Virgílio Roveda, o Gaúcho (Vacaria, RS, 02/08/1945-) trabalhou em mais de 60 filmes nacionais. Ele lembra do final das filmagens de "Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver" de José Mojica Marins.
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segunda-feira, 5 de setembro de 2016
sábado, 19 de março de 2016
A história da Boca paulista parte II: o auge
Por Alfredo Sternheim
Os
filhos dos grandes estúdios
Já na ocasião da Palma
de Ouro, no começo dos anos 60, estimulada pela obrigatoriedade da exibição do
filme nacional através da reserva de mercado, a Boca se tornava de forma
gradativa o centro do cinema paulista. Até mesmo um point de encontro. Naquele tempo,
diretores, técnicos e artistas se encontravam em pleno centro da cidade, no Bar
Porta do Sol, na Rua 7 de Abril, em frente ao extinto Diários Associados.
Naquele prédio funcionava também a sala de projeção do Museu de Arte Moderna,
que exibia clássicos como Intolerância
ou A Carne o Diabo. Ou seja, naquela
região que abrangia o Bar Tourist (com sua pizza brotinho, então uma raridade)
conviviam os trabalhadores da indústria cinematográfica e figuras do movimento
cultural, dos que enxergavam o cinema como arte. Inclusive os que formaram o
Cineclube do Centro Dom Vital, entre os quais alguns futuros cineastas e
críticos (Gustavo Dahl, Jean-Claude Bernardet, Carlos Motta, Alfredo
Sternheim). Nesse sentido, era possível encontrar um eletricista tomando café ao
lado de um intelectual como Paulo Emílio Salles Gomes e de um cineasta, como o
inglês John Schlensinger, então pouco conhecido, que tinha vindo fazer
palestras no Museu, sob o patrocínio da embaixada de seu país.
Mas não demorou muito e
a classe cinematográfica passou a se concentrar no Bar Soberano, na Rua do
Triunfo. Mas tarde, houve uma certa divisão amigável com o Bar do Ferreira, na
outra calçada. Principalmente quanto o cafezinho da tarde.
Assim como os
fornecedores de equipamento (o Honório, por exemplo, que até então estava na
Rua Bento Freitas, também um point dos técnicos), as gráficas e os serviços
necessários à distribuição e produção se instalavam na Boca. Ao mesmo tempo,
surgiram também outros produtores, quase todos mais modestos que Massaini. É
verdade que alguns almejavam voos mais altos. Caso da Paris Filmes,
distribuidora criada por volta de 1957 e que, de certa maneira, ocupava o
espaço que antes era da França Filmes. Ou seja, importava produções do cinema
francês, títulos da Nouvelle Vague. A empresa tinha sócios como Sandi Adamiu
(pai de Alexandre Adamiu, que depois liderou a empresa) e Alfred Cohen. Este,
mais tarde, criou a Brasil Internacional, distribuidora exclusivamente dedicada
à produção nacional e também co-produtora. Por volta de 1963, a Paris – que já
estava na Rua Vitória, onde tinha uma boa sala de projeção em 35 mm – partiu
para a co-produção com a Alemanha. Fez Convite
ao Pecado e Mulher Satânica, sob
direção de cineastas daquele país.
O fato é que lá o
cinema nacional crescia por méritos próprios. E quase todos os que se lançavam
à realização tinham os pés no chão, faziam filmes capazes de amortizar seus
custos e ainda dar lucros apenas no mercado exibidor. Ainda não existia o vício
do mecenato oficial que gerou tanto acomodamento criativo entre inúmeros
cineastas do nosso país. Ainda não tinha surgido a Embrafilme.
A maioria daqueles que
optaram por produzir chegaram precedidos de farta experiência nos grandes
estúdios, como a Vera Cruz, a Maristela e a Multifilmes. Dessa empresa fundada
em setembro de 1952 e com estúdios construídos em Mairiporã, na Grande São
Paulo, veio seu produtor-geral, o italiano Mário Civelli, que já tinha passado
pela Maristela. Ele foi o responsável pela concepção e execução dos filmes da Multifilmes,
como Modelo 19 e Destino em Apuros, este mais ambicioso. Era a primeira realização
em cores. Mas os fracassos foram sucessivos e em maio de 1954 a empresa formada
por gente da indústria têxtil deixou de existir. Civelli, anos depois, abriu um
escritório na Rua dos Gusmões, mas não se saiu bem, não logrou realizar a
maioria dos seus planos.
Alfredo Palácios também
veio dos grandes estúdios paulistas: a Maristela. Ele trabalhou na empresa
criada pelo industrial Mário Audrá Júnior desde o início, em 1950 (um ano
depois do surgimento da Vera Cruz). Nos estúdios erguidos no então distante
bairro do Jaçanã, em São Paulo, Palácios não só cuidou da produção de vários
filmes feitos na primeira fase (Simão, o
Caolho, de Alberto Cavalcanti, por exemplo) como até escreveu diálogos
adicionais para certas comédias (Suzana e
o Presidente). Na segunda fase, quando a companhia, já no prejuízo,
arrendava seus estúdios para outras produtoras, Palácios foi atuante na
produção executiva de filmes como Mãos
Sangrentas e Quem Matou Anabela,
e ainda chegou a co-dirigir comédias como A
Pensão da Dona Stela e Vou Te Contá.
Formado em direito,
Palácios era dono de uma sólida cultura e tinha ideias avançadas para o cinema.
Quando a Maristela acabou, por volta de 1958, ele prosseguiu de forma
independente e dessa maneira permitiu uma inovação no nosso cinema: a série O Vigilante Rodoviário. Foram cerca de
37 episódios feitos para a TV Tupi, sob a direção de Ary Fernandes, que também
havia trabalhado na Maristela, em especial na fase Kino Filmes (a produtora dos
filmes de Alberto Cavalcanti) como assistente de produção.
A
Servicine
Mas a proposta não
vingou e, em 1968, já na Boca do Lixo, associou-se a Antonio Polo Galante e criou
a Servicine. Galante também tinha passado pela Maristela. Primeiro como
faxineiro, depois como eletricista e auxiliar de câmera, na época um trabalho
pesado. Uma de suas obrigações nessa área era carregar os chassis de 300 metros
das pesadas câmeras Mitchell ou Newall, o que exigia delicados cuidados. Mas
tarde, quando os estúdios já não existiam, ele trabalhou nessa função de várias
realizações, como A Ilha, de Walter
Hugo Khouri. Durante as filmagens em Bertioga, em 1962, Galante disse com todas
as letras que ainda seria um produtor. A afirmação foi recebida com descrédito
pelos que lá estavam. Mas o tempo lhe deu razão e até mesmo Khouri fez alguns
filmes produzidos por Galante.
Com a associação de
duas personalidades, à primeira vista antagônicas, de formações culturais
diferentes, a Sétima Arte saiu ganhando. A Servicine começou em 1968
demonstrando já que queria ser diferente ao possibilitar a realização de Lance Maior, que Sylvio Back tinha
filmado em Curitiba, com Reginaldo Faria e Regina Duarte, já famosos. Mas o
resultado das bilheterias foi péssimo.
O êxito financeiro só
veio no ano seguinte com O Cangaceiro Sanguinário, dirigido por Osvaldo de
Oliveira, técnico transformado em diretor pela vontade de Galante. Este,
segundo declarou no documentário O
Galante rei da Boca, de Alessandro Gamo e Luís Rocha, disse ter inspirado
em Galante e Sanguinário, o western
americano de Delmer Daves. Uma irônica coincidência no título do bangue-bangue
de Daves, porque Galante não chegava a ser sanguinário, claro, mas era
extremamente rigoroso com os diretores quanto a prazos e custos.
Essa sociedade, que
tinha o refinamento e conhecimento de Palácios e a intuição impressionante do
sócio, deu certo e assim a Servicine, de fato, permitiu inovação e arejamento de
ideias no cinema paulista. Por isso, escritores como o amazonense Márcio de
Souza e o paulista Marcos Rey, por exemplo, eram frequentadores do escritório
da empresa, um velho sobrado da Rua do Triunfo, 150.
Aliás, a participação
de Rey no cinema nacional é digna de estudos mais profundos. O consagrado
cronista e autor de livros como Ópera de
Sabão e Memórias de Um Gigolô
colocou o seu talento em mais de 30 roteiros, quase todos encomendados por
cineastas da Boca. Filmes como O Inseto
do Amor, A Noite das Fêmeas, O Clube das Infiéis e muitos outros
contaram com a sua participação. Só que, durante muitos anos, ele teve
dificuldades em assumir essa fase. Temia as consequências do patrulhamento,
conforme esclarece a sua biografia, Maldição
e Glória, de Carlos Maranhão: “Não escondia, mas se não tocassem no
assunto, ficava quieto. Nas entrevistas que dava, procurava passar por cima de
suas incursões em tal atividade”. Apenas em 1997, dois anos antes de morrer,
manifestou-se com orgulho a respeito em uma deliciosa crônica na revista Veja São Paulo. “Fui nada mais nada
menos que o rei da pornochanchada. Este mesmo senhor, de cabelos brancos, que
vos fala”, escreveu. “Quem quisesse encontrar-me no meio dos anos 70 bastaria
passar pela Rua do Triunfo, ainda com ph em diversas placas, e facilmente me
localizaria no Bar-Restaurante Soberano, tomando café em cálice. Eu e o
Soberano éramos figuras referenciais no quarteirão”. Embora tivesse a
necessidade de aceitar o maior número de roteiros para fazer, ele era extremamente
generoso com cineastas que lhe pediam uma opinião, um conselho. Sou testemunha
desse altruísmo, em duas ocasiões pude contar com o seu estímulo e saber.
Mas Marcos Rey não foi
a única figura de peso intelectual que, mesmo tendo brilhado (e ainda brilhando)
em outros campos, deu a sua colaboração ao cinema da Boca. Nessa lista pode-se
incluir na área de roteiros e na direção os dramaturgos Lauro César Muniz e
Dias Gomes, os críticos Rubens Ewald Filho e Inácio Araújo e os novelistas
Antônio Calmon e Sílvio de Abreu. Araújo pegou gosto pela montagem quando foi
fazer uma matéria para o Jornal da Tarde.
Ele entrou em uma sala onde o consagrado editor Sílvio Renoldi (falecido em
2004) editava uma produção da Servicine. Aquela moviola parece ter exercido forte
fascínio.
Jô Soares também andou
pela Servicine, interessado que estava em protagonizar uma comédia na linha de Como Agarrar um Milionário, cujo roteiro
havia sido co-escrito por Marcos Rey. Mas as negociações entre o conhecido
apresentador, escritor e ator não avançaram e o filme acabou não sendo feito
por lá.
Nessa empresa também,
além de Sylvio Back e Osvaldo de Oliveira, diretores então iniciantes e com
visões bem diversas (Guga, João Callegaro, Alfredo Sternheim, Líbero Miguel,
entre outros) lograram fazer os seus primeiros longas-metragens. Mas havia algo
em comum nessas realizações, uma norma que parecia ser imposta apenas por
Galante, mas que tinha a total e silenciosa anuência de Palácios: o custo
barato. Os filmes tinham que ser feitos em prazos curtos e com pouco negativo,
que era o item mais caro de uma produção. Para se ter uma ideia, um dos filmes
foi rodado com 18 latas grandes (300 m) de negativo, em apenas três semanas. A
edição final precisava ter, no mínimo, 8 latas. Ou seja, na média, uma cena só
podia ser repetida duas vezes e meia.
De certa maneira, a
fórmula acabou não sendo exclusiva da Servicine. Nem de Galante e Palácios, que
fecharam a empresa e partiram para trabalhos individuais a partir de 1976,
poucos meses depois dos dois terem ido ao 4º Festival Internacional de Teerã,
convidados do governo do Irã por serem responsáveis pela ambiciosa produção de
Lucíola, drama de época adaptado do romance clássico de José de Alencar. Outros
produtores, alguns até de forma mais exagerada, acabaram por adotar essa
“receita econômica”.
Energia
eclética
“Um grupo de
aventureiros, verdadeiro Exército Brancaleone, se reuniu, [a sua maneira, em
torno de um objetivo: pensar, produzir e fazer cinema. Um cinema pra ganhar
dinheiro. Um cinema para atrair público. Um cinema para produzir bilheteria que
permitisse produzir outro filme e manter essa indústria funcionando”. As
poéticas observações do jornalista e crítico Edu Jancsz no site Fancine a respeito
da Boca procedem. Lá se fazia um filme para, imediatamente, coloca-lo na tela e
com esse dinheiro arrecadado já começar outro.
Mas, em meio da
evidente intenção mercantilista, desde o início ficou claro que os realizadores
que se instalavam na Boca, em sua maioria, buscavam certa independência
criativa. Dessa maneira, e com a compreensão de muitos produtores – que
raramente receberam da mídia a atenção que mereciam – foi possível o surgimento
de diretores dos mais diversos estilos. Ao mesmo tempo em que um José Mojica
Marins encontrava um clima favorável para o prosseguimento do seu peculiar
cinema de terror, com Zé do Caixão como figura central, Ozualdo Candeias logrou
fazer a sua curta e peculiar filmografia louvada até no exterior. Um culto e
elegante Luiz Sérgio Person, que estudou cinema na Itália, não se acanhou em ir
para a Boca.
Por outro lado surgiram
jovens recém-saídos de diversas formações. Como Rogério Sganzerla e Antônio
Lima, já falecidos. Alfredo Sternheim, João Callegaro e Carlos Reichenbach.
Este recorda: “Foi em 1966. Eu cheguei à Boca junto com o Callegaro e outros
estudantes da Escola Superior São Luiz para tentar conseguir algum estágio em
alguma produção. Quando fui realizar meu primeiro curta-metragem, Essa Rua tão Augusta, produzido pelo
Person (que era professor na São Luiz), ele nos levou (eu e a equipe do curta:
entre outros, Enzo Barone, Sylvio Bastos e Hideo Nakayama) para a sua empresa
produtora, que ficava numa sala cedida pelo Mário Civelli dentro de sua
distribuidora, na Rua dos Gusmões. Lá ficamos conhecendo o Osvaldo Oliveira e o
Glauco Mirko Laurelli, respectivamente, colaborador e sócio do Person”.
Foi em seguida à
chegada de Reichenbach que surgiu na Boca um movimento, o Cinema Marginal. Era
mais intelectual, tinha intenções de ir contra o convencional, a ditadura
militar que então governava o País. Aconteceu entre 1967 e 71. “Os neófitos
confundem os dois movimentos (Cinema Marginal e Cinema da Boca do Lixo) que, na
verdade, foram dois momentos”, lembra Reichenbach. Ao seu ver, o término do
Cinema Marginal deu-se com a proibição, pela Censura Federal, de Orgia ou O Homem que Deu Cria, do hoje
escritor João Silvério Trevisan, e de República
da Traição, de Carlos Alberto Ebert. Por sinal, ambos fizeram apenas esses
filmes. Frisando que o movimento reunia jovens recém-saídos da Escola Superior
de Cinema São Luiz (na tradicional escola da Avenida Paulista), do
Foto-Cineclube Bandeirante (também São Paulo) e do Festival JB-Mesbla, no Rio
de Janeiro, o cineasta diz que “o Cinema Marginal era uma resposta
sessentaoitista (68) ao Cinema Novo, ao eleger o underground e o Cinema B
americano, a Nouvelle Vague e cineastas formados pela vida como Candeias e
Mojica Marins como modelos e ícones”. Na sua opinião, em certo momento o Cinema
Marginal e o Cinema da Boca do Lixo se confundiram por volta de 1969. Daí,
talvez, o enfoque equivocado de muitos.
Reichenbach lembra que
foi a partir de uma entrevista à extinta revista Manchete, concedida por seu
colega Antonio Lima, que surgiu a designação Cinema da Boca do Lixo. Nem todos
gostaram. Mas ficou. “Acho que a denominação nunca foi depreciativa. Era
estigmatizante, mas funcionava quase como uma grife”, opina agora João
Callegaro, um dos diretores de As
Libertinas, ao lado de Reichenbach e Lima.
Essa recepção aos
“garotos” enturmados com Reichenbach é apenas uma das provas da natural e
fraterna diversidade que reinava na Boca. Perguntado sobre aspectos daquela
fase, o cineasta Sebastião de Souza lembra, “em primeiro lugar, a camaradagem,
isto é, as pessoas se envolviam nas filmagens dos amigos de forma pontual, nas
ideias, nos roteiros, nos empréstimos de materiais, nas pontas e figurações dos
filmes. Desta forma, foi criada uma relação de amigos. Em segundo lugar, uma forma
estética muito mais livre de fazer cinema por causa dos baixos custos, a
criatividade era mais importante”.
Existia, de fato, um caráter democrático, como lembra Callegaro. “Se a sua ideia fosse minimamente comercial, você conseguia um apoio de produção. Os custos eram baixos e os produtores, picaretas e ingênuos. Se vislumbrassem uma pequena possibilidade de lucro investiam. Pouco, mas investiam. Mesmo que entrassem com equipe, equipamento ou custos de laboratório”.
Por isso foi que, de
lá, surgiram filmes iconoclastas (A
Mulher de Todos) como épicos políticos (A
Guerra dos Pelados), melodramas politizados (Paixão na Praia), faroestes (Lista
Negra para Black Metal), ambiciosas adaptações literárias (A Madona de Cedro, O Guarani), dramas existenciais (O Último Êxtase), aventuras de cangaço (Lampião, Rei do Cangaço), suspense (A Noite das Fêmeas, O
Estripador de Mulheres), comédias sertanejas (Luar do Sertão, Mágoas de
Caboclo), e principalmente comédias maliciosas (Lua de Mel & Amendoim, Os
Garotos Virgens de Ipanema, A Virgem
e o Machão)...Enfim, os mais diversos gêneros tinham vez graças também à
energia e tino comercial de produtores que não ambicionavam dirigir. Caso
dos já citados Alfredo Palácios, Antonio Galante, Alfred Cohen, Cyro
Carpentieri Filho, Manuel Alonso, Mário Civelli e Oswaldo Massaini, e de Adone
Fragano, Miguel Augusto Cervantes, Cassiano Esteves, Elias Cury Filho, J. D
Ávila, Renato Grecchi, Rubens Regino e outros que se concentravam
exclusivamente na produção e na mecânica de lançamento.
Nessa área, entravam os
acordos com o exibidor. Ou seja, vendia-se uma parte do filme para um ou mais
donos das três empresas proprietárias dos cinemas de São Paulo que tinham,
trimestralmente, de cumprir a reserva do mercado. Nada melhor do que fazer com
filmes que tinham as suas participações. No documentário Galante – O Rei da Boca, seu protagonista sintetiza bem essa
mecânica: “Eu vendia os filmes praticamente só no título. Eu chegava neles e
dizia: Vou fazer um filme chamado...Filhos e Amantes. È bonito? É. O exibidor
dizia: O filme é meu. Era feito um contrato e eu saia com promissórias. Não era
dinheiro, eles nunca tinham dinheiro. Eu pegava as promissórias, jogava no
banco. Tinha crédito e pegava o dinheiro para fazer o filme”.
Mas havia também um
cinema nacional em São Paulo correndo por fora da Boca. É verdade que alguns
nas imediações. Caso do comediante e produtor Mazzaropi, que tinha escritório
no Largo do Paissandu, e do ator, diretor e produtor David Cardoso, cuja
empresa, a Dacar, ficava nos Campos Elíseos, a cerca de um quilômetro da Rua do
Triunfo, onde ele ia buscar técnicos e artistas.
E havia a Vera Cruz,
então arrendada aos irmãos Walter e William Khouri, que produziam filmes de
Walter e de outros diretores, como Roberto Santos, Arnaldo Jabor e Durval Gomes
Garcia. Um grupo no bairro da Vila Madalena começava também a dar seus
primeiros passos.
A
presença do erotismo
É verdade que, em sua
maioria, esses cineastas se curvavam ao erotismo. Embora existisse o risco de
um filme ser cortado ou proibido pela Censura Federal que, sob a ditadura
militar, não tinha normas e nem permitia defesas, o produtor insistia quase
sempre em colocar um apelo erótico. Mas isso não era uma prerrogativa da Boca.
O cinema feito no Rio também insistia na sexualidade. Basta ver a lista das
realizações cariocas naqueles anos: Quando as Mulheres Paqueram, Como era
Gostoso o Meu Francês, A Viúva Virgem, Com as Calças na Mão, Condenadas pelo
Sexo...Títulos maliciosos dos mais inspirados.
Porém, é preciso
constatar que o erotismo não era um defeito, uma imoralidade. Apenas uma
fórmula para satisfazer o gosto popular. Afinal, o cinema nacional se
auto-sustentava, o mecenato oficial era leve, pequeno. Nada mais natural do que
ir ao encontro da preferência do público. Se o forte do cinema de Hollywood era
as armas, as perseguições de carros, o nosso era a sexualidade, algo que já
vinha desde a época do teatro de revista, nos anos 40, quando Virgínia Lane,
Mara Rúbia e muitas outras preenchiam o imaginário dos homens brasileiros.
No nosso cinema, elas
foram substituídas por outras deusas. A maior de todas continua sendo Vera
Fischer. A Miss Brasil de 1969, que estreou nas telas em 1972 em Sinal Vermelho – As Fêmeas, de Fauzi
Mansur, se sobrepôs aos preconceitos que a cercavam. Hoje, já tendo passado dos
50 anos de idade, é uma bela e respeitável atriz na TV e no teatro, mantendo
seu carisma.
Outras belas e sensuais
mulheres capazes de atrair o público (masculino) surgiram. Caso de Helena
Ramos, que a partir do extraordinário sucesso de Mulher Objeto, transformou-se em uma das estrelas mais caras do
nosso cinema. Desnudando-se para as câmeras atuaram também Adele Fátima, Aldine
Müller, Angelina Muniz, Claudete Joubert, Marlene França, Matilde Mastrangi,
Meire Vieira, Monique Lafond, Nadir Fernandes, Neide Ribeiro, Nicole Puzzi,
Rossana Ghessa, Sandra Graffi, Vanessa, Zilda Mayo...
Publicado originalmente
em STERNHEIM, Alfredo. Cinema da Boca:
dicionário de diretores. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São
Paulo: Cultura – Fundação Padre Anchieta, 2005.
terça-feira, 12 de janeiro de 2016
Entrevista com Carlos Reichenbach publicada em 2002
Carlos Oscar
Reichenbach Filho
(Porto Alegre, RS,
14/06/1945- 14/06/2012, São Paulo, SP)
Por Caio Plessman de
Castro
Eu sou neto do primeiro
litógrafo do Brasil. Meu avô veio da Alemanha, no início do século XX, convidado
pelo governo brasileiro para instalar a primeira litografia do país. Meu pai
foi editor das revistas Casa & Jardim,
Seleções (da Readers Digest), Ela e Visão. Foi ele quem lançou a revista Lady, a mais avançada do Brasil na década de 1950, o que lhe custou
a saúde, talvez a vida, pois teve dois enfartes por causa disso. Por que eu
começo por aí? Porque de uma certa maneira eu nasci para seguir a carreira da
família, eu sou neto, sobrinho e filho de editores e industriais gráficos.
Talvez pelo fato de ser
um editor conhecido na época, meu pai convivia com escritores, teatrólogos,
músicos. Aos 9 anos de idade, eu assisti a uma leitura dramática de um roteiro
de cinema, a partir do romance Jovita,
de Diná Silveira de Queirós, que tinha sido publicado em duas partes na revista
Lady. A leitura foi feita por Oswaldo
Sampaio, que dirigiu A Estrada e O preço da vitória, e co-dirigiu Sinhá Moça, entre outros. A distância,
vejo que essa leitura fascinante me levou num determinado momento a optar por
cursar Cinema na universidade.
Fui levado a prestar
vestibular na ainda nascente Escola Superior de Cinema São Luís, em São Paulo,
por iniciativa de um amigo, João Callegaro, que já cursava o primeiro ano.
Apesar de naquele momento eu já fazer umas brincadeiras com 16 mm com uma
câmera do meu pai, o que me levou para a São Luís foi a possibilidade de
escrever para cinema. Fui praticamente guindado à prática cinematográfica por
Luiz Sérgio Person, que era professor lá. Person botou na minha cabeça que eu
era diretor. Acho que ele ficou impressionado com um exercício de roteiro, uma
brincadeira godardiana e maoísta, que eu chamei de Atribulações de um chinês fora da China. Era sobre um cara que se
desencanta com o regime, consegue fugir da China, vem para São Paulo e abre uma
pastelaria na Praça da República. Essa ideia acabou sendo reaproveitada em
filmes posteriores, como em Alma corsária ou no episódio da chinesa em O império
do desejo. Por outro lado, como eu tinha um equipamento 16 mm, os colegas
viviam me pedindo para fotografar os filmes amadores deles.
Comecei um primeiro curta, em 16 mm, chamado Duas cigarras, que nunca chegou a ser totalmente montado. Chamei para desenvolver a ideia comigo um amigo paisagista, que tinha sido aluno do Burle Marx. Começamos a desenvolver o roteiro como se fosse um mapa. Chegávamos aos locais de filmagem e, em vez do roteiro, abríamos o tal mapa imenso e logo vinha alguém da região pensando que nós éramos da Prefeitura. Foi um processo interessante, porque meu interesse inicial era o roteiro, mas fui me desvencilhando disso a ponto de, no meu primeiro filme (o episódio “Alice”, de um longa-metragem chamado As Libertinas, 1968), jogar o roteiro fora no terceiro dia, porque nada daquilo que estava escrito eu tinha condições de filmar. Comecei a entender a grande lição de Roberto Santos, na São Luís: o grande mérito do cineasta brasileiro é conseguir transformar a falta de condições em elemento de criação.
Saltando no tempo, em
1978, criei um método de trabalho inverso: fazia um roteiro maçudo que ficava
permanentemente aberto para improvisação ou para ser manipulado em função da
produção. Foi uma coisa que a prática me ensinou. Se o que está no papel
atrapalha o andamento da filmagem, jogo o papel fora.
Meu segundo filme foi o
episódio “A Baladíssima dos Trópicos contra os picaretas do sexo”, do longa Audácia, a fúria dos desejos (1969). É a
história de uma garota que começa a fazer um filme, acaba se metendo com
produtores espúrios da Boca do Lixo e não consegue termina-lo. A certa altura,
ela diz: “Joguei meu roteiro fora, e agora meu roteiro é um gibi do Cavaleiro
Negro”. Quer dizer, o próprio personagem definiu o estilo do filme, que nem roteiro
tinha, era improvisado a partir do cotidiano.
Fiz dois curtas em 16
mm que nunca chegaram a ser editados: Duas
cigarras e Pierrô si fu, uma
brincadeira godardiana. Depois, filmei o curta Essa rua tão Augusta, antes do episódio de As libertinas, mas só foi montado após esse filme. Para ser
sincero, não gosto de Augusta,
“Alice” ou Audácia, são muito ruins.
Eu gosto dos filmes dos meus amigos, que são ótimos.
Nesse período, eu
participava ativamente de um grupo que depois foi identificado como Cinema Marginal,
pós-Cinema Novo. “Alice” era quase um manifesto de mau comportamento. Quando
estava filmando As libertinas, pedi para fazer uma panorâmica aos trancos e
barrancos, uma coisa malfeita mesmo, em homenagem ao Primo Carbonari. Esse era
um conceito que eu e o João Callegaro tínhamos muito claro na nossa cabeça, a
gente fala isso até textualmente no tal “Manifesto Cafajeste”: temos que sair
do péssimo para chegar ao ótimo. Em Audácia,
a primeira fala da cineasta é: “Temos que fazer filmes péssimos!”. Essa ideia
era revolucionária naquele momento do cinema brasileiro.
Se existe um movimento
de cinema marginal, ele nasce na São Luís. Jairo Ferreira, Rogério Sganzerla,
Andrea Tonacci, Ozualdo Candeias, José Mojica Marins, todos eles circulavam por
lá. O movimento nasceu na São Luís e depois foi militar na Boca. Nós, da São
Luís, abraçamos os dois cineastas mais importantes da Boca do Lixo, que eram
Candeias e Mojica. Admiração e respeito absoluto por dois artistas instintivos.
Mojica e Candeias estão para o país assim como nossos maiores pintores
primitivistas: grandes criadores formados pela vida.
Na verdade, ninguém
gostava da expressão “marginal”; eu comecei a usar o termo “pós-novo”. O Cinema
Novo lidava com certezas, apontava saídas, pós-novo lidava com a dúvida, não
via saída nenhuma, o desfecho era sempre uma estrada vazia. Tivemos o
privilégio de viver muita coisa em muito pouco tempo: o ativismo político, o
desbunde, a droga, a fase mística; tudo isso num espaço de cinco, seis anos.
CARREIRA
Costumo separar as
fases da minha carreira. Corrida em busca
do amor (1971) marca o fim do que chamo primeira fase e o início da
segunda, que vai até Extremos do Prazer,
de 1983. Corrida resultou de um convite que recebi para fazer um filme do
gênero juvenil. O roteiro, de um terceiro, só tinha um terço escrito. Mas me
deram total liberdade para eu inventar o que eu quisesse. Fui chamado para
dirigir esse filme porque o produtor queria contratar Ronnie Von, um cantor
famoso na época. E o Ronnie Von tinha fama de ser o intelectual, o erudito da
Jovem Guarda; então não dava para chamar qualquer um da Boca do Lixo para
dirigir. Mas, na hora de soltar a grana, não tinha dinheiro para pagar o Ronnie
Von. Ele saiu do filme, e eu fiquei. Aí aconteceu uma coisa muito engraçada: a
produtora da filmagem foi ficando dia a dia mais pobre, a tal ponto que, quando
íamos filmar os tais carros de corrida que pedia o título do filme, não haver
dinheiro para alugar carro nenhum. Aí, comecei a inventar.
Com Corrida em busca do amor eu defino o cinema como meu meio de expressão, definitiva e conscientemente. Apesar de amar o cinema desde garoto, eu ainda tinha minhas dúvidas se era o que eu queria fazer. Vários colegas meus abandonaram, foram fazer outra coisa, e eu também andava reticente. Lembro que um amigo nosso, o escritor e cineasta Márcio Souza, foi preso em 1970. Mostraram várias folhas, só para deixar claro, para ele, que estava todo mundo fichado. A Boca inteira estava lá. Eu também, fichado como anarquista. Isso desencadeou uma paranoia no meio. Algumas pessoas começaram a desaparecer do mapa e cheguei ao ponto de me perguntar por que continuar fazendo filmes.
Naquele momento eu
cheguei a filmar um terço de um longa-metragem que era sobre esse estado de
espírito: só gente indo embora do país, filmei travellings imensos da avenida 23 de Maio, que leva ao aeroporto.
Mas o filme foi interrompido por falta de condições financeiras e pressões
familiares. Por isso, preferi fotografar os filmes de outros diretores.
Comecei a aprender a
fotografar muito cedo, em primeiro lugar porque eu tinha um equipamento de 16
mm e fui obrigado a aprender a lidar com aquilo para poder fotografar meus
próprios filmes e os filmes dos meus amigos. Em segundo lugar, porque vivi uma
situação meio traumática com o fotógrafo do meu primeiro filme e, a partir daí,
passei a fazer eu mesmo a fotografia. A partir de Audácia, a direção de fotografia foi meu sustento por quase 20
anos. Fotografei 38 longas-metragens, além de incontáveis curtas, comerciais, documentários,
filmes institucionais, etc. O fato de ter achado um caminho profissional como
fotógrafo foi o que me possibilitou ficar no Brasil.
De 1971 a 1983 meus
filmes foram feitos estimulados pela bilheteria. As duas únicas grandes
exceções nesse período são Liliam M:
relatório confidencial (1974) e Amor,
palavra prostituta (1979), que são filmes femininos, difíceis e
pessimistas. Em Lilian M, o projeto
estético detona a dramaturgia, é um filme em busca de um estilo, o grande
mérito dele está no experimentalismo dialogando com o cinema popular.
A partir de Filme Demência (1985), começa um ciclo
completamente novo, a terceira fase da minha vida e do meu cinema. São filmes
inspirados basicamente na minha experiência de vida e nas pessoas próximas a
mim. Essa fase deve terminar com um novo projeto de filme chamado A dor do amigo católico. Como observou o
crítico João Carlos Rodrigues, eu sempre intercalo um filme “masculino” com um
“feminino”, e não vai dar para fugir disso agora. Não se trata de um filme
religioso, o que me interessa é a liturgia. Estou interessado no mistério.
Acho que o ponto
culminante do meu cinema erotizado é Extremos
do Prazer (1983). É quando o tema do desejo se confunde com a questão política,
com o marxismo; na verdade, o grande tema do filme é embate entre Marx e Freud,
ou, mais especificamente entre Marx e Reich. A partir daí o desejo, como
assunto, continua me interessando, mas o novo eixo da minha dramaturgia é a
minha experiência cotidiana. Não apenas filmes autobiográficos, mas sempre
visando a reflexão sobre o que me rodeia.
Agora, vou partir
realmente para o imaginário, vou filmar o ABC paulista sob a óptica feminina.
Não vivo no ABC paulista, mas fiz todo um longo trabalho de pesquisa tentando
entender como funciona a cabeça da mulher operária. Escolhi a indústria têxtil
pelo fato de terem sido as operárias têxteis as primeiras a fazerem greve no
país. Pretendo retomar algo próximo ao estilo do meu Anjos do arrabalde (1986) ou do hiper-realismo humanista dos filmes
de Roberto Rossellini.
INFLUÊNCIAS
O melodrama aparece com
clareza nessa minha terceira fase. Aí entra um pouco a influência de
Rossellini, de Valério Zurlini, da fase idealista da adolescência, do cinema
japonês, que é uma influência inegável. Eu não tenho receio de explicitar essas
influências, ao contrário, acho que não dá para escapar delas. Sempre digo que
em todos os meus filmes, em especial em Alma
corsária, existe uma grande influência do cinema brasileiro, sou apaixonado
pelo cinema brasileiro, e nunca tive nenhum preconceito contra gênero nenhum.
Em Alma corsária há a chanchada social de José Carlos Burle, com o
personagem da Flor inspirada na Dercy Gonçalves quando jovem; o personagem de
Jorge Fernando tem o perfil e cacoetes de Zé Trindade. Há Humberto Mauro, há o
Cinema Novo, o Cinema Marginal, o cinema brasileiro está quase todo ali: na
forma de filmar o mar, na forma de filmar o campo.
Em Dois Córregos (1999) há duas sequencias que foram conscientemente
filmadas em homenagem a dois filmes brasileiros. Um deles é Limite, de Mário Peixoto. Em toda a
sequencia da memória do personagem de Beth Goulart, ela está dentro de um barco
à deriva, como em Limite, só que como
o filme é colorido, predomina o azul. O segundo é Ganga bruta, de Humberto Mauro. Na cena final, quando o personagem
de Carlos Alberto Riccelli corre atrás da mulher no meio do mato, se tirar a
música de Ivan Lins e colocar a música de Ganga
bruta, fica igualzinho, com o mesmo sentido estético. Por mais influências
que eu possa ter do cinema japonês, dinamarquês (Dreyer), de Fritz Lang, Orson
Welles, Godard, em praticamente todos os meus filmes há essencialmente o cinema
brasileiro.
ALMA CORSÁRIA
Alma
Corsária é essencialmente masculino. Como em quase todos os
outros, a música tem sempre grande importância. Nesse filme, no entanto, ela é
essencial. Fui eu que compus e arranjei a trilha musical, a música veio antes
do próprio filme.
Em Alma Corsária, o entendimento entre os personagens se estabelece através da poesia. É a poesia que une os dois amigos, que são os personagens principais. Às vezes, a poesia não precisa ser falada, mas estabelece um momento de entendimento entre os personagens, por exemplo, quando o pai da prostituta fuma um cigarro com Rivaldo (o protagonista). É a poesia do trivial, a beleza dos gestos essenciais que esse filme tenta detectar. Não há grandes eventos na vida dos personagens. Os eventos que marca a memória deles estão no cotidiano. Busco, portanto, a poético do prosaico. Isso também está presente em Anjos do Arrabalde e Dois Córregos. Ao contrário dos meus filmes anteriores, construídos a partir de relações distantes do meu cotidiano.
O primeiro roteiro de Alma corsária data de 1981 e se chamava
Alma gêmea. Eu o escrevi com o dinheiro que ganhei num concurso de roteiros, promovido
pelo Estado. Tratava basicamente de dois poetas que lançavam livros distintos,
mas ao mesmo tempo, num mesmo loca. Um de família abastada, outro de família
pobre. Não era tão autobiográfico, era algo mais centrado no período da
contracultura. Ganhei o concurso, esqueci aquele roteiro e fui fazer Filme demência (1985).
Logo veio o Plano Collor
e eu resolvi dar um tempo. Fui estudar música com Wilson Sukordki, um dos
introdutores no Brasil da música digital, e me dediquei ao estudo da
composição, ao uso do computador na música. Montei um estúdio em casa e passe a
me dedicar com mais constância à música. Ao mesmo tempo, estava tentando
desenvolver o projeto Vida de sonhos/sonhos de vida, primeiro esboço da minha
saga operária do ABC, quando a televisão espanhola cortou as co-produções com
países sul-americanos (era com ela que o projeto ia ser feito). Parecia que
tudo conspirava contra mim. Quando eu e a minha sócia Sara Silveira estávamos
abrindo a Dezenove Som e Imagens, para trabalharmos também com música para
filmes institucionais e peças de teatro, surgiu o concurso da Prefeitura do
Município de São Paulo para produção de longa-metragem.
Esse foi o gesto pioneiro
da retomada de produção do cinema brasileiro – deveria ser repetido centenas de
vezes – e ele veio da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, na época da
Marilena Chauí. O concurso era muito bacana porque se propunha a bancar
praticamente 80% da realização de um filme de custo médio ou baixo. Eu ia
entrar com uma história que estava desenvolvendo, chamada A protestante, mas
não havia terminado o roteiro. Então, faltando três dias para entregar, me liga
o Eduardo Aguilar e me sugere entrar com o roteiro que eu fizera em 1981, o Alma gêmea. Fui reler o roteiro, mexi em
várias coisas, coloquei muito da minha vida na história e liguei para minha
sócia afirmando que com esse projeto dava para fazer um filme com o dinheiro do
concurso. No entanto, ente sair o resultado, assinar o contrato e o dinheiro
chegas às nossas mãos, deu-se uma defasagem de 60% no valor, porque a inflação
estava galopante. Quando acabamos de filmar a última cena, acabou o dinheiro.
Um ano e meio depois
começa a funcionar, efetivamente, a Secretaria para o Desenvolvimento do
Audiovisual. A primeira atitude foi financiar, através de lei de incentivo, a
finalização dos filmes interrompidos. Veio a proposta: se nós nos empenhássemos
em terminar Alma corsária a tempo de
exibi-lo no Festival de Brasília, seríamos os primeiros a receber o financiamento.
Foi o que aconteceu. Conseguimos um pequeno financiamento do Banco de Brasília
para fazer a edição final e a mixagem.
Alma
corsária, filmado nos primeiros meses de 1991, teve sua
primeira cópia em outubro de 1993 e custou exatamente US$ 387 mil. Hoje,
custaria no mínimo US$ 900 mil. Não se pagou até hoje. Não foi feito com a
ideia de ser um filme comercial, mas teve uma função importante, pois abriu
várias portas. Por exemplo, trouxe o Espaço Unibanco de Cinema para a
distribuição de filmes brasileiros. Respondeu à necessidade de uma camada
universitária que estava começando a entrar no mercado exibidor francês. Foi
lançado no mercado de vídeo americano como filme de arte, até hoje é vendido lá
com o título de Buccaneer soul. Foi o
primeiro filme que, no processo de retomada, ganhou um prêmio internacional,
nos 30 anos de Pesaro. Nada mais sintomático que o único prêmio ganho pelo
cinema brasileiro em Pesaro, antes de Alma
corsária, tenha sido o prêmio de público para o filme São Paulo S.A., dirigido pelo meu primeiro avalista e produtor,
Luiz Sérgio Person.
Enfim, Alma corsária teve uma importância nesse
processo todo porque se aventurou por territórios abandonados há muitos anos.
Foi votado como um dos maiores filmes da década, tanto no Rio de Janeiro, como
em São Paulo. Na votação do jornal Folha de S. Paulo, foi escolhido como o
segundo melhor filme da década. Quer dizer, a existência dele foi importante
para que esse processo de retomada começasse a existir. Por isso digo que não
dá para acreditar na retomada de mercado sem ter o Estado como parceiro. Nenhum
filme brasileiro se paga unicamente no país.
A LEI DO AUDIOVISUAL
Acho que a Lei do
Audiovisual vem servindo para alavancar a produção. Só que, exatamente por ser
democrática e abrangente, ela suscita o aparecimento de picaretas, de cara que
nunca fez filme na vida, mas que tem grana, tem crédito, e que disputa na cara dura
o mesmo espaço do profissional que milita há muito tempo, ou do estreante que
trabalhou e dedicou anos de sua vida para a produção de filmes. Ora, o cara que
tem produtora, tem grana, tem um monte de equipamento, que é ativo imobilizado,
entra no mesmo páreo que o cineasta que fez 20 filmes e ainda precisa passar
pelo “vestibular” (alguns de cartas bem marcadas). O que aconteceu com Lima
Barreto, com Glauber Rocha, com alguns dos nossos diretores mais importantes,
que deram a sua vida e o sangue pelo cinema? Por que um deus como Nelson
Pereira dos Santos não filma?
O que tornou viável, na
verdade, essa ideia da Lei do Audiovisual foi a parceria com o Estado, essa é a
visão definitiva. No caso de São Paulo, conseguimos fazer com que o governador
entendesse a importância da lei e envolvesse a Sabesp e o Banespa. Acho que a
Lei do Audiovisual só com o empresariado brasileiro funciona pela metade. A
iniciativa privada brasileira é desconfiada e, na maior parte das vezes, morre
de medo do leão. Há exceções, evidentemente, mas basicamente os grandes co-produtores
de filmes brasileiros, hoje em dia, são as empresas estatais e a TV Cultura de
São Paulo.
Quando a Lei do
Audiovisual começou, vislumbrou-se uma luz no fim do túnel para o futuro do
cinema brasileiro. Começou-se quase a poder determinar um nível de dramaturgia
em que se pudesse contemplar tanto para o lado artesanal e artístico quanto o
interesse do público; o público vai ver A
ostra e o vento, Central do Brasil,
Guerra de Canudos, Lamarca, Orfeu, Policapo Quaresma.
Conseguiu-se, até, definir um perfil de cinema que, sem abrir mão de sua
identidade, tentava se aproximar do mercado externo, e isso era interessante.
Mas, de repente, começam a entrar na roda os picaretas do meio, que tentar usar
a lei para cavar dinheiro fácil com o documentário oportunista em série –
coisas como “50 filmes sobre os 500 anos do descobrimento do Brasil” ou “Pedras
preciosas do Brasil” ou “Animais ameaçados do Brasil” e outras sandices. Eu
entendo que a Lei do Audiovisual foi feita para estimular a dramaturgia
nacional com a cumplicidade da iniciativa privada, para oxigenar a produção que
estava agonizante e não para privilegiar o filme institucional mercenário, sem
identidade, assinatura e vergonha na cara.
FILMES DIRIGIDOS POR
CARLOS REICHENBACH
1968- As Libertinas (episódio “Alice”), 35 mm,
longa-metragem
1968- Essa rua tão Augusta, 35 mm,
curta-metragem
1969- Audácia, fúria dos desejos (prólogo,
episódio “A Baladíssima dos trópicos contra os picaretas do sexo”), 35 mm,
longa-metragem
1971- Corrida em busca do amor, 35 mm,
longa-metragem
1974- Lilian M: relatório confidencial, 35 mm,
longa-metragem
1977- Sede de Amar (Capuzes Negros), 35 mm, longa-metragem
1977- A ilha dos prazeres proibidos, 35 mm,
longa-metragem
1979- Amor, palavra prostituta, 35 mm,
longa-metragem
1980- Sangue corsário, 35 mm, curta-metragem
1980- Sonhos de vida, 35 mm, curta-metragem
1980- O M da minha mão, 35 mm, curta-metragem
1980- Paraíso proibido, 35 mm, longa-metragem
1982- As Safadas (episódio “A rainha do
fliperama”), 35 mm, longa-metragem
1983- Extremos do Prazer, 35 mm,
longa-metragem
1985- Filme demência, 35 mm, longa-metragem
1986- Anjos do arrabalde, 35 mm,
longa-metragem
1988- City Life (episódio “Desordem em
progresso”), 35 mm, longa-metragem
1994- Alma corsária, 35 mm, longa-metragem
1994- Olhar e sensação, 35 mm, curta-metragem
1999- Dois Córregos, 35 mm, longa-metragem
2002- Equilíbrio & graça, 35 mm,
curta-metragem
Publicado originalmente
em NAGIB, Lúcia. O cinema da retomada:
depoimentos de 90 cineastas dos anos 90. Lúcia Nagib; prefácio de Ismail
Xavier- São Paulo: editora 34, 2002.
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