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terça-feira, 9 de abril de 2024

Rubens Francisco Lucchetti (1930-2024)

 






 

Ouvi falar pela primeira vez com o Rubens Francisco Lucchetti aos 14 anos quando assisti O Estranho Mundo do Zé do Caixão em VHS. Foi na locadora Vídeo Factory que ficava na avenida Rebouças. Somente com mais tempo e com a leitura do livro Maldito que aprendi a importância dele na obra e na trajetória profissional de José Mojica Marins, o Zé do Caixão. Lucchetti produziu mais de 20 roteiros para o cinema, trabalhando especialmente com Mojica e Ivan Cardoso.

Com Zé do Caixão os dois formaram uma dupla inusitada: um autodidata e um intelectual, um homem do povo e um erudito. Conheci seu Lucchetti pessoalmente pela primeira vez em 2008 na cidade de Altinópolis, interior de São Paulo. Eles iriam abrir um museu do cinema brasileiro nesse pequeno município. O projeto acabou não acontecendo. Desde então, tivemos uma aproximação bem bacana. O melhor momento foi quando pude numa tarde de 2015 quando fui na sua residência em Jardinópolis, outra pequena cidade do interior de São Paulo. Passamos uma tarde bastante proveitosa conversando sobre os bastidores e as dificuldades da produção cinematográfica nacional. Lucchetti era uma pessoa extremamente afável, generosa e inteligentíssimo. Sempre acompanhado por seu filho Marco Aurélio, um escudeiro fidelíssimo ao progenitor.

Rubens Francisco Lucchetti escreveu mais de 100 livros sobre diversos pseudônimos. Muitos achavam que ele estava fora do Brasil, com grandes nomes. Mas estava numa cidadezinha perto de Ribeirão Preto. Ele dizia que mantinha mapas detalhados sobre Londres ou Nova York. Acredito que ele nunca tenha saído do Brasil, mas conseguia criar histórias sobre esses lugares por conta de muita leitura. “Nunca vi uma pessoa para criar histórias no meu estilo”, me disse Mojica quando o entrevistei para o meu primeiro livro. “Ele era muito tímido, inclusive quando ele iniciou o namoro com a esposa dele, ela que foi paquera-lo”, me confidenciou Mojica rindo. Quando perguntei disse para o Lucchetti, ele me disse: “Tudo mentira do senhor Mojica Marins. Tudo mentira...”.

Lucchetti poderia ser muito mais bem utilizado pelo seu nível de conhecimento. A biblioteca que mantinha na sua residência era extraordinária. Pode-se dizer que diversas faculdades Brasil afora não possuem 10% das obras que ele cuidadosamente mantinha. Lucchetti era muito inteligente para criar histórias macabras, temas de suspense, mesmo contos de detetive, terror. Algo muito diferente da maioria dos escritores brasileiros. Seu estilo era o chamado “pulp”, com clara influência de autores norte-americanos e europeus. Rubens Francisco Lucchetti morreu semana passada aos 94 anos de idade deixando uma vasta obra literária, muitos filmes e diversos projetos não realizados. Existiu inclusive uma negociação dele com a família Barreto uma superprodução sobre o ciclo do café em Ribeirão Preto. Fico sempre pensando no que poderia ter sido esse longa-metragem com um bom orçamento e com tempo. Quando lancei meu primeiro livro, O Coringa do Cinema, mandei um exemplar para o seu Lucchetti por correio. Logo veio a surpresa, dias depois ele não tinha somente lido o livro como ainda fez um post generoso elogiando meu trabalho como se eu fosse algum jornalista reconhecido ou importante. Grande e generoso Lucchetti.

Lucchetti sempre trabalhou num cinema improvisado e precário. Muitas vezes não recebeu o dinheiro prometido por produtores inescrupulosos. Outras não colocaram o seu nome com o devido crédito. Coisas do cinema brasileiro. Perguntei uma vez a seu Lucchetti: “Que conselho o senhor daria para quem queria seguir a carreira de roteiro do cinema brasileiro?”.Não siga porque no Brasil os bons sempre naufragam, sempre afundam”. Parece que Lucchetti tinha razão.



segunda-feira, 28 de novembro de 2022

Mojica early years, parte XV: 1979-83: Deputado Zé do Caixão, às suas ordens

         Capítulo 16: 1979-1983: Deputado Zé do Caixão, ás suas ordens

 

Por André Barcinski e Ivan Finotti

 


          A viagem para a Espanha servira para inflar o ego de Mojica, mas seu bolso continuava vazio. As reportagens publicadas sobre sua premiação no exterior não renderam nenhum convite para novos filmes e, no Brasil, tudo continuava na mesma: cinemas fechavam e produtoras independentes faliam. Mojica não poderia prever, mas Perversão seria o último longa-metragem inteiramente seu a chegar às telas. Dali em diante, trabalharia apenas como diretor contratado. Completamente duro, ele fechou o estúdio da Moóca e ocupou um escritório que pertencia à “milionária assassina”, Elza Leonetti do Amaral, na rua 7 de Abril, centro de São Paulo.

Sua vida pessoal estava um caos absoluto: escondia Fátima de Nilce, Nilce de Maria e, vez por outro, ainda tinha namoricos-relâmpago com outras alunas. Começou a beber cada vez mais. Chegava a virar duas garrafas de licor de menta por dia. Cafezinho, só tomava batizado com rum. Vivia deprimido de tanto álcool e várias vezes teve de ser carregado para casa. Nilce, deprimida, pegou sua filha Nilcinha e foi morar na casa de sua amiga Elza Leonetti, no Itaim Bibi.

Por volta de março de 1979, Mojica atingiu o fundo do poço. Estava a um passo da mendicância. Desesperado, reuniu os últimos alunos que lhe restavam e começou uma campanha, batizada de “Faxina em Prol do Cinema Nacional”. Todo dia a turma ia de porta em porta, no Brás e na Moóca, oferecendo faxina de graça em troca de revistas velhas, que depois eram vendidas para bancas de jornal do centro da cidade. Nilce também começou a se virar como pôde: ela pegava saquinhos de plástico, fazia kits com um exemplar do livro Sentença de Deus, um gibi de Zé do Caixão e um compacto com a marchinha “Castelo dos Horrores”, e saía vendendo os pacotinhos pela rua, dizendo que era para ajudar os cegos e paralíticos.

Em julho, Mojica procurou os jornais para anunciar que estava colocando à venda sua coleção de gibis. Eram mais de quatro mil revistas, muitas raríssimas, que guardara desde a infância e das quais nunca sonhara em se desfazer. Para ele, acostumado a procurar a imprensa para divulgar um novo filme ou projeto, foi uma humilhação ter de confessar sua penúria e apelar para a caridade alheia.

Apesar das várias matérias publicadas, ninguém se interessou pela gibiteca. Mojica, precisando urgentemente de dinheiro, fantasiou-se de Zé do Caixão e foi com Elza Leonetti para a praça Ramos, no centro de São Paulo, onde montou uma barraquinha para vender os gibis. Foram os dias mais tristes de sua vida: multidões paravam para rir daquela insólita dupla de camelôs: pedestres faziam piadas e o ridicularizavam. Mojica sentiu-se como uma atração de circo. A humilhação acabou compensada pela venda de várias revistas, que lhe garantiram sustento por mais alguns dias.

Mesmo passando por tantas dificuldades financeiras, Mojica nunca desistiu de filmar: vivia caçando produtores na Boca do Lixo, mostrando seus roteiros e tentando convencer alguém a financiar a continuação da saga de Zé do Caixão. Ninguém lhe dava bola. Cansados de esperar, alguns alunos resolveram fazer uma coleta para produzir um filme. Arrecadaram uma mixaria. Mojica fez os cálculos e disse que, com aquele dinheiro, só teriam condições de usar filme Super-8, muito mais barato que o negativo de 35 mm normalmente usando em fitas profissionais. Alguém sugeriu filmar em Super-8 e depois ampliar para 35 mm. Essas ampliações invariavelmente resultavam em imagens granuladas e de pouca definição, mas Mojica não estava preocupado com a qualidade. Só queria filmar.

Ele reuniu a equipe numa salinha no bairro do Pari e rodou A Praga, história de um homem cujo corpo começa a apodrecer depois de ser amaldiçoado por uma bruxa. O roteiro havia sido escrito por Rubens Lucchetti para um episódio do programa Além, Muito Além do Além, e fora adaptado para quadrinhos na revista O Estranho Mundo de Zé do Caixão, número 3. O filme foi inteiramente rodado, mas faltou dinheiro para a montagem e o projeto acabou esquecido.

Logo depois, Mojica decidiu filmar um curta-metragem para aproveitar a lei que obrigava os cinemas a exibir um curta nacional em cada sessão de filme estrangeiro. Era uma mamata: qualquer porcaria passava – até 1984, não existia sequer uma comissão de seleção dos curtas – e o produtor recebia 5% da bilheteria das produções estrangeiras. Quem desse a sorte de ter seu curta-metragem exibido junto a um filme de sucesso como Contatos Imediatos de Terceiro Grau ou Os Embalos de Sábado à Noite poderia ficar rico da noite para o dia.

Os cinemas brasileiros foram subitamente invadidos por dezenas de curtas sobre cerzideiras nordestinas, concursos de pipa em Realengo e artistas plásticos piauienses. Muitos diretores fizeram seu pé-de-meia com esses filmes: Nilo Machado, o maior gênio da trambicagem cinematográfica brasileira, fez dezenas de curtas usando colagens de velhos filmes estrangeiros, que ele comprava aos quilos (um dos mais famosos foi Ginástica – Base Para Uma Boa Saúde, totalmente montado a partir de um filme sueco que mostrava um bando de garotas brincando de bambolê).

Mojica convenceu sua turma a fazer outra “vaquinha” e rodou nada menos de cinco curtas-metragens em um mês. Ele não escondeu do pessoal que só estava fazendo esses filmes pela grana: seriam todos rodados às pressas, sem muito capricho, e serviriam apenas para faturar um troco e dar mais experiência à turma. Seu plano era usar o dinheiro que ganhassem com os curtas para produzir filmes melhores.

O primeiro curta-metragem foi A Imigrante (Simplesmente Mulher), que nada mais era do que a história da vida de Nilce. Ela chegou a ficar emocionada com a homenagem, antes de descobrir que Mojica havia convidado a amante Fátima para interpretar o papel principal. Em seguida, ele rodou um filme experimental sobre a automatização da sociedade, chamado Evolução- Homem versus Máquina: A Luta do Século no Planeta dos Botões. O curta – interessante apesar da precariedade da produção – consistia de vários flagrantes de pessoas, na rua e no trabalho, fazendo gestos robotizados e apertando botões. A montagem ficava cada vez mais acelerada, mostrando uma infinidade de botões – em elevadores, calculadoras, máquinas registradoras – até que alguém aperta o botão da bomba atômica e o mundo explode. O filme termina mostrando o homem de volta ao tempo das cavernas, comendo carne crua e carregando uma clava.

Mojica depois fez dois curtas de protesto, É Proibido Caças Produtores de Cinema – Espécie em Extinção, sobre um produtor que comete suicídio depois de ver seu filme fracassar, e Justiça, Justiça, história de um ator que se aproveitava da bondade de seu produtor (interpretado pelo pai de Nilce, Antônio Feo) e depois rouba seu dinheiro. Este filme foi inspirado no episódio envolvendo o ator Amaury Silva, que anos antes ganhara uma ação trabalhista contra Mojica depois de morar de graça em seu estúdio.

O papel do ator desonesto em Justiça, Justiça ficou com Carlos Alberto de Mattos, um aluno mais conhecido por “Tarzan”. Cinco anos mais tarde, provavelmente inspirado por seu personagem, ele entraria com um processo contra Mojica, alegando que trabalhara por vários anos sem receber nada. Só que Tarzan não parecia bater muito bem da cabeça: no tribunal, disse que morava para lá de Ribeirão Preto, a quarto horas do estúdio. Quando o juiz perguntou como ele conseguia trabalhar num lugar tão longe e gastar oito horas por dia num ônibus – quatro para ir e quatro para voltar – Tarzan afirmou que só conseguia porque havia feito um curso de sobrevivência na selva, onde aprendera a suportar qualquer privação. O juiz, irritado, mandou arquivar o processo e ameaçou prendê-lo, caso continuasse mentindo.

O último curta-metragem da série foi Brincadeira Fatal, inspirado por um episódio verídico ocorrido com o aluno Manoel Cardoso, um louco de pedra. Mojica tinha dó do rapaz, e até deixou que ele morasse no estúdio por uns tempos. Certa noite, alguns alunos resolveram pregar uma peça em Manoel: esconderam-se no estúdio e, de madrugada, começaram a imitar fantasmas: “Uuuuhhhhh! Manoel, viemos buscar a sua alma!”. Ele ficou apavorado. Um dos engraçadinhos se meteu debaixo de um lençol e tentou assustá-lo. Manoel tomou coragem, sacou um canivete e furou a barriga do “fantasma”. Depois, saiu comemorando pelas ruas: “Sou um herói! Matei o fantasma do estúdio do Zé do Caixão!”. O ferido foi levado para o pronto-socorro, e Manoel, para a delegacia.

Dos cinco curtas, somente os dois primeiros – A Imigrante e Evolução – foram distribuídos comercialmente. Os três últimos nem chegaram a ser sonorizados. Mojica acertou a exibição dos filmes com o dono de um grande circuito de cinemas no Rio de Janeiro, mas o sujeito passou a bola para o filho – um conhecido traficante e cocainômano – que nunca pagou tudo que devia.

 

Em setembro de 1980, nasceu Rose, segunda filha de Nilce e Mojica. Nilce tinha esperança de que o nascimento da menina finalmente convencesse Mojica a ir morar com ela e as filhas. A situação bem que levava a crer que isso acabaria acontecendo: o romance de Mojica e Maria estava no fim e ele decidira, depois de anos de adiamentos, entrar com um pedido de divórcio de Rosita (o desquite sairia em 1981). Além do mais, seus filhos com Maria e Rosita já estavam crescidos. Se havia alguém precisando de um pai, era Nilcinha e a recém-nascida Rose. Quando tudo parecia caminhar para um final feliz, veio a bomba: Fátima estava grávida de Mojica. Nilce ficou arrasada. Pediu demissão do estúdio e arrumou emprego numa confecção. Estava resolvida a largar o cinema e nunca mais procurar Mojica.

A situação de Fátima também era crítica: sua família não aceitou a gravidez e a expulsou de casa. Sem ter onde ficar, foi morar com a mãe de Mojica, dona Carmen, num pequeno apartamento no Brás. Ela passou meses dormindo num sofá desconfortável, sem dinheiro para fazer qualquer exame pré-natal e sobrevivendo da aposentadoria de dona Carmen. Quando nasceu seu filho, Denilson, em abril de 1981, ela não tinha dinheiro sequer para comprar mamadeiras ou fraldas. O bebê dormia no gavetão de uma cômoda. Alguns meses depois, foram despejados do apartamento e acabaram nos fundos de uma garagem, onde nem cômoda havia. Fátima e a criança dormiam no chão.

 

Enquanto isso, Mojica continuava a viver de biscates e aparições em festas. Chegou a montar um pequeno grupo teatral para apresentar-se em bailes, encenando esquetes mambembes nas quais saía de seu caixão e rogava pragas para a plateia, enquanto seus alunos, fantasiados de monstros, entretinham o público. O destaque da trupe era Jurandir, um sujeito que tinha pernas mecânicas e duas garras de aço no lugar dos braços, capaz de apavorar qualquer plateia.

Mojica não sentia prazer algum em participar desses shows. Na verdade, achava uma amolação ter de despencar até o subúrbio para encenar esquetes tão furrecas e constrangedoras. O público só tinha duas reações: ou caía na gargalhada com o ridículo da cena ou vaiava impiedosamente. Mas Mojica não tinha opção; era isso ou vender gibis na rua. Para aliviar sua depressão, bebia cada vez mais.

Sua constante embriaguez causou diversos problemas durante as apresentações de seu grupinho teatral: certo dia ele foi convidado por um amigo, o empresário Samuel Moura, para participar do “Baile das Bruxas”, uma festa a fantasia num clube em Jundiaí, perto de São Paulo. Uma semana antes do baile, Mojica precisou ir a Belo Horizonte dar aulas numa escolinha de atores, mas garantiu que voltaria logo para São Paulo. Os dias foram passando e nada de ele voltar. Samuel, desesperado, mandou um assistente buscá-lo em Belo Horizonte. O sujeito caçou Mojica por toda a cidade e só o encontrou na manhã do baile, bêbado de cair. Levou-o para o aeroporto e marcou um voo para aquela mesma noite, mas na hora do embarque desabou um temporal na capital mineira e o avião não pôde decolar.

Samuel estava dentro do clube quando recebeu a notícia de que Mojica não viria. Do lado de fora, mais de 2 mil pessoas – fantasiadas de diabos e bruxas - esperavam na fila. Ele procurou um dos diretores do clube e contou tudo. O sujeito ficou tão irritado que começou a arremessar cadeiras contra uma parede. Os outros diretores deram no pé, com medo de serem linchados. O baile foi cancelado e Samuel perdeu um bom dinheiro.

Isso foi fichinha perto de um show em Araçoiaba da Serra, 110 quilômetros a oeste de São Paulo. No dia marcado, Mojica estava novamente dando aulas em Belo Horizonte. Samuel, com medo de um novo fiasco, resolveu buscá-lo pessoalmente. Durante o voo para São Paulo, Mojica roubou três garrafas de vinho do carrinho da aeromoça e chegou totalmente chumbado. Já passava das onze da noite quando chegaram a Araçoiaba da Serra. Mojica não conseguia nem andar: caiu duro num sofá e só acordou á uma da manhã, quando foi colocado no caixão e carregado para o palco, totalmente grogue. O público, que à essa altura já achava que Zé do Caixão havia dado o cano, invadiu o palco para ver mais de perto. No meio do fuzuê, um sujeito, conhecido na cidade como “Capeta”, chegou perto de Mojica e arrancou-lhe uma das unhas da mão. Depois saiu gritando: “Viva! Arranquei a unha do Zé do Caixão!”. Mojica, chorando de dor, voltou correndo para o camarim, e o delegado teve de intervir para que o baile não terminasse em batalha campal.

 

Não faltavam ofertas de trabalho para Mojica, mas sua falta de organização e irresponsabilidade punham tudo a perder. Ele foi convidado para aparecer em diversos programas de rádio e na TV, mas vivia bêbado e nunca cumpria os horários. Sua grande chance de recuperação surgiria em julho de 1981, quando a TV Record o convidou para estrear um novo programa.

A emissora estava passando por uma fase difícil com a inauguração da TVS, o novo canal de Sílvio Santos, que havia contratado alguns dos maiores nomes da Record, como Jacinto Figueira Jr., que apresentava O Homem do Sapato Branco, um show de entrevistas especializado em “mundo-cão”. A Record pensou em criar um programa de auditório com Zé do Caixão, no qual ele apresentaria cantores e faria concursos de calouros. Chegaram a rodar um piloto, mas o resultado foi tão ruim, que o projeto foi imediatamente engavetado. Foi então que a TVS anunciou que O Homem do Sapato Branco entraria no ar aos sábados às onze da noite. A Record resolveu colocar Zé do Caixão para disputar cabeça a cabeça com Figueira Jr., e sugeriu a Mojica um programa popularesco sobre terror e esoterismo. Três semanas depois, estrearia Um Show de Outro Mundo.

O novo programa misturava episódios fictícios (roteirizados por Norbert Novotny, amigo de Mojica), com apresentações de todo tipo de rituais esdrúxulos e macabros. Mojica exibiu um sujeito que dizia ser lobisomem, um artista de rua – Dito Satã – que comia cobras vivas, e um mago chamado Augustok, que atravessava a própria garganta com um espeto de churrasco. Também apresentou um ritual de satanismo comandado pela “diabóloga” Lina Capeta e um casamento de umbanda celebrado por Pai Jaú que, antes de ser macumbeiro, ganhava a vida como zagueiro do Corinthians.

A novidade do programa era a presença de um “júri” composto por supostos especialistas em fenômenos sobrenaturais, que analisavam as bizarrices mostradas. Participaram do grupo de jurados o padre Quevedo, líder de um instituto em estudos parapsicológicos; Jamil Rachid, presidente da Federação dos Umbandistas de São Paulo, e Arlete Moreira, atriz de Perversão e figurante dos Trapalhões.

Mesmo com o novo emprego e as novas responsabilidades, Mojica não parava de beber. Às vezes chegava tão biritado ao set, que precisava se amparar em cadeiras, para não cair. No dia da gravação do primeiro programa, tiveram de tirá-lo à força da casa do amigo Francisco Cavalcanti, onde estava há 48 horas jogando pôquer. O diretor artístico da Record, Hélio Ansaldo, proibiu o pessoal de beber em dia de filmagem, mas não adiantou: Mojica mandava um de seus assistentes encher uma garrafa de guaraná com pinga e fingia estar tomando refrigerante.

Apesar de todos os problemas, os índices de audiência foram surpreendentes: o primeiro programa deu quase trinta pontos, equivalente a metade dos televisores ligados no horário e a um público de quase 2 milhões de pessoas, só em São Paulo. Mesmo com a estreia de O Homem do Sapato Branco, em 22 de agosto – o que causou uma queda considerável na audiência de Mojica – seus números permaneceram fortes: sua média durante o mês de agosto foi de dezenove pontos (1,2 milhão de espectadores).

A crítica, no entanto, saiu matando: Gabriel Priolli Netto, da Folha de S. Paulo, disse que preferia ver mais terror e menos “mundo-cão”. Na Folha da Tarde, o jornalista Ferreira Netto – que havia transferido seu programa de entrevistas da Record para a TVS – criticou sua ex-emissora e zombou do português de Mojica: “Aviso ao mocinho: ‘pograma’ não existe; ‘exprocação’ também não”. (Netto encerrou a coluna escrevendo “prevaleceu” com “S”).

Com o sucesso na TV, alguns produtores voltaram a procurar Mojica: Enzo Barone, que começara sua carreira em cinema trabalhando como ator em O Estranho Mundo de Zé do Caixão, disse que havia comprado, num leilão do interior, a carcaça de um velho avião, com poltronas e tudo o mais, e queria usá-la num filme. Mojica pediu ajuda ao filho, Crounel, e em poucos dias escreveram o roteiro de O Diabólico Voo de Zé do Caixão, sobre um avião que é sequestrado por Zé e levado para outra dimensão, sobre um avião que transformaram nas figuras históricas com as quais mais se identificam. Assim, um passageiro transforma-se em Hitler, outro em Napoleão, um terceiro em Jesus Cristo, e por aí vai. Barone chegou a convidar Anselmo Duarte e o famoso grupo de discoteca As Frenéticas para atuar no filme, mas o projeto acabou ficando muito caro e nunca foi levado adiante.

Mojica ficou tão entretido na produção da fita que se descuidou totalmente do programa de TV: chegava sempre atrasado às filmagens, não decorava suas falar e faltou diversas vezes. O show caiu de qualidade e a audiência despencou: de dezenove pontos em agosto, passou para nove em setembro e seis em outubro. A Record ainda tentou transferir o programa para domingo, mas não houve jeito: no fim de outubro, apenas três meses depois da estreia, Um Show do Outro Mundo foi cancelado.

 

Não havia passado uma semana desde sua demissão da Record, quando Mojica foi com seu parceiro Mário Lima à Câmara dos Vereadores de São Paulo visitar um amigo, que havia prometido conseguir dinheiro para um filme. A Câmara vivia um período de intensa agitação, por causa das eleições marcadas para dali a um ano. Nos corredores, políticos faziam alianças estratégicas e tentavam atrair bons nomes para suas chapas. Mojica mal colocou os pés no recinto e foi logo abordado por vários vereadores, que o convidavam a se candidatar a um cargo público:

- Você é muito famoso, Zé, não quer ser candidato? Podemos fazer um bom par, você como deputado e eu como vereador – disse um sujeito do PMDB.  

- É, mas tem que ser no PDS – respondeu outro, puxando-o pelo braço.

Em cinco minutos, ele recebeu convites de todos os partidos e tendências, do mais reacionário direitista do PDS ao mais xiita dos petistas.

O tal amigo de Mário Lima trabalhava no Partido Popular (PP), um grupo liderado por Tancredo Neves e egresso da ala moderada do antigo MDB. Mojica foi apresentado ao presidente regional do PP, o banqueiro Olavo Setúbal, dono do Itaú, que imediatamente o convidou para ingressar no partido e candidatar-se a deputado estadual:

- Você é muito importante para nós. Se resolver sair candidato pelo PP, garantimos todo o apoio!

O PP, assim como todos os outros partidos, estava realmente desesperado atrás de candidatos. Pouco antes, um novo pacote eleitoral proibia as coligações partidárias, o que intensificou a luta por candidatos de peso. Na corrida para ganhar votos valia qualquer coisa: o próprio PP havia convidado Solange Joubert, a autoproclamada “rainha das massagistas” – e imortal da Academia de Letras do Vale do Paraíba, por sua obra Estes Homens Passaram por Minha Mesa de Massagem – para concorrer a uma vaga na Assembleia Legislativa. Agora era a vez de Zé do Caixão.

 

Mojica nunca havia sonhado em entrar para a política e não entendia nada do assunto. Quando lhe perguntavam sua posição ideológica, dizia situar-se “em algum lugar entre a esquerda e a direita, mais para o meio”. Era impossível negar, no entanto, que aquela bajulação toda não lhe havia subido à cabeça: por que não poderia ser um deputado? Se todos aqueles políticos já davam como certa sua vitória, por que não arriscar? Afinal, um deputado ganhava bem, tinha privilégios, e tudo que ele precisava naquela hora era um empreguinho bom. Resolveu aceitar.

Se houve uma classe de profissionais que se favoreceu de imediato com a candidatura de Zé do Caixão, foi a dos jornalistas. Nunca foi fácil criar manchetes bacanas. Algumas das melhores: “O candidato das forças ocultas”; “Zé do Caixão garante que não será um político-fantasma”; “horror na Assembleia”; “Mojica, uma luz nas trevas da política”; “O candidato que é um horror” e “Da urna funerária à urna eleitoral”.

Em entrevistas, Mojica afirmava que, caso eleito, concentraria seus esforços na defesa de três classes que considerava as mais desprivilegiadas do país: os coveiros, os lixeiros e os cineastas. “São pessoas que ninguém gosta, mas todo mundo precisa”. Quando um repórter lhe perguntou por que havia escolhido o PP, um “partido de banqueiros”, ele retrucou: “É melhor que sejam banqueiros, assim já são ricos e não precisam mais roubar. Pior seria se eu tivesse me juntado a uns mortos de fome!”. Depois, disse que a política nacional se assemelhava a um filme de ficção-científica e terror: “Veja só, os candidatos prometem mundos e fundos e, depois de eleitos, desaparecem, como se fossem tragados por um disco voador para outra dimensão. Só aparecem de novo na época de outra eleição. Parecem umas múmias, que só acordam de tempos em tempos”.

Sua plataforma incluía a proibição de seriados de TV americanos (“Precisamos prestigiar os programas brasileiros!”) e cursos obrigatórios de tiro para vigias noturnos (“Esses coitados arriscam a vida para proteger a família brasileira e nem aprender a atirar; é um absurdo!”). Mas ele também tinha boas ideias para incentivar o cinema nacional, como a criação de escolas para formar técnicos de laboratórios onde cineastas independentes pudessem revelar seus filmes por preços mais baixos.

Poucos dias antes de Mojica formalizar sua candidatura, o PP fundiu-se ao PMDB. No novo partido, o mais poderoso do país, não haveria lugar para Zé do Caixão. Foi então que o radialista Fernando Silveira, candidato a deputado estadual pelo PTB, convidou-o para se filiar a seu partido, prometendo arcar com todos os custos da campanha caso Mojica topasse aparecer ao seu lado em cartazes e santinhos. Só havia um problema: como Silveira já estava concorrendo a deputado estadual, Mojica, se quisesse entrar numa dobradinha, teria que se candidatar a deputado federal – uma parada muito mais dura. Mesmo assim, ele topou. Na mesma hora, Silveira o levou para o diretório central do PTB, na avenida Angélica, onde o apresentou a Ivete Vargas, filha de Getúlio, que preencheu pessoalmente sua ficha de inscrição. Mojica saiu empolgado: “Pô, a filha do Getúlio Vargas preencheu minha ficha! Esse partido é bom mesmo!”.

O candidato do PTB ao governo de São Paulo era outro velho conhecido de “forças ocultas”: Jânio Quadros. Mojica foi apresentado ao ex-presidente, que logo o convidou para um bate-papo em seu apartamento. No dia combinado, Mojica foi à casa de Jânio. Não passava das dez da manhã quando tocou a campainha. Jânio atendeu a porta de pijamas e chinelos. Bem-humorado, levou-o para a mesa da sala, onde sua esposa, dona Eloá, serviu suco de laranja e biscoitos.

- José, quero que você saiba que sua presença é muito importante para nós – disse o ex-presidente. – Você é uma pessoa de nome, pode atrair muitos votos!
          Mojica só balançava a cabeça, concordando. De vez em quando soltava uns “é claro”, “sim, sim”, mas na maior parte do tempo ouviu calado. Jânio pediu que não esquecesse de incluir seu nome para governador em todos os santinhos, e disse que Mojica teria de trabalhar muito para se eleger:

- Tem que fazer campanha o tempo todo, sem descanso. É preciso fazer como eu, que acordo todo dia às seis da manhã e durmo à meia-noite! (Mojica continuaria dormindo às seis da manhã e acordando meio-dia). Jânio deu dicas de como falar em comícios, e reiterou a importância da campanha corpo-a-corpo. Aí, Mojica falou pela primeira vez:

- Jânio, estou com um problema muito sério...Eu não tenho dinheiro para a campanha...

- Eu também não tenho pra te dar, mas vou te passar o telefone de dois amigos que podem te ajudar...

Os amigos de Jânio eram o dono de uma fábrica de embalagens em Santo Amaro e o proprietário de uma casa lotérica. Também não tinham grana, mas prometeram emprestar uma kombi para a campanha. Já a dobradinha com Fernando Silveira não deu certo: os dois brigaram e Mojica acabou se juntando aos candidatos Fábio Porchat (deputado estadual) e Fábio Fleming (vereador), que também se dispuseram a imprimir cartazes e santinhos, com a condição de que ele os apoiasse. Alguns dias depois, Mojica recebeu do Tribunal Regional Eleitoral (TER) a oficialização de sua candidatura: Zé do Caixão, candidato a deputado federal pelo Partido Trabalhista Brasileiro, com o número 430. Até soava bem.

Mojica logo percebeu que campanha política não era brincadeira: ele começou a ser chamado para reuniões do partido e encontros com políticos. Gostava especialmente das reuniões de cúpula do PTB, no centro, porque serviam uísque importado com amendoim. Mas nunca bebeu além da conta, pelo menos na presença dos graúdos. Sempre que avistava Jânio, Ivete Vargas ou algum outro figurão, maneirava na birita. Vexame mesmo só deu numa convenção do partido em São José dos Campos, quando subiu ao palanque com duas garrafas de Tatuzinho na cuca e fez um discurso que ficou para a história da política joseense:

- A quem pertence a terra? A Deus? Ao Diabo? Ou aos espíritos desencarnados? Meus eleitores, a besta está chegando para tomar a terra e o leite das crianças! Vamos dar leite pras crianças! Temos que dar leite pras crianças!

Num comício no Anhangabaú, Mojica foi rodeado por um grupo de motoristas de ônibus, que queriam saber mais sobre sua plataforma. Ele disse que pretendia liberar o jogo do bicho e legalizar a prostituição, inclusive dando 13º salário e benefícios às profissionais do ramo. Depois de se recuperar do baque, um dos motoristas perguntou o que ele pretendia fazer pela economia. Mojica, longe de ser um Galbraith, respondeu:

- Vou aumentar os juros da poupança! Vamos ficar ricos!

Os motoristas disseram que, se ele aumentasse os juros da poupança, as lojas também aumentariam seus preços, e ficaria tudo na mesma.

- Não, não, você vai ver! Vamos aumentar a poupança sempre mais que a inflação! Confiem em mim!

A campanha de Mojica era realmente revolucionária: ele substituiu o tradicional “corpo-a-corpo” pelo “copo-a-copo”: todo dia, visitava um bairro diferente e fazia a ronda dos botecos, enchendo a cara com os eleitores e divulgando sua plataforma, entre um gole e outro de Velho Barreiro. Enquanto isso, a candidatura de Jânio não decolava: os institutos de pesquisa anunciavam uma liderança folgada de Franco Montoro, do PMDB, seguido de longe por Reinaldo de Barros, do PDS. Jânio só aparecia em terceiro, empatado com Lula, do PT.

Para dar impulso à campanha, o PTB marcou um grande comício para o dia 9 de outubro em Sapopempa, na zona leste. As maiores atrações, além da presença de Jânio e Ivete Vargas, seriam um show de Moacir Franco – também candidato – e um concurso de sósias de Getúlio Vargas, Sílvio Santos e Pedro de Lara. O evento foi visto como a última grande cartada de Jânio. Ele declarou aos jornais que, se não conseguisse levar pelo menos 20 mil pessoas a Sapopemba, renunciaria à candidatura. Todos os candidatos do PTB foram convocados a discursar, inclusive Zé do Caixão.

Jânio cumpriu sua promessa: bem mais de 20 mil pessoas compareceram ao comício. Naquela manhã, Mojica vestiu um terno, encontrou-se com o amigo Samuel Moura e partiram juntos para Sapopemba. Antes, porém, deram uma paradinha na casa de Elza Leonetti, onde Mojica matou meio litro de Cinzano. Acabaram chegando atrasados ao comício. Largaram o carro numa esquina qualquer e só então perceberam que haviam estacionado ao lado errado, próximo à multidão e longe do palanque. Tiveram que atravessar a massa a pé, cortando pelo meio do povão. Mojica era reconhecido e abraçado. Foi um sufoco. Levaram quase uma hora para alcançar o palanque e, quando chegaram, os discursos já haviam terminado. Mojica não pôde discursas e ainda sofreu a humilhação de ouvir o apresentador chamá-lo de “José Maria Marin”.

Com todas essas galhofadas, não foi surpresa alguma quando saiu o resultado da eleição: Zé do Caixão obteve 1.228 votos, ficando em 61º lugar entre os 71 candidatos do PTV. Na classificação geral, ficou em 256º lugar entre os 278 candidatos. Jânio acabou mesmo em terceiro, atrás de Franco Montoro e Reinaldo de Barros. Os parceiros de Mojica também entraram pelo cano: nenhum dos Fábios, nem Porchat nem Fleming, conseguiu se eleger. Mojica depois acusou o TRE de ter anulado os votos dados a Zé do Caixão e computado apenas as cédulas com seu nome verdadeiro, mas a reclamação não procedia: em sua ficha de inscrição, ele havia registrado tanto o nome José Mojica Marins quanto Zé do Caixão.

 

Publicado originalmente em BARCINSKI, André & FINOTTI, Ivan. Maldito: a vida e o cinema de José Mojica Marins, o Zé do Caixão. São Paulo: Editora 34, 1998.

domingo, 30 de maio de 2021

Maurice Capovilla (1936-2021)

Maurice Capovilla nos deixou hoje. Conheci ele na Mostra de Cinema de Tiradentes em 2015. Acessível, talentoso e gente fina. Apresentava um bom filme sobre o compositor gaúcho Lupicínio Rodrigues. Capovilla será lembrado pelo “Bebel, Garota Propaganda” (meu filme preferido dele baseado num livro do Ignácio de Loyola Brandão e com a Rossana Ghessa), “O Profeta da Fome” e outros grandes trabalhos. Descanse em paz Capo

segunda-feira, 5 de agosto de 2019

Mazzaropi, A Saudade de Um Povo, parte IV

Capítulo 9. ADEUS A MAZZAROPI


Em São Paulo, em 10/04/1958, na semana que havia lançado “O Chofer de Praça”, Mazzaropi sofreu um acidente automobilístico, que provocou lesões, atingindo sua coluna. Essa lesão agravou-se à partir de 1976, quando começou a sentir fortes dores.

Após vários exames, foi diagnosticado em 1976, que, devido ao acidente ocorrido anteriormente, exteriorizava já sintomas de mieloma múltiplo. Para amenizar essas dores, injeria medicamentos americanos.

Mesmo acometido pela enfermidade, Mazzaropi ainda produziu seus últimos quatro filmes e participou de dezenas de shows pelo País.

No dia 19 de maio de 1981, foi hospitalizado no Albert Einstein, vindo a falecer, com câncer na medula óssea, no dia 13 de junho do mesmo ano em São Paulo, aos 69 anos de idade.

Mazzaropi foi enterrado na cidade de Pindamonhangaba, no interior paulista, ao lado do pai, onde quase 5 mil pessoas o esperavam para receber seu féretro.

No dia do enterro, a cidadezinha estava com uma tristeza incontida pela perda do amigo que vivia pela cidade, recrutando figuras características para atuar em seus filmes.

Seus critérios pessoais na escolha dos elencos, a forma de conduzir seus negócios na PAM Filmes é que dificultaram a continuidade das suas atividades pelos seus seguidores.

Estiveram no Hospital, Hebe Camargo, David Cardoso, Geny Prado (atriz que sempre fez o papel de esposa do Jeca em quase todos os seus filmes), entre outros amigos do comediante. No dia do enterro estiveram, José Geraldo Alckmin Filho, Laudo Natel, Ronnie Von, Ítalo Fittipaldi, Augusto César Ribeiro, Alice Marcondes Miranda, Gilda Valença, Osvaldo Massaini e Primo Carbonari (produtores de cinema), a atriz Elizabeth Hartmann, o ator Sérgio Hingst, o maestro Hector Lagna Fietta, Nena Viana, Wilson Grey, Argeu Ferrari, Carlos Garecia, Izabel Sacramento, Péricles Moreira (filho adotivo de Mazzaropi), empregados da PAM Filmes e outros amigos do comediante.

No enterro houve um momento de emoção muito forte, foi quando Izabel Sacramento e outras pessoas prestaram uma pequena homenagem ao comediante, cantando a música “Tristeza do Jeca” de Elpídio dos Santos (autor da maioria das letras musicais dos filmes), uma das músicas preferidas por Mazzaropi.

Um grande amigo, Ronnie Von, expõe sobre o comediante: “No País da falta de memória, mesmo que tentasse apenas conseguiria ‘chover no molhado’, porque todo resgate de quem realmente é grande, só é feito após sua morte. Não importa, de qualquer forma eu seria suspeito, como geralmente são os amigos que dizem dos seus pares. Aliás, o mundo se divide entre pares e ímpares, e o Mazza, sem dúvida, foi o grande par da cultura popular, do encontro da nossa gente com a sua própria realidade. Embora sem deixar clara a mensagem social, ele sempre existiu em seus filmes, e, da forma mais óbvia: o cotidiano da grande massa brasileira, em todos os níveis, principalmente a urbana, porque esta em sua maioria é produto do êxodo rural, cuja ótica (rural) era apresentada de forma que aquele cotidiano fosse sendo sublimado. Muito já se disse do grande cineasta, do grande ator, produtor, etc., das injustiças sofridas, principalmente da incompreensão por parte da imprensa que, na época, tinha apenas a visão simplista do cinema elitista ou do mercantilista. Infelizmente, hoje é tarde para redenções. Minha amizade com Mazza foi densa e cronologicamente curta. Nos conhecemos numa situação bastante inusitada, quando ele foi me visitar, pois sabia que eu estava seriamente doente, e, possivelmente com pouco tempo de vida. Tendo conhecimento apenas da rua em que eu morava, começou uma caminhada desde o início dela, que era longa, e, de porta em porta, de casa em casa, foi batendo e perguntando por mim, até descobrir, acredito que bastante cansado de caminhar, que a minha casa era a penúltima da rua. Daí em frente, visitas mais frequentes, pude descobrir o ser humano único escondido na dualidade homem-artista. Com ele aprendi o que os cursos de Ciências Humanas talvez tivessem bastante dificuldade em me ensinar. Uma mescla de ingenuidade com “savoir-faire”, de ceticismo com superstição, de lógica com fé inexplicável. Nada na vida acontece por acaso, por isso não lamento o fato de nossos caminhos demorassem a se cruzar, mesmo com íntimos amigos comuns (Hebe Camargo é o grande exemplo), mas mesmo assim, acho que se tivéssemos tido um pouco mais de tempo, talvez toda minha negligência profissional ficasse bastante comprometida, uma vez que a alegria e a vontade de crescer profissionalmente foram reencontradas a partir das induções e lições de vida que meu amigo ia passando, sempre fundamentadas no propósito de sentir-se vivo e cada dia melhor. Resta-me apenas o chavão maior: irreparável perda. Que bom ter sido amigo de alguém tão rico e poderoso interiormente; um grande privilégio. Ronnie Von 28/01/1986, Rio de Janeiro”.

Alice Marcondes Miranda, filha de escravos, que trabalhou na casa de Mazzaropi e o conhecia desde os 8 anos de idade, preferia lembrar-se dele, dos tempos de traquinagens, do garoto levado, do adolescente que montava cirquinhos no fundo do quintal. Ela trabalhou com ele em oito filmes, fazendo papéis simples de cozinheira, lavadeira, muito semelhantes à vida real.

Em 1981, o Prefeito de São Paulo, Reinaldo de Barros, homenageou o comediante e cineasta Mazzaropi, dando seu nome à Avenida “B”, conhecida por João Saad.

A atriz Geny Prado, que desde 1951 acompanhava Mazzaropi, como esposa do personagem “Jeca” em seus filmes, falou ao Jornal do Brasil em 14/06/1981: “Convivi com ele durante todo esse tempo. Éramos como uma família improvisada, porque ele era engraçado mesmo na espontaneidade, de um artista nato”.

Um dos amigos de Mazzaropi, e atuante em vários filmes, Augusto Cezar Ribeiro, com emoção, falou que o comediante “Era um homem de aguçada inteligência e incrível capacidade para o trabalho e organização, amava criancinhas a velhice e o circo. Fez de sua vida uma historinha de amor, alegria e sobretudo, muita felicidade, no teatro, no cinema ou no circo. Seus filmes sempre continham uma mensagem de paz e de esperança. Mazzaropi foi um gênio insubstituível do cinema nacional”.

Apesar de todo sucesso e um patrimônio incalculável, Mazzaropi tinha uma vida bem rotineira e poucos amigos para os quais dedicaca especial carinho. Entre eles estavam Inajá Viana (Nena), Gilda Valença, Elis Regina, Ronnie Von, David Cardoso, Francisco di Franco, Edgard Franco, Chico Anysio, Hebe Camargo, Beto Carrero, John Herbert, Geny Prado, Roberto Pirilo, Osmar Santos, Orlando Orfei, Rolando Boldrin e também João Francisco Ferreira e Domingos Mazzaropi, seus tios.

A Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo, no final de 1983, organizou uma coletânea de filme e debates sobre Mazzaropi, com início em 11 de dezembro, denominada “Mazzaropi em Casa”, na Rua Visconde de Parnaíba, 2.437. O trabalho contou com a organização do cineasta Pedro Della Paschoa Júnior, que exibiu cartazes e fotografias referentes aos 32 filmes do comediante. Para Della Paschoa “o que menos interessa é a trama. Ele funciona como a figura de judas em sábado de aleluia: tem que existir”. E continua afirmando o que importava nos cinemas de Mazzaropi era o jeito de mostrar a ferida sempre aberta da sociedade, onde o homem comum, sem poder, rir, ria.

“Amácio Mazzaropi foi o meu pai cinematográfico, na minha opinião o verdadeiro Rei do Cinema Brasileiro. Com ele aprendi muito. Consolidou minha honestidade profissional e estímulo pelo trabalho. Foi o ator mais natural que conheci em toda a minha vida. Foi também o mais injustiçado por todos, principalmente pela imprensa e autoridade. Após sua morte, na semana seguinte sua foto saiu estampada na capa da Manchete, tamanho 3x4 e uma manequim, hoje famosa, ocupava a página toda. Com ele na presidência da EMBRAFILME, hoje seríamos o maior produtor mundial de filmes. Deve estar fazendo os santos rirem muito. David Cardoso, São Paulo, 08/11/1985”.

A cidade Taubaté-SP não esqueceu o artista paulistano. Homenageou-o dando seu nome a uma Escola no Município, em dezembro de 1981, e, naquela época tramitava na Câmara Municipal um projeto de lei que alterava o nome da Estrada dos Remédios para Amácio Mazzaropi, que liga a cidade ao sítio-estúdio, além do título de cidadão Benemérito daquele Município.

O prefeito Mário Covas de São Paulo homenageou o consagrado comediante no dia 25 de outubro de 1985, dando seu nome à Escola Municipal de Educação Infantil, localizada na Rua 34-B, Quadra 36-B, Conjunto Habitacional Juscelino, em Guianazes, naquele município.

As ilustrações dos primeiros filmes foram feitos pelo artista e ilustrador Jayme Cortez que, somando essa coletânea de desenhos e cartazes, exibi em seu livro “Manual Prático do Ilustrador”, lançado pela R. Chiesi Livros, de São Paulo, em 1972.

Nas reproduções dos cartazes, Jayme Cortez externava o clima necessário, com simplicidade, dirigido ao público do famoso comediante. No livro, apresentava o esboço e depois a solução definitiva do cartaz, impresso com todos os elementos que eram previstos antes, ou mudados no decorrer do surgimento da ideia, até a execução final. Jayme ilustrou: Chofer de Praça, Jeca Tatu, As Aventuras de Pedro Malazartes, Zé do Periquito, Casinha Pequenina, O Vendedor de Linguiça, O Lamparina, O Puritano da Rua Augusta, Meu Japão Brasileiro.

O maestro Hector Lagna Fieta fez as trilhas sonoras e arranjos musicais de todos os 24 filmes produzidos por Mazzaropi. Elpídio dos Santos fazia as letras das músicas.

O admirável artista conhecia a fundo a psicologia do nosso matuto, grande nos sentimentos, feliz na simplicidade da vida, forte e autêntico no seu trabalho e na expressão dos pensamentos. Interpretava o que ia na alma, o que balançava o coração, seja de mágoa ou de alegria, da mentira inocente ou da verdade matemática.

A apresentadora e atriz Hebe Camargo, em 14/06/1981, falando ao Jornal do Brasil, informou que sempre acompanhou Mazzaropi desde a década de 1940, nos tempos do Rádio, quando ela cantava e ele completava a apresentação fazendo humor. E quando da morte do comediante adiantou: “Esta é uma perda terrível, numa época em que o mundo está tão necessitado de humor. E a alegria dele era autêntica, ingênua, não apelava. Era como um repentista, não precisava de texto para fazer rir. Com a morte dele, o cinema brasileiro vai encerrar uma fase importante. Ele deixa uma indústria cinematográfica perfeita, com uma equipe de técnicos de alta qualidade”.

Também David Cardoso reconheceu uma fase importante do cinema nacional, mas não comparou Mazzaropi a nenhum outro comediante porque “ele era único e aí está sua grandiosidade”. Tendo trabalhado com o comediante em 1963 e 1964, informou que foi o suficiente para estruturar sua formação cinematográfica. E concluiu: “Foram anos decisivos para mim. Com ele aprendi tudo para continuar a minha carreira”.

No enterro também compareceu Laudo Natel, ex-governador de São Paulo, para render homenagem ao amigo que conheceu na época em que governava aquele Estado; onde participou do lançamento de um dos filmes de Mazzaropi. Para Natel, ele era um artista que agradava a todos e, “mais do que ter criado um estilo cinematográfico na figura do Jeca, ele era uma figura humana, sempre pronto a dar chance para os mais novos”.


Mazzaropi está ausente do convívio com seu público, sem dúvida um dos maiores nomes do cinema nacional. Deixou de promover seus inesquecíveis espetáculos.

Mas, sua arte e sua glória, seu talento e fidelidade profissional continuaram marcados nas suas produções e carinhosamente tocaram os corações dos brasileiros.

Ficou a lembrança gostosa e marota do jeito engraçado com que MAZZAROPI: O NOTÁVEL CÔMICO BRASILEIRO, aparecia na tela.

Havia sempre no ator uma preocupação inteligente de preservar a simpatia com seu público, de defender a situação humana sem perder o resultado cômico. É nessa postura simples e simpática que ele via permanecer na memória de nossa gente. Como alguém que deu a volta por cima de nossas infelizes estruturas sociais, utilizando a arma pacífica de sua divertida matreirice.

“Amo o Brasil e tenho paixão por suas paisagens. Sinto-me jeca. E cada um de nós tem um pouco da ingenuidade e da pureza do jeca dentro de si”.
MAZZAROPI

Publicado originalmente em OLIVEIRA, Luiz Carlos Schroder. Mazzaropi- A Saudade de Um Povo. Londrina: CEDM Editora, 1985.

segunda-feira, 29 de julho de 2019

Mazzaropi: A Saudade de Um Povo, parte III



O segredo do meu sucesso foi falar a língua do meu povo”. Mazzaropi

Capítulo 8. A PAM FILMES E SUA TRAJETÓRIA

O sucesso do filme “Chico Fumaça” fez com que Mazzaropi, empolgado, numa tarde de janeiro de 1957, comentasse com Dona Clara Mazzaropi, sua mãe, que Massaini ganhou muito dinheiro, reformou sua casa no Jockey Club, reestruturo a Cia. Cinedistri, com o sucesso dos filmes em que participou. Pediu seu apoio em um investimento que ele iria fazer. Ele queria fazer um filme. Mas, pra fazer este filme teve que dispor de todos seus bens, lançar mão das economias bancárias. Então vendeu seus dois carros Chevrolet Americano e quase tudo que possuía e investiu alto. Inclusive, perguntou ao seu filho adotivo, Péricles Moreira, se ele não se importaria em deixar o colégio particular para concluir os estudos em colégio estadual, se fosse necessário. Porque também Mazzaropi via os cinemas cheios de gente e seu bolso vazio. Conhecia um pouco de cinema e resolveu fazer suas próprias fitas, e o que queria montar, era uma empresa que seria a única que teria o artista principal trabalhando de graça.

Começou aí outra caminhada. Esta agora com maior sabor e raça. Montar seu próprio filme. Porque os diretores dos filmes em que trabalhou queriam transformar seu personagem num caipira sueco, sofisticado, diferente na linguagem, nas roupas e no comportamento do brasileiro.

Com toda dificuldade que enfrentou, MAZZAROPI sabia que o sucesso alcançado no picadeiro, teatro, rádio, televisão e no cinema não iria abandona-lo agora.

Não foi fácil. Alugou inicialmente os estúdios da Cia. Cinematográfica Vera Cruz, para filmagens internas do seu primeiro filme. Produção, direção, distribuição e atuação principal de Mazzaropi, na Produções Amácio Mazzaropi – Pam Filmes, de sua propriedade. Isto se deu em 1958 – com o “CHOFER DE PRAÇA”, cuja trama estava calcada na aventura de um pai para formar o filho médico, que depois se envergonha dele. Esta fita valeu os sacrifícios, muita garra, coragem e astúcia para leva-lo ao público. As cenas externas foram executadas nas ruas da Grande São Paulo.


Quando terminaram as filmagens, não havia dinheiro para pagar as cópias no Laboratório. Munido de um Rural Willys, saiu rumo ao interior de São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, fazendo Shows em circos para cobrir tal compromisso, e poder proceder o lançamento do seu primeiro filme no dia 9 de abril de 1958, (coincidentemente no seu aniversário) no Cine Art-Palácio em SP, com casa cheia. Fizeram parte do elenco: Carmen Morales, Celso Faria, Marlene Rocha, Roberto Duval, Maria Helena e, Lana Bittencourt e Agnaldo Rayol na participação musical.

“Chofer de Praça” pagou-se e deu bom lucro. Foi aí que Mazzaropi conheceu sua própria força como produtor.

Nessa época, Beto Carrero atuava numa Rádio de São José do Rio Preto, no interior paulista, quando conheceu Mazzaropi, e foi convidado para atuar no filme “Chofer de Praça” e fez aqui seu depoimento: “Tive o prazer de conhecer Mazzaropi em 1958, no meu programa Beto Carrero, quando eu trabalhava em uma rádio em São José do Rio Preto. Na época, montamos 20 Shows em 20 cidades, fazendo 2 Shows por dia, uma loucura. O sucesso de Mazzaropi já era absoluto em todos eles, a casa ficava lotada, com uma multidão imensa do lado de fora, todos eles querendo ver o Show. A gente se dava muito bem, tanto que Mazzaropi chegou a me convidar para participar do seu primeiro filme “O Chofer de Praça”, no qual infelizmente, não entrei porque ainda estava estudando. Tenho uma admiração muito grande por Mazzaropi, que era uma pessoa muito humana, de uma simplicidade incrível com os amigos...Era muito bonito ver o carinho que ele dedicava à sua mãe, que esteve sempre junto dele até na hora de sua morte. Mazzaropi tinha também um tino comercial fantástico. Na época em que o conheci, ele estava deixando de ser contratado para se tornar empresário, servindo de escola para os novos empresários independentes que surgiram depois, na trilha do imenso sucesso que ele fez. Como artista eu acho que Mazzaropi, ao lado de Oscarito e Renato Aragão, foi o responsável por alguns dos melhores momentos do humor brasileiro, chego mesmo a compará-lo a Charles Chaplin, porque, para mim, Mazzaropi foi Chaplin do Sertão.

Mazzaropi deixou sua marca no Rádio, na televisão e no cinema, influenciando até hoje novas gerações de humoristas. É importante frisar bem, foi o primeiro artista a se tornar produtor independente de sucesso, fazia um filme por ano, e sempre enchia os cinemas de todo o Brasil com seus milhares de fãs. Beto Carrero – 18/11/85- SP”.

Seu segundo filme, “Jeca Tatu”, filmado em 1959, também na Cia. Cinematográfica Vera Cruz e na cidade de Pindamonhangaba, no interior de São Paulo, na Fazendo do Dr. Cícero Prado. Com esse filme, Mazzaropi consolidou seu espaço no cinema nacional e estabilizou sua produtora, a Pam Filmes. Estava com ele um grande elenco: Geny Prado, Roberto Duval, Nicolau Guzzardi, Marlene França, Nena Viana, Francisco de Souza, Mirian Roy. Participação especial: Agnaldo Rayol, Lana Bittencourt, Tony Campelo, Celly Campelo. Félix Aidar foi o primeiro diretor de produção contratado por Mazzaropi.

José Bonifácio de Oliveira (Boni), diretor da TV Excelsior de São Paulo, convidou o humorista para apresentar um programa naquela emissora em 1959. E ficou lá até 1962.

“As Aventuras de Pedro Malazartes” e “Zé do Piriquito” foi composto por: Geny Prado, Amélia Bittencourt, Roberto Duval, Nena Viana, Carlos Garcia, Augusto César, Eugênio Kusnet, Maria Helena. Na música, estiveram Hebe Camargo, Agnaldo Rayol, Celly Campelo, Tony Campelo, George Freedman, Paulo Moulim e Carlão.

Todos os lançamentos eram feitos no Cine Art-Palácio, e a Avenida São João, em São Paulo, era interditada para os eventos de grande público.

Outros filmes apareceram em seguida, e Mazzaropi, já com sua companhia toda estruturada na Fazenda da Santa, em Taubaté-SP, com 184 alqueires no Vale do Paraíba. Em 1961 produziu os filmes “Tristeza do Jeca” e “Vendedor de Linguiças”, todos com sucessos marcantes nas bilheterias dos cinemas de todo País.

Não tendo, no País, laboratórios para revelação em EASTMANCOLOR, Mazzaropi mandou fazer os serviços de Laboratórios e Trucagem do “Tristeza do Jeca” na Cidade do México, inaugurando seu primeiro filme colorido. Por causa de “Tristeza do Jeca”, Mazzaropi foi levado à Justiça pelo autor do clássico homônimo da música sertaneja paulista. Angelino de Oliveira (que teve a música na trilha sonora da comédia). Por conta de “Jeca Tatu” (1959) e “Tristeza do Jeca” (1961), o comediante foi relacionado a Monteiro Lobato e pelo Presidente da Academia Brasileira de Letras, Austregésilo de Athayde. Mazzaropi nunca estudou Monteiro Lobato. Pela própria vida, conhecia a figura do caipira tão bem como ele.

Um dia de grande emoção para Mazzaropi foi o do lançamento de “Tristeza do Jeca”, em Curitiba. Seu tio, Domingos Mazzaropi (que se encontrava em uma cadeira de rodas), ao terminar o Show que antecedia o filme, pediu para ser conduzido até o palco, enquanto a plateia vibrava com entusiasmo. Com um lenço branco acenava para Mazzaropi, ambos permaneceram por algum tempo emocionados.

Seu “Jeca” virou domínio público nacional, num femômeno bem anterior ao vivido hoje por Renato Aragão e seus Trapalhões. E, quando alguém lhe perguntava se seus filmes faziam sucesso no interior, ele ria para responder: “Meus filmes vendem bem mesmo é em São Paulo e no Rio. Eu atinjo todas as classes”.

Participaram das filmagens de “Tristeza do Jeca”: Geny Prado, Roberto Duval, Nicolau Guzzardi, Eugênio Kusnet, Augusto César, Genésio Arruda, Moracy Melo, Carlos Garcia, Francisco de Souza, Anita Sorrento. Participação musical: Agnaldo Rayol e Mário Zan. No filme “Vendedor de Linguiças” estiveram Geny Prado, Roberto Duval, Ilena de Castro, Amilton Fernandes, Maximira Figueiredo, Carlos Garcia, Maria Helena Rossignori, Augusto Machado de Campos, Anita Sorrento, Reynaldo Martini, David Neto. Participação musical com Pery Ribeiro, Elza Soares e Miltinho.

Em fins de 1962 e em 1963, Mazzaropi atuou como convidado no programa BIBI FERREIRA na TV Excelsior no programa “Brasil 63”.

Em 1962, completava seu estúdio na Fazenda da Santa, em Taubaté-SP, arrematando em leilão a metade dos equipamentos da Cia. Vera Cruz. Tinha uma razão especial para adquirir tais equipamentos, e, afirmava: “Foi na Cia. Vera Cruz que tive minha primeira chance no cinema, e meu primeiro sucesso no cinema nacional”.

Nesse mesmo ano, estouraram as bilheterias de todo País, com o lançamento de “CASINHA PEQUENINA”, sobre a escravidão no Brasil. De seu elenco, fizeram parte grandes nomes da Televisão e do cinema brasileiro: Tarcísio Meira, Luiz Gustavo, Geny Prado, Guy Loup, Marina Freire, Marly Marley, Ingrid Thomas, Roberto Duval, Astrogildo Filho, Abílio Marques, João Franco, Edgar Franco, João Batista de Souza. Na atuação musical, estavam Edson Lopes. Como o filme também era colorido, os trabalhos de montagem e trucagem e revelação foram feitos em Buenos Aires.

Mudando seu estilo para sátira ao cangaço, Mazzaropi contou a vida de Lampião no Nordeste brasileiro de forma irreverente e divertida, um jeito ainda não explorado sobre o assunto no cinema nacional. Chamou-se: “O LAMPARINA”. O título chamava a atenção pela história curiosa e diferente de Lampião – O herói do Sertão e as características de bandoleiro em Mazzaropi. Este foi o primeiro filme produzido em 1963, totalmente da Fazenda da Santa, em Taubaté-SP, onde estava instalada sua companhia, a Pam Filmes. Este filme foi visto por 250 mil pessoas em 23 cinemas, em São Paulo na semana do lançamento. Participaram do elenco desse filme: Geny Prado, Manoel Vieira, Zilda Cardoso, Astrogildo Filho, Carlos Garcia, Emiliano Queiroz, Carla Diniz, Rafael Galhardo Terra, Agostinho Toledo e João Batista de Souza.

Com a ajuda de um grande amigo e também cineasta, Agostinho Martins Pereira, conseguiu importar de Hollywood, os mais avançados equipamentos cinematográficos acoplados de som direto.

Os atores e atrizes das produções de Mazzaropi eram os que recebiam os maiores “cachês” do cinema nacional. Walter Wanni, falando sobre Mazzaropi, disse: “Se o Brasil tivesse dez Mazzaropi, o destino do cinema nacional, tranquilamente seria outro. Hoje, a Boca do cinema aqui em São Paulo já não existe mais”.

Os técnicos e artistas que atuaram com Mazzaropi, tinham seu espaço e notoriedade na imprensa falada e escrita. Realizaram-se profissionalmente e financeiramente. Mazzaropi, fazia seleção rigorosa na escolha de seus elencos.

O estúdio da PAM Filmes oferecia alojamento em apartamentos confortáveis, com restaurantes, piscina e toda infra-estrutura para que o artista não precisasse sair da Fazenda em Taubaté, durante as filmagens.

Homenageando a colônia nipônica brasileira, presença marcante na capital paulista e nos estados do Sul do País, Mazzaropi lançou “MEU JAPÃO BRASILEIRO”. O filme foi produzido em 1964, rigorosamente com costumes orientais e contendo um elenco com atores conceituados da televisão e do grupo folclórico nipônico de São Paulo. Participaram das filmagens Geny Prado, Célia Watanabe, Francisco Gomes, Carlos Garcia, Reynaldo Martins, Judity Barbosa, Zilda Cardoso, Adriano Stuart, Elk Alves, Bob Júnior e João Batista de Souza. Nesta produção exibiu uma luta pela organização de uma cooperativa de produtores rurais.

Prosseguindo, fez em 1965 um filme que homenageou uma das ruas mais badaladas de São Paulo. “O Puritano da Rua Augusta”, lançado em 25/01/1966, aniversário da capital paulista. Mazzaropi estreava seus filmes pontualmente nesse dia de Janeiro no Cine Art-Palácio, em São Paulo, no Largo do Paissandu. E justificava a escolha das estreias sempre no circuito da Companhia Serrador de Cinemas, pela lealdade e carinho que dedicava ao amigo e empresário Florentino Lorenti, da referida Companhia.

Seus filmes eram de singela captação das desventuras do caipira que vinham para a cidade e tinha que aprender novos conceitos, às vezes, só no campo, outras, só nos grandes centros. Mas sempre envolvendo o caipira e retratava parcialmente o dia a dia do povo brasileiro.

Daí o seu legado para o cinema nacional. Fizeram parte do elenco de “O Puritano da Rua Augusta”, Marly Marley, Marina Freire, Elizabeth Hartman, Júlia Kovacs, Darla, Marlene Rocha, Gladys, Carlos Garcia, Edgar Franco, Zé Luis Pinho, Henricão, João Batista de Souza. Participação musical de Elza Soares e Cláudio Guimarães.


“O CORINTIANO”, produzido em 1966, foi a homenagem do artista aos torcedores do seu time paulista de futebol. Atuou nesse filme a torcedora número 01 do Corinthians, Elisa, que agitou a galera com muita expressividade e originalidade.

Estiveram com ele, além de Elisa, Elizabeth Marinho, Lúcia Lambertini, Nicolau Guzzardi, Carlos Garcia, Roberto Pirilo, Leonor de Campos, Xandó Batista, Francisco Gomes, Gláucia Maria, Karé, Ziara Freire, Geraldo Bretas e Pedro Luiz.

Em 25 de janeiro de 1967, a Avenida São João foi novamente interditada, e lá estava uma banda musical, a imprensa, com presença da grande torcida Corintiana: “Os Gaviões da Fiel”.

Possuidor de uma capacidade de improvisação e notória criatividade, jamais decorou um “script”. Sempre alterava o roteiro de seus filmes, rodados com cenários simples, quase todos produzidos em sua Fazenda-Estúdio em Taubaté, cidade que lhe deu o título de cidadão benemérito, concedido pela Câmara Municipal. Ali ele produzia suas fitas, fazendo argumento, roteiro, direção e interpretação. Havia quem o acusava de tirania durante a realização dos filmes, por não aceitar palpites ou sugestões de modificações. Irreverente, Mazzaropi era a própria encarnação do caipira, segundo sua própria concepção do que era um sujeito do interior: “Caipira é um homem comum, inteligente, sem preparo. Alguém muito vivo, malicioso, bom chefe de família, mas que não teve escola, daí aquele seu jeito de falar”.

Seus filmes até 1967 foram rodados com duração de 85, 90 e 95 minutos. A partir desse ano, os filmes foram montados com duração de 100 minutos, e o primeiro deles foi “A Jeca e a Freira”. A partir dessa época, suas produções cinematográficas foram totalmente produzidas em EASTMANCOLOR, revelados e montados no Brasil, não mais havendo necessidade de enviá-las aos laboratórios do exterior. Integraram o elenco deste filme: Geny Prado, Elizabeth Hartmann, Paulette Borelli, Isaura Bruno, Elizabeth Marinho, Denise Barrerto, Mafalda Moura, Maurício do Valle, Carlos Garcia, Roberto Pirilo, Ewerton de Castro, Henricão, Toni Cardi, Telcy Perez, Nello Pinheiros, Cláudio R. Mechi, Wilson Júnior, João Batista de Souza e Marita Luisi, na participação musical.

Mazzaropi não fazia filmes com final infeliz. Isto porque seus espetáculos eram pra divertir a família brasileira. Seu objetivo era a alegria de todos.

Com o mesmo sucesso, surgiu em 1968, “NO PARAÍSO DAS SOLTEIRONAS”. Estiveram neste filme Domingos Terra, Carlos Garcia, Átila Iório, Renato Master, Zequinha e Quinzinho, Yves Hublet, Toni Cardi, Cláudio Mechi, Ademir Monezzi, Paschoal Guida, Nilo Márcio, Cícero Liendo, Geny Prado, Iracema Beloube, Wanda Marchetti, Elizabeth Hartman, Linda Fernandes, Nena Viana, Adélia Iório, Guia Rinaldi, Elizabeth Barbosa, Judith Barbosa, Yoratan Lauletta, Elza Cleonice.

O filme foi lançado em 24 de janeiro de 1969, no cine Art-Palácio, em São Paulo. Do dia da estreia até 19 de fevereiro de 1970, o filme rendeu 2 bilhões e 650 milhões de cruzeiros.

Além de ator, Mazzaropi foi também, possivelmente, o mais sucedido produtor do cinema nacional nos últimos anos. Seus filmes anuais sempre bateram recordes de bilheterias e sua produtora – a PAM Filmes – mantinha seus estúdios em sua antiga Fazenda da Santa, em Taubaté e posteriormente, no Hotel Fazenda – PAM Filmes, também em Taubaté.

Mazzaropi, na PAM Filmes, dirigia tudo com raciocínio rápido e tino comercial apurado. Orgulhava-se de nunca ter precisado pedir dinheiro ao governo para realizar seus filmes.

Com muita vaidade, falava a respeito de um quadro que estava exposto sobre a lareira, em sua casa, onde o Presidente da Academia Brasileira de Letras, no dia 17 de janeiro de 1968 escrevei um bilhete dirigido ao comediante: “Austragésilo de Athayde considera que, com Jeca Tatu e a Freira, Mazzaropi alcançou, no cinema, o mais alto nível de sua arte. É hoje, sem nenhum favor, um artista de categoria mundial”. (Veja 28/01/70).

No dia 26 de janeiro de 1970, estava sendo lançado no Cine Art-Palácio, em São Paulo, como de costume, para depois percorrer o Brasil, “Uma Pistola para Djeca”. O ator Amácio seria capaz de jurar que Djeca não vinha de Django, o pistoleiro italiano. Djeca era um herói caboclo do Brasil no século 19. Trabalharam com o ator, neste filme: Patrícia Mayo, Yaratan Laureta, Zaíra Cavalcanti, Wanda Marchetti, Elizabeth Hartman, Nena Viana, Linda Fernandes, Paulete Bonelli, Rogério Câmara, Paulo Bonelli, Tony Vieira, Nello Pinheiro, Rildo Gonçalves, Francisco Gomes, Durvalino de Souza, Luiz Homero, Carlos Garcia, Cláudio Roberto Mechi, Araken Saldanha, Antenor Pimenta, Toni Cardi, Domingos Terra, Iragildo Mariano, Milton A. Pereira, dirigido pelo cineasta Ary Fernandes. Música de Hector Lagna Fieta e Fotografia de Pio Zamuner.

“Uma Pistola Para Djeca” foi um dos filmes mais caros e mais bem cuidados que produziu. Colorido Especial, guarda-roupa exclusivamente feito para o filme. Falando sobre o filme, Mazzaropi enfatizava que sempre procurava melhorar a qualidade técnica dos filmes que produziu. O filme lhe custou 600 mil cruzeiros.

Quando este filme foi exibido em Mogi Mirim, São Paulo, formaram-se grandes filmas de longa espera, provocando pânico e tumultos, a ponto de um vereador apresentar um projeto de lei obrigando os cinemas a darem três sessões diárias, em vez de duas, quando passassem filmes de Mazzaropi.

O Cine Art-Palácio, com 2.600 lugares, e, por tradição e economia, o balcão e a galeria ficava fechados o ano todo. Só abriam para os filmes de Mazzaropi mesmo assim, tudo aberto, Djeca ficou seis semanas em cartaz ali e em outros 21 cinemas em São Paulo em uma semana, 160 mil pessoas já haviam assistido ao filme na capital paulista.

Em três meses, só na capital paulista, Djeca rendeu 1 bilhão e meio de cruzeiros velhos.

Para o filme, Mazzaropi usou seu próprio parque elétrico (só de cabo grosso para gerador tinha quase 1 km), sua própria frota (sete carros, um caminhão, um trator para rebocar geradores), estúdios e alojamentos próprios.

Este filme alcançou a maior bilheteria do cinema brasileiro no primeiro semestre de 1970. Com isso, Mazzaropi recebeu no dia 18/10/1971 do INC (Instituto Nacional de Cinema) o prêmio de Cr$ 186.168,43, correspondentes a 10 por cento da renda do filme.

O lançamento de “Uma Pistola Para Djeca” marcou o jubileu de Prata, no Cinema, para Mazzaropi. Foi o seu 25º filme.

Mazzaropi, ás vezes, não recebia bem a imprensa. Desconfiava de tudo. Não gostava de certas críticas ou comentários interesseiros sobre sua vida privada ou sobre seu patrimônio.

Por isso, respondeu bruscamente, quando perguntado pela Revista “Veja” em 28/01/1970, sobre o que achava dos intelectuais (críticos, comentaristas e cineastas, etc.): “É fácil fulano sentar-se à maquina e escrever: Hoje estreia mais um filme de Mazzaropi. Não precisam ir ver, é mais uma bela porcaria. Mas não explica porquê. Talvez ficam com raiva, porque acreditam que só faço as fitas para ganhar dinheiro. Mas não é verdade, porque o maior de todos os juízes fugiria do cinema se isso fosse verdade – o público”.

Sua maior preocupação era oferecer ao seu público uma apresentação em forma de otimismo. Representava os personagens da vida real. Não importava se estava representando um motorista de praça, um torcedor de futebol ou um padre.

Era retratação do dia-a-dia da sua plateia. Documentava uma realidade do que construía.

E ainda sobre os críticos dizia: “Quando eu falo tanto na parte comercial, não quero dizer que só com isso que eu me preocupo. Se um crítico viesse a mim fazer uma crítica construtiva, mostrar uma forma melhor de eu ajudar o público – eu aceitaria e o receberia de braços abertos. Mas em momento nenhum aceitaria que ele tentasse mudar minha forma de fazer as fitas. Eles continuariam as mesmas, pois é assim que o público gosta e é assim que eu ganho dinheiro para amanhã ou depois aplicar mais na indústria brasileira de cinema. E, se os críticos se preocupassem menos com que ganho e mais com as salas vazias do Cinema Novo, entenderiam que cinema sem dinheiro não adiante. Que não adianta começar pondo o carro na frente dos bois”.

Apaixonado pelo circo, Mazzaropi realizou um dos seus grandes sonhos, um filme sob as tendas circenses. Foi “Betão Ronca Ferro”, rodado em 1970.

Um filme que identificou o artista com os sonhos do picadeiro.

Amácio, ás vezes, era acusado pela imprensa, de excessiva preocupação com o dinheiro. Seus filmes rendiam milhões, e ele sempre dizia que não ia aplicar em outra coisa que não em suas próprias produções, porque não acreditava no destino que as empresas oficiais dariam às suas economias. Sempre reinvestiu em cada filme novo que fazia. Ele sabia o que o povo queria. “O povo quer ir ao cinema para rir, chorar ou ver um grande espetáculo”, dizia ele.

O povo queria aquele sujeito de fala arrastada e cheia de sotaque, camisa xadrez abotoada até o pescoço, botas de cano curto e elástico, paletó apertado, caças curtas e geralmente, remendadas. Estiveram com ele em “Betão Ronca Ferro”: Geny Prado, Dina Lisboa, Dilma Lóes, Yoratan Lauleta, Gilmara Sanches, Judith Barbosa, Roberto Pirilo, Araken Saldanha, Carlos Garcia, Carlos R. Mechi, Tony Vieira, Rogério Câmara e Henricão.

O personagem que Mazzaropi interpretava nesse filme se identificava com suas atuações no Pavilhão quando iniciou sua carreira artística, indo de cidade em cidade, levando seu espetáculo andante. Sempre que podia, seus espetáculos e Shows eram realizados no circo, devido à melhor acústica, dizia ele.

Era tão grande sua paixão pelo circo que chegou a montar um circo para seu amigo Vitrolinha, o grande palhaço brasileiro. Foi no “Gran Circus Windsor”, que Mazzaropi fez muitos shows.

No circo continuou sempre fazendo Shows em diferentes cidades do País, tendo, inclusive, participado das apresentações do palhaço XUXU, Circo Garcia, Continental e muitos outros.

Já muito doente, em 1980, tinha intenção de seguir viagem excursionando com o circo de seu grande amigo Orlando Orfei, sendo impedido, devido ao agravamento de sua enfermidade.

O circo era parte integrante de sua vida. Se lhe pedissem para opinar entre um Show seu em um circo mambembe ou no luxuoso Teatro da Broadway, certamente iria preferir o primeiro.

Muitas vezes, ao se apresentar em espetáculos circenses, deixava a renda da apresentação para que o circo pudesse mudar de cidade. Ao se apresentar sob as lonas, esquecia se aquela apresentação era conveniente financeiramente ou não.

“Não faço Televisão porque não quero. Convites não me faltam. Todas as estações vivem me oferecendo salários fabulosos. Mas o que eu quero é distância delas”, falou Mazzaropi em entrevista a Waldemar Tavares de Lima em 1970 para a Revista Intervalo.


Não queria mais fazer televisão, dizendo que já era muito velho para ter patrão, pois teria que se submeter às ordens de um diretor, ou de um garoto que, provavelmente, não iria dar certo. Continuou expressando que há vinte anos vinha fazendo o caipira e se sentia tremendamente bem. Dizia ele: “Cinema para mim é isso, uma historinha fácil e bonita que todo mundo entenda e fique feliz com o que vê. Esses negócios de mensagem é para meia dúzia de pseudo-intelectuais que só se divertem vendo os próprios filmes”.

Suas produções eram para divertir o público. Para ele, a crítica intelectual, só aplaudia um cinema cheio de símbolos. Enrolado, complicado, pretencioso, mas sem público. Fazia um filme por ano, e levava em média 5 meses de preparação dos cenários. Dois meses para filmar, sem se falar da distribuição dos mesmos.

Apesar de toda segurança profissional e financeira, Amácio Mazzaropi, por várias vezes, confessava que nos últimos anos de sua vida eram um homem triste e só. No palacete no Itaim, bairro da zona sul de São Paulo, raramente era aberto para festas ou para receber amigos. Quando não estava nas filmagens, estava sempre ao lado de sua mãe. E desabafou: “Antigamente, eu era feliz. Agora tenho muito dinheiro, mas não tenho um amor. E isso me faz muita falta”.

Falando com o Repórter, Armando Salem, da Revista Veja de 28/01/1970, Mazzaropi informava que depois do primeiro filme produzido pela sua Companhia, começou a ter condições financeiras suficientes para reinvestir em outros filmes. Para ele o cinema era uma indústria como outra qualquer. Pretendia fazer cinema-indústria. Indústria brasileira, queria ele, e não exportadora. Uma indústria que fosse capaz de suprir o mercado interno consumidor para seus filmes. “Não podemos pensar em conquistar o mercado externo, se não temos nem lâmpadas aqui. Tudo que temos vem de lá. Mas, se pudermos ter uma indústria produzindo fitas nacionais, se nossas salas ficassem ocupadas por fitas nacionais, quanto dinheiro nós estaríamos evitando de mandar para fora”, dizia ele.

Dentro da mesma linha de filmagem e mantendo o mesmo tipo desengonçado do caipira, lançou em 1971: “O Grande Xerife”.

Mazzaropi sabia muito bem o que fazia. Defendia-se de qualquer acusação de repetição, e argumentava de maneira simples: “Uma única fita não dá lucro o que dá lucro é uma série delas, que se socorrem mutualmente nas bilheterias, especialmente para uma empresa que deseja melhorar cada vez mais a qualidade de suas fitas, até alcançar as de alta qualidade”. Ele era, na tela, como na vida real, um perfeito caipira. Intuía como poucos o caráter industrial do cinema e as expectativas de seu público. Assim, sabia que era uma estrela, perto de quem não importava mesmo que um ator famoso devia se reduzido à categoria de discreto coadjuvante. Cuidava de suas produções para que, em hipótese alguma, se sofisticassem, enveredando por uma linguagem mais complexa.

Ao mesmo tempo, cercava-se de certos cuidados técnicos que o cinema brasileiro não podia certamente bancar. Suas câmeras, por exemplo, marca MITCHELL, cuja precisão de imagem era imbatível, ele adquiriu-as nos Estados Unidos, sendo usadas até o último filme.

No elenco deste filme atuaram: Patrícia Mayo, Paulo Bonelli, Toni Cardi, Araken Saldanha, Paulett Bonelli, Ester de Oliveira, Rogério Câmara, Cláudio Roberto Mechi, João Batista de Souza, Wanda Marchetti, Carlos Garcia, José Matheus Índio Lopes, Argeu Ferrari, Judith Barbosa, Cagavnoli Neto, Nena Viana, Gentil Rodrigues, José Veloni, Linda Fernandes.

“O Estado de São Paulo” publicou em 19/10/1971, foto e reportagem veiculando o encontro de Mazzaropi com o Presidente Emílio Garrastazu Médici no Palácio do Planalto. Médici ficou entusiasmado com o desempenho do cômico no filme “Casinha Pequenina”, exibido no Palácio. Mazzaropi procurou o Presidente, não como artista, mas como produtor de cinema nacional. O artista pediu prorrogação da isenção do imposto sobre a importação, incidente sobre equipamentos de filmagens e filmes para produção do cinema nacional. Médici garantiu apoio ao cinema nacional para transformá-lo em indústria.

A intervenção do Presidente junto ao Ministério da Fazenda, possibilitou que Mazzaropi importasse vários equipamentos de filmagens e filmes com expressiva diminuição de tributos que incidiram sobre o comércio exterior. O comediante encontrou-se também com o Ministro Jarbas Passarinho, a quem expôs os problemas do nosso cinema.

Revendo os filmes produzidos, Mazzaropi sentiu que era hora de fazer estilos diferentes dos tradicionais roteiros já apresentados. Com a preocupação de fazer sua primeira super produção no exterior, exibindo novos cenários, dentro de uma tecnologia mais incrementada, rodou na Argentina “Um Caipira em Bariloche”, incomparável para o gênero, segundo a crítica paulista, em janeiro de 1972, quando lançava-o em São Paulo. Estava com ele nessa filmagem Beatriz Bonetti (miss Argentina), Geny Prado, Yvan Mesquita, Edgar Franco, Analú Graci, Fausto Rocha, Cláudio Roberto Mechi, Carlos Garcia, Judith Barbosa. Participação musical: Elza Soares e Paulo Sérgio.

Depois de assistir ao referido filme, um dos mais importantes críticos de cinema no Brasil, o professor Paulo Emílio Salles Gomes, escreveu que até se encabulava de procurar Mazzaropi, por não ter sabido entende-lo muito bem. E assim expôs: “ele atinge o fundo arcaico da sociedade brasileira e de cada um de nós”. E reconheceu: “O bom de seus filmes é ele mesmo”.

Outro professor universitário, o comunicólogo José Marques de Melo, escreveu: “identifico nele um ator-empresário com sensibilidade para produzir mensagens cinematográficas que se aproximam do universo cultural da população de origem rural”. Lembrou também, que a maioria das populações que enche hoje os centros urbanos brasileiros é de origem, basicamente, rural.

Tendo adquirido experiência inovadora com técnicos argentinos, fez com que, no ano seguinte, Mazzaropi iniciasse as filmagens em Portugal, a bordo do Transatlântico Eugênio C, com cenas externas em Fátima, Lisboa, Rio de Janeiro e São Paulo. O filme, como costumeiramente, foi lançado no Cine Art-Palácio em janeiro de 1974, com surpreendente sucesso e receptividade da crítica. No elenco estiveram Gilda Valença, Pepita Rodrigues, Dina Lisboa, Fausto Rocha, Ana Luiza Lancaster, Elizabeth Hartman, David Netto, atores nacionais, Adelaide João, Júlio César, Marília Gama, atores portugueses no filme “PORTUGAL...MINHA SAUDADE”. A participação musical foi de Angela Maria. Este filme foi produzido com um orçamento de um milhão de cruzeiros. Nesta produção, um vendedor de frutas, internado num asilo, acabou aportando em Portugal. E aí começa a confusão geral.

Aproveitando a viagem a Portugal, foi até Paris e Londres onde se encontrou com diversos diretores, técnicos e produtores do cinema internacional.

Férias nunca experimentava. Terminava um filme e começava a planejar outro, imediatamente. Sempre que podia, viajava muito. Procurava viajar por meios de transportes marítimos ou terrestres. Medo de avião? Certamente sim: “Meu único medo é de andar de avião”, isso porque não via segurança nenhuma desabafou para “Última Hora” em 29/07/1973.

Ele não aguentava ficar parado muito tempo no mesmo lugar. Do exterior, porém, só conheceu a Argentina quando lá esteve para filmar “Um Caipira em Bariloche” e alguns países da Europa por ocasião das filmagens de “Portugal...Minha Saudade”, e posteriormente, os Estados Unidos.

Em seus equipamentos, caminhões e uniformes de sua equipe estavam sempre presentes identificações de sua companhia, seguidos por legenda Verde-Amarela evocando “PAM Filmes - Cinema Nacional”, demonstrando sua fidelidade às coisas da terra.

Retornando ao Brasil, depois da viagem à Europa, fez “Jeca Macumbeiro”, que lhe valeu o Prêmio Campeão de Bilheteria/1974, em São Paulo, e que o fez ser capa da Revista “Embrafilme”. Foram 2 milhões 530 mil e 206 os espectadores. (Diário Popular, 21/06/81), tendo como renda Cr$ 10.573.277,84.

Em 1975, quando Mazzaropi lançava “Jeca Macumbeiro”, faziam sucesso nas telas nacionais os filmes: “Inferno na Torre”, “Aeroporto 75” e “Terremoto”, ultrapassando rendas de 10 milhões de cruzeiros.


O crítico Alfredo Sternheim da “Folha de São Paulo” reportou sobre o anuário de 1975, publicado pela Embrafilme, com informações sobre a indústria cinematográfica brasileira.

Comentou sobre o espaço possibilitado para a exibição de filmes estrangeiros e o pouco destaque ou insuficiência de produções nacionais. Observou o jornalista que enquanto em 1974 foram lançadas 74 películas de longa-metragem, em 1975 o número aumentou para apenas 79, sendo portanto uma baixa evolução. Os filmes estrangeiros adentravam facilmente ao País, devido o baixo custo de importação e conseguiam e ainda conseguem rendas impressionantes.

Radicalmente contra a intromissão de cinema alienígena, desabafou a Caco Barcelos – Movimento 05/05/1976: “Viram o Tubarão? Me dá vontade de dar um soco nos beiços do bonecão quando ele aparece com aqueles dentão na tela. Por que nós não fizemos, para o dinheiro ficar aqui mesmo?”.

Em “Jeca Macumbeiro” estiveram Jofre Soares, Gilda Valença, Selma Egrei, José Mauro Ferreira, Luiz Carlos Schoreder de Oliveira, Maria do Rocio, Jair Talarico, Felipe Levy, José Veloni, Araken Saldanha, Pirolito, Netinho.

Após as filmagens desse filme, Mazzaropi se desfez do estúdio da Fazenda da Santa e iniciou a construção do estúdio em sua nova propriedade também em Taubaté, na estrada dos Remédios, distante 3 quilômetros da cidade, com uma área de 200 mil metros quadrados.

Construiu, além de vasto e confortável estúdio, 38 apartamentos de luxo, alojamento para artistas, composto por um hotel- nível 4 estrelas, restaurantes, boate, piscinas, campo de futebol, salão de festas e convenções. Uma avenida cortou o centro do terreno, com jardim gramado e florido, envolto por um grande lago. Na parte alta, construiu uma belíssima e confortável casa, com vista para as demais dependências da Fazenda, denominada Hotel Stúdio PAM Filmes.

Em 1975, filmou “Jeca Contra o Capeta”. Do elenco, fizeram parte: Geny Prado, Néa Simões, Rose Garcia, Leonor Navarro, Aparecida de Castro, Roberto Pirilo, Jair Talarico, Jorge Pires, José Veloni, Luiz Carlos Schroder de Oliveira, Carlos Garcia, Cavagnole Neto, Macedo Neto.

O “Jeca Contra o Capeta” atingiu também grande recorde em bilheteria, que surpreendeu o próprio Mazzaropi quando falou da renda “Jeca Macumbeiro” e do prêmio recebido, achava que nunca mais atingiria rendas tão altas como as outras. Para ele foi uma surpresa agradável, após a quinta semana de exibição do filme no circuito Serrador em São Paulo, um milhão de pessoas já haviam visto a fita.

Neste filme, Mazzaropi contou a estória do caipira, o qual interpretava, envolvido na trama maldosa de uma fazendeira, numa cidadezinha do interior, tipicamente brasileira. O filho do caipira era acusado de homicídio na Comarca, mas, no final, tudo ficava esclarecido: era chantagem da fazendeira. Foi ela que matou e fez a denúncia à polícia porque, apaixonada por Mazzaropi, tentava força-lo a se casar com ela. E, no desenrolar do filme, a fazendeira se transformou em capeta. Tiveram cenas de padres lutando com forasteiros, uma enquete popular sobre o divórcio, e até Jesus Cristo apareceu conversando com o caipira. O mesmo Cristo que no fim se despediu da cidadezinha como um carroceiro num carro de hippies.

Enquanto Jeca brigava com o diabo nas telas dos cinemas paulistas, Charles Bronson e outras fitas estrangeiras tiveram que esperar a vez, com muita humildade, dizia Mazzaropi, sorridente e às vezes, debochado, porque nem mesmo ele esperava tanto sucesso do filme.

A razão desse sucesso? Isso, Mazzaropiu explicou neste depoimento: “Ninguém pode obrigar a alguém ouvir Beethoven se ele gosta de Tonico e Tinoco. Não adianta pagar caro um fino bailarino estrangeiro, bem marica no palco, que o povo larga pedrada em cima dele. O povo quer ir ao cinema para rir e chorar. Para ele tanto faz o drama ou comédia. Falo a linguagem do povo porque sou caipira igual. O público gosta de bastante sinceridade na representação. Você vê alguém na rua e olha na cara dele. Cê entende o olhar. Quem é bom não precisa de esforço. Você fala “abóbora” e o público entende sacanagem. E todos vão rir. Eu convivi muito com o povo. Sou caipira. E São Paulo é uma grande cidade de caipiras. Tem dois tipos: o estilo Jeca Tatu e o homem que fala como todo o paulista, que tem aos montões por aí. Tem gente que vai à França e depois passa a vida inteira falando da torre, na “Torre do Enfia”, eles dizem. Esse cara também é um caipira, um caipira do dinheiro. Tem outro caipira. O home  que veio do interior para ver o prédio do Banco do Estado e fica dizendo: Aí meu Deus do céu, essa geringonça vai desabar na minha cabeça. É o caipirão. Tem também outra faixa de caipira, que é a faixa dos metidos, dos sofisticados, dos metidos a bom, daqueles que querem impor o que pensam. Para esses, eu digo que o gênero humano é todo igual, que não adianta querer imposições e que eu estou cansado de ver muito advogado esnobe andando com o Tio Patinhas no bolso e depois querendo meter bronca”. “Jornal Movimento”, edição de 05/04/1976.

Sempre se preocupou com o caboclo, o caipira, e foi mudando seu temperamento, à medida em que a sociedade se desenvolvia. Antigamente, quando contava uma história ingênua, todos gostavam. Dizia-se que queria casar com uma namorada, mas o pai dela não queria, fazia sensação. Depois falava que ia dar um tiro no seu ouvido e outro no dela, para juntinhos se unirem no céu, era o maior sucesso. Com isso, filmes e roteiros tinham que ser atualizados.


Em 1977, veio o sucesso do “JECÃO, UM FOFOQUEIRO NO CÉU”, revelando a estória de um ganhador da Loteria Esportiva. Teve a participação de Geny Prado, Edgar Franco, Eizabeth Hartman, Gilda Valença, Augusto César Ribeiro, Denise Del Vechi, Rose Garcia, Dante Tuy, João Paulo Ramalho, Paulo Castelli, Leonor Navarro, Luiz Carlos Schroder de Oliveira, André Luiz Toledo, José Veloni, Pirolito.

No lançamento do filme, o trânsito foi interditado numa faixa da Avenida São João, e o Largo do Paissandu estava agitado. Havia escolas de samba, banda do interior, policiamento, emissoras de televisão, holofotes e fotógrafos em frente ao cine Art-Palácio. Houve atraso no lançamento que ocorreu em junho, quando geralmente eram feitos no início do ano. O público estava impaciente.

No filme, o comediante fez o papel de um bobalhão que ganha na Loteria Esportiva, perde o sossego, guardando dia e noite o dinheiro numa mala trancada. Ele é morto por uns capangas de um fazendeiro ganancioso e vai parar no céu. Lá encontra-se com Santo Antônio, pai Jacó, Tarzan, São Gabriel, entre outras figuras.

Alcançando os sucessos esperados em sua fatia do mercado do cinema nacional, dizia-se: “Tenho uma situação excepcional dentro do cinema brasileiro. Vejo isso pelo volume de fitas. A PAM Filmes, companhia distribuidora que é minha, tem filial no Rio de Janeiro, tem sede própria em Belo Horizonte, em Curitiba, Recife, Porto Alegre e a matriz aqui em São Paulo onde trabalham 80 pessoas. Estou inclusive adiantado em relação ao governo brasileiro, que pretende fazer um estúdio entre São Paulo e Rio. Muita gente faz cinema no Brasil para consumo próprio, e não percebe que não faz sucesso porque vive divorciada do povo. Fala uma linguagem intelectual e o povo não gosta de pensar”.

E quando falou sobre o Cinema Novo à Revista Veja em 28/01/1970, mencionou que não era contra ele, só achava que o produtor teria que decidir: ou fazia fita para agradar intelectuais (uma minoria que não lotava a primeira fileira de poltronas do cinema) segundo ele, ou fazia para o público que vai ao cinema em busca de emoções diferentes. O público simples queria rir, chorar, viver minutos de suspense.

Depois do lançamento do filme “Jecão...Um Fofoqueiro no Céu”, no Cine Art-Palácio em São Paulo, em janeiro de 1977, o crítico Orlando Lopes Fassoni, da Folha de São Paulo, escreveu que Mazzaropi não teve nenhum filme que pudesse ser inserido entre o que houve de bom no cinema nacional. Mas, que sempre vendeu seu peixe com sucesso, metido nas roupas do jecão e pregando uma falsa apologia de bondade. Para ele, Mazzaropi não passava de uma caricatura de si mesmo: um caipira que perdeu o único elemento que possuía para construir seu tipo, ou seja, a naturalidade.

E o cinema de Mazzaropi, continuou atraindo multidões. Multidões que se identificavam com os problemas colocados na tela: o trabalhador oprimido, as relações marido-mulher, pais e filhos, religião, entre outros. “JECA E SEU FILHO PRETO”, filme rodado em 1977, lançado em janeiro de 1978, abordou o problema do racismo e o aliava às diferenças sociais e culturais, que impediram um casório.

Pelo enredo, um fazendeiro rico tem um filho com uma mulher de cor e, para esconder, engana o jeca, atribuindo a ele o recém-nascido.

A mulher do caipira também estava grávida. Ao dar à luz a criança, a parteira colocou o garoto negro no mesmo berço. Vinte e dois anos depois o casal notou que o “filho” se apaixonou pela filha do fazendeiro, pai legítimo de ambos.

O fazendeiro queria impedir o casamento entre sua filha e o filho negro do jeca. Muitos diálogos ligaram as dificuldades do negro na sociedade, à pobreza, à falta de acesso à cultura.  No final, ocorre uma revelação, quando se sabe que a moça branca, professora da fazenda e o rapaz negro, namorados, são de fato semi-irmãos, resultado de uma infidelidade conjugal do fazendeiro. O fazendeiro queria impedir o casamento, não por racismo, mas devido a uma situação de consanguinidade dos noivos. Com isso, queria Mazzaropi mostrar que o brasileiro aceitava o casamento de negros com brancos desde que fosse com a filha do outro.

O crítico Jean-Claude Bernardet do “Estado de São Paulo”, descreveu que o cinema de Mazzaropi era reacionário e conservador. Baseava seus filmes em problemas reais e vividos pelo público. Segundo ele, “as importantes discussões que se desenvolvem atualmente sobre o que seja cinema popular, não podem ignorar os filmes de Mazza. Não porque sejam produtos comerciais de grande audiência, nem porque se pensaria em imitar a linguagem desses filmes e enxertar nela mensagens não conservadoras, o que seria uma tolice. Mas, porque esses filmes só têm um efeito alienante, à medida em que se comunicam com o público, a partir de seus problemas, canalizando sua tensão, dentro de uma sociedade de classe. Há muitas outras maneiras de abordar o cinema de Mazzaropi, mas desde já fica essa afirmação: O cinema de Mazzaropi é um cinema político atuante”.

Em “Jeca e seu Filho Preto” atuaram com Mazzaropi, Geny Prado, Yara Lins, Joares Dandaro, David Neto, Carmen Monegal, Elizabeth Hartman, Everaldo Bispo, André Luiz Toledo, Leonor Navarro, Rose Garcia, Denise Assunção, Augusto César Ribeiro, Ianes Lins, Gilda Valença, Jair Talarico, Luiz Carlos Schroder de Oliveira, Henricão, José Veloni, João Paulo Ramalho, Walter Luiz Mendonça, entre outros, totalizando 30 atores, com uma equipe de 12 cinegrafistas sob a direção de Benito Faccio.

Nesse filme, o comediante fez uma tentativa de mudança no seu estilo mais tradicional. Trocou o gênero “Chanchada” por um roteiro mais sério. Mostrou honestamente que havia preconceito do brasileiro em relação ao negro.

Com todos os outros, teve excelente bilheteria, mas não impediu que na fita seguinte, ele tivesse pela primeira vez, de recorrer a um título apelativo “A BANDA DAS VELHAS VIRGENS”, rodado em 1979, sendo lançado em Porto Alegre, em 1980. No filme, Jeca foi para a cadeia por causa de umas joias encontradas no lixo.

Ao longo desses anos de sucessos, Mazzaropi foi tema de um samba-enredo (Mazzaropi, sua arte e sua glória) de sambistas do Tatuapé, bairro popular da zona leste de São Paulo.

O veterano comediante recusava a assumir posições políticas. Dizia que preferia ser um bom palhaço a um político fracassado. Mas quando não estava transvestido em seus personagens (sempre caipiras desengonçados, com um toco de cigarro na boca, um andar bamboleante e um jeito entre o simplório e o malicioso), mas vestido elegantemente em sua casa, no bairro residencial do Itaim Bibi, na Zona Sul de São Paulo, não se hesitava para definir: “O povo está preparadíssimo para votar. Vota sempre no melhor. Se esse candidato depois falha, a culpa é dele não do povo”. Esse povo, ele se orgulhava de conhecer bem: “Sou como o Corinthians. Quando joga, o povo vai lá”.

“Na Banda das Velhas Virgens”, estiveram com Mazzaropi, Geny Prado, Renato Restier, André Luiz Toledo, Cristina Neves, Marcos Wainberg, Heloísa Raso, Gilda Valença, Denise Assunção, Aparecida Baxter, Felipe Levy, Paulo Pinheiro, Will Damas, Augusto César Ribeiro, Roberval de Paula, Crisógenes Faria, José Minelli Filho.

“O Mazza era uma grande alma voltada para o trabalho. Foi o maior ator de nosso País em todos os tempos. O mundo artístico deve muito ao Mazza. Aprendi com ele que tudo deve ser feito com amor e respeito ao público. Ele jamais será esquecido pelo seu público”. Este foi o depoimento de José Valoni, em dezembro de 1985. Veloni atuou com o comediante em vários filmes.

Paulo Pinheiro, um dos atores que participou desse filme, falou sobre sua convivência com Mazzaropi: “Eu tinha terminado de gravar a novela A Sucessora, quando fui convidado a participar do Mazzaropi, ele me disse com aquele jeitão: ‘Olha, você vai me desculpar, mas eu não gosto muito de televisão não, pois ela matou o cinema’. Não estranhei porque sabia, como todos os brasileiros, o grande amor que o Mazza tinha pelo cinema brasileiro. Fiz mais um filme com o Mazzaropi, “Jeca e a Égua Milagrosa”, precisamente o último e histórico filme. Trabalharia em outros mais, se houvesse tempo e oportunidade, porque pra mim foi uma honra e um privilégio ter trabalho, convivido e conhecido uma figura tão dedicada e única em seu gênero que o nosso cinema teve. Ele vai fazer parte das nossas saudades eternas. – Paulo Pinheiro – Rio, 30/11/1985.

Alguns críticos do cinema diziam que ele era o representante do clássico provincialismo paulista.

Alguns meses antes de falecer, o comediante já estava com o roteiro de seu novo filme, que não chegou a iniciar. Era “O Jeca e a Maria Tromba Homem”, onde iria contracenar com a atriz Tônia Carrero. Deixou o projeto pela metade, na certeza de que Péricles, seu filho, o concluiria, embora este reconhecesse o que disse o professor Paulo Emílio Salles Gomes: “O melhor filme de Mazzaropi é simplesmente ele próprio”.

No leilão para arrematação do montante de bens móveis e imóveis deixados por Mazzaropi, havia um cenário, um grande “Saloon”, construído em novembro de 1980 para o referido filme, que não chegou a ser utilizado.

Com glórias, sucessos e bem posicionado financeiramente, Mazzaropi não gostava de informar à imprensa sobre o que fazia ou deixava de fazer com os lucros registrados nos sucessos de seus filmes. Quando perguntado por Armando Salem, da Revista Veja em 28/01/1970, sobre cifras e dinheiro, respondeu enfaticamente: “Acho que dinheiro não traz felicidade na vida. Tá certo que ajuda, mas em compensação, quem tem, além de viver intranquilo, passa a ter desconfiança em vários setores da vida. Quem tem dinheiro sempre duvida de quem se aproxima, não se sabe se é amigo ou se vem dar uma mordida”. E continuava, de maneira irreverente: “Mas, por que vocês se preocupam tanto com o que eu ganho? Vão perguntar pro Pelé, que marcou mil gols. Ele é muito mais rico que eu. Tudo que tenho em meu nome é a casa onde moro. O resto está em nome da PAM Filmes”. Concluindo, expôs: “E depois vêm esses críticos de cinema metidos a intelectuais, dizendo que estou cheio de dinheiro. Não são capazes de entender que faço cinema como indústria”.

Amado pelo povo, esnobado por alguns, esquecido por poucos, criticado por outros, ele se incorporou, seja qual for a opinião a respeito, ao universo da cultura popular brasileira.

Ao falar ao jornalista José Wolf – da “Folha de São Paulo”, em 1978, o comediante respondeu, quando perguntado sobre a possibilidade de se candidatar como político: “Eu não teria capacidade para dirigir parte dessa árvore que é o País. Acho que para dirigi-lo é preciso muita capacidade. Existem homens preparados. Eu não estou. Então, o que vou fazer na política? O próprio povo iria dizer que eu sou engraçado na tela, o que vou fazer no Senado ou na Câmara Federal?”.

Mazzaropi, em suas quase três décadas de cinema, fez 32 filmes, a maioria produzida por ele mesmo.

Praticamente não permitia a exibição de nenhuma de suas obras pela televisão para não desgastar sua imagem diante do público fiel, estimado em quatro milhões de pessoas para cada um de seus filmes.

Como todo caipira, era precavido. Acumulou riquezas. Seu temperamento concentrador impediu que legasse a alguém tudo o que construíra. Mazzaropi era tão concentrador, que mesmo depois da fama e da riqueza, quando começou a contratar os melhores profissionais para a realização de seus filmes, continuava discutindo tudo, desde os cenários até as tomadas de câmera. Enfim, iniciava as filmagens pela manhã e participava até o fim da noite, quando os técnicos discutiam o que fariam nos dias seguintes. Com esse temperamento, não ensinou ninguém os seus segredos.

Fazia tudo: autor da história, roteirista, ator principal, diretor, produtor, distribuidor e até chefe de fiscais. Ás vezes, ia pessoalmente fiscalizar o número de assistentes nos cinemas. Examinava semanalmente o placar dos cinemas que levava seus filmes. Decidia pessoalmente as grandes coisas e as pequenas.

E, em verdade, conhecia o público de cada cinema importante do Brasil. Se uma casa sempre lhe deu boas rendas apresentava um borderô baixo, ia procurar a razão. Podia ter chovido aquele dia, mas podia ter sido um borderô frio.

Se ficasse sabendo que no meio do filme vaiavam alguma coisa, ele ia escondido assistir à sessão para ver o que havia. Se fosse trecho de música mal colocado, ou uma pequena falha, mal recebida, ele recolhia o filme, mandava cortar pedaço.

Publicado originalmente em OLIVEIRA, Luiz Carlos Schroder. Mazzaropi- A Saudade de Um Povo. Londrina: CEDM Editora, 1985.