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quarta-feira, 18 de agosto de 2021

Matéria sobre o cinema da Boca em 1986

Vídeo Erótico: Venha Ver Por Detrás da Câmara (Playboy, julho de 1986)

 

A bela massagista que faz seu segundo filme, o sexo em posições eróticas, o roteiro que exige taras: durante oito dias acompanhamos uma produção pornô

 

Reportagem de Marcelo Duarte

 

Corpos brilhando pelo esforço do prazer, os dois estão nus sobre uma enorme cama redonda. A bela morena começa a deslizar as mãos pelo corpo do parceiro, como se fosse difícil achar o que procura. Seus movimentos são gentis, mas firmes. Ele parece não resistir mais, mexe com a cabeça, geme. Sem interromper as carícias no rapaz, ela escorrega seu corpo para fora da cama. O espelho no teto amplia a excitação dominante. Ela se instala entre as longas pernas dele e já não são suas mãos, mas a sua língua, ávida e ágil, que delicadamente entra em ação. Ele a vira para cima da cama, de costas, e enfim se prepara para penetrá-la.

 

Quantas vezes você terá vista esta cena em seu videocassete? Muitas, certamente, em boa parte delas na melhor das companhias, e quem sabe compartilhando com a parceria de um dry Martini no ponto. Nós, de PLAYBOY, fomos ver o que acontece por trás dessa cena. E acompanhamos, durante oito dias, as filmagens de mais uma produção do diretor José Miziara, um dos “grandes” da indústria nacional do filme erótico. (Que fiquei logo claro: “grandes” aqui, não é uma generosa metáfora. Os filmes eróticos, transformados em videocassete por um aparelho denominado telecine, já são responsáveis por 30% do movimento médio de todas as 1.200 locadoras de vídeo existentes no país, segundo estimativas dos empresários da área, e, nos cinemas, têm uma plateia que já passou dos 10 milhões de espectadores por ano.)

 

- Corta!!


O grito seco do homem de ralos cabelos grisalhos, sem camisa, óculos dependurados numa correntinha, tem o tom de um marido no exato momento de aplicar um flagrante de adultério. Descalço, jeans justos, Miziara passa a mão na testa. Alguém anota os dados de mais essa tomada do filme – que, recuperando uma tradição para o trocadilho abertamente safado oriunda do velho vaudeville brasileiro, aproveita a maré Sylvester Stallone e se chama Rabo I.

 

Rabo I custou 145 mil cruzados e empregou, por dez dias, dezenove pessoas, entre atores, técnicos e figurantes. Mas a perspectiva de retorno financeiro de sua carreira, iniciada há quatro meses, mesmo que não arrebate os videomaníacos nem estoure nas bilheterias, é pelo menos de dez por um – já que, até maio, a caixa registradora da sua produtora, a LGR, batia no 1,2 milhão de cruzados. Ninguém do ramo estranharia que rendesse três vezes isso. Na verdade, a produção erótica brasileira vive de uma euforia à la melhores momentos das Bolsas de Valores – um sucesso explícito claramente revelado pelo fato de que exatos 79% dos títulos produzidos em 1985 continham cenas de sexo real.

 

José Miziara, roteirista e diretor, idade escondida atrás de uma barreira digna de uma conta bancária no exterior, está em sua sexta produção erótica, depois de uma longa carreira – de 1956 para cá, ele foi inicialmente galã e depois diretor de televisão em praticamente todas as emissoras brasileiras, inclusive na Globo (dirigiu Fogo sobre Terra, em 1974-75). Ele brinca:

 

- É, estudei catorze anos, fiz milhares de cursos e agora estou fazendo filme de sacanagem. Nem precisava estudar tanto...

 

Miziara agora dirige uma nova tomada de Rabo I. Olhando por trás da câmara, vemos a luxuosa suíte do motel Mikonos, em São Paulo – uma locação privilegiada que, graças à mágica do merchandising, nada vai custar à produção. Na altura do chão, a câmara espera que Bruno, o contra-regra, passe mais óleo de rícino no corpo dos protagonistas. Anatomias brilhando, como se suassem, eles esperam a ordem para filmar cenas particularmente delicadas – as cenas de sexo anal. Bruno, desinibido e profissionalíssimo, contribui para facilitar as coisas: aplicado e meticuloso como um auxiliar de cirurgia, ele lança jatos de vaselina anestésica na atriz Karina Santiago, uma novata – massagista, 26 anos, corpo bem-feito, este é apenas seu segundo filme. Ela já toma contato efetivo com um universo que não admite propriamente sutilezas. O nome da vaselina anestésica, por sinal, é Big Gay.

 

O TESTE DA EREÇÃO

 

Perto dali, deitado na cama redonda, o partner de Karina, Walter Gabarron, começa o trabalho mais importante na vida de um ator de filmes eróticos: a concentração para conseguir uma ereção. Gabarron é um astro em sua área – que disso não reste a menor dúvida. Neste mesmo dia, uma prova eloquente: percorrendo distraidamente a programação de cinemas no jornal, ele constata que é o protagonista de nada menos que nove dos cinquenta filmes em cartaz em São Paulo. Uma enquete em locadoras de vídeo daria resultado semelhante.

 

Um astro suficientemente original para ser um dos reis do pornô tendo vindo do teatro infantil, Gabarron ganha um cachê médio de mil cruzados por dia e não tem qualquer problema doméstico por causa da natureza do seu trabalho: ele e a mulher, Eliana Gabarron, 27 anos, casados há dez, começaram praticamente juntos no cinema erótico, levando a telas e aparelhos de TV as alegrias do lar. Corpo proporcional à altura, seis fartos e empinados, olhos escuros e a fama de ser uma das atrizes mais bonitas da indústria erótica, Eliana é mãe de um casal de filhos e especializou-se na fase anterior de sua carreira, em viver – vejam só! – a Virgem Maria em peças de fim de ano. O mercado exigiu que o casal se separasse – nos vídeos e telas, apenas – e, atualmente, os dois filmam produções diferentes.

 

Hoje, portanto, com Walter prestes a entrar em ação, Eliana não está por perto. O astro faz jus a sua fama e, sem pouco tempo, tem condições de filmar com a massagista Karina.

 

- Ação! – comanda Miziara.

 

O casal de corpos brilhantes está de novo a pleno vapor. Gabarron vira Karina de bruços e, estendido sobre as costas da moça, retoma a cena cortada há pouco para a aplicação do spray. Sem problemas. Karina consegue se soltar e atender às recomendações do diretor para murmurar em sinal de prazer palavras que depois a dublagem vai se encarregar de enriquecer. A tomada é ainda interrompida quatro vezes, para a mudança de posição da câmara – em alguns casos, é feito em close muito próximo -, e, depois de cada uma delas, Gabarron consegue de volta a ereção.

 

Não se imagine que é proeza fácil. Na verdade, a suposição de que ser atores de filmes eróticos é o mais paradisíaco dos empregos – um mar de prazeres, e, além do mais, remunerados – esbarra na realidade de que a maioria não passa incólume pelo teste de ereção com a desejada frequência ou a necessária oportunidade. Se os critérios de avaliação forem rigorosos, podem-se até considerar alarmantes os índices de “falha” ocorridos em algumas das últimas produções: em Círculo do Prazer (1984), de Mário Vaz Filho, por exemplo, onze dos doze atores tiveram problemas; em Macho, Fêmea e Companhia (1984), nem a estimulante paisagem da litorânea de Bertioga (SP) impediu que ocorressem dezoito forfaits em vinte atores.

 

Gabarron diz, com orgulho, que com ele isso nunca ocorreu. “É por isso que os diretores preferem os atores veteranos”, garante. “Assim, acaba não havendo uma reciclagem nos elencos”.

 

SEIOS FARTOS, COXAS GROSSAS

 

E, de fato, em Rabo I Miziara não tem outros atores, apesar de possuírem certa experiência, a mesma sorte que significou filmar cenas com Gabarron. Tomemos o dia seguinte às filmagens no motel. Estamos agora no apartamento alugado de um amigo do produtor, no bairro boêmio da Vila Buarque, em São Paulo. O ator Messias Rúbio não consegue ficar em condições de filmar com a atriz argentina Andrea Pucci. Os oito integrantes da equipe de produção deixam os dois a sós, na penumbra do quarto, e aguardam pacientemente na sala. A certa altura, Andrea grita:

 

- Corre, pessoal, vem rápido. Ele conseguiu!

 

Mas foi só se acenderem as luzes e – puf! – lá se foi. Acostumado a esse tipo de falha técnica, Miziara logo pergunta por algum voluntário entre os presentes. Ninguém se oferece. O dono do apartamento, porém, parece tentado. Andrea é uma mulher opulenta, de coxas grossas, seios fartos, cabelos louros e apenas uma leva penugem no sexo. De olho nela, ele ajeita o bigode e pergunta:

 

- Só aparece o sexo, né? Mais nada? Se for assim, eu topo.

 

E lá se vai ele, cheio de gás: tira a roupa e se lança sobre Andrea com o desenvolto entusiasmo de um amador. Filmada a cena, contudo, admite:

 

- Se durasse mais um minuto, acho que não conseguiria. Não é fácil transar tendo tanta gente em volta e, ainda por cima, com esse holofote me esquentando o traseiro!

 

Mais tarde, outro tipo de preocupação tomaria conta desse improvisado dublê de corpo:

 

- Será que minha mulher não vai acabar me reconhecendo um dia? Sabe, aquela pintinha que eu tenho...

 

A relevante questão da ereção, essa fundamental matéria-prima da indústria em que Miziara está envolvido, voltaria a assombrar o diretor em outro dia de filmagem, e em dose dupla. Desta vez é um domingo. Os atores Cláudio Salgado e Oswaldo Cirillo, interpretando dois caminhoneiros, se veem às voltas com uma fatal flacidez. Cirillo ainda consegue recuperar-se, mas Salgado teve mesmo de ser substituído pelo iluminador Fumanchu.

 

- Faço tudo por amor à arte – brinca Fumanchu depois da cena, admitindo que a substituição tivera o condão adicional de pôr em dia seu metabolismo sexual.

 

O mundo do filme erótico, para só ficarmos no capítulo da ereção, contém ironias inesperadas. Passemos, por exemplo, a uma das últimas tomadas de Rabo I – já quase no final das 27 latas de 120 metros de filme consumidas pela produção. São protagonistas o bailarino de boate Pedro Terra, um veterano já em seu 12º filme, e a ex-chacrete Raquel Coelho. Eles gravam cenas inocentes no Parque Ibirapuera, uma cena um tanto confusa numa cachoeira gelada de motel – os dois, com os ouvidos cheios de água, não conseguem ouvir as instruções de Miziara – e, por fim, encerram o dia numa suíte.

 

- Já é pra ficar duro?- pergunta Pedro.

 

- Ele é uma máquina- comenta, admirada, Raquel.

 

De fato, uma máquina: tem ereção quando quer, não falha, repete cena com facilidade. A ironia é que, num meio de atores garanhões, Pedro é um homossexual.

 

LORDE OÁSSIS, O REI DO PORNÔ

 

Quando se fala em atores-garanhões, não há como escapar da incomparável figura de alguém que sempre tem acompanhado os sucessos de Miziara e que, embora não esteja no elenco de Rabo I, projeta sua sombra majestática sobre todo o universo do filme erótico brasileiro. Trata-se de um ator que jamais acarretou problemas para Miziara ou para qualquer um de seus colegas diretores, e sobre cujo incansável desempenho se debruçam, admirados, atores, diretores, técnicos e figurantes: Oásis Minitti, o rei do cinema pornô, alguém que Walter Gabarron, astro de Rabo I, talvez venha a ser um dia.

 

Alto, forte, 40 anos, cabelos curtos encaracolados, Oásis ganha 5 mil cruzados no mínimo por dia de filmagem. Advogado formado, ele estreou no cinema nacional em 1972. Em 1980, depois de um acidente que acabou com seu Passat novo, viu-se sem dinheiro e aceitou a primeira proposta para fazer um filme com cenas quase imperceptíveis de sexo real, dirigido pelo cineasta italiano Rafaelle Rossi: Boneca Cobiçada. Além de ganhar um cachê duas vezes maior do que costumava receber, Oásis acabou transformando em fonte de lucros o que, no cinema do sexo simulado, era uma tradicional fonte de embaraços: a ereção fácil.

 

“Quem tivesse uma ereção no trabalho era malvisto pelo pessoal”, recorda Oásis, divertido. “Num filme com a Maria Izabel de Lisanda, As Mulheres sempre Querem Mais, isso aconteceu e eu passei o maior aperto”.

 

Três meses depois de Boneca Cobiçada, Rossi o chamou de novo. O trabalho consistia em apenas um dia de filmagem num sítio em Campinas (SP), por um cachê que na época era respeitadíssimo: 20 mil cruzeiros. Oásis obteve, então, sua consagração: transou com duas atrizes, Jussara Calmon e Ilza Cotrin, e ainda para espanto de técnicos experientes, se masturbou duas vezes sob o chuveiro. Explica-se: o roteiro exigia apenas uma masturbação completa – mas, justamente na hora do clímax, faltou energia elétrica na casa-sede do sítio. Minutos depois, a luz foi restabelecida, Oásis tomou fôlego e completou a segunda.

 

Num mundo em que o ator pornô Walter Gabarron veio do teatro infantil e sua mulher interpretava Nossa Senhora, não é estranhável que o rei Oásis seja um pai severo, “à antiga”, como ele próprio se define: não há hipótese de a filha Silvana, de 19 anos, ser autorizada a assistir a seus filmes ou, mesmo, a usar um simples biquíni. A mulher, Marilena, com quem está casado há 22 anos, não enfrenta vetos, mas só viu um deles e não gostou. Ela jura não ter ciúmes: “Talvez eu até me importasse se ele não trabalhasse com a imaginação para ter ereções”.

 

O filme de Campinas deixou Oásis em dúvida sobre a futura viabilidade de sua carreira. “Comentei com a Marilena”, lembra-se ele hoje, “que o filme era tão barra-pesada que eu duvidaria que viesse a passar um dia no cinema”.

 

Fácil, não foi: dois anos depois, Rossi armou uma complicada manobra junto ao Concine e à Censura, que incluiu uma ameaça de suicídio, e liberou seu filme. Valeu. Coisas Eróticas teve um doa maiores públicos de filme nacional de todos os tempos – mais de 5 milhões de espectadores, até hoje – e é um dos videocassetes mais requisitados de um qualquer videoclube ou locadora que se preze.

 

De lá para cá, Oásis – o “Lorde”, como é conhecido na indústria erótica – fez mais 33 filmes, o bastante para ampliar sua excelente casa no bairro do Brooklin, em São Paulo, ter quatro carros novos na garagem, construir uma casa de praia em Ubatuba (SP), fazer longas viagens com Marilena a não ter preocupações quanto à futura aposentadoria.

 

Fácil, não foi. Num filme, Deliciosas Sacanagens (1985), ele chegou a transar com quatro mulheres na mesma tarde. (Depois ficou dois dias em casa, descansando, pois, se é verdade que os atores de vídeos e filmes pornôs não completam a relação com suas parceiras, em geral o roteiro exige que eles ejaculem sobre o corpo delas diante das câmaras, como uma espécie de carimbo final da autenticidade do sexo real.) Seu recorde, entretanto, foi uma maratona de dezoito mulheres em seis dias no filme O Analista de Taras Deliciosas (1984), de Fauzi Mansur – três por dia, em média. Outro índice com que Oásis talvez se habilitasse ao Livro Guiness dos Recordes surgiu em Tudo Dentro (1985), também de Fauzi Mansur: 36 ereções em dez horas de filmagem. A proeza, por todos os títulos impressionante, lhe custou dores generalizadas suficientes para impedir uma comemoração comme il faul de mais um aniversário de casamento.

 

“Ás vezes me sinto uma espécie de mercenário”, desabafa Lorde Oásis. “Estou ali na cama só pensando no dinheiro”.

 

A “MALETA DO EXPLÍCITO”

 

Exageros, com certeza. Em seu meio de trabalho, a postura de Oásis é vista, isso sim, como exemplo de sadio e maduro profissionalismo. O mesmo que o leva a escolher papéis – já chegou a recusar oito propostas diferentes em um mês - e, principalmente, a selecionar parceiras. “Com a AIDS, tornei-me mais cuidadoso”, explica. Como bom profissional, Oásis tem todo um instrumental de trabalho necessário para mobilizar aquele a que chamam, um tanto irreverentemente, de “o astro”. Está tudo contido na sua inseparável “maleta do explícito”, com a qual ele desfila nos intervalos de filmagem, vestido com o robe de chambre que ajudou a consagrar o seu apelido. A maleta é uma espécie de cinto de utilidades do Batman: há ali guaraná em pó, mel e lecitina de soja (para manter a forma física e as energias vitais), levedo de cerveja em pó (para cabelo e pele), vaselina líquida e em pasta, óleo, desodorante e perfumes. “Entro sempre com o corpo perfumado para transmitir erotismo para a companheira”, ensina.

 

Ele não bebe, não fuma, alimenta-se basicamente de produtos naturais e faz exercícios físicos regularmente. Antes de cada tomada, conversa a sós com a parceira, numa versão muito pessoal de laboratório de interpretação. Segura a mão da atriz, como um namorado, tentando criar “um clima de respeito e confiança”. Só então pergunta ao diretor:

 

- Vamos explicitar?

 

Fácil, não é. Nas filmagens de O Filho do Sexo Explícito, em 1985, quatro atores deveriam desempenhar ante barulhenta plateia de duzentas pessoas lotando um auditório. Os três primeiros falharam. Só Oásis, com seu poder de concentração pôde exibir no final sua ereção como se fosse um troféu.

 

Por essas e outras, ele foi convidado há dois anos a fazer uma entrevista com psiquiatras do Hospital do Exército, no bairro do Cambuci, em São Paulo, interessados em sua capacidade de concentração. Por essas e outras, ele iniciou o que pode ter sido uma promissora carreira internacional no passado: durante uma semana, em agosto, Oásis deu vazão a suas energias em A Verdadeira História de Monja de Monza, filmado em Milão, na Itália. Pelo papel de um padre compreensivo o suficiente para atender às urgências de todas as freiras de um convento, o Lorde recebeu passagens, estadia e 5 mil dólares.

 

A carreira, cujas primeiras manifestações, segundo ele, aconteceram aos 7 anos de idade com a empregada de sua cada, tem trazido a Oásis outras recompensas além de dinheiro. “Essa garotada que assiste a meus filmes, principalmente na idade de meu filho Mário, de 18 anos, me tem como ídolo”, orgulha-se. O prestígio pode ser medido também pelas pilhas de cartas que recebe de mulheres – todas polidamente respondidas -, algumas delas com altas ofertas em dinheiro por uma transada – todas polidamente recusadas. É claro, contudo, que a fama traz alguns problemas: ele mudou o número do telefone oito vezes só no último ano; a garotada do bairro disputa a tapas os ingressos grátis que ele leva para casa; e muitos parentes se afastaram de Oásis, cuja atividades seriam “desmoralizantes” para o bom e honesto nome da família Minitti. O Lorde, porém, não se abala e toca em frente: ele está tão convicto de sua popularidade que pretende candidatar-se à Constituinte este ano pelo pequeno PPB (Partido do Povo Brasileiro).

 

“Tenho meu público”, diz Oásis. “Acho até que, se eu fizesse uma novela na TVS, desbancaríamos a Globo no horário”.

 

CENAS PICANTES: AS TARAS!

 

As carreiras de Lorde Oásis e do ator principal de Rabo I, Walter Gabarron, se cruzaram várias vezes. Uma delas foi particularmente marcante para Gabarron, e ocorreu durante as filmagens de O Analista de Taras Deliciosas. Aquela altura, os produtores andavam cansados da dupla Walter e Eliana Gabarron, e os trabalhos começaram a rarear. O filme de Mansur seria o primeiro em que os Gabarron, entrando em nova fase profissional, atuariam com outros parceiros. E foi justamente Oásis Minitti o primeiro home m além de Walter a transar com a bela Eliana diante das câmaras. Walter, compreensivelmente, estava irrequieto e nervoso no dia da filmagem da primeira cena, e Oásis foi obrigado a manda-lo sair do quarto, ou não trabalharia. Hoje, Walter é capaz de assegurar: “Aprendi com o tempo que quem está ali é a personagem, e não a minha mulher”.

 

Mas isso, agora, são águas passadas. Gabarron neste momento está concentrado em seu trabalho. Depois de fazer amor com Karina no motel, ele e toda a equipe se deslocam em duas kombis para o centro de São Paulo. As próximas cenas são no apertado apartamento do assistente de produção, Michel Cohen, filho do dono da distribuidora Brasil-Internacional, Alfred Cohen, que bancou metade do orçamento de Rabo I. Nesta tarde, será a vez das cenas picantes do enredo – as referente às taras do casal central do enredo.

 

Os primeiros a chegar são Silas Bueno, enfermeiro aposentado reciclado como diretor de cinema erótico, e “Jerry”, seu cão treinado, de raça indeterminada. (Sim, um cão: nas produções eróticas brasileiras, já começam a aparecer animais para os capítulos de taras dos diferentes enredos, embora em boa parte das vezes as simulações e os truques de cinema substituam the real thing). Jerry já está em seu terceiro filme, depois de estrear em Ou Dá ou Desce, em 1984, que, ao menos nos cinemas, foi sucesso de bilheteria graças ao exotismo de sua participação. O diretor de Ou Dá ou Desce, Nilton Nascimento, acha que “com tantos filmes e títulos parecidos, o filme tem que ter algum elemento que o marque junto ao público”. Foi assim que ele próprio, graças a uma ágil montagem, simulou no apropriadamente denominado Escândalos do Sexo Explícito (1985), a penetração da atriz Eliana Gabarron por uma cobra.

 

Jerry está esperando, estirado no tapete. Ali perto, desenrola-se uma das taras que Miziara teve de incluir no script por exigência dos produtores: quem se esfrega em Gabarron é um travesti. Patrícia Petri, que veste um négligé preto comprado por Miziara para ex-miss Brasil Marisa Sommer usar em Pecado Horizontal (um soft porn que, diga-se, foi um fracasso tão grande de bilheteria que obrigou Miziara a ir morar durante algum tempo na casa de seu sogro, o veterano homem de televisão Walter Stuart).

 

E O CÃO JERRY FALHOU

 

Todos os atores, inclusive Gabarron, Karina e o travesti que vão filmar agora, receberam com antecedência o script de 21 páginas – mas, a bem da verdade, esta não é uma instituição muito respeitada no mundo das produções eróticas. Não apenas os atores pouco se preocupam em decorar os textos, como os próprios diretores não seguem à risca seus roteiros: inventam diálogos na hora da filmagem, cortam cenas, criam outras, e o filme vai sendo armado. Mesmo assim, Miziara lê as falas em voz alta para os atores repetirem. Já quanto à delicada questão dos movimentos físicos, o cuidado do diretor é maior. Com o dedo indicador levantado, ele mostra ao travesti o que deve fazer com o membro do parceiro:

 

- Devagarinho...Assim...Chega o rosto bem perto...Esfrega um pouco...Bem, eu vou dizendo aqui de fora e você vai fazendo, tá legal?

 

Patrícia concorda, e o diretor se vira para Gabarron, sem deixar claro se fala sério ou faz blague:

 

- Pode levantar o astro!

 

E aqui chegamos a outra característica das produções eróticas que merece menção: certos temores mais ou menos declarados. Patrícia – bem, a rigor sua certidão de nascimento assinala o nome de Airton -, por exemplo, tinha abandonado o cinema erótico por receio da AIDS. Só aceitou retornar porque esta é uma filmagem com Gabarron, um ator conhecido. Karina, por sua vez, ao despir as roupas semitransparentes, cochicha para Patrícia:

 

- Estou morrendo de medo desse cachorro. Fiz até promessa pra ele ficar doente e não poder filmar.

 

Mas Jerry está alheio a tudo. Na cama, sua pinta de artista – casaquinho amarelo de clã e óculos escuros – parece estar estacionado no cinema convencional: longe de ser um Oásis Minitti, canino, Jerry falhou.

 

- Ele não foi com a cara dela – justifica o treinador Bueno.

 

- O Jerry nunca falhou antes.

 

Mas a situação, hoje, parece inarredável. Nem mesmo um truque geralmente eficiente – passar na mulher um remédio próprio para ejeção de leite nos seios e o preventivo da mastite, que por acaso lembra o odor das cadelas no cio – faz Jerry se animar. O jeito, então, é colocá-lo, algo a contragosto, entre as penas de Karina, que simula estar se deliciando. Bueno, preocupado com o desempenho de seu pupilo, balança o corpo de Jerry para dar a impressão de movimento, e pronto: mesmo ingloriamente, o cão faz jus ao seu cachê de 500 cruzados, “usados em comida e vacinas para ele mesmo”, segundo o treinador.

 

- Ô, cachorro! Faz cara de quem tá gostando!- ri Miziara com suas próprias instruções, enquanto amassa o segundo maço de cigarros fumado no dia.

 

ORGASMOS NA MOVIOLA

 

Quem está preocupado agora é Michel, o dono da casa. O casal e o travesti andam nus pela sala e sua mulher está prestes a chegar. Para dissipar a fumaça de cigarro, Michel joga um spray no banheiro, e Karina vai se vestir diante da entrada no apartamento – no justo momento em que a mulher de Michel abre a porta e quase dá de encontro com uma bunda não só enorme, como sobretudo, desconhecida. Polida, ela consegue dizer: “Desculpe, moça”, dá meia-volta, fecha a porta e entra pelos fundos.

 

O filme está terminando para os atores e técnicos, todos com outros trabalhos agendados para os próximos dias. Para Miziara, parece que vai começar: ele resolve fazer, na montagem, um filme inteiramente diferente do que foi escrito. Vai partir com os 3.240 metros rodados para uma moviola e recriar toda a história.

 

Santa moviola!, costumam dizer alguns cineastas, lembrando-se de filmes eu pareciam um perfeito desastre se montados de acordo com o script original, mas, remontados na maquininha, adquiriram o vigor de um fênix hollywoodiana e arrebataram plateias. É ela a responsável por maravilhas como filmar em separado os closes do rosto dos artistas, simulando orgasmos múltiplos sem que eles estejam sequer transando, e, depois, na montagem, fazer com que aquelas ávidas expressões de desejo se encaixem perfeitamente às cenas de sexo.

 

Mas, se a moviola “salva” tudo, também pode complicar. A bela atriz Zilda Mayo que o diga. Hoje só fazendo teatro, depois de 62 filmes – na maior parte pornochanchadas -, Zilda foi vítima em 1984 de uma moviola desonesta, da qual saiu uma montagem em que ela aparecia fazendo sexo explícito com o corpo de outra mulher. Ela confessa ter ficado “de perna bamba” quando viu o filme e, graças a um processo judicial, A Bacanal na Ilha das Ninfetas, acabou sendo apreendido. A produção de Bacanal teve que fazer um acordo com Zilda e mais duas atrizes vítimas do mesmo truque e, graças ainda à Justiça, Zilda viu o filme voltar a cartaz em cinemas e videoclubes sem as cenas de sexo explícito e com sua participação na renda. “Mas quem sabe como ficaram as cópias espalhadas por aí?”, desconfia ela.

 

Como Zilda, muitas atrizes conhecidas – entre elas Helena Ramos e Aldine Müller – deixaram de frequentar as ruas da chamada Boca do Lixo de São Paulo desde que, a partir de 1980, e como dizem os profissionais do ramo, “o pornô escancarou”. Recusaram propostas milionárias dos pequenas mas movimentadíssimos escritórios das ruas Vitória, do Triunfo e dos Andradas, no velho centro paulistano, onde ficam todas as “quinze grandes” do cinema erótico brasileiro. Do meio dessa área da cidade onde ainda viceja a prostituição, saem 85% dos filmes eróticos brasileiros. A maior parte das empresas fica num mesmo edifício, na esquina das ruas do Triunfo e Vitória, número 134. Ali nascem ideias, traçam-se planos, discutem-se orçamentos. Em volta, distribuidoras e botecos fervilham com diretores, atores e técnicos.


As aparências não indicam que dali emergiram, em 1985, seis das dez maiores bilheterias do cinema nacional. Mas, se em Sem Vaselina, o filme de Miziara anterior a Rabo I, os custos foram de meros 55 milhões de cruzeiros (55 mil cruzados, em moeda de hoje). “O sexo explícito é a salvação do cinema nacional”, proclama Nilton Nascimento.

 

Enquanto se debate em projetos ousados, desconcertantes – em um dos próximos hits poderá incluir as estripulias de um cavalo erótico -, Miziara, em uma semana termina de fazer Rabo I. Desde a montagem das imagens até a gravação e edição de todos os diálogos por dubladores e sua edição sobre as imagens, a mixagem, a trilha sonora – tudo. Em meros dezessete dias, dez em trabalho de campo, uma semana para acabamento, Rabo I está pronto – e milagre renovado da moviola, está cheio de novas piadas, novas discussões sobre as taras dos personagens de que os atores não têm ideia. O roteiro original, que se propunha a “debater taras”, virou na verdade uma comédia pornô que Miziara considera do tipo “leve”. Com Rabo I, mais cinco filmes estão sendo lançados no mercado pela mesma distribuidora, todos com participação de Miziara nos lucros – e o dinheiro, agora, só entra e muito.

 

Uma sorte de Miziara que seu colega Nilton Nascimento não compartilha: ele tem um filme, ainda sem título, na prateleira, prontinho para seguir para os cinemas e videoclubes. Mas não pode estrear ainda, e o dinheiro não vem. Tem que esperar que Sandra, a atriz principal, complete 18 anos.

 

Publicado originalmente na revista “Playboy” em julho de 1986

quarta-feira, 14 de julho de 2021

VSP comenta o cinema brasileiro atual: “A Senhora Que Morreu no Trailer” (2020)

 A Senhora Que Morreu no Trailer” *** (Brasil, 2020, documentário, direção: Alberto Camarero e Alberto de Oliveira), visto no Cine OP 2021

Docudrama narrado como uma espécie de grande reportagem. A protagonista aqui é a atriz, cantora, faquireza e encantadora de serpentes Suzy King (1917-1985), encontrada morta num trailer na fronteira entre os Estados Unidos e México. King é realmente uma figura fascinante: nasceu no interior da Bahia, trabalhou com apresentações sensuais em São Paulo, Rio de Janeiro e no exterior utilizando múltiplos nomes e pseudônimos. King domava selvagens répteis que deu nomes como Cleópatra, Oséas Martins e Perón. Grande parte da narrativa são notícias antigas de jornais narradas enquanto a protagonista é interpretada por diferentes atrizes como Helena Ignez, Maura Ferreira, Zilda Mayo, entre outras. Todas muito bem dirigidas é bom ressaltar.

Os diretores pesquisaram intensamente a carreira e a vida de King tendo percorrido São Paulo, Rio de Janeiro e mesmo os Estados Unidos atrás de pessoas que conheceram essa inusitada personagem. No exterior, ela adotou o pseudônimo de Jacuí Japurá Sampaio Bailey e manteve um relacionamento com o norte-americano Bill Bailey. Este é outra figura enigmática: teve cinco casamentos sendo um adepto da contracultura e do naturalismo. Bailey montou uma casa em estrutura geodésica em formato de bola localizada em Tijuana antes de morrer. Os diretores estiveram na inusitada residência do ex-namorado da protagonista. Até hoje, muito pouco sabe-se sobre a morte da encantadora de serpentes que foi encontrada morta num trailer (como no título do filme) em 1985. A produção também foi no interior de Minas Gerais atrás do único filho de Suzy chamado Carlos que tornou-se andarilho de ruas. Trata-se de um documentário bastante completo e definitivo sobre a retratada com linguagem não acadêmica. O único ponto fraco é o excesso de informações que deixou A Senhora Que Morreu no Trailer um tanto longo. Se fosse dez ou vinte minutos menor poderia ser perfeito. Mesmo assim, a riqueza de informações e a dedicação dos realizadores é notável. Vale (muito) a sessão.



domingo, 1 de setembro de 2019

Livro conta trajetória de Zilda Mayo



A Rachel Welsh de Araraquara também ganhou sua biografia. Zilda Mayo Para Os Íntimos escrita pelo jornalista Luís Zakaib foi publicada pela editora Laços. Foram feitos lançamentos em São Paulo e em Araraquara, interior de São Paulo e terra natal da atriz. A obra investiga a trajetória pessoal e profissional de uma das mais celebradas musas do cinema paulistano. Repleto de fotos, o livro ganhou uma edição bastante completa e interessante. Ainda não li inteiro, mas quando fizer colocarei minhas impressões aqui. Os interessados podem comprar o livro pelo site oficial da Editora Laços: www.editoralacos.com.br

segunda-feira, 16 de julho de 2018

O Imaginário da Boca parte IV: a boca fala


O Imaginário da Boca parte IV: a boca fala

A boca fala

“...A cabeça do brasileiro anda muito boa. Ele evoluiu enormemente no que toca aos preconceitos. Agora, eu acho que também devia botar os homens nus no cinema e na imprensa. Afinal, a nudez masculina é tão bonita quanto a das mulheres.” (Helena Ramos- Manchete – 28/6/80).

Por Inimá Ferreira Simões
Seleção e transcrição: Matheus Trunk


Lançada em 1975, a revista Cinema em Close-Up teve uma vida instável até desaparecer, quatro anos mais tarde, quando Minami Keizi, que editava os argumentos filmados vendidos em bancas na forma de livrinhos (Amadas e Violentadas; O Dia das Profissionais), optou por empreendimentos mais lucrativos na fase da liberalização da censura. A revista surge numa época em que as pornochanchadas batiam recordes de bilheteria, ameaçando a hegemonia tranquila do cinema americano no mercado brasileiro. Ninguém escapou à surpresa geral e a pergunta frequente era “como é que esses filmes de 2º linha podiam...?” Tanto podiam, que surgem a revista e os livros. De agora em diante, torna-se possível ao espectador assistir, por exemplo, ao filme no cine Paissandu e na saída, deter-se na banca de jornais, adquirir a revista que contém notícias de cinema, informes sobre as produções da Boca – de preferência pornochanchadas – e fotos de atrizes que acabou de ver no filme. A partir de então, a imagem das mulheres não fica mais restrita ao tempo regulamentar de um filme.

Para os produtores da rua do Triunfo, sistematicamente ignorados pela imprensa, a aparição da revista – com redação na mesma rua – era bastante oportuna. Não importava a falta de equilíbrio editorial (que resultava na alternância de bons textos com outros, ingênuos e pouco inteligíveis) se, finalmente, era possível manter contato com o público. E o que mais atraía em suas páginas eram as mulheres, mostradas me poses tão insinuantes quanto as que apareciam nos filmes. Os textos, complementares às imagens de mulheres com o corpo torcido para apresentar o máximo de nudez, o beicinho ensaiado para seduzir, a dog-position ondulante, etc, funcionavam como mero suporte para compor um conjunto em tudo idêntico ao encontrado em outras revistas dirigidas para a faixa menos sofisticada do mercado.

No caso de Cinema em Close-Up redigida, entre outros, pro Luís Castellini, Waldyr Kopesky, Rajá de Aragão e Luiz Gonzaga dos Santos, as moças explicavam, como num coro bem ensaiado, que apareciam sem roupa nos filmes desde que a “história exigisse”. O nu artístico assim definido, tornava-se um álibi sempre à disposição para elaborar justificativas. Ás vezes, o contraste entre as fotos e os textos provocava situações insólitas: Sônia Saeg afirmava no número 6 da revista que preferia fazer papel sério, mesmo que isso significasse a redução do seu campo de trabalho. A revista se manifesta inconformada com esta resolução, tal como imagina que o sue público esteja, torce para que ela desista da ideia – “Afinal, ela tem um corpo lindo e sabe disso – e como é de lei, tudo que é bonito tem que ser visto”. Para completar o quadro, há sete fotos da moça com o mínimo de roupa permitido pela censura em vigor na época. O depoimento atribuído a Sonia Saeg, a observação da revista e as fotos formam então um conjunto estranho, desequilibrado, onde as peças não se encaixam. Afinal, alguém poderia perguntar: “se ela não quer filmar nua, por que então aparece quase sem roupa nas fotos?” Esse é um tipo de contradição das mais frequentes, aliás comum a todas as publicações que se valem – como fator de venda – da nudez feminina.


Um parêntesis necessário: nove entre dez textos que acompanham fotos de mulheres nuas, em publicações voltadas para o público masculino, são fruto exclusivo da imaginação fértil de redatores geralmente mal remunerados. Em outras palavras: quando se lê que Sônia Saeg, só para permanecer no exemplo próximo, disse tal coisa, é possível que não tenda sido consultada. Portanto, a contradição entre o que a mulher “fala” e as fotos, não deve ser atribuída a ela, mas à revista.

Em segundo lugar, observa-se que na faixa das publicações populares e mais baratas não ocorrem explicações para a nudez. Tal trejeito só se impõe a partir de alguma necessidade de prestígio cultural junto ao público que procura alcançar. Define-se como vulgar, uma mulher que simplesmente se expõe. O não vulgar, o requintado, o nu não gratuito exige a explicação, seja ela em termos de novos hábitos de comportamento, de compulsões, hábitos importados da Escandinávia ou finalmente como mera expansão carnavalesca.

E, se Sonia Saeg disse realmente o que foi publicado na revista, acredito que tenha apenas adotado explicações convencionais, ditadas pela apropriação de um discurso que lhe é externo, mas ao mesmo tempo adequado para uma mulher que pretende seguir a carreira artística. Um cacoete acadêmico, como diz Jean-Claude Bernardet.

Em 1976, Arlete Moreira aparece em Cinema em Close-Up: “Quando Hefner viu as fotos de Arlete Moreira estremeceu. Mandou uma passagem de avião para a garota. Ela foi...Hefner lhê propôs trabalho em sua organização. Ela porém, saudosa da terra onde canta o sabiá, das praias de Copacabana, voltou mais do que depressa”. Quatro anos mais tarde, a mesma Arlete na seção De Olho na Boca, de Notícias Populares, reclama que os diretores só querem mostrar o seu corpo.

A credibilidade do gesto revoltoso é mínima, afinal não seria a primeira vez que tal apelo aparece desmentido pelo olhar sedutor, sorriso conivente e quase nenhuma roupa, mas agora percebe-se que as velhas explicações tipo nu artístico já não bastam para as profissionais mais experientes, que reclamam pela valorização enquanto atrizes.

Com Helena Ramos, a trajetória foi convencional. Ex-silvete, foi “descoberta” pelo diretor Roberto Mauro, hoje afastado do cinema paulista. Suas fotos já foram publicadas em “Status”, “Ele & Ela”, “Isto É” e agora na revista “Manchete” (com um ghost-writer famoso: Justino Martins), em razão de sua temporada carioca para filmar Novela das Oito, dirigido por Antônio Calmon. Sobre suas possibilidades dramáticas é difícil antecipar qualquer prognóstico. Os filmes nunca exigiram nada neste sentido, mas pelo menos agora – transformada em símbolo sexual do cinema brasileiro – Helena não precisa mais repetir as velhas justificativas para a nudez.

ZILDA MAYO

Encontrei Zilda Mayo numa lanchonete, dessas típicas de rede americana. Ao sentarmos para que prestasse seu depoimento, ela confessou que esperava – já que era alguém da Secretaria de Cultura – um intelectual. Mas como seria um intelectual? “Ah! Um homem maduro, mais velho que você, de óculos...” Enquanto tomada seu suco de laranja – depois de ter pedido sucessivamente de cenoura e beterraba, que acredito façam parte da dieta de qualquer estrela para manter sua linha – ela contou rapidamente sua vida.


Desde criança queria fazer cinema, TV, teatro... “Eu já nasci estrela...Não quero ser estrela porque já nasci estrela”. Desde pequena usava roupas curtinhas. Veio para São Paulo com 16 anos e trabalhou em várias lojas como balconista. Até que na função de demonstradora das perucas Kanekalon, viajou por várias capitais se constituindo em atração máxima das lojas, a ponto de provocar apelos dramáticos dos gerentes para que não fosse embora. Foi silvete, júri de TV, manequim nas feiras do Anhembi e finalmente chegou ao cinema com Amadas e Violentadas, produção da Dacar (David Cardoso) sob direção de Jean Garrett.

“A pornochanchada, pra mim é ótima. Foi a melhor coisa que inventaram pra levar público do cinema. Só que começaram a avacalhar muito e isso está estragando...Sabe o que acontece? Tem mais é que fazer essas coisas mesmo, coisas alegres, bonitas, que o público morra de rir, que ele ache uma loucura, que tenha gente bonita, que saia excitado, etc. Sabe bicho? Nós estamos num mundão em que é só sofrimento que a gente vê. Uma barra! Depois ainda a gente vai pro cinema pra ver filmes bonitos mas sai deprimido, sufocado? Como o Amargo Regresso com a Jane Fonda?”.

“Este é um filme maravilhoso onde ela dá um baile de intepretação, inclusive numa cena de sexo que é coisa mais bonita que já vi na vida. Aquilo é tão puro, de uma beleza incrível, mas é chocante ver todos aqueles ajeitados...Eu acho que a juventude, todo mundo, quer ver coisas alegres...”.

Os pais não são contra a carreira porque, segundo ela, percebem que se trata de um trabalho de alto senso profissional. Nas cenas em que filma nua, por exemplo, faz questão de mandar sair as pessoas estranhas à equipe. “Teve uma filmagem que eu estava fazendo, e alguns amigos do diretor queriam ver; eu falei que não deixava e ele disse que não filmava mais. Aí eu dei uma resposta pra ele: Onde está o seu profissionalismo...?”.

A pergunta que todo espectador deve se fazer de vez em quando: Os atores não ficam excitados?

“Tem atores bons de um incrível profissionalismo, com 50 fitas nas costas, que realmente já se excitaram nas filmagens de algumas cenas. Realmente ninguém é de ferro”.

“Sabe o que acontece? Talvez ninguém tenha dado ainda o valor que eu tenho, o valor interior. Eu concordo que o que é bonito tem que ser mostrado, mas tem também que saber mostrar, desde que esteja dentro da história, do roteiro...É maravilhoso o nu bem feito, bem posado, bem fotografado, desde, é claro, que se tenha condições físicas para mostrar. Eu tenho muito interior, sou muito sensível, tenho realmente a sensibilidade à flor da pele, sabe? Eu gostaria de mostrar isso no cinema, extravasar...na base de olhares, sacadas, muito olho...muito...você está entendendo? Eu não tive oportunidade nem chance...Acontece ás vezes de um diretor te convidar para fazer um filme, você chega, exige o teu preço...Mas tem muita gente entrando em cinema...garotas que estão depravando com isso, fazendo até de graça e os produtores gostam disso, né? Pagar pouco ou nada...Isso está acontecendo muito”.

“Em todo os lugares que vou, sou muito bem tratada. No Festival de Maringá (1979), um assessor do prefeito levantou-se e disse: ‘Olha, foi um prazer muito grande conhecer você, espero que volte...e vou dizer uma coisa...você não é a melhor porque não tem espaço  para você”.

Nessas ocasiões não aparecem fazendeiros velhos, ricos e apaixonados?

“Em primeiro lugar nunca gostei de velho. Quer dizer, respeito muito como amigo e tal, converso, bato papo...Eu amo gente jovem porque sou jovem, amo gente jovem apesar de admirar muito a beleza interior das pessoas, amo falar com pessoas inteligentes. Eu sou muito amada. Eu sou carinhosa e já amei muito...Eu sou muito mulher...Claro que a gente pensa em casar, em ter filhos, sei lá...é legal...Mas nunca o meu lar seria uma rotina. Eu continuaria curtindo, saindo e vestindo da mesma maneira como eu me visto hoje...Curtir marido, filho, tudo bem...agora o dia que der vontade de fazer comida, aí eu faço, dia em que não der vontade não faço...Tá entendendo?”.

O que exige então uma boa infra-estrutura não é?

“Claro! O marido precisa ter dinheiro também, né? (ri) O amor é maravilhoso, lindo, mas o dinheiro, mesmo que não traga felicidade, sem ele é impossível...”

“Os homens dizem que eu boto medo neles...aquele tipo de cara que fica com medo de se amarrar...Mas não é verdade, eu dou muita liberdade às pessoas, para elas se abrirem, comentarem coisas comigo que não falam com outros. Acontecem coisas incríveis comigo. Fui à agência e o cara que estava tratando sobre o desfile comigo – e eu de roupa normal, rabo-de-cavalo, rosto lavado – virou para mim e disse: tem mulheres que fazem cara de taradas, e que não são de nada. Agora, essas que não fazem, porque já têm cara de tarada como você, essas são perigosas, são fogo!”

A uma atriz de pornochanchada não se exige mais que a sua presença física. O movimento da câmara, o enquadramento e posterior trabalho de montagem, fazem tudo por ela. Se o cinema tende, como acreditam muitos, a atrofiar a interpretação do ator (comparada ao desempenho teatral, onde o ator precisa amplificar as emoções), a pornochanchada comprova em toda linha o caráter secundário da intepretação feminina. Em qualquer situação, seja velório, escritório de grande organização, reformatório, praia, festa ou casa de campo, a prioridade constante será sempre o fornecimento de ângulos privilegiados do corpo feminino que desfrute do espectador. A mulher nua, ou melhor, o corpo da mulher nua é o ponto máximo de atração, o ponto básico na decupagem, ainda que isto implique em prejuízo inevitável prejuízo dramático”.

A câmara corre atrás de suas calcinhas, se insinua nos decotes, tal qual adolescente excitado e ainda por cima testemunha o olhar de aprovação da mulher frente a manipulação que se faz de seu corpo como instrumento de excitação. Ela, a personagem feminina, se desqualifica.

Nesse contexto não é de se estranhar a observação agressiva do funcionário da agência de modelos sobre a “cara da tarada” de Zilda Mayo. O espectador vê nos filmes apenas as formas femininas, segmentos desvinculados de qualquer dimensão humana, alheias aos conflitos emocionais, condições que liberam o espectador de maiores responsabilidades psicológicas, pelo menos ao nível consciente. A prevalência da exposição anatômica chega ao ponto de numa cena de choro – que estamos acostumados a relacionar com sentimento ferido, dor física, solidão – vista em O Doador Sexual, a câmera se fixar nas nádegas de Zilda Mayo que se movimentam convulsionamente.

A banalização das personagens femininas repercute na auto imagem das moças que se candidatam à carreira cinematográfica. A maioria absoluta não conseguiu transpor o limiar das meras e pin-ups, mulheres indeterminadas e anônimas cuja função precípua – desde os tempos da 2º Guerra Mundial – é excitar sexualmente o público masculino. Ou alguém se lembra das moças que participam de 19 Mulheres e 1 Homem ou Bandido..., filmes feitos sob medida para o narcisismo de David Cardoso, onde as mulheres apenas reforçam as qualidades e atitudes do eterno mocinho dos pantanais?

A maioria das moças apareceu e desapareceu como por encanto. De origem humilde, vindas do interior ou de empregos como balconistas, operárias, dançarinas, elas trazem apenas a ideia nebulosa de vencer na vida através do cinema, mais acessível que a TV em épocas recentes. Os passos iniciais na carreira incluem invariavelmente desfiles, visitas insistentes a produtores, participação em concursos de beleza, tipo miss suéter, miss óculos, miss tanga internacional (este realizado anualmente na Venezuela e sempre com participação de estrelinhas da pornochanchada) miss qualquer coisa, até a grande chance de aparecer, ainda que rapidamente, num filme qualquer.

Mesmo aquelas que transpuseram o “platô” inicial e se encontram hoje em situação privilegiada, a ponto de exigir salários altos como reconhecimento de sua popularidade junto ao público, sentem um evidente desconforto quanto à carreira. No esforço para obter o reconhecimento “oficial” como atrizes, explicam seus projetos de fazer teatro, incluem referências aos estudos, leituras e outras formas de aperfeiçoamento.

A consciência de que na carreira nada foi solicitado além de sua exterioridade, de sua aparência, do corpo em boa forma (a atriz de pornochanchada, como o jogador de futebol tem vida útil efêmera) vai induzí-las a insistir no plano da interioridade, do não manifesto, as sensibilidade nunca aproveitada. Mesmo que em público, a postura dominante seja tributária do estrelismo hollywoodiano de décadas passadas.

Zélia Martins, “certinha do Lalau” em 1965 – 1966 e 1967, ainda carregando sotaque carioca, com sua experiência em programas humorísticos de TV e shows pela América Latina, se inicia no cinema num filme de Roberto Mauro, interpretando a professora pudica que se transforma radicalmente. Para Zélia, profissional com agenda totalmente preenchida por compromissos e de sua mãe que cuida do patrimônio familiar, as coisas mudaram muito: “O negócio realmente bagunçou. Não que eu seja contra o nu artístico, que se acho lindo. A mulher deve mostrar as pernas, o bumbum desde que tenha condições para isto. Só que o negócio ficou muito vulgar. Você vê nas revistas, é um festival de bumbum, de peito, não tem mais graça...Elas mostram tudo. Na época das certinhas do Lalau era o biquinho, era mais a sugestão, que eu acho muito mais interessante, muito mais erótico. Sou totalmente a favor de sugerir do que mostrar”.

Se Zélia Martins pensa realmente assim, significa que concorda em gênero, número e grau com um dos conceitos masculinos mais arraigados e ao mesmo tempo mais combatidos pelo pensamento feminista atual. Trata-se da ideia de que a mulher, para se valorizar, não deve se expor totalmente e de uma só vez, e sim em doses homeopáticas e com ritmo não muito acelerado. Agindo assim, ela permite ao homem atuar segundo regras “eternamente estabelecidas” que configuram a conquista, a ocupação de território, como prerrogativa inalienável da condição masculina.

O efeito complicador fica por conta de algumas fotos de Zélia, publicadas alguns meses após a tomada de seu depoimento. Ou ela reformulou totalmente seu ponto de vista sobre o assunto ou então, questões profissionais ligadas à sua carreira obrigaram-na a posar nua para algumas revistas.

A reação do público nas salas centrais da cidade é quase sempre ruidosa, plena de onomatopeias, gritos e incentivos ao eventual personagem masculino que se encontre ás voltas com alguma fêmea renitente: “Eu sinto uma sensação de vitória, de triunfo. Sabe por quê? Aquilo que meu personagem propôs, passou. Não acredito que tenha passado porque o cara que assiste é carente sexual. O que não é carente também tem reação, só que não vai demonstrar. Você está entendendo? Então, desde o momento que existe o ah! oh! Aí boazuda...! etc...não sei o que mais...é sinal que algo foi transmitido e registrado. Isso reverte para mim numa bagagem profissional, num pagamento muito grande e de muito valor. Uma vitória. Humildemente eu falo nisso”.


Ainda que a Boca forneça ao mercado exibidor toda uma série de faroestes, melodramas caipiras (de aceitação surpreendente pelo público), policiais, terror, disaster-movies, curtas metragens “culturais”, etc..., são os filmes eróticos a parcela mais significativa do conjunto da produção. Esses filmes se apresentam diferenciados entre si e cobrem um vasto espectro, que vai da pornochanchada mais grotesca até aqueles que pelo acabamento mais requintado passam a ser considerados obras eróticas. Como é o caso de Mulher, Mulher (1979), de Jean Garrett, que conta a história da viúva de um psiquiatra especializado em questões sexuais. Garrett, que conta a história da viúva de um psiquiatra especializado em questões sexuais. Após a morte do marido, ela descobre num dos arquivos os tapes gravados durante as sessões de terapia. A audição deflagra na moça um processo alucinatório, que lhe permite vivenciar inúmeras modalidades de exercícios sexuais. Como se vê, já aflora uma tentativa de estabelecer relações de causalidade: uma mulher solitária e insatisfeita, algumas fitas com depoimentos e um processo em curso. De qualquer forma, os verdadeiros motivos do estrondoso sucesso do filme em todo o território nacional, podem ser atribuídos menos as explicações sobre “uma mulher em busca do orgasmo”, como insinuava a publicidade, do que à presença insinuante de Helena Ramos, interpretando situações inéditas no cinema brasileiro.

A tentativa de realizar filmes com ingredientes que facilitassem sua aceitação em círculos mais amplos que o tradicional público da pornochanchada, exige dos realizadores algum esforço para explicar os exercícios sexuais da viúva. Aqui, particularmente, o avalista – por sinal dos mais ilustres nesse assunto – é Wilhelm Reich. O fato é que não há maiores diferenças entre um filme mal realizado, contendo grossuras inaceitáveis aos olhos de espectadores ou críticos “eruditos”, e um outro filme, que busca através da “consultoria prestigiosa”, a elegância e as boas maneiras.

O mesmo acontece com as revistas destinadas ao público masculino. “Há entre elas, sejam as mais populares (que ainda se baseiam no velho binômio mulher-piada) ou as mais sofisticadas, um denominador comum que são as normas que influem na concepção das fotos para tornar as modelos mais atraentes e excitantes. A nudez, de qualquer forma, nunca vai ser a expressão dos sentimentos, mas apenas um signo de submissão ás demandas do falso proprietário que a obtém no plano visual. Disso decorrem as poses lânguidas e insólitas, verdadeiras acrobacias circenses para aumentar a área de exposição, os banhos de cachoeira, a dog-position ondulante e sugestiva. E, por último, a mulher nua na intimidade, aquela que passa o seu tempo em contínua auto-observação, em poses suficientemente ambíguas para que o texto adapte as imagens às circunstâncias específicas do mercado.

Jean Garrett, que endossava as críticas formuladas na Boca a respeito da suposta hipocrisia de obras que, sob uma capa de proposta social escamoteiam as verdadeiras intenções de explorar comercialmente o sexo, vai adotar em toda a extensão, as regras de bom comportamento. Tanto assim que seus filmes recentes são considerados por muitos (inclusive os exibidores), obras eróticas e não pornochanchadas.


Nascido no arquipélago dos Açores, ele acha que ainda não conseguiu se libertar totalmente da condição de imigrante. “No dia que conseguir isso”, explica, “vou deixar de fazer cinema sensacionalista”. Por enquanto, procura fazer um cinema que consiga certo clímax dramático e envolva a plateia. “Enquanto David Cardoso pretende fazer um cinema onde ele apareça como ator, eu pretendo dirigir filmes onde o cinema apareça. Ele pretende fazer um cinema comercial para ficar rico, e eu faço cinema comercial para não ser afastado do mercado, pelo menos antes que tenha condições de fazer o que eu quero. Então, parece que fazemos quase a mesma coisa, mas com objetivos diferentes”.

O primeiro filme que dirigiu foi A Ilha do Desejo, para David Cardoso. Na época, em 1975, bateu O Poderoso Chefão, Golpe de Mestre e outros sucessos internacionais. Permaneceu cinco semanas em cartaz no cine Marabá e depois mais quatro no República, sala posteriormente demolida para a construção a estação do Metrô. No trabalho seguinte (Amadas e Violentadas), feito para o mesmo produtor, consegue superar a renda do anterior. Oito semanas no Marabá e mais quatro novamente no República. Daí por diante se firmou sua imagem de diretor cuidadoso, estetizante e hábil para desenvolver uma narrativa, uma condição reiterada pelo sucesso – superior ás expectativas dos próprios produtores da Boca – de Mulher, Mulher, onde o impacto maior resulta das cenas em que um cavalo lambe os seios de Helena Ramos, previamente bezuntados com hortelã.

Jean Garrett: “Eu acho que a pornochanchada é, em primeiro lugar, um elemento de contestação à sociedade de consumo. Enquanto muitas pessoas pensam que a pornochanchada é uma válvula de escape para as classes oprimidas, o tiro está saindo pela culatra. Enquanto o corintiano vai ao Pacaembu torcer pelo Corinthians e se livrar de uma série de recalques, preconceitos, frustrações e opressões, o cara que vai ao cinema fica contido, introvertido, ligado a uma tela em que se apresentam mulheres nuas. A mulher que ele tem em casa, ele sabe que em vez dela ter empregada, ela sim é a própria empregada, e não é tão bela, tão bonita como a que se apresenta na tela. Ao invés de ser então uma válvula de escape que dê vazão a uma série de recalques, uma série de neuroses e uma série de frustrações sexuais, vai é superá-las”.

“Eu concordo com Reich. O homem só se libertará totalmente quando ele se libertar sexualmente. Você está, nesses filmes, incentivando a prática do amor, a prática do sexo. A pornochanchada incentiva o homem a fazer sexo. Ele está estimulando a classe oprimida a fazer sexo”.

Mas incentiva o quê? A masturbação?

“Você se acostuma a tal ponto a se masturbar, que acaba achando que é um ato perfeitamente normal. E quando a masturbação passa a ser um ato normal, automático, e elemento básico da vida sexual do homem, ele está começando a se libertar sexualmente. Se o espectador se torna um onanista praticante ele quebra o bloqueio, ele está se libertando...”

E qual a vantagem dele se tornar um onanista praticante?

“Acontece que o processo automático e constante da masturbação acaba com a culpa do subconsciente. E no dia em que acabar a culpa, que desvincular no indivíduo esta ligação, ele começa a se libertar. Aí está a grande contribuição da pornochanchada”.

A argumentação de Garrett expõe o sentido básico da estratégia operada pelo segmento ‘esclarecido’ da Boca, em que a nudez ou o ato sexual não podem mais dispensar consultoria, tratamento estatizante das imagens. Nada disso surpreende, se considerarmos a pornochanchada um gênero cinematográfico. Todo gênero vive um processo acumulativo, onde as inovações se somam a um corpo de regras definidas, ao mesmo tempo que fórmulas gastas vão caindo em desuso até o ostracismo real. O gênero se atualiza periodicamente...

O psicologismo barato, que infesta os produtos da indústria cultural – novelas de TV, best-sellers vendidos até em bancas de jornal ou mesmo filmes importados – está incorporado à produção da Boca. Os anúncios de Mulher, Mulher anunciavam “um tratado sobre a sexualidade feminina”, “a história de uma mulher em busca do orgasmo”. Nada mais nada menos que Reich caucionando um filme de Jean Garrett, inspirado num sucesso de marketing de título Relatório Hite. Mas nem mesmo tão ilustre consultoria evitou que o “tratado” mostrasse Helena Ramos e outras atrizes (na plenitude de suas formas) em enquadramentos manjadíssimos, recitando algumas frases boladas apressadamente, num conjunto que provoca sérias dúvidas quanto à seriedade da obra.

A sensação de coisa mal explicada, de desequilíbrio, procede. Isto se dá porque a imagem aponta para um espaço de argumentação, enquanto a fala se desloca para outro: a imagem num enquadramento de acordo com o padrão-pornochanchada e a fala, segundo uma hipotética norma culta. Em determinada passagem da história, uma universitária, com um livro de sonetos camoniamos na mão, desabafa: “eu não quero ser um mero receotáculo de esperma matrimonial”. Conclui-se que a coerência interna não está, absolutamente, entre as prioridades desta produção “moderna e arejada”. Pelo contrário, o que importa é a plena obediência às injunções do mercado cinematográfico. Esse é o traço básico que define a produção da Boca.

O que destaca o trabalho de Garrett, Cláudio Cunha e, até certo ponto, de David Cardoso – guardando as naturais diferenças entre elas – é a preocupação obsessiva com a boa aparência, a embalagem caprichada, para deixar bem clara a distância em relação ao grosso da produção da Boca, sobre a qual recaiu a pecha de coisa mal acabada, primária e imediatista.

“Eles aprenderam a usar os talheres”, alguém poderia dizer. Cláudio, que tentou em Sábado Alucinante montar um painel da geração travolteana, aproveitando o sucesso da novela Dancing Days, da rede Globo, fez por merecer no primeiro semestre de 1980 a medalha da “Ordem dos Cavaleiros da Cruz de Cristo”. Em Amada Amante, os releases promocionais citavam também uma suposta solução reichiana para os conflitos de uma família transferida do interior, diretamente para a zona sul carioca.

David Cardoso não deixou por menos. Já frequentou as páginas sociais ao lado de membros da família Mellão, num coquetel oferecido á “princesa” Ira de Furstemberg. No seu filme Desejo Selvagem, estrelado por ela e onde mais uma vez o background é o pantanal matogrossense, o personagem principal (interpretado por David Cardoso, é claro!) inclui, entre suas obras de cabeceira, autoras como Graciliano Ramos, W. Reich e A. Camus. E Garrett, que já citara em A Força dos Sentidos frases de HH. P. Lovercraft em meio á música de Rachmaninoff, volta à carga no recente filme A Mulher que Inventou o Amor. Desta vez confirmando sua condição de “Khoury dos 80”, ele inclui na trilha sonora trechos de Brahms, Schumann, Wagner e Vivaldi.

A produção erótica pode ser vista como o índice mais evidente do aburguesamento da Boca. Em outras palavras: depois de ganhar dinheiro, o passo seguinte é procurar uma aparência mais adequada ao novo status, para competir em melhores condições num mercado que se revela cada vez mais complexo. “Todo cineasta de aspiração burguesa cai no filme de tema psicológico. É só ver os filmes que estão por aí”, diz Ody Fraga, ex-jornalista, ex-homem de teatro, ex-diretor de TV e atualmente diretor de dezenas de filmes, roteirista de outros tantos e mentor intelectual para alguns colegas da Boca.

A necessidade de ampliar o público dos filmes, incorporando novos contingentes até então refratários, como por exemplo as mulheres, introduz alterações na própria concepção dos filmes; aproveita profissionais considerados “difíceis” ou “malditos” (J. Silvério Trevisan, Inácio Araújo), exige produção mais cuidada e com requintes de acabamento considerados supérfluos no contexto local. Aproveitando a frase de Oswaldo Massaini, não são filmes para quem gosta de Vulcabrás. Mas sim, para os curtidores de mocassins.

Publicado originalmente em O Imaginário da Boca, por Inimá Ferreira Simões. São Paulo: Secretaria Municipal de Cultura, Departamento de Informação e Documentação Artísticas, Centro de Documentação e Informação sobre Arte Brasileira Contemporânea, 1981. (Cadernos, 6)