Mostrando postagens com marcador Gigantes do JE. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Gigantes do JE. Mostrar todas as postagens

domingo, 11 de setembro de 2011

Gigantes do Jornalismo Esportivo: José Jorge Farah Neto


No final dos anos 90, dois amigos percorreram diversas cidades do interior de São Paulo atrás de equipes e estádios esquecidos. O resultado foi a elaboração do revolucionário Almanaque do Futebol Paulista, tido por muitos fanáticos como a bíblia do esporte bretão.

Lançado pela primeira vez em 2000, o anuário compilou informações de todos os clubes que disputaram as divisões profissionais do estado. O livro assinado pelo jornalista José Jorge Farah Neto e pelo publicitário Rodolfo Kussarev Júnior fez grande sucesso. A publicação do almanaque durou quatro anos e fez a cabeça de uma geração de apaixonados pela bola.

As quatro edições do Almanaque ainda são disputadas nos sebos. Para saber mais histórias dos bastidores do livro, Violão, Sardinha e Pão conversou com exclusividade com José Jorge Farah Neto, atual presidente da Federação Paulista de Futebol de Mesa e um dos autores da obra.

Violão, Sardinha e Pão- Na sua opinião pessoal, qual é o maior mérito do livro?

Farah Neto- O maior mérito foi o ineditismo do projeto, pois até então nunca se havia feito um trabalho tão profundo dos clubes que disputaram as competições da Federação Paulista. Com a primeira edição pronta, ficou mais fácil dar seqüência.

VSP- Qual foi a maior dificuldade na elaboração da primeira edição?

FN- A primeira edição foi a mais trabalhosa. Tudo começou com algumas cartas enviadas a clubes que já haviam parado com o futebol profissional, ao obter algumas respostas, fui à sede da federação na época localizada na (avenida) Brigadeiro Luís Antonio. Fiquei uma semana dentro de um arquivo empoeirado, que praticamente nunca tinha sido mexido. Me diverti descobrindo papéis timbrados incríveis de clubes que até nunca tinham participado, porém haviam requerido sua inscrição na FPF. Levantei assim todos os campeonatos em suas diversas divisões com o nome de todas as agremiações que haviam participado da época dos campeonatos de acesso a partir de 1947 e alguns até antes disto.

VSP- Você e o Rodolfo percorreram todo o interior de São Paulo realizando a pesquisa. Conte algum episódio interessante ou engraçado que vocês vivenciaram durante esse período.

FN- Fizemos uma viagem enorme por todo o interior do estado de São Paulo, focando sempre nas cidades que haviam tido alguma equipe em alguma divisão da FPF. Porém, não nos restringimos a isto porque existiam muitos clubes que nunca foram profissionais e tinham um nome muito forte no interior. Houve um momento em uma cidade, que o Rodolfo sumiu, e eu fiquei a procurá-lo. Sai andando para o lado que ele havia ido e ao andar um quarteirão encontrei-o dentro da casa de um ex-jogador. O ex-atleta lhe deu uma faixa de quando ele foi campeão e até cafezinho a esposa deste senhor nos serviu. Quanto aos nomes já não me lembro mais, devo ter escrito em algum lugar em meus papéis de anotação. Em uma fazenda no interior (prefiro não dar o nome) nós quase fomos presos. Porque era proibido tirar fotos e os guardas (ou seguranças) queriam tomar nossas máquinas de fotografia. As fotos estão comigo até hoje e assim muitos fatos ocorreram.

VSP- Qual foi a equipe mais difícil de ser pesquisada?

FN- Talvez o time desta fazenda tenha sido uma das mais difíceis. Houveram equipes que foram muito complicadas de conseguir dados, algumas tinham a história, mas não tinha um distintivo. Outras tinham o distintivo, mas não tinham história. Precisaria olhar no próprio livro para lhe dizer o que foi fácil e o que foi difícil. Mas posso dizer que foi prazeroso demais, e sempre com objetivo de conseguir fomos em frente. Não desistimos em um só momento da empreitada.

VSP- Passados 11 anos, o livro é disputado nos sebos e é tido como a bíblia do futebol alternativo. Vocês esperavam todo esse sucesso?

FN- Quando a ideia veio na minha cabeça, eu tinha certeza do sucesso.  Porém, lamento muito ter parado o projeto. Gostaria de retomar o livro, um dia quem sabe retomo. Mas fico muito feliz com o sucesso da obra 11 anos depois. Ainda tenho uns poucos exemplares e a procura ainda é grande.

VSP- Você já pensou em fazer um almanaque do futebol brasileiro?

FN- Já. Tenho inclusive um projeto prontinho e faço as pesquisas por conta própria. Lançaram alguns livros com a minha ideia, mas nenhum conseguiu atingir o objetivo. Para isto é preciso ter a historia na mão o que eu e alguns outros pesquisadores temos. Ainda tenho esperança de fazer este livro algum dia. No momento, necessito de um patrocinador.

VSP- Você acredita que um almanaque como esse poderia ter uma carreira comercial satisfatória se lançado hoje para o grande público?

FN- Nada supera a leitura. Nem a poderosa internet. Pesquisar é preciso e dar aos leitores um texto saboroso é sempre bom. Como lhe disse pretendo me unir aos amigos pesquisadores e ainda fazer estes livros que irão encantar a todos.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Gigantes do jornalismo esportivo: Milton Neves


A MAGIA DO RÁDIO

O mais ouvido plantão esportivo paulista explica seu sucesso, relembra casos saborosos e faz uma declaração de amor à profissão

Pouca gente fora do estado de São Paulo conhece o jornalista Milton Neves. Os ouvintes da Jovem Pan- uma rádio estritamente paulista -, porém, aprenderam a respeitá-lo desde que ele assumiu o plantão esportivo da emissora, em 1982. De lá para cá, ele dinamizou as transmissões dos jogos de futebol. Seu trabalho de retaguarda nos estúdios não se limita apenas à informação dos resultados das partidas de uma rodada.

“Eu já fui torcedor de ficar ouvindo rádio e sei o que o pessoal quer”, explica esse mineiro de Muzambinho, Em 1983, Milton Neves passou a produzir o que são hoje dois dos programas de maior audiência em São Paulo: o Plantão de Domingo, de manhã, e o Terceiro Tempo, levado ao ar logo após cada jogo coberto pela Jovem Pan. Casado, pai de três filhos, 35 anos, Milton se desliga de tudo aos domingos. “Domingo é o meu dia, é o dia do futebol”, entusiasma-se. Chega ao estúdio ás 9 horas e só sai de lá ás 20. Não come nada o tempo inteiro.

O que mais impressiona quem acompanha o seu trabalho é uma incrível memória e a precisão de suas informações. Muita gente não acredita que ele esteja no estúdio ou que não possua um imenso arquivo sobre a mesa. Pois é verdade: ele quase nunca vai ao estádio e não tira história nenhuma de algum computador: elas estão todas em sua cabeça. E tudo começou nos tempos de garoto em Minas, acompanhando o Santos de Pelé pelas ondas curtas, como ele contou ao redator-chefe Mário Sérgio Della Rina. Seu depoimento é uma espécie de declaração de amor à magia do rádio.

PLACAR- Quando teve início essa sua paixão pelo rádio e pelo futebol?

MILTON- Eu tinha 9 anos de idade quando minha tia Antônia me deu um rádio GE de capa de couro marrom, que ela havia comprado nas lojas Mazili, em Muzambinho. A partir daquele dia, nunca mais fui a uma matinê de cinema, não ia a bailes no tempo de rapazinho e até namorava pouco: aos domingos, ninguém me tirava do lado do rádio.

PLACAR- Foi aí que começou a sua carreira?

MILTON- Acho que sim. Eu acompanhava tudo. Ouvia os programas da época- Bola ao Ar e Marcha no Esporte, da Rádio Bandeirantes, era sócio do Clube do Ouvinte, na Rádio Tupi, mandava cartas para todas as emissoras pedindo tabelinhas dos campeonatos...Uma vez recebi um cartão assinado por Geraldo Bretas (comentarista da Rádio Tupi, já falecido) e até fiquei sem dormir. Guardei-o como um troféu, foi uma das maiores alegrias da minha vida.

PLACAR- Como era acompanhar o futebol pelo rádio, naquela época?

MILTON- Era uma coisa incrivelmente romântica. A televisão praticamente não existia e os narradores exageravam na descrição dos lances e na atuação dos jogadores, criando verdadeiras lendas. Lembro-me de um Santos X Corinthians, certa vez, em que o Coutinho marcou três gols numa noite de muita chuva no Pacaembu. O locutor- não tenho muita certeza quem era -, no fim do jogo, dizia que Coutinho tinha atuado com o joelho estourado, que ficou parado a partida inteira, que os outros jogadores estavam todos enlameados, enquanto o centroavante do Santos tinha saído com o uniforme imaculadamente branco e só tocara na bola três vezes – para fazer os 3 X 0 da vitória. Hoje, quando eu me recordo desta história, acho maravilhoso que eu pudesse acreditar num exagero daqueles...(risos)

PLACAR- O rádio chegava a criar manias na gente...

MILTON- É verdade. Eu achava que havia locutor que dava sorte ou azar para meu time. Era uma coisa mágica. Eles criavam expressões maravilhosas: “O zagueiro entrou de forma atabalhoada”. Atabalhoada...olha só que palavra. Só no rádio, mesmo (risos). Eu via – e ainda vejo – um jogo pelo rádio. Pela maneira como o cara estava transmitindo, eu sabia se meu time iria ganhar a partida.

PLACAR- Qual era o locutor que mais o impressionava?

MILTON- Fiori Giglioti, da Bandeirantes, “Cadeia verde e amarela, norte e sul do Brasil”. Certa vez – a primeira que fui a um campo de futebol – viajei com alguns amigos a Ribeirão Preto para ver o Santos contra o Comercial. Um parênteses: o Santos ganhou por 2 X 0 com um gol de pênalti de Pelé e outro de Dorval, de pé esquerdo. Pois bem: quando começou a partida fiquei 10 minutos de costas para o campo, com o rádio colado ao ouvido, olhando como Fiori Giglioti transmitia, da cabine lá em cima de mim.

PLACAR- E quem foi o comentarista que mais o marcou?

MILTON- Sem dúvida, Mauro Pinheiro (Rádio Bandeirantes). Sua precisão, seu rigor na informação eram admiráveis. Tive a honra e o prazer de trabalhar com ele na Jovem Pan um pouco antes de ele morrer. No dia de sua morte, chorei como se tivesse perdido meu pai. Até hoje, quando passo em frente ao cemitério do Araçá no caminho de casa para a Jovem Pan, boto a cabeça para fora do carro e dou um tchau para o Maurão. Tenho certeza de que ele fica satisfeito.

PLACAR- Essa precisão e esse rigor que você via em Mauro Pinheiro hoje estão presentes em seu trabalho, não é verdade?

MILTON- Hoje aplico todas as lições que aprendi com todos aqueles maravilhosos cronistas da década de 60. No fundo, o que faço no rádio é mostrar aquilo que o torcedor gosta de ouvir – porque eu escutava muito rádio e sei o que é gostoso de se ouvir. Falo as coisas que o torcedor gostaria de falar. Pergunto o que eles queriam estar perguntando. Torcedor não gosta de entrevista com cartola nem quer o técnico dando detalhe do esquema tático. O que a gente curte é saber que carro o ídolo tem, em que cidade ele nasceu, se tem filhos, qual o nome da mulher. E torcedor adora histórias do passado – se forem histórias com um pouquinho de lenda, melhor ainda. O futebol não morre por causa disso: são as historinhas antigas que animam o papo de botequim, os tira-teimas, as discussões...

PLACAR- Sua memória é fantástica. Como você consegue se lembrar tão facilmente das coisas do passado?

MILTON- Sempre tive facilidade para guardar informações em minha memória. Como eu era torcedor fanático do Santos, prestava muita atenção nas irradiações das partidas. Eu me lembro da escalação de todos os adversários do Santos nos anos 60. O Grêmio que jogou na Taça Brasil, por exemplo, por exemplo: Arlindo, Altemir, Aírton, Áureo e Ortunho; Cleo e Sérgio Lopes; João Severiano, Paulo Lumumba, Nílton e Vieira. Ou o América de São José do Rio Preto, que subiu para a Primeira Divisão de 1964: Reis, Bertolino, Santo, Tubá e Ambrósio; Mota e Celino; Jota Alves, Cardoso, Sapucaia e Dirceu.

PLACAR- Como você chegou a Jovem Pan?

MILTON- Vim para São Paulo estudar Jornalismo e consegui estágio na rádio para trabalhar como repórter de trânsito. No final do Campeonato Paulista de 1973, me escalaram para ficar fora do Morumbi, orientando os torcedores para que evitassem os congestionamentos perto do estádio. Só que eu não resisti e, quando começou o jogo, me mandei para o campo para ver Pelé contra a Portuguesa. No fim, acabei suspenso por uma semana. Logo depois, me mandaram fazer o plantão esportivo aos domingos.

PLACAR- Como é o trabalho de um plantonista de rádio?

MILTON- Muita gente acha que o plantão é o cocô do cavalo do bandido (risos). Que é o cara de menos status da equipe. Modéstia a parte, eu acho que valorizei esse setor. É uma área com um filão inesgotável: é jornalismo puro, prestação de serviço. Consegui ampliar o meu espaço. Hoje eu entro no ar mais de cinco horas antes do início de um jogo (o Plantão de Domingo começa ás 9h30) e vou até de noite (o Terceiro Tempo acaba às 20 horas).

PLACAR- Você não sonha em ser locutor, repórter ou comentarista?

MILTON- Que nada! Quero continuar plantão e apresentador. É a melhor coisa do mundo. Você já viu como um repórter sofre na cobertura de uma Copa, por exemplo? Se Sócrates levanta de noite para fazer xixi e você não estava atento para dar a notícia, você até perde o emprego. Comigo, não: fico no meu cantinho curtindo tudo. Não há nada melhor que acompanhar uma Copa de longe.

PLACAR- Vamos falar de televisão, ela ajuda ou atrapalha o futebol?

MILTON- Ela já ajudou mais, antigamente. Antes, eu adorava ficar a semana toda esperando a transmissão ao vivo de uma partida do Campeonato Paulista pela Record, nos tempos de Raul Tabajara, Paulo Planet Buarque e Flávio Iazetti. Hoje é uma bagunça de calendário, as grandes redes alteram tabelas por conveniência de seus horários, ninguém sabe quando o jogo vai ser transmitido ao vivo. Os Gols da Rodada também criaram um mau hábito: o torcedor, quando vai ao estádio, pensa que irá ver vinte gols em 90 minutos e muitas vezes sai decepcionado. Eu mesmo, quando vou ao campo, subconscientemente fico esperando o replay do gol – porque estou acostumado aos teipes.

PLACAR- Você quase não vai os estádios. Isso prejudica o seu trabalho?

MILTON- De jeito nenhum. Para começar, eu acabo não conhecendo nenhum jogador pessoalmente. Isso é bom: não me comprometo com ninguém. Depois, o fato de eu não estar lá, no campo, aumenta a minha curiosidade sobre o que aconteceu e acabo perguntando aquilo para os ouvintes – que também seguiram o jogo pelo rádio – gostariam de perguntar.

PLACAR- Qual o jogo inesquecível da sua vida?

MILTON- Santos e Milan, na disputa do Mundial Interclubes de 1963: foi a primeira vez que vi um jogo pela televisão, ao vivo. A partir daquela virada histórica (o Santos perdia por 2 x 0 e virou para 4 x 2) no Maracanã, virei santista fanático. Houve ainda duas outras partidas que me marcaram muito: Santos x Portuguesa, decisão do Campeonato Paulista de 1963 (Santos 3 x 2, na Vila Belmiro), que acompanhei pela televisão, e Santos x São Paulo, final do Campeonato Paulista de 1978 (o Santos ganhou o título na prorrogação), uma das mais emocionantes transmissões da vida do José Silvério (narrador da Jovem Pan).

PLACAR- Qual foi o maior jogador que você não viu jogar?

MILTON- Carlos Alberto Torres. Era o meu maior ídolo. Quando eu ouvia e ainda hoje ouço uma entrevista dele, sei pela entonação de voz se ele está contente, nervoso, de mau humor...

PLACAR- Essa sua capacidade de perceber detalhes faz com que muitos pensem que você está no campo, e não no estúdio, na hora do jogo...

MILTON- Eu presto a máxima atenção na irradiação da partida. Como José Silvério é o mais preciso locutor que já conheci, fica fácil. Então, no fim de um jogo, quando afirmo para um goleiro que ele pulou no canto errado, só estou repetindo o que ouvi durante a partida. É só prestar atenção na transmissão.

PLACAR- Como é seu relacionamento com os ouvintes? Você recebe muitas cartas?

MILTON- Recebo em média dez cartas por semana. Consegui formar uma empatia impressionante com os torcedores porque sou uma espécie de porta-voz deles. Tenho as mesmas manias deles. Quer um exemplo? Outro dia eu disse no ar que só confio em goleiros com nomes compridos. Rodolfo Rodriguez impõe respeito somente pelo nome... As letras da palavra Mazurkiewicz fechavam o gol do Atlético Mineiro.... (risos) As pessoas escutavam isso no rádio e me escrevem, dizendo que é isso mesmo, que elas também têm essas impressões.

PLACAR- Você responde a todas essas cartas?

MILTON- É claro! Nenhuma fica sem resposta. Eu também escrevia para as rádios quando era menino e sei da satisfação em ser atendido por quem a gente gosta. Aliás, faço um apelo para todos os jornalistas esportivos para que nunca se descuidem de sua correspondência. O torcedor se sente gratificado, passa a admirar ainda mais o trabalho do cronista e quem ganha com isso é o próprio futebol. Toda carta, por mais absurda que possa parecer, precisa ser respondida. O torcedor é a razão do ser do futebol.

PLACAR- Como você analisa o futebol que está sendo jogado hoje?

MILTON- Não é coisa de saudosista, mas o futebol de hoje está muito pior do que era antigamente. Não é por falta de bons jogadores. A culpa é dos dirigentes – de clubes e federações. Mandos e desmandos, escândalos e cambalachos. Isso desanima e afasta o torcedor dos estádios. Mas sou otimista: acho que o trabalho do jornalista, feito com informação, crítica e carinho com o seu público pode melhorar isso.

Publicado originalmente na revista Placar, edição 881, em 20 de abril de 1987

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Milton Neves 60 anos

Homem importante do rádio e da televisão, Milton Neves completou 60 anos nessa semana. É inegável que o jornalista e apresentador é dono de um carisma invejável e uma carreira sólida em diversas mídias. Lamento somente a relação dele com os patrocinadores. Ele poderia usar seu talento e o jeitão de caboclo mineiro de outra maneira. Em breve, irei colocar uma entrevista realizada quando ele ainda trabalhava na Rádio Jovem Pan, emissora paulistana na qual ele atuou por muito tempo.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Gigantes do Jornalismo Esportivo: Mário Sérgio Venditti

Mário Sérgio Venditti (1964-) foi uma das grandes revelações da revista Placar na década de 80. Na publicação, esteve sob as ordens do diretor de redação Carlos Maranhão. Como repórter, se firmou na elaboração de matérias realizadas com  grande apuração. Palmeirense convicto, é um dos autores do Almanaque do Verdão, realizado em parceria com o jornalista corintiano Celso Unzelte. Tive a oportunidade de dividir a arquibancada com Venditti em diversos jogos do Palestra. É daqueles torcedores nostálgicos, que gostam de relembrar os tempos da Academia e de reclamar dos novos tempos no Parque Antártica. 

Reuni aqui uma matéria muito interessante que ele realizou para a revista da editora Abril sobre o Nacional, o simpático clube da Rua Comendador Souza.  

TRENZINHO DE GLÓRIAS



Campeão da Taça São Paulo de Juniores, o ex-clube dos ferroviários paulistanos sonha reviver seus velhos tempos

Por Mário Sérgio Venditti

Campeão da 19º Taça São Paulo de Futebol Júnior, conquistada no último dia 25, o Nacional conseguiu voltar ás manchetes. Afinal, a valente equipe da Comendador Souza – uma simpática ruela que termina bem em frente aos portões de sua sede, no bairro paulistano da Água Branca – desde 1972 não conquistava um título importante, justamente o da Taça São Paulo daquele ano.

Na época, comentou-se que na zebrinha entrara em ação. Poucos acreditavam que o time do goleiro Tonho e do ponta-esquerda Toninho Vanusa teria chances diante do Internacional de Falcão, Batista e Caçapava. Entretanto, os tempos são outros e o Nacional, comandado pelo atacante Mil – que terminou artilheiro do certame com sete gols -, respira novos ares.

Encerrado o ciclo de estagnação, o próximo passo é reconduzir o time principal à Primeira Divisão do Paulista, da qual despencou em 1959 e nunca mais subiu.

Seu retorno esteve bem próximo no ano passado, durante a disputa da Intermediária. Em partida decisiva contra o São José, dia 29 de novembro, no Canindé, em São Paulo, o empate deixaria o Nacional numa posição privilegiada. Um pênalti muito contestado, porém, deu a vitória ao São José e iniciou um qüiproquó entre os jogadores do Nacional, dispostos a agredir o juiz José Carlos Gomes do Nascimento.  Com a derrota, o time irá amargar mais um ano longe da Primeira Divisão.

FUTURO DE CRAQUE- “Temos estrutura para disputar o Paulistão”, proclama o presidente Aírton Santiago. Ao assumir o cargo, em 1983, ele prometeu ampliar o quadro de associados. Hoje, numa área de 102.000 metros quadrados, cerca de 50 000 pessoas dão o ar colorido e festivo ao velho clube, cuja renda mensal de 5 milhões de cruzados cobre a folha de pagamento de 120 funcionários e dos 22 jogadores profissionais. “Era preciso sacudir o Nacional”, proclama o presidente Santiago.

É no velho campo do Estádio Nicolau Alayon, com capacidade para 15 000 torcedores, contudo que o clima de renovação pode ser presenciado. Ali, 250 garotos treinam vislumbrando um futuro de craque. Trabalho que faz parte da rotina da recém-criada escolinha Alfredo Ramos, em homenagem ao técnico do time titular. Ex- jogador do Santos, São Paulo e Corinthians, Alfredo chegou ao Nacional em 1961. Permanece até hoje com umas idas e vindas. “Aqui não existe política nem barganha”, garante. “Por isso se trabalha mais”.

Disciplinador, Alfredo surpreende a equipe aplicando normas nada convencionais. Com ele, jogador suspenso por levar o terceiro cartão amarelo não tem refresco: treina e acompanha a delegação. “Já vi muita gente forçar a expulsão para participar de churrascada”, afirma.

 Se o treinador se tornou patrimônio do clube, o administrador Aureliano Santiago, 74 anos, é uma de suas lendas vivas. Pai do presidente Aírton, o velho Santiago é sócio desde 1927. Jamais pleiteou cargo na diretoria. “Isso aqui é espeto”, ensina.

Sua mesa de trabalho confirma. Atulhado de papéis, documentos e carteirinhas de associados, o administrador vem recebendo nos últimos tempos o auxílio da informática. “Tínhamos de modernizar os nossos serviços”, explica.

Os mais antigos frequentadores do Nacional – cientes que a modernização é sinal dos tempos – olham para trás com nostalgia. Do passado, restou apenas o velho vagão de madeira fincado no gramado do clube. Um símbolo histórico que remonta ao ano de 1903. Naquela data, um grupo de ferroviários da São Paulo Railway – companhia inglesa que operava a estrada de ferro ligando Santos a Jundiaí – resolveu fundar um clube. À luz de lampião, nascia o São Paulo Railway Foot-Ball Club, popularmente conhecido por SPR.

MAIOR PATRIMÔNIO- Com a Primeira Guerra Mundial, suas atividades permaneceram interrompidas até 1919. Ao retomá-las, o fez com o Atlético Clube inserido na sigla. Dessa época, o Nacional alimenta uma polêmica mantida até os dias atuais. “A data exata de fundação do clube é 1903”, sentencia o presidente Aureliano Santiago. Para provar, ele recorre a um antigo recibo registrando a taxa de manutenção de um sócio.

De qualquer modo, o grande momento para a vida do clube foi a doação pelo inglês Arthur Owen – superintendente da São Paulo Railway – da área onde seria erguido o Estádio Nicolau Alayon, construído em 1937, até hoje seu maior patrimônio.

Em 1946, com a empresa inglesa encampada pela Estrada de Ferro Santos a Jundiaí, a diretoria do clube decidiu optar pela mudança do nome. Em novembro daquele ano, num plebiscito organizado pelo diretor Arnaldo de Paula, surgia o Nacional Atlético Clube. Como homenagem, manteve as cores da bandeira inglesa: azul, branca e vermelha. “Estreamos o novo uniforme no segundo tempo do jogo contra o Flamengo, no Pacaembu”, recorda o velho Santiago. “Apanhamos de 4 a 2”.

COQUELUCHE DA ÉPOCA- Foi vestindo a camisa do Nacional que muitos jogadores trilharam o caminho da fama – como o zagueiro Mário Travaglini e o atual técnico palmeirense Rubens Minelli. Ou deram contribuições antes de encerrar a carreira, como Chineisinho, Gino Orlando e Romeu Cambalhota. “Foi maravilhoso defender as cores do time”, orgulha-se Travaglini. “Mas a queda para a Segunda Divisão, em 1959, nem quero lembrar”.

Quem não experimentou tamanho dissabor foi Minelli, que em 1953 atuou como meia-esquerda na equipe. “Era a coqueluche da época”, lembra. “Todos queriam jogar em nosso estádio”.

São esses sentimentos que voltam a empolgar a torcida. Com a vitória de 3 X 0 sobre o América de São José do Rio Preto, os juniores reacenderam a chama de luta no time titular. Impulsionada pela pequena e valente torcida, a equipe está confiante no retorno à Primeira Divisão. Até lá, a promessa é treinar para ganhar. Afinal, à beira de completar trinta anos afastado dos principais embates do futebol paulista, a volta seria recebida como uma glória que não cabe em trem nenhum.

Publicado originalmente na revista Placar em 5 de fevereiro de 1988

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Gigantes do Jornalismo Esportivo: Fábio Sormani

A primeira vez escutei o nome de Fábio Rocco Sormani foi ouvindo a Rádio Bandeirantes. Ele era o segundo comentarista da emissora, sempre demonstrando um profundo conhecimento sobre futebol e outros esportes. Durante esse período, Sormani atuava muito ao lado do extrovertido e divertido locutor Dirceu Maravilha. Um dos maiores admiradores de Michael Jordan,  o comentarista é um dos brasileiros que mais conhecem os bastidores da NBA.

Sormani passou por importantes veículos de comunicação como Folha de São Paulo, Placar, SporTV e BandSports. Em 2008, estava na Rádio Record, comentando futebol nas transmissões e mesmo em programas populares. Muitos nomes sagrados se negam em trabalhar em veículos para o público mais humilde. Mas Sormani não teve qualquer constrangimento. O cara participava do programa do locutor João Ferreira e muita vezes falava sobre outros assuntos além de esportes. Muitas vezes dividiu os microfones com o fofoqueiro Leão Lobo. Santista fanático, Sormani atualmente faz o plantão esportivo na Rádio Jovem Pan AM. Nascido em 1957, o jornalista viveu grande parte de sua vida no interior de São Paulo principalmente em Araraquara, Lençóis Paulista e Bauru. Por isso, ele possui uma grande admiração e paixão pelo Esporte Clube Noroeste.

Segue abaixo uma ótima e rara matéria que este grande jornalista realizou para a revista Status na primeira metade dos anos 80. 




UM TIME DE U$ 42 MILHÕES

Está formada a Seleção mais cara do mundo: Shilton, Gentile, Stielike, Passarela e Júnior; Falcão, Maradona e Zico; Bruno Conti, Paolo Rossi e Rummenigge. Eles são, cada um na sua posição, os jogadores mais valorizados da atualidade. Reunidos aqui pela primeira vez, numa convocação de Status, eles valem, juntos, 42 milhões de dólares.

Por Fábio Rocco Somani

Se a Federação Italiana de Futebol, através de seu presidente Sederico Sordilo, estabeleceu que cada clube italiano não pode ter mais do que dois estrangeiros em suas equipes – como determina também a maioria das federações de cada país europeu -, Status nem tomou conhecimento dessa lei reacionária que priva os torcedores de verem em campo os maiores astros do futebol mundial, desrespeitando-a e contratou para seus leitores o time mais caro do mundo.

Respirem fundo, tomem fôlego e imagem essa constelação de estrelas vestindo a mesma camisa: Shilton, Gentile, Stielke, Passarela e Júnior; Falcão, Maradona e Zico; Bruno Conti, Paolo Rossi e Rummenigge. Que timaço! Certamente não haveria adversário que resistisse ao futebol milionário desses astros.

Entretanto, o leitor, que viver matutando fórmulas para combater a inflação que ameaça beirar os 160% até o final do ano e que, como um verdadeiro Pelé, vem tentando driblar as agruras das desintoxicações e expurgos, certamente há de perguntar: quanto não custaria essa máquina de jogar futebol?

Calculadora em punho, botões acionados, essa esquadra maravilhosa não sairia por menos de 42 milhões de dólares! Ou seja: com esse dinheiro, compra-se, atualmente mil carros Mercedes-Benz modelo 300 SEL 6.3 Sedan, o sonho de todo homem de bom gosto.

Mas quem são esses jogadores tão valiosos, verdadeiros malabarismos com a bola nos pés, artistas desse esporte criado pelos ingleses em 1863?

Peter Shilton, inglês, 34 anos: um goleiro de US$ 1,5 milhão.

O goleiro é um inglês de 1,92 m de altura e 88 kg que atende pelo nome de Peter Shilton. Aos 34 anos (18/9/1949) é o mais cobiçado da posição no futebol mundial. Joga no Manchester United há apenas três temporadas. Começou sua carreira no Nottingham Forest, onde conseguiu seus títulos como jogador: campeão inglês em 1976, bicampeão da Copa dos Campeões Europeus em 1979 e 80 e da Super Copa em 1979. Se algum clube do futebol mundial estiver interessado em seu passe, que não chegue com menos de 1,5 milhão de dólares porque o Manchester não venderá, principalmente depois de Shilton ter sido considerado um dos melhores goleiros da última Copa do Mundo.

A zaga, mescla o futebol força, vigoroso, com arte e beleza. Se não, como negar as primeiras qualidades a Gentile e Passarela e as duas outras virtudes a Stielike e Júnior?

Gentile, o lateral italiano que parou Zico, Maradona, etc...

O lateral-direito Gentile traz em sua bagagem muitos títulos: foi campeão italiano em seis ocasiões, ganhou uma vez a Copa da Itália e na temporada 1976/77 faturou a Copa da UEFA – todos os títulos jogando pela Juventus, de Turim. Mas o título mais importante que Cláudio Gentile, 29 anos (17/9/1953), italiano naturalizado, pois nasceu em Tripoli, na Líbia, traz consigo é o de ter sido campeão mundial pela Itália na Copa da Espanha, no ano passado. Foi com seu vigor físico (1,78 m de altura e 71 kg) que anulou nada menos que Maradona, Zico e Rummenigge nos jogos contra Argentina, Brasil e Alemanha e ajudou seu time a vencer essas partidas. Por dois milhões de dólares a Juventus negocia o seu passe.

Stielike, o líbero alemão, ganhando campeonatos na Espanha.

Ulrich Stielike era um meia-armador de origem quando jogava pelo Borusssia Möenchengladbach, na Alemanha Oriental. Mas como aconteceu com os uruguaios Dario Pereyra, que joga no São Paulo, e Daniel González, no Corinthians, Stielike, 28 anos (15/11/1954) só foi encontrar seu verdadeiro futebol quando passou a atuar como zagueiro, de líbero para ser mais exato. Ele começava a extrapolar as fronteiras alemãs quando o futebol espanhol, através do Real Madrid, foi buscá-lo em 1977. Um ano antes, conquistou o campeonato alemão pela primeira e única vez. Na temporada de 1974/75 ergueu a Taça da EUFA no alto de seu 1,77 m de altura e 74 kg. Já pelo Real Madrid, foi tricampeão espanhol em 1978, 79 e 80. Seu passe custou dois milhões de dólares e hoje o time madrilenho só se desfaz se seu futebol por 2,5 milhões de dólares.

Passarela, o grande capitão argentino: raçudo, valente, líder.

Daniel Alberto Passarela é daqueles zagueiros que todo time pretende ser campeão deseja - por isso não poderia faltar à nossa seleção. Raçudo, valente e, ás vezes, desleal, não gosta de perder jamais. Transmite esse sentimento ao resto da equipe que muitas vezes vence uma partida praticamente perdida. É o jogador de maior impulsão no mundo e, por isso, apesar de seu 1,78 m de altura e 74 kg, dificilmente perde uma disputa de bola pelo alto. Foi o capitão da Seleção da Argentina quando, em 1978 ela ganhou, em casa, a Copa do Mundo. Além desse cobiçado título, Passarela foi campeão nacional argentino em 1975, 79 e 81 e metropolitano nos anos de 1977, 79 e 80. Apesar de seus 30 anos (25/5/1953), mantém uma regularidade impressionante e, por isso, a Fiorentina, da Itália, que comprou seu passe ao River Plate no ano passado por 2,5 milhões de dólares, só o vende por esta mesma quantia.

Amado ou odiado, eis Júnior, um colecionador de títulos.

Para completar essa defesa forte na marcação, nada melhor que um lateral-esquerdo atrevido, criativo, ofensivo, um craque. E Júnior, lógico, tem todos esses atributos. Leovegildo Lins Gama Júnior começou nas escolinhas do Flamengo, onde joga até hoje. Aos 29 anos (19/07/1954) é praticamente um jogador realizado – apesar de não ter conquistado o mundial da Espanha com a Seleção brasileira. Mas até um título de campeão do mundo Júnior tem, pois em 1978 ganhou o mundial interclubes. Além desse, foi cinco vezes campeão carioca, tricampeão brasileiro e campeão da Taça Libertadores da América, também em 1981. Recentemente o Lazio, da Itália, tentou contratá-lo. Clube médio, porém, não teve os três milhões de dólares que o time da Gávea pediu pelo seu passe – e o que ele realmente vale.

Somado o preço de cada jogador, esta zaga extraordinária custa 11,5 milhões de dólares, onde cada jogador custa, em média, 2,3 milhões de dólares. Pouco, se comparada com o meio-de-campo, onde apenas três jogadores custam, juntos, 18,5 milhões de dólares – o que dá uma média de 6,1 milhões de dólares por jogador. E ninguém menos que Falcão, Maradona e Zico para custarem isso.

Falcão, o Rei de Roma, um gênio que vale no mínimo US$ 6,5 milhões

Paulo Roberto Falcão dispensa maiores apresentações. Depois de ter sido tricampeão brasileiro e sete vezes campeão gaúcho pelo Internacional, o Roma, que não ganhava uma campeonato italiano desde 1942, não mediu esforços e em 1980 levou esse catarinense de 29 anos (16/10/1953), 1,85 m de altura e 75 kg, por 2,2 milhões de dólares. E, hoje, o clube mais popular da Itália não o vende por menos de 6,5 milhões de dólares! E por que Falcão valorizou-se tanto assim? Simples: porque ele é um gênio; sem dúvida alguma, depois de Pelé, o maior jogador que o Brasil já fez – e já figura, tranqüilamente, na lista dos maiores jogadores do mundo, ao lado do próprio Pelé, Puskas, Di Stefano, Cruyff entre outros. Além disso, foi com Falcão, na temporada passada, que o Roma conseguiu o tão esperado título italiano. E foi com ele também que levantou duas Copas da Itália. Para se ter uma ideia do poderia futebolístico de Falcão, o Roma esteve perto de perdê-lo no começo desta temporada porque estava difícil a renovação de seu contrato e o técnico da equipe, o sueco Niels Liedholm, desesperado, entrou na sala do presidente do clube, Dino Viola, e avisou: “Sem Paulo Roberto não passamos de uma equipe igual às outras”. E o sueco estava com toda razão. Alertado, o presidente Viola renovou rapidamente o contrato de Falcão que passou a ser o jogador mais bem pago do futebol italiano.

Maradona, o outro gênio dessa Seleção: 1,69 m de altura, U$ 8 milhões

Certamente, Maradona figura entre os maiores jogadores que o mundo já criou. Menino prodígio, explodiu com apenas 18 anos e só não participou do Mundial da Argenina, na época, porque o então técnico da Seleção, César Menotti, ficou com receio de convocá-lo por achar que ele tinha pouca idade. Um ano depois, em 1979, ainda como júnior, ganhou o mundial da categoria, no Japão, vestindo a camisa azul e branca da Seleção Argentina. Começou sua carreira no Argentino Juniors, um clube modesto de Buenos Aires, e foi conquistar seu primeiro título como profissional em 1981, ano que se transferiu para o Boca Juniors. Um ano depois, o Barcelona da Espanha comprou seu passe por 8 milhões de dólares, na maior transação do futebol mundial de todos os tempos. Diego Armando Maradona chegou na terra de Picasso carregado em glórias, mas não conseguiu dar ao Barcelona o título espanhol desta temporada. Ganhou, sim, a Copa do Rei. Aos 22 anos (30/10/1960), e embora não tenha tido  uma atuação de destaque na Copa da Espanha no ano passado, o futebol de Maradona continua sendo maravilhoso nos seus 71 kg e 1,69 m de altura. E à medida que o tempo passa, ele aperfeiçoa seu poder de marcação – sua única falha – vai polindo sua capacidade para criar jogadas de gol como ninguém. O Barcelona não o vende por menos de 8 milhões de dólares.

Zico, mais de 600 gols, artilheiro no Brasil, artilheiro na Itália

E quem poderia estar ao lado de Maradona, tabelando, complentando as jogadas, fazendo gols e transmitindo experiência? Zico, claro. Um dos gênios que o futebol brasileiro já produziu. Já ultrapassou a barreira dos 600 gols e ser artilheiro é, talvez, sua maior qualidade. Em campeonatos cariocas, liderou seis dos onze que disputou. Nos brasileiros, em 1980 e 82, foi seu artilheiro. Títulos? Ganhou todos os que tinha direito, menos um: campeão do mundo pela Seleção Brasileira. Foi campeão carioca seis vezes, tricampeão brasileiro, campeão da Taça Libertadores da América e Mundial, pelo Flamengo, em 1981. Arthur Antunes Coimbra, o Zico, transferiu-se para a Itália na metade deste ano, quando mal tinha chegado aos 30 anos (3/3/1953). 1,7 m de altura e 69 kg, certamente, ele irá compensar os italianos da Udinese que pagaram 4 milhões de dólares ao Flamengo (o que ele ainda vale atualmente) para ter seu futebol cheio de gols, solidariedade e rapidez dentro de campo.

Na frente, esse trio de ouro conta com dois italianos e um alemão. Jogadores habilidosos, criativos, versáteis e os ideais para transformar em gols as jogadas que certamente esse meio-de-campo inigualável criaria. Juntos, valem 12 milhões de dólares, o que dá uma média de 4 milhões por cada um.

Bruno Conti, o ponta-direita baixinho: uma das estrelas do time do Roma

O ponta-direita é o italiano Bruno Conti, de 27 anos de idade (13/3/1955), um emérito driblador que executa suas qualidades tanto na direita quanto na esquerda. Começou sua carreira no Roma, em 1973, e em 75 estava no Gênova. No ano seguinte, voltou para o Roma e na temporada de 1978/79 estava novamente no Gênova. Quando o Roma resolveu montar um esquadrão, começou trazendo Bruno Conti de volta e vindo ao Brasil buscar Falcão. Conquistou, também, duas Copa Itália.

É o jogador mais baixo desta Seleção que Status contratou: 1,68 m de altura e pesa 65 quilos. Seu futebol custa 3 milhões de dólares.

Paolo Rossi, o pesadelo dos brasileiros, o melhor jogador da Copa 82

Eleito o melhor jogador da Copa da Espanha, Paolo Rossi foi também seu artilheiro com seis gols. Aterrorizou as defesas argentina, brasileira, polonesa e alemã e, assim, praticamente deu o título mundial à Itália. Envolvido no escândalo da Loteria Esportiva italiana, em 1981, Paolo Rossi (1,74 m de altura e 66 quilos) foi suspenso por um ano pelo rigoroso e incontestável Tribunal de Justiça Desportiva da Itália. Rossi jogava pelo pequeno Lanerossi de Vicenza e, ainda suspenso, a Juventus pagou 2,5 milhões de dólares pelo seu passe, impressionada que estava com seu poder de finalização – foi o artilheiro do campeonato italiano na temporada de 1977/78 mesmo jogando pelo Lanerossi. Na Juventus, foi campeão italiano na temporada passada. Aos 26 anos (23/9/1956), seus gols estão valendo hoje 5,5 milhões de dólares.

Rummennigge, o ponta-esquerda que chuta com a direita. E faz muitos gols
Ninguém melhor do que o alemão Karl-Heinz Rummenigge para fechar essa plêiade de futebolistas. 26 anos (25/9/1955), 1,82 m de altura e 74 quilos, Rummenigge é também um colecionador de títulos: ganhou o campeonato alemão quatro temporadas, foi campeão do mundo em 1974 e em três ocasiões vence a Copa dos Clubes Campeões Europeus – um dos títulos mais cobiçados na Europa. Sempre jogou no Bayern de Munique e apesar de ser ponta-esquerda é destro. Por isso, parte sempre em diagonal em direção ao gol inimigo ou desloca-se com freqüência para o lado direito de seu ataque. Na frente, é quase que perfeito, pois é também um homem de fazer muitos gols. Se algum clube quiser comprá-lo, que não chegue com menos do que 3,5 milhões de dólares que o negócio não sairá.

Depois de se deliciar com esta milionária seleção, o leitor, porém, percebeu que as grandes transações geralmente, são feitas pelo futebol italiano e espanhol. E como é que eles conseguem comprar esses jogadores que, à primeira vista, parecem inegociáveis? É que nesses países, os clubes funcionam como verdadeiras empresas e obtêm seus recursos através do dinheiro arrecadado com a Loteria Esportiva, nos patrocínios, nas camisas, excursionando e participando de torneios altamente rentáveis e, basicamente, nas arrecadações de seus jogos. Como lá existe um calendário bem organizado, eles vendem um pacote de ingressos que dá direito a assistir a todos os jogos do time. Essa medida tem sido tão eficaz que o Barcelona, que é tido como o clube mais rico do futebol mundial, lucrou mais de cinco milhões de dólares na temporada passada mesmo não tendo sido campeão. Na Itália, o Roma chegou aos quatro milhões e a Juventus passou dos cinco.

Mas como no Brasil o que impera é a desorganização, a única maneira de se ter esses craques jogando num Morumbi, Maracanã, Mineirão ou Beira-Rio é somente através de uma ficção. Como essa que acabamos de criar.
                                                                         
Publicado originalmente na revista Status 112, em novembro de 1983