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sexta-feira, 12 de novembro de 2021

Grandes matérias esportivas do Jornal da República: “O São Paulo não merecia tanto” (16/11/1979)

SÃO PAULO 1, AMÉRICA 0

 

O São Paulo não merecia tanto

 


ANTÔNIO CARLOS GUIDA

 

Para o técnico Mário Juliato, que considerava o empate um bom resultado, certamente o seu time superou as expectativas. Mas a torcida não se iludiu com o péssimo futebol apresentado ontem pelo São Paulo, que só venceu graças a um erro do juiz Roberto Nunes Morgado. Aos 34 minutos do segundo tempo, quando o São Paulo fazia cera, tentando segurar a vitória, Bezerra, depois de ser driblado, empurrou escandalosamente o centroavante Luís Fernando dentro da área, quando este já se preparava para fazer o gol de empate. Morgado, para espanto dos americanos, marcou apenas obstrução, com a cobrança de um tiro indireto, que foi apanhado por Valdir Perez.

Na verdade, desde o início do jogo o América mostrou um time mais armado, trocando bem a bola no meio de campo e errando apenas nas finalizações, a maioria delas em chutes de fora da área. O São Paulo limitava-se a perigosos contra-ataques. Foi dessa maneira que conseguiu duas pontadas perigosas, onde Leivinha e Serginho desperdiçaram dois gols certos, chutando para fora quando se encontravam sozinhos diante de Luís Fernando. Chicão, no meio do campo, despontava como um dos piores jogadores em campo e a torcida já começava a impacientar-se com os sucessivos passes errados de seu time.

Veio o segundo tempo e o panorama não se modificou. O América voltou ainda mais perigoso. Em apenas quatro minutos, perdeu três chances de abrir o placar. O São Paulo, na base da raça, tentava equilibrar as ações. Foi num desses contra-ataques que surgiu o belo gol de Serginho, dentro da área, acertou sem-pulo de pé esquerdo, indefensável para o goleiro. A partir desse momento o América foi todo para a frente, encurralando ainda mais o São Paulo. Depois do pênalti não marcado, o América ainda teve uma chance de empatar, aos 42 minutos, quando o meia Serginho apanhou um rebote da defesa e, da marca de pênalti, chutou de primeira para fora. Antes do juiz apitar o final da partida, o São Paulo quase amplia o marcador, com Serginho se atrapalhando e permitindo que o goleiro o desarmasse com os pés.

 

O jogo foi assim

São Paulo: Valdir Perez; Getúlio, Jaime, Bezerra e Chico Fraga; Chicão, Teodoro e Leivinha (Vilson Tadei); Edu (Jaiminho), Serginho e Zé Sérgio.

América: Luís Fernando; Paulinho (Luís Vieira), Mauro, Jorge Lima e Berto; Gerson Andreotti, Cléo e Serginho; Marinho, Luís Fernando e Cândido.

Juiz: Roberto Nunes Morgado

Renda (excepcional para um jogo do São Paulo): Cr$ 665.910 com 11.359 pagantes.

Gol: Serginho aos 17 minutos do segundo tempo.

Cartões amarelos: para Luís Vieira, do América; e Jaiminho, do São Paulo, que conseguiu tomar um cartão embora só tenha encostado duas vezes o pé na bola em 25 minutos de jogo.


Publicado originalmente no "Jornal da República" em 16 de novembro de 1979

 

quarta-feira, 10 de novembro de 2021

Grandes matérias esportivas do Jornal da República: “A história da venda de Oscar para o Cosmos” (7/12/1979)

A história da venda de Oscar para o Cosmos


Os americanos estavam de olho no zagueiro desde a Copa. Pelé participou da transação

 

JOSÉ MEIRELLES PASSOS

 

Quando o presidente do São Paulo FC, Antônio Leme Galvão, chegou à sede da Ponte Preta, acompanhado do diretor José Douglas Dallora mais no técnico Mário Juliato, a diretoria do clube de Campinas já estava conversando há pelo menos meia hora com o pessoal do New York Cosmos. O assunto era o mesmo: a compra do zagueiro Oscar. O Cosmos ganhou a partida. E, segundo seu principal representante, o economista José Roberto Xisto, o motivo foi simples: objetividade. “Quando o Galvão chegou, os diretores da Ponte pediram licença para atender os são paulinos. Ficamos na sala ao lado, e ouvi aquela conversa mole de sempre, a política do pisa macio. Duas horas de conversa e os caras nem deram preço. Cartola brasileiro é isso aí...”, contou Xisto, ontem à tarde, pouco antes de embarcar para Nova York, Xisto e Edevar Sérgio Nicoletti, ex-goleiro do Santos, são funcionários da Pelé S.A. Na verdade, são os que costuma chamar de “braço-direito” dele. Assim que a direção do Cosmos decidiu pela contratação, deixou tudo na mão de Pelé. “Desde a Copa do Mundo estávamos de olho no Oscar”, disse Xisto. Ele explicou que, a princípio, o time de Warner Bros, só queria comprar “estrelas”, por uma questão de marketing: “Agora, estamos iniciando um processo de reformulação, e vamos montar um verdadeiro time. Um bom time. Talvez a gente até compre mais um brasileiro”.

A conversa com os dirigentes da Ponte Preta foi longa, das 22 horas de quarta-feira até ás 4 da manhã de ontem. Os campineiros pediam 20 milhões de cruzeiros pelo passe, enquanto os norte-americanos dispunham-se a pagar 12 milhões de cruzeiros. Por fim, ambas as partes cederam – se bem que, os gringos tenham levado vantagem: “Acabamos acertando em torno de 16 milhões de cruzeiros (500 mil dólares) e a Ponte concordou ainda em jogar duas partidas nos Estados Unidos, gratuitamente. Nós pagaremos hotel e as passagens”, contou Xisto. Segundo ele, a ideia é promover – numa data a ser fixada, entre abril e outubro do ano que vem – um quadrangular em Nova York, entre Cosmos, Ponte, possivelmente o Ajax da Holanda e mais um clube norte-americano: “Em cada jogo desses a gente consegue colocar pelo menos 40 mil pessoas no estádio”, afirmou o representante Pelé-Cosmos.

Oscar viajará para os Estados Unidos dia 17. No dia seguinte, assinará o contrato (dois anos, a 20 mil dólares – 600 mil cruzeiros – por mês) e será apresentado à imprensa. Dia 19 ele retornará ao Brasil, para providenciar sua mudança. Como abriu mão dos 15% sobre o preço do passe, Oscar ainda fará um acordo com o Cosmos. De qualquer forma, segundo Xisto, ele já tem garantido passe livre após 2 anos, além de uma casa, um carro e “mordomias” durante o tempo que ficar em Nova York.

 

O velho problema da dor na virilha

Ontem, pela manhã, Oscar esteve no Hospital Santa Catarina, onde foi examinado pelo dr. Rafaeli. O problema é a dor na virilha, que o afastou da Seleção há três meses. Uma dor que afeta todos os ligamentos entre as pernas e que, algumas vezes, torna doloroso o simples movimento de descer da cama. Mas, embora os resultados dos exames não tenham sido divulgados em detalhes, sabe-se que esse problema não impedirá a transferência de Oscar, que, na madrugada de ontem, no gabinete do presidente da Ponte, dava até chutinhos no ar, para demonstrar que está em boas condições físicas. O técnico Zé Duarte, no entanto, durante o treino, de manhã, não fazia segredo aos repórteres:

- O jogador não está bom. O problema dele é sério. Talvez demore uns quatro meses para voltar a campo.

Quando percebeu que suas palavras estavam sendo anotadas, Zé Duarte tentou consertar:

- Mas acho que a medicina dos norte-americanos está muito avançada, e o Oscar vai conseguir uma recuperação rápida. Além disso, o campeonato lá só começa em abril.

Já o presidente da Ponte, Edson Aggio, naturalmente não queria nem ouvir falar na virilha de Oscar, temeroso de um revertério nas negociações. A transação, aliás, foi a melhor coisa que poderia acontecer para a nova diretoria do clube, eleita segunda-feira, e que ao tomar posse encontrou uma dívida de Cr$ 6 milhões deixada por Lauro Morais.

(*) Colaborou João Batista Olivi, de Campinas.

 

Publicado originalmente no Jornal da República em 7 de dezembro de 1979, edição 88

segunda-feira, 8 de novembro de 2021

Grandes matérias esportivas do Jornal da República: “Até no futebol Maluf se infiltra” (21/9/1979)

PERSONAGENS

Até no futebol Maluf se infiltra

É uma das histórias que contamos. A outra é de Zé Duarte.

 


Zé Duarte voltou para os passarinhos

Existem dois Zé Duarte. Um, o homem com uma extraordinária sensibilidade para captar o talento futebolístico florescente de qualquer jovenzinho que desponte nas várzeas interioranas – que ele conhece como a palma da mão. Outro, o menino crescido que constrói gaiolas e arapucas para emprenhar-se, dias e dias, em flores instransponíveis, segundo fascinado o canto dos bentevis, coleirinhas, canários e curiós – que ele também conhece como poucos. Zé tem extrema dificuldade para dissociar uma personalidade da outra. Por isso mesmo, ingênuo, é passarinho fácil nas armadilhas dos cartolas.

Foi assim no Santos, no Cruzeiro, no Fluminense e, mais recentemente, no Internacional. Lá está ele desempregado, com tempo para prosar com os compadres e aperfeiçoar as suas habilidades manuais. Esses mesmos compadres já o preveniram várias vezes para as malandragens do futebol, mas ele é mesmo um ingênuo inveterado.

Como aconteceu nas vezes anteriores, agora ele viu seu trabalho ser minado pelo supervisor Cláudio Duarte – poderia ser um dirigente, um conselheiro – e insistiu na sua ilimitada boa-fé.

Para Zé Duarte, um talentoso técnico de futebol, basta ser uma celebridade local, o mais famoso morador do bairro de Proença, em Campinas. Na sua simplicidade prosaica – “o que poderia o filho de imigrantes, antigo encanador e mau jogador querer mais?”, disse-me certa vez – ele acredita que qualquer ser humano é cheio de bondade até prova em contrário. Como esta prova tem que ser uma evidência cabal, Zé acaba sempre desempregado.

Daí, talvez, a sua fama de “técnico dos times de Campinas”, uma vez que só fez sucesso no Guarani e na Ponte Preta. Na verdade, Zé não pode oferecer resultados aos cartolas a curto prazo. Ele é um artesão, que costuma moldar pacientemente a massa até formar uma bela estátua, como aquela Ponte de 77. Esse extemporâneo Zé Duarte não percebeu que na pressa dos cartolas está a razão direta do seu faturamento em termos políticos.

 

A política entra em campo

Desta vez, Paulo Salim Maluf não poderá ser acusado de trapaceiro. Afinal, ele está demonstrando ser aquele tipo de político que arruma um inexplicável amor pelo Corinthians para poder faturar politicamente. O governador torce pelo São Paulo, o que nunca escondeu. E está agindo em completa harmonia com sua consciência ao tentar infiltrar-se no Conselho Deliberativo do clube do Morumbi.

Na verdade, o futebol continua sendo o segundo plano. O que Maluf deseja é esvaziar politicamente o seu adversário Laudo Natel. Para quem não sabe, Natel é um fósforo apagado apenas na política, pois continua exercendo o seu poder dentro do São Paulo, onde é um dos grandes “cardeais”, junto com Henri Aidar e Manoel Raimundo Paes de Almeida.

Enfim, o ex-governador é peça decisiva naquela oligarquia caduca que domina o tricolor há mais de 25 anos.

A infiltração estaria sendo feita através do governador José Maria Marin e do deputado Ademar de Barros (não confundir com o filho de dona Leonor), que também é conselheiro do clube. Uma vez concluída, ela daria a Maluf outro reduto político que desse asas à sua desmedida ambição pessoal.

O São Paulo, contudo, é um clube blasé. Comenta-se que nas reuniões do Conselho Deliberativo o pau costuma quebrar a níveis em que nem as mamães são poupadas. Mas ninguém fica sabendo. Os conselheiros e dirigentes se aprumam dentro dos ternos muito bem-cortados, arrebitam os narizes e escondem os problemas. Por isso, nem os “cardeais” nem a “Legião Tricolor” – a única oposição clubística brasileira que possuí registro em cartório – comentaram a pretensão de Maluf.

No entanto, a torcida vai chegando a uma triste conclusão: para quem já possuí Edu, Viana, Mug e Estevam, um flagelo a mais ou a menos não faz muita diferença.

 

Publicado originalmente no Jornal da República em 21 de setembro de 1979, edição 26