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sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Carta a São Marcos

Ainda não estou acreditando e não sei o que falar. Marcão: seu nome está perpetuado no Palmeiras. Você não é só ídolo. Durante muitos anos, você representou o torcedor de arquibancada. Aquele que tomou chuva pra ver o time. Aquele que pegou ônibus lotado somente pra ver o clube. E muitas vezes ver elencos e jogadores que não merecem a bandeira do Palmeiras. Pois é Marcos, você foi tudo isso. E ainda foi São Marcos. Sua despedida merecia noite de gala no Palestra Itália. A primeira vez que ouvi falar em você foi em 96. Na época, eu comprava mensalmente a revista do Palmeiras do Márcio Trevisan e tínhamos um timaço. Não tinha nem idade pra freqüentar estádios, ficava mais no radinho de pilha. Na conquista do Paulista de 96, você substituiu o Veloso com galhardia e ainda defendeu alguns pênaltis.

Em 99, eu era o único palmeirense num acampamento da escola e quase apanhei de uma porrada de corintianos por comemorar o maior jogo que você fez na sua carreira. Gordinho e mirrado, eu era o único palestrino contra dezenas de corintianos. Daquela partida, me lembro da sensacional narração do José Silvério. Lembro também das descrições impressionantes dos seus pulos e saltos. Também me recordo que tive que correr muito numa quadra pra não tomar porrada da maioria dos corintianos. Estive presente em algumas partidas memoráveis suas. Várias das suas atuações foram marcantes, como a final de 99 e naquela vez que eliminamos o Sport na Libertadores de 2009. A sua calma foi fundamental para aquela decisão.

O Palmeiras nunca foi time de moda e sua passagem não teve tantos títulos. Mas você marcou as nossas vidas de uma maneira espetacular. Dedicação, humildade, sinceridade a flor da pele. É difícil definir você. Mas como definiu o jornalista Rodrigo Barneschi do blog Forza Palestra, a verdade é que você é o próprio Palmeiras.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

O Brasil esqueceu Moraes Sarmento

Defender com unhas e dentes a música brasileira não é fácil. Diversos homens tem trajetórias importantes neste setor, mas poucos fizeram trabalhos dignos como Rubens de Moraes Sarmento (1922-1988).

Abnegado, o locutor e apresentador sempre se negou a divulgar gêneros estrangeiros. Seu programa Almoço a Brasileira marcou época na rádio Bandeirantes de São Paulo. Sempre no horário do almoço, Sarmento fez muito pela carreira de diversos artistas nacionais de real importância. Em 1980, este importante homem de imprensa começou a apresentar um programa do gênero mais maldito da música brasileira: a canção cabocla. Poucos sabem, mas sim, foi Moraes Sarmento o primeiro apresentador do Viola, Minha Viola, exibido na TV Cultura. Estudioso do gênero, tornou-se admirador e amigo pessoal de figuras centrais da nossa cultura caipira como Tião Carreiro, Tonico e Tinoco, Goiá, entre outros.

Depois, ele passou a dividir a apresentação da atração com a cantora Inezita Barroso. Há alguns anos, consegui adquirir um exemplar da rara biografia do cantor Noite Ilustrada (Noite Ilustrada de Pirapetinga para o Brasil) em um sebo em Santo André. Nas dedicatórias, estava uma assinatura do cantor mineiro para o apresentador: “A pessoa que mais me ajudou na minha carreira: Rubens de Moraes Sarmento, meu amigo. Noite Ilustrada”. Ou seja, por uma incrível coincidência da vida, eu tinha adquirido o raro exemplar que tinha sido do acervo pessoal deste importante divulgador da música brasileira.

Em dezembro, se vivo, Moraes Sarmento estaria completando 88 anos. Esperamos que a mídia e os órgãos competentes se lembrem deste defensor perpétuo da nossa cultura.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Luiz Mendes (1924-2011)

Luiz Mendes foi testemunha ocular de um futebol que não existe mais. Permaneceu como locutor de uma mesma emissora por mais de 60 anos. Convenhamos: isso não é algo fácil. Junto com cobras criadas como Nelson Rodrigues, Armando Nogueira e João Saldanha, ele comandou a Grande Resenha Facit, lendária mesa-redonda do futebol. Chegou aos 87 anos com uma memória extroardinária. Lembro de uma de suas últimas entrevistas e ele recordava fatos dos anos 40 e 50 com uma lucidez impressionante. Queria muito entrevistá-lo, o que infelizmente tornou-se impossível. Gaúcho de nascimento, carioca por adoção,  foi um dos poucos no meio do esporte que nunca foi bairrista. Respeitava todos. O nome de Luiz Mendes está perpetuado na galeria de imortais do nosso jornalismo.

domingo, 10 de abril de 2011

Reali Júnior (1930-2011)

Escuto rádio AM desde os meus 9, 10 anos. Durante todo esse tempo, sempre tive um carinho especial pela figura de Reali Júnior. Um homem de uma cultura vasta e um profissional acima da média em qualquer sentido. Sempre enxerguei nele um repórter na acepção da palavra. Ele conhecia muito de política internacional e também muito de esporte, especialmente o futebol. Sua dedicação a rádio Panamericana e depois Jovem Pan precisa ser ressaltada sempre. Quando se falam nos grandes jornalistas de esquerda, quase sempre se esquecem do Reali. Ele ajudou diversos militantes  exilados do Brasil que ficavam na sua casa em Paris.  Infelizmente, quase nunca se lembram disso. Realmente: 50 anos de jornalismo, 30 como correspondente internacional não é pra qualquer pessoa. Queria muito ter entrevistado Reali pro VSP. Fico triste com a sua partida.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Gigantes do Jornalismo Esportivo: Mauro Pinheiro, o Senador


Um comentarista dos tempos dourados do futebol que sempre se vestia impecavelmente. Terno e gravata, barba bem-feita e chapéu de palhinha. Além disso, um profundo conhecedor dos vinhos e fumante dos bons charutos. Com classe e elegância, Mauro Pinheiro, o Senador, tornou-se um dos mais conhecidos nomes do rádio paulista.

Nos anos 60 e 70, Pinheiro era um dos principais nomes da equipe esportiva “Escrete do Rádio” da Rádio Bandeirantes de São Paulo. Ele era o comentarista titular da emissora, atuando nas transmissões ao lado do narrador Fiori Gigliotti (1928-2006). Estudioso do futebol, o Senador iniciou sua carreira no Rio Janeiro, escrevendo durante muito tempo na revista Sport Ilustrado. Mas marcou época por seu trabalho no rádio.

“Ele nunca imitou ninguém. Esse é um ponto a ser destacado: ele foi um profissional genuíno no seu ramo e era um profundo conhecedor de todos os esportes”, destaca o narrador Alexandre Santos, que trabalhou com o Senador na emissora do Morumbi. “Além disso, era um homem humilde e honesto que sempre buscou ajudar a todos”.

O narrador Ênnio Rodrigues trabalhou com Mauro Pinheiro na Rádio Bandeirantes durante 18 anos. Durante todo esse tempo, Ênnio nunca viu o comentarista vestido sem o tradicional terno e gravata. “Pelo menos no trabalho ele nunca usou roupa esporte. O Mauro era um profissional muito correto e durante as transmissões ele ia anotando num caderno todos os detalhes da partida”.

Fora dos microfones, o Senador era um homem reservado e sério. Ele nunca chegou a ser amigo pessoal de Fiori Gigliotti, com quem trabalhou na maioria das transmissões do Escrete do Rádio. Mas os dois se respeitavam muito. Apesar do jeito retraído, Mauro era uma das lideranças do jornalismo esportivo paulista. Tanto que foi presidente da ACEESP (Associação dos Cronistas Esportivos do Estado de São Paulo) entre 1972 e 73.

Ênnio Rodrigues recorda que o Senador era um homem dedicado a pesquisa do futebol. “Fui algumas vezes no apartamento dele que ficava na Prestes Maia, perto da Estação da Luz. Ele tinha muitos livros, jornais antigos e diversos cadernos com anotações sobre futebol. Sem dúvida, ele foi um estudioso sobre o assunto”.

Em seu livro de memórias O Rádio, o Futebol e a Vida, o narrador Flávio Araújo lembra que o amigo Mauro Pinheiro tinha mania de acender seus charutos em locais inapropriados. “Uma madrugada, em Londres, voltando de um restaurante no Soho (…), ele acende o charuto em pleno táxi hermeticamente fechado. O motorista “stopou” e bronqueou firme e forte como sabem bronquear os ingleses, que de pacíficos só tem a fama. Mauro não quis saber. Entre o charuto e o frio abriu a porta e saltou fora. Eu segui no táxi, e ele demorou 2 horas para cruzar o gelado Kensington Park e chegar ao nosso hotel. Mas não apagou o charuto”.

Após 18 anos na Bandeirantes, Mauro Pinheiro foi atuar na Jovem Pan. Pouco tempo depois teve diabetes e acabou falecendo no dia 25 de janeiro de 1982. Fã declarado do comentarista, o jornalista Milton Neves sempre se referiu ao Senador como um ícone do rádio. Em entrevista a revista Placar em 1987, Neves falou sobre sua relação com Pinheiro. “No dia de sua morte, chorei como se tivesse perdido meu pai. Até hoje, quando passo em frente ao cemitério do Araçá no caminho de casa para a Jovem Pan, boto a cabeça para fora do carro e dou um tchau pro Maurão. Tenho certeza que ele fica satisfeito”.

Texto de minha lavra publicado originalmente no blog Última Divisão em 23 de fevereiro de 2011

sábado, 16 de outubro de 2010

Gigantes do Jornalismo Esportivo: Sílvio Luiz


“Espécie de Brancaleone, com o dom da graça cáustica e impiedosa, ele vai marcando seus gols no Ibope. Virou ídolo do futebol sem nunca ter chutado uma bola”.

Por Ronaldo Hein

Sevilha, junho de 1982. Os hóspedes do quinto andar do Hotel Colón, por pura sorte, ou azar, acabam de perder uma cena insólita. No fundo do corredor, um jornalista brasileiro foi abandonado, completamente nu, ainda úmido de seu banho. Puxaram-lhe a toalha, fecharam-lhe a porta do quarto e lá ficou o jornalista, coitado, gritando socorro e rezando para que o elevador não se abrisse num flagrante dramático.

Personagem do episódio: Sílvio Luiz Peres de Souza, 46 anos de idade, diretor de esportes da Rede Record de Televisão, o locutor esportivo mais irrequieto, agressivo, polêmico – e engraçado- do Brasil. Caso típico do feitiço contra o feiticeiro. O incansável Sílvio Luiz havia idealizado a peça contra um companheiro de equipe. Só que a vítima, transformou-se em algoz.

Santo, sagrado bom humor. Remédio impecável para as tensões que, naquela exata circunstância, ameaçavam explodir nas estranhas do narrador da Record. Meros cinco minutos antes escutara-se um chamado na sala das canganchas, o estúdio que a pequena mas brava trupe da Record, o brancaleônico exército enviado à Espanha para enfrentar a superfrota multiestelar da Rede Globo, instalara improvisamente num dos aposentos do Colón. Meros cinco minutos antes de uma voz proveniente de São Paulo pedia a presença de Sílvio Luiz. O patrão, Paulo Machado de Carvalho Filho, o Paulinho herdeiro do velho Marechal da Vitória, queria comunicar como andavam as coisas na matriz – os números do Ibope.

Todo o planeta se lembra que a Globo apoderou-se da exclusividade das transmissões da Copa da Espanha. Como vencer tão pedante barreira? Com seu tradicional pendor para o improviso, Sílvio Luiz armou um esquema tão ousado como maluco. Irradiaria as partidas do mundial através das ondas sonoras da Rádio Record. Naquela base: “Fique de olho na TV e os ouvidos ligados na Rádio Record”.

Poderia ser um fracasso. Quem sabe o fim irremediável de um bom período de sucesso, mais um dos curtos e intermitentes estágios de notoriedade de Sílvio Luiz conhecera em toda a sua carreira. Os números, todavia, apontaram o rumo contrário. De fato os brasileiros estavam cortando o som de seus televisores e fazendo funcionar seus aparelhos de rádio. Melhor: mesmo quem não possuía vídeo algum ao seu alcance depositava suas preferências na voz de Sílvio Luiz, uma audiência bem superior à arrebanhada pelos famosos medalhões do dial.

Sílvio Luiz recebeu as notícias nu em pelo, vestido somente com os fones que lhe passavam as informações de São Paulo. O baixinho invocado, comprador das brigas mais baratas, depois de trinta anos de batalhas nem sempre gloriosas, o baixinho que já fizera de tudo na vida – “menos ser motor de popa e asa de avião” – enfim desembarcava, pelado e comovido, no seu momento de apogeu.

Que diferença do cidadão cabeludo e mal-ajambrado que meia década antes fora apertado contra a parede por um dos dirigentes da Record: “Ou você corta essas melenas e se arruma um pouco, ou não vai dar”. A Record vivia uma crise de dinheiro e de talento. Sílvio Luiz era o seu chefe de produção mas, no fim das contas, não tinha condições de produzir absolutamente nada. Gastava seu tempo com uma eterna mania: colecionar lápis e canetinhas coloridos e desenhar mapas e preencher formulários, cartesianamente, em várias tonalidades, para facilitar a compreensão. Sem locutor, a casa decidiu recorrer à solução mais próxima e mais barata. Transmitiram os jogos de futebol, alternadamente, Sílvio Luiz e outro veterano e experiente profissional, Hélio Ansaldo. Além disso, para fixar as imagens da dupla, Sílvio e Hélio apareciam à noite, num programa chamado Jornal da Noite, fazendo pequenos comentários cotidianos. Sílvio podou a cabeleira, comprou um par de camisas novas, paletós da moda. Fez-se um sorteio para escolher quem iria inaugurar o revezamento. Ganhou Sílvio Luiz. Em pouco tempo o próprio Hélio Ansaldo concordaria: “O Sílvio vai estourar como narrador. Chega de trocas. Eu fico só com os comentários”.

Começava a implantar-se um estilo guerrilheiro e capaz de solapar as tradicionais, avassaladoras lideranças da Rede Globo. Um estilo forjado partida a partida, chute a chute, um estilo sem rótulos e etiquetas convencionais. Sílvio Luiz, digamos assim, transmite futebol como o torcedor da arquibancada faria – se tivesse um microfone ao alcance da boca, se possuísse o dom da graça cáustica e impiedosa.

Sílvio Luiz não perdoa ninguém. Paulo Isidoro virou Torresmo. Serginho tornou-se o Chulapa. O cartola José Ferreira Pinto, que numa ocasião tentou subornar o árbitro Sílvio Luiz (isso mesmo, o nosso herói foi até juz de futebol), ganhou a alcunha de Anão de Jardim, uma homenagem deliciosa às suas dimensões especialmente avantajadas na horizontal e nada generosas na vertical. O comentarista Pedro Luiz, que sucedeu Hélio Ansaldo no esporte da Record, transformou-se no Lorde, conseqüência de seus modos solenes – e inúmeras vezes, enquanto explicava uma modificação tática fatal, teve sua palavra cortada por perguntas do tipo: “Como é Lorde, você deu ou não deu um tapa na aranha?”.

Aos poucos a Record foi descobrindo que o público se interessava muito mais pelas piadas de Sílvio Luiz, por seu comportamento escrachado, do que pelas análises de cada partida. Sílvio Luiz ampliou seus alvos. Para combater a politicagem na Federação Paulista de Futebol candidatou-se, debochadamente, à sua presidência – marchou até o recinto da votação de fraque e encarapitado numa charrete. Passou a ironizar a concorrência, a própria imprensa. Nas suas irradiações noturnas faz questão de soletrar os nomes de certos jogadores “para que o pessoal das redações, que escreve suas matérias via TV, não publique nada errado no dia seguinte”. Sílvio Luiz cunhou frases e expressões que qualquer garotinho de curso primário repete com prazer, desde o “pelo amor dos meus filhinhos” até o “inhaca” – utilizado para afugentar a desgraça nos momentos de maior perigo frente ao gol da seleção nacional.

A platéia adora. Além de freqüentemente bater os ibopes globais, Sílvio Luiz recebe caixotes de cartas por semana – especialmente aquelas que chegam acompanhadas de uma fotografia, de um selo para a resposta, e que pedem uma charge do missivista, assinada por Dino, o ilustrador exclusivo da TV Record. Nem todas as pessoas, entretanto, apreciam com a devida tolerância o caráter despachado do narrador. Quando o Lorde saiu da Record, cerca de oito meses atrás, Sílvio convidou Oswaldo Brandão, ex-treinador de vários times e da seleção, para ocupar o lugar de comentarista. Brandão, conservador e mal-humorado, agüentou até uma jornada em que o locutor, no encerramento de um jogo, diante das câmeras, montou em suas costas sexagenárias e disse, com a inflexão vampiresca que a situação exigia: “Se esconde aí, maestro, porque daqui a pouco tem a Sessão Terror, no Canal 7”.

Sílvio Luiz não possui censuras. Tudo o que diz e faz brota de forma absolutamente natural, como se o mundo fosse acabar no instante seguinte e ele precisasse cometer ao menos uma derradeira anedota. Já era assim no passado, anos 60, quando Carlos Manga, diretor de cinema, de shows, homem de publicidade, chamou-o a fazer parte do corpo de entrevistadores de um programa de enorme audiência, o Quem Tem Medo da Verdade, sempre na Record. Por ser habitualmente desbocado, caberia a Sílvio Luiz, no programa, o papel do vilão áspero e patrulheiro. Uma experiência amarga. Sílvio precisava do cachê, duzentos cruzeiros – e em troca ganhou a imagem de calhorda, grosso e imbecil. Sua mãe, a pioneira radialista Elisabeth Darcy, conta que chorava sempre que assistia o filho fazer perguntas impertinentes a gente como Leila Diniz, que aliás também desabou em prantos com as cobranças do rapaz. Sua mulher, Márcia, a excelente cantora de Eu e a Brisa, composição de Johnny Alf que a consagrou num dos festivais da Record, recorda que era abordada na feira por donas-de-casa perplexas: “Mas a senhora tem mesmo coragem de conviver com um animal como o Sílvio Luiz?”.

Infelizmente para Sílvio Luiz, que ironia, o Quem Tem Medo de Verdade chegou a atingir picos de 90% de audiência. A imagem de cafajeste pegou. E Sílvio Luiz, na tentativa de se livrar da pecha, teve de enfrentar um bom punhado de anos na mais frígida geladeira.

O ostracismo. Não foi uma experiência nova para quem já fizera de tudo no rádio e na televisão do País. Sim, de tudo, sem exceções. Sua mãe, entronizada duas décadas antes como a primeira locutora de rádio do Brasil, ensinou-lhe as minúcias do métier. E, adolescente, Sílvio Luiz ganhou um empreguinho de ator de novelas na São Paulo, a dona do mercado na ocasião. “Minha entrada era marcante”, ele relembra com cinismo especial. “Num determinado momento eu dizia: ‘Uma careta para o senhor’. E ia embora, missão cumprida.”

Quando Elisabeth Darcy transferiu-se para a extinta TV Paulista, Canal 5, em meados dos anos 50, o garoto acompanhou sua mamãe. Evidentemente, faltava pessoal à emissora. Era preciso improvisar. E Sílvio Luiz acabou transformado em Jacob, o judeu da prestação, debaixo de quilos de maquilagem e com um sotaque qualquer, recolhido do fundo do baú, no teleteatro Sinhá das Dores, de um certo Cardoso Silva.

De fato, estar na televisão, naqueles tempos longínquos, significava ser polivalente – no sentido das habilidades e também da coragem. Não existia o vídeo-teipe. E por isso não podia haver enganos. Todos tinham de aprender a labutar na frente e atrás das câmeras. Sílvio Luiz praticamente morava nos estúdios da Paulista. Diariamente lhe arrumava um servicinho diferente. Puxava cabo, soldava fiação, trocava lâmpadas – e nas horas vagas, nas tardes de terças e quintas, começou a virar locutor esportivo. Futebol, basquete? Nada disso. O meninão transmitia, mesmo, estranhas peripécias animais, matungos puxando exóticas bigas, as corridas de trote que a Paulista tinha a coragem de mostrar aos desocupados de plantão. Sílvio não entendia nada de fascinante modalidade. Ao menos, porém, sabia como tratar o “sorvete”, o microfone que, naqueles tempos heróicos, ostentava as dimensões mais absurdas que algum técnico em transistor possa hoje imaginar.

A prática que adquiriu no trote logo lhe assegurou um lugar de repórter de campo na equipe futebolística da Paulista. Insinuante, agressivo, Sílvio Luiz começou a chamar a atenção de outros patrões. E apenas dezessete dias depois de inaugurada a TV Record, mudou de emprego – e foi formar com Raul Tabajara, Paulo Planet Buarque e Flávio Iazetti uma eficientíssima, inesquecível trupe, uma das melhores que a Nação já viu e escutou.

Delicioso período, aquele. O repórter de campo carregava um vistoso equipamento sem fio, o microfone volante, sem retorno, quer dizer, sem escuta. Só entrava em ação depois de levantar o polegar e receber, da cabina localizada trinta, quarenta metros acima, no estádio do Pacaembu, a necessária permissão do locutor titular. Resultado: o cenário ficou negro, certo domingo, quando Sílvio Luiz, devidamente autorizado, encostou sua latinha nos lábios do irrequieto meia Luisinho, do Corinthians, que acabava de ser expulso no clássico contra a Portuguesa de Desportos. O jogador, sem pensar, desabafou: “Foi tudo culpa daquele gaveteiro filho de uma puta!”.

A Paulicéia moralista tremeu em seus alicerces. No dia seguinte, até a Câmara Municipal se notabilizou para aprovar um projeto que vedasse a existência dos repórteres de campo. Felizmente não houve qhorum.

Furão, briguento, Sílvio Luiz aproveitou-se do episódio para se valorizar como profissional competente. Entrevistou Getúlio Vargas no hipódromo da Cidade Jardim, em plena época do mar de lama, depois de muito chorar suas desafortunadas e de colocar seu emprego nas mãos do indevassável Gregório Fortunato, o guarda-costas do presidente. Fez a primeira transmissão Rio-São Paulo da história da televisão brasileira, exibindo-se, meio sem jeito, nas areias de Copacabana, conversando com os banhistas que comprovariam a façanha. Numa outra vez, João Mendonça Falcão, presidente da Federação Paulista de Futebol, proibiu os repórteres volantes de entrarem em campo. Sílvio não hesitou. Convenceu um par de jogadores amigos, Mauro Ramos de Oliveira e Alfredo Ramos, do São Paulo, a executarem por ele o trabalho. De novo, como no caso do palavrão de Luisinho, a medida foi cancelada.

Para melhor explicar os detalhes de cada jogo, decidiu fazer um curso de árbitro de futebol. Chegou a apitar inúmeras pelejas dos principais certames nacionais. “O que eu sofri, meu irmão, não foi escrito em evangelho nenhum”. Padeceu, pior ainda, a instabilidade da própria televisão nos anos 60. Depois de uma passagem pela Rádio Bandeirantes, tornou-se diretor de produção da TV Excelsior, apresentador de programas de rock, selecionar de imagens – encarregou-se, por exemplo, da mesa de switch no festival que Elis Regina ganhou com Arrastão, a antológica composição de Edu Lobo e Vinícius e Moraes.

Retornou à Record em 1965 para não mais sair, disposto a perpetrar o que lhe oferecessem – inclusive a vilania de Quem Tem Medo da Verdade. Já se casara com Márcia, premeditava a formação de uma família – hoje ampliada com os filhos Alexandre, André e Andréia. E, à sua maneira, continuou impiedoso. Só que, atualmente, assesta os seus exocets na direção de gente ou instituições bem mais poderosas do que a então frágil Leila Diniz. A Rede Globo, para citar apenas com objetivo saboroso.

Desde que Sílvio Luiz se tornou o locutor titular da Record as audiências da emissora não pararam de crescer. Em janeiro de 81, durante o Mundialito do Uruguai, as cabeças da Vênus Platinada literalmente entraram em pânico – com Pedro Luiz nos comentários e Flávio Prado, o “Frango”, nas reportagens, a Record assumiu o primeiro lugar nas preferências populares. Em resposta, a Globo se assenhoreou da exclusividade da cobertura da Copa da Espanha. E o repique da Record, e de Sílvio Luiz, já se sabe, apenas serviu para aumentar a rivalidade entre as duas empresas – e as audiências da Record.

São Paulo, 1983. Ídolo nacional, Sílvio Luiz anda às voltar com os múltiplos contratos publicitários que obteve graças à sua impressionante ascensão como locutor esportivo. E não são contratos mesquinhos. Quem trata com ele? Os principais executivos de firmas como a Volkswagen ou a Antárctica, sempre atentos a uma piadinha aqui, um lance de deboche ali, coisas que possam, posteriormente, repetir. As ruas das maiores cidades do País estão cobertas de outdoors com os retratos de Sílvio Luiz. Atestado de celebridade. Sua conta bancária subiu. Sua casa em Cotia mereceu uma gostosa reforma. A cada dia Sílvio Luiz desponta na Record com um relógio de pulso diferente, daqueles que produzem “até previsão do tempo”. Mas o menino que começou transmitindo trote na TV não mudou seu temperamento, seus modos. Permanece vestindo jeans e tênis e cuidando, meticulosamente, com suas canetinhas coloridas, da produção de suas próprias transmissões. “Você quer saber de um pormenor? Se me perguntarem a que altura estou voando, juro que não vou responder.” Entrelismo? Ás vezes Sílvio Luiz dá os seus berros, age como se estivesse na estratosfera do sucesso. Mas, como afirma o produtos executivo de esportes da Rede Record, o inesgotável Fábio Caetano, “ele é assim só na aparência”. De fato, a maior qualidade de Sílvio Luiz, sem dúvida, é saber brincar consigo mesmo.

“Frank Sinatra canta e a orquestra toca”, disse Sílvio Luiz, dia desses, à sua perplexa equipe. E quando todos pensavam que ele fosse oferecer uma exibição de pedantismo, entre gargalhadas saborosas Sílvio Luiz, razoavelmente afinado, desandou a cantar Strangers in the Night.

Publicado originalmente na Penthouse brasileira edição 06, em março de 1983, editora Grafipar.

domingo, 25 de julho de 2010

Fiori Gigliotti em quatro tempos




 Todas as imagens deste post foram retiradas do site oficial do jornalista Milton Neves (www.miltonneves.com.br). Nossos agradecimentos pelo jornalista manter este verdadeiro museu dos grandes jogadores e profissionais do rádio e televisão.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

O que aconteceu com os times do primeiro jogo que Fiori transmitiu?

 
Imagens retiradas do site www.distintivos.com.br


Fiori Gigliotti  narrou seu primeiro jogo como locutor profissional de rádio no dia 26 de maio de 1947. A partida foi disputada entre o São Paulo de Araçatuba e Linense.

Mais de 60 anos depois, os dois times tiveram histórias completamente diferentes dentro do futebol. O Linense, conhecido popularmente como Elefante da Noroeste, continua sendo um dos principais times do interior de São Paulo. Já o clube de Araçatuba encerrou suas atividades profissionais em 1965.

Fundado em 1917, a Linense disputou o Campeonato Paulista da primeira divisão por cinco anos consecutivos (de 1953 a 57). Animados com o acesso a primeira divisão em 1952, os cartolas da equipe ordenaram que os atletas desfilassem pelas ruas da cidade montados num elefante, o mascote oficial do time. Não foi fácil arrumar o bicho. Demorou muito tempo até que um morador achasse um elefante de circo. Os jogadores então desfilaram nas principais vias de Lins em cima do elefante.

Durante seu período na primeira divisão, o clube do interior de São Paulo obteve grandes resultados. O time venceu clubes grandes como Palmeiras, Santos e Portuguesa. Mas o grande feito da história do Elefante da Noroeste foi ter goleado o São Paulo de Poy, De Sordi e Bauer por 4 a 1 em 1953. Naquele dia, Lins e região fizeram grande festa.
  
Outro fato relevante da história da Linense é o clube ter revelado o ex- meia João Campos Filho, o Leivinha, grande ídolo da história do Palmeiras e do Atlético de Madrid. No início deste ano, a Elefante da Noroeste conquistou a segunda divisão estadual e irá voltar a elite  do Campeonato Paulista em 2011.


Já o São Paulo de Araçatuba teve uma história bem mais curta. Fundado em 11 de novembro de 1948, o São Paulo Futebol Clube de Araçatuba surgiu num momento em que a cidade do interior paulista não tinha nenhum clube de peso. Então, os fanáticos por futebol do município organizaram um torneio com o chamado “trio de ferro” da capital (Palmeiras, Corinthians e São Paulo). Os tricolores venceram a competição e o clube de Araçatuba recebeu este nome. Em 1954, a agremiação alterou seu nome para Araçatuba Esporte Clube. Mesmo assim, o time acabou se extinguindo 11 anos depois. Ao todo, o SPFC de Araçatuba disputou o Campeonato Paulista profissional por oito anos jogando a segunda e a quarta divisão.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Fiori: ligado no lance!


Por Maurício de Sousa
Você já ouviu um jogo pelo rádio? Os locutores falam depressa, não? Pois esse é o único jeito de narrar uma partida sem deixar de contar nenhum lance para os torcedores. Fiori Gigliotti é mestre nisso.

Na Copa de 94, Bebeto marcou um golaço contra os Estados Unidos. Gigliotti narrou a jogada em 28 segundos e ainda gritou a palavra gol por mais 10 segundos. Que tal tentar fazer o mesmo?  Peça a um amigo para marcar o tempo enquanto você lê em voz alta a narração do Fiori.

“Vai, Brasil, que a nossa fé te empurra. Carrega Dunga, invadindo o campo americano. Solta curtinho para Zinho. Domina bem e bonito. Finta um adversário. Zinho avançando. Romário esperando. Saiu o passe. Zinho para Romário. Avança o artilheiro. Ganha espaço e aumenta a confiança. Desloca-se Bebeto. A defesa americana abrindo buraco. Carrega Romário. Vai cruzar. Cruzando para a boca do gol. Na velocidade aparece Bebeto. Vai chutar. É fogo! É goooooollllll!”

Publicado originalmente no Manual de Esportes do Cascão de autoria de Maurício de Sousa, editora Globo, 1995.

sábado, 10 de julho de 2010

“Fiori foi um dos profissionais mais humildes e bondosos que conheci”

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fotos: acervo pessoal de Douglas Ladeira 

Violão, Sardinha e Pão conversou por telefone com Douglas Ladeira, radialista que trabalhou ao lado de Fiori Gigliotti na Rádio Bandeirantes durante 20 anos. Vejam o depoimento que ele deu sobre seu ex-companheiro de trabalho:

“Trabalhei na Bandeirantes de 1970 a 1990. Eu fui levado pelo Hélio Ribeiro que é meu padrinho de profissão. Durante esses vinte anos na emissora eu trabalhei com gente como Antônio Carvalho, Muibo Cury e Fiori Gigliotti. Todos foram meus amigos e o Fiori sempre foi uma pessoa sensacional, amigo de todo mundo. Ele era um dos baluartes da emissora, uma pessoa humilde em demasia. O Fiori ficou magoado com a saída dele da rádio e com razão. Ele sempre foi a principal referência do departamento de esportes da emissora. Eu apresentei o Bandeirantes Viaja com Você e depois passei a fazer o Caminho do Sol substituindo o Flávio Guimarães. Eu estou no setor de radialismo há 40 anos e durante esse período o Fiori foi um dos profissionais mais humildes e bondosos que eu conheci. É uma figura que merece ser louvada sempre”.
Douglas Ladeira, 68, radialista. Trabalhou durante vinte anos na Rádio Bandeirantes e atualmente está na Rádio Cidade FM 104,9 de Itanhaém (SP).

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Personagem de julho: Fiori Gigliotti


Durante o mês de julho, o blog Violão, Sardinha e Pão irá continuar a série especial sobre o locutor Fiori Gigliotti. Sua carreira, sua trajetória, os grandes jogos que ele narrou. Tudo será contado aqui. Aguardem.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Cronologia profissional de Fiori Gigliotti





O locutor Fiori Gigliotti se tornou famoso em todo Brasil pelo seu carisma e talento. A humildade era outra de suas notáveis qualidades. O livro Os Donos do Espetáculo- Histórias da Imprensa Esportiva do Brasil de autoria do jornalista André Ribeiro faz um interessante resgate de todo o histórico da imprensa esportiva brasileira.
  
Reuni aqui todas as passagens da obra em que o locutor de Barra Bonita é citado por Ribeiro. Trata-se de uma cronologia que compreende praticamente toda a trajetória da carreira e da vida de Fiori Gigliotti, homenageado do blog Violão, Sardinha e Pão neste mês de junho. Espero que os leitores gostem e possam aprender um pouco mais sobre a carreira de Fiori.

Fiori: O dono do espetáculo
Por André Ribeiro

1956-1960
Confrontar o poderio das estrelas significava, no mínimo, estar distante dos holofotes, é em muitos casos demissão.

Fiori Gigliotti, por exemplo, preferiu deixar a Rádio Bandeirantes, onde trabalhava havia seis anos, porque sabia que com Pedro Luiz não teria espaço para trabalhar: “Para ser sincero, nunca me dei bem com o Pedro. Sabia que com ele na Bandeirantes não iria para a frente”.

A decisão de trocar a Bandeirantes pela Panamericana não seria tão simples assim. Fiori, descoberta do interior, na cidade de Lins, em 1947, era uma das maiores revelações dos últimos tempos do rádio esportivo de São Paulo. Como sabia que não teria espaço entre as feras Edson Leite e Pedro Luiz, decidiu criar estilo próprio para as narrações. Com o tempo, surgiram os bordões: “Abrem-se as cortinas, começa o espetáculo”, ou “balão subindo, balão descendo”.

Longe do comando das principais transmissões, Fiori comandou e participou de programas jornalísticos históricos, como Marcha do Esporte, Movietone Esportivo e o mais famoso de todos, o Cantinho da Saudade, em que fazia espécies de poemas dedicados a craques do passado.

Disposta a não perder de mão beijada sua maior revelação para a concorrência, a Bandeirantes decidiu impor uma multa contratual para complicar a vida do narrador, fato incomum entre as emissoras da época. Fiori informou a Paulo Machado de Carvalho Filho, diretor da Panamericana, sobre a exigência, e já se conformava com um possível cancelamento de sua contratação. Mas, surpreendentemente, seu novo patrão decidiu aceitar a provocação: “Paulinho não se preocupou nem um pouco com a multa que era bastante alta para a época. Chamou o chefe de seu departamento administrativo e pediu para que arrumasse 250 notas de um cruzeiro, valor da multa que a Bandeirantes cobrava. Ele chegou para mim e disse que eu teria de levar aquele saco enorme de dinheiro para pagar a multa. Queria ter o prazer de fazer os caras da Bandeirantes contarem tim-tim por tim-tim. Murilo Leite fico uma fera. Chamou o tesoureiro para contar o dinheiro e o negócio foi feito”.

Na Panamericana, Fiori trabalharia durante os cinco anos seguintes ao lado de Nelson Spinelli, José Carlos Silva, Octávio Muniz, Salém Júnior, Aníbal Fonseca e do comentarista e ex-craque da Seleção Brasileira Leônidas da Silva. O sucesso estava apenas começando. Alguns anos depois, retornaria à Bandeirantes, onde atingiria a espantosa marca de 16 mil jogos narrados pelo Brasil e por mais de cem países ao redor do mundo.

Com a chegada de Fiori à Panamericana, Geraldo José de Almeida era obrigado a trocar o rádio pela TV Record, empresa do mesmo grupo pertencente a Paulo Machado de Carvalho. 

1961-1965
A saída de Edson Leite da Bandeirantes provocou uma revolução no rádio esportivo paulistano. Pedro Luiz deixou a Bandeirantes para formar uma das equipes mais tradicionais do rádio esportivo brasileiro: a equipe 1040 da Tupi. Fiori Gigliotti, que acabara de narrar sua primeira Copa do Mundo pela Panamericana, foi para o lugar de Pedro, como principal locutor da emissora: “A proposta do Murilo Leite era irrecusável. Fui ganhando três ou quatro vezes mais do que na Panamericana, que estava em crise. Foi a partir desse momento que minha carreira decolou. Passei a ter dinheiro para comprar imóveis no interior, ter casa própria, carro”.

Fiori, como novo chefe da equipe esportiva da Bandeirantes, teve de buscar novos nomes no mercado. De Araraquara, interior do estado, trouxe o repórter Roberto Silva, que em pouco tempo ganharia o apelido de “Olho vivo”. Flávio Araújo, Luís Aguiar, Luís Augusto Maltoni, Ênio Rodrigues e Ethel Rodrigues passaram a ficar conhecidos como o “scratch do rádio”.

Mauro Pinheiro, que tinha começado no jornalismo carioca, mas se tornou famoso na Bandeirantes pelo conhecimento que demonstrava sobre o mundo do futebol, era o “intelectual” da equipe. Baixinho e gordinho, o suíço nascido na cidade de Berna só andava vestido de forma impecável, com seus ternos, gravatas e coletes. O charuto era outro adereço inseparável. Não foi à toa que ganhou o apelido de “Comendador”, substituído depois por “Senador da República”. Em 1974, tornou-se o primeiro presidente da Abrace, Associação Brasileira dos Cronistas Esportivos.

1966-1970
Sobre a Copa de 70:
No rádio, a Bandeirantes formou pool com a Pan e a Nacional de São Paulo. Pela Band narravam Fiori e Flávio Araújo, com comentários de Mauro Pinheiro e reportagens de Roberto Silva. Pela Nacional, Pedro Luiz e Marco Antônio Matos, com comentários de Mário Moraes e reportagens de Juarez Soares. Pela Pan, apenas Joseval Peixoto como narrador, com comentários de Cláudio Carsughi e reportagem de Geraldo Blota.

1976-1980
O que sacudiu para sempre o mercado de contratações do rádio esportivo na década de 1970, porém, foi a compra do passe, a peso de ouro, de Osmar Santos pela Rádio Globo. Para tirá-lo da Jovem Pan, a emissora global decidiu pagar 300 mil cruzeiros mensais, salário jamais oferecido a qualquer outro profissional da imprensa esportiva brasileira, pelo menos até aquele momento.

A contratação de Osmar acabou provocando um “efeito cascata” em todo o mercado. Fiori Gigliotti, da Bandeirantes, chegou a ser arrancado da cama para assinar um novo contrato: “Eu estava de pijama na minha casa quando quatro pessoas da Rádio Tupi, entre elas Luís Aguiar, pegaram minha roupa e disseram que eu tinha de ir para a Tupi assinar um contrato milionário. Me davam o dobro que eu ganhava na Bandeirantes e mais um carro Alfa-Romeo zero quilômetro. Com proposta assim não pude recusar. Assinei, mas João Saad (dono da Bandeirantes) me chamou em sua sala e disse que cobriria a proposta da Tupi. O aspecto jurídico era para deixar com eles. Não sei como, mas em poucos dias, mesmo já tendo assinado com a Tupi, continuei na Bandeirantes com um ótimo salário”.

Para segurar sua maior estrela, a Bandeirantes teve de pegar salário superior ao de craques que jogavam na época e até mesmo de alguns galãs de televisão. Fiori passou a ganhar mais do que os 300 mil de Osmar na Globo.

Para os que achavam muito, a explicação é simples: as emissoras também faturavam alto com o patrocínio das transmissões e da grade de programação esportiva. Na Globo, a chegada de Osmar permitiu a venda de uma única cota de publicidade por 350 mil cruzeiros. A Bandeirantes faturava quase 4 milhões de cruzeiros por mês, grande parte graças ao gogó de Fiori Gigliotti.

(...) Fiori Gigliotti recebeu como missão do proprietário da Rede Bandeirantes procurar o presidente do Corinthians, Vicente Matheus, para conseguir 120 metros de tubulações especiais de concreto para poder transferir seus transmissores do bairro de Vila das Mercês para a cidade de Diadema. A obra era muito cara, e a tarefa de Fiori era convencer a empresa de Matheus a fazer um preço camarada ou, na pior das hipóteses, a aceitar uma permuta comercial na emissora.

Fiori Gigliotti partiu para o encontro com o empresário e saiu de lá surpreso com sua resposta: “Não preciso de permuta nenhuma. Acho que a Bandeirantes não tem ideia de quanto custa o que você está me pedindo. Sabe quanto custa? 10 mil dólares. Mas vamos fazer o seguinte. Vou fazer de graça porque gosto muito do seu trabalho, e você cobra da Bandeirantes o que quiser”.

O narrador voltou à emissora e relatou o resultado de seu encontro com Matheus, e é claro que a Bandeirantes adorou o negócio. Só Fiori que não: “Nem obrigado me deram. O que custava me darem uma comissão pelo trabalho? Na verdade, fazia esse tipo de intermediação pensando no meu futuro na emissora. Garantiam para mim que quando me aposentasse dos microfones teria um cargo diretivo, mas mais tarde o que aconteceu não foi nada disso, para minha decepção”.

A lembrança desse episódio de Fiori leva a um questionamento: ele não levou nada, mas e outros teriam recebido presentes semelhantes? Resposta para isso talvez jamais pudesse ser obtida. Mas a década de 1980, apenas começando, estava prestes a abrir uma verdadeira caixa de Pandora do futebol brasileiro.

1991-1996

O detalhe importante de toda essa polêmica é que as empresas de comunicação, rádio ou tevê, costumavam fazer “vistas grossas” para essa situação, até porque eram elas as principais beneficiadas. Em muitos casos, como o do falecido veterano Fiori Gigliotti- que buscou centenas de patrocinadores para a manutenção da programação esportiva do rádio na Bandeirantes-, participar dessas negociatas não era garantia para terminar a carreira milionário ou para obter o devido reconhecimento.

Em janeiro de 1996, após quase quarenta anos de dedicação exclusiva à emissora, sua saída se transformou em pesadelo: “Nunca fui ambicioso. Você não pode gostar muito da empresa onde trabalha. Nunca fui um profissional que defendesse os meus interesses. Sempre pensei no grupo, na minha equipe. Só não fiquei rico na minha profissão porque a Bandeirantes foi sempre ingrata comigo. Foi ingrata até na hora de eu sair, até no acerto de contas. Minha mágoa com eles é o acerto de contas. Ela me deu tudo que eu tenho na vida. Mas e o que eu dei para ela? Só para ilustrar um dos tantos casos de ingratidão, recordo que em determinado ano a Assembléia Legislativa de São Paulo iria votar um projeto que aumentava em 18% a cobrança de impostos para todos os veículos de comunicação do estado. Os donos da Bandeirantes alegaram que com meu prestígio junto aos “meus amigos políticos” eu poderia evitar um corte em diversos veículos na ordem de 50%. Comprei a briga e passei vários dias fazendo lobby com diversos políticos ligados ao futebol, até chegar o dia da votação em plenário. Ás 3 horas e 40 minutos da madrugada, a Assembléia engavetou o projeto. Liguei para a rádio, e o Johnny Saad ainda estava na emissora aguardando o resultado da votação. Ficaram eufóricos. No dia seguinte, nem “muito obrigado”. O que quero dizer é que por tudo isso que fiz por eles imaginava um tratamento diferente na minha saída”.

Talvez por finais idênticos aos de Fiori, outros jornalistas famosos preferiram abandonar o jornalismo esportivo, acharam melhor enterrar o passado da cobertura em estádios e redações para se dedicar ao mundo dos negócios esportivos. Mas perceberam que o novo caminho não seria tão tranquilo. Outros preferiram manter a dupla jornada e enfrentaram a patrulha incessante dos próprios companheiros de profissão.

Passagens publicadas originalmente em Os Donos do Espetáculo- Histórias da Imprensa Esportiva do Brasil, de André Ribeiro, editora Terceiro Nome, São Paulo, 2007.