O filme chamava-se “O
Dólar Furado”. O astro era Giuliano Gemma. Esse faroeste italiano fez um
sucesso gigantesco no Brasil. Foi ali que um garoto criado no interior do Paraná
começou a se apaixonar pela sétima arte. Alto, risonho, cabelo encaracolado.
Renalto Alves chegou na rua do Triunfo no período das vacas magras. Seu início
foi com o ator, cineasta e produtor Rubens da Silva Prado, o Alex Prado, o Gregório
que ficou conhecido pelos filmes “Gregório 38” e “Sangue em Santa Maria”. Renalto
fez uma espécie de academia de atores com Alex e depois montou a sua própria.
Eram as chamadas “arapucas”, as escolinhas de atores que tanta gente na Triunfo
teve. Assim muitas produções se iniciavam por meio de cooperativas entre os
alunos. Renalto trabalhou em algumas produções de Alex e mergulhou na época do
sexo explícito. Foi ator, diretor de fotografia e participou da produção de inúmeros
títulos. Trabalhou com José Mojica Marins (Zé do Caixão), Juan Bajon e sobretudo
Sady Baby. Sady foi preso tantas vezes e fez tantas confusões que talvez o
livro que o Gio Mendes prepara sobre ele dê conta dessa personalidade. Mas o Renalto
sempre foi um técnico dedicado e um amigo especialíssimo. Tem um coração maior
que ele mesmo, carinhoso, querido. Depois da Boca foi motorista de ônibus, trabalhou
em obra, filmou casamentos, missas, cultos. Mas sempre com um sorriso imenso e
muito carinho. Mora em São Bernardo do Campo, região metropolitana de São Paulo.
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domingo, 5 de janeiro de 2020
segunda-feira, 20 de junho de 2016
Papo de Boqueiro com Gio Mendes
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segunda-feira, 3 de agosto de 2015
Das comédias ingênuas aos filmes adultos: José Adalto Cardoso lança seu livro de memórias
Das comédias ingênuas de Mazzaropi aos
filmes adultos de Sady Baby, José Adalto Cardoso possui uma
carreira curiosa dentro do cinema paulista. Antes de dirigir suas películas,
Cardoso foi assistente de inúmeros realizadores e colaborador da extinta
revista Cinema em Close Up. Também atuou como roteirista, montador,
assistente de produção e produtor. "O melhor filme [em] que eu trabalhei
foi O Quarto da Viúva, do Sebastião de Souza. Nessa produção, minha
função era servir café. Assim, eu assistia de camarote a todos os conflitos dos
atores e da equipe técnica. Todo mundo batendo cabeça."
Aos 69 anos, o diretor irá lançar sua
biografia, Uma Vida em Fotogramas, pela Editora Laços. A obra foi
escrita pelo pesquisador Alexandre Aldo Neves e traz a trajetória de um diretor
que trabalhou em mais de 25 longas-metragens nacionais dos mais variados
gêneros. A VICE conversou com Adalto em Batatais, interior de São Paulo, onde
ele mora há anos.
VICE: É verdade que
você começou no cinema querendo ser ator?
José Adalto Cardoso: Sim. Eu curtia os seriados que passavam no Cine São Joaquim [antigo cinema de Batatais]. Aos domingos, tinha as sessões de seriados, filmes de faroeste, aventura. Eu sempre queria ser mocinho e achava que eu ia dar certo como ator. Mas ainda não entendia de cinema nem tinha noção nenhuma [de] que um dia poderia dirigir algo.
José Adalto Cardoso: Sim. Eu curtia os seriados que passavam no Cine São Joaquim [antigo cinema de Batatais]. Aos domingos, tinha as sessões de seriados, filmes de faroeste, aventura. Eu sempre queria ser mocinho e achava que eu ia dar certo como ator. Mas ainda não entendia de cinema nem tinha noção nenhuma [de] que um dia poderia dirigir algo.
E como você começou a
trabalhar com o Mojica?
Mudei para São Paulo quando eu tinha 21
anos. Eu fui morar numa pensão no Brás que era vizinha da sinagoga que servia
de estúdio dele. Ele estava na moda em 1967 com o personagem do Zé do Caixão. Tinha um curso de atores
dentro da sinagoga, e comecei a frequentar aquele ambiente. Eram as escolas com
cursos de atores chamadas de arapucas. Os alunos eram recrutados para atuarem
nas próximas produções do Mojica, e o professor era o [ator e produtor] Mário
Lima.
Mas eu percebi que eu não agradava como
ator e que não tinha nascido para aquilo. Ao mesmo tempo, eu conheci o
[Giorgio] Attili [diretor de fotografia], que era meio quietão. Conversávamos
sobre lentes, câmeras, equipamentos. Fizemos amizade, e comecei e me interessar
por esse outro lado do cinema. Vi que eu podia ser técnico. Fiz alguns dias
como assistente de um filme que estava sendo dirigido pelo Mojica [O Fracasso
de Um Homem nas Duas Noites de Núpcias]. Essa foi uma filmagem bem
complicada, tudo improvisado. Mas ter trabalhado com o Mojica foi bem
divertido. Eu comecei no lado mais rústico do cinema, né? Mas foi agradável – e
aprendi muito.
Sua carreira na Boca do Lixo ganha força quando
você estabelece uma parceria com o diretor Fauzi Mansur. Como começou isso?
Eu estava esperando uma resposta do [cineasta] Ody [Fraga] para ser assistente dele. Nisso, eu fiquei uma tarde esperando num bar que ficava no cruzamento da Rua do Triunfo com a [Rua] Aurora. Mas nada dele aparecer. Nisso, aparece o Fauzi para tomar um café, e começamos a conversar. Aí ele olhou pra mim e me perguntou: "Escuta, qual é o teu signo?". Achei estranho, mas respondi: "Touro". Ele respondeu: "Você quer filmar comigo? Nós vamos começar uma produção". Então, foi uma coisa que surgiu em menos de um minuto de papo. Depois, ele me disse que gostava e estudava esse negócio de astrologia.
Eu estava esperando uma resposta do [cineasta] Ody [Fraga] para ser assistente dele. Nisso, eu fiquei uma tarde esperando num bar que ficava no cruzamento da Rua do Triunfo com a [Rua] Aurora. Mas nada dele aparecer. Nisso, aparece o Fauzi para tomar um café, e começamos a conversar. Aí ele olhou pra mim e me perguntou: "Escuta, qual é o teu signo?". Achei estranho, mas respondi: "Touro". Ele respondeu: "Você quer filmar comigo? Nós vamos começar uma produção". Então, foi uma coisa que surgiu em menos de um minuto de papo. Depois, ele me disse que gostava e estudava esse negócio de astrologia.
Aí comecei a trabalhar no Sedução,
que foi meu primeiro longa-metragem com o Fauzi. Esse filme passava-se na
década de 1930; então, eu fiquei quase três meses dentro da [biblioteca] Mário
de Andrade pesquisando e preparando a parte da reconstituição. O levantamento
foi feito, a produção ficou ótima e acho que o Fauzi começou a gostar do meu
trabalho.
E depois vocês
trabalharam várias vezes juntos.
O Fauzi confiava muito em mim, sabe? Eu
era uma espécie de braço-direito dele. Participei como assistente também do Belas
e Corrompidas e do Guarani. Nesse último, dirigi a
produção também. Eu não fiquei para fazer O Mulherengo, mas dirigi
a dublagem. Esse filme é um musical. Por isso, o Fauzi me chamou realizar as
compras dos direitos autorais das músicas. Então, eu tive que ir ao Rio de
Janeiro e procurar todos os escritórios que representavam os compositores das
músicas do filme. O Fauzi é um diretor talentoso e versátil. Isso você pode ver
pela variedade de gêneros que ele trabalhou na filmografia dele.
Você trabalhou em
dois filmes com o Mazzaropi. Como foi isso?
Trabalhei num roteiro para o Pio Zamuner [cineasta e diretor de fotografia dos filmes do Mazzaropi]. Nisso, criamos uma proximidade e ele acabou me chamando para eu trabalhar de assistente de direção do Cláudio Cunha no Clube das Infiéis. Depois desse filme, o Pio foi fazer O Jeca Macumbeiro, do Mazza, com outro assistente de direção. Mas, depois de uma semana de filmagem, esse assistente desistiu e acabaram me chamando. Então, eu devo muito ao Pio por ter tido essas chances. Eu sempre tive uma admiração muito grande pelo Pio. Depois, acabei trabalhando também no Jeca Contra o Capeta.
Trabalhei num roteiro para o Pio Zamuner [cineasta e diretor de fotografia dos filmes do Mazzaropi]. Nisso, criamos uma proximidade e ele acabou me chamando para eu trabalhar de assistente de direção do Cláudio Cunha no Clube das Infiéis. Depois desse filme, o Pio foi fazer O Jeca Macumbeiro, do Mazza, com outro assistente de direção. Mas, depois de uma semana de filmagem, esse assistente desistiu e acabaram me chamando. Então, eu devo muito ao Pio por ter tido essas chances. Eu sempre tive uma admiração muito grande pelo Pio. Depois, acabei trabalhando também no Jeca Contra o Capeta.
O Mazza era muito sério com os negócios
dele. Se você combinasse uma coisa com ele, nem precisava assinar porque ele
sempre cumpria a parte dele. E sempre respeitava os profissionais que
trabalhavam com ele.
Como você começou a
colaborar na Cinema em Close Up?
Eu conheci o Minami [Keizi, editor da
revista] pelo Jean Garrett [cineasta]. Não sei o motivo, mas o Jean me levou
numa tarde na casa do Minami, que ficava na região do Butantã [zona oeste de
São Paulo]. Na época, ele estava com um projeto de uma revista sobre cinema
brasileiro. Existiam diversas publicações sobre cinema estrangeiro, mas nenhuma
sobre a produção nacional. Criei uma boa empatia com o Minami e ele pediu para
eu escrever alguns livros baseados em roteiros da Boca. Fiz também alguns
livros de ficção que ele vendia por reembolso postal. Tive vários pseudônimos.
Um dos mais famosos foi Thais de Alencar.
Depois, nasceu a Cinema em
Close Up, e eu acompanhei toda vida da publicação. O Minami inclusive abriu
um escritório da editora dele na Boca.
Uma das coisas mais
legais da Close Up foram dois anuários do cinema brasileiro
que a revista fez.
A ideia foi minha desses anuários. Fiz
tudo aquilo sozinho, acredite se quiser. Eu cheguei no Minami e falei:
"Vamos fazer um anuário?". Ele me perguntou: "Mas como?".
Então, eu fui à Embrafilme, comecei a pegar todas as publicações que existiam
sobre cinema brasileiro, indicações de atores, técnicos. Aí eu consegui fazer a
primeira edição em 1974 e passei a atualizar ano a ano. As universidades de
cinema usam esses anuários como referência até hoje.
Foram dois anuários, e não existe
nenhuma referência à minha pessoa. Na época, eu não me preocupava com isso.
Coisa [de] que me arrependo hoje. Foi um trabalho desgraçado, fiz uma
garimpagem legal. Tem algumas falhas, mas é um trabalho [de] que eu tenho certo
orgulho de ter feito.
A Cinema em
Close Up pagava bem ou mal?
Muito mal. Ele pagava por lauda, né? E
pagava muito mal. Mas eu nunca me preocupei com dinheiro. Eu queria fazer. Esse
foi um dos grandes erros na minha trajetória. Sou realizado profissionalmente,
mas muita gente ganhou dinheiro em cima de mim. Porque, na época, eu trabalhava
por qualquer preço – e tudo bem. Eu queria fazer. Mas, na época, fiquei feliz e
foi bom. Não tenho de reclamar de nada. Eu aceitei as regras do jogo.
Dos seus filmes, de
quais você mais gosta?
Não gosto dos primeiros. Por exemplo, E...a
Vaca foi pro Brejo ficou longo e com partes truncadas. Já o meu
terceiro filme como diretor (O Motorista do Fuscão Preto) ficou melhor,
mais bem acabado. Massagem For Men era um filme livre, mas
tivemos de colocar cenas de sexo explícito para ser lançado. Foi inclusive essa
a única vez [em] que trabalhei com o Antônio Ciambra [diretor de fotografia].
Considero-o o melhor fotógrafo com quem trabalhei. O Motorista e
o Massagem, acho que ficaram os melhores.
No seu livro, você
não fala muito sobre seus filmes explícitos. Por quê?
Eu acredito que esses filmes não acrescentam nada na minha carreira. Foi algo que eu fiz porque não tinha opção. Mas eu não renego. Tanto que assinei todos os meus filmes sem pseudônimo. Muita gente boa acabou fazendo explícito porque não tinha opção. A gente queria continuar na área. Por exemplo: o Alfredinho [Sternheim, cineasta]) é um gênio. Eu o respeito muito. Ele mesmo teve de fazer esse tipo de trabalho pra ficar ativo. Teve um filme meu dessa época que rodamos numa chácara em oito dias [refere-se ao filme As Taras de Um Puro Sangue], aí não é mais cinema. É outra coisa.
Eu acredito que esses filmes não acrescentam nada na minha carreira. Foi algo que eu fiz porque não tinha opção. Mas eu não renego. Tanto que assinei todos os meus filmes sem pseudônimo. Muita gente boa acabou fazendo explícito porque não tinha opção. A gente queria continuar na área. Por exemplo: o Alfredinho [Sternheim, cineasta]) é um gênio. Eu o respeito muito. Ele mesmo teve de fazer esse tipo de trabalho pra ficar ativo. Teve um filme meu dessa época que rodamos numa chácara em oito dias [refere-se ao filme As Taras de Um Puro Sangue], aí não é mais cinema. É outra coisa.
O lançamento de Uma Vida Em
Fotogramas acontece em São Paulo, na próxima segunda-feira (dia 10), ás
19h, no Centro Universitário Belas Artes, que fica na Rua Doutor Álvaro Alvim,
90, Vila Mariana.
terça-feira, 12 de agosto de 2014
VANESSA, A GATA DO MÊS
Por Jotta Santana
VANESSA, essa gatinha estonteante da foto, é mais do que um simples palmo de rosto bonito ou um corpo de curvas perfeitas. Ela é uma atriz que foi descoberta e lançada pelo produtor A. P. Galante numa das muitas pornochanchadas que produziu. E seguiu o caminho normal. Tirou a roupa em muitos filmes. De vários produtores. Posou para revistas. Evoluiu na sua arte. Estudou teatro e dança com Sílvio Zilber. E agora chegou ao teatro. Depois de fazer muito sucesso em São Paulo, no elenco da peça “Fim de Caso”, está viajando por todo o Nordeste ao lado de Patrícia Scalvi, Nilson e Ronaldo Ciambroni vivendo nos palcos as aventuras de “As Filhas da Mãe”. A comédia, que é de autoria do próprio Ciambroni (que também é diretor e produtor do espetáculo), já fez sucesso em palcos paulistas e agora fatura devidamente em outras freguesias. Estiveram fixados em Recife durante todo o mês passado e agora cumprem exibições por todo o interior. O sucesso tem sido absoluto. A temporada, que deveria ter sido encerrada no último dia 5, foi prorrogada até o dia 26. O sucesso chegou definitivamente para essa atriz sensível e linda que fez com naturalidade tudo o que sabe. E ela sabe tudo o que faz.
VANESSA, essa gatinha estonteante da foto, é mais do que um simples palmo de rosto bonito ou um corpo de curvas perfeitas. Ela é uma atriz que foi descoberta e lançada pelo produtor A. P. Galante numa das muitas pornochanchadas que produziu. E seguiu o caminho normal. Tirou a roupa em muitos filmes. De vários produtores. Posou para revistas. Evoluiu na sua arte. Estudou teatro e dança com Sílvio Zilber. E agora chegou ao teatro. Depois de fazer muito sucesso em São Paulo, no elenco da peça “Fim de Caso”, está viajando por todo o Nordeste ao lado de Patrícia Scalvi, Nilson e Ronaldo Ciambroni vivendo nos palcos as aventuras de “As Filhas da Mãe”. A comédia, que é de autoria do próprio Ciambroni (que também é diretor e produtor do espetáculo), já fez sucesso em palcos paulistas e agora fatura devidamente em outras freguesias. Estiveram fixados em Recife durante todo o mês passado e agora cumprem exibições por todo o interior. O sucesso tem sido absoluto. A temporada, que deveria ter sido encerrada no último dia 5, foi prorrogada até o dia 26. O sucesso chegou definitivamente para essa atriz sensível e linda que fez com naturalidade tudo o que sabe. E ela sabe tudo o que faz.
A caracterização com
que ela aparece na ilustração é a do seu personagem no filme “Escândalo na
Sociedade”, uma produção de Sady Plauth, dirigida por Arlindo Barreto. Já
entrou em cartaz e já saiu.
Publicado originalmente
na revista “Agora !” em 10 de abril de 1985
quarta-feira, 21 de agosto de 2013
“Eu queria filmar, fazer. Não queria saber de ganhar grana”
José Adalto Cardoso e Pio Zamuner na pausa de alguma produção do comediante Mazzaropi (acervo: José Adalto Cardoso)
Julho de 2012. A última
sessão do Cine Windsor. O documentário A
Primeira Vez do Cinema Brasileiro de Bruno Graziano, Hugo Moura e Denise
Godinho ia passar na histórica sala. Chego cedo no centro e fico perambulando pelos
sebos da região. Nesse momento, acabo encontrando com o cineasta José Adalto
Cardoso. Com vasto currículo na Boca paulista, o realizador mora em Batatais,
no interior do estado. “Vim somente pra ver o documentário e reencontrar os
amigos antigos do meio”, comentou Adalto com seu sotaque interiorano.
Antes do evento,
batemos um longo papo. Neste relato, o cineasta recorda alguns episódios
vividos na Boca, comenta as dificuldades de fazer cinema no Brasil e fala sobre
seus novos projetos como a realização do longa-metragem Joaquim Queima Campo, adaptação da obra do escritor e folclorista
Cornélio Pires (1884-1958). Adalto realizou diversos longas-metragens na rua do
Triunfo inclusive no período dos filmes explícitos. Sem fugir de nenhuma
pergunta, o realizador relembrou essa parte da sua trajetória. Um dos filmes
dele que mais me desperta curiosidade é
a comédia sertaneja ...E a Vaca Foi Pro
Brejo (1981) cujo lançamento passou praticamente despercebido pelo público.
Violão,
Sardinha e Pão- Fala um pouco sobre o ...E
a Vaca Foi Pro Brejo. Parece que vocês tiveram problemas de filmagem numa
figuração, certo?
José Adalto Cardoso-
Sim. A gente não tinha figuração porque na cena eles faziam um show de um
candidato a prefeito da cidade, um japonês. De repente, não tinha público pra
montarmos a cena do show. A gente não tinha público. Não sei por que não
providenciaram a figuração. E a gente não queria que a gente soubesse disso.
Então, eu e a Maria José (atriz) saímos com a dupla Cascatinha e a Inhana que iam
participar da cena. Levamos eles num restaurante em Arujá...tudo daquele filme
foi feito naquela região: Mogi das Cruzes, Guararema, Arujá. Nós fomos num
restaurante, Maria José, eu e a dupla almoçar porque era pra eles não
perceberem a correria que a produção estava tendo pra providenciar a figuração.
Foram numa escola, buscaram gente numa escola ali...se viraram. Em meia hora
que nós fomos almoçar, tinha meia dúzia de gato pingado pra fazer figuração.
Deu pra filmar. Mas o filme não deu resultado. O problema foi o seguinte:
quando a gente terminou ...E a Vaca
em maio de 1981. Em junho morreu o Mazzaropi. Dia 10 de junho. Uma semana, duas
semanas morreu a Inhana do Cascatinha e Inhana. Aí eu falei pô: “Vai ser humor
negro”. Morreu o Mazzaropi que era o cara....e a Inhana em seguida. Acho que a
dupla só tinha participado de um filme antes, na época das chanchadas ali por
1960.
VSP-
Vocês fizeram o filme mais por causa do sucesso dos filmes com o Sérgio Reis?
Ou por causa do Mazza?
JAC- Não...eu sou
caipira e o Wilson Roncatti era mais caipira que eu. Embora ele morasse em São
Paulo. Eu gosto desse gênero cinematográfico...eu tinha feito dois filmes com o
Mazzaropi. O Wilson tinha feito não sei quantos na época. A vontade do Wilson
de fazer um caipira, interpretar um caipira. Isso foi se somando com a minha
vontade de trabalhar com esse gênero. Fora o Gaúcho (Virgílio Roveda, diretor
de fotografia e produtor) que já tinha trabalhado várias vezes com o Mazza. Os
dois filmes que eu fiz com o Mazza serviram de experiência pra mim. Acabei
descobrindo que existe uma técnica diferente pra um ator como o Mazza que é solto,
você não pode dar uma marcação muito rígida para atores como ele. Você tem que
soltar o cara porque senão o ator perde
a naturalidade. Aí vira um boneco. E o Wilson era bem assim.
VSP-
Você se deu bem com ele?
JAC- Sim. O Wilson era
um grande cara.
VSP-
E com a Misaki? E o resto do elenco?
JAC- A Misaki (Tanaka)...aliás
a Misaki, o Paulo Yamaguti. Eu já tinha tendência pra japonês. Na época eu já
estava casado com uma japonesinha. Eu sempre fui doído com japonesa né? Eu
estava recém casado com uma japonesinha e eu queria sempre estar perto de
japoneses. E a Misaki eu sempre tinha amizade de algum tempo com ela. Sempre
gostei muito dela. Eu peguei o roteiro e não tinha uma família de japoneses:
pai, filha, namorado da filha que era o Carlos Takeshi. O Paulo Yamaguti estava
em evidência na época porque ele fazia propaganda das duchas Corona. Um
comercial que era meio moda em que ele aparecia tomando banho, um japonês
engraçado. Então, pegamos o Paulo e essa parte japonesa foi um pouco minha.
Pegar eles e colocar no projeto...a Misaki me ajudou. Eu não entendia nada de
televisão e a gente tinha que fazer um curta que depois virou telefime sobre o (Cândido)
Portinari (1903-1962, pintor brasileiro). A Misaki foi e me ajudou numa boa.
Ela trabalhava na TV Cultura na época. Me deu uma força legal. Aliás, eu estou
querendo rever a Misaki, faz tempo que eu não a vejo. Tenho até contato com ela
por Facebook.
VSP-
O filme foi bem de crítica? O Biáfora falou bem...
JAC- Não sei...o
Biáfora falou bem porque ele gostava do Wilson. Ele gostava daquele personagem
caipira na tela. Antes, o Roncatti tinha feito Ladrão de Galinhas com o Sebastião Pereira. O Biáfora gostava do
Roncatti. A apresentação do ..EaA Vaca
pra classe foi no Marabá numa sessão em que nós sentamos na primeira fila:
Wilson, eu. O Biáfora sentou com a gente e assistiu o filme do nosso lado. Ele
falava maravilhas do filme. Não sei se era porque ele gostava do Wilson, do
tema. Ele deu um quarto de página do Estadão nas indicações da semana. Deu um
espaço muito grande pra gente. Não elogiou mas não deu pau.
VSP-
Te surpreendeu essa iniciativa do Biáfora?
JAC- Lógico. Nunca imaginei
que um crítico como ele fosse fazer aquilo. Eu sabia que a gente não tinha
feito um bom filme apesar de ser um bom roteiro. Aliás, eu não conheço o cara
que fez o roteiro, um tal de Cicero, amigo do Wilson. O Wilson falou com ele e
o Cicero era funcionário do banco Itaú. Ele foi a pessoa que fez o roteiro. Mas
o roteiro ficou lento e a gente filmou com oestava. Mas a história era tão boa,
tão amarrada que o resultado final não foi tudo aquilo que a gente esperava.
Hoje eu faria um novo roteiro, tudo de novo porque a ideia era muito boa. Eu
devia ter uns 34 anos quando eu fiz esse filme. Gaúcho tinha isso também. O
Wilson era um pouco mais velho, ele já morreu inclusive. Esse cara que fez o
roteiro eu vi uma ou duas vezes na vida. A gente foi no banco conversar com
ele. Uma pessoa que não era de cinema, não tinha nada haver com a área. Nunca
mais se meteu com cinema e não sei se ele viu o filme pronto. Perdi o
contato...eu tenho vontade se eu desencalhar o Joaquim Queima Campo de fazer um novo roteiro, uma nova filmagem do
...E a Vaca Foi Pro Brejo.
VSP-
O filme de público foi meio ruim?
JAC- Não deu. Não deu
público porque não era época pra esse filme. Uma coisa que me contaram...a
gente era o baixo clero, não trabalhava com as grandes distribuidoras da época.
Ninguém trabalhava pra gente...nosso distribuidor era da Boca mesmo. Nisso, uma
das pessoas responsáveis me contaram que em Ferraz de Vasconcelos ou Poá numa
dessas duas cidades o filme lotou o cinema. O povo tinha achado que era filme
do Mazzaropi. Quando perceberam que não era, muitos ficaram revoltados e
acabaram rasgando cartaz. Fizeram uma pequena bagunça porque se sentiram
enganados. O Mazza tinha morrido há pouco tempo e eu acabei me sentindo
chateado com essa situação toda. Sem falar que eu nunca usei o Mazzaropi como
divulgação desse filme. Até por uma questão de ética. O Mazza morreu em junho e
eu estava com o filme montando na moviola. Naquele processo todo depois da
morte dele, eu conversei com o Péricles gerente da PAM Filmes e filho adotivo
do Mazza. O Péricles falou: “A gente pode distribuir o seu longa. A PAM Filmes
distribuindo o seu filme como o Mazza fazia”. Eu falei: “Que maravilha”. O
Mazza foi providencial pra mim sabe? O Péricles chegou a assistir o filme na
moviola, ficou encantando e disse: “É igual aos filmes do meu padrinho
(Mazzaropi). É bem no gênero caipira”. De repente, deu aquele processo todo que
bagunçou os direitos dos filmes do Mazza, a PAM Filmes foi embargada e toda
aquela história que todo mundo conhece. Nisso, eu perdi a chance de ter uma
distribuidora como a PAM Filmes nesse trabalho. Se eu tivesse isso com certeza
eu teria vida longa pro Polêncio, o personagem que o Wilson (Roncatti) estava
criando. Ele queria fazer mais filmes no gênero...existem vários roteiros
escritos
VSP-
Quantos roteiros com o personagem foram feitos?
JAC- Pelo dois
roteiros. A gente tentou fazer...fizemos um piloto pra televisão. O Wilson
trabalhava com o Zé Bettio na rádio Record. O Zé Bettio era o top da rádio Record...o Wilson era
secretário dele. Então, eles tinha uma relação de amizade. Um dia fizeram uma
proposta pro Zé Bettio ter um programa de televisão. Isso é outra
história...mas o Wilson ficou a vontade de escrever um roteiro pra televisão. A
Record chamou a gente pra fazer um piloto sem nenhum compromisso. Pegamos uma
câmera e fomos pra Guararema. O Alcides (Caversan, diretor de fotografia),
aquela turma toda. Fizemos um episódio chamado O Vendedor de Mandiocas que era um dos roteiros. O Fantasma
do Laranjal era o terceiro roteiro e tinha outro que estava sendo criado
que acabou se perdendo. Íamos inclusive refazer ...E a Vaca. A ideia era fazer uma série pra televisão de uma hora.
Esse O Vendedor de Mandiocas tem 45
minutos, 50 minutos. Era um telefilme. Mas eu não tinha nenhuma experiência com
televisão. A grande diferença é que você trabalha com som direto. Eu não tinha
experiência com isso. Eu tinha trabalhado com som direto somente nos filmes com
o Mazzaropi. Eu não conhecia técnica, corte de televisão, não conhecia nada e
me meti a fazer. Não deu certo. Quando o filme ficou pronto, o resultado final
estava ruim. O Geraldo Meirelles também tinha um programa na TV Record e o
filho dele, o Marcelo fez o galã. A Misaki também estava nesse projeto e acabou
trabalhando de graça.
VSP-
E esse filme se perdeu?
JAC- Eu nem sei onde
está. Sumiu.
VSP-
Quantos minutos de piloto?
JAC- Foram uns 50
minutos. Pra um piloto de uma hora de televisão. Nem sei onde está, a Misaki
trabalhou, o Reinaldo Morais que me ajudou a fazer o roteiro participou como
ator. Ele trabalhou, o Marcelo, Cuberos Neto trabalhou com a gente também. Uma
turma legal e todo mundo de graça porque era um piloto que a gente não sabia no
que ia dar.
VSP-
Você também não ganhou nada?
JAC- Não. Ninguém
ganhou nada. A câmera nós pegamos de um cara de São Bernardo chamado Luis que
tinha muitos equipamentos. Esse cara era um sujeito apaixonado por audiovisual.
Ele era rico e mandou o material dele com operador. Tudo de graça...não deu nada.
Ninguém ganhou nada, ninguém perdeu nada. Perdemos tempo e o roteiro está
comigo até hoje.
VSP-
Mas ninguém tem cópia disso?
JAC- Não. Ficou tão
ruim. A gente não tinha pique, a edição está ruim. A nossa falta de experiência
com som direto tinha muito corte no som, muito som estranho. Isso não foi
legal.
VSP-
Quem fotografou foi o Alcides?
JAC- Foi o Alcides ou o
Gaúcho? Não lembro.
VSP-
Quem montou?
JAC- Um tal de Carlão,
amigo do Luis que fez a câmera. Poxa, isso faz tanto tempo e eu fiquei tão
bravo com aquilo. Bravo comigo mesmo, não foi com ninguém não. Foi tão
diferente do que a gente pensava em resultados técnicos. O Luis não tinha muita
experiência de produção, o pessoal dele editava e como era de graça tínhamos
que aceitar. Eu falei com o Roncatti: “Se formos mostrar isso vão rir da nossa
cara. Nisso Wilson, o teu personagem vai pra cucuia, você vai se suicidar. Não
ficou legal, não tem qualidade técnica pra gente apresentar. Vamos acabar
passando vergonha”. A gente chegou a pensar em fazer com mais tempo. Mas não
aconteceu e perdemos o interesse.
VSP-
Você gostaria de ter trabalhado mais com esse gênero caipira? Você acha que
esse gênero ainda vinga no cinema nacional?
JAC- Não sei. Não sei
cara. O Mazza morreu há trinta anos ou mais. Ninguém mais fez filmes nesse
gênero.
VSP-
Fizeram aquele Tapete Vermelho...
JAC- Depois do Mazza
que eu me lembro ninguém mais trabalhou com filme caipira como comédia. Tapete Vermelho é comédia mas acaba
sendo mais drama né? Virou um cult,
filme que eu assisti e não gostei. Mas de repente, não sei se porque falava
daquela coisa pura de Mazzaropi. A pureza do personagem...de repente virou um cult. Eu dei com a cara na porta porque
eu não gostei. Esse filme deve ter dado dinheiro. Foi feito aquele lá do Zezé
di Camargo e Luciano...Os Dois Filhos de
Francisco. Mas esse era um drama rural com a Globo atrás, tinha não sei o
que. Teve mais um ou dois.
VSP-
Marvada Carne...
JAC- Marvada Carne de 1984 que foi logo em
seguida e que também acabou virando cult.
Eu não sei...mas eu tenho a impressão que todo mundo que mora em São Paulo
mesmo se nasceu na Capital tem um pai ou avô com um pé no interior. Uma
afinidade com o interior e interior é vaca, fazenda, história de caipira,
aquela coisa. E eu penso o caipira é o mesmo: paulista, paranaense, mineiro,
goiano, matogrossense. Esse tipo de caipira está numa faixa de população que
representa mais da metade da população de todo país. Então, você tem um mercado
muito grande. Você tem que fazer não sei o quê, um atrativo que o cara goste.
Esse ideia nossa de fazer o Joaquim
Queima Campo que volta ás origens. Eu gosto demais de caipira é pra usar algo
escrito pelo Cornélio Pires, embora ele não seja conhecido. Mas eu acho que o
personagem Joaquim Queima Campo está pro Cornélio Pires como Jeca Tatu está pro
Monteiro Lobato. Só que Monteiro Lobato é conhecido, Cornélio Pires não. Mas um
não é tão bom como o outro. Então, a gente briga com isso. O Cornélio Pires é
um ilustre desconhecido, ninguém sabe quem ele é.
VSP-
Você conhece a obra toda dele?
JAC- O que eu pude ler
eu li. É simples demais, ele usa um linguajar bem caipira e tem coisas que você
não entende. Ele escreve como o pessoal no interior pronuncia e alguns livros
dele tem um glossário no final. Você termina de ler tem uma tradução do caipirês
pro português. Algumas palavras mais difíceis que você não vai entender o que a
pessoa quer dizer. Mas ele era muito inteligente o Cornélio. Eu tirei disso uma
conotação política, ele era meio contra alguns e dava muita alfinetada no
governo. Isso não é do interesse da gente. A gente quer mais divertir. O Joaquim Queima Campo foi inspirado na
ideia do Cornélio Pires. Ele só escreve esquete, nunca romance. É até legal
você ler que você lê cinco, dez páginas e não perde o fio da meada. Então, não
tinha como eu fazer um longa-metragem.
VSP-
São causos?
JAC- Sim. Joaquim
Queima Campo era o personagem que eu achava o melhor dele. Dos vinte livros do
Cornélio Pires dois são só com esse personagem. Eu acho que o Cornélio era ruim
pra colocar título no livro. O nome da obra é
As Estrambóticas Aventuras de Joaquim Dentinho, o Queima Campo. Esse foi o
primeiro livro acho que de 1925. Três anos depois, ele publicou Continuação das Estrambóticas Aventuras de Joaquim Dentinho, o Queima Campo. Não
sei se na época funcionava mas soa estranho. Então, eu peguei algumas situações
que ele criou lá com as características do personagem, um caipira mentiroso. O
Mazza era um caipira indolente, Jeca Tatu, preguiçoso que falava muito e não
fazia nada. Ele era honesto...então, o Joaquim Queima Campo era mentiroso.
Então, ele entrava numa fria inventava alguma coisa. Era rápido pra inventar
uma mentira e enganar os outros. A gente pegou a história do manjoqueiro e
colocamos os causos do Cornélio Pires pra fazer o Joaquim Queima Campo. Eu
tenho vontade de se der certo nós continuarmos explorando histórias sobre esse
personagem. Mas eu não sei...se o público vai ver eu não sei. Não sei se existe
público há isso. O Menino da Porteira foi
outro filme nesse gênero. O novo parece que houve um boicote porque o filme é
bom.
VSP-
Eu não vi.
JAC- No interior tem
uma cidade chamada Ribeirão Corrente. Indo pra Uberaba entre Franca e
Pedregulho, existe essa cidade. Ribeirão Corrente tem cinco mil habitantes. Um
projeto do governo de cinema na praça passou esse último Menino da Porteira com o Daniel e botaram duas mil pessoas numa
cidade de cinco mil na praça. É de graça mas poxa levaram o pessoal sabe? Eu há
dois anos em Altinópolis fizemos uma experiência colocamos um datashow na praça
numa tardezinha e botamosum filme do
Mazzaropi: O Lamparina.
VSP-
Filme bem antigo...
JAC- Bem antigo mesmo. Essa
exibição foi feita há dois anos no máximo. Falei: “Vamos fazer uma
brincadeira”. Eu coloquei um telão e começamos a projetar na praça. O pessoal
ia vendo e chegava o pessoal da região: “O que é isso?”. Viam Mazzaropi e
acabavam sentando. Quando nós terminamos o filme, a imagem estava melhor e a
mulherada principalmente esqueceu a novela. Eu ainda acho que tem um gancho, o
filme caipira é um gancho que pode ser explorado. Você precisa ter uma boa
divulgação, fazer um trabalho em cima disso porque no fundo é um personagem, um
tipo social. Aquele cara simpático que todo mundo teve algum contato, ouviu
falar ou é de origem caipira.
VSP-
Você mora em Batatais, certo? Imagino que a tua relação com o interior é muito
forte.
JAC- Sim. Eu sou de
Arapongas, Paraná. Fui com três anos de idade pra Batatais e fiquei lá até eu
vir pra São Paulo em 1966. Depois eu voltei pra Batatais em 1988 e moro até
hoje lá.
VSP-
Na sua cidade tem cinema de rua?
JAC- Abriram um cinema
lá faz um ano, dois anos. Mas lá não tinha cinema como toda cidade do interior.
Quando eu sai de lá, nos anos 1960 existiam dois cinemas e os dois davam uma
grana, viviam lotados. O cara tinha um na praça e a demanda era tão grande que
ele abriu outro num bairro. Os dois lotavam, passava filme de um pro outro. A
cidade não era tão grande mas ele conseguia deixar o cinema lotado. Depois
entrou em decadência, parou, fechou, ficou muitos anos parado. E o pessoal
reclamando: “Queremos um cinema na cidade”. A cidade com 50 mil habitantes sem
cinema. Mas muitas cidades desse tamanho não possuem cinema mas mesmo o cinema
de lá tendo os senões ainda leva público. Molecada né? É estranho porque leva a
molecada.
VSP-
Deve ser aqueles filmes como Homem Aranha,
blockbuster.
JAC- Sempre blockbuster
né? O que faz sucesso são essas séries do Crepúsculo, Homem Aranha, Vingadores.
Essa série que todo mundo sabe: as grandes bilheterias vão bem lá. Se esse
cinema fosse melhor administrado, tivesse financiamento público. Eu acho que se
você fizer um filme caipira...eu não sei porque. Mas eu tenho impressão que
acaba vingando. Você vê poucas manifestações na mídia do caipira. Por exemplo,
o Moacyr Franco intepreta um tipo desses na Praça
É Nossa. Eu particularmente gosto, eu assisto a atração por causa do
Moacyr. Mas é um dos poucos. O Nelson da Capitinga era um caipira pasteurizado
que a Globo tinha, um caipira estilo da Globo maquiado. Mas era um caipira e
não rendeu. Tanto que eles não fazem mais o caipira. Não sei se porque o interiorano
é um cara puro, chão, bobo e a Globo quis fazer outra coisa. Não sei o motivo
mas ele não faz mais o caipira. Então, eu não sei. Eu realmente não sei se um
longa-metragem nesse estilo dá certo. Eu gostaria muito que desse mas depende
de um bom roteiro, um bom elenco com nomes conhecidos. Uma distribuidora pode
ter o interesse. Porque o tema está fora do ar há muito tempo. Há muitos anos
não fazem mais filme caipira.
VSP-
Parece que esse filme novo do Fauzi é caipira...
JAC- Qual? O Casamento Brasileiro?
VSP-
Sim.
JAC- Acho que acontece
numa cidade do interior. Mas não sei se necessariamente é um filme caipira,
rural. Esse projeto eu conheço e também é numa cidade do interior. Agora, eu
acho cidade do interior, a forma de vida do interior é interessante e eu acho
que é legal. Essas novelas que botam pessoal mais interiorano, aqueles caipiras
com sotaque normalmente fazem sucesso. Eu tenho um roteiro que eu também quero
filmar chamado América Latrina que é
uma história de política numa cidade de 10 mil habitantes. Isso vem da minha
experiência com jornal. Há alguns anos eu faço jornais pra umas cinco, seis
cidades da minha região. Então, eu conheci muita safadeza política né? Então,
eu adaptei isso, fiz umas brincadeiras e saiu um roteiro inspirado no que eu
vi. Nada assumido. Um roteiro de ficção que eu gosto, eu acho genial esse
roteiro caipira, caipira mesmo. Não caipira rural mas de cidade interiorana: a
vida pacata, aquelas coisas. Minha formação, eu nascí nisso, minha cultura é
essa e é isso que eu sei fazer.
VSP-
...E a Vaca Foi Pro Brejo completa
trinta anos agora?
JAC- Nós fizemos em
maio de 1981 e lançamos no começo de 1982. Eu lembro que o seu Gregório da
Haway assistiu...não deu certo com o Péricles e fomos chamar as distribuidoras.
Aí o seu Gregório assistiu e lembro que ele estava na Haway falando com alguém.
Não sei se ele não me conhecia, não sabia quem eu era ou sabia e falou pra
pessoa: “Eu estou com duas merdas pra lançar. Uma se chama ...E A Vaca Foi Pro Brejo e a outra Aluga-se Moças. Não sei qual eu lanço primeiro” (risos). Eu ria,
achava engraçado aquilo. Ele não sabia quem eu era. Então, foi na mesma época
do Aluga-se Moças. Nós acabamos sendo
distribuídos pela Sul, então pegamos no Art Palácio cinema onde o Mazzaropi
lançava. Ele lançou no Marrocos Aluga-se
Moças mas não sei se ele desistiu, passou pra Sul. Mas os dois foram
lançados na mesma época. Precisa ver no jornal a data do lançamento. Eu não me
lembro.
VSP-
Lógico que o Aluga-se Moças foi um
sucesso...
JAC- Aquilo que todo
mundo sabe. E o nosso foi aquilo também que todo mundo sabe: ficou uma semana,
duas no centro. No interior andou dando alguma coisa, fez até algum
dinheirinho.
VSP-
Se pagou o filme?
JAC- Eu acho que sim.
Porque foi feito uma sociedade e era um longa muito barato. A gente trabalhava
com negativo vencido. A gente comprava de um cara chamado Faissal. Você ouviu
falar nesse cara?
VSP-
Não.
JAC- Ele era metido a
fazer cinema e vendia negativo. A gente não podia comprar na Kodak que era
muito caro. Então, comprávamos de terceiros. Geralmente, o que acontecia muito
naquela época: algum técnico surrupiava uma lata de negativo, 120 metros levava
pra casa e guardava. Aí num certo momento a pessoa chegava e falava: “Custa 100
e eu tenho uma por 30”. A gente comprava. A origem não importava, a gente
comprava. Eu não conhecia a origem e algumas latas vieram vencidas. Tem algumas
cenas do ...E a Vaca Foi Pro Brejo e
está escuro. Nós só fomos descobrir que o negativo estava vencido depois de
revelar. Não tinha como voltar.
VSP-
Isso prejudicou um pouco o filme?
JAC- Ah sim. A falta de
experiência sempre prejudica. Eu tinha feito O Império das Taras e esse foi o meu segundo longa. Então, faltava
experiência. Hoje a gente quer fazer cinema e não consegue, podemos ver o
quanto éramos ingênuos. Mas isso não se resume a mim. Todos nós na verdade. O
cinema da Boca era muito ingênuo.
VSP-
Tinha essa coisa de pornochanchada, filme erótico mas o pessoal era muito
sonhador né Adalto?
JAC- O pessoal era
sonhador. Eu quando fiz o primeiro pornô e entrei nessa parada não tinha outra
saída. Eu fui contra a minha vontade. Eu falei: “Sexo é uma coisa particular,
privada. Não tem nada haver com o público”. Mas já que é era essa a ordem vamos
nessa. Eu sempre ia em campo achando que eu estava fazendo um filme que tinha
câmera, equipe técnica e elenco. Só que a gente pegava umas fitas diferentes.
Depois de dois, três pornôs eu percebi que você não tinha o que inventar. Os
planos, os ângulos eram os mesmos. Quase não tinha roteiro, tinha anotações.
Era uma droga cara. Mas eu fiz e até nem coloco muito no meu currículo esses
nomes porque me disseram que não era interessante colocar. Não tenho vergonha
mas não tenho orgulho de ter feito esses filmes.
VSP-
Você fez com pseudônimo esses filmes?
JAC- Não. Com o meu
nome, eu assumi. Eu sempre achei que eu estava fazendo cinema. Apesar de
tudo...teve um filme que eu fiz em oito dias de trabalho com chuva, uma equipe
de meia dúzia de pessoas. A gente se isolou num sítio em Guararema (interior de
São Paulo). A gente se isolou numa casa, ficamos morando ali e filmando ali na
região. Como é filme caipira volta no rural. Rural você tem duas vantagens pra
fazer uma filmagem: a tua iluminação é o sol, você não tem problema de
refletor. Segundo: você está filmando num matinho e pode dizer que está nos
Estados Unidos, em outro país, outro lugar. Isso não lomoveu, não mexeu com a
equipe, nada, não teve gasto de tempo nem dinheiro precisou gastar. Então, você
ganha pra burro fazendo filme no rural.
VSP-
Você acredita que se E...a Vaca
tivesse mais erotização o longa poderia ter mais público? Diversos filmes
rurais na época tinha isso.
JAC- Não, eu acho que
não. O roteiro desse filme era algo puro, comportado, uma coisa família. Por
exemplo: Massagem For Men foi um
filme que foi estragado. Completamente estragado. É um filme de sexo simulado
cuja fotografia eu mais gosto entre os longas dirigidos por mim. Quem fez a
fotografia foi o (Antônio) Ciambra. Eu acho a fotografia linda do Massagem For Men e de repente depois de
pronto resolveram enxertar aquelas cenas. Acabaram com o filme. Tudo bem, faz
parte? O esquema é esse? Tem que fazer. Mas foi um protesto. Ninguém queria que
aquele filme fosse enxertado e acabou indo pro brejo. Eu fiz esse filme em 82
ou 83 tanto que nós estávamos filmando ainda estava valendo aquela de simulado.
Foi logo depois da explosão do Coisas
Eróticas. Aí todo filme tinha que ter explícito porque eles resolveram um
problema legal? Não existia Censura. Parece que o Coisas Eróticas é o único filme brasileiro pornô com certificado de
Censura. Ninguém mais tem porque foi o primeiro. Depois, eles passaram a
inderferir todos os certificados.
VSP-
Não sei se você se lembra mas aquele filme do Ody entrou logo em seguida com a
Ariadne de Lima.
JAC- Ariadne foi uma
estrelinha. Eu filmei com ela, uma pessoa muito legal. Tinha a Ariadne e uma
outra Sofia que sumiram. Eram as duas mais interessantes dessa época. Mas pra
variar, fizeram dois, três filmes e sumiram também.
VSP-
Com a Andrea Pucci você trabalhou?
JAC- Ela fez comigo Sedentas de Sexo. Uma argentina...você
tem o contato dela? Ela está viva ainda?
VSP-
Não sei. Dizem que ela tinha um pai militar, algo assim.
JAC- Sei que ela era
bem normal, vulgarzona. Argentina mas era legal. Uma boa companheira. Fazia o
que a gente queria.
VSP-
No explícito as meninas já vinham na Boca? Ou vocês iam atrás delas?
JAC- Isso não é regra.
Mas quase sempre você conhecia alguém de boate como o Darby Daniel, não sei se
você ouviu falar nele. Tinha outro que foi ator. Normalmente era algum
homossexual cafetão que era ligado nesse meio. Tinha o Pedrinho. Eu não me
lembro de todos. Então, você conversava com os caras e eles falavam com as
meninas das boates. Aí a menina saia pra fazer um programa da boate e cobrava...sei
lá 500. Você ia pra filmar e pagava 100, 200. Elas topavam porque valorizava
elas no mercado. Aí saia no jornal nos classificados de acompanhante: “Fulana é
atriz, fez o filme tal. Se quiser confira ligando pra ela no telefone tal”.
Então, as meninas melhoravam o michê delas investindo nesse meio. Lembro de uma
menina que o Sady (Baby) me apresentou...uma japoneisinha. Ele me falou: “Ela vem
com a gente”. Eu sempre tive uma queda por japonesa. Aí alguém me falou: “Ela é
boneca”. Mas eu nem sabia o que era boneca na época, era um travesti. Mas eu
fiquei apaixonado. Depois eu descobri e não queria que ela participasse do
filme. Mas ela veio pedir que isso iria melhorar o michê dela. Ela me falou:
“Eu vou até de graça filmes com você porque isso melhora”. Nem lembro se ela
filmou ou não. Quer dizer: elas iam mas muitas vezes não tinham um
comportamento profissional legal. E nem tinham que ter porque o negócio delas
era fazer programa, não era filmar. Você marcava sete horas da manhã e elas
apareciam meio-dia fazendo cara feia. A equipe inteira ficava parada esperando.
VSP-
E pra dublar?
JAC- A gente pegava as
dubladoras. A turma da época que fazia. A gente sempre colocava uma dubladora.
Nunca você colocava as atrizes. Você queria a imagem delas e muitas vezes não
tinha problema pra dublar. Era gemer e só.
VSP-
Desses seus filmes explícitos você não gosta muito?
JAC- Eu não tenho nenhum
orgulho. Não tenho cópia de nenhum, não quero ter. Ás vezes dá saudade...uma
vez eu reassisti Chi, Cometa! na casa
do Alcides (Caversan, diretor de fotografia). Pô, eu fiquei apaixonadão, eu fiz
uma volta ao passado. É um filme que tem uma historinha, eu gosto da
historinha. O Mini Vampiro...eu estou
refazendo a história, eu quero fazer um filme de verdade. Uma comédia boa, um
argumento criado pelo Renalto Alves. Eu preciso até falar com ele sobre isso,
entende? O Renalto tem uma capacidade de criação que vocês não imaginam.
Ninguém descobriu isso, as ideias do Renalto. Porque ele era meio doidão e ele
fez dois argumentos já que roteiro ele não sabe fazer. O roteiro eu acabei
fazendo. Mas ele tem argumentos incríveis. Tem As Taras de Um Puro Sangue e As
Taras do Mini Vampiro. Os dois nós fizemos juntos com argumento dele. O
Renalto é muito inteligente e muito criativo. Se tem alguém que pega as ideias
dele e transforma em roteiro fica genial. Eu quero pegar agora O Mini Vampiro e fazer uma história
normal.Uma comédia numa cidade do interior que eu gosto também. Mas eu não
tenho nenhum orgulho desses filmes, sabe? Foi uma coisa forçada. As
meninas...hoje eu olho pra cara das meninas e fico com dó delas. Não passava
pela cabeça delas que cinema era algo sério, tinha uma carreira. Teve umas
meninas no Sady que chegavam pra mim: “O que você achou de mim? Será que eu
posso ir pra Globo?”. E você tinha que falar: “Não sei, tenta”. Enganar também
pra fazer o jogo senão você ia acabar com aquilo tudo. Então, era complicado
tudo isso e as meninas entravam numa boa. Alguém fazia a cabeça delas: “Vai lá
dá uma trepadinha”. As atrizes de fato sumiram claro.
VSP-
Acho que somente a Débora Muniz está por aí.
JAC- Acho que tiveram
outras. Não sei quem que estão por aí.
VSP-
E os caras broxavam muito Adalto?
JAC- Não. Ás vezes, acontecia
né? Até porque tinha uma coisa profissional. Você ia conversar com o cara:
“Olha, se você broxar vai ficar todo mundo parado te esperando”. Ele tinha a
obrigação disso não acontecer. Era a profissão deles. Por exemplo, o Walter
Gabarron, marido da Eliane era o melhor caráter que eu já vi nessa área de
pornô. Além de ser um grande cara como pessoa. Ele era um cara que sabia se
controlar que era algo incrível e não dava o menor trabalho. Eui fui muito
amigo da Eliane e do Walter também. Cheguei a ir na casa deles algumas vezes,
conheci os filhos deles. A Eliana era bonita, não era excepcional. Mas era
bonita, interessante e inteligente. Nós fizemos alguns filmes juntos. Eu me
lembro do Mini Vampiro que ela fez
conosco. Mas o Walter era um cara particularmente muito gente boa. Mas muito
gente boa. Mas não sei onde anda. Ele desapareceu.
VSP-
Ele morreu.
JAC- Ah é? Poxa, mas a
Eliane está por aí?
VSP-
Sim. Sílvio Júnior você chegou a trabalhar?
JAC- Trabalhei. Nós
fizemos...o Sedentas. Gente boa,
legal. O Cirilo fez vários trabalhos comigo...
VSP-
Muito famoso o Cirilo...
JAC- Sim. Desde O Império das Taras nós trabalhamos
várias vezes juntos. Era um cara assim...o Cirilo era um cara que não se dava
muito bem com a coisa séria. Mas era um cara muito profissional, não dava
trabalho. Começou a se meter muito com drogas né?
VSP-
Ele foi casado com a Márcia Ferro.
JAC- Sim, ele estava
com a Márcia na época. Eu nunca filmei com ela, aliás não sei. Já que nos
filmes do Sady aparecia um monte de mulher e você nem sabia mais quem era. Mas
a Márcia eu cheguei a ter uma pequena amizade através do Cirilo. Não tenho nada
contra. Acho ela uma menina legal. A Márcia eu sempre achei uma menina legal.
VSP-
Com a Sandra Morelli você não chegou a trabalhar?
JAC- Não. Mas acho que
lembro dela, uma loira né?
VSP-
Sim. E o Oássis Minitti?
JAC- Não sei. Nunca
trabalhei com ele. Diziam que ele dava trabalho, isso era papo ali da Boca. Mas
não sei. Porque com ele rolava muita gozação, muita brincadeira. Ele não
gostava disso. O Oássis dizia que ele era o melhor, o maior. Mas diziam que ele
dava muito trabalho. Mas acredito que o Oássis nem tenha se dedicado a carreira
de ator. Acho que o Coisas Eróticas
foi o filme mais importante dele. Ele vinha fazendo cinema na Boca antes dos
explícitos. Mas não foi uma carreira grande no explícito.
VSP-
Quando as coisas começaram a caminhar pra teatro você não ficou lá na Boca?
JAC- Não. Quando
começou a caminhar pra teatro explicitão que o Sady pegou eu já tinha caído
fora. Nunca vi uma peça dele sequer. Eu tinha uma certa...não era pudor mas eu
não curti isso. Eu achava isso uma bobagem. Mas tudo bem. Era moda, tinha que
fazer, fazia. Nem de teatro, nem de cinema.
VSP-
Como foi a sua relação com o Tony Vieira?
JAC- Tony Vieira? Na
época eu achava ele um picareta. Isso porque ele tinha feito uma sacanagem com
o (Edward) Freund. Eu gostava muito do Freund e fiquei meio brigado
biologicamente com ele. Só isso. Mas ele deu chance pra eu fazer um estágio de
câmera nos filmes dele. Minha discordância do Tony era uma coisa mais
ideológica mesmo. Na época, eu não respeitava ele...hoje acho ele um gênio.
VSP-
Mas o Freund e o Tony se davam bem?
JAC- Não. Eles se
aturavam né? Porque foi o Freund quem trouxe o Tony da TV Excelsior. Só que o
Freund era iluminador na TV e veio pra cinema. Já o Tony era ator e continuo
nessa parte. Depois, ele passou a produtor. Era mais esperto e acabou dando um
chapéu no Freund.
VSP-
Dizem que o Tony terminou a vida fazendo teatro pornô. Você chegou a acompanhar
isso?
JAC- Olha, isso foi uma
novidade saber se ele tenha terminado fazendo pornô. Eu nem sabia disso.
VSP-
Filme ele só dirigiu. Não atuava.
JAC- Eu não sabia
disso, meio estranho. Mas era moda. Ou a pessoa entrava ou não ia. Eu entrei
porque não sabia fazer outra coisa.
VSP-
Na época do pornô você via os trabalhos dos outros realizadores da Boca? Como
do Bajon, Alfredinho...
JAC- Via. Eu gostava do
trabalho deles. Sempre achei o Bajon e o Alfredinho muito acima da média. São
duas pessoas inteligentes, interessantes. Mas faziam isso contra a vontade.
Então, eu acho que isso atrapalhou a capacidade, o potencial desses caras. Eles
podiam até não ter feito. Mas decidiram entrar como eu também podia não ter
feito. Se eu não tivesse feito eu estaria fora de cinema.
VSP-
Dizem que o pornô deu lucro por pouco tempo...
JAC- Não. Deu lucro
muito tempo. Ele começou em 82...muito tempo não. Porque em 87, 88 o gênero já
tinha morrido. Durante esse período foi bem. Até chegar o pornô americano.
Quando chegou o pornô americano começaram a bagunçar o nosso. O filme tinha
melhor qualidade, as meninas eram mais bonitas...
VSP-
Tinha maior orçamento...
JAC- Maior orçamento.
Aí começou a ir pro brejo. Depois, fomos nós, os americanos todo mundo ir pro
brejo. Mas deu muito dinheiro. Muita gente ficou rica com o pornô. O Raffaele
(Rossi) foi uma dessas pessoas.
VSP-
Você ganhou menos? Diretor ganhava pouco em pornô?
JAC- Eu ganhei salário
de diretor em dois, três filmes. No resto eu fui como sócio. Então, eu ganhei
relativamente bastante dinheiro. Mas eu gastei também. A gente não tinha
juízo...0 a 0 e pronto. Eu era meninão, queria torrar. Curti a vida. Então, não
tenho do que reclamar. Os que tiveram juízo e ganharam ficaram melhor.
VSP-
Como o Fauzi (Mansur)?
JAC- Fauzi, David
(Cardoso). A maioria também ganhou e perdeu, ou não ganhou. Quer dizer, muitos estão
em situação até pior que a minha. Mas eu não tenho que reclamar de nada. Foi
tudo muito legal.
VSP-
Muitos filmes davam um público e os exibidores roubavam, diziam que dava menos.
Você se preocupava com essa parte de bilheteria?
JAC- Não, eu nunca
acompanhei essa parte. Eu sabia que roubavam e se eu fosse acompanhar ainda
acabaria descobrindo que estavam roubando. Então, eu deixava o acabaxi pro distribuidor
e falavam: “Deu 10 mil réis”. Eu achava que tinha dado 50. Eu pegava os 10 e
ficava quieto. Ainda pensava: “Tudo bem”. Nunca fui de questionar. Nunca pra eu
não me meter. Até porque eu era um cara que queria filmar, eu não queria saber
de grana. Eu queria fazer...fazia, entragava e a distribuidora que se virasse.
Acho que eu fui um dos caras que fui mais roubado na Boca porque eu não dava
bola. Tinha uns caras que se preocupavam, iam atrás. Eu não ia.
VSP-
O David (Cardoso) ia...
JAC- O David era
empresário. Alguns diretores iam atrás disso. O Fauzi (Mansur) se preocupava
com isso. Eu não. Diriga e entregava pra distribuidora: “Você faz o que você
quiser com o filme”. Eu não dizia isso mas era assim, sabe? Chegava no final do
mês eu ia lá pegar o meu borderô e estávamos conversados. Não queria me
desgastar. Nisso, eles se aproveitavam e passavam a mão na grana.
VSP-
Dos seus filmes qual fez mais sucesso de público?
JAC- Não sei. Acho que
o Massagem For Men deu mais público.
VSP-
E menos qual foi?
JAC- Talvez o ...E a Vaca foi pro Brejo. E o filme que
teve a maior expectativa e não correspondeu foi O Motorista do Fuscão Preto. Isso porque ele foi lançado com
dezesseis cópias. Na época, eles lançavam com quatro cópias. O cara que lançava oito fazia uma farra.
Quando o nosso filme ficou pronto, o Manuel que era o distrbuidor falou: “Vamos
fazer bastante cópias”. Fizeram dezesseis e eu achei isso uma maravilha. Eram poucos
que lançavam tantas cópias assim. Lançaram quinze e acabou não dando o que eles
esperavam.
VSP- Você tem cópia desse filme?
JAC- Não.
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