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sexta-feira, 29 de outubro de 2021

Grandes matérias esportivas do Jornal da República: “A Portuguesa tropeçou em Sócrates” (10/9/1979)

CORINTHIANS 2, PORTUGUESA 0

 

A Portuguesa tropeçou em Sócrates

Ele deu passe para os dois gols e quebrou a invencibilidade da Portuguesa


TONICO DUARTE

 

O estádio do Pacaembu faz com que qualquer jogo de futebol tenha o sabor dos velhos tempos. A frase pode encerrar uma semelhança com propagandas de cigarro ou licor, mas é cheia de verdade. Talvez pela sua arquitetura, concebida em pleno Estado Novo, que faz lembrar um circo romano. Pena que tanto aconchego tenha sido estragado por Paulo Maluf que, na sua época de prefeito de São Paulo, demoliu a concha acústica para construir o tobogã, um monstrengo de concreto que não tem nada a ver com o estilo do resto do conjunto.

Foi lá que, ontem, como nos velhos tempos, o Corinthians venceu a Portuguesa por 2 a 0, quebrando uma série invicta de 13 jogos. E a sua torcida teve mais uma vez o prazer de assistir o requintado futebol de Sócrates. É neste estádio que encontro o velho comentarista Mauro Pinheiro, da rádio Bandeirantes. Com aquele seu aplomb Mauro lembra o passado e, coincidentemente, o Corinthians e o Pacaembu sempre tiveram uma história em comum: “Aqui existe um aconchego, como se o estádio criasse vida para receber a torcida com carinho”.

Talvez por isso, no Pacaembu, a torcida do Corinthians se sinta em casa. E se espalha muito à vontade: os “Gaviões”, a “Camisa 12”, até a pequena e nova “Evolução Corintiana”, muito provavelmente uma torcida darwinista. Gritam palavrões, choram, enchem a cara e brigam com a maior naturalidade. Daniel Criosto, por exemplo, quis mostrar para a namorada Elzinha que era machão. Havia alguém sentado em seu lugar, nas numeradas cobertas, e ele não teve dúvidas – deu um tremendo tabefe na cara do atrevido. Elzinha, em prantos: “Deixa pra lá Daniel”...

O jogo começa e a Portuguesa está melhor. Mas nem por isso a torcida deixa de festejar. Afinal, o serviço de alto-falantes informa que, em Rio Preto, o América vai ganhando do Palmeiras. E o Palmeiras é o arqui-inimigo de toda aquela gente. Surgem os primeiros gritos de “porco, porco”. A pequena torcida da Portuguesa protesta e a ira dos corintianos se volta contra ela: “Burro, burro”.... - tanta vaia que a Portuguesa nem parece um time da cidade.

Rita Lee se diverte com tudo isso. Ela assistiu ao jogo na cabine da Globo, convidada por Osmar Santos. E Rita comenta que vê como se estivesse fazendo um dos seus deliciosos rocks. Talvez, um dia, ela realmente venha fazer uma canção para Sócrates: “É impressionante o nível da transação da cabeça do Sócrates. Isto aqui é uma festa, e ele é a parte maravilhosa de tudo”.

Mas o Pacaembu, ao longo dos tempos, também tem uma tradição de ser um importante ponto de contato político. No salão de mármore onde agora é servido o cafezinho para jornalistas, cartolas, eternos bocas-livres e políticos, o deputado federal Caio Pompeu de Toledo arregimenta os seus eventuais futuros eleitores. Elegante, calças bem cortadas, Caio é sempre solícito e simpático, se bem que os inimigos políticos costumam partir para algumas ilações, como, por exemplo, dizer que tão cordata figura iniciou-se politicamente no CCC.

No segundo tempo, a torcida do Corinthians sossega: o time começa a render um pouco mais. Dentro de campo, o juiz José de Assis Aragão pensa, ao que me informam, no fim-de-semana prolongado que poderia estar passando e São Sebastião. Aragão havia alugado, junto com alguns amigos, uma casa na praia e pedira licença à Federação. O presidente Nabi Abi Chedid lhe teria prometido que, ontem, ele seria escalado para apitar em São José dos Campos, de onde depois, desceria para o litoral. Ilusão: Aragão apitou o principal jogo da rodada e foi obrigado a esquecer os seus sonhos de ganhar uma cor morena, quem sabe jogar um futebolzinho.

Enquanto isso, Sócrates vai demolindo a Portuguesa. Em duas jogadas pessoais, aos 13 e aos 39 minutos, ele deixou Palhinha e Romeu prontos para marcar os 2 a 0. E, não bastasse tudo isso, aos 16 minutos levou uma solada de Bolívar, aturou-se ao chão, reclamou do juiz, fez com que a torcida iniciasse o inevitável “bicha, bicha”, pedindo pênalti. Terminada a partida, nos vestiários, ele ri e faz confissões com a sua genial simplicidade:

“Pênalti nada, só! Eu me joguei no chão, bem que temei cavar, mas o Aragão não entrou”.

No outro vestiário, João Avelino pode ter perdido o jogo, mas não perdeu a malandragem. Ele consola um grupo de chorosos lusitanos – “ai, Jesus, que lástima”. João repete o seu filósofo de cabeceira, Neném Prancha:

“Lástima nada, vamos para outro. Futebol é como sorveteria, tem pra todo quanto é gosto”.

Lá fora já é noite, e as menininhas de sempre esperam ansiosas pelos seus olimpianos. A torcida vai deixando o velho estádio e mais uma vez, “Corintia” parece ser a voz que vem da cidade.

 

O JOGO FOI ASSIM:

Corinthians 2, Portuguesa 0

Corinthians

Jairo; Zé Maria, Amaral, Djalma e Vladimir; Caçapava, Basílio e Palhinha (Biro-Biro); Vaguinho, Sócrates e Wilsinho (Romeu).

Portuguesa

Everton; Edson, Daniel Gonzalez, Bolívar e Toninho Fraga; Luciano, Eudes e Enéas; Zair (Carrasco), Rui Lima e Jorge Luís.

Juiz: José de Assis Aragão

Renda: Cr$ 2.390.760,00

Público pagante: 51.143 pessoas

Gols: Palhinha aos 13´e Romeu aos 39´do segundo tempo.

Cartão amarelo: Enéas.

 


Publicado originalmente no Jornal da República em 10 de setembro de 1989, edição 13

 

sexta-feira, 8 de outubro de 2021

Grandes matérias esportivas do Jornal da República: “O Juventus dava de 3 a 0. Até que...” (19/11/1979)

PORTUGUESA 3, JUVENTUS 3


O Juventus dava de 3 a 0. Até que...



A torcida da Portuguesa estava indo embora. Mas aí a Lusa empatou – e quase venceu o jogo

 

FRANCISCO MALFITANI

 

Exatamente aos 14 minutos do segundo tempo do jogo Portuguesa e Juventus, ontem pela manhã, no Parque Antártica, boa parte da torcida lusa se levantou dos degraus de cimento da arquibancada e indignada, acenando com os braços, berrou: “Bamos embora, bamos embora”. É que o pequeno ponta-direita Mica, do Juventus, acabava de fazer 3 a o para o seu time levando ao desespero os manuéis e joaquins presentes, que descarregavam a sua raiva sobre os jogadores e dirigentes da Portuguesa.

Mas os que foram mais pacientes e não deixaram o estádio certamente não se arrependeram. Aos 26, aos 32 e aos 42 minutos, puderam vibrar intensamente com os três gols de sua querida “burra”, que aplicou no Juventus uma estilingada ao melhor estilo do “Moleque Travesso”.

Um corintiano, nas arquibancadas do Parque Antártica, pulava e gritava como o mais fanático torcedor da Lusa, no momento que esta empatou o jogo. “Isto é bom para este time do Juventus experimentar do seu próprio veneno. No ano passado eles desclassificaram o meu Corinthians, virando o jogo de 2x0 para 3x2”, disse ele.

Portuguesa e Juventus foi, de fato, um jogo de muitas emoções. No primeiro tempo, o time da Mooca dominou a partida, com Russo destruindo as jogadas da Lusa e Cézar construindo os melhores lances do Juventus. Já aos 7 minutos, o centroavante Tatá cabeceava na trave do goleiro Everton. Daí até os 29 minutos, quando Mica de pênalti, fez o primeiro gol da partida, as melhores chances de gol estiveram sempre com o Juventus.

Tocando a bola e se deslocando muito, o meio de campo e o ataque juventino deixavam maluca a defesa da Lusa. No segundo tempo, Enéas perdeu um gol cara a cara com Colonezi. Mas o Juventus continuava a mandar na partida.

Aos 14 minutos, Tatá, de cabeça, depois de um escanteio cobrado por Toninho Vanusa, fez 2 a 0 para o Juventus. E aos 16, Mica, num contra-ataque, fazia pular de alegria à torcida do Juventus, composta de pouco mais de uma dúzia de gatos-pingados.

Neste momento, quase a metade da torcida da Portuguesa se retirava do estádio, e o técnico João Avelino colocava Rui Lima e Cacá em campo, em lugar dos inoperantes Eudes e Zair.

Aí deu a louca no time da Portuguesa. As duas substituições, mas a vergonha de estar perdendo de 3 a 0 para o Juventus, fizeram o time de Enéas acordar e correr como nunca.

O Juventus se encolheu, mas a tática de jogar atrás já não dava mais resultados. O time estava sem pernas, neste encalorado domingo e não aguentava a pressão do adversário. Aos 26 minutos, Enéas fazia o primeiro gol da Lusa. Seis minutos depois, outra vez Enéas, de voleio na pequena área, fazia o segundo gol. Aí a torcida já se agitou nas arquibancadas. E quando, aos 42 minutos, o novato Cacá empatou o jogo empurrando a bola para dentro do gol, na saída de Colonezi, a “portuguesada” explodia de alegria.

Não parecia verdade, seu time tinha conseguido virar o jogo. A respiração de todos no estádio, no entanto, continuou presa até o apito final de Romualdo, pois ainda no último lance do jogo Cézar chutou uma bola na trave de Everton, que, batido, ainda viu no rebote Tatá chutar para fora com o gol aberto a sua frente.

“Chega” – desabafou um português ao final da partida – “mais um jogo como este, e lá na padaria não vão ter que arrumar outro para ficar no caixa, pois meu coração não aguenta”.

 

O JOGO FOI ASSIM:

Portuguesa: Everton; Edson, Daniel Gonzáles, Bolívar e Toninho; Luciano, Eudes (Rui Lima) e Enéas; Zair (Cacá), Caio e Faísca.

Juventus: Colonezi; Deodoro, Fagundes, Leiz e Bizi; Russi, Toninho Vanusa e Cézar; Mica, Tatá e Cuca.

Renda: Cr$ 241.430.000 com 4.582 pagantes e 848 menores.

Juiz: Romualdo Arppi Filho

Gols: Mica aos 29 minutos do primeiro tempo; no segundo tempo, Tatá aos 14, Mica aos 16, Enéas aos 26 e aos 32 e Cacá aos 42 minutos.

 

Publicado originalmente no “Jornal da República” em 19 de novembro de 1979, edição 72


quarta-feira, 6 de outubro de 2021

Grandes matérias esportivas do Jornal da República: “A Portuguesa podia até ter goleado” (12/11/1979)

PORTUGUESA 3, NOROESTE 1

 

A Portuguesa podia até ter goleado

 




FRANCISCO MALFITANI

 

Os 3.844 torcedores da Lusa que acordaram mais cedo neste domingo e, com suas boinas, gorros, bonés, capas e guarda-chuvas, enfrentaram o frio e a garoa ontem pela manhã no Tamancão não ficaram arrependidos. A Portuguesa jogou um futebol que há muito tempo não se via. Derrotou com facilidade o Noroeste de Bauru por 3x1, e só não goleou porque seus atacantes, principalmente o sonolento Enéas, perderam diversos gols.

Logo aos 2 minutos de jogo, o ponta Zair cruzou de direita e Enéas, de cabeça, fez os “Leões da Fabulosa” vibrarem com o primeiro gol do seu time. A partir daí, passou a dominar completamente o Noroeste – que, no entanto num contra-ataque, aos 33 minutos ainda do primeiro tempo, empatou o jogo, numa cabeçada de Jorge Fernandes. Mas a torcida da Portuguesa não chegou a ficar preocupada, pois seu time jogava bem. Tanto que, logo em seguida ao gol de empate do Noroeste, Enéas e Faísca perderam dois gols feitos. Aproveitando o campo pesado e a bola molhada, Luciano “Coalhada” teve desempatar o jogo, através de fortes chutes de longa distância, que, continuando, acabavam sempre nas mãos do bom goleiro João Marcos, do Noroeste.

No segundo tempo, a Portuguesa veio a massacrar o seu adversário. Os primeiros dez minutos foram de muita agitação no Canindé. A Lusa pressionava, os jogadores do time do Noroeste faziam faltas violentas consecutivas, principalmente Caio, a estrela do jogo de ontem.

Aos 5 minutos, Enéas perde um gol feito, por querer enfeitar demais a jogada. Logo em seguida, o bandeirinha marca um impedimento inexistente no ponta Faísca, e a torcida lusa se levanta, revoltada e arremessa dezenas de saquinho de tremoço na sua cabeça. Mas, aos 10 minutos, depois de Caio sofrer uma falta, Luciano cobra com efeito e o bom lateral-direito Edson, dos juvenis, sobe lá no alto e mete a bola no fundo do gol de João Marcos, desempatando o jogo. E, comandada por Caio, a Portuguesa continuou encurralando o Noroeste. Aos 33, em outra jogada de Caio, o ponta Faísca fez o terceiro de seu time. Para que se tenha ideia da alegria e do bom humor que tomou conta dos manuéis e dos joaquins, basta dizer que Enéas, depois de perder mais um gol, e desta vez sem goleiro, foi entusiasticamente saudado pelos torcedores da Lusa.

 

O JOGO FOI ASSIM

Portuguesa: Everton; Edson, Daniel Gonzales (Altair), Bolívar e Toninho; Luciano, Enéas e Wilson Carrasco; Zair (Rui Lima), Caio e Faísca.

Noroeste: João Marcos; Borges, Tobias, Jorge Fernandes e Maurício (Santos); Ednaldo, Mardoni e Helinho; Jorge Maravilha (Ziquita), Lela e Wallace.

Juiz: Emídio Marques Mesquita

Renda: Cr$ 189.110,00

Gols: Enéas, aos 2, e Jorge Fernandes, aos 33 do primeiro tempo; Edson aos 10 e Faísca aos 33 do segundo tempo.

 

Publicado originalmente no Jornal da República de 12 de novembro de 1979, edição 66

segunda-feira, 4 de outubro de 2021

Grandes matérias esportivas do Jornal da República: “O coração luso bate de puro orgulho” (31/08/1979)

 INVENCIBILIDADE

O coração luso bate de puro orgulho

Mais uma rodada sem derrota. A Portuguesa renasceu em campo e na alma de algumas dezenas de Manueis e Joaquins

 


TONICO DUARTE

O Canindé é uma pequena fatia da zona norte da cidade, cheia de labirintos de ruas tortuosas, becos sem saída e poeira. Lá, os caminhões de fretes que seguem para todo país fazem entroncamento. O ar cheira a doce e pão fresco, aromas que vem das várias padarias e fábricas de doces, todas elas de portugueses. Eles se estabeleceram ali, a partir do começo do século, deixando a terrinha para fazer a América. E, nada mais natural, por aqueles lados acabou surgindo Associação Portuguesa de Desportos, conhecida na intimidade como “Lusa” ou “Burrinha”. A Portuguesa sempre quis assumir o status de time grande.

Bem, há pouco mais de um mês atrás ninguém era capaz de dar um centavo para ela. Era uma equipe a beira da indigência, apresentando um futebol combalido. Em campo, o amontoado de jogadores fazia lembrar o exército de Brancaleone. E, imaginem fez um longo jejum de vitórias, coisa de mais de quarenta jogos. Uma humilhação. Mas, a coisa mudou de repente. Há mais de um mês, exatamente onze jogos, a Portuguesa está invicta. Partiu para a façanha, fazendo com que os alegres patrícios levassem a mão ao coração...ai, Jesus!

Mineiramente. O responsável por tudo isso, dizem as boas e as más línguas, é João Avelino, 48 anos, mineiro. No caso, a mineirice significa mais uma virtude do que, propriamente um atributo geográfico. Ele tem um estilo, vamos dizer, caipiro-malandresco. De João, há histórias fantásticas: certa vez, treinando um time do Norte, mandou diminuir o gol onde ficaria o seu goleiro, ao mesmo tempo em que aumentava o adversário. Acredita em macumba e conhece, na palma da mão, todos os jogadores brasileiros, de norte a sul.

Na manhã de ontem fui falar com ele, tentar descobrir o segredo dessa Fênix-Portuguesa. João estava cansado da viagem de volta de Marília onde, na noite anterior, o time empatara sem gols. “Mas perdemos uma cacetada deles”. Baixinho, gordinho mas elegante, vai logo soltando uma das frases de efeito do seu repertório:

“O segredo é atacar em leque e defender em espinha de peixe”.

João me conta que, para fazer o time funcionar, teve um trabalho estafante. Buscou jogadores pelo país inteiro, uma cosmopolitice. E, dizem, acabou até rompendo com o “cumpade” Osvaldo Brandão, que abandonou a equipe por não acreditar na possibilidade de sucesso. O velho Brandão, todos sabem, nunca foi padeiro de fazer bom pão com farinha de qualidade inferior. João, ao contrário, está acostumado a montar times.

Migrantes. Primeiro foi preciso fazer uma devassa, mandar uns dez jogadores embora. Depois, foram chegando os outros, escolhidos à dedo por João e comprados com os parcos recursos do Departamento de Futebol profissional. Isto porque o presidente Osvaldo Teixeira Duarte, homem que passa da explosão para o choro compulsivo em segundos, tem a única preocupação de imortalizar-se através de um estádio faraônico, na boca do povo, o “Tamancão”.

A Portuguesa parece um autêntico escritório de migração. Chegaram jogadores de Minas, de Pernambuco, Sergipe, Rio de Janeiro até do Piauí, de onde vieram Cacá e Rui Lima. A timidez deste grupo, juntou-se a experiência dos veteranos Moisés e Luciano, além de ter surgido praticamente do nada, o artilheiro Caio. Mas, fundamentalmente, renasceu o futebol cheio de requinte de Enéas, atacante que, até bem pouco tempo, parecia não querer nada com nada. Um dos poucos jogadores deste país que utiliza bem palavras como “defasagem” ou “geopolítica”, Enéas está com sua eterna cara de sono:

“No momento atual, creio que não podemos nos deixar levar pela empolgação. O trabalho deve continuar de maneira tranquila porque, em paz, conseguiremos atingir os objetivos a que nos propusemos”.

Caravelas. Mas, junto com o futebol do time, renasceu o orgulho lusitano. No Canindé existem duas tribunas livres: o quiosque, dentro do clube e o bar do Abílio, fora. Ali são elogiados e esculhambados com igual desenvoltura os jogadores, o técnico, o presidente do clube, dona Pintassilgo, enfim, tudo. E também jogam sueca, coisa tão tipicamente portuguesa como o fado. O velho Bernardino Barrigana, homenzarrão que anda sempre de paletó, calças e chinelos, explica tão arraigado sentimento nativista: “Isto vem do tempo das caravelas, quando Cabral descobriu o Brasil e Colombo, a América Latina”.

Barigana é da Extremadura, Abílio, da Beira Alta, duas regiões distintas. Um torce para o Benfica, outro para o Porto e, invariavelmente, acabam discutindo. Mas comovem-se com programas como “A Grande Portuguesa”, na Rádio Jornal, onde o apresentador Wilson Brasil – na verdade, o descendente de árabes Wilson Reinak Miziara – faz longas dissertações sobre a terrinha. Coisa cheia de saudade. O ex-grumete artilheiro da Marinha Portuguesa e fadista ocasional Nicolau Marques Osório afirma que igual ao sangue lusitano só mesmo um bom vinho verde: “Os dois estão sempre a ferver”.

Apesar do “sangue a ferver”, e de sua sempre lembrada condição de ex-militar, Nicolau é um homem extremamente cordial. Viveu uns tempos em Lisboa, o que o acento alfacinha denúncia. Oferece a mim e ao fotógrafo João Bittar dois “papos-secos”, pãezinhos redondos que o fazem lembrar a capital da terra – “uma delícia, provem” mas diz que só canta os fados castiços depois de uma ou duas bagaceiras. Nicolau nos mostra, com muito orgulho, sua carteirinha de associado da Portuguesa – “esta equipe vai ser um espanto, oh pá”.

Com todo esse orgulho pelo time, digno das melhores tradições, ninguém mais liga para aquelas histórias folclóricas e humorísticas envolvendo portugueses. Como daquela motoniveladora que foi esquecida dentro do estádio, depois de concluído o primeiro anel da construção. Não havia por onde a geringonça pudesse sair e os patrícios fizeram longos conselhos de guerra: enterravam ou desmontavam o engenho para retirá-lo por partes? No fim, optaram pela segunda hipótese.

 

Publicado originalmente no Jornal da República em 31 de agosto de 1979, edição 5

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Oswaldinho, o terrível





O polêmico presidente da Lusa esmurra a mesa virada da CBF e bem a seu estilo garante o clube na Copa Brasil

Por Nelson Urt


Os efeitos colaterais de singelas gotas de descongestionante pingadas nas narinas do jogador Carlos Alberto, do Sergipe, mudaram os destinos do futebol brasileiro. Carlos Alberto pode até ter respirado melhor com o remédio, mas deixou no maior sufoco o presidente da CBF, Otávio Pinto Guimarães. Afinal, quem cairia fora da Copa do Brasil: Vasco ou Joinville? “A Portuguesa”, bombardeou Otávio. Aí, a coisa entupiu de vez.


Puxar o tapete do time de Oswaldo Teixeira Duarte, o mais polêmico dirigente do futebol paulista, era encomendar confusão, muita confusão. Desde 1970, quando se elegeu pela primeira vez presidente da Portuguesa de Desportos, doutor Osvaldinho - como é tratado no Canindé - defende a honra rubro-verde como a própria vida e confere cada centavo da contabilidade do clube como se fosse 1 milhão. “Quando se trata de nossas finanças, sou um ditador”, reconhece. “Ninguém me passa a perna com facilidade”.


De fato, na quinta-feira da semana passada, dia 16, debruçado sobre um despacho da CBF - que atendia a uma determinação do Conselho Nacional de Desportos (CND) e reintegrava a Portuguesa à Copa Brasil -, Teixeira Duarte celebrava mais uma vitória em sua conturbada carreira. “Não fosse ele, seríamos faz tempo um clube pequeno”, acredita o pianista João Carlos Martins, um dos maiores intérpretes mundiais de Bach e fanático pelo futebol da Lusa.


Como Martins, outros torcedores da Portuguesa também crêem que a história do clube pode ser dividida entre antes e depois do doutor Oswaldinho. Quando assumiu a presidência, a Associação Portuguesa de Desportos contava com 3 000 sócios e um campo. Com uma vitoriosa “campanha dos tijolos”, ele ergueu o vistoso estádio para 35 000 pessoas e elevou para 100 000 o número de associados. Hoje, orgulha-se de nada dever a ninguém e ainda mantém uma conta na caderneta de poupança que ajuda a pagar as obras de um novo restaurante ao lado do estádio. “Aqui, tudo passa por minhas mãos e, se possível, economizo 1 000 cruzados por dia”, garante. “Comigo, o pagamento sai religiosamente em dia, ao contrário de muitos clubes que se dizem grandes por aí”, orgulha-se.


HOMEM LETRADO- No ano passado, rompeu com as televisões e os jogos da Portuguesa não puderam nem ser gravados, porque queriam pagar cota de clube pequeno. “Temos mais sócios que todos os grandes juntos”, dispara Teixeira Duarte. Na atual Copa Brasil, recorreu à Justiça Comum para questionar o recolhimento de 5% de renda líquida dos jogos para pagamento da arbitragem e, com o apoio do CND, ganhou a luta. “Quem se contenta com pouco, perde o direito de ter muito”, recita o cantor português Roberto Leal, outro admirador do presidente. “Como se diz na nossa terra, o doutor Oswaldo é um home letrado”, exulta Leal.


“Podem chamá-lo de tudo, menos de desonesto”, defende a filha Maria Cristina, jornalista e sua assessora na Portuguesa. “É um dirigente centralizador, conservador e que se perde por ser muito passional”, prefere Adílson Monteiro Alves, ex-presidente de futebol do Corinthians, e não se esquece de que Teixeira Duarte foi o maior contestador da democracia corintiana. Na imprensa, o presidente da Portuguesa também ganhou muitos inimigos. Seu nome é citado pelas iniciais OTD no Jornal da Tarde e bem isso é feito pelo O Estado de São Paulo, que o identifica em todos os textos apenas como “o presidente da Portuguesa”.


TRANSLADO DE CABRAL- Doutor Oswaldinho ou OTD, seja como for, segue em frente. Formado em Direito no tradicional Largo São Francisco, Teixeira Duarte sobressaiu também na política. Já foi subprefeito de Santo Amaro, elegeu-se vereador pela extinta Arena em 1972, perdeu a reeleição “por culpa da decadente legenda” e agora é candidato a deputado estadual pelo PDT. “A criança, o negro, a mulher e a ecologia são nossas metas”, discursa. Planeja ainda transladar os restos mortais de Pedro Álvares Cabral para o Brasil. “Em Portugal, o homem está enterrado em cova rasa”, lamenta. “Precisamos trazê-lo para o Monumento do Ipiranga”.


Ninguém pode prever se Cabral voltará à generosa terra onde, se plantando, tudo dá. Ou melhor, quase tudo: o doutor Oswaldinho, num contra-ataque, já conseguiu, um dia, esmurrar a mesa virada pela CBF.


Publicado originalmente na revista Placar, edição 857, em 2 de outubro de 1986. O diretor de redação da publicação era o grande Carlos Maranhão.

domingo, 15 de agosto de 2010

Portuguesa 90 anos

A gloriosa Associação Portuguesa de Desportos completou 90 anos de história ontem. Time mais querido da cidade, a Lusa teve em toda sua trajetória diversos grandes jogadores e inúmeras glórias. Denner, Enéas, Capitão, Djalma Santos e Pinga são somente alguns dos craques que passaram pela agremiação do Canindé. Na minha opinião, a história da Portuguesa deveria ser ensinada nas escolas para as crianças. Parabéns Lusa!