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segunda-feira, 28 de novembro de 2022

Mojica early years, parte XV: 1979-83: Deputado Zé do Caixão, às suas ordens

         Capítulo 16: 1979-1983: Deputado Zé do Caixão, ás suas ordens

 

Por André Barcinski e Ivan Finotti

 


          A viagem para a Espanha servira para inflar o ego de Mojica, mas seu bolso continuava vazio. As reportagens publicadas sobre sua premiação no exterior não renderam nenhum convite para novos filmes e, no Brasil, tudo continuava na mesma: cinemas fechavam e produtoras independentes faliam. Mojica não poderia prever, mas Perversão seria o último longa-metragem inteiramente seu a chegar às telas. Dali em diante, trabalharia apenas como diretor contratado. Completamente duro, ele fechou o estúdio da Moóca e ocupou um escritório que pertencia à “milionária assassina”, Elza Leonetti do Amaral, na rua 7 de Abril, centro de São Paulo.

Sua vida pessoal estava um caos absoluto: escondia Fátima de Nilce, Nilce de Maria e, vez por outro, ainda tinha namoricos-relâmpago com outras alunas. Começou a beber cada vez mais. Chegava a virar duas garrafas de licor de menta por dia. Cafezinho, só tomava batizado com rum. Vivia deprimido de tanto álcool e várias vezes teve de ser carregado para casa. Nilce, deprimida, pegou sua filha Nilcinha e foi morar na casa de sua amiga Elza Leonetti, no Itaim Bibi.

Por volta de março de 1979, Mojica atingiu o fundo do poço. Estava a um passo da mendicância. Desesperado, reuniu os últimos alunos que lhe restavam e começou uma campanha, batizada de “Faxina em Prol do Cinema Nacional”. Todo dia a turma ia de porta em porta, no Brás e na Moóca, oferecendo faxina de graça em troca de revistas velhas, que depois eram vendidas para bancas de jornal do centro da cidade. Nilce também começou a se virar como pôde: ela pegava saquinhos de plástico, fazia kits com um exemplar do livro Sentença de Deus, um gibi de Zé do Caixão e um compacto com a marchinha “Castelo dos Horrores”, e saía vendendo os pacotinhos pela rua, dizendo que era para ajudar os cegos e paralíticos.

Em julho, Mojica procurou os jornais para anunciar que estava colocando à venda sua coleção de gibis. Eram mais de quatro mil revistas, muitas raríssimas, que guardara desde a infância e das quais nunca sonhara em se desfazer. Para ele, acostumado a procurar a imprensa para divulgar um novo filme ou projeto, foi uma humilhação ter de confessar sua penúria e apelar para a caridade alheia.

Apesar das várias matérias publicadas, ninguém se interessou pela gibiteca. Mojica, precisando urgentemente de dinheiro, fantasiou-se de Zé do Caixão e foi com Elza Leonetti para a praça Ramos, no centro de São Paulo, onde montou uma barraquinha para vender os gibis. Foram os dias mais tristes de sua vida: multidões paravam para rir daquela insólita dupla de camelôs: pedestres faziam piadas e o ridicularizavam. Mojica sentiu-se como uma atração de circo. A humilhação acabou compensada pela venda de várias revistas, que lhe garantiram sustento por mais alguns dias.

Mesmo passando por tantas dificuldades financeiras, Mojica nunca desistiu de filmar: vivia caçando produtores na Boca do Lixo, mostrando seus roteiros e tentando convencer alguém a financiar a continuação da saga de Zé do Caixão. Ninguém lhe dava bola. Cansados de esperar, alguns alunos resolveram fazer uma coleta para produzir um filme. Arrecadaram uma mixaria. Mojica fez os cálculos e disse que, com aquele dinheiro, só teriam condições de usar filme Super-8, muito mais barato que o negativo de 35 mm normalmente usando em fitas profissionais. Alguém sugeriu filmar em Super-8 e depois ampliar para 35 mm. Essas ampliações invariavelmente resultavam em imagens granuladas e de pouca definição, mas Mojica não estava preocupado com a qualidade. Só queria filmar.

Ele reuniu a equipe numa salinha no bairro do Pari e rodou A Praga, história de um homem cujo corpo começa a apodrecer depois de ser amaldiçoado por uma bruxa. O roteiro havia sido escrito por Rubens Lucchetti para um episódio do programa Além, Muito Além do Além, e fora adaptado para quadrinhos na revista O Estranho Mundo de Zé do Caixão, número 3. O filme foi inteiramente rodado, mas faltou dinheiro para a montagem e o projeto acabou esquecido.

Logo depois, Mojica decidiu filmar um curta-metragem para aproveitar a lei que obrigava os cinemas a exibir um curta nacional em cada sessão de filme estrangeiro. Era uma mamata: qualquer porcaria passava – até 1984, não existia sequer uma comissão de seleção dos curtas – e o produtor recebia 5% da bilheteria das produções estrangeiras. Quem desse a sorte de ter seu curta-metragem exibido junto a um filme de sucesso como Contatos Imediatos de Terceiro Grau ou Os Embalos de Sábado à Noite poderia ficar rico da noite para o dia.

Os cinemas brasileiros foram subitamente invadidos por dezenas de curtas sobre cerzideiras nordestinas, concursos de pipa em Realengo e artistas plásticos piauienses. Muitos diretores fizeram seu pé-de-meia com esses filmes: Nilo Machado, o maior gênio da trambicagem cinematográfica brasileira, fez dezenas de curtas usando colagens de velhos filmes estrangeiros, que ele comprava aos quilos (um dos mais famosos foi Ginástica – Base Para Uma Boa Saúde, totalmente montado a partir de um filme sueco que mostrava um bando de garotas brincando de bambolê).

Mojica convenceu sua turma a fazer outra “vaquinha” e rodou nada menos de cinco curtas-metragens em um mês. Ele não escondeu do pessoal que só estava fazendo esses filmes pela grana: seriam todos rodados às pressas, sem muito capricho, e serviriam apenas para faturar um troco e dar mais experiência à turma. Seu plano era usar o dinheiro que ganhassem com os curtas para produzir filmes melhores.

O primeiro curta-metragem foi A Imigrante (Simplesmente Mulher), que nada mais era do que a história da vida de Nilce. Ela chegou a ficar emocionada com a homenagem, antes de descobrir que Mojica havia convidado a amante Fátima para interpretar o papel principal. Em seguida, ele rodou um filme experimental sobre a automatização da sociedade, chamado Evolução- Homem versus Máquina: A Luta do Século no Planeta dos Botões. O curta – interessante apesar da precariedade da produção – consistia de vários flagrantes de pessoas, na rua e no trabalho, fazendo gestos robotizados e apertando botões. A montagem ficava cada vez mais acelerada, mostrando uma infinidade de botões – em elevadores, calculadoras, máquinas registradoras – até que alguém aperta o botão da bomba atômica e o mundo explode. O filme termina mostrando o homem de volta ao tempo das cavernas, comendo carne crua e carregando uma clava.

Mojica depois fez dois curtas de protesto, É Proibido Caças Produtores de Cinema – Espécie em Extinção, sobre um produtor que comete suicídio depois de ver seu filme fracassar, e Justiça, Justiça, história de um ator que se aproveitava da bondade de seu produtor (interpretado pelo pai de Nilce, Antônio Feo) e depois rouba seu dinheiro. Este filme foi inspirado no episódio envolvendo o ator Amaury Silva, que anos antes ganhara uma ação trabalhista contra Mojica depois de morar de graça em seu estúdio.

O papel do ator desonesto em Justiça, Justiça ficou com Carlos Alberto de Mattos, um aluno mais conhecido por “Tarzan”. Cinco anos mais tarde, provavelmente inspirado por seu personagem, ele entraria com um processo contra Mojica, alegando que trabalhara por vários anos sem receber nada. Só que Tarzan não parecia bater muito bem da cabeça: no tribunal, disse que morava para lá de Ribeirão Preto, a quarto horas do estúdio. Quando o juiz perguntou como ele conseguia trabalhar num lugar tão longe e gastar oito horas por dia num ônibus – quatro para ir e quatro para voltar – Tarzan afirmou que só conseguia porque havia feito um curso de sobrevivência na selva, onde aprendera a suportar qualquer privação. O juiz, irritado, mandou arquivar o processo e ameaçou prendê-lo, caso continuasse mentindo.

O último curta-metragem da série foi Brincadeira Fatal, inspirado por um episódio verídico ocorrido com o aluno Manoel Cardoso, um louco de pedra. Mojica tinha dó do rapaz, e até deixou que ele morasse no estúdio por uns tempos. Certa noite, alguns alunos resolveram pregar uma peça em Manoel: esconderam-se no estúdio e, de madrugada, começaram a imitar fantasmas: “Uuuuhhhhh! Manoel, viemos buscar a sua alma!”. Ele ficou apavorado. Um dos engraçadinhos se meteu debaixo de um lençol e tentou assustá-lo. Manoel tomou coragem, sacou um canivete e furou a barriga do “fantasma”. Depois, saiu comemorando pelas ruas: “Sou um herói! Matei o fantasma do estúdio do Zé do Caixão!”. O ferido foi levado para o pronto-socorro, e Manoel, para a delegacia.

Dos cinco curtas, somente os dois primeiros – A Imigrante e Evolução – foram distribuídos comercialmente. Os três últimos nem chegaram a ser sonorizados. Mojica acertou a exibição dos filmes com o dono de um grande circuito de cinemas no Rio de Janeiro, mas o sujeito passou a bola para o filho – um conhecido traficante e cocainômano – que nunca pagou tudo que devia.

 

Em setembro de 1980, nasceu Rose, segunda filha de Nilce e Mojica. Nilce tinha esperança de que o nascimento da menina finalmente convencesse Mojica a ir morar com ela e as filhas. A situação bem que levava a crer que isso acabaria acontecendo: o romance de Mojica e Maria estava no fim e ele decidira, depois de anos de adiamentos, entrar com um pedido de divórcio de Rosita (o desquite sairia em 1981). Além do mais, seus filhos com Maria e Rosita já estavam crescidos. Se havia alguém precisando de um pai, era Nilcinha e a recém-nascida Rose. Quando tudo parecia caminhar para um final feliz, veio a bomba: Fátima estava grávida de Mojica. Nilce ficou arrasada. Pediu demissão do estúdio e arrumou emprego numa confecção. Estava resolvida a largar o cinema e nunca mais procurar Mojica.

A situação de Fátima também era crítica: sua família não aceitou a gravidez e a expulsou de casa. Sem ter onde ficar, foi morar com a mãe de Mojica, dona Carmen, num pequeno apartamento no Brás. Ela passou meses dormindo num sofá desconfortável, sem dinheiro para fazer qualquer exame pré-natal e sobrevivendo da aposentadoria de dona Carmen. Quando nasceu seu filho, Denilson, em abril de 1981, ela não tinha dinheiro sequer para comprar mamadeiras ou fraldas. O bebê dormia no gavetão de uma cômoda. Alguns meses depois, foram despejados do apartamento e acabaram nos fundos de uma garagem, onde nem cômoda havia. Fátima e a criança dormiam no chão.

 

Enquanto isso, Mojica continuava a viver de biscates e aparições em festas. Chegou a montar um pequeno grupo teatral para apresentar-se em bailes, encenando esquetes mambembes nas quais saía de seu caixão e rogava pragas para a plateia, enquanto seus alunos, fantasiados de monstros, entretinham o público. O destaque da trupe era Jurandir, um sujeito que tinha pernas mecânicas e duas garras de aço no lugar dos braços, capaz de apavorar qualquer plateia.

Mojica não sentia prazer algum em participar desses shows. Na verdade, achava uma amolação ter de despencar até o subúrbio para encenar esquetes tão furrecas e constrangedoras. O público só tinha duas reações: ou caía na gargalhada com o ridículo da cena ou vaiava impiedosamente. Mas Mojica não tinha opção; era isso ou vender gibis na rua. Para aliviar sua depressão, bebia cada vez mais.

Sua constante embriaguez causou diversos problemas durante as apresentações de seu grupinho teatral: certo dia ele foi convidado por um amigo, o empresário Samuel Moura, para participar do “Baile das Bruxas”, uma festa a fantasia num clube em Jundiaí, perto de São Paulo. Uma semana antes do baile, Mojica precisou ir a Belo Horizonte dar aulas numa escolinha de atores, mas garantiu que voltaria logo para São Paulo. Os dias foram passando e nada de ele voltar. Samuel, desesperado, mandou um assistente buscá-lo em Belo Horizonte. O sujeito caçou Mojica por toda a cidade e só o encontrou na manhã do baile, bêbado de cair. Levou-o para o aeroporto e marcou um voo para aquela mesma noite, mas na hora do embarque desabou um temporal na capital mineira e o avião não pôde decolar.

Samuel estava dentro do clube quando recebeu a notícia de que Mojica não viria. Do lado de fora, mais de 2 mil pessoas – fantasiadas de diabos e bruxas - esperavam na fila. Ele procurou um dos diretores do clube e contou tudo. O sujeito ficou tão irritado que começou a arremessar cadeiras contra uma parede. Os outros diretores deram no pé, com medo de serem linchados. O baile foi cancelado e Samuel perdeu um bom dinheiro.

Isso foi fichinha perto de um show em Araçoiaba da Serra, 110 quilômetros a oeste de São Paulo. No dia marcado, Mojica estava novamente dando aulas em Belo Horizonte. Samuel, com medo de um novo fiasco, resolveu buscá-lo pessoalmente. Durante o voo para São Paulo, Mojica roubou três garrafas de vinho do carrinho da aeromoça e chegou totalmente chumbado. Já passava das onze da noite quando chegaram a Araçoiaba da Serra. Mojica não conseguia nem andar: caiu duro num sofá e só acordou á uma da manhã, quando foi colocado no caixão e carregado para o palco, totalmente grogue. O público, que à essa altura já achava que Zé do Caixão havia dado o cano, invadiu o palco para ver mais de perto. No meio do fuzuê, um sujeito, conhecido na cidade como “Capeta”, chegou perto de Mojica e arrancou-lhe uma das unhas da mão. Depois saiu gritando: “Viva! Arranquei a unha do Zé do Caixão!”. Mojica, chorando de dor, voltou correndo para o camarim, e o delegado teve de intervir para que o baile não terminasse em batalha campal.

 

Não faltavam ofertas de trabalho para Mojica, mas sua falta de organização e irresponsabilidade punham tudo a perder. Ele foi convidado para aparecer em diversos programas de rádio e na TV, mas vivia bêbado e nunca cumpria os horários. Sua grande chance de recuperação surgiria em julho de 1981, quando a TV Record o convidou para estrear um novo programa.

A emissora estava passando por uma fase difícil com a inauguração da TVS, o novo canal de Sílvio Santos, que havia contratado alguns dos maiores nomes da Record, como Jacinto Figueira Jr., que apresentava O Homem do Sapato Branco, um show de entrevistas especializado em “mundo-cão”. A Record pensou em criar um programa de auditório com Zé do Caixão, no qual ele apresentaria cantores e faria concursos de calouros. Chegaram a rodar um piloto, mas o resultado foi tão ruim, que o projeto foi imediatamente engavetado. Foi então que a TVS anunciou que O Homem do Sapato Branco entraria no ar aos sábados às onze da noite. A Record resolveu colocar Zé do Caixão para disputar cabeça a cabeça com Figueira Jr., e sugeriu a Mojica um programa popularesco sobre terror e esoterismo. Três semanas depois, estrearia Um Show de Outro Mundo.

O novo programa misturava episódios fictícios (roteirizados por Norbert Novotny, amigo de Mojica), com apresentações de todo tipo de rituais esdrúxulos e macabros. Mojica exibiu um sujeito que dizia ser lobisomem, um artista de rua – Dito Satã – que comia cobras vivas, e um mago chamado Augustok, que atravessava a própria garganta com um espeto de churrasco. Também apresentou um ritual de satanismo comandado pela “diabóloga” Lina Capeta e um casamento de umbanda celebrado por Pai Jaú que, antes de ser macumbeiro, ganhava a vida como zagueiro do Corinthians.

A novidade do programa era a presença de um “júri” composto por supostos especialistas em fenômenos sobrenaturais, que analisavam as bizarrices mostradas. Participaram do grupo de jurados o padre Quevedo, líder de um instituto em estudos parapsicológicos; Jamil Rachid, presidente da Federação dos Umbandistas de São Paulo, e Arlete Moreira, atriz de Perversão e figurante dos Trapalhões.

Mesmo com o novo emprego e as novas responsabilidades, Mojica não parava de beber. Às vezes chegava tão biritado ao set, que precisava se amparar em cadeiras, para não cair. No dia da gravação do primeiro programa, tiveram de tirá-lo à força da casa do amigo Francisco Cavalcanti, onde estava há 48 horas jogando pôquer. O diretor artístico da Record, Hélio Ansaldo, proibiu o pessoal de beber em dia de filmagem, mas não adiantou: Mojica mandava um de seus assistentes encher uma garrafa de guaraná com pinga e fingia estar tomando refrigerante.

Apesar de todos os problemas, os índices de audiência foram surpreendentes: o primeiro programa deu quase trinta pontos, equivalente a metade dos televisores ligados no horário e a um público de quase 2 milhões de pessoas, só em São Paulo. Mesmo com a estreia de O Homem do Sapato Branco, em 22 de agosto – o que causou uma queda considerável na audiência de Mojica – seus números permaneceram fortes: sua média durante o mês de agosto foi de dezenove pontos (1,2 milhão de espectadores).

A crítica, no entanto, saiu matando: Gabriel Priolli Netto, da Folha de S. Paulo, disse que preferia ver mais terror e menos “mundo-cão”. Na Folha da Tarde, o jornalista Ferreira Netto – que havia transferido seu programa de entrevistas da Record para a TVS – criticou sua ex-emissora e zombou do português de Mojica: “Aviso ao mocinho: ‘pograma’ não existe; ‘exprocação’ também não”. (Netto encerrou a coluna escrevendo “prevaleceu” com “S”).

Com o sucesso na TV, alguns produtores voltaram a procurar Mojica: Enzo Barone, que começara sua carreira em cinema trabalhando como ator em O Estranho Mundo de Zé do Caixão, disse que havia comprado, num leilão do interior, a carcaça de um velho avião, com poltronas e tudo o mais, e queria usá-la num filme. Mojica pediu ajuda ao filho, Crounel, e em poucos dias escreveram o roteiro de O Diabólico Voo de Zé do Caixão, sobre um avião que é sequestrado por Zé e levado para outra dimensão, sobre um avião que transformaram nas figuras históricas com as quais mais se identificam. Assim, um passageiro transforma-se em Hitler, outro em Napoleão, um terceiro em Jesus Cristo, e por aí vai. Barone chegou a convidar Anselmo Duarte e o famoso grupo de discoteca As Frenéticas para atuar no filme, mas o projeto acabou ficando muito caro e nunca foi levado adiante.

Mojica ficou tão entretido na produção da fita que se descuidou totalmente do programa de TV: chegava sempre atrasado às filmagens, não decorava suas falar e faltou diversas vezes. O show caiu de qualidade e a audiência despencou: de dezenove pontos em agosto, passou para nove em setembro e seis em outubro. A Record ainda tentou transferir o programa para domingo, mas não houve jeito: no fim de outubro, apenas três meses depois da estreia, Um Show do Outro Mundo foi cancelado.

 

Não havia passado uma semana desde sua demissão da Record, quando Mojica foi com seu parceiro Mário Lima à Câmara dos Vereadores de São Paulo visitar um amigo, que havia prometido conseguir dinheiro para um filme. A Câmara vivia um período de intensa agitação, por causa das eleições marcadas para dali a um ano. Nos corredores, políticos faziam alianças estratégicas e tentavam atrair bons nomes para suas chapas. Mojica mal colocou os pés no recinto e foi logo abordado por vários vereadores, que o convidavam a se candidatar a um cargo público:

- Você é muito famoso, Zé, não quer ser candidato? Podemos fazer um bom par, você como deputado e eu como vereador – disse um sujeito do PMDB.  

- É, mas tem que ser no PDS – respondeu outro, puxando-o pelo braço.

Em cinco minutos, ele recebeu convites de todos os partidos e tendências, do mais reacionário direitista do PDS ao mais xiita dos petistas.

O tal amigo de Mário Lima trabalhava no Partido Popular (PP), um grupo liderado por Tancredo Neves e egresso da ala moderada do antigo MDB. Mojica foi apresentado ao presidente regional do PP, o banqueiro Olavo Setúbal, dono do Itaú, que imediatamente o convidou para ingressar no partido e candidatar-se a deputado estadual:

- Você é muito importante para nós. Se resolver sair candidato pelo PP, garantimos todo o apoio!

O PP, assim como todos os outros partidos, estava realmente desesperado atrás de candidatos. Pouco antes, um novo pacote eleitoral proibia as coligações partidárias, o que intensificou a luta por candidatos de peso. Na corrida para ganhar votos valia qualquer coisa: o próprio PP havia convidado Solange Joubert, a autoproclamada “rainha das massagistas” – e imortal da Academia de Letras do Vale do Paraíba, por sua obra Estes Homens Passaram por Minha Mesa de Massagem – para concorrer a uma vaga na Assembleia Legislativa. Agora era a vez de Zé do Caixão.

 

Mojica nunca havia sonhado em entrar para a política e não entendia nada do assunto. Quando lhe perguntavam sua posição ideológica, dizia situar-se “em algum lugar entre a esquerda e a direita, mais para o meio”. Era impossível negar, no entanto, que aquela bajulação toda não lhe havia subido à cabeça: por que não poderia ser um deputado? Se todos aqueles políticos já davam como certa sua vitória, por que não arriscar? Afinal, um deputado ganhava bem, tinha privilégios, e tudo que ele precisava naquela hora era um empreguinho bom. Resolveu aceitar.

Se houve uma classe de profissionais que se favoreceu de imediato com a candidatura de Zé do Caixão, foi a dos jornalistas. Nunca foi fácil criar manchetes bacanas. Algumas das melhores: “O candidato das forças ocultas”; “Zé do Caixão garante que não será um político-fantasma”; “horror na Assembleia”; “Mojica, uma luz nas trevas da política”; “O candidato que é um horror” e “Da urna funerária à urna eleitoral”.

Em entrevistas, Mojica afirmava que, caso eleito, concentraria seus esforços na defesa de três classes que considerava as mais desprivilegiadas do país: os coveiros, os lixeiros e os cineastas. “São pessoas que ninguém gosta, mas todo mundo precisa”. Quando um repórter lhe perguntou por que havia escolhido o PP, um “partido de banqueiros”, ele retrucou: “É melhor que sejam banqueiros, assim já são ricos e não precisam mais roubar. Pior seria se eu tivesse me juntado a uns mortos de fome!”. Depois, disse que a política nacional se assemelhava a um filme de ficção-científica e terror: “Veja só, os candidatos prometem mundos e fundos e, depois de eleitos, desaparecem, como se fossem tragados por um disco voador para outra dimensão. Só aparecem de novo na época de outra eleição. Parecem umas múmias, que só acordam de tempos em tempos”.

Sua plataforma incluía a proibição de seriados de TV americanos (“Precisamos prestigiar os programas brasileiros!”) e cursos obrigatórios de tiro para vigias noturnos (“Esses coitados arriscam a vida para proteger a família brasileira e nem aprender a atirar; é um absurdo!”). Mas ele também tinha boas ideias para incentivar o cinema nacional, como a criação de escolas para formar técnicos de laboratórios onde cineastas independentes pudessem revelar seus filmes por preços mais baixos.

Poucos dias antes de Mojica formalizar sua candidatura, o PP fundiu-se ao PMDB. No novo partido, o mais poderoso do país, não haveria lugar para Zé do Caixão. Foi então que o radialista Fernando Silveira, candidato a deputado estadual pelo PTB, convidou-o para se filiar a seu partido, prometendo arcar com todos os custos da campanha caso Mojica topasse aparecer ao seu lado em cartazes e santinhos. Só havia um problema: como Silveira já estava concorrendo a deputado estadual, Mojica, se quisesse entrar numa dobradinha, teria que se candidatar a deputado federal – uma parada muito mais dura. Mesmo assim, ele topou. Na mesma hora, Silveira o levou para o diretório central do PTB, na avenida Angélica, onde o apresentou a Ivete Vargas, filha de Getúlio, que preencheu pessoalmente sua ficha de inscrição. Mojica saiu empolgado: “Pô, a filha do Getúlio Vargas preencheu minha ficha! Esse partido é bom mesmo!”.

O candidato do PTB ao governo de São Paulo era outro velho conhecido de “forças ocultas”: Jânio Quadros. Mojica foi apresentado ao ex-presidente, que logo o convidou para um bate-papo em seu apartamento. No dia combinado, Mojica foi à casa de Jânio. Não passava das dez da manhã quando tocou a campainha. Jânio atendeu a porta de pijamas e chinelos. Bem-humorado, levou-o para a mesa da sala, onde sua esposa, dona Eloá, serviu suco de laranja e biscoitos.

- José, quero que você saiba que sua presença é muito importante para nós – disse o ex-presidente. – Você é uma pessoa de nome, pode atrair muitos votos!
          Mojica só balançava a cabeça, concordando. De vez em quando soltava uns “é claro”, “sim, sim”, mas na maior parte do tempo ouviu calado. Jânio pediu que não esquecesse de incluir seu nome para governador em todos os santinhos, e disse que Mojica teria de trabalhar muito para se eleger:

- Tem que fazer campanha o tempo todo, sem descanso. É preciso fazer como eu, que acordo todo dia às seis da manhã e durmo à meia-noite! (Mojica continuaria dormindo às seis da manhã e acordando meio-dia). Jânio deu dicas de como falar em comícios, e reiterou a importância da campanha corpo-a-corpo. Aí, Mojica falou pela primeira vez:

- Jânio, estou com um problema muito sério...Eu não tenho dinheiro para a campanha...

- Eu também não tenho pra te dar, mas vou te passar o telefone de dois amigos que podem te ajudar...

Os amigos de Jânio eram o dono de uma fábrica de embalagens em Santo Amaro e o proprietário de uma casa lotérica. Também não tinham grana, mas prometeram emprestar uma kombi para a campanha. Já a dobradinha com Fernando Silveira não deu certo: os dois brigaram e Mojica acabou se juntando aos candidatos Fábio Porchat (deputado estadual) e Fábio Fleming (vereador), que também se dispuseram a imprimir cartazes e santinhos, com a condição de que ele os apoiasse. Alguns dias depois, Mojica recebeu do Tribunal Regional Eleitoral (TER) a oficialização de sua candidatura: Zé do Caixão, candidato a deputado federal pelo Partido Trabalhista Brasileiro, com o número 430. Até soava bem.

Mojica logo percebeu que campanha política não era brincadeira: ele começou a ser chamado para reuniões do partido e encontros com políticos. Gostava especialmente das reuniões de cúpula do PTB, no centro, porque serviam uísque importado com amendoim. Mas nunca bebeu além da conta, pelo menos na presença dos graúdos. Sempre que avistava Jânio, Ivete Vargas ou algum outro figurão, maneirava na birita. Vexame mesmo só deu numa convenção do partido em São José dos Campos, quando subiu ao palanque com duas garrafas de Tatuzinho na cuca e fez um discurso que ficou para a história da política joseense:

- A quem pertence a terra? A Deus? Ao Diabo? Ou aos espíritos desencarnados? Meus eleitores, a besta está chegando para tomar a terra e o leite das crianças! Vamos dar leite pras crianças! Temos que dar leite pras crianças!

Num comício no Anhangabaú, Mojica foi rodeado por um grupo de motoristas de ônibus, que queriam saber mais sobre sua plataforma. Ele disse que pretendia liberar o jogo do bicho e legalizar a prostituição, inclusive dando 13º salário e benefícios às profissionais do ramo. Depois de se recuperar do baque, um dos motoristas perguntou o que ele pretendia fazer pela economia. Mojica, longe de ser um Galbraith, respondeu:

- Vou aumentar os juros da poupança! Vamos ficar ricos!

Os motoristas disseram que, se ele aumentasse os juros da poupança, as lojas também aumentariam seus preços, e ficaria tudo na mesma.

- Não, não, você vai ver! Vamos aumentar a poupança sempre mais que a inflação! Confiem em mim!

A campanha de Mojica era realmente revolucionária: ele substituiu o tradicional “corpo-a-corpo” pelo “copo-a-copo”: todo dia, visitava um bairro diferente e fazia a ronda dos botecos, enchendo a cara com os eleitores e divulgando sua plataforma, entre um gole e outro de Velho Barreiro. Enquanto isso, a candidatura de Jânio não decolava: os institutos de pesquisa anunciavam uma liderança folgada de Franco Montoro, do PMDB, seguido de longe por Reinaldo de Barros, do PDS. Jânio só aparecia em terceiro, empatado com Lula, do PT.

Para dar impulso à campanha, o PTB marcou um grande comício para o dia 9 de outubro em Sapopempa, na zona leste. As maiores atrações, além da presença de Jânio e Ivete Vargas, seriam um show de Moacir Franco – também candidato – e um concurso de sósias de Getúlio Vargas, Sílvio Santos e Pedro de Lara. O evento foi visto como a última grande cartada de Jânio. Ele declarou aos jornais que, se não conseguisse levar pelo menos 20 mil pessoas a Sapopemba, renunciaria à candidatura. Todos os candidatos do PTB foram convocados a discursar, inclusive Zé do Caixão.

Jânio cumpriu sua promessa: bem mais de 20 mil pessoas compareceram ao comício. Naquela manhã, Mojica vestiu um terno, encontrou-se com o amigo Samuel Moura e partiram juntos para Sapopemba. Antes, porém, deram uma paradinha na casa de Elza Leonetti, onde Mojica matou meio litro de Cinzano. Acabaram chegando atrasados ao comício. Largaram o carro numa esquina qualquer e só então perceberam que haviam estacionado ao lado errado, próximo à multidão e longe do palanque. Tiveram que atravessar a massa a pé, cortando pelo meio do povão. Mojica era reconhecido e abraçado. Foi um sufoco. Levaram quase uma hora para alcançar o palanque e, quando chegaram, os discursos já haviam terminado. Mojica não pôde discursas e ainda sofreu a humilhação de ouvir o apresentador chamá-lo de “José Maria Marin”.

Com todas essas galhofadas, não foi surpresa alguma quando saiu o resultado da eleição: Zé do Caixão obteve 1.228 votos, ficando em 61º lugar entre os 71 candidatos do PTV. Na classificação geral, ficou em 256º lugar entre os 278 candidatos. Jânio acabou mesmo em terceiro, atrás de Franco Montoro e Reinaldo de Barros. Os parceiros de Mojica também entraram pelo cano: nenhum dos Fábios, nem Porchat nem Fleming, conseguiu se eleger. Mojica depois acusou o TRE de ter anulado os votos dados a Zé do Caixão e computado apenas as cédulas com seu nome verdadeiro, mas a reclamação não procedia: em sua ficha de inscrição, ele havia registrado tanto o nome José Mojica Marins quanto Zé do Caixão.

 

Publicado originalmente em BARCINSKI, André & FINOTTI, Ivan. Maldito: a vida e o cinema de José Mojica Marins, o Zé do Caixão. São Paulo: Editora 34, 1998.

quinta-feira, 29 de setembro de 2022

Especial Mojica nas Eleições: Zé do Caixão candidato para Deputado Federal em 1982

 


Por André Barcinski e Ivan Finotti

 


Não havia passado uma semana desde sua demissão da Record, quando Mojica foi com seu parceiro Mário Lima à Câmara dos Vereadores de São Paulo visitar um amigo, que havia prometido conseguir dinheiro para um filme. A Câmara vivia um período de intensa agitação, por causa das eleições marcadas para dali a um ano. Nos corredores, políticos faziam alianças estratégicas e tentavam atrair bons nomes para suas chapas. Mojica mal colocou os pés no recinto e foi logo abordado por vários vereadores, que o convidavam a se candidatar a um cargo público:

- Você é muito famoso, Zé, não quer ser candidato? Podemos fazer um bom par, você como deputado e eu como vereador – disse um sujeito do PMDB.  

- É, mas tem que ser no PDS – respondeu outro, puxando-o pelo braço.

Em cinco minutos, ele recebeu convites de todos os partidos e tendências, do mais reacionário direitista do PDS ao mais xiita dos petistas.

O tal amigo de Mário Lima trabalhava no Partido Popular (PP), um grupo liderado por Tancredo Neves e egresso da ala moderada do antigo MDB. Mojica foi apresentado ao presidente regional do PP, o banqueiro Olavo Setúbal, dono do Itaú, que imediatamente o convidou para ingressar no partido e candidatar-se a deputado estadual:

- Você é muito importante para nós. Se resolver sair candidato pelo PP, garantimos todo o apoio!

O PP, assim como todos os outros partidos, estava realmente desesperado atrás de candidatos. Pouco antes, um novo pacote eleitoral proibia as coligações partidárias, o que intensificou a luta por candidatos de peso. Na corrida para ganhar votos valia qualquer coisa: o próprio PP havia convidado Solange Jobert, a autoproclamada “rainha das massagistas” – e imortal da Academia de Letras do Vale do Paraíba, por sua obra Estes Homens Passaram por Minha Mesa de Massagem – para concorrer a uma vaga na Assembleia Legislativa. Agora era a vez de Zé do Caixão.

 

Mojica nunca havia sonhado em entrar para a política e não entendia nada do assunto. Quando lhe perguntavam sua posição ideológica, dizia situar-se “em algum lugar entre a esquerda e a direita, mais para o meio”. Era impossível negar, no entanto, que aquela bajulação toda não lhe havia subido à cabeça: por que não poderia ser um deputado? Se todos aqueles políticos já davam como certa sua vitória, por que não arriscar? Afinal, um deputado ganhava bem, tinha privilégios, e tudo que ele precisava naquela hora era um empreguinho bom. Resolveu aceitar.

Se houve uma classe de profissionais que se favoreceu de imediato com a candidatura de Zé do Caixão, foi a dos jornalistas. Nunca foi fácil criar manchetes bacanas. Algumas das melhores: “O candidato das forças ocultas”; “Zé do Caixão garante que não será um político-fantasma”; “horror na Assembleia”; “Mojica, uma luz nas trevas da política”; “O candidato que é um horror” e “Da urna funerária à urna eleitoral”.

Em entrevistas, Mojica afirmava que, caso eleito, concentraria seus esforços na defesa de três classes que considerava as mais desprivilegiadas do país: os coveiros, os lixeiros e os cineastas. “São pessoas que ninguém gosta, mas todo mundo precisa”. Quando um repórter lhe perguntou por que havia escolhido o PP, um “partido de banqueiros”, ele retrucou: “É melhor que sejam banqueiros, assim já são ricos e não precisam mais roubar. Pior seria se eu tivesse me juntado a uns mortos de fome!”. Depois, disse que a política nacional se assemelhava a um filme de ficção-científica e terror: “Veja só, os candidatos prometem mundos e fundos e, depois de eleitos, desaparecem, como se fossem tragados por um disco voador para outra dimensão. Só aparecem de novo na época de outra eleição. Parecem umas múmias, que só acordam de tempos em tempos”.

Sua plataforma incluía a proibição de seriados de TV americanos (“Precisamos prestigiar os programas brasileiros!”) e cursos obrigatórios de tiro para vigias noturnos (“Esses coitados arriscam a vida para proteger a família brasileira e nem aprender a atirar; é um absurdo!”). Mas ele também tinha boas ideias para incentivar o cinema nacional, como a criação de escolas para formar técnicos de laboratórios onde cineastas independentes pudessem revelar seus filmes por preços mais baixos.

Poucos dias antes de Mojica formalizar sua candidatura, o PP fundiu-se ao PMDB. No novo partido, o mais poderoso do país, não haveria lugar para Zé do Caixão. Foi então que o radialista Fernando Silveira, candidato a deputado estadual pelo PTB, convidou-o para se filiar a seu partido, prometendo arcar com todos os custos da campanha caso Mojica topasse aparecer ao seu lado em cartazes e santinhos. Só havia um problema: como Silveira já estava concorrendo a deputado estadual, Mojica, se quisesse entrar numa dobradinha, teria que se candidatar a deputado federal – uma parada muito mais dura. Mesmo assim, ele topou. Na mesma hora, Silveira o levou para o diretório central do PTB, na avenida Angélica, onde o apresentou a Ivete Vargas, filha de Getúlio, que preencheu pessoalmente sua ficha de inscrição. Mojica saiu empolgado: “Pô, a filha do Getúlio Vargas preencheu minha ficha! Esse partido é bom mesmo!”.

O candidato do PTB ao governo de São Paulo era outro velho conhecido de “forças ocultas”: Jânio Quadros. Mojica foi apresentado ao ex-presidente, que logo o convidou para um bate-papo em seu apartamento. No dia combinado, Mojica foi à casa de Jânio. Não passava das dez da manhã quando tocou a campainha. Jânio atendeu a porta de pijamas e chinelos. Bem-humorado, levou-o para a mesa da sala, onde sua esposa, dona Eloá, serviu suco de laranja e biscoitos.

- José, quero que você saiba que sua presença é muito importante para nós – disse o ex-presidente. – Você é uma pessoa de nome, pode atrair muitos votos!
         Mojica só balançava a cabeça, concordando. De vez em quando soltava uns “é claro”, “sim, sim”, mas na maior parte do tempo ouviu calado. Jânio pediu que não esquecesse de incluir seu nome para governador em todos os santinhos, e disse que Mojica teria de trabalhar muito para se eleger:

- Tem que fazer campanha o tempo todo, sem descanso. É preciso fazer como eu, que acordo todo dia ás seis da manhã e durmo à meia-noite! (Mojica continuaria dormindo às seis da manhã e acordando meio-dia). Jânio deu dicas de como falar em comícios, e reiterou a importância da campanha corpo-a-corpo. Aí, Mojica falou pela primeira vez:

- Jânio, estou com um problema muito sério...Eu não tenho dinheiro para a campanha...

- Eu também não tenho pra te dar, mas vou te passar o telefone de dois amigos que podem te ajudar...

Os amigos de Jânio eram o dono de uma fábrica de embalagens em Santo Amaro e o proprietário de uma casa lotérica. Também não tinham grana, mas prometeram emprestar uma kombi para a campanha. Já a dobradinha com Fernando Silveira não deu certo: os dois brigaram e Mojica acabou se juntando aos candidatos Fábio Porchat (deputado estadual) e Fábio Fleming (vereador), que também se dispuseram a imprimir cartazes e santinhos, com a condição de que ele os apoiasse. Alguns dias depois, Mojica recebeu do Tribunal Regional Eleitoral (TER) a oficialização de sua candidatura: Zé do Caixão, candidato a deputado federal pelo Partido Trabalhista Brasileiro, com o número 430. Até soava bem.

Mojica logo percebeu que campanha política não era brincadeira: ele começou a ser chamado para reuniões do partido e encontros com políticos. Gostava especialmente das reuniões de cúpula do PTB, no centro, porque serviam uísque importado com amendoim. Mas nunca bebeu além da conta, pelo menos na presença dos graúdos. Sempre que avistava Jânio, Ivete Vargas ou algum outro figurão, maneirava na birita. Vexame mesmo só deu numa convenção do partido em São José dos Campos, quando subiu ao palanque com duas garrafas de Tatuzinho na cuca e fez um discurso que ficou para a história da política joseense:

- A quem pertence a terra? A Deus? Ao Diabo? Ou aos espíritos desencarnados? Meus eleitores, a besta está chegando para tomar a terra e o leite das crianças! Vamos dar leite pras crianças! Temos que dar leite pras crianças!

Num comício no Anhangabaú, Mojica foi rodeado por um grupo de motoristas de ônibus, que queriam saber mais sobre sua plataforma. Ele disse que pretendia liberar o jogo do bicho e legalizar a prostituição, inclusive dando 13º salário e benefícios às profissionais do ramo. Depois de se recuperar do baque, um dos motoristas perguntou o que ele pretendia fazer pela economia. Mojica, longe de ser um Galbraith, respondeu:

- Vou aumentar os juros da poupança! Vamos ficar ricos!

Os motoristas disseram que, se ele aumentasse os juros da poupança, as lojas também aumentariam seus preços, e ficaria tudo na mesma.

- Não, não, você vai ver! Vamos aumentar a poupança sempre mais que a inflação! Confiem em mim!

A campanha de Mojica era realmente revolucionária: ele substituiu o tradicional “corpo-a-corpo” pelo “copo-a-copo”: todo dia, visitava um bairro diferente e fazia a ronda dos botecos, enchendo a cara com os eleitores e divulgando sua plataforma, entre um gole e outro de Velho Barreiro. Enquanto isso, a candidatura de Jânio não decolava: os institutos de pesquisa anunciavam uma liderança folgada de Franco Montoro, do PMDB, seguido de longe por Reinaldo de Barros, do PDS. Jânio só aparecia em terceiro, empatado com Lula, do PT.

Para dar impulso á campanha, o PTB marcou um grande comício para o dia 9 de outubro em Sapopempa, na zona leste. As maiores atrações, além da presença de Jânio e Ivete Vargas, seriam um show de Moacir Franco – também candidato – e um concurso de sósias de Getúlio Vargas, Sílvio Santos e Pedro de Lara. O evento foi visto como a última grande cartada de Jânio. Ele declarou aos jornais que, se não conseguisse levar pelo menos 20 mil pessoas a Sapopemba, renunciaria à candidatura. Todos os candidatos do PTB foram convocados a discursar, inclusive Zé do Caixão.

Jânio cumpriu sua promessa: bem mais de 20 mil pessoas compareceram ao comício. Naquela manhã, Mojica vestiu um terno, encontrou-se com o amigo Samuel Moura e partiram juntos para Sapopemba. Antes, porém, deram uma paradinha na casa de Elza Leonetti, onde Mojica matou meio litro de Cinzano. Acabaram chegando atrasados ao comício. Largaram o carro numa esquina qualquer e só então perceberam que haviam estacionado ao lado errado, próximo à multidão e longe do palanque. Tiveram que atravessar a massa a pé, cortando pelo meio do povão. Mojica era reconhecido e abraçado. Foi um sufoco. Levaram quase uma hora para alcançar o palanque e, quando chegaram, os discursos já haviam terminado. Mojica não pôde discursas e ainda sofreu a humilhação de ouvir o apresentador chamá-lo de “José Maria Marin”.

Com todas essas galhofadas, não foi surpresa alguma quando saiu o resultado da eleição: Zé do Caixão obteve 1.228 votos, ficando em 61º lugar entre os 71 candidatos do PTB. Na classificação geral, ficou em 256º lugar entre os 278 candidatos. Jânio acabou mesmo em terceiro, atrás de Franco Montoro e Reinaldo de Barros. Os parceiros de Mojica também entraram pelo cano: nenhum dos Fábios, nem Porchat nem Fleming, conseguiu se elegar. Mojica depois acusou o TRE de ter anulado os votos dados a Zé do Caixão e computado apenas as cédulas com seu nome verdadeiro, mas a reclamação não procedia: em sua ficha de inscrição, ele havia registrado tanto o nome José Mojica Marins quanto Zé do Caixão.

 

Publicado originalmente em BARCINSKI, André & FINOTTI, Ivan. Maldito: a vida e o cinema de José Mojica Marins, o Zé do Caixão. São Paulo: Editora 34, 1998.

segunda-feira, 26 de julho de 2021

Entrevistas Históricas da Sexy: Carlos Brickmann (agosto de 1998)

Carlinhos Malvadeza

 


Carlos Brickmann entende tanto de marketing político que conseguiu transformar Paulo Maluf num produto vendável. Tudo isso sem abrir mão do sarcasmo e da ironia, duas de suas raras características. No meio do fogo-cruzado eleitoral, SEXY foi conversar com quem realmente compreende essa bagunça

 

Se a campanha eleitoral fosse uma guerra (e não deixar de ser), Carlos Brickmann seria um general, e dos bons. Seu papel não se limita apenas ao de assessor de imprensa. Ele foi responsável, por exemplo, pela reformulação da imagem de Paulo Maluf, quando este vinha de duas derrotas seguidas nas urnas. A clareza de visão de Brickmann foi forjada nas redações de veículos como “Jornal da Tarde”, do qual foi um dos fundadores, e “Folha da Tarde”, em que era responsável pela implacável coluna do personagem Toninho Malvadeza. Brickmann, aliás, é conhecido por seu humor rápido e tiradas sarcásticas. Neste bate-papo com SEXY, ele fala de política, imagem, verdades e mentiras – além de contar alguns dos mais saborosos casos da imprensa. Na nossa mesa, a presença do jornalista Ruy Nogueira Netto, peça fundamental para a realização desta entrevista, com seu humor não menos sardônico. O charme fica por conta de Marli Gonçalves, uma espécie de braço direito de Brickmann (só que mais bonita do que o braço direito do jornalista em si) e da bela atriz Cátia Fontinelli. A seguir, entenda por que Carlinhos é considerado realmente um jornalista de peso.

 


Palmério Dória: Qual a diferença fundamental desta campanha, em termos de propaganda eleitoral?

Brickmann: É a propaganda do medo. “Se me tirarem daqui, vi virar um inferno, a moeda vai cair”. Essa é a propaganda do Fernando Henrique. E a do Lula também: “Se não me deixarem subir, vai ter um puta desemprego, vai chegar tua vez”.

Palmério: Como você prevê o andamento disso?

Brickmann: Acho que o Fernando Henrique ganha. Pode até ganhar no primeiro turno. A oposição não é mais só o Lula. Tem o Ciro Gomes. O Ciro é um cara capaz de criar muito problema.

Jeferson de Sousa: Você acha que o Ciro ainda sobe nas pesquisas?

Brickmann: Não, não. Ele vai subir, mas o problema não é ele agora. O problema vai ser depois, no segundo mandato do Fernando Henrique. Era isso que o Ruy Nogueira tava falando há pouco. Se olhar o Menen, você vai ter um retrato do Fernando Henrique.

Ruy Nogueira: O “Efeito Orloff”: a Argentina é o Brasil amanhã. Você acredita que se o candidato da oposição em vez do “sapo barbudo” do Lula fosse um candidato mais palatável para a classe média, o Fernando Henrique poderia perder a eleição?

Brickmann: Acho que sim. O problema é o seguinte: Quem? Você dá uma rodeada aí e não encontra ninguém. Esse é o problema. Vai ser quem? O Maluf? Antônio Carlos? Antônio Carlos podia até ser, mas não vai porque é aliado do Fernando Henrique.


Cátia Fontinelli: O Itamar não poderia ter sido?

Brickmann: Olha, o Itamar eu acho um grande mistério. O Itamar fez um governo em que só fez bobagem, e todas deram certo.

Palmério: Até o caso Lilian Ramos deu certo.

Brickmann: Exatamente. Só fez besteira e deu tudo certo. Então, o Itamar é um negócio que não se sabe bem o que é. De repente, ele ganha uma eleição. Agora, o Lula é aquela coisa que o Alex Periscinoto conta, né. Você chega ao aeroporto, o voo atrasado. Você vai na companhia aérea, no balcão, te atendem mal pra burro. Você chega ao avião, te tratam mal, não te dão comida, não te dão bebida, o avião tá sujo, poltrona balançando, o serviço de bordo é péssimo. Aí, levanta um passageiro e diz: “Essa companhia é uma merda!”. Todo mundo aplaude: “Esse voo é muito ruim!”. Mais aplausos. Aí o cara diz: “Quer saber de uma coisa? Vou lá na cabine pilotar essa merda!”. Aí todo mundo para, porque é outra coisa. Acho que nossos candidatos de oposição estão mais ou menos assim.

Ruy: Isso me faz lembrar uma história em Goiás, nos anos duros da ditadura. Um guri estava sendo torturado no Dops, que tinha uma janela que dava para uma calçada. E tava o menino lá, no pau-de-arara, levando uma surra terrível. Passa uma velhinha, põe a cabeça pra dentro e vê aquilo. Ele olha para o sargento que tava torturando e diz: “Era melhor matar do que fazer o pobrezinho sofrer tanto”. E o rapaz diz: “Velhinha filha da puta, deixa como está, que assim está ótimo”. (Risos).

Ruy: Agora, que os debates presidenciais estão se avizinhando, qual seria a pergunta cruel que você faria aos candidatos Enéas, Lula e Ciro?

Brickmann: Enéas também não, né? A única pergunta que eu faria para pro Enéas é quando ele vai cortar a barba. Não dá para falar sério com ele.

Ruy: Mas qual é a pergunta cruel?

Brickmann: Pro Enéas? Qual é o seu nome. Pro Fernando Henrique acho que o Boris Casoy já fez a pergunta cruel. Agora, tem uma que é o seguinte: ele quer ser reeleito pra quê?

Ruy: Ele vai responder que é para concluir a reforma.

Brickmann: Tudo bem. Mas não tem outro no partido que pudesse concluir a reforma? É tudo incompetente? E pro Lula, a pergunta é: o que ele faz no intervalo das campanhas.

Palmério: Vive do quê?

Brickmann: Bom, isso a gente sabe.

Palmério: Eu não sei, gostaria que você me dissesse.

Brickmann: Ele é aposentado, tem duas aposentadorias. Mora na casa do compadre. Mas a pergunta principal pro Lula é a seguinte: qual a atividade política que ele faz pro partido dele se fortalecer e pra ele se transformar num candidato viável?

Edson Aran: Pessoalmente também?

Brickmann: E pessoalmente quando é que ele vai parar de falar “menas”, por exemplo? É um negócio que ele já poderia ter feito, né? Deu tempo.

Ruy: Você acha que ele não é estudioso, não se prepara, não procura crescer intelectualmente?

Brickmann: Eu nunca vi o Lula com um livro na mão. Talvez por não ser íntimo dele.

Palmério: Acho que o Brizola lê muito mais do que ele, né?

Brickmann: O Brizola se preocupa muito com a educação. O Brizola, até por ter sido um autodidata, ele acha importante estudar. Esse é o detalhe da coisa.

Ruy: E para o Ciro, qual seria a pergunta cruel?

Brickmann: Quando o Fernando Henrique ficou ruim? Na hora em que não deixou ele ser candidato ou em outro momento? Até então ele achava o FHC maravilhoso.

Palmério: E ele se descobriu alguma coisa em Harvard.

Brickmann: Olha, existe uma velha frase do Barão de Itararé: “Diploma não encurta a orelha de ninguém”.

Ruy: Agora, uma coisa, Brickmann: a gente sabe que a grana o gato comeu na atual campanha. Então, como é que fica? A gente também sabe que o Duda Mendonça tem, digamos, um monopólio das campanhas...

Brickmann: São onze, né?

Palmério: É, onze.

Brickmann: Mais que a do Corinthians.

Palmério: Mais que a do Corinthians.

Brickmann: Mais a da Fiesp.

Palmério: Isso. Agora, o chamado mercado da democracia, como ficou agora?

Brickmann: O mercado da democracia é muito ruim. O pessoal tá sem dinheiro. E por que tá sem dinheiro? É um negócio engraçado. Os bancos brasileiros davam dinheiro para a campanha. Os bancos estrangeiros que compraram os bancos brasileiros não têm motivo nenhum, por enquanto, para dar dinheiro para a campanha. Você quer que a Arapuã dê dinheiro para a campanha? A Casa Centro? Não, não dão. Então, aí acabou o dinheiro da campanha. As empreiteiras não têm obra, não recebem, e se elas recebem, também não dão.

Ruy: O dinheiro do precatório foi para financiar campanha?

Brickmann: Não sei. Saber, não sei. Agora, o fato é que sem o dinheiro do precatório as campanhas estão pobres.

Aran: Você acha que o próprio escândalo do precatório não tirou da praça também?

Brickmann: Acho.

Ruy: Mas o tutu está saindo de algum lugar. De onde está saindo?

Brickmann: Está saindo do lugar de sempre.

Ruy: Por exemplo?

Brickmann: Dos que sobraram. Só que o rio é muito menor.

Ruy: Se amanhã você fosse candidato, você ia escolher Duda Mendonça ou Nizan Guanaes para fazer sua campanha?

Brickmann: Se amanhã eu fosse candidato, eu escolheria o Instituto de Psiquiatria da USP, pra me prender com uma camisa-de-força.


Ruy: Mas, hipoteticamente?

Brickmann: Olha, o Duda tem algumas campanhas vitoriosas muito complicadas e também perdeu muita campanha. O Nizan, pelo que ele disse, essa é a primeira campanha que ele vai fazer, que as outras quem fazia era o Geraldo Walter. Então, agora é uma chance de a gente verificar como é que ele é em campanha.

Ruy: E o Duda?

Brickmann: Também é brilhante.

Ruy: Ser tivesse que bater um papo e convidar um dos dois para tomar um chopinho, qual dos dois você convidava?

Brickmann: O Nizan. Veja bem: pra você conversar com o Duda precisa conhecer algumas coisas.

Ruy: Briga de galo?

Brickmann: Briga de galo é uma delas. Ele é o rei da briga de galo. Ele tem uma manada de galos...Como é que chama conjunto de galos? Sei lá (Risos).

Ruy: O Duda jamais faria campanha para o Jânio Quadros, o homem que proibiu a briga de galos no Brasil.

Brickmann: O Duda paga caríssimo por galos de boa qualidade. Ele tem um fantástico galinheiro.

Ruy: Plantel.

Brickmann: Não, não. Galinheiro. Veja bem: não é o conteúdo, é o contingente. Ele tem uma rinha.

Jeferson: Ele é uma espécie de Don King dos galos. (Risos)

Brickmann: Ele é muito bom de galo.

Palmério: Você acha que o galo mais fraco que ele treinou pra luta foi o Celso Pitta?

Brickmann: O Celso Pitta é um galo excelente. Só não é excelente prefeito, coitadinho...

Ruy: O Duda se declarou decepcionado com a administração dele e perdeu a conta da prefeitura. O Duda foi sincero e foi castigado.

Brickmann: Mas publicitário é sincero? Você veja: publicitário que tem conta da Pepsi-Cola não pode beber Coca, por mais que ele goste. Então, você tem que separar as coisas, né?

Ruy: Você, quando fez campanha, agiu com sinceridade ou foi pago?

Brickmann: Eu não era publicitário. Eu era assessor de imprensa e agi com toda a sinceridade possível. Agora, você tem a sinceridade possível ao jornalista, que não é absoluta. Outro dia eu estava participando de um debate com um rapaz da Globo que veio com essa conversa de que assessor de imprensa não busca a verdade e o jornalista de redação busca. Aí, perguntei pra ele: nos dez anos de “Globo, quantas vezes você falou mal do dr. Roberto Marinho?

Ruy: Nenhuma.

Brickmann: Nenhuma. Quantas vezes ele falou mal do Roberto Irineu? Nenhuma. E quantas vezes você falou mal da geleia de mocotó Embasa?

Ruy: Para quem sabe, a Embasa é do Roberto Marinho.

Brickmann: É. Assim eu também sei ser sincero! Aí, ele disse: “Um jornalista de assessoria de imprensa cria fatos que não são os que estão sendo discutidos, enquanto o jornalista de redação só trata dos fatos que estão sendo discutidos”. Aí lembrei pra ele aquele maravilhoso exemplo da Miss Globo. Ninguém jamais viu turfe no “Jornal Nacional”, a não ser quando o Dr. Roberto comprou uma égua chamada Miss Globo. Lá em Belém do Pará ninguém sabia quem era Miss Globo e passou a saber. E lembrei aquele caso maravilhoso do Estadão, na época em que o Palmério trabalhava lá. Era no tempo em que futebol ainda era chamado de “esporte bretão”. (Risos)

Ruy: E o ídolo era aquele jogador que morreu louco: Heleno de Freitas, o “Gilda”. (Risos)

Brickmann: O Carlão Mesquita, que era um aficionado por cavalos, tinha o Haras Nogueira. Uma vez ele botou um cavalo chamado Maroto, e todo dia toca matéria do Maroto no jornal. Eu não entendo nada. Aliás, pra mim, o sujeito que consegue distinguir um cavalo do outro é um gênio. Aí eu cheguei lá e disse o seguinte: esse cavalo é bom mesmo ou é cavalo do patrão? E ele disse: “o cavalo é bom mesmo”. Aí, bota lá matéria do Maroto. Na época eram oito colunas. Aí veio o Grande Prêmio Brasil, em São Paulo. E o título era o seguinte: “House of Hills chega em primeiro e Maroto em décimo segundo”. (Risos) O título já era engraçado por si só, mas, como eu não entendo nada de cavalos, fui lá a perguntei: “Quantos cavalos correm?”. E me disseram: “Treze”. Então, você veja o seguinte: a sinceridade de um jornalista tem limite. A sinceridade do nosso pessoal de lá tinha o limite de não dizer que o Maroto era pangaré.

Palmério: Mas, apesar de você dizer que desconhece turf, você descreveu o ex-presidente Costa e Silva em uma narração no hipódromo e quase foi em cana.

Brickmann: Deu um trabalho, rapaz! Quase fui em cana. O Costa e Silva fez a gentileza de descer de helicóptero no meio do Hipódromo. Aí me deu a ideia de fazer uma narrativa da chegada dele em linguagem turfística. Mas tem um segredo esse negócio: eu anotei, fui marcando, como se fosse uma corrida de cavalo. Fui lá para o jornal e levantei a linguagem turfística, aprendi os nomes e tal, e narrei a chegada nessa linguagem. O Costa e Silva tinha fama de burro. Fama, aliás, extremamente merecida. Depois, o Luiz Ernesto Kawall, que era assessor de imprensa do Sodré, ficou percorrendo os quarteis para não me levarem pra cadeia. Parece que ele argumentou que ia sair muito caro me alimentar. (Risos)

Palmério: Mais três meses e você pegava o AI-5 e aí estava frito e esfarinhado.

Brickmann: Mais três meses e eu estaria que nem a história do menino de Goiás: deixa como está que está bom.

Ruy: A gente sabe que o Carlinhos é um assessor que sempre acaba fazendo a cabeça dos candidatos. Vou dar um exemplo: a campanha de 89, quando o Maluf saiu candidato tendo perdido a Presidência em 85 e a prefeitura para a Erundina em 88. Em 89 pintou uma campanha para limpar a barra. Foi uma campanha vistosa em que ele apresentou uma figura simpática. Se mostrou piadista. E o Carlinhos fez três coisas que marcaram: Primeiro, inventou uma viagem do Maluf para a Bolívia para conhecer um programa de combate à inflação. Depois, inventou uma visita ao presidente Ronald Reagan que tinha acabado de deixar o poder. A sua parte foi ótima, a do Reagan foi péssima porque ele não se deixou fotografar. E a terceira coisa foi quando em um debate, o Carlinhos fez um comentário jocoso mas carinhoso sobre o Maluf. O deputado Aloísio Mercadante saiu do estúdio dizendo que o Carlos Brickmann tinha dito que o Maluf era competente porque competia, competia, competia sempre. Você é marqueteiro, cara! Você não pode negar isso.

Brickmann: Não, não é verdade. O que fiz foi comunicação, só isso. Quer dizer: como é que você faz uma notícia chegar à opinião pública?

Ruy: Carlinhos, agora eu quero saber como é que você com esses 150 quilos...

Brickmann: Eu emagreci, é?

Ruy:...Como você desembarcando em La Paz, onde até Urubu tem dor de cabeça, com o Maluf para mostrar que é se acaba com a inflação. Como é que surgem essas ideias?

Brickmann: Vou te dizer uma coisa: essa viagem para La Paz foi excelente.


Ruy: É, na Bolívia o Maluf acerta. O problema é no Brasil...

Brickmann: Olha, no Brasil o negócio do Pitta é que foi um azar desgraçado. O Maluf tava com a eleição garantida para governador.

Palmério: Você acha que enterrara caveira de burro na grande área?

Brickmann: Enterraram sapo. Sapo costurado.

Ruy: O Pitta foi azar mesmo foi algo mal planejado, um sujeito sem preparo para assumir um cargo importante?

Brickmann: Como assim? Ele não tem preparo mesmo. Isso é visível.

Ruy: Porque o Pitta sempre foi um brilhante executivo. Por onde passou deixou uma imagem de competência e trabalho, na Eternit, como secretário de finanças...

Brickmann: Porque mandavam nele.

Ruy: Você não acha que ele é administrador da massa falida do Maluf e está levando a culpa?

Brickmann: Acho que não.

Ruy: Mas é o caso de um homem negro, que, em um país sabidamente racista, fez uma carreira acadêmica brilhante, conseguiu chegar à prefeitura como razoável candidato, razoável pra bom.

Brickmann: É, mas você falou a coisa correta: ele fez uma carreira acadêmica brilhante. E a gente vê várias carreiras brilhantes que não deram em nada.

Palmério: Inclusive em Brasília. (Risos)

Brickmann: É. Mas veja: antes de lançar o Pitta, o Maluf tentou ser reeleito. É isso que o pessoal esquece. O Maluf fez campanha pra ser reeleito. O Fernando Henrique tinha prometido a ele, fez toda uma negociação...Se ele queria ser reeleito é porque a situação não estava tão ruim assim, concorda? E eu acredito que a cidade de São Paulo, dois anos depois que estivesse quebrada, já estaria erguida de novo.

Ruy: Você tem um livro fabuloso intitulado “A Vida É um Palanque”. Quero saber quem faz feio e quem faz bonito neste palanque. Vou dizer os nomes para você: Fernando Henrique.

Brickmann: Faz bonito, rapaz.

Ruy: Paulo Maluf.

Brickmann: Também.

Ruy: Orestes Quércia.

Brickmann: Fez muito bonito e agora está sem fôlego para subir no palanque.

Ruy: Lula faz bonito ou faz feio?

Brickmann: Acho que faz feio.

Ruy: Engenheiro Leonel Brizola.

Brickmann: Faz bonito.

Ruy: Sr. Mário Covas.

Brickmann: No palanque legislativo ele fez bonito. No executivo estou esperando ele subir pra ver o que ele faz.

Ruy: Francisco Rossi.

Brickmann: Ainda não fez.

Ruy: Itamar Franco.

Brickmann: O Itamar não se elegeu. Ele não foi ao palanque, ele foi vice.

Ruy: Você acha que em Minas, agora, ele vai fazer feio ou vai fazer bonito?

Brickmann: Olha, sobre o Itamar eu nunca respondo. Ele é aquela coisa maluca. Ele é o nosso Forrest Gump, aquele cara que só faz bobagem e dá certo.

Ruy: José Sarney faz feio ou bonito?

Brickmann: Feio, né?

Ruy: Roberto Requião.

Brickmann: Feio.

Ruy: Fernando Collor.

Brickmann: Fez feio. Começou bonito e depois afundou. Também, cada nome que esse sujeito me arruma, heim!

Ruy: Você quer que eu cite quem? A Mãe Dinah? (Risos)

Palmério: Você trabalha de graça?

Brickmann: Eu acho que o trabalho é uma maldição bíblica. Quando Deus expulsou Adão e Eva do Jardim do Éden, uma das coisas que ele determinou foi: “Ganharás o pão com o suor do seu rosto”. Então, acho que você gastar o suor do rosto sem ganhar o opção é pecado.

Palmério: Você ficou rico?

Brickmann: Rico?

Palmério: Sim.

Brickmann: Lá fora está parada uma perua 96, nós estamos em 98. E eu gosto de carro bom.

Ruy: Tem uma história que você gosta muito na vida mundana. Você ganha muito, mas gasta muito também. É verdade?

Brickmann: Vida mundana?

Ruy: É. Não vou ser mais explícito porque dona Berta vai ler esta entrevista. (Risos).

Brickmann: Eu não tenho chance de gastar, não dá tempo de gastar com essas coisas. Mulher boa é mulher de graça – na verdade, é caríssimo. Você sabe que a trepada gratuita é a mais cara que existe no mundo? Se paga sempre.

Palmério: Você trabalhou com uma grande geração de jornalistas no “Jornal da Tarde”. Como era a convivência com a censura? O “JT” era um projeto ambicioso em plena ditadura, em pleno sufoco de liberdade de imprensa. Como era o censor dentro da redação? Ficou amigo de algum...

Brickmann: Não. Não era tolerável. A gente não tolerava o censor, ele estava lá dentro. O que não seria tolerável era alguém fazer amizade com ele.

Aran: Eram sempre os mesmos?

Brickmann: Sempre os mesmos.

Aran: Você se lembra deles?

Brickmann: Olha, eu lembro que tinha um maluco chamado Leonardo e puseram na cabeça dele que ele precisava tomar muito cuidado, porque o pessoal do “JT” era muito hábil, então poderiam contrabandear coisas e ele não perceber. Então, o que ele fazia? Ele proibiu o nome “Leonardo”. Você falava o nome “Leonardo” e ele cortava.

Aran: O Leonardo DiCaprio estava fodido!

Palmério: E o Leandro e Leonardo.

Cátia Fontinelli: O Leonardo da Seleção.

Brickmann: Ele cortava todos. Era um negócio maluco, um negócio realmente de louco! Era muito chato trabalhar. A gente aprendeu uma coisa: teu padrão aguenta algum tempo te mandar fazer uma reportagem e gastar uma nota, a reportagem chegar e ser vetada. Daqui a algum tempo, ele olha e pensa, “por que eu vou gastar se não vai sair mesmo?”

Palmério: Qual foi a matéria que firmou o “JT” como um grande jornal?

Brickmann: O primeiro número.

Palmério: Começou com o sucesso?

Brickmann: Começou. Aliás, foi bem um jornal brasileiro. Descobrimos que o Pelé ia casar no Carnaval e demos em primeira mão, com foto de capa. Acontece que a foto da noiva era errada.

Marli: Quem era a coitada?

Brickmann: A irmã da noiva. (Risos). É bem o “JT” até hoje.

Palmério: Tem sempre uma cunhada na história.

Brickmann: Não! O Pedro Collor vem mais tarde. (Risos)

Ruy: Você foi para a “Folha da Tarde” em 84 como editor. Era diferente do “JT”, onde você ia para a rua.

Brickmann: Era muito mais gostoso ficar na rua, né? Na “FT” eu ficava plantado dentro da redação.

Ruy: Pensando maldades.

Brickmann: Não havia possibilidade de fazer matérias, nem pelo jornal. A sua chance era receber matéria pronta da “Folha de S. Paulo” e aí tentar trabalhar isso. Não tem graça.

Ruy: Você comprou a briga do jornal com o Jânio?

Brickmann: Fui eu.

Ruy: Você deu um jantar pro Jânio na sua casa e seu filho bateu nele...

Brickmann: Almoço.

Ruy: E o Jânio se apaixonou por ele. (Risos)

Brickmann: É. O Jânio chegou muito cedo em casa e não tinha ninguém, só meu filho de 3 anos, absolutamente bruto. Se ele te mostrasse uma coisa e você não olhasse, ele te dava uns tapas na cara para te colocar no lugar. E ele tava lá, dando uns tapinhas no Jânio. Os dois cercados de medo.

Ruy: O Jânio estava sentado no chão?

Brickmann: Não, no sofá. Mas ele disse uma coisa interessante. Ele não teve tempo de brincar com a filha dele. Então, ele gostava de criança, gostava muito e tinha pouca chance pra brincar.

Ruy: Você pegou umas boas brigas com o Jânio, né?

Brickmann: Mas essas brigas com o Jânio eram brigas que na verdade interessavam para os dois lados. A gente se firmava como jornal. A “FT” teve uma fase de jornal da polícia. Então, quando eu e o Adilson Laranjeira fomos pra lá, o pessoal dizia brincando que íamos para diminuir a tiragem. Ou seja, mandar os tiras embora. (Risos)

Jeferson: E em 84 ainda tinha esses tipos?

Brickmann: Tinha gente lá que sentava para escrever e punha o revólver em cima da mesa como você põe o cigarro. Mas, naquela altura, o jornal tinha desempenhado sua função útil para a empresa durante a época de ditadura mais brava. O jornal ficou desposicionado. Ele não falava mais pra ninguém.

Ruy: Mas ele poderia ter sido o jornal da cidade.

Brickmann: Pois é. Foi colocado um esquadrão para fazer um jornal de cidade, o que acabou não sendo possível. Ele tinha suas fumaças de jornal da cidade. Como eu disse, a história do Jânio servia para os dois: o Jânio tinha um jornal identificado pra malhar, ele não precisava malhar a imprensa. E a gente tascava o cacete nele pra ser o jornal da cidade.

Palmério: Foi para fugir do tédio que nasceu o Toninho Malvadeza na “FT”?

Brickmann: Toninho Malvadeza era uma sátira a todos os colunistas. Era para comentar coisas que não dá pra você deixar passar. Por exemplo, o Walter Feldman deu uma declaração dizendo que o Covas deixou o governo para concorrer à reeleição porque ele não consegue fazer duas coisas ao mesmo tempo. (Risos) Meu Deus, gente! O Lindon Johnson falou isso de um adversário e eu achei maldade demais. Aqui é um aliado falando isso como se fosse elogio! Então, o Toninho Malvadeza nasceu para comentar coisas desse tipo.

Ruy: E pra presidente, você vai votar em quem?

Brickmann: No Fernando Henrique.

Ruy: Fazendo um exercício de futurologia, se o Fernando Henrique for reeleito, quem deverão ser os candidatos pós-sucessão?

Brickmann: Fernando Henrique! Acho que ele inventa um parlamentarismo, alguma coisa. Ele gostou de lá, ele gosta daquela casa, ele gosta daquele jardim, daqueles guardas...Além do que, ele adora viajar, adora Paris.

Palmério: Ele é um novo presidente bossa nova?

Ruy: Sem o charme do Juscelino.

Brickmann: Acho até que ele tem um certo charme também. Mas não é o do Juscelino.

Palmério: Quem é o melhor colunista do Brasil, Joyce Pascowitch ou César Giobbi?

Brickmann: Ricardo Boechat.

Palmério: Cartunista.

Brickmann: Millôr.

Ruy: Você curte o personagem Carlos Brickmann como o Jânio curtia o personagem Jânio Quadros?

Brickmann: Eu não sou personagem. Eu sou eu. Gosto de ser eu. Talvez uns 90 ou 100 quilos mais magro.

Ruy: Você fez troca-troca no colégio?

Brickmann: Não. Eu era excessivamente tímido.

Marli: Sempre digo que os problemas dele são decorrência disso.

Ruy: Vem daí o fato de você proteger coleguinhas gays?

Brickmann: Nunca protegi coleguinhas gays, é que eu não reconheço sexualidade em competência. Você tem que escolher o jornalista pela cabeça dele, não pela bunda. O grande problema é que muita gente escolhe pela bunda mesmo.

Ruy: Nisso você leva vantagem: tem uma bunda imensa (gargalhadas). Profissionalmente não é um bundão, mas fisicamente...Aliás, o dr. Roberto Marinho dizia que não existe balé sem viado nem redação sem comunista. É verdade?

Brickmann: É verdade. Só que hoje não é comunista, é petista. O que é uma queda de qualidade. Os comunistas eram obrigados a estudar. O petista basta falar mais ou menos assim (imita alguém na língua presa) que você já sabe que ele fez aquele curso de fonoaudiologia com a Marta Suplicy e o Vicentinho.

Ruy: O que você achou da presença da Marta Suplicy e do Vicentinho no alto de um trio elétrico durante a parada do orgulho gay?

Brickmann: A Marta tudo bem, ela é candidata, fez uma lei sobre isso e tal. Agora, o Vicentinho, eu não sei o que os metalúrgicos acharam. Se você fizer uma pesquisa no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo, o que vão dizer do Vicentinho?


Ruy: Mas vamos terminar à la Marília Gabriela: Carlos Brickmann por Carlos Brickmann.

Brickmann: Em primeiro lugar, eu não posso me olhar no espelho por falta de espelho. Como eu disse uma vez na “Folha”, eu não posso usar roupa maior do que meu número porque não tem. Embora eu sempre diga que não sou gordo, sou baixo. Estou com o peso exato para 2,40 m de altura.

Publicado originalmente na revista “Sexy” em agosto de 1998




Chamada de capa da revista "Sexy" de agosto de 1998