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quinta-feira, 3 de fevereiro de 2022

Boca do Cinema por Tony de Sousa, parte IV de IV: Conhecendo o velho Ozu

 Por Tony de Sousa

Muitas produtoras ficavam instaladas no edifício Soberano localizado na rua do Triunfo, 134. Foto: Matheus Trunk

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Quando já não aguentava mais a história de passar o dia na base de média e pão com manteiga, juntei meus últimos trocados, fui ao Restaurante Soberano na Rua do Triumpho e pedi um comercial. O garçom, o Alcides, trouxe uns pãezinhos e uma lata de azeito e colocou sobre a mesa. Perguntou o que eu queria beber. Pedi uma Coca-Cola bem gelada. O cara trouxe a salada e eu ignorei. Fiquei esperando chegar a sustança: arroz, feijão, ovo frito e bife. Enquanto isso fui molhando o pão no azeite, comendo e tomando Coca-Cola. Finalmente o cara trouxe o que interessava. Que prazer indescritível saborear o feijão com arroz regado a azeite, passar o pão no ovo frito, comer um pedaço de bife!...

Estava nesse exercício gastronômico quando apareceu o velho Ozu e sentou-se à minha mesa.

“Tá fazendo algum filme?”

“Por enquanto não.”

“É que geralmente quando o pessoal chega aqui e pede um a refeição completa todo mundo acha que ele tá na equipe de alguma fita.”

Ficou me olhando um tempo, impressionado com o meu apetite.

“Não vai comer a salada?”

“Não. Vou ficar na sustança.”

“Posso pegar?”

“Claro.”

Ele colocou um monte de azeite no alface e nas rodelas de tomate e começou a comer, pegando com a mão mesmo.

“Você é de que lugar do Nordeste?”

“Rio Grande do Norte.”

“Terra do sal, carnaúba. Dizem que encontraram petróleo lá. É verdade?”

“Eu ando desligado do que acontece na minha terra. Tô meio por fora.”

Ele ficou me olhando em silêncio por algum tempo e imagino que naquela fração de segundos tenha inventado a história que virou lenda na boca do cinema, que dizia que eu era filho de um rico latifundiário do Rio Grande do Norte e vivia ás custas do dinheiro da minha família. Enquanto viveu não consegui tirar de sua cabeça essa história. Aproveitei o silêncio dele para atacar.

“Gosto muito dos seus filmes”

“Você já viu algum?”, perguntou-me meio incrédulo.

“Claro!”

“Qual?”

“A Miragem, A Vingança, Zé Nada, Meu nome é Zé...”

Fez cara de quem estava duvidando e perguntou:

“E o que que você achou?”

“O Zé Nada é genial. Você radicaliza em tudo. Na linguagem, na abordagem do tema, na estética. Suas imagens possuem uma força expressiva impressionante. E esses caras que você usa, nem atores nem nada, mas estão muito convincentes. Lembra um pouco o método de Bresson. Não é pra puxar o saco não, eu prefiro os seus filmes aos filmes dele.”

O velho ficou boquiaberto. Mas como era muito desconfiado, continuou me testando.

“De que outra fita você gostou?”

Aí eu despejei de uma vez:

“Bom, A Miragem é um filme de imagens. Dá para perceber que quem o fez assimilou bem as lições dos mestres no cinema russo: Kulechov, Pudvkin, Eisenstein. Lembra um pouco o universo de Fellini, de Pasolini da fase neorrealista, mas tem uma expressividade própria. Identifiquei alguma coisa de Limite, de Mário Peixoto. Não sei se foi coincidência ou proposital. Já Meu nome é Zé é um far-west caboclo, que, assim como A Hora e a Vez de Augusto Matraga, de Roberto Santos, consegue se livrar dos estereótipos dos filmes americanos do gênero. A Vingança é uma adaptação muito feliz do universo Shakespereano para a realidade brasileira”

Ele agora não tinha dúvida de que eu havia mesmo assistido aos filmes e que tinha uma opinião a respeito. Aproveitei sua perplexidade para perguntar:

“Quando você vai fazer uma nova fita?”

“Quando aparecer dinheiro. Tô com uma parada na metade. Minhas fitas eu faço assim: apareceu um pouco de dinheiro eu filmo uma parte, acabou o dinheiro eu paro.

“Por que não pede um financiamento pra Embrafilme?”

“E você acha que eles me dão?”

“Por que não?”

“Eu vivo metendo o pau neles. E tem outra, minhas fitas tem uma série de elementos que incomoda muito essa gente”

“Não custa tentar”

“Você conhece alguém de lá?”

“Não, mas posso me informar como funciona”.

“Tá. Vê lá. Se você acha que eu tenho alguma chance, vamos tentar”.

 

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Fui ao escritório da Embrafilme, na Rua Vitória, e descobri que havia duas linhas de financiamentos disponíveis. Uma para finalização e outra para produção. Ainda me incrédulo da possibilidade de conseguir alguma coisa com a Embrafilme, o velho Ozu me falou:

“É o seguinte: tem um monte de burocracia aí que eles exigem: roteiro, orçamento, não sei o que mais lá. Um monte de papel. Você topa fazer isso aí pra mim?”

“Faço”.

“Só que eu não tenho dinheiro pra te pagar. Se sair o tal do financiamento a gente acerta. Pode ser assim?”

“Você me coloca na equipe como seu assistente e me paga a tabela do sindicato?”

“Tá certo”

“Nesse período de preparação da papelada não dá pra siar nem um comercialzinho no almoço?”

“Só seu arranjar um sócio. Estou sem grana nenhuma. Faz o seguinte: venha aqui comigo”.

Levou-me até o 134 da Rua do Triumpho, um pequeno prédio onde funcionava, na parte debaixo a distribuidora Poli Filmes e, no primeiro andar, o escritório do Mário Mago. Subimos até o segundo andar. Daí me apresentou a um cara baixinho, bigodudo, chamado Davero.

“Davero, esse cara aqui conhece um esquema pra arrumar grana da Embrafilmes pras minhas fitas. Só que eu preciso de uma produtora com a papelada em ordem. Você topa ser meu sócio?”

“Vamos lá”

Sua firma tá em ordem?”

“Tá. Que você precisa?”

“Tem um monte de papel aí que a Embrafilme exige, o Antoninho vai falar pra você. Tem mais uma coisa. Ele vai precisar datilografar uns troços aí na tua máquina. Roteiro, orçamento, currículo meu e da produtora...O que vai ser duro é o tal de roteiro. Você sabe que eu não faço roteiro para minhas fitas. Vou ter que passar uns rascunhos aí para ele datilografar”.

“Tudo bem”.

“Tem uma última coisa. Enquanto ele fez esse trabalho aí, você tem como pagar um rango pra ele lá no Serafim?”

Davero afiou o bigode, fez pose de produtor e perguntou:

“Quanto tempo você calcula que vai levar pra fazer tudo?”

“Umas duas semanas”.

“Tá feito. Vamos lá. O importante é que saia a grana”.

 

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Começou então a minha peleja com o velho Ozu para conseguir material para montar os roteiros. Ele ia me trazendo aos poucos umas anotações que havia feito nos mais variados tipos de papel. Pedaços de jornal, saquinhos de padaria, papel almaço, bilhete de loteria, papel rascunho...

Eu precisava montar dois roteiros. Um para um filme chamado As rosas do caminho e outro para o filme O Jagunço.

As anotações dele eram do tipo: “fulano encontra sicrano na estrada”. “Jagunço atrás de um toco espera a hora de apertar o gatilho”. “O cara que o Jagunço vai matar entra em quadro”. “Borracheiro está trabalhando e mata Rosa. Fala com ele”.

Em nenhuma das anotações que me passava havia diálogo.

“Escuta, desse jeito tá difícil montar os roteiros”.

“É assim que eu faço minhas fitas. Não escrevo o roteiro”.

“Pois é, mas a Embrafilme exige que tenha um roteiro prévio. Não só isso. Que seja feita uma análise técnica do mesmo. Relação dos personagens e tudo mais”.

“Eu sabia que ia ser foda isso aí. Vou ter que inventar. Depois mudou tudo!”

Eu aproveitava essa demora do velho em que me entregar as coisas para dar uma embromada, sem que Davero percebesse. Fingia que tava datilografando o roteiro e escrevia uns troços qualquer lá. Uma ideia para um curta-metragem. Um jovem cineasta tentando fazer o seu primeiro filme. Até chegar a hora do almoço e ir comer o comercial delicioso do Serafim.

 

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Meu irmão Saulo, amigo do pai de Linda Lindiane, falou-me que ela andava reclamando do meu sumiço. Ele tinha sido responsável pelo nosso primeiro encontro, quando lhe falou de um irmão que era ator estava com uma peça em cartaz. Ela foi assistir à peça e, após a apresentação, procurou-me no camarim e apresentou-se. Ficamos conversando um tempão.

Depois ela voltou outras vezes e me encantei com o sorriso dela, com o nome que traduzia exatamente o que ela era. E houve aquela vez no cinema, quando peguei na mão dela, quando senti o choque da química do amor se formando. Aquele encontro que custou o meu emprego de fiscal de porta de cinema. E o meu sumiço da sua vida para me refugiar no mundo dos “perseguidores de fantasmas”.

Então Saulo convidou-me para irmos juntos à casa dela. No caminho, falou-me que seu amigo, o coronel Linduarte, estava se aposentando e indo morar no Nordeste. Os filhos dele, dois rapazes e duas garotas estavam em crise e não sabiam se o acompanhariam. No caso dos rapazes era provável que ficassem mesmo em São Paulo. Já as garotas, Linda Lindiane e Linda Helena, o coronel não permitiria que ficassem.

Quando chegamos à casa do coronel, um sobrado na região do Jabaquara, ficamos sabendo que ele e a esposa haviam viajado. Linda Lindiane estava lindamente linda. Havia preparado um jantar para nos receber. Fiquei conhecendo os dois irmãos dela, Edson e Hudsom dois caras bem legais, e a irmãzinha mais nova, Linda Helena.

Conversa vai, conversa vem, jantamos. Depois da janta, os dois rapazes se despediram e saíram. Meu irmão Saulo ficou mais um tempo e disse que também estava indo embora. Eu quis pegar uma carona com ele, mas Lindiane insistiu para eu ficar mais um pouco. Não tive como dizer não. Como já falei, eu andava caído por ela fazia algum tempo, mas quando analisava minha situação de “perseguidor de fantasmas” ficava receoso de assumir qualquer compromisso sério com uma garota. Ainda mais ela, filho de um amigo do meu irmão, que me tinha em grande conta. Então, quando ela veio me falar que não queria ir para o Nordeste e estava pensando o que faria, eu entendi que estava me questionando sobre o futuro do nosso relacionamento. Falei com a maior sinceridade:

“Linda Lindiane, você é a garota dos meus sonhos, mas infelizmente não posso assumir um relacionamento com você”.

“Por quê?”

“Porque já sou um home compromissado”.

“Você já tem namorada?”

“Pior que isso. Sou casado”.

“Nossa! Seu irmão nunca me falou que você era casado”.

“Mas eu sou”.

“Qual é o nome da sua esposa?”

“Cinema”.

“O quê?”

“Isso m mesmo. Sou casado com o cinema”.

“Ah, para de me gozar”.

“É sério. Jurei amor eterno ao cinema”.

Ela descontraiu, pois havia ficado muito tensa e indignada quando falei que era compromissado. Aí, continuamos a conversa num nível mais explícito. Falei que o meio artístico era uma incógnita, que um cara podia ficar a vida inteira perseguindo algo de que nunca se materializaria, como um garimpeiro em busca do ouro ou da esmeralda. Que eu não queria expor ninguém a esse risco, etc, etc, etc, um papo já manjado, mas bastante sincero.

Ficamos conversando até tarde. A irmã dela foi dormir. Minhas mãos brincaram com os caracóis do cabelo dela. Alisaram a pele macia do seu rosto. Nossos lábios visitaram-se várias vezes. Quando a coisa estava evoluindo para o incontrolável, pulei do sofá.

“Nossa como é que vou fazer para chegar no Tucuruvi? Já passa da meia-noite!”

“Dorme aqui”.

“Tá louca?”

“Eu não vou deixar você sair a essa hora não!”

“Já pensou se seus ais chegam e me pegam dormindo aqui?”

“Que é que tem? Você é irmão do maior amigo do meu pai”.

“Isso não quer dizer nada. Sozinho aqui com você e sua irmã menor?”

“Daqui a pouco meus irmãos chegam”.

“Então vou esperar eles chegarem e vou embora”.

Ela subiu até o andar superior e voltou com um lençol e um travesseiro.

“Pode dormir aí sossegado. Eu falo para os meus pais que você perdeu o metrô”.

“De jeito nenhum! Vou só esperar eles chegarem e vou embora”.

“Pode ser que eles demorem”.

“Então é melhor eu ir embora logo”.

“Pode ser que só retornem amanhã”.

Disse isso e foi subindo em direção ao andar superior.

“Boa noite”

Fiquei com cara de idiota. Só pensava no que poderia acontecer se os pais dela chegassem de repente e me vissem ali. Ou mesmo os irmãos. Podiam ter uma reação inesperada.

Demorei a me estender no sofá e relaxar. Deixei a luz acesa por precaução. Não tive coragem de tirar nem a camisa. Tirei apenas os sapatos. Para todos os efeitos, estava ali esperando os rapazes chegarem. Afinal de contas, não era correto deixar as duas garotas sozinhas. Só que os caras não chegavam. Então, cochilei e tive o seguinte pesadelo: eu era atraído por uma curiosidade incontrolável de ir ver como era a parte de cima do sobrado. Começava a subir as escadas vagarosamente, sempre de olho na porta de entrada, e ao chegar no último degrau da escada, via uma luz acesa em um dos quartos. Seguia naquela direção. Pelo jeito, era o quarto do casal, do coronel e da mulher dele. Prendi a respiração e olhei discretamente para dentro do quarto. Iluminada pela luz do abajur, vi a figura de Linda Lindiane totalmente nua sobre a cama. Ela estava de olhos fechados e não dava para saber se dormia ou estava fingindo. Perdi totalmente o controle. Fui entrando apressado no quarto, sentei-me ao lado dela na cama e comecei a acariciar o seu corpo. Ela abriu os olhos e sorriu. Tirei a minha roupa e deitei-me ao lado dela. Começamos um corpo-a-corpo, que foi evoluindo para uma ginástica feroz, uma batalha interminável. Até que ouvi um barulho de porta se abrindo no andar debaixo. Pulei da cama, tentei vestir minha roupa, mas não conseguia acertar para enfiar as mãos nas mangas da camisa e os pés na calça. Sai correndo nu mesmo, com a roupa na mão, e bem na descida da escada me deparei com o coronel de arma em punho.

“Te peguei ladrão safado!”

E disparou vários tiros. Senti claramente as balas penetrarem em meu corpo e o sangue começar a escorrer.

Dei um pulo do sofá. Estava completamente molhado de suor. Fiquei um tempo escutando as batidas do meu coração que parecia querer sair pela boca. Um silêncio enorme em toda casa. Não sei por que comecei a calçar os meus sapatos. Talvez fosse mais prudente mesmo ficar aguardando os caras chegarem. Eu estava sem relógio, mas calculei que fosse umas duas horas da madrugada.

Meu pânico foi aumentando e comecei a achar que o melhor seria dar um jeito de sair logo dali. Olhei em direção à porta de entrada e não vi sinal de chave na fechadura. Com muito cuidado fui lá conferir se estava trancada. Estava. Comecei a analisar a minha situação. Eu ainda não havia entrado para o Partido Comunista, mas era simpatizante de grupos de esquerda. Sabia das torturas, das mortes e perseguições a esses grupos, por parte dos militares. Embora meu irmão falasse maravilhosas do coronel Linduarte, pai da Lindiane, eu tinha convicção de que ele não iria deixar barato se chegasse naquele momento em casa e se deparasse com aquela situação: um cara em plena madrugada sozinho com suas duas filhas dentro de casa. Sendo uma delas menor de idade. Não tinha nada a ver com o fato de eu ser de esquerda. É que aquilo não tinha cabimento. Se eu estivesse no lugar dele tomaria uma atitude.

Fui conferir a porta dos fundos e, para o meu alívio, a chave estava na fechadura. Destranquei cuidadosamente a porta e saí para o quintal. Havia um muro de uma altura razoável que dava para rua. Refiz meus cálculos de horário. Devia ser umas quatro horas da madrugada. Não havia uma única luz acessa nas casas vizinhas e a rua estava totalmente vazia.

Com dificuldade, consegui pular o muro, morrendo de medo de se surpreendido por alguém, confundo com um ladrão ou coisa que o valha.

Ao me ver na rua deserta, comecei a correr desesperadamente. Fui seguindo na direção da Avenida Jabaquara. E enquanto corria, lembrei-me da cena de um filme, no qual o mocinho está tentando escapar do vilão correndo o pé em câmera lenta, e, quando parece que vai conseguir, o vilão aparece num atalho bem na frente dele e lhe dá um chute no estômago. O mocinho cai de joelhos e o bandido lhe dá muitas porradas. Lembrei também de um final de ano em que meu amigo Armando decidiu correr na São Silvestre. Eu fiquei esperando ele passar na subida da Avenida Consolação, com um copo d´água na mão, e já estava quase desistindo, achando que ele havia me enganado, quando de repente ele aparece no meio da multidão de corredores. Acenei para ele, que veio na minha direção, pegou o corpo d´água, bebeu um pouco, e jogou o resto na cabeça e continuou correndo. Lembrei-me ainda de quando estava na Aeronáutica e participava de um treinamento de guerra, num tal de “pelotão do cão” e tinha que correr vários quilômetros todos os dias. Havia momentos em que eu achava que não ia mais aguentar, que as penas não obedeciam mais o comando do cérebro, e de repente, aparecia não sei de onde, um fôlego novo, e eu já não comandava meus movimentos, parecia que flutuava, que estava sendo transportado por uma força misteriosa que vinha de mim, mas não parecia que era eu.

E assim cheguei à Avenida Jabaquara, que estava totalmente vazia e fiquei andando de um lado para o outro, perto de um ponto de ônibus, tentando recuperar o fôlego e controlar o tremor de minhas pernas. Lá pras tantas passou um ônibus circular e eu o tomei. Desabei na cadeira e adormeci. Fiquei zanzando nesse ônibus até o metrô começar a funcionar.

 

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O prazo de duas semanas para datilografar os projetos do velho Ozu passou rapidinho. Cheguei à produtora de Davero com dois calhamaços. Ele e Ozu deram uma olhada nos orçamentos e ficaram impressionados com os valores. Os orçamentos de filme de longa-metragem na Boca, em média, giravam em torno dos 100 mil dólares. Havia produções mais elaboradas, mas mesmo essas produções chegavam no máximo a 300 mil dólares. Na maioria dos casos o cara recebia parte dessa grana como um adiantamento de um exibidor que virava sócio do filme. Eu havia chegado a um orçamento de 300 mil dólares apenas para a finalização do filme As rosas do caminho. Já O Jagunço ficou em um milhão de dólares.

O velho Ozu me perguntou incrédulo:

“Você acha que eles vão aprovar isso aí? Não é melhor diminuir um pouco?”

“Eles vão aprovar, sim. Eu não inventei nada. Tirei tudo das tabelas de preços”.

“Eu duvido! Mas se vocês quiserem mandar assim...Eu acho que isso aí não vai dar em nada”.

Fui até a Embrafilme com toda papelada e protocolei os dois projetos. Aí ficamos em compasso de espera. O velho Ozu sempre cético quanto à possibilidade de sair dinheiro da estatal para os seus filmes, mas muito simpático comigo. Só que, para mim, dinheiro não pintava. E eu continuava com aquela pendência com Eligê. Cheguei pro Davero e falei:

“Você não tem nada aí que me renda uma grana? Preciso arranjar um dinheiro meio urgente”.

Ele me levou até uma área, uma espécie de guarda-tudo, e retirou de uma prateleira onde havia várias latas de filmes meio enferrujadas, umas caixas com fitas de gravação magnética e me mostrou:

“Sabe o que é isso?”

Estava escrito nas caixas: “Magnético 17,5”.

“Esse é o tal magnético 17,5?”

“Isso mesmo! Só que esse magnético já foi usado. Tem gente que compra magnético recuperado. Se você quiser, eu te ensino a fazer a recuperação. Depois você vende, dá uma parte da grana pra mim e fica com o resto”.

Eu não tinha muita alternativa no momento. Aceitei a tarefa. Ele montou uma traquitana sobre uma mesa, pegou umas luvas e começou a me mostrar como fazia a coisa.

“É bom trabalhar sempre com luva. Tem gente que nem usa luva, mas é errado. Ah, já conhece a coladeira?”

E me mostrou um negócio com uns pininhos para encaixas as perfurações do magnético e uma lâmina bem no meio para cortar o magnético ou filme, e em uma das extremidades um rolo de fita adesiva transparente.

“É assim que se faz: os trechos muito curtos você descola com cuidado e joga fora. Deixa só os pedaços mais longos. Vai emendando um no outro assim”.

E me mostrou como usava a coladeira. Como se cortava e emendava um pedaço de magnético no outro pregando com fita adesiva.

“Esses trechos escuros que você tá vendo é silêncio. Tem que tirar tudo fora”.

Dei uma olhada e percebi que os trechos que ele chamava silêncio, eram na verdade, copiões de filme 35mm cortado ao meio.

“Isso aqui é uma invenção de brasileiro. Lá fora, nos Estados Unidos, eles têm material apropriado para fazer silêncio. Você sabe por que se chama silêncio, não é?”

“Eu tenho as minhas suposições. Não sei se é o que estou imaginando”.

“É o seguinte: quando o montador tá fazendo as pistas de som para mixar o filme, tem trechos de diálogos, trechos de música, trechos de ruídos e trechos que é só silêncio. Não tem som nenhum. Nesse trecho se coloca uma ponta de filme que a gente chama de silêncio. Depois, na mixagem, mesmo esses trechos acabam passando por um processo de colocação de som ambiente. Ás vezes usamos também isso que chamamos de silêncio para um trecho de filme que ainda não temos o som definido”>

E assim fiquei alguns dias nessa tarefa de recuperar magnético. Quando terminei, Davero examinou se as emendas bem feitas e elogiou o meu trabalho.

“Se você quiser, eu te pago tudo (falou uma quantidade ridícula que não lembro quanto era, mas pelos meus cálculos no máximo para pagar uns três almoços no Serafim). Ou você sai por aí, oferecendo aos montadores. Pode ser que consiga bem mais. Aí me dá uma parte do valor que você conseguir vender”.

Para não esticar muito a história, peguei o valor que ele estava me oferecendo, e fiquei torcendo para que a Embrafilme não demorasse muito a responder a proposta que havíamos feito para os filmes do velho Ozu.

 

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Voltei ao velho esquema da média e pão com manteiga, das noites inteiras na rua, das brigas de gato e rato com Eligê. Fiquei quase uma semana sem aparecer na Boca. O problema é que Eligê estava sempre por lá e eu não tinha mais argumentos sobre o dinheiro do aluguel. Enquanto estava fazendo as coisas na produtora de Davero, falei para ele que iria receber uma grana pelo trabalho. Só não falei quando essa grana sairia, se é que iria mesmo sair.

Nesse período, voltei a frequentar o Museu Lasar Segall todas as tardes. Havia uma garota lá, de uns olhos azuis muito intensos, pele muito branca e cabelos encaracolados. Não sei exatamente qual era a função dela, mas sei que fazia de tudo um pouco. Era recepcionista, orientava sobre a pesquisa dos livros, ia buscar os livros que pedíamos através de uma requisição com os dados extraídos de uma ficha catalográfica de uns arquivos. Foi ela quem me apresentou aos mestres do cinema russo.

“Aqui você tem uma versão em espanhol de O Tratado da Realização Cinematográfica, de Leon Kulechov, O Ator no Cinema de Pudovkin, O Diretor e o Roteiro, também de Pudovkin, O Sentido do Filme, A Forma do Filme e Reflexões de Um Cineasta de Eisenstein de Eisenstein. Nascimento do Cine-Olho, de Dziga Vertov”.

Comecei pedindo Reflexões de Um Cineasta de Eisenstein e O Ator no Cinema de Pudovkin.

Essa garota que atendia no Museu Lasar Segall, toda vez que me trazia os livros, olhava-me com aqueles olhos azuis lindos e sorria um sorriso tímido, e eu um jovem carente, não tinha como não me apaixonar. A história toda com Linda Lindiane resultou que ela ficou muito decepcionada com a minha fuga naquela noite, resolveu definitivamente ir morar no Nordeste e nunca mais nos vimos. Então, durante essa semana em que eu ia todas as tardes à biblioteca do Museu Lasar Segall, apaixonei-me perdidamente por Sarita Maciel. Era esse o nome da garota. É claro que, como quase todas as minhas grandes paixões, era uma paixão platônica. Mas decidi declarar meu amor numa carta que escrevi e que acabei não tendo coragem de colocar no correio. A carta dizia o seguinte: “Querida Sarita. Durante uma semana tenho me alimentado do azul brilhante dos seus olhos e da doçura do seu sorriso. Sou um jovem artista em início de carreira. Poderei vir a ser um dos grandes. Um Tarkovsky, um Antonioni...Por que não? Todo grande artista teve atrás de si uma grande mulher. Conhece a história de Dali e Gala? O pintor espanhol não era nada até aparecer na vida dele a russa Elena Ivanovna Diakinova, então mulher do poeta surrealista Paul Elard. Dali a arrebatou das mãos do poeta, e ela se transformou em Gala Dali, que por sua vez transformou as obras do espanhol excêntrico em ouro. Pode ficar certa de que se eu for famoso não me comportarei como Dali, que virou um alienado, um dedo duro. Entregou seu amigo Buñuel ás autoridades americanas acusando-o de comunista. Numa época em que isso significava ser perseguido, correr risco de morte. Foi tolerante com as ditaduras de Hitler e Franco. Continuarei um revolucionário. Romântico, como Che Guevara. O que eu estou propondo, minha querida Saita é que você aceite ser a minha Gala. Que transforme meu talento em ouro. Do seu eternamente apaixonado, Antoninho Silva”.

Ao longo dos anos que continuei frequentando o museu, sempre que ia lá perguntava por ela. Tenho a impressão que muitas vezes fui lá apenas para vê-la. E ela sempre aparecia, ás vezes quando eu já nem estava mais esperando, pensando que ela nem trabalhava mais lá. Talvez fosse minha imaginação que a fazia aparecer entre as prateleiras de livros, sorrindo seu sorriso tímido, com seus olhos azuis já menos brilhantes, mas intensos o suficiente para me embriagar.

“Precisa de ajuda?”

“Obrigado. Você já me ajudou mais do que possa imaginar.

Essa segunda frase eu não falava. Ficava apenas no “obrigado”.

 

Publicado originalmente em Sousa, Tony. Boca do Cinema. São Paulo: LCTE Editora, 2012.

 

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

Boca do Cinema por Tony de Sousa, parte III de IV: Vivendo (na dureza) em São Paulo

Por Tony de Sousa

Detalhe da Catedral da Sé, marco-zero da cidade de São Paulo. Foto: Matheus Trunk


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Os primeiros documentários que fiz com Salim foi para uma fábrica em Ribeirão Pires. Saíamos cedinho de São Paulo e pegávamos a Rodovia Anchieta ainda repleta de neblina numa camionetezinha que ele tinha.

Para adiantar a coisa, Salim combinou que na noite anterior ao dia que fôssemos filmar eu dormisse na casa dele que ficava na região da Vila Mariana. A casa de Eligê, como já falei ficava perto do Horto Florestal, na zona norte, do outro lado da cidade. Para chegar cedinho na casa de Salim, vindo do Tucuruvi, eu teria que acordar 4 horas da madrugada. Então armamos esse esquema: eu encontrava com ele na loja no final da tarde, pegávamos o equipamento e levávamos para casa dele. A casa era um sobradinho antigo numa ruazinha bem tranquila que agora não lembro o nome. Havia um murinho na frente, onde ele improvisou a garagem. A mãe do Salim, Dona Zena, uma senhora muito simpática, cozinhava maravilhosamente bem. Além do Saul, que era casado e morava em outro lugar, Salim tinha uma irmã, a Zélia que tinha síndrome de Down. Ela era uma pessoa super simpática. Dona Zena e Salim a tratavam com o maior carinho e ela tinha umas sacadas incríveis. Decorou o meu nome e sempre que eu chegava, dizia:

“Chegou Antoninho, o homem da câmera.”

Aí Salim para tirar sarro dizia: “Não fale assim que ele pode se ofender. Ele é um cineasta!”

“Chegou Antoninho cineasta. O homem câmera”

E Salim rebatia:

“O homem com uma câmera!”

E ela repetia:

“O home com uma câmera!”

“Dziga Vertov.”

Ela tentava pronunciar o nome do cineasta russo e não conseguia. Todos ríamos, inclusive ela.

Salim, com a maior paciência espelhava o equipamento no meio da sala, desmontava a câmera e ia me ensinando como limpar as lentes da câmera, como encaixá-las, como carregar o chassi, como encaixar a perfuração do filme na grifa, como fazer o foco, como lidar com os refletores...Enquanto isso, dona Zena preparava a tradicional comida árabe, umas coisas deliciosas que só ela sabia fazer.

No local de filmagem, depois de montar a câmera, Salim me pedia para fazer a luz. Eu havia aprendido umas coisas básicas, observando os fotógrafos dos filmes que eu participei, e sabia um pouco como iluminar, mas tudo ali era muito precário. Acho que nem fotômetros tínhamos. Nem filtros, nem como rebater a luz. Tínhamos que trabalhar com luz direta. As máquinas e os tornos mecânicos brilhavam pra caramba. O resultado até que ficava razoável.

Salim montava o material na loja, usando um projetor 16. Ele não tinha moviola. Eu acompanhava a montagem com a maior curiosidade. Enquanto isso, preparava o texto para locução, extraído dos manuais que a fábrica havia nos fornecido e das conversas que havíamos tido sobre o que seria importante ressaltar no documentário. Na sequência, íamos ao estúdio de som gravar a locução. Depois ao laboratório revelar o som, montar o negativo e tirar as cópias. Um grande aprendizado. Melhor do que uma escola de cinema.

 

12

 

Eu estava gostando muito da experiência de mexer com câmera. Fiquei muito amigo do Salim, da família dele, embora a grana fosse pouca, eu ia toureando Eligê, etc. etc. Até que desentendi com o cara que vendia os projetos de documentário para as fábricas. Eu o apelidava de “Seu Zoom”, porque toda lente de máquina para ele era zoom. Mesmo eu tendo explicado que a zoom era um sistema de lentes que ia da grande angular a tele objetiva, ele não sabia distingui-las das lentes comuns.

Um dia esse “Seu Zoom” me viu fazendo xixi num banheiro coletivo de um restaurante de beira de estrada e foi comentar com Salim que eu tinha um pinto exagerado. Isso até poderia me deixar envaidecido não fosse as idiotices que esse cara falava. O Salim tinha contratado uma moça, quase uma senhora, para tomar conta da loja e esse cara ficava falando na frente dela: “Chegou o bem dotado”. Ela perguntava porque ele me chamava bem dotado e ele dissimulava. “É um cara muito inteligente. Tem uma inteligência acima da média”. Mas a moça percebia as ironias nas palavras dele e suspeitava das segundas intenções. Ela estava sempre de óculos escuro, mesmo dentro da loja, e um dia descobri que ele tinha um certo desvio no olhar. Era meio vesgo. Aí quando ele vinha com essas gozações eu o chamava de “Zoom Zoin”.

Esse cara, que Salim achava o máximo, pois estava trazendo filmes para produtora, esses documentários que valiam pela experiência, mas não davam grana nenhuma, começou com uma história de fazer filmes pornôs. Primeiro meio de gozação, depois falava sério. Começou a botar na cabeça de Salim que era um grande negócio. E poderiam ser feitos mesmo em Super-8. Salim começou a levar a sério. E Zoom Zoin vinha com umas:

“Ator você já tem. O bem dotado. As atrizes eu arrumo. Conheço umas garotas de programa que topam...”

Um dia eu cheguei meio enfezado, depois de uma discussão com Eligê que sugeriu que eu arrumasse qualquer coisa, mesmo fora do cinema, para pagar o aluguel dele, e eu falei que se eu arrumasse um emprego fora do cinema iria alugar um apê na região do centro e não precisava morar naquela espelunca lá no fim do mundo, e Zoom Zoin vem com a história: “Chegou o bem dotado! O homem de Itu! E aí, vamos fazer um pornô?”

Normalmente costumo ser um cara pacífico. Que eu me lembro, raríssimas vezes perdi o controle e agi com violência com alguém. Nesse dia a provocação transbordou o saco e eu acertei um direto bem no meio da testa de Zoom Zoin, partindo os óculos escuros dele em dois pedaços. Ele me olhou assustado, mais vesgo do que sempre foi:

“Pô cara, que que é isso? Tá louco?”

Mostrei o meu punho cerrado.

“Zoom Zoin, nunca mais me venha com essa conversa. Isso foi só o começo! Se me encher o saco outra vez com essa história, te dou umas porradas!”

Ele ficou todo recolhido como se os óculos fossem a sua roupa. O grande gozador, sem os óculos, se sentia nu.

Assim que Salim chegou, ele foi se queixar e parecia uma criança desamparada reclamando do irmão mais velho.

“Seu câmera me agrediu. Quebrou os meus óculos!”

Salim virou para mim e perguntou:

“O que aconteceu?”

“Salim esse cara é um idiota! Eu sei que você precisa dele pra traze filmes para a produtora. Então eu tô caindo fora. Valeu pela oportunidade.”

“Espere aí, me explique direito o que aconteceu.”

“Ele vai te explicar. Eu tô indo embora.”

E saí.

 

13

 

Eu tinha visto uma vez, na Rua do Triumpho, escrito numa parede, uma propaganda meio tosca de um tal de CENTRO DE ESTUDOS CINEMATOGRÁFICOS O.R. CARRERA. Junto a esse letreiro havia o desenho de uma câmera de cinema num tripé. Pensei que nesse lugar oferecessem cursos com câmera 35 mm. Mesmo não sabendo como iria pagar, fui lá saber como funcionava.

Ao chegar ao local, percebi que o imóvel parecia meio abandonado. Havia uns caras sentados no batente da porta de entrada que estava fechada. Perguntei para um deles:

“Você conhece alguém desse Centro de Estudos Cinematográficos?”

“Conheço.”

“Como faço para falar com ele?”

“Daqui a pouco, ele tá aqui. Ozu Carrera. Nunca ouviu falar? Os jornais vivem entrevistando ele. É famoso. Mas as fitas dele não dão dinheiro nenhum. É uma figura. Não tem como não reconhecer ele, mesmo de longe. Camisa aberta ou só com um botão abotoado, geralmente abotoado fora do lugar, chinelas de dedo, cabelo quase todo branco, despenteado, barba por fazer...Cara de invocado. Mas é boa pessoa. Não se impressione com a aparência dele não.”

O cara falou tudo isso num tom meio ambíguo que me deixou em dúvida se falava sério ou estava me gozando. Nisso, aparece, na esquina da Rua doa Gusmões com a Rua do Triumpho, uma figura exatamente igual a que ele havia acabado de descrever. E ele, percebendo, apontou na direção do cara.

“Olhe ele lá! Não te falei! Ele marca ponto aqui todo dia.”

Assim que o sujeito se aproximou esse cara falou:

“Ozu, tem um perseguidor aqui te procurando.”

Batendo mais uma vez com a descrição do cara, o velho fez cara de invocado e disse:

“Pois não.”

“Eu queria saber sobre o Centro de Estudos Cinematográficos. Vocês dão cursos aqui?”

Aí ele abriu um sorriso e respondeu:

“Ah não. Isso aí é gozação. Foi uns caras que pintaram isso aí pra me tirar um sarro. Como eu costumo sentar aí no batente quase todo dia, eles inventaram esse negócio de centro de estudos. Mas que mal lhe pergunte: você faz o que na vida?”

“Eu sou ator. E tô querendo fazer cinema. Na verdade, quero aprender a parte técnica. Mexer na câmera, essas coisas.”

“Mais um perseguidor”, disse com voz irônica.

“Que que é isso?”

“Tem um cara aqui na Rua do Triumpho, um diretor de fotografia, que quando chega um sujeito assim como você, querendo saber como se faz cinema, ele diz que chegou mais um perseguidor de fantasmas.”

“O que isso quer dizer?”

“Sei lá. Mas você é mais um perseguidor.”

Fez uma pausa e ficou sério.

“Já ouviu falar no Museu Lasar Segall?”

“Não”.

“Fica na Vila Mariana. Lá costuma ter uns cursos de fotografia, uns cursos de Super-8, tem uns livros sobre cinema, não é isso que você tá procurando?”

“É isso mesmo! Uma boa dica. Muito obrigado.”

Eu queria falar um pouco dos filmes dele, mas, como nunca tinha visto nenhum, fiquei quieto. Fui procurar o tal Museu Lasar Segall.

 

14

 

O Museu Lasar Segall foi um grande achado. Além dos cursos de fotografia, cursos de linguagem cinematográfica, havia um acervo de livros sobre cinema impressionante e um pequeno cineclube. Por “coincidência” estava passando lá uma mostra dos filmes do velho Ozu. Assisti a todos eles. Havia um que era tipo um faroeste caboclo bastante interessante. Outro, que lembrava os filmes de Pudovkin, o teórico e cineasta russo. Seus livros traduzidos para o português foram os primeiros que devorei no museu. Lá encontrei também um cara que havia trabalhado comigo na peça O último trem, o Duduzé. Ele estava desempregado, aliás, vivia sempre desempregado. Ficou com o Johnny Bianco até a peça sair de cartaz. Duduzé ensinou-me vários macetes de como sobreviver desempregado.

“Você precisa guardar algum para pagar uma pensão barata, só pra ter um lugar pra dormir. Arrumar uma mochila dessas grandes, que caiba bastante coisa e seja resistente e colocar dentro uma muda de roupa, um tênis, escova de dente, essas coisas, e se virar com negócio de rango. Eu, por exemplo, passo dias e dias na base da média e pão com manteiga. Como é que é isso? Você pode pedir pra qualquer cidadão na rua, ‘amigo, me pegue uma média e um pão com manteiga’, dificilmente o cara vai negar. Digo isso com conhecimento de causa. Você não tá pedindo uma pinga, nem um almoço Só uma média e um pão com manteiga. Um detalhe: escolha previamente o loca. Evite esses lugares sofisticados, essas padarias cheias de frescuras, com máquina italiana, café expresso, o cacete. Nesses lugares cobram os olhos da cara. Quase o preço dum almoço. Procure uma padariazinha vagabunda, ou um boteco tipo sujinho, com café de coador. Nesses lugares, além de ser barato, os caras que te serve parece que adivinham que você é um morto de fome. Capricham na manteiga. Você tem que ter cuidado pra não se lambuzar todo. Se o cara que você abordou na rua for desses desconfiado ele vai perguntar: ‘aonde?’ E você aponta o lugar. Muitas vezes ele pergunta quanto é e te dá o dinheiro. Você consegue viver assim vários dias. Com uma média e um pão com manteiga de manhã, outro a tarde, e outro a noite. De noite tem uns caras que te pagam uma cerveja de vez em quando e se der sorte, se for um cara estribado, pede uns salgadinhos, uns queijinhos, umas batatas fritas...Evite tomar pinga! Pinga te derruba. Cerveja não, cerveja e vinho alimenta. E tem uns lugares por aí que tem uma festas, umas inaugurações onde rola uns rangos, uns salgadinhos, tudo na faixa. Boca livre, entendeu? Quando a coisa tiver ruim você vai num boteco e pede um PF (prato feito). Deixe os finais de semana pra visitar parentes e amigos. Reveze bastante essas visitas. E não fale nunca que você não está procurando emprego. Pra todos efeitos você está sempre com algo em vista. Vai pintar um trabalho ou você já está trabalhando, mas ainda não recebeu nada. E por aí vai.”

Me falou também das bibliotecas.

“Você pode passar o dia inteiro numa biblioteca. Se instruindo, pesquisando, pensando na vida, escrevendo. Sempre tem um banheiro, você pode ir lá de vez em quando, se aliviar, fazer a sua higiene. Costumo frequentar a Biblioteca Municipal, no início da Consolação, na região do centro. Conhece?”

“Sei onde é, mas nunca entrei lá.”

“Sou um assíduo frequentador de lá. Ás vezes fico o dia inteiro. Começo lendo os jornais diários, depois vou no fichário e começo minha pesquisa. Peço por exemplo, uns livros de Nietzsche, A Origem da Tragédia, Humano, Demasiado Humano, Para Além do Bem e do Mal, e peço também, um Marx, um Engels...Geralmente revezo. Um dia leio os existencialistas, Sartre e outros bichos, e no outro leio os marxistas. Gramsci, Lukács, Benjamin. No outro leio tudo misturado. E tem dias que só pesquiso um assunto. Violência urbana, por exemplo. Ou incesto. Quando tô escrevendo uma peça, pesquiso o assunto da peça”.

Duduzé era metido a teatrólogo. Tentava escrever várias peças ao mesmo tempo e nunca acabava nenhuma. Ele dizia que o processo dele era assim mesmo. Que só se completaria quando conseguisse uma grana para a montagem. Como nunca conseguia, ia ficando com as peças inacabadas. Uma grande figura.

 

15

 

Segui as dicas de Duduzé e tornei-me também um frequentador da Biblioteca Municipal da região do centro. Chegava cedinho, antes das 9:00, horário que abria, e ficava na pequena fila para entrada. Ás vezes era o primeiro, ás vezes encontrava Duduzé já na fila.

“E aí, já tomou sua média e pão com manteiga?”, me gozava.

Eu ficava lá até meio dia, uma hora, e saía para a famosa média e pão com manteiga.

Para minha sorte, enquanto trabalhava com Salim, além de comer na casa dele os saborosos pratos que Dona Zena fazia, ele me dava um dinheirinho toda vez que terminávamos um documentário. Esse dinheirinho eu fui guardando e não cedi à pressão de Eligê que queria porque queria que eu arranjasse o pagamento do aluguel nem que fosse emprestado, e agora podia colocar em prática o método de sobrevivência de Duduzé. Pela manhã ia à Biblioteca Municipal, e à tarde ao Museu Lasar Segall.

Nesse período, aprendi por minha própria conta como passar a noite na rua. Usava essa estratégia para não me encontrar com Eligê. Ele costumava sair cedo de casa mesmo não tendo nada para fazer.

No mundo do cinema tem dessas coisas. O cara passa dias, semanas, meses, anos, sem ter muito o que fazer, semeando projetos que nunca vingam. Então, Eligê, e vários outros caras, tinham essa mania de sair cedo de casa e ir para Rua do Triumpho, perseguir fantasmas. Eu também acabei me viciando no negócio, mas não era de chegar cedo não. Ia para lá só na parte da tarde. Isso quando não ia ao Museu Lasar Segall. Era bem melhor. Você conseguia encontrar todo mundo na parte da tarde. Havia uns caras que tinham emprego fixo, e depois que saiam do trampo, no finalzinho da tarde, davam uma passadinha por lá. Te pagavam cerveja, um sanduba de vez em quando e pediam para quando você fosse fazer uma fita não se esquecer deles.

Então nessa fase em que eu brincava de gato e rato com Eligê, bolei o seguinte esquema: após sair do Museu Lasar Segall, eu tomava minha média com pão e manteiga em algum sujinho e ia pro “Redondo”, um bar que ficava na esquina da Av. Ipiranga com a Consolação. Sempre encontrava algum conhecido por lá. Um ator desempregado, um perseguidor de fantasmas perdido no meio do pessoal de teatro, o Plínio Marcos, famoso teatrólogo com seus livrinhos debaixo do braço. Um desses conhecidos chamava-se Tony Di Ciambra. De longe eu sabia quando ele estava lá. Era um italiano barulhento que gostava de exibir seus conhecimentos e falar das fitas que pretendia fazer. Ele realmente entendia pra caramba do negócio. Tinha uma namorada linda com quem brigava todos os dias, separava-se dela, e no dia seguinte estavam novamente juntos. Eu gostava de ficar ouvindo as histórias dele. Não só as dele como as de outros caras, pois aprendi que esse era um ponto fundamental para que você fosse convidado a sentar numa mesa e poder beber e comer de graça. Quando a gente se cansava do Redondo, ia para um outro bar que tinha em frente ao Teatro Brasileiro de Comédia, na Major Diogo, e ficava lá até altas horas da madrugada fazendo filmes só na conversa.

“Imagine uma rua qualquer do centro de São Paulo. Qualquer uma.”

“Avenida Ipiranga.”

“Imagine a Avenida Ipiranga em pleno horário de pico.”

“Sim.”

“Agora visualize ela vazia.”

“Tá.”

“Nessa rua vazia a figura solitária de um cara caminhando sem rumo.”

E assim ficávamos horas e horas contando uns aos outros, cenas dos filmes que tínhamos na cabeça e pretendíamos fazer.

“Vamos tomar uma mate gelado ali no Rei do Mate da São João?”

“Será que tá aberto?”

“Fica aberto a noite toda.”

“Prefiro um café.”

“Se você conseguir encontrar um lugar que tenha um café decente a essa hora...”

“O Estadão, ali na Major Quedinho.”

E quando me dava conta já eram quase cinco da manhã, horário em que o metrô começava a funcionar. Então pegava um trem até Santana e de lá um ônibus para o Horto Florestal, onde ficava a casa cujo aluguel eu dividia com Eligê. Ás vezes fazia um pouco de hora na estação do metrô para não correr o risco de chegar muito cedo e pegar Eligê ainda em casa.

Publicado originalmente em Sousa, Tony. Boca do Cinema. São Paulo: LCTE Editora, 2012.