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quinta-feira, 4 de janeiro de 2024

Vida de Jornalista IV de IV: Copa de 82: o “quase” campeão

 

           Por Luiz Carlos Ramos

 

Uma pergunta: algum leitor já esteve em Andorra? Andorra é um minúsculo país situado nas montanhas doas Pireneus, entre a Espanha e a França, fora das principais rotas de turismo. Estive lá por algumas horas, em 1982. E o que isso tem a ver com a surpreendente eliminação do Brasil na Copa do Mundo, na Espanha? Na minha visão de otimista, tudo a ver. Vou contar os detalhes no final deste capítulo específico sobre a Copa. Não tenho a pretensão de fazer um relato completo do Mundial: a história toda está na memória de muita gente e em ótimos livros, entre os quais o “Almanaque da Copa do Mundo”, do igualmente saudoso Orlando Duarte, e “Biografia das Copas”, do jovem Thiago Uberreich.

O fato é que, naquele 5 de julho de 1982, eu estava lá, no Estádio Sarriá, em Barcelona, em minha terceira Copa, e também fiquei muito triste com a inesperada derrota do Brasil para a Itália por 3 a 2, que definiu a prematura volta da seleção (e a minha volta) para casa. Foram 32 dias de trabalho intenso na Espanha, coordenando a equipe de cobertura da Copa pelo “Estadão”, entrevistando e escrevendo, vivendo o duplo papel de jornalista e torcedor.

A missão começou em 4 de junho, apenas uma semana depois do nascimento da minha primeira filha, Maitê (hoje com 41 anos, ela é mãe dos meus netos Theo e Noah). Embarquei no Aeroporto de Cumbica. O destino: Madri, onde fiz conexão para um voo rumo a Sevilha, cidade e que o Brasil disputaria seus três primeiros jogos no Mundial. A seleção de Telê Santana havia passado por uma fase de treinos, em Portugal, antes de seguir para a Espanha e ficar concentrada no Hotel Rey Don Pedro, um palácio de mais de 800 anos, na pequena cidade de Carmona, a 40 quilômetros de Sevilha.

Nossa competente equipe da Copa para o “Estadão” contou com os repórteres Antero Greco, Edson Luiz dos Santos, Nelson Cilo, Altair Baffa, Milton José de Oliveira e um tal de Fausto Silva, o Faustão, aquele que contratei no jornal em 1973 e que começava a ficar famoso na televisão, enquanto também se destacava nas Rádios Globo e Excelsior. Os fotógrafos eram Reginaldo Manente e Alfredo Rizzutti, trabalhando também para o “Jornal da Tarde”.

Pela primeira vez desde a disputa pioneira de 1930, o número de países no Mundial foi ampliado de 16 para 24, fruto do gigantismo lançado pelo presidente da Fifa, o brasileiro João Havelange, de lamentáveis histórias de corrupção no futebol. A partir da Copa de 1998, na França, o número saltou para 32 e se manteve até 2022, no Catar, época em que a Fifa, sob a presidência do suíço Gianni Infantino, mantinha o estilo ganancioso, anunciando nova ampliação, desta vez para 48 vagas, no Mundial de 2026, programado para os três países da América do Norte – Estados Unidos, Canadá e México.

Na Copa de 1982, na Espanha, o Brasil estreou em 14 de junho, contra a União Soviética, no Estádio Sánchez Pizjuán, em Sevilha. O time de Telê Santana foi este: Valdir Peres, Leandro, Oscar, Luisinho e Júnior; Falcão, Sócrates, Zico e Dirceu; Serginho e Éder. Aos 33 minutos, um susto: gol de Baal para os soviéticos. No segundo tempo, porém, com Paulo Isidoro no lugar de Dirceu, a seleção de Telê conseguiu uma virada, 2 a 1, com um lindo gol de Sócrates, aos 30 minutos, e um de Éder, a dois minutos da final. Sustos à parte, o time sentiu falta do goleador Careca, que tinha viajado com a delegação para a Europa, mas acabou sendo cortado depois de se contundir num jogo-treino em Portugal.

A vitória, porém, serviu para a seleção ganhar mais confiança O time brasileiro passou facilmente pelos outros adversários do grupo – 4 a 1 contra a Escócia e 4 a 0 contra a Nova Zelândia. Os escoceses, habitualmente lutadores, fizeram 1 a 0, mas o Brasil reagiu com gols de Zico, Oscar, Éder e Falcão.

O Brasil, classificado, despediu-se de Sevilha e seguiu para Barcelona, onde enfrentaria a Argentina e a Itália na segunda fase do Mundial. A seleção de Telê, já apontada como favorita ao título, ficou isolada em Saint Quirze Safaja, uma cidadezinha em região montanhosa, a 38 quilômetros de Barcelona. Num carro fretado, nossa equipe ia diariamente até lá para entrevistar o técnico e os jogadores. Havia grande expectativa para os dois jogos. A Argentina, antigo rival, contava com Maradona, um dos melhores jogadores do mundo. A Itália tinha se limitado a três empates na primeira fase do Mundial, mas, pela tradição, também merecia respeito.

Estranhamente, as partidas do Brasil não seriam disputadas no maior estádio da cidade, o Camp Nou, do Barcelona, com capacidade para 110 mil pessoas, mas sim no Sarriá, do clube Espanyol, para apenas mil. O fato é que milhares de torcedoras brasileiros haviam cruzado o Atlântico para apoiar a seleção. O verde e o amarelo tomaram conta das ruas e dos estádios da bela cidade catalã. E até os torcedores espanhóis, frustrados com o desempenho da seleção deles, passaram a demonstrar simpatia pelo time brasileiro, constantemente elogiado pela imprensa local e de outros países.

A segunda fase começou em 29 de junho, terça-feira: Itália x Argentina. A Azurra, que estava em crise por causa da falta de vitórias – havia empatado com a Polônia, Camarões e Peru -, reclamava das críticas da imprensa italiana. A Argentina havia perdido da Bélgica, mas reabilitou-se, ao derrotar a Hungria e El Salvador, e chegou ao Sarriá. A Itália foi melhor, acabou superando todos os traumas da primeira fase e derrotou os argentinos por 2 a 1.

Em 2 de julho, sexta-feira, no Sarriá, o Brasil teve grande atuação e venceu a Argentina por 3 a 1, gols de Zico, Serginho e Júnior. O jogo chegou a 3 a 0, mas Diaz marcou no penúltimo minuto. Mesmo assim, o time de Telê havia assegurado vantagem no saldo de gols para tentar eliminar a Itália, três dias depois, e ficar com a vaga de semifinalista. Bastaria um simples empate na partida de segunda-feira. Maradona não estava bem, no clássico sul-americano, mas deixou um estrago no time rival: com uma falta violenta quase no fim do jogo, ele tirou de campo Batista, que havia entrado no lugar de Zico, e acabou sendo expulso.

A equipe do “Estadão” garantiu ótima cobertura do jogo para a edição de sábado e antecipou reportagens para o jornal de domingo, uma pré-apresentação de Brasil x Itália. Portanto, a seleção de Telê, elogiada pela imprensa internacional estava a apenas três passos do título. E o capitão Sócrates acreditou no favoritismo de seu time: na concentração de Sant Quirze Afaja, ele deu entrevistas entusiasmadas e até ensaiou, diante dos fotógrafos, uma coreografia para o momento de receber a Copa após a possível vitória na final – não queria repetir os gestos moderados de Bellini, Mauro e Carlos Alberto Torres.

Nós, do time do “Estadão”, também estávamos entusiasmados, tanto que idealizamos um passeio para o domingo, dia de folga, véspera do grande jogo. Na época, o jornal não saía às segundas-feiras, o que nos abriu a possibilidade de fazer uma pequena viagem no automóvel alugado pela empresa.

Num bate-papo com os repórteres Antero Greco e Nelson Cilo e com o fotógrafo Alfredo Rizzutti, decidimos conhecer outro país, Andorra, entre a Espanha e a França. Saímos logo cedo do nosso hotel, em Barcelona, e seguimos por 205 quilômetros, até o Principado de Andorra, de apenas 468 quilômetros quadrados e de menos de 100 mil habitantes, no alto dos Pirineus. Foi ótimo. Passeamos pelas ruas da capital, Andorra-a-Velha, almoçamos peixe frito num restaurante e até visitamos uma estação de esqui no lado francês. Voltamos para Barcelona à noite e tratamos de descansar para a cobertura do dia seguinte. Já tínhamos até planejado, para uma nova folga, outro passeio, já na região de Madri, sede da final. Planos são planos, realidade é realidade.

Em 5 de julho, o Estádio Sarriá estava lotado, colorido pelo amarelo dos torcedores que haviam atravessado o Atlântico. Mas, em campo, quem amarelou de vez foi a seleção brasileira. Era a mesmo a tarde Paolo Rossi, mas o Brasil não esteve bem e perdeu por 3 a 2, sem ter tido equilíbrio para segurar os 2 a 2 após o gol de Falcão, marcado aos 23 minutos do segundo tempo. O primeiro gol brasileiro havia sido de Sócrates. Numa sucessão de erros do Brasil, Rossi, autor de dois gols – aos 5 e aos 25 minutos de jogo – fez o terceiro quando faltavam 15 minutos para o fim. Havia tempo para o Brasil reagir e chegar ao empate pela classificação, mas faltou a malícia que o futebol brasileiro havia exibido tão bem na Copa de 1970, nos 4 a 1 da final contra a própria Itália. Este foi o time da derrota: Valdir Peres; Leandro, Oscar, Luisinho e Júnior; Falcão, Cerezo, Sócrates e Zico; Serginho e Eder. Aos 34 minutos do segundo tempo, Paulo Isidoro entrou no lugar de Serginho.

Inacreditável. Festa italiana no Sarriá. Choro do time amarelo e da torcida amarela. Ao dar entrevista coletiva após a eliminação, Telê Santana foi aplaudido por jornalistas, já que, de fato, o Brasil tentou jogar um futebol bonito e limpo, sem violência, ao longo da Copa.

Esperto e sensível, o fotógrafo Reginaldo Manente, das equipes de cobertura do “Estadão” e do “Jornal da Tarde”, conseguiu registrar o choro de um menino de dez anos, que usava a camisa do Brasil: o retrato da decepção. Manente mostrou-me a foto do garoto, enviada a São Paulo por meio de aparelho de telefoto, direto da nossa redação, no topo do Nou Camp, o estádio do Barcelona, a dois quilômetros do Sarriá. No dia seguinte, quase todos os jornais do mundo publicaram, na capa, os gols de Paolo Rossi. O “Jornal da Tarde”, porém, sempre criativo e ousado, fez algo diferente: abriu a foto do menino dominando toda a primeira página, com uma tarja preta e a simples legenda “Barcelona, 5 de julho de 1982”. Manente e o “JT” ganharam prêmios, merecidamente. Parabéns ao fotógrafo Reginaldo Manente e aos editores Mário Marinho, Sandro Vaia e Fernando Mitre.

A Itália passou também pela Polônia, 2 a 0, em 8 de julho, em Barcelona, e não deu bola para a Alemanha na final, 3 a 1, no Estádio Santiago Bernabéu, em Madri, conquistando a Copa com gols de Paolo Rossi, Tardelli e Altobelli, no dia 11. Dos três empates do início do Mundial Às quatro vitórias decisivas, a Azurra foi mesmo uma surpresa.

No dia 6, o “quase” campeão embarcou, em Barcelona, num voo especial, rumo a São Paulo e Rio, com escala em Las Palmas, nas Ilhas Canárias. Fiz a viagem de retorno nesse avião e presenciei a tristeza dos jogadores. Também fiquei triste, mesmo porque o Brasil tinha um grande técnico, Telê Santana, e um bom presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), Giulite Coutinho. Quase ao comportamento do elenco, houve falhas individuais e, além de tudo, faltou liderança contra a Itália.

Na atualidade, há quem diga que a seleção de 1982 foi a melhor da história do futebol brasileiro. Não concordo: quem assistiu ao Mundial de 1970 no México ou pela TV, em que o Brasil ganhou o título com Pelé, Gérson, Rivellino e outros craques, sabe que o time de Telê Santana foi inferior tanto no conjunto quanto nos destaques individuais. E convém relembrar que a geração bicampeã mundial de 1958 a 1962, de Pelé, Garrincha, Gilmar, Zito e Didi, também deixou sua marca expressiva, em tempos de comunicação ainda precária, sem TV via satélite.

Voltei à Espanha, 17 vezes, de 1988 a 2019. Em todas elas, voltaram à minha memória, por alguns momentos, as cenas de 5 de julho de 1982. Numa das idas a Barcelona, presencie Telê Santana festejando título em pleno Sarriá. Foi em agosto de 1992: seu clube, o São Paulo, derrotou o Español por 2 a 1 e conquistou o Troféu Cidade de Barcelona, disputado em jogo único. A taça foi entregue ao capitão Müller pelo carismático prefeito Pasqual Maragall. Telê levaria o Tricolor a muitos outros títulos, entre os quais os Mundiais de Clubes de 1992 e 1993. Retornei ao bairro de Sarriá em 2015. A paisagem estava diferente. O estádio havia sido demolido, dando lugar a um shopping center.

 

Retirado de: RAMOS, Luiz Carlos. Vida de Jornalista. São Paulo: A4 Ideias Editora, 2023.

quinta-feira, 28 de dezembro de 2023

Vida de Jornalista III de IV: A grande cobertura do milésimo gol de Pelé

 


            Por Luiz Carlos Ramos

 

            O milésimo gol de Pelé ocorreu na noite de 19 de novembro de 1969, dois meses e meio depois da minha chegada ao “Estadão” e três semanas após a morte do meu pai, Luiz, um são-paulino que admirava o craque, apesar de frustrado com os belos gols do “Rei” contra o nosso time no Morumbi e na Vila Belmiro.

            O primeiro gol de Pelé pelo Santos foi em sua estreia no clube, em 7 de junho de 1956, uma goleada por 7 a 1 em amistoso contra o Corinthians de Santo André, no ABC.

            Uma vez que a contagem regressiva para o gol número 1.000 havia começado em outubro, o editor Esportes, Lundebergue Góes, soube organizar tudo para uma excelente cobertura do “Estadão”, com ajuda de Raul Martins Batos, responsável pela rede de sucursais e correspondentes do jornal. Além da nossa equipe efetiva, Góes conseguiu o reforço temporário do excelente Hamilton de Almeida Filho, aquele que, juntamente com o Sérgio Pompeu, me contratara para o “Jornal da Tarde” em 1966. Hamiltinho assumiu a chefia de Reportagem, com a tarefa de também ajudar no fechamento da edição histórica. Não faltou o toque intelectual: Góes havia encomendado uma crônica ao crítico literário Décio de Almeida Prado e um poema a outro escritor, Mário Chamie.

            E quem seria o repórter enviado especial ao Rio para cobrir, no Maracanã, Vasco x Santos pelo Torneio Roberto Gomes Pedrosa, o Robertão, em que poderia, afinal, sair o milésimo gol?

            A foto histórica da comemoração do milésimo gol, aos 34 do segundo tempo, responde à pergunta: Pelé cobra de modo preciso o pênalti contra o goleiro Andrada, corre até a rede e beija a bola, entre dos repórteres que chegaram primeiro até a ele. À direita, Geraldo Blota, da Rádio Gazeta, de São Paulo. À esquerda, junto à rede, Reginaldo Leme, do “Estadão”.

Santos 2 x 1 Vasco. O jogo ficou interrompido por dez minutos. Nas arquibancadas, mais de 60 mil pessoas aplaudindo e gritando “Pelé, Pelé, Pelé!”. O craque deu a volta olímpica, acenando. O texto de Reginaldo sobre aqueles momentos foi emocionante, com relato do discurso do “Rei”. Um apelo contundente de Pelé, após buscar a bola no fundo da rede: “Minha gente, a vida é sofrida. Vamos aproveitar o momento e que estamos unidos por um acontecimento para pensar nos outros e não apenas em nós. Pelo amor de Deus, as crianças que sofrem, as pessoas que sofrem e as que não têm chance de pensar numa vida melhor precisam de nós. Também os cegos. Enfim, todas as pessoas. Pelo amor de Deus, minha gente, escutem o que estou dizendo. É hora de o povo brasileiro não pensar apenas em festas, mas sim no próprio sofrimento”.

Alguns leitores deste livro podem estranhar o fato de Reginaldo Leme, jornalista de sucesso em quatro décadas de coberturas de Fórmula 1 pela TV Globo ter sido escalado para aquele jogo de futebol. Acontece que, então, Reginaldo Leme ainda era um iniciante especialista em futebol, cobrindo diariamente o Palmeiras. Foi o editor Góes quem o deslocaria para o automobilismo em 1972, enviando-o a Monza, em setembro, para cobrir o Grande Prêmio da Itália. Reginaldo foi “pé quente”: naquela corrida, Émerson Fittipaldi tornou-se campeão de F-1, o primeiro grande título de um piloto brasileiro.

Sorte, somada ao talento, sempre caracterizou Reginaldo. Sua ida ao Maracanã foi uma demonstração disso. No início de outubro, quando Pelé já estava perto do milésimo gol, Góes reuniu os jovens repórteres João Prado Pacheco, Éverton Capri Freire e Reginaldo Leme e, diante da tabela de jogos do Santos pelo Robertão, fez um sorteio: cada um faria a cobertura das três partidas seguintes. Reginaldo havia ficado frustrado por ter sido sorteado para o fim, mas o milésimo não saiu em jogos a cargo do Prado e do Éverton, e coube a ele viajar para o Rio, em novembro, e ficar hospedado no Hotel Novo Mundo, o mesmo da delegação do Santos. Astuto, o repórter permaneceu no saguão do hotel, aguardando a hora de os jogadores saírem para o Maracanã, e tratou de seguir o ônibus. Diante do estádio, deum um jeito de entrar com o grupo do Santos, direto para o campo, em vez de subir até a tribuna de imprensa. Sentado ao lado de fotógrafos, atrás do gol do Vasco, Reginaldo ficou pronto para dar o bote, aparecer na foto histórica e dar um sabor especial ao seu texto.

O gol de Pelé saiu pouco depois das 23 horas. O resultado do jogo, vitória do Santos por 2 a 1, pouco importava. Naquele momento, o grito de gol ecoou por toda a Redação do “Estadão”, seguido do barulho das máquinas de escrever. Eram mais de 15 jornalistas concentrados na edição, que só foi completada às 2 horas da madrugada. O então austero matutino provava que já tinha condições de mostrar, com talento e criatividade, os grandes fatos do esporte. No dia seguinte, não cansamos de admirar as três páginas. Um maravilhoso trabalho de equipe. Para mim, além de tudo, excelente oportunidade de integração ao novo time.

 

Brasil tricampeão, na Copa de Pelé

 

Do milésimo gol à aclamação como craque da Copa, foi um pulo. Pelé, acostumado a ganhar títulos, ficou fora das finais do Robertão de 1969, no encerramento: o Palmeiras ganhou o quadrangular decisivo contra o Corinthians, Cruzeiro e Botafogo. E o ano terminou com o Brasil de olho da Copa do Mundo. Na Redação do “Estadão”, mergulhamos na cobertura da seleção de João Saldanha, já em janeiro de 1970, acompanhamos as crises e a troca de técnico, com a chegada de Zagallo e, afinal, a definição do time e a viagem da delegação para o México. No mesmo voo, seguiram nossos experientes repórteres Paulo de Aquino e Milton José de Oliveira, juntamente com o fotógrafo Oswaldo Palermo, prontos para enviar material jornalístico de grande qualidade.

Pelé, sobre o qual Saldanha havia lançado a suspeita de que, por ter miopia, enfrentaria problemas ao jogar, acabou enxergou tudo, na Copa e até o fim da carreira. Além disso, o então treinador da seleção comento que o “Rei” não se daria bem numa dupla com Tostão no ataque titular. Nas seis vitórias do Brasil, Pelé marcou quatro gols, fez jogadas individuais incríveis, e também em perfeito conjunto com Tostão, Rivellino, Jairzinho, Gérson, Clodoaldo. Após os 4 a 1 da final contra a Itália, no Estádio Azteca, o “Rei”, autor do primeiro gol, saiu de campo ovacionado, carregado em triunfo como o maior craque da Copa. Alguém colocou em sua cabeça um enorme “sombrero”, símbolo mexicano.

A seleção brasileira campeã foi essa: Félix; Carlos Alberto, Brito, Piazza e Everaldo; Clodoaldo, Gérson e Rivellino; Jairzinho, Tostão e Pelé. Os gols foram, pela ordem, de Pelé, Gérson, Jairzinho e Carlos Alberto. Técnico: Mário Jorge Lobo Zagallo, aquele que conheci em 1968, numa das minhas idas ao Rio, tema de capítulo anterior.

Em São Paulo, fizemos a nossa festa, vendo tudo pela TV. Ao lado de Lundenbergue Góes, participei diretamente dos trabalhos de edição, que tiveram apoio de Raul Martin Bastos e Clóvis Rossi. O jornal continuava dando prioridade às áreas de Política, Economia e Internacional, mas ampliava o espaço para o Esporte. Aquela minha segunda Copa do Mundo em trabalho à distância foi bem melhor do que a da Inglaterra, em 1966, época em que acompanhei os jogos pelo rádio da Redação da “Última Hora” e me decepcionei com a eliminação do Brasil logo na primeira fase. Como seria o Mundial de 1974? Já não haveria Pelé na seleção. E eu estaria na Alemanha, coordenando a equipe do “Estadão”, tema para daqui a alguns capítulos.

 

 

Retirado de: RAMOS, Luiz Carlos. Vida de Jornalista. São Paulo: A4 Ideias Editora, 2023.

quinta-feira, 21 de dezembro de 2023

Vida de Jornalista II de IV: A primeira reportagem

 


     Por Luiz Carlos Ramos

           

            Tenho certeza de que meus olhos brilharam. Meu estilo otimista me dizia que, com paciência e determinação, eu seria aprovado nos testes, mas sem subestimar as barreiras. Como seria aquele mês? Eu teria de levantar cedo, ir até o “Jornal da Tarde” para pegar a pauta do tema de minha reportagem do dia, ir ao local estabelecido, levantar todas as informações, e deixar para escrever o texto à noite, no próprio “JT”. Tomar um lanche da hora do almoço, correr para a “Última Hora” e cuidar do habitual trabalho de cobrir os clubes pelo telefone até às 18 horas, escondendo do Paes Leme minha possibilidade de mudar de emprego. Em seguida, voltar para o novo jornal.

            Um jornal? Não. Na realidade, dois: a mesma equipe de jornalistas que produzia a seção de Esportes do “Jornal da Tarde” era responsável pelo semanal “Edição de Esportes de O Estado de S. Paulo”, apelidada de “Estadinho”, lançada em setembro de 1964 para circular aos domingos à noite, com cobertura dos jogos do fim de semana. Era uma alternativa moderna em relação à tradicional “A Gazeta Esportiva”, com a vantagem de evitar submissão aos dirigentes de futebol.

            Mino Carta, primeiro editor-chefe do “Estadinho”, fez daquele pequeno laboratório para formar e treinar a equipe que ele comandaria no lançamento do “JT”, em 4 de janeiro de 1966. Mino, extrovertido, arrojado e vaidoso, demitiu-se em 1968 para lançar a revista semanal “Veja”, levando vários integrantes do time. E Murilo Felisberto, discreto, mas genial, assumiu o comando do “JT”.

            Portanto, por algum tempo, naquele final de 1966, eu estaria a serviço da “UH”, do “JT” e do semanário – este já nas mãos de outro grande jornalista, Sebastião Gomes Pinto, o Tão. Fiquei conhecendo o próprio Tão, os excelentes repórteres José Maria de Aquino, Vital Battaglia, Tim Teixeira, Luciano Ornelas, Darci Higobassi e outros; os redatores João Werneck, Otoniel dos Santos Pereira e José Carlos Abbate, e os colunistas Mauro Pinheiro e Cláudio Carsughi. Eles seriam meus companheiros somente após a esperada aprovação nos testes.

            Da primeira reportagem, a gente jamais esquece. Minha tarefa na segunda-feira, 18 de outubro, foi entrevistar o goleiro Heitor, do Corinthians, acusado de falhar em três dos gols da derrota por 4 a 3 diante do Noroeste, em pleno Parque São Jorge. A torcida corintiana estava revoltada com ele. Seu futuro no clube ficou em risco. Cheguei bem cedo à Redação do “JT”, li a pauta, peguei o endereço do Heitor, um apartamento no Tatuapé, perto do clube. Ao contrário das limitações impostas pela “Última Hora” em crise, o “Jornal da Tarde” dispunha de todos os recursos para o trabalho externo dos repórteres. Passei pelo Departamento de Fotografia, ao lado da Redação, e me apresentei ao experiente Arnaldo Fiaschi, escalado para ser meu parceiro na missão de estreia. Boa gente, Arnaldo me contou que havia trabalhado na “Gazeta Esportiva” e que cobriu a Copa de 1962, no Chile. Descemos até a garagem do prédio, entramos numa van e seguimos para a Zona Leste.

            Encontramos um Heitor abatido, ao lado da esposa, Dilma, e tendo aos braços o filho de apenas 7 meses. Explicou que no sábado, dia 16, ele amanheceu com forte gripe, mas aceitou entrar em capo, à tarde. Admitiu ter falhado em dois gols no Noroeste, principalmente no decisivo, de Lourival, aos 44 minutos do segundo tempo. E contou sua história no futebol.

Em 1963, o mineiro Heitor Amorim Perroca, era do São Cristóvão, do Rio de Janeiro, ao ser contratado pelo Corinthians, dois meses depois de ter vestido a camisa da seleção brasileira nas vitórias contra o Uruguai (3 a 1) e o Chile (3 a 0), pelo Campeonato Pan-Americano. No clube alvinegro, onde Cabeção e Aldo se revezavam, Heitor estreou em 14 de julho, em Bauru, com derrota por 2 a 1 contra o mesmo Noroeste de seu drama. Teve boa atuação e virou titular. Em 1964, ele foi aplaudido como herói, ao defender um pênalti cobrado por Pelé, garantindo o 1 a 1 contra o Santos, líder, no Pacaembu. Foi em 1º de outubro, jogo remarcado porque havia sido interrompido, em 20 de setembro, aos 6 minutos do primeiro tempo, quando desabou uma parte da arquibancada da Vila Belmiro. No tumulto, o alambrado foi derrubado e o campo, invadido. Quase 200 pessoas ficaram feridas.

“E agora?”, perguntei a Heitor, que admitiu: “A vida de goleiro é a constante oscilação entre herói e vilão. Espero ter chance de reagir”.

A história era mesmo boa. Só faltava botar no papel. Troquei ideias com o fotógrafo Arnaldo, guardei as anotações, e voltei ao “JT”, à noite, para fazer o texto. “Pode escrever tudo o que você tem”, disse Hamiltinho. “Na hora de editar, a gente pode enxugar”. Fiquei perto de três horas teclando a máquina Olivetti, e entreguei sete laudas aos editores. “Amanhã a gente conversa”, avisou Pompeu. Me despedi.

No dia seguinte, abri as páginas do “JT” e vi, com orgulho, minha reportagem. Não estava assinada e, mesmo tendo sido resumida pelos redatores, ocupou página inteira do jornal, com uma bela foto tirada pelo Arnaldo Fiaschi.

Durante a semana, continuei lutando para conseguir o emprego, enquanto Heitor ia perdendo o dele. Jamais voltou a jogar pelo Corinthians: seu contrato foi rescindido. Em três anos, disputou 115 jogos, sofreu 137 gols. Depois, atuou no Juventus, de São Paulo, e em outros clubes. O emprego do técnico Filpo Nuñez também não durou muito. O clube havia perdido a liderança do campeonato para o Palmeiras na derrota para o Noroeste, foi mal em sete outros jogos, e Filpo acabou sendo demitido.

Personagens sobem. E caem. Ás vezes, mergulham no esquecimento. Em 15 de agosto de 2018, uma pequena rota num jornal chamou minha atenção: “Heitor, goleiro do Corinthians nos anos 1960, faleceu ontem, aos 77 anos, de insuficiência cardíaca, em Ubatuba-SP. Após deixar o futebol, foi pastor do movimento evangélico Testemunhas de Jeová. Deixa esposa e três filhos”.

Faço uma pausa neste texto, para lamentar, em silêncio. Silêncio e saudade.

 

Retirado de: RAMOS, Luiz Carlos. Vida de Jornalista. São Paulo: A4 Ideias Editora, 2023.

quinta-feira, 14 de dezembro de 2023

Vida de Jornalista I de IV: Um novo emprego, após 9 vezes “não”

 


Por Luiz Carlos Ramos     

           

Em 8 de março de 1966, uma terça-feira de sol, de acordo com o combinado, encontrei o amigo Roberto Avallone, saímos caminhando pelo Centro de São Paulo, movidos pela ambição de conseguir espaço num jornal diário. Em princípio, as possibilidades eram boas, pois os jornais impressos ainda estavam longe de enfrentar o atual estágio de decadência. Mas de dez deles tinham redação e oficina na região central da cidade. A maioria deixou de existir.

Por onde começar? Uma vez que uma das minhas primeiras funções no “Mundo Esportivo” era fazer enquetes nos estádios, após aos jogos, ouvindo opiniões de jornalistas sobre os destaques em campo, este tipo de trabalho favoreceu nossos contatos ao visitar os jornais. Nada de agendar encontro. Saímos da Praça da Sé em direção ao primeiro alvo: o “Diário Popular”, situado ali perto, junto à vizinha Praça Clóvis Bevilácqua, e que circulou de 1884 a 2018 – a partir de 2011, com o nome de “Diário de S. Paulo”. O chefe de Esportes era o Sebastião Barbosa, pai de um colega nosso no Colégio Estadual Presidente Roosevelt, Fernando Chalet Barbosa, hoje arquiteto. Isso nos ajudou na apresentação.

Fomos bem recebidos pelo Sebastião, e também ficamos conhecendo dois outros jornalistas, e também ficamos conhecendo dois outros jornalistas da equipe, Sérgio Barbalho, que se tornaria meu amigo, e Valle Júnior. Eles nos ofereceram café, enquanto eu explicava a vontade de sermos colega deles. A resposta, porém, foi um educado “não”: o time estava completo e não havia planos para expansão.

Sem problema. Saímos do “Popular”, seguimos pela Rua Direita, percorremos o Viaduto do Chá e chegamos ao moderno prédio de “O Estado de S. Paulo”, o “Estadão”. Dois meses antes, o grupo havia lançado um segundo jornal, o moderno “Jornal da Tarde”. Como chegar á redação do “Estadão”, no quinto andar, para conversar com o único jornalista que conhecia, o Paulo de Aquino, e também visitar o “JT”? Acreditamos que bastaria informar nossos nomes ao recepcionista e pegar o elevador...Nada disso! Fomos barrados.

O funcionário da recepção nos disse que, sem um aviso prévio, não poderia autorizar a “entrada de estranhos”. E éramos mesmo “estranhos”. Pelo menos naquela ocasião. Abaixamos a cabeça e seguimos nossa cruzada pelo Centro, acumulando mais dois “não” à agenda de visitas: o do “Estadão” e o do “JT”. Por ironia do destino, eu voltaria àquele prédio em condições bem mais favoráveis, oito meses depois, e lá trabalharia por um bom tempo – tema do quarto capítulo deste livro.

Do prédio do “Estadão”, junto a Rua da Consolação e à Avenida São Luiz, foi apenas um pulo até a Rua 7 de Abril, a mesma do “Mundo Esportivo”. No prédio dos Diários associados, funcionavam dois jornais. Em ambos, a gente tinha a quem se apresentar. Sem sermos barrados, subimos até o “Diário da Noite”, no terceiro andar, onde trabalhava o Antonio Guzman, famoso por sua coluna diária “20 Notícias”, e que era colunista também no “Mundo Esportivo”. Sorridente, Guzman logo nos serviu café, e abriu o jogo: “Já conheço o trabalho de vocês, e vejo que têm futuro no jornalismo, mas não temos vaga”. Nos despedimos dele e fomos até o “Diário de S; Paulo”, no mesmo andar e encontramos o Ary Silva, colunista do jornal, comentarista da TV Tupi e vereador em São Paulo. Ele sorriu, parou de um texto, e nos serviu café, e foi direto ao assunto: “Não temos vaga, e tão cedo não teremos. A empresa está em crise”.

Ary Silva pegou o paletó de linho branco, pendurado na cadeira diante de sua máquina de escrever, e descemos no mesmo elevador. Ele, rumo à Câmara Municipal, perto do Viaduto do Chá. Nós, em direção a outro viaduto sobre o Anhangabaú, o Santa Ifigênia, ao lado do qual havia o antigo prédio da Fundação Cásper Líbero, em que funcionavam os jornais “A Gazeta” e “A Gazeta Esportiva”. Já estava 5 a 0 para o “não”, mas havia esperança.

Entrar no prédio da Cásper Líbero era uma emoção especial para os dois jovens, que haviam se acostumado a ler diariamente a “Esportiva” e admirar jornalistas como Paulo Planet Buarque, Orlando Duarte, Solange Bibas, Tomaz Mazzoni e Milton Peruzzi. Nosso contato seria o Delmo Borges, da equipe de diagramadores da “Gazeta Esportiva”, e que tinha se tornado meu amigo no segundo emprego dele, o “Mundo Esportivo”. Foi Delmo quem nos apresentou ao secretário de Redação, Aurélio Bellotti. Mostramos ao Aurélio alguns recortes de nossos trabalhos no “Mundo Esportivo”. Mas um café, enquanto ele dava uma espiada nos recortes, e mais um “não”, pronunciado com a máxima cordialidade: “Vejo que vocês têm qualidades, mas trabalhos só com jornalistas com mais experiência. Quem sabe, um dia...” Nos despedimos, e ainda passamos pela Redação de “A Gazeta”, onde era pequena a seção de Esportes. O único redator não quis conversa. Alegou que o jornal não tinha dinheiro para novas contratações.

E, com sete “não” debaixo do braço, seguimos pelas Avenidas Ipiranga, Rio Branco e Duque de Caxias até a Alameda Barão de Limeira, sede do Grupo Folhas. O contato na “Folha de S. Paulo” seria o Aroldo Chiorino, editor chefe da seção de Esportes, um dos meus frequentes entrevistados nas enquetes do “Mundo Esportivo”. Ele já me conhecia pelo nome. Ao nos receber, naquela redação ampla, no terceiro andar, foi bastante cordial. Aroldo nos serviu café e também deu uma espiada nos nossos textos. Em seguida, explicou: “Não dá para contratar ninguém nesta época. Os donos compraram mais dois jornais e estão em contenção de despesas”. Descendo para o saguão do prédio, paramos no segundo andar, na redação da “Folha da Tarde”, então quase vazia. Fomos à seção de Esportes. Um repórter mal levantou a cabeça inclinada sobre a máquina de escrever, e nos respondeu: “Lamento, mas não temos vaga”. Desta vez, sem café.

Meu amigo estava aborrecido, após os nove “não”. Nós, sem rumo, na calçada, junto ao prédio das Folhas. Melhor comer uma pizza na Avenida São João? Não. De repente, tive uma ideia e contei ao Avallone: “Ouvi falar que os dois jornais comprados pelo Grupo Folhas estão nesse prédio azul, aqui do lado. Pode ser nossa chance”. Me lembrei de que, além do sensacionalista “Notícias Populares”, o grupo havia comprado a “Última Hora”, jornal de sucesso nos tempos de Samuel Wainer, de competentes seções de Polícia e de Esportes. A redação da “UH”, instalada por 15 anos no Anhangabaú, havia sido transferida para o prédio azul, dos novos donos. Propus ao amigo: “Vamos lá?”; A resposta: “Ah, não. Estou de saco cheio. Vou ficar fumando. Vai você”.

Sem vacilar, entrei no prédio e descobri, num painel que a “Última Hora” ficava no segundo andar. A quem me apresentar? Ao experiente chefe da seção de Esportes, Álvaro Paes Leme, famoso por participar de debates esportivos na televisão, e que sempre me atendia bem, no Pacaembu, quando eu buscava a opinião dele para as enquetes do tipo “quem foi o melhor em campo?” ou “o juiz influiu no resultado?” Com fé, apertei o número 2 do elevador.

No segundo andar, a porta do elevador se abriu...E quem foi a primeira pessoa que vi, ali do lado? O próprio Álvaro Paes Leme! Ele se dirigiu a mim, sorrindo: “Luizinho, o que você estava fazendo aqui” Respondi: “Procurando emprego. Quero trabalhar num jornal diário”. E ele: “Mas o Bretas não vai ficar aborrecido?” Contestei: “Não. Não vai ser problema. Posso trabalhar nos dois”. Paes Leme ajeitou o charuto na boca e foi dizendo: “Puxa, Luizinho... Você veio na hora certa. Quero demitir um repórter, que é irresponsável. Você pode começar no lugar dele, amanhã mesmo. Só não posso te pagar muito. É salário de estagiário, a metade do piso salarial de jornalista”. Entusiasmado, aceitei na hora.

Me despedi do Paes Leme e desci até a calçada. Encontrei um amigo, que já havia fumado o cigarro, e contei a novidade. Não revelou a alegria que eu esperava. Não sei por quê.

O fato é que comecei a trabalhar na “UH” em 9 de março, sob a orientação do Paes Leme, na seção que também tinha Amauri Medeiros, José Roberto Malia e José Paulo Godói. Minhas tarefas: fazer a cobertura diária do São Paulo e do Corinthians. Fiquei feliz, por poder escrever sobre o meu time e sobre o clube mais popular do futebol aulista. Mantive o ânimo, mesmo depois de ter ficado sabendo, diante das limitações financeiras do jornal, a busca de informações seria geralmente pelo telefone, e não presencial. Mas, uma vez por semana, eu poderia entrar no jipe azul da “UH”, dirigido pelo Araújo, e cobrir treinos no Morumbi e no Parque São Jorge. Ótimas oportunidades para fazer entrevistas exclusivas e produzir reportagens especiais.

Dois meses depois de minha admissão, Paes Leme me pediu para indicar algum jovem jornalista para reforçar a equipe e que deveria cobrir o Palmeiras. Indiquei o palmeirense Roberto Avallone, que ficou duplamente alegre: com o novo emprego e com o tema diário de seu trabalho.

Nesses textos na “Última Hora” não eram assinados. Mas as reportagens especiais de página inteira, sim. Tive a oportunidade de botar meu nome nas entrevistas com quatro grandes jogadores – Dino Sani, Roberto Dias, Djalma Santos e Julinho – em torno da Copa do Mundo de 1966, que começaria em julho.

Tudo isso, sem descuidar das edições do “Mundo Esportivo”, honrando o compromisso com o dono, a quem sou eternamente grato pelas primeiras chances de minha carreira. Me despedi do pequeno semanário só no fim de 1966, quatro meses depois de o Bretas ter voltado da Inglaterra, onde havia comentado os jogos da Copa para a Rádio Tupi.

Mesmo após meu adeus à Rua 7 de Abril, mantive amizade com Bretas. Jornalisticamente, agimos juntos, por meio de artigos, para tentar evitar que políticos oportunistas tomassem conta da Federação Paulista de Futebol. Em 1976, conseguimos. Em 1979, não teve jeito: Nabi Abi Chedid, deputado, insistiu nas barganhas com clubes, e chegou à presidência da entidade. Só não foi reeleito, três anos depois, porque teve pela frente um rival do mesmo tipo, José Maria Marin. Vice-governador de São Paulo, Marin governou por dez meses após a saída de Paulo Maluf, em 1982, e usou seu peso político para derrotar Nabi. Denúncias de corrupção contra Marin no governo do Estado, na Federação Paulista e na Confederação Brasileira de Futebol (CBF) caíram no vazio. Mas, nos anos 2000, foi diferente, com a Justiça dos Estados Unidos funcionando. Pouco tempo depois de comandar a Copa do Mundo de 2014 no Brasil, como presidente da CBF, o dirigente foi preso por policiais americanos na Suíça e, levado para os Estados Unidos, cumpriu pena numa cadeia de Nova York, por conta dos escândalos da Fifa e das entidades nacionais.

Uma pena o Geraldo Bretas não ter acompanhado esses lances finais, do castigo a alguns bandidos do futebol: em janeiro de 1981, aos 66 anos, o aguerrido comentarista teve problemas de saúde e faleceu, em São Paulo.

Quanto à “Última Hora”, sou grato ao Paes Leme. Mas a gratidão se estende ao colega José Roberto Malia e a um jornalista com quem pouco me relacionava, Pedro Cavalcanti, responsável pela coluna de reclamações de leitores contra problemas em seus bairros. Em 15 de outubro, uma sexta-feira, Cavalcanti se aproximou de minha mesa, tendo às mãos uma folha de papel, e foi econômico nas palavras: “Tenho visto você trabalhar, e gostei de suas matérias com grandes jogadores. Este é o telefone dos chefes de Esportes de um grande jornal. Ligue para eles hoje à noite, pois estão precisando de reforço”.

Á noite, após o fechamento da edição, aproveitei que a Redação estava quase fazia e telefonei para o tal número passado pelo Cavalcanti. Só então fiquei sabendo... Era o telefone do “Jornal da Tarde”, o jornal moderno da empresa do “Estadão”! Na conversa, combinei com ele, em seguida, dar um pulo ate lá, a 20 minutos de caminhada da “Última Hora”. Finalmente, eu entraria naquele prédio mítico, sete meses depois de ter sido barrado pelo porteiro! Seria a oportunidade real de ir para um emprego melhor? Tema para o próximo capítulo.

 

Moral da história: Não há respostas negativas em número suficiente para afastar a possibilidade de um “sim”. É só unir garra, sorte e esperança.

 

Retirado de: RAMOS, Luiz Carlos. Vida de Jornalista. São Paulo: A4 Ideias Editora, 2023.