

Não, nunca andei armado. Nunca.

 

Nem anda com segurança? Não tem medo de levar um tiro pelas costas, já que mexe com pessoas poderosas, como no caso da Favela Naval (em que policiais militares de São Paulo foram flagrados agredindo e roubando moradores de uma favela durante uma blitz)?

Eu acho que Deus protege. Acho que tenho um pacto com Ele que dá certo. Mas uma vez passei um sufoco e achei que a coisa ia babar.

 

O que aconteceu?

Em 1999, eu estava fazendo o Linha Direta na Globo quando o tocou o celular e era minha ex-mulher, aos prantos. “Tentaram me sequestrar, tentaram me sequestrar!” Eu tinha comprado pra ela uma Jeep Cherokee, que era da Sasha (Meneghel), e que a Xuxa tinha mandado blindar igual um tanque de guerra. Você ia fazer uma manobra numa curva e ele era pesado. As blindagens de antigamente eram muito pesadas, e pra cuidar da Sasha, então, imagina? Era pior ainda. Ela dirigiu uns 20 dias, e não aguentou. Resolvei que queria um outro Cherokee, esse sem blindar. Como eu não consegui convencê-la, apertei o botão de “que se dane” e comprei. Roubaram o carro com ela dentro duas semanas depois. Quando cheguei em casa, ela estava sem a chave, os caras tinham roubado a bolsa, e mulher adora levar tudo na bolsa, até o gato de estimação se bobear. Por isso, se você quer algo inseguro é uma bolsa de mulher: tem foto do marido, do filho, conta cheia de endereço, e por aí vai. Quando acharam o carro, fui atrás do guincheiro que trouxe pra delegacia. Chamei e disse: “Sabe onde você pegou o carro? Você vai em contar legal onde é, porque se eu for embora, vai ficar ruim pra você”. Aí o cara contou que eram uns moleques assim, assado. Ele sabia de tudo. Mandei grampear o celular roubado e descobri que os caras ligaram para a Região dos Lagos, no Rio de Janeiro. Peguei o endereço e fui sozinho. “Vocês sabem que eu sou?” Os caras sabiam. “Sabem aquela Cherokee que vocês roubaram? Tinha uma bolsa, cadê a bolsa?” Qual era o meu medo? Não era de eles meterem um sequestro lá em casa, porque eles eram uns merdas, mas sim de entregarem pra alguém mais profissional. “Nós liberamos tudo, jogamos fora, pegamos dinheiro, cartão de crédito e o resto jogamos fora”. Eu disse: “Lembra que eu sei quem vocês são, sei onde vocês moram. Sei onde mora a sua tia. Sei quem é quem nisso aqui”. Aquele foi o dia em que eu mais tive medo, porque é um medo que você não sente por você, mas pela sua família.

 

Você tem cinco filhos, um menino e quatro meninas, com cinco mulheres diferentes. Nunca pensou em ter uma família mais “tradicional”?

A vida inteira eu quis ter uma família e não consegui. Eu fiz cinco filhos com cinco mulheres diferentes, e não consegui construir aquela família estruturada de domingo. É a antítese do que eu aprendi e do que sempre tentei. Eu busco ainda, mas meus casamentos foram muito rápidos – menos o último, que durou 18 anos. A minha filha mais velha mora em Amsterdã, chama-se Patrícia, e agora está grávida do meu segundo neto. Na época em que a mãe dela ficou grávida, ela viajou, foi embora, e eu não queria ter filho. Foi uma coisa meio traumática. Um erro que cometi de não querer conhecê-la quando ela era pequena, porque intempestivamente fiquei com raiva. Se eu pudesse refazer a vida nesse aspecto, teria refeito. A minha terceira filha também só fui conhecer quando ela tinha 20 anos de idade, porque a mãe dela engravidou, eu não queria que engravidasse, e houve uma absoluta separação. Cometi dois erros na vida, erros muito graves pelos quais eu não me perdoo, que foram não querem conhecê-las porque as mães quiseram ter os filhos e eu não queria ter. Mas também não as obriguei a tirar. Meu erro foi não as reconhecer imediatamente. Até hoje eu sofro.

 

Você é a favor do aborto?

Sou a favor. Como você pode imaginar que as pessoas podem ter domínio sobre o corpo das outras? Não dá para ser contra. Meu caso era diferente. Só achei que estava acontecendo tudo muito rápido. Mas a partir do momento em que minhas mulheres ficaram grávidas, dei todo o apoio. Agora, imagine a situação de uma família em que o homem chega bêbado em casa e força a mulher a fazer sexo e a engravida. Ou uma mulher que é violentada na rua. Cada pessoa sabe exatamente as circunstâncias em que aquele problema lhe aflige. Por isso sou a favor do aborto. Mas sou também literalmente a favor do controle de natalidade. Acho uma inconsequência um governo não ter um programa de controle de natalidade, programas educacionais para que as mulheres possam se proteger. Não é possível as pessoas jogarem filhos no mundo para ficarem em esquinas e serem criados por avós.

 

Seu último casamento terminou de forma traumática?

Terminou em 2011. Mas em 2009 as coisas começaram a ficar feias. Aquela altura eu já estava havia cinco meses desempregado. Um dia, minha ex-esposa entra no quarto e diz: “Essa casa não tem dinheiro para nada, não tem dinheiro para champanhe, não tem dinheiro para carro novo, nem para viajar”. Imagine para um sujeito que passou a vida inteira trabalhando, de quem as pessoas sempre gostaram, que sempre, graças a Deus, deu certo, de repente se ver numa encruzilhada absoluta, sem saber o que fazer da vida. Não tinha emprego. O diretor do SBT foi a minha casa, mas não virou. O Douglas (Tavolaro, diretor de jornalismo da Record) falava comigo, mas a resistência a mim ainda era forte na emissora. Na Globo, havia uma barreira entre os diretores. Estava sentado na minha cama e tinha acabado de receber a última parcela da RedeTV!. Eu olhei firme para o céu, pois acredito em Deus firmemente, e disse que já havia feito a minha parte, o Senhor agora corre porque eu não tenho mais força. A minha sorte é que a RedeTV! foi de uma correção exemplar comigo. Nós negociamos o pagamento de 2 milhões que eles me deviam em oito meses, e eles pagaram integralmente, certinho, sem problema. Felizmente, depois desse período, fui contratado pela Band. Para você ter uma noção, quando me empreguei na Band, ganhava um sexto do que ganhava antes. Também reduzi minha vida para um sexto, só queria acabar a casa. Naquele momento, segurando dinheiro, decidi que precisava reerguer a minha vida. Muita gente dizia que minha carreira tinha acabado.

 

Você fala muito em Deus. É religioso?

Não acredito e não gosto de religião. Ela divide o homem, ela não leva o homem para um caminho de agregação. Eu acredito em Deus, em um diálogo com Ele. Não preciso de intermediário, o que não significa que eu não possa escutar um sermão de um padre, de um bispo ou um conselho de um espírita. Quer ver uma coisa que eu acho de abestalhado? A história que se fala do dinheiro que a Igreja Universal pega dos fiéis. Mas vai pegar de quem? Da Casa da Moeda? De uma máquina de fazer dinheiro falso? Como é que se fez a construção da Igreja Católica? Com doações, e pior, doações vendendo indulgência! Com a Santa Inquisição, vendendo espaços, vendendo alforrias. Assim se fez a fortuna da Igreja Católica. E ela tem suas marcas, que são difíceis de engolir. A última é a da pedofilia generalizada. Vai pedir dinheiro pra mim, eu não vou dar. Como também não vou dar pra Universal.

 

Você se recusou a falar mal do Edir Macedo quando estava na Rede Globo. Por que aceitou fazer uma matéria detonando o Valdemiro Santiago, da Igreja Mundial do Poder de Deus, na Record?

Porque ela foi brilhantemente apurada pelo Amauri Ribeiro Júnior e pelo Leandro Santana (produtores da Record). Quando o Douglas Tavolaro foi à minha casa pedir para eu amarrar a matéria, não tinha noção de quem era o Valdemiro, apesar de falarem que ele morava no meu condomínio, cinco ruas para cima. Eu nunca o vi. E tenho uma encrenca em dizer não para o Douglas. Ele é meu chapa. Mas, se fosse preciso, eu diria. Minha primeira pergunta foi: “A gente tem prova? Tem prova documental? Tudo?” As provas eram tão consistentes e robustas que não era mais a igreja, era um homem desviando dinheiro da igreja pra si mesmo, completamente diferente da época em que me pediram para fazer uma devasse sobre a Igreja Universal. Naquela época era uma acusação sobre saco de dinheiro sendo carregado. Tem dinheiro sendo carregado por todas elas. Amigo, é melhor ter uma igreja do que um ponto de droga, uma casa de prostituição. Eu não gosto de religião, mas sem ela ia ser um caos absoluto. A diferença é que a Igreja Universal era uma história que, pra mim, não tinha consistência. Eu achei, pelo menos. A Globo não achou. Mas ninguém me obrigou a fazer. Se eu não acho que tenho que fazer, eu não faço.

 

Mas a igreja do Edir Macedo é assim tão diferente da igreja fundada pelo Valdemiro Santiago?

Muito. O Edir Macedo foi fazendo a igreja, mas ao mesmo tempo foi montando pequenas empresas. Paralelamente à igreja ele conseguiu se tornar um empresário. O Edir Macedo já foi investigado pela Polícia Federal, pelo Ministério Público, pelo Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado), pelo Valdemiro Santiago. O fato é que até agora ninguém conseguiu condená-lo por nada. Não tem uma condenação, um processo em julgamento. O Valdemiro Santiago não aguentou o primeiro tranco. O Edir Macedo já foi investigado umas 60 vezes.

 

O advogado do Paulo Maluf, por exemplo, vai dizer que ele continua firme e forte apesar de inúmeras acusações...

O Maluf resiste por uma única razão: o mandato que mantém a imunidade dele. O Maluf não pode sair do Brasil, ele é procurado pela Interpol, pela polícia americana. O Edir Macedo viaja para onde quiser. Curiosamente, desde quando eu estava na Globo estão tentando arrumar uma sarna para o empresário Edir Macedo. Tentaram arrumar para o bispo, mas não conseguiram também. O Templo de Salomão (inaugurado em 31 de julho deste ano) custou 680 milhões de reais. Você acha que ele gastaria essa fortuna se pensasse só em dinheiro? Lavar dinheiro também não é uma possibilidade. Ali é tudo declarado.

 

Mas o Templo não foi erguido à margem da lei, sem todos os alvarás necessários?

Não foi. Estive uma única vez na minha vida com o Edir Macedo. Ele é meu patrão, mas não tenho procuração para defende-lo. Mas quando ele foi preso há 15 anos, prenderam e não conseguiram manter preso. Agora é a história de que o Templo não está autorizado. Se não estivesse, você acha que (o prefeito de São Paulo Fernando) Haddad estaria lá na inauguração?

 

Este ano foi ano de eleição...

O (governador de São Paulo Geraldo) Alckmin tinha mais de metade dos votos nas pesquisas. O Haddad nem candidato era. Eles não precisariam estar ali no Templo pedindo voto. O Edir Macedo falou na cara da presidente Dilma que a questão da saúde e da segurança só Deus pode salvar. Ele convidou a presidente e falou para todo mundo ouvir aquilo. O Templo por fora é um impacto. Você olha e não tem noção do que é aquilo, vai revitalizar o (bairro paulistano) Brás. Eu entrei no santuário e fiquei impressionado com a energia positiva.

 

Você saiu da Record em 2005 por causa do ex-presidente Lula?

O Cidade Alerta saiu do ar em 2005 porque o Lula não queria mais, ele interveio junto à Record. Ele tinha ido viajar para Angola e Japão, onde as colônias brasileiras fizeram questionamentos forte sobre a insegurança do país, pois assistem ao Cidade Alerta na Record internacional. Nisso eu leio uma nota na seção Radar, da VEJA, escrita pelo Lauro Jardim, falando que o presidente foi surpreendido e que havia uma pressão muito forte em cima da Record. Não é fácil ter uma pressão do presidente da República.

 

Ainda mais sendo uma concessão pública, não é?

E ele é o mandatário. Ele pediu para tirar o programa do ar. Aquela altura, a audiência batia na casa doa 21 pontos. A pressão era muito forte, e eu sentava mamona nele. Na verdade, exagerei. Eu concordo, batia com muita violência nele. E o presidente da Record, na época o Denis Munhoz, foi ao Palácio do Planalto e o Lula reclamou do Cidade Alerta. Ele propôs tirar o Cidade Alerta do canal internacional, mas o Lula disse que não, que queria que tirasse do ar. Fiquei igual a balão no vento. Não estava feliz, e aí me convidaram para fazer o Hoje em Dia com a Ana Hickmann. Almocei com ela e o Edu Guedes. Todo mundo diz que saí da Record porque colocaram o Edu Guedes, e não foi nada disso, eu adoro o Edu. O que me fez sair foi que cada vez era uma coisa. Me mandaram fazer o Repórter Record, eu fiz um Repórter Record diferente e não era o Repórter Record. Me mandaram bolar um programa novo, aí não era mais aquilo. Aí era o Hoje em Dia. Estava parecendo garota de programa, passando de mão em mão. Qual a vantagem nisso? Fui embora.

 

Tem alguma coisa de que a gente goste na TV?

Vai parecer ridículo, mas acho engraçada a sobrevivência do Silvio Santos. E vou explicar por quê. Ele de otário não tem nada, é astucioso, sabido. Comete gafes de propósito, tem acessos de riso, a calça cai. É óbvio que ele sabe o que está fazendo, senão ele não era o maior comunicador do país. Um outro negócio de que gosto é o Legendários, do Marcos Mion. É muito legal.

 

Você brigou com o Gugu no episódio da falsa entrevista com um integrante do PCC. Por quê?

Quando você quer fazer audiência a qualquer preço, acaba pagando a conta. E olha, o Gugu paga aquela conta até hoje. Não porque eu queira. Mas foi um erro brutal de avaliação de quem fez. Eu vi que era uma farsa, e coloquei no Repórter Cidadão a farsa do “Domingo Ilegal”. Sentei a mamona nele. Tudo errado: o jeito do sujeito falar, o jeito de segurar a arma com o dedo em guarda e não no gatilho... Você viu o estacionamento atrás. Um amigo meu do DEIC (Departamento Estadual de Investigação Criminal da Polícia Civil de São Paulo) me ligou e disse que tinha uma fita do irmão daquele cara fazendo uma procissão em Carapicuíba. O cara se chamava Barney e fazia pegadinha na Gazeta. Coloquei uma equipe na casa da mãe do Barney e, à noite, mandei ligar o equipamento. Foi fácil desmascarar.

 

Você assiste ao programa do Datena? Muitas pessoas comparam vocês dois.

O que ocorre é que nós somos diferentes. Ele é um comunicador, que olha aquilo lá e põe uma opinião. Eu sou um comunicador que olha aquilo lá, mas que fez aquilo e sabe como funciona, eu sei o mecanismo. A minha vida foi construída fazendo investigação. O Datena é um comunicador fora de série. Eu sou um comunicador que sabe como aquilo funciona. Ele diz que não gosta, e eu acredito que ele não aguente mais fazer o programa (Brasil Urgente, na Band). E por que ele não aguenta? Porque está há 20 anos fazendo a mesma coisa e o negócio não muda, o repertório vai encurtando. Eu me divirto porque sei o que está acontecendo, lembro uma história minha, vou misturando tudo.

 

Hoje você tem 60 anos, cinco casamentos nas costas e cinco filhos. Já chegou a hora de usar Viagra?

Eu já usei. Agora não, que minha vida está tranquila. Logo que saí de um casamento, tomei bastante. Com o Viagra você pode fazer conta (do divórcio) e trepar ao mesmo tempo. Você está preocupado e a coisa anda. Quando me separei, não vim morar em casa, fui para um flat na Rua Amauri (um bairro paulistano de classe alta Itaim Bibi). Flat tem três coisas: cara separado, executivo de passagem e puta querendo pegar os dois. O flat era de um amigo que tinha uma balada, o Josephine. Eu aguentei esse negócio dois meses, tinha momentos na vida em que não sabia o que estava fazendo, se deixasse, eu vivia na horizontal. Tinha um camarote fechado com champanhe francês rolando à vontade e um flat na outra esquina da balada. No início, achei o máximo, levava as meninas que eram capa de revista, mas cansei. Hoje, namoro uma mulher mais velha.

 

Quer dizer que você levou várias capas de revista para o seu flat? Alguma era capa de PLAYBOY?

Não só uma, foram duas! Hoje elas são minhas amigas, falo com elas, mas não posso dizer nomes. Uma era até namorada de um cara importante, então é melhor não contar. (Risos.)

 

Publicado originalmente na revista “Playboy” em dezembro de 2014

segunda-feira, 5 de março de 2018

VSP entrevista: Braz Chediak, parte 2

Braz Chediak trabalhando em uma nova produção
A proximidade com Plínio Marcos, o autor mais proibido do Brasil. As adaptações cinematográficas da obra de Nelson Rodrigues. O trabalho com produtores como Herbert Richers e Carlos Imperial. A convivência com a Boca do Lixo em São Paulo e o Beco da Fome no Rio de Janeiro. A distância do pessoal do Cinema Novo e das pessoas que faziam um cinema comercial. O cineasta Braz Chediak foi privilegiado em testemunhar diversos momentos da vida cultural brasileira das décadas de 1960 e 1980. Ele conta que foi chamado para ser assistente de direção em Terra em Transe de Glauber Rocha. Mas não aceitou. Chediak também lembra de certos momentos com uma espécie de desgosto. “Comecei essa produção sem roteiro, sem planejamento”.

Nessa segunda parte ele comenta os longas-metragens que dirigiu: lembra as dificuldades de alguns trabalhos e os motivos que o leva a considerar Navalha na Carne seu melhor filme. “Tivemos uma série de inovações, trabalhei com um fotógrafo fantástico que era o Hélio Silva. Os atores eram muito bons”. O realizador também analisa o atual momento do cinema brasileiro e diz que não espera voltar a trabalhar na área. “Quando eu deixei o cinema eu deixei por um motivo. Porque antes existiam estúdios e eu era o diretor”. Ele termina dizendo que não se considera um agente cultural injustiçado.

Mas você não foi íntimo do Lívio Bruni?

Não. Ele gostava muito do Navalha na Carne que eu dirigi, por isso tivemos uma boa relação. O (Leonel) Brizola (governador do Rio de Janeiro) deu a ele uma comenda, comendador Lívio Bruni. Ele, ás vezes, ia á Fiorentina, onde conversávamos...Morava no Copacabana Palace.

Como o Mário Reis...

Mário Reis também morava lá.

Jorginho Guinle que você citou antes...

Esse era um dos donos (risos).

O senhor falou um pouco desse pessoal antigo...o Lima Barreto. O Cangaceiro foi um filme importante na sua formação do senhor?

Sim.

E o senhor encontrou ele já em estado de penúria...

Foi. Conheci o Lima na Boca do Lixo. Fiquei muito chateado quando ele procurou a Embrafilme para fazer um longa-metragem em esperanto. Eu nunca trabalhei com a Embrafilme, nunca fui financiado por órgão nenhum do governo. Por princípio mesmo...E eles estavam tipo assim ridicularizando o Lima Barreto. Ridicularizando e enfim...O Lima era um homem de muito talento, O Cangaceiro foi importantíssimo para o cinema brasileiro. A Rachel de Queiroz falava muito bem do Lima, gostava muito dele. Mas tentaram acabar com ele, assim como O Limite do Mário Peixoto. O próprio Glauber escreveu um artigo, não sei se você chegou a ler, falando do “mito Limite”. Não, não é mito.

Eles achavam que o Limite não existia? Não tinha esse papo?

Sim. Mas sabiam que existia, não sei o Glauber que era intelectualmente muito honesto. O Lima Barreto...Muitos cineastas não o perdoaram pelo filme ter feito o sucesso que fez. Falavam que o Lima Barreto foi influenciado pelo cinema japonês. Mas o Glauber também foi e Deus e o Diabo é uma obra-prima.

Sim. Pelo faroeste, John Ford...

Sim. Então, o João Ubaldo (Ribeiro, escritor) dizia...Mas não sei se é verdade porque escritor tem imaginação muito generosa (risos). O João Ubaldo dizia que quando foi visitar o Glauber no hospital, ele já quase morrendo. O Glauber falou para ele: “Cinema é John Ford”. Até pensei em perguntar isso pro João Ubaldo mas ele morreu também (risos).

Já que estamos falando do pessoal do Cinema Novo. E o David Neves? O senhor teve alguma aproximação com ele?

Achava ele muito simpático, um cara bastante legal...Não cheguei a ver os filmes dele. Mas como pessoa era um cara bom. O Leon (Hirzman) era muito bom também.

O senhor falou um pouco desse pessoal do Cinema Novo. E essa história em que você quase foi assistente do Terra em Transe?

O Glauber (Rocha) me chamou. Mas na época eu já trabalhava em estúdio e trabalhar num filme dele não me ajudaria porque o filme é o Glauber, entendeu? Eu tinha mais autonomia trabalhando em estúdio com diretores com os quais eu poderia perguntar: “Por quê você colocou essa lente? Por quê você fez isso?”. Eles explicavam e o Glauber era diferente nesse sentido. A mente do Glauber era de uma rapidez, uma inteligência fora do comum. Seria interessante até como experiência. Mas eu achava que aprenderia mais trabalhando com um diretor mais didático.

Acadêmico vamos dizer...

Isto, acadêmico. Vou te contar uma história do Mário de Andrade. Um dia um jovem levou pra ele umas poesias revolucionárias, o Mário de Andrade leu e falou: “Muito bom, agora trás um soneto para eu ver”. O cara assustou-se: “Mas o senhor é um demolidor de sonetos. O senhor esteve na Semana de Arte Moderna. O senhor me pede um soneto, uma coisa acadêmica?”. “Sim. Pra você destruir uma poesia clássica, primeiro você tem que saber fazê-la. Então, trás um soneto pra eu ver se você sabe e depois você destrói”. Então, eu pensava isso de alguma maneira. O Glauber era maravilhoso, mas como amigo e cineasta, gostava de ver os filmes dele. Terra em Transe é um belo filme, Deus e o Diabo é um belo trabalho.

Gosta de Barravento?

O Barravento eu não vi. Aliás, eu vi o Barravento, mas não me recordo porque na época...Apesar de ser o Glauber e o (Luiz) Paulino que dirigiram, o Nelson Pereira (dos Santos) que montou. Eu me recordo de cenas esparsas, como um todo não me cativou não.

O senhor não gosta dos outros filmes?

O Dragão da Maldade já não acho que seja grande coisa...Cabeças Cortadas  me cansou, não vi todo. Mas o Glauber tinha coisas... Eu passei por ele uma noite no Leblon, quando voltava para casa. Pensei: “Vou parar o carro e vou ver se ele quer alguma carona”. Estava com uma amiga do meu lado e o Glauber estava discursando sozinho na frente do Cine Leblon. Aí eu nem parei: “Sei lá o que está acontecendo. Não vai dar certo”.

Depois o senhor se aproxima do Jece (Valadão, produtor). Isso foi uma coisa que te prejudicou com esse pessoal mais engajado?

Não. Na realidade eu era um garoto do interior, nasci em Três Corações. Meu pai era operário, sete filhos. Então, eu era um menino muito pobre. Pra você ter ideia eu não fui criado só pelo meu pai e pela minha mãe. Fui criado por várias pessoas: morei na casa do meu avô, depois fui pro Rio, criança ainda, morando na casa de um tio. Depois fui pra Três Pontas. Quando tinha quinze anos voltei pra Três Corações e aí morei com os meus pais. E eu não tinha dinheiro, não tinha nada. Então, eu não seria nunca aceito nessa turma do (colégio) Santo Inácio porque eram todos de posse, muito ricos. Basta dizer que o bar deles era o Antonio´s, você nunca viu ninguém do Cinema Novo na Fiorentina, que era um restaurante mais popular.

O Antonio´s era mais elitizado?

Sim. Tanto que o Nelson Rodrigues citava muito: “A esquerda do Antonio´s”. O Antonio´s era da esquerda festiva. Eles frequentavam lá, era outra coisa. Eram turmas opostas. Como os personagens do Bonde Chamado Desejo. Então, eram mundos opostos.

O Saraceni também?

Nunca tive muita intimidade com ele não. Nunca fui íntimo do Saraceni.

O senhor acha que eles tinham preconceito?

Alguns. Outros eram legais como o Leon (Hirzoman), o David Neves, o Nelson Pereira (dos Santos)...Mas para os preconceituosos eu dizia, de cara, que eles tinham uma cultura de axilas, pois andavam sempre com um livro embaixo do braço. Até na praia. Faziam tipo. Então, eu levava na gozação e eles ficavam com raiva. Sinceramente, eu não levava a sério essas coisas.

Mas eu não sabia dessa divisão do Antonio´s com a Fiorentina. Achei que todo mundo do cinema frequentava.

Sim. Mas o Nelson Rodrigues cita o Antonio´s. A Fiorentina não passa na pena do Nelson. Naquela época, o Rio tinha três bares: os atores frequentavam o Gôndola, na Sá Ferreira; diretores de cinema de estúdio e atores mais descompromissados iam à Fiorentina;  Cinema Novo e música iam Antonio´s. Tem uma célebre cena do Manolo, o dono do Antonio´s. Ele colocava as fotos dos fregueses ilustres na parede. Um dia pôs uma foto do Chico Buarque. No outro, uma foto do Boni e o Chico ficou chateado, mandou que ele tirasse...Deu um rolo... Hoje são amigos. Mas naquele tempo existia uma divisão forte.

Você chegou a conhecer o Rogério Sganzerla?

Conheci muito o Sganzerla. Éramos colegas. Gosto...  O Bandido da Luz Vermelha, revi há poucos dias, é uma obra-prima.

Mas e os filmes posteriores?

Não sei. Pelo seguinte: é muito difícil para o cineasta. Até pensei uma vez que era defeito meu, falei: “Caramba. É um problema meu. Não estou vendo muitos filmes”. Aí vi uma entrevista do Fellini. Ele dizia a mesma coisa, que ele não via filmes. Depois vi uma do Ruy Guerra dizendo: “Faz muito tempo que não vou ao cinema”. Lembrei do Aurélio (Teixeira)...E compreendi. É o mesmo que você trabalhar num banco e na hora de folga você ir ao banco. Então, eu ia ver poucos filmes, dos caras que eu gostava. Por exemplo: Kurosawa, Fellini. Já de alguns diretores tidos como cult como Alan Resnais e Antonioni eu achava muito cansativos.



Detalhes da fantástica biblioteca de Braz Chediak
Vamos dizer assim...O senhor não era um grande cinéfilo?

Não. Fui cinéfilo dos meus catorze aos vinte anos. Nessa época eu assistia todos os dias um filme. Sábado e domingo assistia dois. Então, via tudo. Depois eu passei a dar mais importância a rever. Isso eu acho melhor. Como eu estava te dizendo: eu não assistia todos esses filmes. Fui ver O Bandido da Luz Vermelha do Sganzerla e achei ótimo, fantástico. O Sganzerla...Gostava dele, uma pessoa, um cara legal. Tem um fato até bastante interessante. Eu estava fazendo um filme, montando, eu gostava muito de montar até como treinamento. Pedia para montar trailer. Ninguém gostava de montar trailer. Aí eu chegava pro cara: “Está montando? Deixa eu montar pra você?”. Eu montava bem. Gostava de fazer esse tipo de coisa. Então, eu estava na sala do Herbert (Richers, produtor) e chegou o Sganzerla: “Caramba, o meu filme não deu metragem. Você não tem alguma cena do seu filme sobrando?”. Falei: “Sganzerla estou com uns trechos de um documentário”. “Dá pra eu ver?”. “Dá. Pega a moviola lá e vê lá”. Ele olhou: “Esse pedaço aqui você dá pra eu colocar no meu filme”. “Leva”. Então, ele fazia aqueles filmes dele. E ficavam geniais. Mas eu não acompanhava. Não assisti tudo. O Glauber vi os dois...Não. Primeiro vi Barravento que eu não me recordo e depois vi Deus e o Diabo. Eu já tinha lido o roteiro três vezes quando o título era Deus e o Diabo Na Terra fdo Arame Farpado. Vi Terra em Transe, O Dragão da Maldade. Aí o outro O Cabeças Cortadas.

Do Sganzerla o senhor só viu esse então?

Só.

Os filmes posteriores da Belair. O senhor não chegou a ver?

Não.

Ele trabalhando junto com o Bressane...

Desse não vi os filmes. Na realidade eu era amigo de todo mundo, não tive inimizades no cinema. Nunca fui de cultivar inimigos. Agora até pra preservar certas amizades é bom não ver o filme.  Entendeu? Senão...você vai fazer uma análise. O cara te pergunta: “Você viu o meu filme? O que você achou?”. Eu acho muito indelicado (rindo). Nunca perguntei pra ninguém: “O que você achou?”. Até porque eu sou muito crítico inclusive com os meus filmes. Meu filho me disse outro dia: “Pai: teu filme passou no CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil)”. Ele estava no Rio e acabou vendo: “Aí eu fui ver”. Eu disse pra ele: “Por quê você foi ver? Esse filme é uma porcaria caramba”. Era o Banana Mecânica.  Ele me disse: “Deixa de rigidez, vi o filme e o pessoal ri pra caramba. É uma comédia maravilhosa”. Elogiou e eu falei: “Pô que mau gosto. É ruim”. Ele falou: “Não pai. Reveja”. “Não. Não vou rever nada”. Interessante...Há uns dois, três meses  me ligaram de Boston. Passaram meus filmes lá, creio que numa universidade. Uma coisa de cinema. E o sujeito lá me convidou. Deve ser um diretor de cinemateca, não sei. Ele me convidou para dar uma palestra sobre os meus filmes. Eu tinha até marcado com o cara: “Vou, mas tem um problema. Eu não falo inglês”. Ele falou: “Não tem problema. Nós temos tradução instantânea”. Aí um dos caras de Boston...esqueci o nome dele. Ele me falou: “Assisti um filme seu: o Banana Mecânica. Cara que loucura. O senhor não toparia escrever isso adaptado pra Hollywood? O senhor ficaria aqui em Boston e nós adaptaríamos pra Hollywood?”. Eu falei: “Não. Não quero não” (risos). Ainda bem que eu não fui dar a palestra. Não fui. Além de ser muito cansativo, uma viagem muito longa.

Acho que tem até Belo Horizonte...

Não. Eu teria de ir até São Paulo. Mas de São Paulo até Boston são doze horas de avião. E depois de sessenta anos, eu tenho 76, você não deve ficar muito tempo sentado...Mais do que oito horas. Pode te dar um negócio chamado trombose.

É o que aquele ator da Globo teve o Marcos Paulo...

Foi?

Sim. Ele foi pra Manaus participar de um festival, ficou muito tempo sentado e acabou morrendo.

Pois é. Aí eu pensei bem...Grande Othelo, tanta gente que eu vi morrer em viagem assim que falei: “Não”. Se fosse pra ficar um tempo, fazer algo mais interessante. Mas ir até lá, dar uma palestra, ficar três dias e voltar? É muito cansativo, não dá.

E o senhor gosta do Banana Mecânica?

Não. Não gosto.

O senhor sabe que é cult hoje? Aquele trecho do Imperial com o (Pedrinho) Aguinaga...

Pedrinho Aguinaga? Pois é, engraçado isso. O público ri muito.

Carlos Imperial em cena de Banana Mecânica de Braz Chediak

O filme foi chamado de pornochanchada?

É um negócio interessante que até o nome pornochanchada veio de um movimento...Dos críticos brasileiros daquela época. Hoje mudou, hoje é uma juventude com outro pensamento. Mas na minha época eles eram contra o cinema nacional. Muitos críticos batiam nos filmes brasileiros que davam bilheteria: “Esse é comercial”. Isso é uma maneira que Hollywood encontrou para destruir o quinto maior mercado do mundo que é o Brasil. Eu dei uma entrevista falando isso e citei o Harry Stone: “É um absurdo ter um embaixador de Hollywood no Brasil como se nós fossemos uma república bananeira em que o presidente da República negocia com um representante de Hollywood”. Me lembro que a Censura proibiu um filme americano: Calígula. Exigiu cortes. Eu sou contra a Censura: não tem que proibir nada. No dia seguinte o Ronald Reagan e o Harry Stone tiraram uma fotografia que foi publicada na primeira página de todos os jornais. Aí a Censura liberou o filme. Isso é uma ameaça. Fiz uma declaração dura. Então, a crítica inteira ficou contra mim (rindo).

Como o senhor avalia a crítica aos seus filmes? Teve muita coisa positiva?

Não. Eu acho que não foi legal. Sempre sofri uma espécie de preconceito. Mesmo o Navalha na Carne que foi o que teve a melhor crítica...Teve um crítico chamado José Lino Gruenwald que fez uma excelente crítica. Mas teve uma crítica dizendo que o silêncio no filme enfraquecia o texto. Isto, antes do New York Times dizer que “são trinta minutos de profundo e belo silêncio”. Enfim...vários disseram que eu enfraqueci a peça. Meu Deus, ontem eu vi aqui na Internet uma entrevista do Plínio Marcos. Começa com o apresentador perguntando: “Como você vem sendo tratado pelo cinema nacional?”. Aí ele cita: “Poxa, não tenho do que reclamar. O Braz Chediak”. Ele fala meu nome completo: “O Braz Chediak fez um trabalho do caralho com o Navalha na Carne. O que aqueles atores fazem é um milagre”. Sabe? Ele rasga elogios e fala a mesma coisa do Dois Perdidos: “Eu me sinto honrado dele ter feito esse filme”. Isso o Plínio falando...Aí de outros filmes ele está contra, fala mal das adaptações.

Dos produtores qual foi o melhor com quem o senhor trabalhou? E qual foi o pior?

Olha...O melhor produtor foi o Herbert Richers. E foi um dos meus piores trabalhos, mas não por causa dele. Como eu tinha falado antes: o Herbert era excelente produtor, mas ele tinha um pequeno defeito: trabalhava com datas e cometi um erro. Fiz o filme sem roteiro. E sem roteiro você não vai a lugar nenhum, você não tem rota. Eu lembro que chamei o (ator) Nelson Xavier para ser meu assistente.  Ele chegava para mim: “Chediak, amanhã o que é que a gente filma?”. “Não sei. Vamos escrever uma cena”. Escrevia uma cena ali, na hora. Então, não pode dar boa coisa. Você não pode fazer isso: o roteiro é a base de um bom produto final. Você tendo um roteiro já tem 50% de chance de fazer um bom filme. E eu comecei essa produção sem roteiro. Foi o único filme em que eu não escolhi atores, não fui eu. Deixei o Herbert escolher: “Chediak: qual é o elenco?”. “Você que sabe”.

Foi no O Grande Desbum?

Não. Foi o Confissões do Frei Abóbora.

E você fez sem roteiro...

Fiz sem roteiro, o Herbert...

Mas é baseado num romance...

Zé Mauro (Vasconcelos, escritor).

Sim.

Mas o romance do Zé Mauro...Eu o piorei. Na realidade eu estava precisando de grana. Minha mulher estava grávida. E aí o Herbert (Richers, produtor) me chamou, eu fui, quando li o livro e falei: “Caramba. Eu não vou fazer bem”. Eu já tinha feito Meu Pé de Laranja Lima. Gostava muito do Zé Mauro, uma pessoa doce, um homem delicado, simples. Pensei: “Vou estragar o livro dele. Não é meu gênero”. Nessa época, eu morava na (rua) Nascimento e Silva, era o ponto mais chique do Rio de Janeiro. Eu morava na Nascimento e Silva, 102, num apartamento de cobertura. Mulher grávida e eu duro. Falei: “Deus do céu. O que é que eu vou fazer?”. Quando eu saí de manhã pra ir ao estúdio, estava uma placa assim: “Apartamentos. Vende-se”. Fui lá e perguntei o preço: “Dois quartos, sala, dois banheiros, dependência de empregada”. Aí eles falaram: “É tanto!”. Não me recordo quanto era, não tinha noção de dinheiro. Aí fui pro estúdio. O Herbert: “Pensou Chediak?”. “Pensei”. “E aí?”. “O problema agora é grana”. “Quanto você quer?”. “Tanto!”.

Era o valor...

Do apartamento. Ele falou: “Está OK. Passa lá na secretária e fala pra ela fazer o contrato”. Poxa...Eu não queria fazer (o filme), queria que ele risse da minha cara.

Entendi. Você achou que ele ia...

Rir na minha cara. Aí eu falei: “Meu Deus e agora?”. Fiquei confuso: “Meu Deus do céu. Estou liquidado. Mas não vou voltar atrás, dei minha palavra”.  E filmei sem roteiro, sem planejamento...

O senhor não ligou muito pro filme?

Não. Nem um pouco.

O senhor se arrepende um pouco de algumas atitudes?

Não arrependo. Foi uma experiência...Mas eu poderia ter feito um trabalho bom.

O senhor acha que poderia ter feito um trabalho melhor?

Poderia. Se eu chegasse pro produtor, dissesse: “Herbert eu tenho que fazer um roteiro. Vamos começar daqui a seis meses não agora”.

E foi bem de bilheteria esse filme?

Olha, não fracassou mas não foi um sucesso...

Mas se pagou?

Se pagou. Tinha um elenco bom, Norma Bengell, Tarcísio Meira...Grandes atores.

E ele era um cara tranquilo de trabalhar? Um cara legal?

Era, era. Eu nunca peguei ator complicado.

E qual foi o pior produtor com quem o senhor trabalhou?

Eu mesmo (risos).

No Desbum isso?

Todos os filmes que eu produzi. No Brasil, o diretor não deve produzir. Entendeu? Porque você fica pensando na direção e ao mesmo tempo tem que arrumar grana, se preocupar com a produção. Não fui bem quando tentei abraçar as duas coisas.

Como era aquele ambiente do Beco da Fome? Sempre produzindo?

O Beco da Fome era na Cinelândia. Porque tinha vários becos...Tinha o Beco da Fome na Prado Júnior, frequentado por prostitutas e onde os artistas comiam de madrugada, por ser barato e não fechar. Na realidade, a Cinelândia não era um lugar de produção. Sobreviveu até quando se formou o sindicato. O pessoal desempregado fica ali e aí chegava algum empresário: “Preciso de um trapezista, três anões, um cantor de bolero”. Alguns levantavam e iam fazer seus trabalhos. Dava problema porque o cara estava desempregado. Dava problema porque muitas vezes o cara dizia que era trapezista e não era (risos). Tinha dado umas piruetas e achava que era. Nisso, caia...Dava muito problema. Quando o sindicato se tornou mais forte o Beco da Fome acabou. Na realidade, o Beco da Fome que era perto do Hotel Serrador...

Na Álvaro Alvim.

Na Álvaro Alvim. Era chamado também de Beco dos Aflitos. Era um negócio de desempregados. O cinema não acontecia ali. Pertinho, na rua Senador Dantas tinha o escritório do Jarbas (Barbosa, produtor). Do lado de cá tinha o edifício onde ficava o escritório da Atlântida do (Luiz) Severiano (Ribeiro). Eram os escritórios, mas não os estúdios. O povo que ia muito lá não era de cinema. De cinema quem ia muito lá era o Wilson Grey...

Um pessoal antigo?

Sim, mas ia mais gente de circo e de música. Interessante, na minha época aqui no interior o chique era ir ao clube de terno e gravata e tinha uma orquestra chamada Cassino de Sevilha. O Paulo Thiago escreveu um livro chamado Cassino de Sevilha, muito bom. Talvez a infância dele tenha se passado numa cidade como a minha. Pelo menos aqui em Três Corações era chique e o pessoal ia. Eu não frequentava, não fazia o meu gênero esse negócio de baile social. Então, quando cheguei lá para fazer parte daquele universo é que eu vi que o Cassino de Sevilha não era uma orquestra única. Era uma espécie de grife. O cara chegava lá no Beco dos Aflitos: “Atenção. Apresentação do Cassino de Sevilha lá em Pernambuco. Precisamos de um trompetista, um baterista e um cantor com sotaque espanhol”. As pessoas se apresentavam. Ensaiavam e faziam, faziam bem, tinha experiência. Então, eram várias orquestras formadas por grupos, como ainda hoje existe...

E nem era tudo isso...

Eram músicos de qualidade, muito bons, que ganhavam um cachê honestamente, mas não era fixos.

Mas e a Boca do Lixo. O senhor chegou a frequentar?

Fui poucas vezes na rua do Triunfo. Poucas vezes...Me lembro que fui no escritório do (Antônio Polo) Galante (produtor). Eu não saia muito, não sabia andar em São Paulo. Fui ao Massaini, tomei muito uísque com o Massaini E muito chope no bar do Léo.

Mas uma vez e outra...

Sim. Não foi uma constante, eu morava no Rio. Só ia quando lançava um filme em São Paulo.

O senhor achava ali um polo importante de produção?

Claro. Acho que foi importante e ainda continua sendo dentro do cinema brasileiro. Porque é uma coisa interessante...É como o Glauber Rocha disse numa entrevista: “Nós não temos que pensar só nos artistas. Nós temos que pensar como se fosse uma frente de batalha contra o cinema americano”. Aí ele falava bem pra caramba e eu achava isso. Achava que eram pessoas que estavam batalhando, gente de muito talento. Obviamente que tinham produções estritamente pornográficas. Depois nós fomos ver quem combatia os filmes pornográficos...Com o advento do DVD passou a locar os filmes pornôs.

As pessoas que combatiam?

Sim. Eram os puristas, eles iam ver na casa deles, com distintas esposas. Está entendendo?

O senhor trabalhou com o Carlos Imperial somente no Banana Mecânica?

Foi no Banana. Ele como ator e produtor.

Como vocês se conheceram?

Todo mundo conhecia o Imperial. Ele que me chamou para dirigir. Eu tinha feito um filme que ele gostou muito e me convidou para dirigir. A princípio eu não queria, achava o Imperial meio exótico (risos). Mas era um homem inteligente, tinha uma visão danada do sucesso. Aquele negócio da Viúva Virgem...Foi ele que fez o lançamento. Foi um grande sucesso. Colocou nos jornais um anúncio: “Viúva jovem procura”. E não falou nada, ninguém sabia de nada. O Drummond escreveu uma crônica sobre isso. Nosso querido poeta, Carlos Drummond de Andrade...

O Imperial era muito divertido. Ele tinha um escritório na (rua) Sá Ferreira. Morei em dois endereços na Sá Ferreira por isso eu sempre cito essa vizinhança toda: o Hélio Block, Jorge Dória, Fernando Pereira, Jesus, Sindoval, Luiz Rosemberg, éramos todos jovens que sonhávamos em fazer cinema. Mas estou me afastando do assunto... O escritório do Imperial ficava na Sá Ferreira, 44. Ele morava ali também. No quarto dele, mandou pintar as paredes de preto, pregar um compensado na janela também pintado de preto.  Era pra não entrar a claridade porque ele dormia até meio-dia com o ar refrigerado (risos). E ali era o estúdio também. Ele tinha uma página na Última Hora chamada na Corte do Imperial e tinha foto das lebres do Imperial. Me lembro que a primeira vez que eu fui lá estava a Regina Duarte lá que era a namoradinha do Brasil e o Francisco Cuoco jovenzinho tirando fotos para uma revista. O Imperial fazia uma página do jornal que vendia muito. Naquela época ainda pertencia ao (jornalista) Samuel Wainer. Ele me chamou e relutei um pouco, pensando que ele ia interferir.  Mas como era profissional e não vivia de outra coisa que não fosse arte, cinema especificamente, acabei topando. Topei fazer mas também foi um filme que teve um pecado no roteiro.

O roteiro era ruim?

Não existia. Íamos escrevendo enquanto filmávamos.

Mas o Imperial deu um argumento para o senhor?

Não. Ele falou: “Eu quero fazer um personagem assim, assim”. Tudo bem. “Então vamos lá”. Nos cercamos de gente bonita no elenco: Rose de Primo, Kate Lyra...

Já era esposa do Carlinhos Lyra?

Sim. Daí o sobrenome Lyra. Ela era americana. Kate Lyra. Enfim...

Pedrinho Aguinaga...

Pedrinho Aguinaga. Na época ele fazia propaganda de um cigarro chamado Charm, era considerado “o homem mais bonito do Brasil”. Então, até mesmo os papéis pequenos...Tinha um personagem menor chamei a Nélia Paula que tinha sido vedete. Zezé Motta que foi indicada pelo Nelson Xavier, ótima atriz, mas acabou ficando com um papel menor.

Sim. O filme era centrado no Imperial tirando sarro.

Pois é. Fizemos e o filme foi um sucesso. Interessante...

Mas o título veio do senhor ou dele?

Dele. Ia ser lançado ou foi lançado o Laranja Mecânica. Aí ele aproveitou o embalo da publicidade. Ele tinha essa coisa de visualizar o sucesso. Hoje seria um grande nome no Marketing.

E você chegou a conviver com o Imperial? Tem alguma história com ele?

Sim. Éramos pessoas bem diferentes. Ele era muito amplo, generoso com tudo e eu era uma pessoa mais na minha. O Imperial era muito engraçado. Por exemplo...Um dia ele me liga de manhã: “Chediak preciso falar com você urgente”. “O que é Imperial?”. “Não, dá um pulo aqui em casa”. Ele dizia que morava na Barra (da Tijuca, bairro do Rio). Pensei: “Poxa vou lá. Ele pode não estar bem”. Cheguei e começamos a conversar. Horas conversando. Lá pelas tantas eu disse: “Imperial até agora você não disse qual o motivo de eu ter sido chamado. Já estamos aqui há três horas”. “Chediak, é o seguinte: eu gosto de chamar determinadas pessoas para desenvolver minha inteligência” (risos). “Pô, você me chamou pra conversar?”. Poxa, ele tinha umas tiradas, era muito engraçado. Na hora do almoço, queixou-se: “Estou num regime alimentar”. Realmente, ele havia engordado...E tinha permutas com os restaurantes porque fazia uma página inteira num jornal muito vendido. Isso fazia ele começar as crônicas assim: “Estava almoçando no restaurante tal”. Tinha um restaurante na Barra muito bom chamado Tarantela. Aí ele me convidou para ir com ele a Tarantela, eu e a filha dele, a Maria Luiza. A Maria Luiza era júri do Flávio Cavalcanti.  Chegamos ao restaurante e o Imperial: “Chediak vou te dar uma sugestão você pede esse prato aqui”. Para filha a mesma coisa: “Luiza vou te dar uma sugestão, você pede esse outro...”. “Eu, como estou de regime, vou pedir uma salada de palmito e uma Coca-Cola”. Ele não bebia, não fumava, mas tomava litros de Coca-Cola. Enquanto esperava, eu tomei um chope. No segundo, ele olhou para mim: “Chediak você está bebendo muito”. “Mas eu não estou de regime, cara”. Vieram os pratos. O que ele me indicou era uma bandeja enorme. Ele falou: “Pô, invejo vocês. Eu estou de regime. Só vou fazer uma boquinha...”. Pegou metade do meu e metade da Maria Luiza (risos). E comeu quase tudo (risos). Eu falei: “Imperial, você tem certeza que está de regime?”. “Estou falando para você. Não posso comer”. O Imperial cativava, era uma figura. Agora, veja só: foi ele quem lançou o Roberto Carlos e muita gente boa da música brasileira.

E ele pagou o senhor certinho na produtora dele?

Tudo. Absolutamente honesto.

Ele gostava de ser polêmico? Inventar coisas...

Ele fazia tudo estudado. O pai dele era banqueiro. A mãe dele era uma senhora com uma distinção imensa. O pai tinha uma educação...Todo mundo educadíssimo. Depois morreu a tia e deixou uma herança fantástica para ele. Ele fazia isso...Inscreveu-se no desfile do Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Cada um com uma fantasia (risos). O Clóvis Bornay, que era outra figura fantástica, o Evandro...Aquelas peças de desfile, o pavão não sei das quantas a cascata de estrelas. O cara anunciava: “Clóvis Bornay no pavão de esmeraldas”. O Imperial candidatou-se e a fantasia dele chamava-se “libélula deslumbrada”. No desfile...Ele entra de fralda com uma asa de borboleta e desmunhecando (risos). Pô...Metade do povo vaiando, outra metade gritando. Tiraram ele...

Mas ele queria isso mesmo...

É...Foi uma gritaria. Tiraram ele do desfile. Aí ele queria processar, tudo para chamar a atenção: “Vou processar o Teatro Municipal. Desrespeitaram minha fantasia de libélula” (risos). Publicaram as fotos em todos os jornais. Ele era inteligente, genial. Um anarquista.

Pegava mau no meio intelectual o senhor ter uma aproximação com ele? Ter trabalhado com o Carlos Imperial?

Na realidade eu não ligava. Porque quando descobri que aquilo era um mito... Era o showbizz. O vale tudo. Na frente das câmeras, na imprensa, o pessoal falava, brigava. Na intimidade todo mundo tomava um uísque junto.

Emiliano Queiroz, Jece Valadão e Glauce Rocha em Navalha na Carne de Braz Chediak
Dos seus filmes como diretor. Qual o senhor prefere?

Acho que o Navalha. Há pouco tempo vi uma reportagem na Internet dizendo que o Navalha na Carne foi quem inventou o steady-cam. Porque não tem cortes, é o tempo todo aquele tipo de luz que foi usado pelos alemães no tempo do Murnau. A gente veio e adaptou aquilo para a América Latina. Depois, o Scorsese usou esse tipo de iluminação nos filmes dele também, a iluminação refletida. Tivemos uma série de inovações, trabalhei com um fotógrafo fantástico que era o Hélio Silva. Os atores eram muito bons...

Os três...

A Glauce (Rocha), o Jece (Valadão), o Emiliano (Queiroz) e o Ricardo que faz o menino do bar. Ele foi morto ou suicidou-se. Ou suicidaram ele em seguida.

A Glauce era excelente atriz, mas não era uma musa como a Leila Diniz. Foi por isso que o senhor escolheu ela?

Ela não era uma musa. A Glauce era como a Jeanne Moreau. Ela tinha um charme, uma força. Assim como as mulheres gregas. As gregas não são assim tão bonitas. Você já notou isso?

Não.

Elas não são. Agora, de repente você olha assim e ela se torna muito bonita porque ela era muito forte. Se você pensar bem a Glauce se parece com o Jean-Paul Belmondo, ela mesmo dizia isso. Mas ela não era feia. Ela não tinha uma beleza comum. Mas era uma mulher maravilhosa e uma atriz incrível. Vi Electra com ela, que coisa fantástica. A Glauce era genial.

Como foi o convívio com o Plínio (Marcos, dramaturgo)? Vocês se deram bem?

Sim. Nos demos muito bem. Quando ia a São Paulo sempre almoçava na casa dele. Ele era casado com a Walderez (de Barros, atriz). Sempre ia lá... Quando ele vinha ao Rio a primeira coisa que fazia era me telefonar. Ia para casa...

Vocês tinham mais ou menos a mesma idade?

Sim. Até fisicamente a gente era parecido. Me dei muito bem com ele. Aliás, ele até queria que eu dirigisse Abajur Lilás, mas eu falei: “Plínio eles vão prender nós dois”. Ele chegou até a sugerir um elenco: “Chediak você coloca o Ziembinski para fazer a velha dona do bordel”. O Ziembinski fazia um personagem na televisão que era uma velha numa novela chamada O Rebu. “Põe ele pra dona do bordel”. O Ziembinski era genial: ator maravilhoso, diretor maravilhoso. Eu falei: “O problema não é esse. O problema é que a peça está proibida e vai dar errado”. O que era a peça? Uma sessão de tortura de uma mulher que roubou um abajur. “Eles vão ligar a tortura militar, pô. Vai dar problema e eu já estou com problema. Você já é um problema”.

Sim. Ele era o autor mais visado, mais censurado.

Sim, muito censurado. Eu disse: “A Censura já me chamou a Brasília. Não vamos nos enrascar mais. Caramba. Não vamos fugir da raia, mas não vamos provocar”. Mas foi uma relação boa. Eu sempre tive uma relação boa com o Plínio. Com o Nelson (Rodrigues) também. Foi uma relação maravilhosa.

Mas acho que o Nelson foi mais intensa porque vocês tiveram uma relação mais intensa.

Eu convivi com a família toda. Fui muito próximo do Nelsinho (Rodrigues), do Joffre (Rodrigues). Quando eu fui pra Itália estudar o Joffre foi lá pra Roma: “Vamos alugar um apartamento”. “Não dá Joffre, não tenho grana!”. Dona Elza, a esposa do Nelson...Uma pessoa maravilhosa. Ela se preocupava muito comigo, se eu estava me alimentando direito. Sabe essas coisas de mãe? Nessa época que eu conheci, eu era rapazinho e o Joffre também. Eles moravam na rua Agostinho Menezes na Tijuca. Dona Elza fazia uma salada de feijão fradinho deliciosa. Eu ia lá para comer. Domingo não abria o restaurante Calabouço, eu ia comer lá e a dona Elza me fez uma proposta incrível: “Chediak você vai estudar Direito”. “Mas dona Elza eu não vou estudar Direito”. “Não. Você vai. Porque você indo o Joffre vai”. “Mas eu não tenho como pagar uma faculdade”. Eu tinha passado no vestibular e bem...Tinha passado na Cândido Mendes. “Você faz o seguinte: eu vou pagar a sua faculdade. Você come aqui em casa e eu te dou uma mesada. Você vai estudar pro Joffre estudar” (risos). “Dona Elza: a senhora vai me desculpar. O Joffre estuda sozinho”. O Nelsinho usava calça curta. E eu ia lá visitar o Nelson na redação do Correio da Manhã.  Muitas vezes ele tomava doze, doze comprimidos de Melhoral.

Ele tomava doze comprimidos de uma vez?

Doze de uma vez. Ele abria a boca e ficava com eles lá na garganta e depois os engolia com uma xícara de café. Por isso ele tinha úlcera. A úlcera era até um personagem das crônicas dele. Hoje a gente sabe que aquilo é um horror para quem tem úlcera.

Então ele piorava com isso...

Sim. Mas não se sabia na época...

Ele não bebia álcool?

Não.

Mas fumava, né?

Muito (rindo). Lembro....Era engraçado. Quando foi proibido de fumar, a gente ia sair, ele entrava no elevador e a primeira coisa que fazia: “Com licença” e tirava o cigarro do nosso bolso. Aí tirava o filtro...Nós combinamos inclusive, eu, Joffre, Nelsinho: “Ninguém leva o cigarro no bolso. Nós vamos ficar sem fumar”. Porque eu fumava muito, era tabagista mesmo, três maços por dia: “Não vamos levar cigarro pra onde o Nelson estiver”. Mas ele fumava demais e foi tuberculoso.

Mas era da geração. Naquela geração as pessoas fumavam demais...

Muito. Ás vezes, ele dizia: “A vida só não me deu bola de cachorro louco”. Você sabe o que é bola de cachorro louco?

Não.

Bola de cachorro louco é uma bola de carne em que colocam veneno para o cachorro comer e morrer. Ele usou “cachorro louco” para reforçar a frase. Porque um cachorro louco não come nem bebe principalmente água. Por isso chamam hidrofobia. Não bebe.    
Lucélia Santos em Bonitinha, Mas Ordinária de Braz Chediak
Dos filmes baseados no Nelson qual o seu preferido?

O Bonitinha foi um sucesso de público absoluto. No Brasil não foi bem de crítica...Aqui só um jornalista gostou do filme que foi o Xico Sá. Ele falou bem da cena da curra, uma das cenas mais eróticas que já tinha visto. Teve um jornal na Itália que disse que foi a cena mais erótica do cinema mundial, a cena da curra da Lucélia (Santos). Na época a crítica esculhambou. Uma grande revista de nível nacional fez uma matéria, gastou páginas só para falar mal. E olha que o crítico era diretor de cinema. Mas foi um sucesso estupendo.

Dos três foi o maior sucesso?

Sim. Depois quando nós fizemos o Perdoa-me Por Me Traíres aconteceu a mesma coisa. O mesmo crítico pediu para ver antes do lançamento, mas não deixei: “Não. Mas se não for antes de todo mundo não sai na minha coluna”. Eu falei: “Dane-se”. Aí depois ele ligou lá pra casa do Nelson: “Foi o melhor filme que já vi de Nelson Rodrigues, podia ter saído”. Pois é. Depois que passou o filme fica muito fácil.

Eu vi o Perdoa-me a muito tempo. Mas o elenco do Bonitinha é muito bom. Tem a Miriam Muniz inclusive...O Wilker. O senhor se deu bem com todo mundo?

Todo mundo meu amigo. O Wilker a gente praticamente começou junto.

O Milton Morais está bem também...

Ótimo. O Milton era fantástico. Um monstro...Carlos Kroeber.

Carlos Kroeber está ótimo.

Mineiro ele também. É de Belo Horizonte. O Perdoa-me é um grande papel da Vera Fischer. Tenho um amigo escritor que se encontrou com a Vera e comentou com ela: “Foi a melhor coisa que eu vi de trabalho seu como atriz”. Ela está realmente no nível de Ingrid Bergman, no tempo certo de interpretação. Perfeita.

E ela era uma pessoa difícil?

Não, não. Pelo contrário: a Vera era de uma família humilde, uma mulher muito bonita e muito inteligente. Só para você ter uma ideia eu tenho por princípio, quando eu estou filmando, sentar na mesma mesa da equipe. Porque cinema tem isso: restaurante para os atores e diretor, quentinhas para os técnicos. Eu falava: “Não. Eu vou comer a mesma coisa que o eletricista come”. Sentava com o pessoal. No primeiro dia de filmagens com a Vera, a produção falou: “Vera: vocês vão almoçar no restaurante tal e vamos trazer as quentinhas pra equipe”. Falei com a produção: “Eu como aqui com a equipe. Pode trazer uma pra mim também”. Sentei na três tabelas e a Vera na mesma hora: “Não, não. Vou comer aqui com eles. Nada de restaurante”. Sabe? Ela era de uma...A Lucélia (Santos) a mesma coisa.

A Lucélia foi uma atriz tranquila?

Demais. Nós fomos filmar lá em São João del Rey o Álbum de Família. A Secretaria de Cultura de lá tem uma casa com vários apartamentos pequenos, com banheiros, para quando apresentarem peças de fora os atores ficarem. E eles nos ofereceram. Nós nos hospedamos todos lá. Eu chamei a produção: “A Lucélia, você coloca no hotel”. Ele foi para o melhor hotel da cidade. Aí, lá pelas oito horas da noite ela chega no alojamento: “Poxa estou triste”. “Triste por quê? O que está acontecendo?”. “Todo mundo aqui conversando e eu sozinha lá no hotel. Eu não vou voltar para lá não. Vou ficar aqui”. “Mas Lucélia aqui a condição é meio precária”. “Não tem importância. Tem algum colchão sobrando?”. Aí ela falou com o Rubens Correia e o Marcos Alvisi: “Não tem um canto no apartamento de vocês?”. Eles: “Um canto tem”. Ela: “Põe um colchão no chão”. Puseram um colchão no chão e durante todo tempo de filmagem ela ficou lá. Arrumava o colchão dela de manhã e não tinha essa frescura. Nada isso. Ela nunca teve. Maravilhosa profissional.

O senhor trabalhou com a Darlene Glória em que filme?

Os Viciados. Quando eu trabalhei com ela, a Darlene ainda não tinha explodido. Ela explodiu no filme do (Arnaldo) Jabor (Toda Nudez Será Castigada). Quando a conheci ela era uma moça que, praticamente, morava na Magnus Filmes porque era muito solitária. Á noite ela fazia uma peça chamada Pais Abstratos. Era ela, Jorge Dória e Glauce (Rocha). Ela tinha vindo lá de Cachoeiro do Itapemirim.

Ela e o Jece eram amigos?

Sim. O Jece era o dono da Magnus. Eles eram amigos. Muito boa de trabalhar, era bonita, ótima atriz. A Darlene veio no lançamento da minha biografia aqui em Varginha. Tinha um festival de cinema e foram lançar meu livro lá. Ela e a Lucélia (Santos) vieram. Eu e a Lucélia nos falamos sempre. Com a Darlene é raro...Mas com a Lucélia fui a São Paulo ver a peça A Falecida, do Nelson Rodrigues, ela fazendo a Zulmira, direção do Marco Antônio Braz. Fui lá, assisti, muito boa a peça. Saímos juntos e fomos jantar. Eu, ela, meu filho, minha nora.

O que o senhor acha do cinema brasileiro atual? O senhor acompanha?

Não. Tempos atrás um diretor, Marcelo Laffitte, me mandou um filme...Não conheço ele pessoalmente. Mas ele me mandou, Elvis e Madona...

Com a Simone Spoladore?

Isso. Assisti. Achei ótimo, essa moça (Simone Spoladore) é maravilhosa. Vi um outro infantil que achei fantástico. Achei tão bom que quando assisti entrei no Facebook, achei o diretor, Tony Vanzollini e dei os parabéns a ele. Ele me agradeceu de uma maneira muito agradável: “Que bom. Por causa disso que a gente continua”. Chama-se Eu e o Meu Guarda-Chuva. Muito bonito o filme. Os atores bons e o diretor...Achei a direção dele ótima. Tem aquele cara que não é ator, mas está bem no filme, um cantor que é um tipo engraçado faz um cara meio burocrático, meio kafkiano, o Arnaldo Antunes. Ficou ótimo.

O senhor ainda tem muitos projetos em cinema? Não tem vontade nenhuma de voltar?

Não. Quando deixei o cinema eu tive motivo. Antes existiam estúdios e eu era o diretor. Então, o estúdio me ligava: “Chediak: a gente está querendo fazer um filme assim esse ano”. Eu escrevia ou adaptava uma peça...Isso acabou. O diretor tem que pegar uma pastinha, sentar ali na empresa e ficar esperando porque precisa de patrocínio...Esse papel eu não sei fazer. Já houve alguns projetos que me chamaram, mas a ideia ás vezes não me cativou e ás vezes o pessoal que me procurou não me cativo. Por exemplo, me chamaram para fazer um filme sobre o ET de Varginha (risos). Não aceitei. Primeiro porque o cara chegou na minha casa eram duas da manhã. Isso não é horário pra chamar ninguém para dirigir filme. Depois ele queria ser o ator principal. Eu olhava a cara dele...Me garanto como diretor mas não senti empatia. Falei: “Não quero”.

O Joffre chegou a fazer um filme baseado no Nelson com a Simone Spoladore alguns anos atrás: O Vestido de Noiva. O senhor chegou a ver? O que achou do filme?

Pois é...O Joffre falou que o filme era genial, etc. Eu não vi. Até porque o Joffre não admitia crítica, ficava brabo e triste. Então eu decidi não ver. Quando fui ao Rio, ele e a Marta, esposa dele me convidaram mas eu não pude ver. Até porque acho a Marília Pêra maravilhosa, acho ela a melhor atriz brasileira. Acho Pixote o melhor trabalho dele em cinema, entende? Ela dá um show. Ah, meu filho, Yassir Chediak, faz uma ponta ou figuração, sei lá, no filme.

O senhor se considera um diretor injustiçado?

Honestamente? Eu não me preocupo com essa coisa. De vez em quando vejo pela Internet comentários que me esculhambam. Mas a maioria, a grande maioria me elogia. Principalmente os jovens.

Os jovens de hoje são mais tolerantes, estudam mais...Ficaram cansados com o mau humor dos críticos velhos. Interessante...Essa semana mesmo eu estava vendo um diálogo. Um cara estava falando do Dois Perdidos. Esqueci quem montou...Estavam falando sobre montagem, aí surgiu o assunto do filme. Uma atriz, uma jovem atriz falou: “Eu vi a versão do Braz Chediak. É espetacular”. A outra: “Não gostei”. Vejo muito esse tipo de comentário em relação ás refilmagens tanto do Navalha como do Bonitinha, Mas Ordinária. Até brinco: “Estão refazendo os meus filmes porque acham muito ruins ou porque querem me prestar uma homenagem”. Mas não vi nenhuma refilmagem. Até fui convidado pra fazer uma, o Boca de Ouro, mas não aceitei: acho que um clássico não se refilma.